Lúcido Lúcio

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Esse brasileiríssimo e comedido carioca Lúcio Costa nasceu em Villa Dorothée Loiuse, na cidade portuária francesa de Toulon, em 1902. De mãe amazonense e pai baiano, um engenheiro naval que participou da construção de navios para a frota brasileira na Europa.

Para Lúcio, o fato de ter vivido muito tempo fora do país o fez ainda mais brasileiro. Esclarece: além de ser nacional, tornou-se também carioca, por morar no Rio, que conheceu de verdade aos quinze anos. Duas vezes brasileiro, Rubem Braga, na crônica ‘Lúcio Costa urbanista’, de 1954, descreve-o assim:

 

  Estudante diferente que começa a ganhar tudo que concurso que aparece, apesar de ser

  um desenhista altamente sensível e aquarelar com maestria desiste da pintura pela

  arquitetura e, quando reprovado em Composição, admite tranqüilamente que a nota foi

  justa.

 

Contam que relutou em participar do concurso para o projeto de Brasília.Tinha mil coisas para fazer e viagem marcada para a Europa. Quase em cima do encerramento das inscrições, decide disputar. Certamente pesou o entusiasmo do velho amigo Oscar Niemeyer, engajado de corpo de alma no sonho de JK. Afinal, os dois têm bela história juntos e admiração recíproca. O retraído e compenetrado Lúcio logo dá asas à imaginação. Vôo largo, acelerado, contra o relógio. Parecia que tinha tudo pronto na cabeça. O Plano Piloto sai ao apagar das luzes. Tudo muito criativo e ordenado. Mas quase nenhum detalhamento. Uma planta grande, croquis e um texto elegante, preciso, claro, enxuto. Seu corpo é alado. Um avião. Ou um grande pássaro em vôo. Termina em cima da hora, no finalzinho da tarde do último dia de inscrição, 11 de março de 1957.

Lúcio entra apressado no seu Hillmann. Junto, as duas filhas, a pequena Helena e a universitária Maria Elisa. Tem de protocolar o projeto. Toca rápido para o local da entrega, Ministério da Educação, Palácio Gustavo Capanema, sobreloja, centro do Rio de Janeiro. O prazo está acabando, faltam poucos minutos. Sorte: chove, mas o trânsito está solto. Logo chega. Faltam só dez minutos. Aflito, pára o carro exatamente em frente ao prédio. As meninas sobem correndo com a papelada. Um guarda implica com a posição do carro. Lúcio explica. Tudo bem. O guichê está quase fechando. Mas o protocolo sai. Maria Elisa recebe pequeno cartão, espécie de recibo, com o número do projeto no Concurso: 22 As duas voltam vitoriosas e felizes. Há razões de sobra. Mais do que sonham. Ganharam a corrida e salvaram a Brasília de Lúcio Costa.

E do outro lado do guichê? A Comissão Julgadora já tinha verificado preliminarmente alguns projetos. Até ali, numa primeira vista, nada empolgara. Não estavam se sentindo seguros e satisfeitos com nenhum deles. Isso aumentou a curiosidade e a expectativa com relação ao de Lúcio. Assim que chegou, examinaram avidamente. Perplexidade. Ninguém entendeu absolutamente nada. O desenho do avião, a simplicidade surpreendente, a apresentação singela. Difícil de compreender imediatamente antes da existência de Brasília. Preocuparam-se. Parecia que Lúcio Costa tinha pirado. O que fazer agora? O grupo saiu para almoçar. O inglês William Holford, que lia e falava espanhol, italiano e francês, aproveita e se isola num canto. Olha tudo de novo, lê o texto três vezes. De repente, seus olhos se iluminam, abre largo sorriso. Heureca! Mata a charada, compreende tudo. É simples, é claro. É um projeto urbano, não um plano genérico. Determina toda a volumetria da cidade. Por exemplo: o Palácio do Planalto é baixo, o Supremo é baixo, o Palácio do Congresso tem duas torres altas, os prédios tais e tais vão ficar ali, os ministérios são iguais, os blocos das superquadras têm seis andares e pilotis. Tudo isso e mais está determinado no projeto número 22, o Plano Piloto idealizado por Lúcio Costa. Fundamental: no texto, ele destaca que Brasília não vai ser mera decorrência do desenvolvimento regional, mas causa dele. Instrumento de inserção do país na modernidade, inclusive internacional. Capital marcante, inovadora. Cidade com o sentido de mudança, grandeza e modernidade, tradução arquitetônica do projeto transformador de Kubitschek. Holford dirá depois ao próprio Lúcio: "Li a primeira vez e não entendi. Li a segunda e entendi. Na terceira, I enjoyed [Gostei, tive prazer]." Quando os colegas voltam, explica tudo, despeja elogios no projeto. "É uma das contribuições mais interessantes ao urbanismo do século XX." Maravilha. Lúcio atribuirá grande peso em sua vitória à compreensão e papel de Holford.

Lúcio Costa sempre defendeu uma arquitetura com identidade brasileira. Desde o início da carreira, quando já se dedica ao estudo do período colonial. Formado pela Escola Nacional de Belas-Artes em 1922, ganhou na loteria em 1926 e passou um ano na Europa com o dinheiro. É autor de numerosos projetos de obras neocoloniais. Na direção da Escola Nacional de Belas-Artes, que assume em 1931, reformula o ensino da arquitetura. Torna-se papel essencial na renovação da linguagem e do pensamento arquitetônicos do país. Influencia diversas gerações de profissionais. É pioneiro e destaque da arquitetura moderna. Tem papel de liderança no revolucionário projeto do prédio do Ministério da Educação e Saúde, no Rio, com a participação do arquiteto suíço naturalizado francês Le Corbusier, de cuja obra é estudioso e grande conhecedor. Entra para o SPHAN em 1937. Ocupa mesa vizinha à de um burocrata franzino, discreto, de fala rápida, jeito tímido, poeta, mineiro de Itabira: Carlos Drummond de Andrade. Em março de 1954, uma tragédia que o abala pessoal e profissionalmente. A perda da mulher, Julieta. Num choque do carro da família com uma árvore, em viagem de fim de semana rumo ao distrito de Correias, na serra fluminense. Muito sensível, Lúcio, que dirigia, nunca se conformou. Deprimido, culpava-se injustamente, queixava-se da maldade do destino. Dor que nunca passou.

(…)

 
Reproduzido do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto

 


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