Emanuel Medeiros Vieira

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Emanuel Medeiros Vieira transporta ao Planalto o herói grego, rei lendário de Ítaca e filho de Laerte.  E, com ele, sua Penélope. Ele denuncia: “(…) o Planalto é sempre,/além dos burocratas conversas fatigadas”. (O espírito do artista se enfada na aridez e monotonia da repartição pública.)

A perenidade da personagem maior da Odisséia é o pólo oposto a “(…) tanta finitude”. O bolor da burocracia não se harmoniza com o sempre novo da criação, da epopéia. O poeta reflete sobre o efêmero, que é o estigma de sempre no mundo dos seres, do homem. E adverte: “Carece preparar os rituais do retorno (…)”. A morte se insinua ou se apresenta como saída possível, única, do fastidioso presente, em que “(…) o domingo, regatas, procissões (…) não pesam o bastante para contrabalançar e estabelecer o equilíbrio”. O “Planalto é para sempre” (só ele restará), reitera o poema, enquanto sobre nós paira a espada de Dâmocles e o “oblívio” – do qual, por ventura, escaparemos? Não. Ninguém escapará do esquecimento a que estamos todos nós irremediavelmente condenados.

“Planalto: aqui ficarão os ossos”. É tudo sombras, somente? O pessimismo impera soberanamente? Não: algo de transcendental, de mais alto se fará presente. Algo transcenderá; sobreviverá o fim do fim: “Deus faz que me esquece:/depois reaparece”. O segundo poema de E.M.V. por nós selecionado busca despir a cidade amada do imerecido estigma de inabitável e inóspita, pobre e árida “capital do estatuto (…)”, de mero habitat “dos maquiáveis planaltinos”, a que muitos intentam reduzi-la. Em verdade, “ela tem esquinas sim: é preciso decifrá-las”. Brasília é “real no rosto anônimo”,  tem chuvas, “mangueiras em flor”, “pássaros de outros nomes”, “belos crepúsculos”. Sim, há que decifrá-la.

Transcrito  “Esses poetas, esses poemas”, antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 


Trackback do seu site.

Deixe um comentário


Leia também:

A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

O texto de Antônio Carlos Jobim Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios.…

Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza! Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós nenhuma surpresa. Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato que te faz surgir num descampado, o olhar firme, …