Fantasmas no Alvorada

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Fantasmas no Alvorada

Sou mais do que um enamorado de Brasília. E muito mais do que isso, eu sou do Palácio da Alvorada, que visito, com prazer, quantas vezes posso. E cada vez que penetro aquela imensa e majestosa cortina de vidro, que nos separa de um mundo estranho e perfeito de formas e de cores, eu faço novas descobertas, como o menino que penetra o bosque, que ele julga encantado e que, de repente, descobre que é encantado mesmo.

A alegria das descobertas novas leva-me a exclamações de puro prazer. É um quadro famoso, que ainda não havia visto e que domina uma saleta; é um móvel antigo, contrastando com linhas moderníssimas do conjunto da sala; é uma estrada subterrânea, com claros escuros; é, enfim, tudo isso, o que me traz preso ao Palácio do Juscelino.
Eu disse Palácio do Juscelino porque é isso mesmo. É dele, de dona Sarah, de Márcia e de Maristela. Não vai nisso nenhum desejo de agradar o Presidente. Aliás, talvez ele nunca chegue a saber da existência destas palavras. Mas, a verdade é que o Palácio é dele. Tem qualquer coisa de pessoal, como a escova de dentes, como o cheiro do corpo que fica na camisa, como o gesto franco e a palavra fácil. Tive essa impressão, e depois cheguei a essa conclusão, quando da última visita. Foi a primeira que fiz, com um grupo de amigos, orientado por cicerone. O rapaz não tinha muita paciência para se deter em explicações, mas ia dizendo:
– Aqui é a sala de estar do Presidente; ali, a sala de banquetes, no outro ângulo, a sala de despachos, o Gabinete Civil, o Gabinete Militar…
Tudo certo, não há dúvida. Mas seco e formal.
Quando chegamos, porém, à parte íntima, destinada à família presidencial, o cicerone transformou-se. Já não falava mais com a mesma formalidade sobre um presidente que hoje é Juscelino e que amanhã será forçosamente outro cidadão brasileiro. O quarto de dormir era de dona Sarah. Mas adiante, o cicerone assume ares de dignidade de mordomo medieval e mostra um amplo quarto, a sala íntima e o quarto de vestir e diz:
– Este é o gabinete íntimo do doutor Juscelino!
E foi assim que descobri que, mesmo deixando a presidência, o Dr. Juscelino e sua família serão os donos do Palácio… ou, pelo menos, serão fantasmas amigos, que assustarão o futuro presidente e sua família. Eles sentirão, nas mínimas coisas, a presença dos primeiros moradores do Palácio, que só não é de sonho, porque a gente o vê plantado, sólido, à margem do lago, embora pareça navio prestes a levantar âncoras ou pássaro tentando alçar vôo.

Reproduzido do livro "Invenção da cidade", de Clemente Luz

 


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