Equação de concreto, suor e sangue

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Equação de concreto, suor e sangue
Por Graça Ramos

Se poemas de Joaquim Cardozo apontaram chaves de leitura para a
estrutura do Palácio do Planalto ser vista como objeto de vidro com
efeito prismático, neste capítulo, que trata de sua construção,
seremos guiados por personagem pouco conhecida, mas de fundamental
importância, na historia do edifício. Com apenas cinco anos e meio de
formado pela Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie, de São
Paulo, Fausto Amadeo Francisco Favale (1929-) se tornou o
engenheiro-chefe da obra do Planalto, em julho de 1958.

Funcionário da construtora Pacheco Fernandes Dantas, ele havia sido o
responsável pela obra do Brasilia Palace Hotel, antes chamado Hotel de
Turismo Brasília. Uma semana antes de esse edifício ser inaugurado, o
presidente Juscelino Kubitschek o chamou e confidenciou: “muito bem,
você conseguiu, Fausto. Agora, quero te ver no meu escritório”. “É
você quem vai construí-lo”. O engenheiro conta que ficou entre feliz e
estupefato. “Eu ia fazer o escritório da Presidência da
República…levei um choque”.

A escolha da Pacheco Fernandes Dantas para tocar a obra do mais
importante prédio da estrutura administrativa do país foi resultado da
engenharia política montada por Juscelino para conseguir construir
Brasília. Ele determinou que um dos diretores da Novacap deveria ser
indicado pela oposição ao governo, composto pelo PSD e aliados. O
deputado paulista Íris Meinberg, da UDN, foi o escolhido e o
responsável por indicar a construtora paulista para fazer o Brasília
Palace. “As únicas exigências do presidente eram que as construtoras
tivessem nomes tipicamente brasileiros, de fácil entendimento, e seus
engenheiros fossem jovens, para dar conta do ritmo das obras, mas já
estivessem demonstrado experiência em construção”, explicou Eduardo de
Moraes Dantas (1926-), sócio da construtora.

Juntamente com os proprietários da empresa, Paulo Roberto Pacheco
Fernandes e Moraes Dantas, Favale passou a estudar, detalhadamente, as
plantas realizadas em papel vegetal e identificadas como Palácio
Presidencial II ou PP-II. Receberam três projetos: de arquitetura,
assinado por Niemeyer, de estrutura, com selo de Joaquim Cardozo, e de
instalações. A numeração fez-se necessária porque o primeiro
anteprojeto feito pelo arquiteto para os palácios de Brasília fora
designado Palácio Presidencial.

Vários relatos bibliográficos dizem que a partir de março de 1958 o
local se instalaria o Planalto já estava em obras. Tratavam-se de
trabalhos relativos à preparação do terreno. Segundo Favale, somente
em principio de julho, após a inauguração do Brasília Palace Hotel e
do Palácio do Alvorada, ocorrida no dia 30 de junho de 1958, é que os
trabalhos de construção do prédio começaram:

         “No começo de julho, fui fazer a locação da obra. Tinha a
planta, o terreno estava lá, então fomos marcar os eixos dos
pilares, para depois marcar as estacas, etc. fizemos a marcação com
madeira e gabarito e começamos os trabalhos.

Não foi difícil arregimentar trabalhadores para o novo empreendimento.
Quase todos os homens que estavam lotados no Brasília Palace Hotel
foram realocados na obra do que seria o novo palácio. No período mais
intenso da construção, Favale chegou a ter 1.200 operários sob o meu
comando, incluindo aqueles contratados por subempreiteiras,
responsáveis pela armação e impermeabilização, além dos marmoristas.
Os turnos de trabalho eram sucessivos: das 7h às 11h, com uma hora de
almoço. Das 12h às 17h, com outra hora de intervalo, e das 18h às 22h.
Às vezes, era necessário virar a noite, para dar conta do exíguo
cronograma.

