Linha do Tempo

Domingo, 17 de abril de 1960

Rodovia Belo Horizonte-Brasília – A rodovia Belo Horizonte-Brasília (BR-7), com extensão de 747 quilômetros, todos pavimentados, é hoje oficialmente inaugurada, embora tenha sido entregue ao tráfego público desde 31 de janeiro último, quando foi percorrida pela Coluna da Caravana de Integração Nacional que partiu do Rio de Janeiro.

Nas suas obras foram aplicados 4 bilhões e 700 milhões de cruzeiros pelo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem, responsável por 556 km da rodovia.

A construção da BR-7 decorreu da Lei número 3.273, de 1º de outubro de 1957, que fixou para 21 de abril de 1960 a transferência da Capital da República para Brasília e incluiu a ligação rodoviária entre a antiga e a nova Capital, através de Belo Horizonte, no plano federal de rodoviação.

O traçado espontâneo para essa via terrestre impôs o aproveitamento do trecho Rio de Janeiro-Belo Horizonte, que constitui uma estrada federal, a BR-3, já inteiramente concluída e pavimentada.

A BR-7 compreende, do ponto de vista de sua execução, três trechos distintos:

1) do km zero ao km 134, entre Belo Horizonte e a localidade de Lajes do Jacaré, forma a Rodovia Estadual MG-1, construída e pavimentada pelo Departamento de Estradas de Rodagem do Estado de Minas Gerais;

 

2) da Lagoa do Jacaré (km 134) à divisa do novo Município Federal (km 700) – trecho de 566 km – foi construída e pavimentada pelo D.N.E.R;

 

3) do km 700 ao km 747, trecho inteiramente situado no polígno do novo Município e que atinge o centro de Brasília, foi executado pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital (NOVACAP).

 

Diante do exíguo prazo de que se dispunha para concluir a BR-7 antes de 21 de abril, foi natural que se aproveitasse o trecho de 134 km da Rodovia MG-1, construído pelo Governo de Minas em direção ao norte do Estado.

Desta forma, transferiu-se o ponto de partida da BR-7 para Lagoa do Jacaré, uma vez que isto implicava, de outra parte, em incorporar à nova rodovia uma das zonas mais prósperas de Minas Gerais, altamente industrializada, e onde se encontram Pedro Leopoldo, Matozinhos, Sete Lagoas e Paraopeba.

Esse aproveitamento é justificado, ainda, pelo fato de ser mínimo o alongamento do traçado entre Belo Horizonte, Lagoa do Jacaré e Três Marias em relação à diretriz ideal que une os pontos extremos desse subtrecho, notando-se que a passagem da estrada a jusante da Barragem de Três Marias é condição obrigada do traçado.

De Lagoa do Jacaré em direção a Brasília, a diretriz da BR-7 foi fixada com passagens em Felixlândia, Três Marias, Canoeiros, João Pinheiro e Paracatu, em Minas Gerais, fazendo-se a transposição do rio São Francisco a três quilômetros a jusante da barragem em construção pela CEMIG. Em seguida, a estrada transpõe o rio São Marcos e entra no Estado de Goiás, passando em Cristalina e nas vizinhanças de Luziânia, para atingir finalmente o novo Distrito Federal.

O trecho de 566 quilômetros construído pelo Departamento Nacional de Estradas de Rodagem atravessa em oitenta por cento, aproximadamente, do seu traçado, região levemente ondulada ou mesmo plana, que constitui os chamados cerrados do Oeste mineiro.

Ainda assim, 21 milhões de metros cúbicos de terra foram escavados, a fim de implantar o leito da estrada sobre o terreno. Além disso, mais quatro milhões de solos selecionados foram escavados e transportados para constituírem, depois de cuidadosa compactação executada sob rigoroso controle técnico, a base estabilizada que suporta o pavimento asfáltico, cuja área reveste nada menos de quatro milhões de metros quadrados.

O pavimento executado pelo D.N.E.R, na Belo Horizonte-Brasília, constitui-se de um tratamento superficial betuminoso duplo, sobre base granular mecanicamente estabilizada que foi dimensionada pelo método do índice Suporte Califórnia para uma carga de 5.500 kg em cada roda. De um modo geral, empregou-se uma base de 20 cm de espessura constante, precedida de sub-base e reforço do sub-leito variáveis com as condições locais.

