Ézio Pires

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Ézio Pires. Conquanto nele perdure o convicto anarquista, e embora haja – aqui, sobretudo…-“gobierno”, sempre estimou Brasília. Seu “Asas de Terra e Água” (o título é também refrão, com que fecha cada estrofe) sabe até certo ponto o salmo davídico, pelo ritmo, por algumas das expressões a ele incorporadas. Refere o “começo do mundo”, ao “lago de leite e mel” (o que evoca a “Terra Prometida” dos textos sagrados), ao coral, aos “bons e maus”, ideário e terminologia trazidos  do universo onde, como seminarista batista, apesar de tudo, fincam-se suas raízes.

Mas Ézio Pires não se detém nesse território assaz edênico, quase celestial. Dirige os olhos, com clara repreensão, à “praça dos despoderes”, porque o incomodam os desequilíbrios do mundo. “No escuro/(…) te procuro”, “em sonho te suponho”, em “Fugindo de mim” confessou o poeta à cidade resumida nos seus primeiros prédios, mais promessa, “loucura faraônica”, do que realmente cidade. Ele é pioneiro e teve o privilégio de contemplar os começos. Há lamúrias em seu cantar: “ainda não sei/se é um prêmio/ou castigo/ser teu candango/antigo…”. E indaga, perplexo “- quem és tu/Brasília/que fugiste de mim?” E continua: “ – és mulher, anja (sic), demônio/ou uma alucinação?” Mas assevera, confiantemente: “mato/o coveiro da esperança/não fugirás nunca/de nossa história/ainda que fujas de mim/nos crimes livros e filmes”.

Texto transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira


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