Era um rabisco, e pulsava

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Por Carlos Drummond de Andrade

Dia ‘histórico’ para mim foi aquele em que Lucio me apareceu, discreto como sempre, botando em minha mesa uma folha de papel rabiscada às pressas, com palavras e um esboço de desenho que, aparentemente, pouco significavam. Peguei da folha e tive entre os dedos nada menos do que a cidade de Brasília, inexistente e completa, como um germe contém e resume a vida de um homem, uma árvore, uma civilização. A primeira noção de uma cidade diferente de todas as outras até então imaginadas mostrava-se ali, nos traços rudimentais de uma cruz (ou um avião) plantada na terra ou alcançando voo. O plano-piloto de Lucio dizia bem pouco para um leigo habituado a ver cidades em funcionamento e não no papel, um papel nada luxuoso como o dos grandes escritórios de arquitetura. Falei em rabisco, e pulsava.

Sem entender, eu sentia a vibração das formas implícitas naquela folha de papel que mudava a historia do governo do Brasil e, em certa escala, a vida dos brasileiros. Comovi-me. Lucio também devia estar comovido por ter achado a solução quase mágica para o problema de conceber uma capital de país em termos absolutamente originais. Mas disfarçava?

Ou o seu pudor de aparecer era tão positivo que lhe permitia filtrar e decantar a emoção até o ponto de torná-la invisível?

Parecia o mais vago dos homens; entretanto, em dada ocasião deu-me um conselho que não segui e que, se fosse observador atento, me pouparia uma decepção política. Na realidade, era e é um observador atento e sagaz do mundo e da vida brasileira em particular. Se tudo parece escarpar-lhe, talvez o mais correto seja dizer que nada lhe escapa; se não dá mostras constantes dessa capacidade de observação e análise – uma análise quase sempre original, resultante do seu gosto, cultura e independência de espírito, e não de patrões estabelecidos de critica – isto se deve à sua inclinação natural para a penumbra, o bastidor, a ocultação de si mesmo. Lucio argumenta, julga, define-se mas desinteressa-se da ação prática que (e isto sucede com frequência) um detalhe das coisas lhe choque a sensibilidade, e ele investe contra a anomalia. No mais, que o deixem viver sossegado, reflexivo, quase uma sombra, na retaguarda dos que brilham e adoram brilhar com luz própria ou de empréstimo. Este nobre e humilde senhor não quer que o aborreçam. Será que o estou aborrecendo com estas lembranças do corredor onde trabalhávamos juntos e calados?

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense, 09 de abril de 2015.

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