Para a pavimentação asfáltica tão somente foram extraídas e britadas 125 mil toneladas de pedra, enquanto 23 mil toneladas de ligantes asfálticos foram transportadas da Refinaria Artur Bernardes, em Cubatão (São Paulo).

Trinta e quatro rios exigiram outras tantas pontes de concreto armado para a sua transposição. Incluída uma passagem superior sobre a Rodovia MG-1, no trevo inicial em Lagoa do Jacaré, os cumprimentos dessas obras totalizam 3.177 metros. Isto só por si constitui obra de arrojo, porque significa que 5 metros de ponte tiveram de ser concretados durante dois anos, em cada dia de trabalho, contados domingos e feriados.

Entre as pontes da BR-7, destacam-se a do rio São Francisco, a mais longa, com 360 metros de comprimento; a do rio São Marcos, com 270 metros, na divisa Minas Gerais-Goiás; a do rio da Prata, com 190 metros; a do rio São Bartolomeu, com 192 metros; e a do rio do Sono, com 170 metros.

As primeiras máquinas chegaram aos canteiros de serviço em abril de 1958, pelo que o prazo efetivo de construção da estrada foi precisamente em dois anos.deduzidos, porém, os domingos, os feriados e os dias santificados, o prazo útil de execução (incluídos os dias de chuva em que não se pode trabalhar) foi de 556 a 570 dias. A média da produção efetiva na BR-7 corresponde, portanto, aum quilômetro de estrada por dia, desde o desmatamento, a construção dos bueiros e dos drenos, as cercas marginais, a implantação propriamente dita do leito estradal até a construção das pontes e da pavimentação betuminosa.

O projeto da BR-7, no trecho executado pelo D.N.E.R., obedece às exigências da estrada da classe Especial das “Normas para o Projeto de Estradas de Rodagens” aprovadas pela Portaria no. 19, de 10 de janeiro de 1949, do Ministério da Viação e Obras Públicas. Suas características gerais são as seguintes: Extensão: 566 km; raio mínimo: 214,18 metros, havendo grande predominância de curvas com raio superior a 600 metros; rampa máxima: 6%; pontes e viadutos: 35, com total de 3.177 metros; pavimentação: tratamento superficial duplo com emprego exclusivo de ligantes de produção nacional; investimento realizado pelo DNER: 4,7 bilhões de cruzeiros.

 

Serviço telefônico – O Presidente Juscelino Kubitschek inaugura, no Palácio das Laranjeiras, no Rio de Janeiro, pedindo uma ligação para Brasília, com o Presidente da NOVACAP, o serviço telefônico entre o Rio e a nova Capital. Ao ser completada a ligação, depois de dizer ao Senhor Israel Pinheiro quem falava, o Presidente Juscelino Kubitschek declara:

- Quero congratular-me com você pela inauguração das comunicações telefônicas com Brasília, melhoramento que vem colocar a nova Capital em contato com outras grandes cidades brasileiras e com o mundo inteiro.

Estabelece-se um diálogo, no decorrer do qual o Presidente da República comunica que se encontrava presente, no momento da inauguração oficial, o Sr. Wally Watts, vice-presidente da RCA Victor International, a quem iria condecorar, logo em seguida, com a Ordem do Cruzeiro do Sul. Estavam, igualmente, a seu lado, técnicos que haviam previsto que a obra realizada exigiria três anos. Entretanto, a mesma fora completada em cinco meses, tempo recorde.

Nesse período foram construídas 26 estações, numa extensão de 1.400 quilômetros, 52 prédios, 190 quilômetros de estradas e erguidas torres num total de 896 metros.

A ligação entre Brasília e o Rio, pelo sistema de microndas, dispõe inicialmente de 60 canais, número que será imediatamente elevado para 132.

 

Cruz de Cabral – Por via aérea, chega ao Rio de Janeiro, o Cônego Luciano Afonso dos Santos, do Cabido da cidade portuguesa de Braga, trazendo a cruz com que foi celebrada por Frei Henrique de Coimbra, em 1500, a Primeira Missa no Brasil. A cruz será levada para Brasília, onde permanecerá durante as solenidades de inauguração da nova Capital brasileira.

