Fala, Dr. Lúcio

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários


“Eu tinha idealizado uma cidade assim, mais civilizada, que ocorreu em grande parte, e aí está esta cidade, uma cidade serena, uma cidade bela, uma cidade que é, enfim, diferente de todas as outras cidades brasileiras. E, como tal, é normal que ela seja diferente das demais cidades, porque é um caso singular, um caso único

O projeto todo de concepção de Brasília foi visando a isso, um projeto para fazer em três anos o arcabouço da capital definitiva do país. Nisso é que fui feliz. Estava imbuído de uma coisa mais digna, uma coisa para que cada brasileiro que venha a essa cidade nova e que venha de uma metrópole antiga, como São Paulo, Rio, ao chegar aqui não se sinta numa cidade de província, mas na capital do país, pelas dimensões, pela grandeza de intenção. Sentindo aquela nobreza de intenção, aquela dignidade que inspira um certo respeito. Eu estou aqui, gosto, não gosto, mas estou na capital. Ela, de saída, assumiu a posição de capital”.

Como conciliar esta escala ampla com a escala doméstica, a escala residencial, que é uma escala ao contrário, uma escala concentrada, limitada? Então, me vi diante dessa contradição. Aí surgiu a ideia de criar estes grandes quadrados, emoldurados de árvores. E como se uma moldura verde dentro desses quadrados que, por serem grandes, de 300 metros de lado, estavam na escala monumento do Eixo. Assim, eles se articulavam bem, estabeleciam uma unidade de composição e criação. E dentro do quadrado, então, construir os edifícios residenciais, limitados a este gabarito sereno, que é fundamental. E deixar a cidade explodir no encontro dos dois eixos, com esses edifícios altos, inclusive com duas barbaridades que eu gostaria de denunciar, o edifício do Banco Central e o segundo edifício do Banco do Brasil, feitos pelo mesmo criminoso. Foi coisa inconcebível que se fizesse aqueles dois edifícios cabeçudos, aquela coisa de uma pretensão, de uma vulgaridade que ofende a serenidade do ambiente de Brasília”.

Trecho da entrevista concedida ao repórter Omar Abudd, do Jornal do Brasil, em novembro de 1984.

 
 

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