De todas, a mais formosa

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Os avarentos 2,7 milímetros cúbicos de chuva que caíram sábado, dia 30 de agosto, sobre a terra seca do quadradinho serviram pra muito pouco – pra matar a saudade, pra menino brincar de chuveiro, pra uma noite bem-dormida e um dia menos causticante. Um só e nada mais. (A metereologia prevê chuva mesmo, do tipo temporal, só na segunda quinzena do mês.)
A pouca chuva fez um estrago no coração dos morcegos e no meu. E pode de algum modo ter estragado os planos de boa safra de pequi na cidade. A chuva se esqueceu de perguntar aos pequizeiros se a hora era boa. No cerrado, chuva que se preza só cai depois que as flores do pequi foram fecundadas. Se cai antes, as formosas se desprendem da árvore antes da geração do fruto propriamente dito e adeus, pequi.
Formosas é pouco para dizer da estonteante e sofisticada beleza das flores do pequi. Para quem nunca viu ou não se lembra, antecipo que das flores, é uma das mais belas. Digo até que, no meu ranking particular, é a mais linda de todas. Tentarei reproduzir em palavras a beleza escrita pela natureza do jeito que só ela sabe escrever. De um prato de pétalas sólidas como folhas, nascidas de botões vermelho-vinho, emergem centenas de estames compridos – estame, diz a aula de biologia, é o órgão masculino da flor. São fios compridos e tesos, de um amarelo puxando pro branco, e que terminam numa bolinha amarela. A formosinha se chama antera e ela é estufada porque contém os grãos do pólen.
É uma flor grande, mais parece um buquê de fios de ovos esticados. É o sonho de consumo dos morcegos que dela tiram o néctar e retribuem fazendo a polinização – levam o grão de pólen até o órgão feminino da flor. E está feito o pequi. Mas também recebe a visita diurna e noturna de mais de uma dezena de aves.
A maioria das flores de alguns dos pequizeiros meus conhecidos caíram na chuva de sábado passado. O chão virou um tapete amarelo, tristemente bonito. Já chorava a ausência de pequi no próximo dezembro quando o Parque da Cidade me acalmou. Os pequizeiros de lá estão com as flores vivíssimas e, em alguns, elas ainda nem brotaram.
No sertão goiano e mineiro, se diz que quando as flores do pequi caem, naturalmente, é porque a chuva vem-vindo. Se a temporada for de muito aguaceiro, a produção do fruto será menor. Se a água for pouca, sinal de muito pequi. É um fruto singular mesmo, não só pelo formato, cheiro, cor, gosto, espinhos, mas pelas circunstâncias de onde brota. Pequi não gosta de chuva, é filho da seca, viceja na dificuldade. E a flor do pequi é quase intangível nos seus estames finos como linha de costura. E tão logo se desconecta do fio terra, morre. Singulares como tudo no cerrado, singular como Brasília.

Conceição Freitas.
Reproduzido do Correio Braziliense
"Crônica da Cidade", 07/09/2008

 


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