Se no Brasília Palace o acompanhamento dos operários ficava do lado da
obra, para a nova tarefa eles foram reunidos em barracões instalados
na área que hoje é chamada de Vila Planalto. Ali, ergueram quatro
residências, duas para funcionários da Novacap encarregados de
acompanhar a construção, uma para Roberto Pacheco Fernandes, e outra
para Favale. Depois, levantaram oito ou dez residências para
empregados que estavam acompanhados de suas famílias. E construíram de
seis a oito barracões de alojamento destinados aos operários, além do
boião, como era conhecido o restaurante. Tudo considerado instalação
provisória, sendo a madeira o material usado nos imóveis, pois seriam
desmanchados após a finalização da construção.

Enquanto esse povo trabalhava nas fundações, tubulações e estacas,
Niemeyer pediu a Favale que fizesse o protótipo de uma das colunas
projetadas, em escala 1×1. Queria observar melhor se obteria o efeito
visual desejado. É por isso que fotos preservadas no Arquivo Histórico
do Distrito Federal exibem imagens de uma vela branca como a de um
barco em meio à terra vermelha-pungente e com a obra sendo levantada
atrás. “Era uma estrutura de madeira revestida com chapa de compensado
e pintada de branco”, segundo Favale. Uma vela-coluna mais robusta,
bem menos delgada do que as que atualmente identificam o prédio.
Quando o protótipo ficou pronto, o arquiteto pegou a planta que
continha o detalhamento da coluna, encostou-a em uma das paredes do
escritório da obra e rabiscou a lápis uma mudança na curvatura da
coluna. Acentuou-a, estreitando-a em certo trecho para deixá-la mais
delgada, mais leve na parte inferior. Recurvada a coluna, Favale
precisou fazer as adaptações estruturais na obra. A principio, ainda
conforme as lembranças do engenheiro-chefe, as colunas do Planalto não
receberiam revestimento de mármore, ficariam com o concreto aparente.
Mas Niemeyer preferiu cobri-las à semelhança do que fez no Alvorada.
Antes de o Palácio começar a ganhar corpo, Pacheco Fernandes, Eduardo
Dantas e Favale tiveram dúvidas sobre a questão estrutural da obra.
Depois de olharem os cálculos de Cardozo, descobriram que as formas
ousadas criadas por Niemeyer exigiram do calculista a criação de uma
planta estrutural muito complexa, com soluções audaciosas para um
tempo em que inexistia computadores. Os engenheiros-construtores
ficaram com receio de que isso provocasse problemas na infraestrutura
do edifício. Conforme o depoimento de Favale:

          “Nós, no inicio da obra, estranhamos os cálculos. Em
conversa com o Eduardo e com o Roberto Pacheco, estranhei a quantidade
de armadura que tinha nos pilares. As normas brasileiras especificam
uma percentagem de armadura máxima que você pode colocar nos pilares.
E excedia. Aí eu disse “vamos contestar?”. O Eduardo e o Roberto me
disseram “Não”. E ordenaram: “toca a obra”.

O receio era de que, ao realizar os cálculos estruturais do Planalto,
o calculista-poeta tivesse determinado um percentual de armadura nas
seções extremas dos pilares em valores muito maiores do que aqueles
recomendados pelas normas técnicas, que àquela época não eram de
caráter obrigatório. Receavam que esse corajoso atrevimento viesse a
provocar acidentes. “Não eram cálculos convencionais”, segundo as
observações de Moraes Dantas, também especialista em cálculos de
concreto armado pela Escola de Engenharia da Mackenzie. “As colunas”,
relembrou mais de 50 anos depois, “receberam uma carga muito grande de
ferro, mas Cardozo dava segurança de que tudo daria certo”.

A segurança de Cardozo era tão grande que, segundo uma conversa dele
com Niemeyer sobre o tipo de colunas adotadas para o Planalto e o
Supremo, o calculista chegou a dizer: “um dia vou fazê-las mais finas
ainda, de ferro maciço”. No trabalho de tocar a construção, Fausto
Favale passou a compreender melhor o método usado por Cardozo.

                “O excesso que ele propunha justificava-se. O Cardozo
era um poeta. Ele lia literatura em chinês, era muito inteligente. E
tudo que o Oscar pedia ele achava que tinha que atender. Não podia
tolher a criação do Oscar, como todos os calculistas achavam. Porque a
gente se restringia ao aspecto matemático. O Cardozo dominava muito a
matemática, mas também se atinha ao poético. Então, o ideal do Oscar
foi sempre chegar com um apoio num ponto, veja o Alvorada, veja o
Planalto, todos eles tentam chegar num ponto disfarçadamente. E os
cálculos de Cardozo permitiram isso. Sua capacidade de abstração
imensa possibilitava que achasse essas soluções”.

