Dois poemas de Joana: A travessia

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Dois poemas de Joana: A travessia
(ou uma tentativa apenas)
 
Vozes eufóricas e
fortes zumbidos
se espalhando
no enorme corredor
mal iluminado do Minhocão.
A aula que não houve
se transforma
no estudo solitário
da diacronia
da Língua Portuguesa,
segundo Marcos.
Sorrisos, risadas e
gargalhadas escandalosas
não me deixam concentrar.
Já não percebo
a voz monocórdica
dos professores nas salas.
Início tardio
do semestre letivo.
Caótico.
É o caos da greve
deixando os estilhaços
em nosso caminho.
Como obstáculos,
a pedra no meio do caminho.
Lá fora,
a moto sem silencioso
sai em disparada no
breu estacionado no ICC Norte.
E eu adoro silêncio.
Espero a carona
até no último minuto.
O barulho oscila
entre as vozes meio gritadas
e o volume alternado do ruído
dos saltos-agulha que
desfilam fazendo
um eco comprido
até se tornarem inaudíveis.
A leve brisa espalha
o cheiro da erva sagrada,
tal capim santo.
Hoje, os rapazes
disputam a histeria ruidosa
com as moças.
E se sobressaem brilhantemente.
Atravessar a nado
o Lago Paranoá.
Pedir socorro e abrigo
aos monges beneditinos
ou às irmãs carmelitas.
Poder calar e descansar
para ouvir o mais fundo
do meu coração.
 
A LIMPEZA DA CAPITAL..
 
No frio seco da manhã,
em meio a nuvens
do vento empoeirado.
Lá estão elas…
Lá estão eles…
Tentam agasalhar-se,
e a se proteger
como podem.
De longe, percebo
o alaranjado movimento
do azul de seus casacos.
Vassouras, pás,
sacos de lixo,
baldes e carrinhos…
Estou confortavelmente
congelada dentro
do carro.
Olhos admirados
e agradecidos.
— Cenário típico e
aburguesado.
Tento acompanhar
o grupo por um instante
para adivinhar-lhes
os sonhos…
As cuidadoras
e os cuidadores da cidade
transpiram cansaço.
Da vida
Das viagens
Das madrugadas
Dos ônibus
mal cuidados
em direção
ao Plano Piloto.
Do almoço dormido
em suas marmitas.
E da volta pra casa,
que não termina nunca…
Preservam o bom humor,
apesar de tudo.
Será que todos sabem
que há muita sujeira
espalhada pela cidade
que o seu trabalho
nunca vencerá?
Abençoai-as, abençoai-os,
Ó Senhora Padroeira
da mais bela catedral do país!
E também a nossa cidade,
porque Brasília
está carente de bênçãos
e de luz.

Joana Eleuterio, poetisa mineira, natural de Bom Despacho.

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