ESPACIAL

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas Sem Comentários

ESPACIAL
 
"A suntuosa Brasília, a esquálida Ceilândia contemplam-se.
 Qual delas falará primeiro?"

                                               Carlos Drummond de Andrade
 
 
Quando o sol renasce em Brasília, resplandece
no pêndulo da balança do Congresso Nacional
e encerra a revelação da nova orientação.
Mãos postas, oro pro nobis, nobres navegantes,
os Encantados, por um longo instante, estiaram
um vastíssimo dossel amarelo sobre as cabeças,
mas não é de sonho a atmosfera domingueira,
não obstante tudo pareça mais lento e impossível.
Nas obras construtoras dos monumentos,
nos imponentes esqueletos futuristas, o barro
vermelho, modernizado, lamenta a sorte
dos operários, discriminados.
No planalto central, o céu mais próximo
acentua a gravidade, forja uma sensação
de indignidade nos habitantes, colhendo água
do fundo do poço milagroso, em introspeções.
A vegetação deformada do cerrado protege,
com sua casca grossa, os escolhidos,
delicadas flores silvestres, escarlates.
A poeira encarde a roupa, a alma, o pensamento,
concede à língua do poeta, comedida, elaborar
no tempo uma alérgica poesia, iluminista.
No plano piloto, em arrojada arquitetura,
os edifícios parecem apenas pousados na terra,
peças de xadrez no tabuleiro artificial.
Podendo, a qualquer momento, levantar vôo,
desaparecendo no espaço sideral, dando lugar
ao surgimento de dinossauros fantásticos…
Só acredito nesse céu.
 
Gisele Lemper, poetisa carioca
"Duo"

 


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