Festa (Cumeeiras)

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Festa (Cumeeiras)

Desde a mais remota tradição, a cumeeira representou a fase principal da construção da casa. Escolhido o local, preparado o terreno, começavam os trabalhos de feitura das paredes, com a necessária armação. A casa ia subindo, graças ao trabalho e ao amor com que era cercada pelo futuro morador. E para dizer a todo mundo de sua alegria, pelo fato de estar às vésperas de abrigar-se sob o teto próprio, o homem convocava os amigos para a festa da cumeeira. Todos vinham, formavam-se um grande grupo, as panelas fumegavam no terreno, as mulheres preparavam os quitutes. E a colocação da cumeeira, geralmente feita de madeira de lei, se revestia de um cerimonial quase religioso. Ramos verdes de árvores, flores e panos coloridos eram içados como bandeiras. Foguetes subiam para o ar. A casa estava quase pronta. Aliás, ficava pronta nesse dia, pois todos os que comparecessem ajudariam na colocação do telhado ou do sapé. E ali, no terreno antes vazio, estava a semente do novo lar, o ponto de partida para o amor e para o trabalho.

Estas recordações me vieram à mente certa manhã, quando vi, numa nova estrutura concluída, os ramos verdes das árvores pequenas do cerrado, apontando os céus, com seus galhos retorcidos. Em Brasília, também, a cumeeira é respeitada como fase principal da obra. Os trabalhadores que trazem a tradição no sangue, tradição cercada de um pouco de superstição, não consideram pronta a estrutura, sem que os ramos verdes anunciem aos quatro ventos o seu feito. É verdade que a velha e poética cumeeira de madeira de lei, trabalhada por mãos hábeis e amorosas, cedeu lugar às grandes lajes de cimento.

Mas nem por isso desapareceu o seu simbolismo.

Aqui, onde se ergue a cidade nova, onde se lançam as sementes de uma nova etapa de nossa civilização, as cumeeiras são festejadas todos os dias, porque todos os dias novas estruturas ficam prontas.

A festa é mais do coração do que do estômago, é mais dos olhos do que do corpo.

Mas, de qualquer maneira, na humildade de sua condição, na alegria que brota de sua permanente tristeza, o candango vai ao cerrado, colhe os ramos verdes e os coloca na última laje, como se estivesse enfeitando a cumeeira de sua própria casa.

Transcrito do livro “Invenção da cidade”, de Clemente Luz
“Cumeeiras. 1) Festa”, pg. 58 e 59

 


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