DA AMPLIDÃO

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DA AMPLIDÃO

Azulejo de paredes frias
Montanha de pele surda
Jornal amarfanhado
nos dentes dos aviões?

Planta uiva podre
Lago avenida
e torre:
sangue

Dentro da nossa febre
sempre cantam estas cigarras
tontas e lerdas
brancas e pardas

Pode ser
este horizonte retilíneo
ou o ônibus
ou a pressa
quem sabe o vazio das vielas?

Que a cidade detém os pássaros
nas artérias do vento

Manhã nem é dia
para a rede macunaíma
e o tempo aleijadinho
só vomitou pedras lodacentas

Tantas vezes
as mãos eram socos
nos olhos desta cidade

No entanto
o asfalto luzidio:

não se sabe
por onde foi
o mar
desta cidade

Não se retomará quase nada
nem mesmo é um jeito
de se sorrir dos palácios

A tortura
não esmaga o eixo das flores amarelas
Ou talvez
não mais se sonhe
por aqui

Vindos do Brasil inteiro
inteiros não somos mais:
a cidade estraçalha
nossos corpos famintos
a cidade espicaça
nossos sonhos famintos

E famintos:
não se sabe
por onde foi
a canção
desta cidade

Mormaço calor cerrado
espaço branco azulado
chuva rente primavera
Alegria a gente inventava
sem precisar de máquinas

Hoje realmente
não se sabe
por onde foi
por onde foi
por onde foi?

Stela Maris Rezende, poetisa mineira, nasceu em Dores do Indaiá.
"Poetas de Brasília"

 


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