Da origem do nome

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Da origem do nome
Por Graça Ramos

Quando, em 1923, o poeta e diplomata paraense Osvaldo Orico (1900-1981) publicou, com a ajuda de Monteiro Lobato, o livro “Dansa dos Pyrilampos”, não imaginava que o poema “A cidade do Planalto” traduziria muitos aspectos de Brasília, cidade que se tornaria o centro nervoso do poder brasileiro a partir de 1960. Seus versos antecipariam, por deslocamento, o nome a ser dado ao principal palácio da cidade:

Oh! a cidade que irá surgir

bela, sobre o planalto, além dos horizontes,

A que não foi preciso descobrir,

a que o olhar divisou pela encosta dos montes,

Cidade sem o lenço azul das caravelas,

Cidade do porvir,

longe do mar, Cidade perto das estrelas…

Mas eu te amo assim mesmo, em teu futuro.

amo o trabalho humano que há de levantar

sobre os teus montes, edifícios de ouro

e a igreja branca onde talvez eu vá rezar.

No ano anterior à publicação do livro de poemas, o Brasil comemorou o centenário da Independência, momento político que reativou discussões a respeito da transferência da capital brasileira para o interior do país. Entusiasta dessa ideia, Orico escreveu “A cidade do Planalto” para comemorar outro centenário, do memorando que José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838) encaminhou à Assembleia Constituinte, em 1823, propondo formalmente a discussão da transferência da capital do Império, sugerindo inclusive o nome de Brasília ou Petrópole. Desde o Brasil colônia, a ideia de interiorização da capital já era aventada, mas ainda sem a definição do local em que seria instalada. Foi o Patriarca da Independência, grande incentivador da mudança, o primeiro a propor oficialmente uma área, no caso, próxima à recém-criada Comarca de Paracatu do Príncipe.

A menção à região do Planalto no poema de Orico vincula-se ainda ao artigo terceiro da primeira Constituição republicana, datada de 1891, que requisitou para a União uma área de 14 mil 400 quilômetros quadrados, no “planalto central da República, que será posteriormente demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”. Um ano depois, o governo instituiu a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, chefiada por Luis Cruls, que terminou por determinar a área onde poderia ser instalada a nova capital, no que ficou conhecido como Retângulo ou Quadrilátero Cruls.

A Constituição de 1934 mantém a ideia da transferência da capital federal, mas aquela que se constituiu a carta autoritária assinada por Getulio Vargas (1882-1954) em 1937 não mais menciona o tema. O ditador posiciona-se contra a ideia de esvaziamento do Rio de Janeiro, e entende que um país forte necessita de uma cidade-capital igualmente poderosa. Constituintes de 1946 recuperam a necessidade da transferência. Segundo o artigo “Uma ilha longe do mar”, de Marly Motta, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas, chegam a propor um novo local, indicando a região do Triângulo Mineiro como a ideal para receber a nova cidade. Representante de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek (1902-1976) foi defensor dessa proposta, que terminou sendo derrotada pela escolha do Planalto Central como a melhor área, o cenário geográfico em que seria implantada a futura capital.

Mais à frente, foi ele, que ficou conhecido pelo uso de suas iniciais, JK, quem finalmente conseguiu realizar a transferência da capital, com a construção de Brasília, iniciada em 1956 e inaugurada em 21 de abril de 1960. No meio do ermo do Planalto Central, em velocidade impressionante, ele interiorizou a sede do poder com a cidade de caráter e ideário modernista.

O rápido resumo da história constitucional da ideia da transferência e do local sugerido para abrigar a nova sede do poder demonstra que, a partir da Proclamação da República (1889), a palavra planalto começa a ser associada à ideia que já estava no discurso político da transferência. Orico termina por ser o autor de uma proposta de nome próprio para a cidade a ser criada. Embora Brasília tenha sido a designação escolhida, em termos metonímicos – quando um significante desliza em outro, tomando seu significado – a capital é conhecida como “a cidade do Planalto”. Referência que se deve não só à região geográfica, mas também ao nome do seu mais importante palácio.

Na investigação da toponímia, que é o estudo dos nomes próprios, importa obsevar que JK era amigo de Osvaldo Orico, que havia sido deputado federal pelo Pará, eleito pelo Partido Social Democrático (PSD), o mesmo do presidente. JK admirava o poema –  gostava, especialmente de sua finalização (“Cidade que fugiu das ondas e das praias/para ficar vizinha das estrelas”) -, o que terminou reforçando nele a ideia de que a denominação Planalto era a mais apropriada para ser dada ao palácio que sediaria o Executivo brasileiro.

