Em Brasília há uma Lei que proíbe buzinar

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Em Brasília há uma Lei que proíbe buzinar
 
Mais do que um protesto na cidade,
que se diga
Brasília-comércio.
                             Préstito,
mais do que
passeata na cidade,
Brasília-manifesto,
procissão,
é a notícia.
 
Quando ouvi os carros,
desumanos,
buzinarem
o diretas-já da mudança.
 
Escutei as máquinas
ressoarem
marcha inédita.
 
Ouvi-la
me trouxe à memória
motores novos de ônibus,
aeroplanos,
deixando o cais,
os desmedidos.
 
Lembrei-me então
e ainda mais
de máquinas
da mão humana,
operárias, musicais,
alargando o horizonte
emergente
do cais.
São máquinas, estas, de mãos
que produzem outras
mãos
que fabricam mãos,
máquinas
que engrenam motores,
clarins, trombetas.
 
E foi como
se àquela hora,
em cada buzina,
tocasse a mão do operário
que a produz
e afina.
 
Afinal entendi
que o arraial de Brasília
(diz-se
feito para os carros)
pode também ser humano
– cada máquina, uma voz,
toda voz, o voto claro.
 
Ouvi os carros, acorde
sobre o tambor do DF.
Tal um balão
que alçasse vôo,
ao grito, lírico,
de amarelo.
 
Eu vi a gente,
ação dos carros,
refeita gente.
 
Hermenegildo Bastos, poeta baiano, natural de Salvador.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 


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