José Godoy Garcia

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

José Godoy Garcia, goiano, o mais telúrico dentre  todos, pioneiro, com Antonio Carlos Osorio, na advocacia na nova Capital, engajado como sempre ao lado dos mais humildes, voltado para os mais pungentes dramas do homem de nosso tempo, denuncia as distorções verificadas enquanto a cidade tomava forma. Deplora o haver-se superestimado a fria máquina, os tratores, em detrimento dos operários, dos candangos de cujas mãos brotaram as rodovias e os palácios. Tudo conspirava contra a sobrevivência (ou, a permanência, mais tarde, sob os tetos que eles estenderam pelas superquadras), a sobrevivência dos construtores; todavia, ante tudo o que chegava para soterrá-los, opunham resistência. O amor, o romantismo, nada os sufocava: “Um dia, a mulher chegou./Alguns homens, velhos e novos,/tiveram logo a noticia./Era a primeira que chegava à terra.” A seção número quatro do poema traz para a literatura o mais negro e doloroso dos episódios de que Brasília foi palco, em mais de vinte anos: o drama que se convencionou chamar de “o massacre da Pacheco Fernandes”. “Foram metralhados” (os candangos, em grande número). A madeira curtida/pelo sol/e pela chuva/foi feita em pedaços/(…)/feita em sangue”. Então, interroga o poeta: “Como se faz uma cidade?” Em “As grades, nossa confiança”, Godoy começa com o registro dos dias de insegurança em que vivemos, de violências, de temerárias mãos e, em atitudes de defesa, dos altos tapumes, das grades de ferro como pontas superagudas diante do invasor. A ingênua e sonhadora moça negra da Ceilândia está presente, com seu sonho, no poema em que luta no desfavorável mercado de trabalho. “Brasília me abraça”, revela o poeta em “O flautista e o mundo”, na “1ª Rapsódia”. O “pedaço” em que ele tanto transitou, 706, W-3, o bar são eternizados nos seus versos. E a cidade é mais uma vez objeto de destaque: “Brasília é um sonho que está na mão!/E será sonho! Será fraternidade! Na face da terra, não há mais guerra. Brasília abre seus braços!/Cidade da natureza dos povos”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 


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