Em cima de um caminhão, JK promete cumprir a Constituição e transferir a capital para o Planalto Central

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Foto: Arquivo Público do DF

"A idéia que fora posta em movimento no comício de Jataí, já dispunha de velocidade própria"
Frase de JK

— Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra, a Constituição e não vejo razão para que esse dispositivo seja ignorado. Se for eleito, construirei a nova capital e farei a mudança da sede do governo.

Aplausos e mais aplausos daquele povo acostumado a ser esquecido pelos governos. O autor da pergunta, Antônio Soares Neto, o Toniquinho, se assustou com o repentino sucesso. Havia pouco anos, ele tinha estudado a Constituição para um curso de tabelião de cartório.

Se não fosse Toniquinho…

Aos 74 anos, Antônio Soares Neto relembra a pergunta que fez JK construir Brasília

Toniquinho — O senhor mudará a capital do país para o Planalto Central, como está previsto nas Disposições Transitórias da Constituição?
JK — Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra, a Constituição e não vejo razão para que esse dispositivo seja ignorado. Se for eleito, construirei a nova capital e farei a mudança da sede do governo.

Tudo começou com uma chuva inesperada, numa segunda-feira que amanheceu cheia de sol e mudou a rotina de Jataí, cidade do sudoeste goiano. Era 4 de abril do já distante 1955, feriado municipal, decretado por um orgulhoso prefeito que receberia às 10h, pela primeira vez na história da cidade, um candidato à Presidência da República. Não era fácil ao jataiense entender por que o então governador de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek, decidira começar sua campanha presidencial por uma modesta cidade de 10 mil habitantes.

Jataí chegou em boa hora às ambições eleitorais de JK. O generalato já tinha deixado claro sua insatisfação com a candidatura do governador mineiro. Morto Getúlio Vargas, a UDN queria um candidato único às eleições. As Forças Armadas falavam em ”colaboração interpartidária”, mas o PSD tinha encontrado fôlego próprio. Para não desafiar as Forças Armadas, Juscelino começou a comer o mingau pelas bordas.

Lembrou-se de um velho amigo e correligionário, Serafim de Carvalho, colega na Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, que tinha pleno domínio dos cinco mil eleitores de Jataí (metade da população!). Dizia-se, à época, que ‘quando doutor Serafim tocava o berrante, o pessoal batia atrás’. Juscelino decidiu fazer o comício na cidade a 320 quilômetros de Goiânia.

Jataí parou para receber Juscelino. Uma comitiva foi recepcioná-lo no aeroporto, os estudantes tinham sido convocados ao comício, o palanque estava pronto, o alto-falante anunciava a chegada do candidato e o povo aglomerava-se na Praça Tenente Omar Menezes, no centro da cidade. Inesperadamente, o tempo fechou e a chuva parecia dissolver os planos de JK, que pensara num comício com entusiasmo suficiente para que seus ecos chegassem ao Rio de Janeiro, sem no entanto soar como risco ao regime tão instável daqueles tempos.

Decidiu-se, na correria das águas, que o comício seria transferido para um galpão de oficina mecânica ali perto. Para palanque foi eleita a carroceria de um velho caminhão à espera de conserto. O povo que ainda continuou na praça se espremeu no barracão de não mais de 100 metros quadrados. Deu-se início ao comício, Juscelino falou de sua candidatura, remeteu-se ao Sermão da Montanha, e repetiu seu compromisso com a Constituição e o respeito à ela — recado destinado aos desconfiados generais a 1,5 mil quilômetros dali.

Disposto a ouvir o que o povo de uma cidade dedicada à plantação de arroz queria de um presidente eleito, JK abriu a palavra ao público. Deu-se um silêncio contrangedor, ninguém se manifestou. No gargarejo, bem na frente do candidato, estava um rapaz de 29 anos, funcionário de uma companhia de seguros, e parente dos caciques políticos da cidade. Num sopetão, lhe veio a pergunta que entrou para a história. Levantou o dedo e, de pronto, perguntou:

— O senhor mudará a capital do país para o Planalto Central, como está previsto nas Disposições Transitórias da Constituição?

Pego pelo contrapé, Juscelino olhou para um lado, outro para o outro, deu-se alguns segundos para pensar e finalmente respondeu:

— Acabo de prometer que cumprirei, na íntegra, a Constituição e não vejo razão para que esse dispositivo seja ignorado. Se for eleito, construirei a nova capital e farei a mudança da sede do governo.

Aplausos e mais aplausos daquele povo acostumado a ser esquecido pelos governos. O autor da pergunta, Antônio Soares Neto, o Toniquinho, se assustou com o repentino sucesso. Havia pouco anos, ele tinha estudado a Constituição para um curso de tabelião de cartório.

Conceição Freitas
Da equipe do Correio Braziliense

 

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