Esperando a cidade

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

(Algum fundo de verdade havia: no ano de 1957 foram apreendidas, vivas, 117 cobras – coral, cascavel, jararaca).
A partir de março de 1958, os jornalistas estrangeiros foram chegando aos magotes. No dia 10 de março, desceram do DC-4, do Lloyd Aéreo Brasileiro, o jornalista do The Observer, semanário de Londres, e o correspondente no Brasil do Daily Express. No dia 14, chegou o jornalista de uma revista sueca. No dia seguinte, do Al-Hamishmar, diário israelense que fechou em 1995.
Mas a grande estrela do jornalismo a trazer sua caderneta de anotações a Brasília foi a jornalista Helen Firsbrook Hector, da Reader’s Digest, a Seleções. Naquela época, a revista vendia 20 milhões de exemplares no planeta. A jornalista veio acompanhada do marido, um engenheiro eletrônico.
Juscelino e Israel Pinheiro dava aos repórteres tratamento de autoridades. Fossem estrangeiros, hospedavam-se no Catetinho 2, a réplica do Catetinho 1, destinada aos visitantes ilustres.
Também em março de 1958, o embaixador do Japão visitou a cidade em construção. Encontrou aqui 50 famílias japonesas, 30 delas trabalhando na agricultura. Consta que a essa altura os japoneses já produziam couve, repolho, cebola, tomate, chuchu, berinjela, pimentão, nabo, batata e hortaliças mil. Variedade e número suficientes, segundo registros oficiais, para alimentar as 20 mil pessoas que aqui já estavam. Para atrair os nipônicos, a Novacap oferecia a eles o uso da terra por 50 anos, renováveis para a linha de sucessão.
Os japoneses ofereceram um jantar ao embaixador na Churrascaria Presidente, na Cidade Livre, ‘quando foi servido aos presentes um excelente saquê’, como ficou devidamente registrado no Diário de Brasília, espécie de agenda oficial da construção da cidade.
Em março de 58, Brasília já brotava do chão vermelho numa velocidade de explosão vulcânica. O Eixo Monumental já havia sido aberto, o Eixão também. A Praça dos Três Poderes e a Esplanada já eram um esboço na terra quente. As casas populares da W-3 Sul, idem. O Palácio da Alvorada e o Brasília Palace Hotel eram as obras mais adiantadas. Os primeiros blocos residenciais das 108 Sul já alcançavam a sexta lage.
Levado por Israel Pinheiro para ver a cidade de seu ponto mais alto, a Praça do Cruzeiro, o presidente do Banco Francês-Italiano para a América do Sul, Henri Burnier, rodopiou em torno dos próprios pés para apreciar a topografia em forma de anfiteatro que dali se desdobrava, tanto para leste quanto para oeste. E comentou: "Il parait qu’elle atendait la ville" ("Parece que ela estava esperando a cidade").
Lindo, não ?
 
Conceição Freitas escreve a "Crônica da Cidade", do Correio Braziliense.
15/03/2008

 


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