 

É um domingo agitado na quase oficialmente capital do Brasil. A cidade recebe inúmeros visitantes, os moradores recém chegados vão se acomodando ao ambiente e o presidente Juscelino inaugura, lá do Rio de Janeiro, o serviço telefônico entre a antiga e a nova capital, em um diálogo com o presidente da Novacap, Israel Pinheiro. A fotografia, reproduzida a época pela revista Manchete, retrata intenso movimento no Eixo Rodoviário Sul no dia da inauguração. (Foto: Arquivo Público do DF)

 

 

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Sábado, 16 de abril de 1960

Loba romana – Em carta dirigida ao Embaixador Aluizio Napoleão de Freitas Rêgo, Chefe do Cerimonial da Presidência da República, o Senhor Carlo Enrico Giglioni, Encarregado de Negócios da Itália, informa que o Governador de Roma entregará ao Embaixador do Brasil na Itália, destinada a Brasília, uma loba romana de bronze. Supremo Tribunal Federal – Iniciando os preparativos para a instalação solene do Supremo Tribunal Federal em Brasília, às 9h30m de 21 de abril, seguirá para a Nova Capital na próxima quarta-feira, dia 20, o Presidente, Ministro Barros Barreto, que viajará em companhia do seu oficial do Gabinete, Sr. Ruy Machado de Brito. Amanhã, domingo, seguirá para Brasília, o Secretário Geral da Presidência da República, Sr. Ismael Cavalcanti. Após a sessão solene de instalação em Brasília, o Supremo Tribunal Federal permanecerá em recesso, até que se iniciem seus trabalhos de julgamentos. Tribunal Federal de Recursos – A Presidência do Tribunal informa à imprensa que, em sessão realizada na última quarta-feira, dia 13, ficou deliberado o seguinte: a) ter sido realizada, naquele dia, aúltima sessão do Tribunal no Rio de Janeiro; b) o Tribunal está em recesso, não correndo prazos de qualquer natureza, nem havendo tramitação alguma, até a transferência integral e reinício dos trabalhos em Brasília; c) os funcionários continuarão com o regime normal, tratando e auxiliando a movimentação para a mudança, com as atribuições determinadas pelo Presidente, Ministro Afrânio Antônio da Costa. A sessão solene de instalação do Tribunal Federal de Recursos, em Brasília, será realizada às 10h30m, do próximo dia 22.  

Estamos a apenas 5 dias da inauguração de Brasília. O Congresso Nacional e os ministérios, assim como palácios e tribunais, encontram-se prontos para receber os funcionários transferidos da capital carioca. Na imagem, a vista do Congresso por entre os pilares do Palácio do Planalto, já no dia 21 de abril de 1960. (Foto: Arquivo Público do DF)

