Encontro Matinal

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Encontro Matinal
 
O Pequeno Príncipe saiu do livro e sentou-se à beira da mesa onde eu me preparava para trabalhar. Olhou-me com seus olhos profundamente azuis e perguntou-me:
 
– O que é que você está fazendo ?
– Trabalhando – respondi-lhe.
– Com quê ?
Mostrei-lhe a máquina de escrever, o papel, o teclado, e lhe expliquei o meu trabalho.
Não ficou satisfeito. Perguntou de novo:
– Mas isso não é tudo. Com que é que você trabalha?
Respondi-lhe, seco:
– Com as palavras!
– Como ?
Com paciência, expliquei:
– Eu coleciono as palavras no papel, na ordem necessária para a fixação das idéias, e, no fim, escrevi alguma coisa…
– Para quê? – perguntou o Principezinho.
– Ora, para que os outros escutem ou leiam.
O Principezinho coçou a cabeça, baixou os olhos, ficou pensativo e, de repente, agitou os louros cabelos e falou:
– Vi muitos homens revolvendo a terra, vi uns monstros esquisitos rasgando vãos na terra e vi outros homens dependurados de umas armações vermelhas. Vi também coisas redondas, coisa bonitas, inclusive uma coisa leve, leve, pousada no chão, com jeito de navio…
Fez uma pausa, e perguntou:
– Que é que esses homens estão fazendo?
– Uma cidade – respondi-lhe. – E aquilo que tem jeito de navio é o Palácio. E é sobre essa Cidade que escrevo…
Ele riu o seu riso claro e disse:
– Engraçado, no meu planeta isso não seria possível…
– Por quê? – perguntei.
Ele não respondeu e prosseguiu:
– Estão construindo uma cidade… Para quê?
– Para mudar a sede do Governo.
Perguntou:
– Para quê?
Dei-lhe uma longa explicação, falei da necessidade de interiorização da Capital, etc e tal. O Pequeno Príncipe, sem curiosidade, olhou-me e disse:
– Tudo isso é muito importante, não há dúvida! Mas o mais importante é a gente ter o coração limpo de ódio, cheio de amor, para receber uma cidade nova, como esta que está sendo construída… O essencial de tudo não é aquilo que a gente vê, mas aquilo que a gente sente da ponta dos cabelos até ao fundo da alma…
Dizendo isto, meteu-se entre as folhas do livro e foi cuidar de sua rosa, no seu pequeno asteróide.
Voltei, sem espanto e sem desespero, ao meu humilde trabalho de domesticar palavras, para contar coisas sobre a Cidade que nascia…
 
Clemente Luz
"Invenção da Cidade"

 

 


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