Hermenegildo Bastos

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Hermenegildo Bastos retrata, em “O código do herói opaco”, aquele cuja bravura sem loas, sem glórias, sem celebrações, sem reconhecimento, no seu quotidiano transita no “fundo do tempo”. O medo, paradoxalmente, depara-se com o “rejuvenescer da cidade”. As chuvas, que “desabam sobre as máquinas”, prevalecem sobre “o grande medo”, no exercício de seu singular oficio. “Ficou um denso mais verde”. No Planalto Central, o poeta contribui com seu inquestionável testemunho e com sua visão surrealista, e é, ao mesmo tempo, parte do cenário: “eu medito o centro/dentro e fora.//As mãos independem/não sou apenas/o que faço”. O vate extravasa, sente e sente-se Píndaro no estádio e na ode imaginários; trá-lo da Grécia, do seio das Égidas, para estar como partícipe da contemplação, como também da plena integração. Meros josés e joões, com o poeta, participam (“amontoados, separados”) no inevitável amor à cidade, a quem, com toda a sinceridade, se declara: “eu só te quero/porque não posso/não te querer”. E adiciona: “danação./as tuas carências/penetramos”. O conflito do adventício – que não apenas veio, mas aqui está para inserir-se, cabalmente, no processo de simbiose e também metamórfico – tem toda sua aceitação, nestes versos que são mais que metáfora: (…) não é a lagarta/mais bela nem menos/que a borboleta”. E há esta conclusão: “estrangeiros em nós próprios./cresce o fora, o dentro míngua/com alegria oferecemo-nos”.

Com “Em Brasília há uma lei que proíbe buzinar” temos o engajado. A luta, cuja vitória acabou adiada (e traída) pelo oportunismo da maioria dos políticos, é por ele lembrada: “(…) mais do que/passeata na cidade./Quando ouvi os carros,/desumanos,/buzinarem/o diretas-já da mudança.//Escutei as máquinas/ressoarem/marcha inédita.//e foi como/se àquela hora, em cada buzina/tocasse a mão do operário/que a produz/e afina”.

Hermenegildo Bastos, em “A cidade e as plantas”, fala que “Sementes precipitam-se”. Mas logo nos apercebemos de que não se trata de flora, das árvores tão cantadas pelos poetas. As palavras “cartografia”, “atlas”, “fronteira”, lançam suficiente luz sobre o quadro. E não é só isso. A câmera gira para todos os lados; ela desce do “Tecido azul”, aquele que se “estende/Lá por cima/A se perder de vista”, e prossegue: “Curva dos céus/Toca-se com as pontas dos dedos”. E revela: “Tudo aqui tem um jeito franco/De sobrenatural/Comércio do invisível”; E diz mais: “Prévia cartografia/Cabe tudo no Atlas/Os que aqui nascem/Não carecem descortinar/Os pontos cardeais”.

O índio incendiado pelos diabólicos meninos – lídimos representantes de uma sociedade cruel, preconceituosa, em que ter é sinônimo de poder e a impunidade impera – mereceu a atenção e a exaltação do poeta, quando enfatiza: “Você Galdino/queimado por desporto/inteiro morreu em cada parte/morte tríplice/três vezes qualificada”, e denuncia: “Um Galdino/é só o que vales//não chegas a João/Francisco, Tales”.

Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 


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