Entre a lua e Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

"Antes de vir para Brasília, sofri uma grande perda que me deixou de tal modo desalentada que eu estava certa de que parte ou toda a minha vida havia se perdido. Nada mais tinha sentido. Era como se estivesse mutilada e nada conseguia estancar a dor generalizada, a sensação de desamparo. O chão me parecia escapar. Pensei muitas vezes em fazer as malas e sair mundo afora. Mas se eu fizesse isso iria reviver tudo o que estava me ferindo de morte. As cidades e os países que gostaria de visitar eram os mesmos da época mais feliz da minha vida, da plenitude perdida.
Um sopro me dizia que eu deveria começar de novo, do zero, em outro lugar, bem diferente de tudo o que havia vivido até então. Teria de mudar então para um lugar desconhecido. Pensei na Lua, quem sabe um lugar tão longe me afastaria da dor que partia  meu peito ao meio? Foi aí que li a notícia de que Juscelino estava mesmo construindo Brasília. Por que não? Minha família reagiu em bloco: não, não e não. Um lugar sem recursos, cheio de operários e quase sem mulheres, era muita loucura. Melhor a Lua então.

Enfrentei o batalhão familiar e vim sem medo. Era como se eu já tivesse certeza de que estava mesmo começando uma nova vida. Quando cheguei aqui, eram enormes as dificuldades, mas eu as enfrentava com o avesso da minha dor. Não eram mais dificuldades, eram o apagar da dor, o meu renascer depois de tão terrível perda.

Depois de mais de 20 anos em Brasília, dizia para mim mesma que vir pra cá foi a grande decisão da minha vida.

Eu me refiz junto com o nascimento de uma cidade. Nunca pensei que viraria colunista social, nem em sonho total. Sempre gostei de ler, biografia especialmente. Sou filha de classe média alta, nasci na Tijuca. Estudei nos melhores colégios do Rio de Janeiro.

Sempre me interessei pelo colunismo social. Acompanhei a carreira de grandes colunistas brasileiros. O Jacinto de Thormes, o colunista de O Cruzeiro, catou seu pseudônimo em Os Maias, do Eça. E eu, pedi o meu ao Tolstoi.

Fui tesoureira do Iapi, o Instituto de Previdência dos Industriários, responsável pela construção de muitas Superquadras. Mas Brasília não admitia o serviço meramente burocrático. Eu largava o escritório e ia para os canteiros de obra – fui enfermeira, assistente social, conselheira e até escritora de carta para os operários. Nunca, em nenhum momento, ouvi gracejos ou insinuações maliciosas.
Como colunista social, registrei a inauguração da cidade neste Correio. Peço licença aos leitores para citar alguns trechos do que escrevi naquele dia histórico: "Bela e emocionante foi a missa celebrada com a presença do senhor e senhora Juscelino Kubitschek e suas encantadoras filhas Márcia e Maristela. Dona Sarah, muito elegante num vestido estampado. Márcia, de claro, e Maristela, de saia e blusa. Uma saia muito bonita, aliás".

Meu nome é Katucha. Morri em 1983. A dor da grande perda passou, mas o amor não. Por isso, eu terminava minha coluna, todos os dias, escrevendo assim: "Eu quero a rosa mais linda que houver para enfeitar a noite do meu bem".
 
Conceição Freitas
Reproduzido do Correio Braziliense, de 24/04/2008

 


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