Geografia sentimental

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Por Severino Francisco

Climério Ferreira é um dos habitantes do silêncio de Brasília. Fez doutorado na Austrália, mas cultiva a simplicidade e o anonimato com unhas e dentes. Sempre vi os irmãos piauienses (Clodo, Climério e Clésio) na condição de índios yanomamis, índios da festa e da paz. No momento, Brasília oferece poucos motivos para a gente gostar dela, mas Climério mira a cidade com a devoção que só o olhar amoroso pode revelar. Em “Entre as manias que eu tenho”, ele diz: “Eu não sei quando adquiri/Essa mania doente/De gostar da terra da gente”.

Ele sempre me mandava por e-mail versinhos e poemínimos. Não é pretensão; a sua língua é a do lirismo. Ele é do século 19, conquistou todas as namoradas com um soneto. Se a gente traçar uma geopoética brasiliense, o pedaço que cabe a Climério é a Asa Norte. Aparentemente distraído, ele é muito atento ao que acontece na cidade e, principalmente, em aldeia. Em ‘Meados de novembro’, faz uma crônica dos dilúvios que costumam se abater sobre a cidade durante o período das chuvas: “Carros anfíbios mergulham nas tesourinhas/Os passageiros dos ônibus nadam afoitos/Árvores são arrancadas das raízes/As quadras da Asa Norte naufragam/A arquitetura moderna sobreviverá ao mês/Mesmo que o arquiteto morra”.

Nas décadas de 1970 e 1980, a 312 Norte foi uma quadra de muitas agitações e conexões culturais. Os irmãos Ferreira moraram naquele território e estabeleceram parcerias muito ricas. Por lá, passaram Glauber Rocha, os compositores Fagner e Petrucio Maia; e o pintor pernambucano Vicente Rego Monteiro. É esse o tempo que Climério evoca em ‘SQN 312’: “Lembro-me de Glauber já doente sentado na escadaria do bloco/Eu, Clodo e Zeca Bahia tramando futuras canções no F/Luiz Amorim sonhando um açougue cultural/Gera de Castro armando um show coletivo/Clodo e Petrucio Maia compondo ‘Cebola Cortada no Cavalo Negro’/Fagner mostrando em primeira mão o arranjo de Hermeto para Cebola/O som do pandeiro de Pernambuco percutindo na quadra/Enquanto Vicente do Rego Monteiro pintava figuras godas/A 312 era o Vietnam do Norte”.

A 209 Norte é um dos temas de sua geografia sentimental brasiliense, constituída a partir da que ele e seus amigos fazem da cidade: “Umas frutinhas no Oba/Leitura na quadra de esporte/Guido Heleno na lotérica/Bené Fonteles caminhando/Paulo José Cunha no Sinhá Moça/Fausto e Manoel todo sábado/Eu&Helô no Mineiro/Sobremesa no Rappel/O traço de Lucio Costa não previa tudo isso”.

Mesmo quando está indignado, Climério prefere soprar uma ironia lírica delicada em vez de dar um berro. O comentário que ele faz sobre o excesso de zelo pelo silêncio nas superquadras com bares que apresentam música, em Banho de lua, estabelece um contraponto divertido dos tempos românticos com os tempos pragmáticos em que vivemos: “Acredite, havia donzelas/E existiam rapazes desafinados/Que faziam serenatas nas janelas/Cantando boleros apaixonados/Acredite, ninguém atirava/Nem chamava a policia/Uma bacia d’água era derramada/Para aplacar no cantor a euforia”.

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense 29 de junho de 2015.

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