Fuga sentimental

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

Fuga sentimental
 
Nas vastidões altiplanas o círculo expansivo invade os horizontes.
Respiro na companhia dos eucaliptos: arautos nos portais de Brasília.
Observo a pureza matinal espraiada na planura.
O sol realiza o colorido das nuvens,
contorna a cidade esmerilada em ângulos
além dos setores lacustres.
Telhados que a distância diminui, ásperas cúpulas,
arestas, trevos lapidados.
O sol inventa flores na festa do dia, vem acariciar as folhas,
a terra, os corpos, os blocos de cimento e vidro,
ladrilhando cristais em pilares, tabuleiros de relva.
Os lírios reverenciam a luz de Deus,
revestidos de uma plumagem fina.
Os vegetais erguem suas folhagens para o alto
em comunhão universal.
Longe da aspereza dos ofícios da prontidão,
livre da infalibilidade dos relógios de ponto,
no painel longitudinal do sertão e vidro e mármore,
sigo esta alameda de amplitude na esplanada reluzente.
Deslizo em platibandas de asfalto, entre acácias, buritis,
na placidez das redomas funcionais, esculpidas em aço.
Azul é o corpo de Deus, ilimitado e pleno de sinfonias visuais.
Como as aves do céu buscando as flores,
procuro a companhia dos anjos calmos.
 
Márcio Catunda, poeta cearense, nasceu em Fortaleza.
"Poemas para Brasília", antologia de Joanyr de Oliveira.

 


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