Segunda-feira, 18 de Abril de 1960

Organização Judiciária – O Diário Oficial publica a Lei no. 3.754, de 14 de abril de 1960, que dispõe sobre a Organização Judiciária do Distrito Federal de Brasília e dá outras providências. O Diário Oficial publica ainda as razões pelas quais o Presidente Juscelino Kubitschek vetou alguns dos dispositivos do texto aprovado pelo Congresso Nacional.   Comemorações em Ouro Preto – Em Ouro Preto, o Presidente Juscelino Kubitschek participa das festividades comemorativas de mais um aniversário do suplicio de Tiradentes, desta feita antecipadas pelo fato de estar marcada para 21 do corrente a mudança da Capital para Brasília. Na Praça Tiradentes, de um palanque, o Presidente Juscelino Kubitschek profere discurso em que se refere ao exemplo histórico dos Inconfidentes e à construção de Brasília como ponto de partida para uma nova era histórica no país.   NOVACAP – O Presidente Juscelino Kubitschek nomeia o Senhor Guilherme Machado para o cargo de Diretor da Novacap, na vaga do Senhor Íris Meinberg.   Prefeito de Brasília – O Presidente Juscelino Kubitschek nomeia o Senhor Israel Pinheiro da Silva para o cargo de Prefeito do Distrito Federal de Brasília.   Exposição de Nova York – A imprensa assinala que o stand do Brasil na XV Feira Mundial de Nova York, a inaugurar-se no próximo dia 4 de maio, terá como tema central Brasília. O projeto, extremamente harmonioso, procurou captar o sentido arquitetônico da nova Capital, em suas linhas de singeleza e simplicidade. O pavilhão reproduz, externamente, o Palácio da Alvorada. Atrás das colunas, internamente – de maneira a não serem vistas do lado de fora – ficarão situadas as vitrinas, em que serão expostos, em pequena quantidade, de forma quase que simbólica, os principais e mais expressivos produtos brasileiros, significando o progresso do Brasil atual. Máquinas colocadas ao fundo do pavilhão, responderão, automaticamente, às mais variadas perguntas sobre nosso país. Nas paredes, serão colocados mapas luminosos do Brasil e de Brasília. A organização do pavilhão brasileiro está a cargo do Senhor Francisco Medaglia, Direto do Escritório Comercial do Brasil em Nova York.   Ordem dos Advogados – O Conselho da Ordem dos Advogados do Brasil designa uma comissão, sob a presidência do Professor Nehemias Gueiros, para providenciar a instalação da Seção da Ordem no novo Distrito Federal de Brasília.   Ministério da Saúde – Ao embarcar para Brasília, o Professor Mário Pinotti, Ministro da Saúde, dirige a seguinte mensagem ao povo do Rio de Janeiro: “Ao deixar o Rio de Janeiro com destino a Brasília, nova Capital da República, é com a mais grata satisfação que me dirijo aos cariocas para externar-lhes a minha acendrada esperança no futuro do Estado da Guanabara, que será o marco decidido da expansão e do progresso do seu povo. Se Brasília, obra memorável e ciclópica do presidente Juscelino Kubitschek, representará para a pátria brasileira a bendita e promissora evolução do seu desenvolvimento econômico, também o Estado da Guanabara irá representar um dos seus maiores pontos de apoio, quer no aspecto político cultural, quer no econômico, conjunto de fatores que assegura ao Rio, de muito tempo, um lugar de alto destaque no cenário do Brasil. A frente do Ministério da Saúde, aqui no Rio, não desfitei um só momento o panorama imenso do Brasil, empenhando-me pela melhoria crescente do estado sanitário do seu ‘hinterland’, propiciando melhores condições de saúde às suas gentes. Todavia, nem por isso mesmo, o Ministério da Saúde descurou-se do seu dever para com as grandes metrópoles que concentram, em seus limites, milhões de patrícios e semelhantes necessitados de assistência médico-social. Agora, que Brasília será o elo visível da integração e da unidade nacional, continuarei no recesso do planalto central, no mesmo posto, olhando o Brasil caminhar para as suas novas dimensões, impulsionando, com o entusiasmo que sempre foi o meu apanágio, a máquina do Ministério da Saúde, no sentido de tornar o Brasil um país livre das grandes endemias que ainda flagelam suas populações. A esta Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro o Ministério da Saúde não faltará com a sua colaboração marcadamente interessada no seu bem-estar, principalmente por dever de gratidão para quem carinhosamente hospedou o Governo da Nação por quase dois séculos sem desvincular-se da nobre e brava independência cívica de seus filhos de tão fecundas realizações para a Pátria comum. Em Brasília, serei um carioca a serviço do Brasil." Inspetoria Florestal – O Presidente Juscelino Kubitschek cria, em decreto, a Inspetoria Florestal do Distrito Federal de Brasília. Fuzileiros Navais – Chegam a Brasília os fuzileiros navais e marinheiros integrantes da Operação Alvorada, e que realizaram o percurso Rio de Janeiro-Brasília à pé. Supermercado – Inaugura-se em Brasília o moderno supermercado para abastecimento inicial dos moradores do Plano Piloto, com 60 funcionários especializados.  

Brasília vai de vento em popa. A cidade recebe diversos visitantes que vêm conferir a promessa de JK tornando-se realidade. O presidente, por sua vez, nomeia Israel Pinheiro ao cargo de primeiro prefeito do Distrito Federal. No Plano Piloto, é inaugurado um moderno supermercado para abastecimento inicial dos moradores, com 60 funcionários especializados. Mas não é só no Brasil que a cidade planejada dá o que falar, a imprensa internacional assinala que o stand do Brasil na XV Feira Mundial de Nova York, em maio, terá como tema central Brasília.  Salve 21 de abril! (Foto: Arquivo Público do DF)