Quando começa a construção dos prédios de Brasília, Orico ocupa posto importante na diplomacia para a divulgação da cidade aos intelectuais e à imprensa internacional. Entre 1957 e 1958, o intelectual que chegou a ser considerado o “príncipe dos cronistas brasileiros” atua como ministro para assuntos econômicos na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris, trabalhando ativamente no convite a personalidades para que venham conhecer o canteiro de obras daquela que será a capital erguida no solo agreste e descampado da região do altiplano brasileiro.

Até o batismo com o substantivo que se vincula à topografia da região central do país, significando grande extensão de terreno plano e elevado, o palácio de vidro recebera inúmeras designações. De Palácio dos Despachos, a mais conhecida, a Palácio Administrativo, sendo também chamado de Palácio do Governo e Palácio Presidencial II. Nenhuma delas agradava ao presidente que decidira concretizar a mudança da capital.

A escolha do nome para o palácio residencial fora mais fácil. Em “Por que construí Brasília”, JK explicou sua decisão. “O que era Brasília senão a alvorada de um novo dia para o Brasil. Ao palácio presidencial ajustava-se a expressão simbólica”. A designação contemplava, e ainda abarca, amplo espectro de significados: da claridade que precede o romper do sol, ao canto das aves ao amanhecer, assim como o toque militar nos quartéis ao despontar da manhã.

Em termos políticos, a escolha agradou de imediato desde assessores-poetas como Augusto Frederico Schmidt (1906-1965) até o grupo de militares mais próximos ao presidente. Apesar disso, até meados de 1957, o edifício era mais conhecido como Palácio Presidencial. O nome Palácio da Alvorada se tornará popular rapidamente, sendo que a primeira vez que aparece em um texto é na revista “Brasília”, em artigo assinado por Osvaldo Orico, em outubro de 1957. A revista, editada pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), era, então, o principal veículo de divulgação das atividades relacionadas à construção da cidade.

Pouco depois da escolha do projeto de Lucio Costa para o Plano Piloto de Brasília, em março de 1957, começaram as conversas sobre o nome a ser dado ao palácio administrativo previsto para a Praça dos Três Poderes. Com a definição do modelo urbanístico a ser adotado na nova capital, foi determinado que os poderes republicanos ficariam todos instalados na mesma área.

Juscelino começou, então, a testar o nome Planalto de maneira sutil. Sempre que possível, substituía o nome Brasília por Planalto durante conversas informais ou mesmo quando solicitava algo referente às viagens de inspeção das obras, realizadas nos finais de semana. Dizia a assessores: “amanhã vou para o Planalto”. No livro de memórias, são recorrentes esses deslocamentos do nome da cidade pelo da região geográfica em que está situada. “No inicio de 1958, o Planalto era a mais movimentada frente de trabalho do mundo”, relembrou anos mais tarde em outro volume de suas memórias.

Convencido do poder do nome, o presidente resolveu adotá-lo oficialmente. “Ao outro palácio, que se chamava então dos Despachos, e que está situado na Praça dos Três Poderes, dei o nome de Planalto, designação que lembra a origem geográfica de sua localização”, recordou no já citado “Por que construí Brasília”. Ainda, segundo ele, “o Planalto era o interior, o Alvorada, o futuro”, conforme consta do livro “JK – o artista do impossível”, de Claudio Bojunga. Tão logo o presidente passou a chamar o palácio pelo nome de Planalto, os principais assessores também começaram a fazê-lo.

Da mesma forma como ocorreu com o Alvorada, Orico foi o primeiro a utilizar o nome Palácio do Planalto em um texto, também publicado na revista “Brasília”, desta vez em dezembro de 1957. Durante a construção da cidade, o poeta viera visitar as obras, encontrando-se muitas vezes com JK. Ele tinha especial interesse na estrada Belém-Brasília, que considerava de imensa importância para o desenvolvimento da Região Norte do país, de onde era originário. Também amigo de Raimundo Nonato, diretor da revista, Orico foi convidado a escrever os dois artigos mencionados.

Ao publicar “Brasil, capital Brasília”, lançado em 1958, o primeiro livro sobre a capital em construção, com versões em inglês e francês, o escritor forneceu mais detalhes a respeito das escolhas feitas por Juscelino para batizar os palácios brasilienses:

“O senso paisagístico das construções identifica Brasília com a região em que desponta. As palavras que batizam seus edifícios tem aroma. Se as letras, como quer Rimbaud, possuem cor, as palavras possuem asas, como queria Victor Hugo: ‘les ailes dês paroles’. Transportam-nos para a imagem que exprimem. Não é mais novo, atraente, original, em vez de dizer Palácio do Governo, dizer Palácio do Planalto? Não é mais sugestivo chamar Palácio da Alvorada à casa residencial do Presidente? E que é, por sinal, a primeira construção definitiva, quando Brasília nascia?”