Anos mais tarde, o projeto de Cardozo continuou sendo objeto de
análises. Segundo o calculista Augusto Carlos de Vasconcelos, no caso
da base das colunas do Palácio do Planalto “a armadura chegava a
atingir quase 20% da secção – mais do que o triplo admitido nos dias
de hoje”. E, mais de meio século depois de concluído o prédio, os
cálculos do poeta mantiveram a capacidade de surpreender profissionais
como Eduardo Pierrotti Rossetti, doutor em arquitetura e urbanismo,
que, na qualidade de assessor técnico do Iphan, acompanhou parte da
reforma de 2010:

                  “A quantidade de barras de aço nas ferragens das
colunas do Palácio do Planalto é impressionante. Você vê aquela foto
do Marcel Gautherot e imediatamente pensa sobre a quantidade de aço
usado para fazer o concreto ficar mais esbelto. Além disso, a armação
das ferragens tem uma geometria linda: as barras dobradas, as barras
como feixes de linhas paralelas ou entrelaçadas. Essas ferragens
expressam a força do controle de uma forma precisa, que corresponde à
beleza da coluna construída, concretada, pronta e revestida. A armação
das ferragens é tão potente quanto à coluna que ela estrutura e isso é
consequência do apuro, de um domínio sensível da razão, da técnica e
do cálculo”.

Mesmo com tanta precisão e tanto cuidado, em 1963, o palácio
necessitou passar por um ajuste na construção. Como a dilatação da
laje de cobertura era maior do que a da alvenaria das paredes,
surgiram trincamentos nos encontros da laje com as paredes. O problema
foi solucionado com a parte superior das paredes de alvenaria sendo
preenchida por algodão in natura. “O algodão deixa a laje se
movimentar sem causar problemas”, explicou Favale. Com isso, a laje se
movimentar sem causar problemas”, explicou Favale. Com isso, a laje
ficou livre para se movimentar de acordo com as variações de
temperatura, que no Cerrado são intensas e frequentes. O revestimento
flexível, de baixa densidade, funcionou como junta de dilatação.
Não deixa de ser emblemático que tenham sido algodoadas partes da
estrutura desse palácio, local em que as pessoas parecem se comportar
como algodões entre cristais. De maneira geral, em seu interior,
gestos são contidos, palavras, pesadas antes de serem pronunciadas.
Sabemos que todo palácio é local de cautela e intrigas, mas, sendo de
cristal, o Planalto exige – ou deveria exigir – mais cuidado por parte
de quem o experimenta. Com paredes de vidro, movimentos podem ser mais
visíveis e, também, mais fáceis de serem documentados por equipamentos
eletrônicos posicionados fora do edifício.

Esse palácio, face visual do projeto modernizador brasileiro dos anos
1950 e retrato da audácia de um presidente popular, não foi construído
como fortificação, muito menos pensado para ser a brida e o freio
destinados àqueles que insurgem contra o mandatário de plantão, como
refletiu Nicolau Maquiavel. Nada em seu desenho lembra também um
refúgio inexpugnável, sendo ele mais próximo da ideia de que a melhor
fortaleza que pode existir para um governante é a de não ser odiado
pelo seu povo.

