Cyro, o poeta e Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts 1 Comentário

Por Conceição Freitas
 
Peça preciosa chegou via postal, delicadeza do leitor Pedro Rogério Couto Moreira. Trata-se de cartas trocadas entre o escritor Cyro dos Anjos, em Brasília, e o poeta Carlos Drummond de Andrade, no Rio. Entre o subchefe do gabinete civil da Presidência da República no governo Juscelino Kubitschek e o colega de repartição de Lucio Costa.

Em 23 de maio de 1960, o autor de “O amanuense Belmiro” escreve ao amigo e compadre que, declaradamente, estava inconformado com a mudança da capital.

“Meu caro poeta, esta não é ainda a carta que lhe quero escrever, dando noticias de minha nova morada. Envio-lhe apenas umas linhas para acompanhar a do seu afilhado, escrita do próprio punho e lavra, salvo quanto às anedotas do criado-mudo e do candango que fala no edifício como uma cuia pra riba e outra emborcada – parte em que valeu da colaboração do João Carlos.

Estou gostando muito da terra, e uma das razões deve ser a de que burro velho aprecia capim novo. Mas há outra:
1 – uns crepúsculos fabulosos (das auroras ainda não posso dar noticias, mas qualquer dia madrugarei só para vê-las);
2 – um horizonte imenso, abarcante, que se insinua por toda a parte, enfiando-se pelas casas e até pelas almas adentro. O qual horizonte é tão dilatado e sereno, que a gente é conduzida a todo instante a matutar no Sumo Arquiteto – esse que faz, nas nuvens, palácios mais leves do que os de Oscar Niemeyer – e a conversar sobre temas como a imortalidade da alma, etc., tal como sucedia, em tempos idos, na Praça da Liberdade, às 3 da manhã, ao se encerrar uma serenata;
3 – noites estreladas em que ouve, de verdade, a pitagórica música das esferas;
4 – a terra é praiana, chã e formosa, com pequenos outeiros mui disfarçados e algumas veredas mui graciosas.

Por outro lado, sinto-me devolvido à minha paisagem de infância, neste tabuleirozinho, meio campo, meio cerrado, onde bodoquei passarinho (sem acertar nenhum) nas orlas de Montes Claros. O ar é seco, à noite vem o friozinho de Belo Horizonte, outro motivo de retrospectivas ternuras. Seu velho compadre, Cyro.”

Vinte e dois dias depois, Drummond responde: “Eu já soubera, por algumas fontes, que você se aclimatara bem no planalto, o que me causou satisfação, pois não haverá muitos dramas superiores ao de nos sentirmos estranhos e sobrando numa cidade. Acredito que a identificação com paisagens da infância e crepúsculos belo-horizontinos ajudou a coisa; já eu não teria maior facilidade em incorporar-me ao ambiente, por faltarem aí as tenebrosas montanhas de ferro da minha região e também porque, a essa altura dos acontecimentos e da vida, sinto que vendi minha alma ao Rio.”

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense, de 21 de fevereiro de 2014.

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Comentários (1)

  • Mara Ferret

    |

    Brasília é uma cidade impar e saber dos detalhes melhor ainda…

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