Em defesa dos buritis

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... 1 Comentário

Em defesa dos buritis
Por Antonio Miranda
 
“Se algum dia a civilização ganhar essa paragem longínqua, talvez uma grande cidade se levante na campina extensa que te serve de sóco, velho Buriti Perdido”
Afonso Arinos

Um curioso livro foi lançado em 1958 sobre Brasília, a futura capital do Brasil. O livro, ao contrário de tantos outros que estavam sendo lançados nos anos que precederam à construção e à inauguração da Novacap, não versava sobre as suas origens históricas, tampouco sobre os homens que a idealizaram, nem sobre os seus atributos geofísicos e muito menos sobre sua arquitetura e urbanismo.

O livro em questão celebrava o buritizeiro!

Em edição aprimorada, em papel “cuchê” e com ilustrações primorosas, tinha o título um tanto paradoxal de “Brasília e o Buritiseiro”, com “s” mesmo. Paradoxal porque Brasília ainda era um vir-a-ser e o buritizeiro não constituía – e ainda não se constitui – em recurso econômico significativo para transformar-se em objeto de estudo e para merecer uma publicação até luxuosa como a que mereceu.

O autor – Francisco Manoel Brandão, revelou-se um apaixonado dessa singular palmeira nacional. Ele pesquisou a presença da palmeira (e do buritizeiro em particular) nas mais variadas disciplinas e atividades humanas, extraindo os seus aspectos etimológicos, botânicos, históricos, bíblicos, literários e o seu aproveitamento econômico, além de seu valor social e cultural.

De acordo com as pesquisas de Brandão, a origem da denominação dessa palmeira tão freqüente na paisagem primitiva dos cerrados brasilienses e, sobretudo, na região Norte do Brasil, é, inegavelmente, nheengatu ou tupi e o seu significado seria “palmeira de muita água” (cujo significado tanto vale por si mesmo quanto pelo meio que habita).

“Vários aspectos da vida dessa palmeira se relacionam efetivamente com a água, já porque do seu espique, bem como dos seus espádices, antes de desabrochar as flores, promane uma espécie de seiva ou líquido adocicado, já por habitar, de preferência, as aguadas, os lugares baixos, úmidos ou pantanosos, razão por que chamam-na também “palmeira do brejo”.

O buritizeiro é, destarte, enaltecido por suas virtudes alimentares, por sua utilidade na construção (principalmente na cobertura das moradias humildes), pelo uso no artesanato indígena e caboclo, por sua aparição na etnografia e no folclore.

“O buriti, como verificamos, tem uma grande vida a contar. Vida que começa na estória, na infra história dos povos, e termina na história, nos laboratórios, na terminologia técnica e cientifica da Botânica e da Ciência da Nutrição, transferindo-se ainda para os ambientes solenes e austeros dos Tribunais, da Justiça e do Direito”.

Caberia ressaltar o buritizeiro (Mauritia Vinifera de Martius) em território brasiliense. Brandão investiga a existência da palmeira do buriti em nossa geografia e em nossa história.

“Quando pisamos o território de Brasília, logo nos seus primeiros dias, tivemos as nossas vistas voltadas para os buritisais que aqui e ali vicejam como herança abençoada de que durante séculos vigiou as regiões do Planalto”.

Recorda, com prazer, a homenagem que se lhe fazia no Núcleo Bandeirante, ao denominar-se “Hotel Buriti” um dos primeiros alojamentos populares da então “cidade livre” em seu alvorecer.

“Decorridos 15 meses de nossa estada ali, tivemos conhecimento de séria contrariedade do Presidente Juscelino Kubitschek a propósito de uma ornamentação comemorativa que se fizera, em sua honra e louvor, com palmas de buriti.

É que no dia 26 de outubro de 1957 oferecera-se um lanche, no Palácio da Alvorada, em regozijo por mais um lance das obras, o qual se atingia naquela ocasião com a retirada das formas da estrutura de cimento armado do referido edifício.

Foi nessa oportunidade que o Presidente lavrou seu protesto contra aquela ornamentação que custara a mutilação de tão preciosa palmeira. E proibiu terminantemente a repetição do fato”.

O que vale realmente registrar é a revelação que Francisco Brandão faz da pendência em torno da Missão Cruls, por ele descoberta em conversa com o Dr. Carlos Alberto Quadros, Secretário-chefe do gabinete do Presidente da Novacap e cônsul geral honorário da República de El Salvador em Brasília.

Segundo o informante, tratava-se de uma demanda movida contra a Fazenda Nacional, ou melhor, de uma ação judicial contra danos causados à fazenda onde acamparam os integrantes da expedição comandada por Luís Cruls. Os proprietários entraram na justiça devido à ação presumivelmente predatória de elementos da citada Comissão.

“Nessa demanda pede-se e obtém-se indenização decorrente não só da turbação de posse e negócio, da cessão de lucros, como das perdas e danos ocasionados com a queima dos campos em época imprópria e a derribada de capões e dos Buritis”.

