Cruzeiro de estradas

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Brasília, Catetinho, por volta de sete horas da manhã, final de abril de 1957. O instinto kubitschekiano dispara de novo. Madrugador, o presidente se prepara para despachar alguns papéis, quando alguém avisa que Bernardo Sayão, diretor da Novacap, acaba de chegar. Na mão, o inseparável chapelão de feltro. Coincidência. Juscelino conta que Sayão não saía de sua cabeça nos últimos dias. Naquele início de manhã mesmo, já se lembrara dele várias vezes. Explica: o sonho de fazer a estrada Belém-Brasília pegara fogo na sua mente. Martelava sem parar, irresistivelmente. Mais de dois mil quilômetros, dos quais seiscentos em plena mata virgem e fechada. Um caminho estratégico para o desenvolvimento e para a integração nacional. Selva misteriosa e cheia de insídia. Expedições havia desaparecido. Experientes furadores de mato habituados ao perigo tinham sido tragados. JK sabe que o homem capaz de comandar a arrancada rumo à Amazônia é exatamente Bernardo Sayão, a quem considera o Fernão Dias do século XX. Porque é um bandeirante moderno, que usa avião – um teço-teco – em vez de botas. Tem audácia, coragem, determinação e, sob a capa de desbravador sem medo, oculta um coração de criança. Reúne bravura e bondade, virtudes que nem sempre coexistem na mesma pessoa. Mais: sabe que é o maior sonho de Sayão e que ele, já em 1949, quando dirigia a Colônia Agrícola de Ceres, em Goiás, tinha preparado um primeiro traçado ligando Belém a Anápolis.

Juscelino despeja entusiasmo sobre o projeto. Percebe que Sayão devora cada palavra, o olhar fixo, a fisionomia alterada, emocionada. "Você será capaz de rasgar esta estrada, Sayão?"

Coração disparado, o valente dá um salto. Juscelino: "Via-o diante de mim, imponente na sua estatura gigante, mas constrangido em sua inata modéstia pela honra que, de súbito, lhe fora conferida." "Sempre sonhei com essa estrada, presidente. Posso dizer que este é o momento mais feliz da minha vida. Quando deseja que eu dê início à construção?" "Imediatamente." Sayão corre para o seu teço-teco e voa para Goiânia. Está resolvido. A decisão tomada por dois bandeirantes, cada um a seu modo, ambos apaixonados por grandes desafios. Não havia projeto, não havia recursos definidos, não havia quase nada. Apenas uma avaliação subjetiva, um oceano de desinformação e muita floresta espessa, desconhecida, desafiadora. Belém-Brasília, glória e túmulo de Bernardo Sayão, vai ser feita. Centenas de quilômetros de mistério que Sayão descreveu assim:

"A selva é tão fechada e alta, que ninguém sabe o que está sob ela; e, se cair um avião, por maior que seja, ela abre o seio, recebe-o e torna a fechar-se, fazendo-o desaparecer para sempre."
(…)

Reproduzido do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

 


Trackback do seu site.

Tags:

Deixe um comentário


Leia também:

A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

O texto de Antônio Carlos Jobim Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios.…

Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza! Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós nenhuma surpresa. Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato que te faz surgir num descampado, o olhar firme, …