A violência, entretanto, ainda que de maneira indireta, também fez
parte da historia desse edifício de onde se comanda o país. Durante
sua obra registrou-se um dos mais controversos episódios da construção
de Brasília. Era domingo de Carnaval naquele 8 de fevereiro de 1959,
quando a violência explodiu no restaurante da Pacheco Fernandes
Dantas. Dois carpinteiros recusaram-se a comer a refeição oferecida
naquela noite, composta de arroz, macarrão, carne e feijão. Ao jogarem
as marmitas no chão, a confusão se espalhou. Mesas foram quebradas, a
gritaria dos homens fez-se brado e o cozinheiro terminou ameaçado.
Apavorada, a segurança do acampamento chamou a Guarda Especial de
Brasília, braço armado da Novacap. Três guardas tentaram conter o
motim, mas não obtiveram sucesso, pois a quantidade de operários era
muito superior. Mais policiais foram chamados e 27 homens armados com
pistola calibre 38 e cassetetes lotaram um caminhão em direção ao
acampamento. Entraram atirando, usando de muita truculência. O relato
do engenheiro-chefe das obras forneceu novas informações sobre o
episódio:
                    “Dois carpinteiros estavam bêbados e acharam ruim
a comida e queriam bater no cozinheiro. Aí que começou o buchicho.
Inadvertidamente, o nosso encarregado do acampamento mandou chamar a
GEB. Se lembra quem era a GEB? A Guarda Oficial de Brasília. E nós
tínhamos um motorista chamado Chicão, se não me engano, que tinha dado
umas pancadas no pessoal da GEB. Já havia um mal estar entre o pessoal
da GEB foi chamado, eles pensaram “ah, vamos lá na Pacheco dar uma
lição”.

O saldo oficial do confronto foi desigual: um operário morto e outros
45 feridos. Estes últimos deram entrada em pronto-socorro, três deles
com ferimentos causados à bala nas pernas – Antonio de Souza, Antonio
Ubaldo Morais e Francisco Clemente dos Santos. Só horas mais tarde
identificaram o corpo de Evaristo Soares Brandão. Conforme Favale,
“esse rapaz que morreu estava dentro do alojamento, sentado na cama”,
portanto distante do local onde se iniciou a confusão. “Uma bala
atravessou a parede, a madeira, e o atingiu na coxa, cortando a veia
femoral. Ele se jogou embaixo do barraco, ali ele ficou e se esvaiu em
sangue”.

O motim só foi debelado com a entrada em cena do Exército, chamado por
Favale. O episódio rendeu um Inquérito Policial e ainda hoje é objeto
de investigações extra-oficiais que tentam dar conta da história e de
suas versões, pois há depoimentos que falam que o número de feridos e
mortos foi muito superior. De estudos acadêmicos na Universidade de
Brasília (UnB) a filmes como “Conterrâneos velhos de guerra”, do
cineasta Wladimir Carvalho, realizado em 1990, obras apresentam novos
olhares sobre o tema, que não recebeu cobertura imediata por parte da
imprensa.

A invasão policial na Pacheco Fernandes interferiu no andamento da
obra do Planalto. O ânimo dos trabalhadores diminuiu, operários
desistiram de trabalhar naquela construção, pedindo as contas. Outros
foram embora sem nem mesmo recolher suas malas. No dia seguinte ao
enfrentamento entre policiais armados e operários, os sócios Eduardo e
Paulo Roberto, que estavam em São Paulo, vieram para Brasília,
acompanhados de um advogado. Todos aqueles que quiseram pedir
demissão, receberam o pagamento na hora.

Não foi difícil contratar novos operários. Brasília naquele momento
pagava salários iguais aos do Rio de Janeiro e de São Paulo, e havia
muitas horas extras. A cada dia chegavam novas levas de migrantes
buscando trabalho, “homens de todas as jornadas/chegaram e a chegar
prosseguem”, resumiu Cardozo no poema sobre a arquitetura nascente. O
problema era treiná-los, pois essa mão de obra não tinha formação
técnica para a construção civil. A rotatividade de trabalhadores era
constante, se acentuando naquele momento da invasão policial ao
acampamento.

A obra não ficou paralisada um só dia, mas o esforço de todos precisou
ser redobrado, pois JK não admitia atraso nas datas. Quase todo final
de semana, descia de uma Rural Willys, muitas vezes dirigida por ele
mesmo, e de noite vinha fiscalizar as obras. Marcava as datas de
entrega de determinados serviços de acordo com marcos simbólicos –
aniversário dele ou do Presidente da Novacap, Israel Pinheiro, alguma
data nacional. Se chegava e não encontrava o combinado, queria
explicações razoáveis do engenheiro-chefe.

                   Ele dizia: “você prometeu, então por que não está
feito?” Tinha que ter um bom argumento, menos dinheiro, porque
dinheiro só se tratava com Israel Pinheiro. E, quando ele saía da
obra, normalmente era de noite, ainda estávamos trabalhando…ele ia
descendo a rampa e o pessoal se juntava na porta para vê-lo. E ele
chegava, dizia baixinho, “agora você sai fora porque eu vou tratar do
meu eleitorado”.