Tratar-se-ia, segundo o testemunho, de forma inconteste e até simbólica de que se reveste, do primeiro ato público de defesa da natureza no solo brasiliense, já em tempos tão remotos. O protesto fora inicialmente feito pela imprensa goiana (O Estado de Goyaz, 1897), logo através de cartório, na cidade de Formosa, subscrito por vários negociantes da cidade, proprietários da fazenda Bananal, localizada nos municípios de Mestre D’Armas e Santa Luzia, por onde andara os integrantes da Missão Cruls.

“Em dias do mez de Novembro do anno passado, entrando naquella fazenda a Comissão de Estudos da Nova Capital da União, alli foi por ella escolhido o local para o acampamento da mesma, o qual ficou estabelecido com a construcção de diversos ranchos, alguns com caráter de casa, indicando assim uma estada não provisória”, alegam os acusadores em documento reproduzido no livro de Brandão.

Os proprietários protestam contra a posse ilegal de suas terras, privando-lhes do uso das mesmas para a trata de gado e para aluguel a fazendeiros, assim como contra a depredação havida.

“Outrossim, essa fazenda, que é situada em uma chapada onde não existem mattas e sim pequenos capões, cabeceiras e vertentes servidas de burithys o estrago tornou-se conhecido, já quanto aos pequenos mattos e já quanto a essas palmeiras, devastadas em quazi sua totalidade, cuja utilidade não é ignorada por quem comprou e estima aquelles terrenos”.

Estimaram o prejuízo em dois contos de réis por cada mês que a Comissão permaneceu ilegalmente na propriedade. A União, decorrido um ano de ocupação das terras, não reconhecia qualquer direito de reclamação aos proprietários.

Uma certidão de 14 de janeiro de 1928, transcrevendo registros anteriores, foi elaborada pelo Cartório de Registros e Títulos e Documentos, da capital do Estado de São Paulo, e dá noticia do desenlace da questão, isto é, a condenação da União, obrigada a pagar uma quantia determinada por lei a Lobo & Irmão, demandantes, a título de “indenização por danos causados na fazenda Bananal, situada no município de Planaltina, pela Comissão Cruls”.

A carta de sentença, vinda do Supremo Tribunal Federal para execução, fora proferida pelo juiz federal de Goiás, em cuja documentação fica patente que os membros da Comissão Cruls se apropriaram das benfeitorias da fazenda, desmataram as poucas madeiras existentes, incluindo os “buritizaes, cujas folhas empregavam na cobertura de ranchos e que foram (…) na sua quase totalidade destruídas pelo pessoal encarregado de cortá-los e que para poupar trabalho abatiam os troncos de buriti, com grande danno para as vertentes d’água que elles protegiam e alimentavam”.

Estabelece ainda que, nos vinte e seis meses de acampamento, a Comissão efetuou queimadas em estações impróprias.

A Comissão julgou-se, inicialmente, inocente da invasão e da apropriação, seja invocando o dispositivo constitucional de reserva de 14.400km2 de terra para a nova Capital, seja alegando que os proprietários não apresentaram títulos de posse. A Comissão estaria executando um serviço de interesse geral, teria feito benfeitorias em vez de depredação, etc.

Impôs-se uma vistoria no local. Constatou-se o ocorrido. A União foi então, obrigada a pagar aos proprietários, pelo aluguel das propriedades e das benfeitorias, pela destruição dos pastos e buritizeiros, pelos juros devidos ao tempo decorrido, a quantia de 13 contos e setecentos mil réis, sendo dois contos relativos aos “dannos causados aos buritizais da fazenda Bananal pela Comissão de Estudo da Nova Capital da União”. A sentença foi proclamada em 5 de novembro de 1898, a intimação feita a 17 de agosto de 1899.

Mas a história se repete, na opinião de Francisco Manoel Brandão:

“Os fatos ocorridos ao tempo da Missão Luís Cruls tiveram como teatro a mesma zona onde agora, em nome não sabemos de que finalidade ou atividade agrícola ou industrial, vem sendo posto abaixo vários buritizais.

É o que está acontecendo e o que se pode ver nas proximidades da Fazenda do Torto e na lagoa do “Jaburu”, caminho do “Palácio da Alvorada”.

Próximo à sede daquela Fazenda vive ainda um Buriti, que, por se achar isolado dos demais, é chamado “Buriti Sozinho”.

Reconhece o autor da obra que a Novacap possui policia florestal mas apelava para que o mesmo espírito de defesa do meio-ambiente natural da região fosse encarnado então, como em tempos de Luís Cruls o fora, cujas autoridades foram obrigadas a responsabilizar-se pela obra devastadora de seus comandados…

“Uma coisa apenas desejamos que aconteça: quando a policia tiver, por esse fato, que responsabilizar alguém, que responsabilize o mandante desse atentado e não o desgraçado trabalhador que foi obrigado a cumprir uma ordem absurda dessa natureza”.
 

Transcrito do livro “Brasília: capital da utopia”, de Antonio Miranda – Editora Thesaurus.

 


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Comentários (1)

  • Eric@

    |

    eu esto praticando um curno de buritis brasileiro e eu addoro!!!!!!!!!!!!

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