Galdino ou a morte por diferença

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Galdino ou a morte por diferença
 
I
O final precedido pelo descuido:
lesão corporal seguida de morte
 
Outro final: a morte por cálculo:
os litros de fogo e álcool
no corpo estirado na pedra
 
A morte em catálogo: quem escolhe?
a de outrem? A própria?
Dele, a morte mais violenta
por lapso, indiferença
 
II
Os termos são:
1.       o meio cruel: a cama industrializada
com acabamento em chama
2.       o motivo torpe: o cinema
de bairro da agonia
3.       a defesa impossível:
               na fuga sem pernas corre a lava
               Você, Galdino
               queimado por desporto
                inteiro morreu em cada parte
                morte tríplice
                três vezes qualificada
                III
                Pataxó Hã-Hã-Hãe eu também
                sem bordunas e veneno
                de outras flechas
                martelo as vozes
                do seu réquiem:
 
                como reconhecer um homem
                se só o ouvimos ao longe?
                como reconhecer um homem
                se o vemos remoto, distante?
                pelas vestes que cobrem o corpo?
                pelo corpo sem mais, desnudo?
                nos gritos como palavras?
 
                um homem, como ele é por perto?
                frente a si mesmo, cara a cara?
                como reconhecer um homem, a sua laia?
                pelo gênero ou espécie?
 
                Sem traços que o distingam
                (irremediável  longínquo)
                tem riscos que o igualam
                Não é pra se reconhecer:
                um homem
                é quem reconhece
 
                 IV
                 Um Galdino
                 é só o que tu vales
 
                 não chegas a João
                 Francisco, Tales
 
                 por escassa a diferença
                 és igual em demasia
 
                 não és um outro
                 pra ter direitos, vantagens
 
                 por isso o clarão?
                 os archotes, a fogueira?
                 a labareda na esteira?
 
                 O jaez
                  é que faz
                  a indiferença
                  Galdino
                   E dada a sentença
                   joga-se a pá
                   do homicídio por direfença
 
Hermenegildo Bastos, poeta baiano, natural de Salvador
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 


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