João Bosco Bezerra Bonfim

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

João Bosco Bezerra Bonfim, em uma série de poemas curtos, alguns quase hacais (na forma e na concepção), canta as cigarras, as “folhas de setembro”, os “Jeans da Paraíba”, a encher os olhos na feira do Guará, nos Eixos aptos a orientar as pessoas. E ironiza diante das conchas (do Congresso Nacional – a da Câmara convexa, côncava a do Senado), focaliza a Estação Rodoviária, Conic, metrô, o domingo no Eixão. Em “Brasília para os íntimos”, o poeta relembra figuras populares entre o pó vermelho “próprio para ingressar nos poros” (e era mesmo assim nos primeiros anos, anteriores à urbanização, ao asfalto), pó onipresente não só nos canteiros de obra, mas também nas superquadras, nas repartições, nas Esplanadas. Em “Os viventes se movem” estão os (sobre)viventes, os restantes na cidade que os proibiu e os marginalizou após os risonhos (conquanto árduos) dias dos pioneiros. O poema “Brasília” declara que “grávidos gravitam” (serão os servidores, como autômatos em torno de suas repartições?) e observa que “graves asas engravatam…” Enfoca as “…meninas/roxas de lycra”, filhas da classe operária, netas dos candangos pioneiros, e indaga: “O que vêem essas meninas”//, a “que aspiram essas meninas?”, essas “sheyllas, eyllas, kellys, schaarllenneys, chicas e tatyellys/americanas do Recanto das Emas/francesas do Setor “O”/dinamarquesas de Santa Maria/alemoas de Samambaia (…)”, uma legião, vistas com um misto de afago e ironia. Tudo tão precário, frágil, sem futuro, porquanto “o vento – que passa é o único que fica”. (“Eternidade na torre de TV”.)

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poema”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 


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