Em outro livro, intitulado “JK – Confissões do Exílio”, Orico relata a visita realizada a Brasília por ele e a filha, a atriz e cantora Vanja Orico (1931-), famosa na época pela interpretação da música “Mulher rendeira”, de Zé do Norte, que fazia muito sucesso entre os operários vindos do Nordeste. Segundo o autor, JK mostrou-lhe as obras da cidade, do alto – dentro do avião que os trazia do Rio de Janeiro para Brasília -, e começou a apontar para todos os lados e a identificar os prédios: “Ali é o Palácio da Alvorada; a Praça dos Três Poderes; mais adiante o Palácio do Planalto; do outro lado, a Catedral e, naquela época, a Esplanada”. Não se falava ainda em palácios específicos para abrigar os ministérios das Relações Exteriores e da Justiça. “O que mais se via era a terra vermelha e tratores, mas para o presidente era como se os prédios já estivessem todos lá”, relembrou Vanja Orico.

O maior canteiro de obras era no local destinado à Praça dos Três Poderes, pois o terreno precisou ser ajustado em sua topologia, de maneira a atender às concepções de Lucio Costa, que queria os palácios alinhados à futura Praça. Hoje, se pensarmos na posição em que o Palácio do Planalto está situado, rente à Praça, mas dez metros acima da via N2, que passa nos fundos do edifício, é possível observar que, devido à colunata, que funciona como pilotis, a perspectiva a partir dele é sempre a do horizonte. Um olhar para o mais distante, o que reforça o poder do nome escolhido.

Ao relacionar o palácio presidencial à região de escudos cristalinos, área de forte claridade devido à altitude de 1.100 metros acima do mar, onde a cidade-capital se insere, podemos também inferir que JK esperava que essa associação sinalizasse para o país que a sede do governo federal estava atenta a todas as regiões do Brasil. Como previra o poema, um palácio que reluzia e do alto dos montes enxergava o país.

Um título, às vezes, não é algo que se consagra de imediato. Somente nos meses anteriores à inauguração da cidade é que o nome Palácio do Planalto começou a se consolidar entre as pessoas e em textos publicados. Até então a designação Palácio dos Despachos continuava dominando reportagens e artigos e estava presente, em especial, na voz dos operários que erguiam a cidade. A primeira identificação era tão conhecida que a logomarca instalada no canteiro de obras pela construtora que ergueu o prédio, a Pacheco Fernandes Dantas (PFD), era lida por operários e visitantes como Palácio Federal dos Despachos. A marca ficava instalada no alto da primeira coluna orientada, no leste, em direção ao Lago Paranoá, conforme fotos da época.

Cinco décadas depois da inauguração da capital, o que chama a atenção é que na cidade planejada, cujas ruas são conhecidas por estranha junção de letras e números, apenas os dois palácios presidenciais batizados por Juscelino tenham nomes próprios inéditos. O Catetinho, primeira residência presidencial em Brasília, remetia ao Palácio do Catete, sede do governo federal no Rio de Janeiro, quando a cidade era a capital do país. O Palácio do Itamaraty, eventualmente chamado de Palácio dos Arcos, manteve o nome histórico dado à sede do Ministério das Relações Exteriores na ex-capital.

Sabemos que nomear é eleição carregada de simbolismos. A observação sobre as escolhas dos nomes Palácio do Planalto e Palácio da Alvorada nos leva à convicção de que o criador da cidade, ao batizá-los, o fez de maneira a marcar o momento histórico de criação de uma capital planejada para ser construída no meio do Sertão, onde, no dizer de Cardozo, “cavaram profundas abóbadas/Romperam pátios, galerias…/possuídos de ciência infusa/Extraíram a noite-espuma,/Oclusa na rocha”. Ao nomear os palácios da cidade inventada, JK terminou por repetir o padrão de nomeação do país, relacionado a um elemento natural, a árvore pau-brasil. Como haviam feito os portugueses, deixou que a natureza impusesse o batismo. Desejou inserir nomes que tornassem ainda mais poéticas as imagens desses palácios feitos de vidro, cimento e mármore branco e erguidos sobre a terra cor de sangue do altiplano deserto.

Texto transcrito do livro “Palácio do Planalto: entre o cristal e o concreto”
ITS – Instituto Terceiro Setor


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