Seis meses depois do domingo de carnaval violento, os profissionais
que labutavam no Planalto levaram novo susto. Um incêndio nos
escritórios da Novacap, onde ficava o escritório de Oscar Niemeyer e a
Divisão do Departamento de Edificações, localizados onde hoje é o
Ministério da Justiça, ameaçou queimar todas as plantas do Palácio,
que ali ficavam guardadas. Era de madrugada quando Favale foi chamado.
Disseram-lhe que o Planalto estava pegando fogo.

                   “Eu pensei “meu Deus, se for fogo na obra eu estou
perdido”. Porque agosto, pleno mês de seca em Brasília, a obra estava
toda cimbrada (com escoramento de madeira)…e, se pega fogo, acabou,
não tem mais inauguração. Mas, na hora que me vesti, peguei a
caminhonete e saí do acampamento, olhei e vi a torre do Congresso.
Pela torre, vi que o fogo estava à direita, e a obra era à esquerda.
Então, não era a obra, Graças a Deus. Com o pessoal que consegui
levar, salvamos os vegetais (as plantas) dos projetos de Brasília. No
escritório do Niemeyer, ele tinha um cofre, uma caixa forte feita de
tijolo (o resto era tudo madeira), para poder guardar esses originais
em caso de incêndio”.

A memória de Favale para os fatos que se referem à construção do
Palácio impressiona. Fornece, de cabeça, números e detalhes que,
depois, a conferencia nas plantas, demonstra serem exatos. E tem
orgulho em dizer que a obra foi entregue pronta na data combinada,
faltando apenas poucos acabamentos. Matusalém Nogueira de Vasconcelos
(1935-), que trabalhou como mestre de obras no Palácio, chegando ali
depois de usa inauguração, explica: “faltava colocar alguns
revestimentos e realizar serviços na garagem”.

Até 1963, o engenheiro permaneceu em Brasília, responsável por cuidar
o prédio presidencial. Antes de regressar de vez a São Paulo, sugeriu
uma solução para as testeiras de mármore das fachadas que começavam a
se romper devido aos efeitos de variação da temperatura. Sugeriu que
fossem presas a caixilhos, que deixariam uma folga para que a camada
impermeabilizadora da laje de cobertura pudesse dilatar sem colidir
com a ponta superior do mármore, solução que não foi efetuada pela
Pacheco Fernandes Dantas.

Em suas memórias, o dia da inauguração do Planalto foi de intenso
trabalho, acompanhado de extremo cansaço. O projeto do Palácio não
previu uma caixa d’água superior – uma bomba de pressão empurra água
das caixas, localizadas embaixo, para qualquer ponto dos andares
superiores. Como funcionários já estavam trabalhando dentro do prédio,
os banheiros eram utilizados. Ocorre que no dia 21 de abril faltou luz
durante boa parte do dia, não havia um gerador para o edifício, e,
consequentemente, não tinha água para limpar os banheiros. Estavam
todos sujos e precisavam ser limpos para a festa de inauguração.
Grande parte dos operários já estava de folga, liberados para os
festejos que duraram todo o dia. Foi preciso arregimentar de 20 a 30
deles para, com a água retirada de caminhão pipa, e transportada em
baldes, lavar os banheiros. Serviço concluído pouco antes de a festa
começar.

A operação “salva banheiro” foi coordenada por Favale. O resultado é
que o homem que comandou a construção do Palácio do Planalto não
participou da noite de gala, embora para ela estivesse convidado. Na
Vila Planalto, na sua casa, em cima da cama, permaneceu o fraque.
Cansado, ele, vestido como estava durante o dia, se sentou no quarto
andar do edifício que tanto trabalho lhe deu. Junto com a mulher,
ficou vendo a festa: o Palácio do Planalto iluminado e os convidados
subindo a rampa. Homens de fraque e cartola, mulheres com luxuosos
vestidos longos.

Texto transcrito do livro “Palácio do Planalto: entre o cristal e o concreto”
Coleção Memória – ITS Instituto Terceiro Setor www.brasiliagenda.org.br

 


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