João Carlos Taveira

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

João Carlos Taveira, com “A flor inevitável”, começa por lembrar a semente que precede a flor. Ou, antes, o barro que germina a semente. Desses extremos, desses pólos opostos – o barro e a flor – o que brota, surpreendentemente, é a solidão. Os mais lidos poderão voltar a Rilke e Kappus (Cartas a um jovem poeta) e entender o áspero mundo do artista.

J.C.T. assim expõe: “Um dia/plantou-se/uma semente/no barro.//Hoje colhemos solidão por toda a parte”. Veja-se como a “…(in)diferença dos homens” e “os ângulos da dor” são tão frutíferos quanto a árvore, eles também produzem. O seu fruto é “esse monumento de silêncio”. A solidão, pois, constitui-se algo, os “ângulos da dor” exercem seu papel, transcendental, digamos, filosófico. Não são gratuitos ou inúteis. A sutileza dessas relações (barro e semente/solidão e arte, canteiros e dor/impunidade do asfalto e monumento ao silêncio) vem a ser, essencialmente, poesia. Em “Ode quase elegia”, contrapõe o “corpo de um pássaro/morto (…)” (o Plano Piloto de Brasília) às “…mãos benfazejas/ávidas de sonhos, sinônimo/e transformações”. A ave sem vida (ode). Em “Cidade sitiada”, João Carlos Taveira volta à imagem alada, que, porém, é “etílica”, “sem plumas”, enquanto sobrevoa “…fossos,/fósseis/e arcabouços”. Ao pouso, premeditado, aguardam-no “…escombros e destroços”. Há uma atitude de submissão – fatalística, quem sabe -, de conformismo? Ou de adaptação, que o capacita ao exercício de seu papel? Conquanto “sem plumas”, o pássaro “compreende tudo: voar é seu  mistério”. Em “O argonauta”, Taveira, como se vê, recorre à mitologia. Os heróis lendários gregos, comandados por Jasão, singram as águas no argo, em busca do velocino de ouro. J.C.T. anela por um “…argonauta do sonho”, procurando-o entre as estrelas. E eleva os “faróis do Centro-Oeste” – logo, desta cidade, que outro vate já classificou como “planetária” – ao Cosmo onde viajam os entes mitológicos. “Deixa o teu silêncio/e o que resta da voz/impregnando nos objetos (…)/nas ruas de Brasília”, conclama o poeta nos versos de “Testamento”, dedicados ao confrade Anderson Braga Horta.

João Carlos Taveira, poeta mineiro, natural de Caratinga.
Texto transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 


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