Construir a futura Capital

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Construir a futura Capital dentro de um prazo certo e muito curto exigia que nada fosse esquecido ou descurado. Nenhuma providência se definia, previamente, como de importância menor. Todas, na verdade, traziam o sinete de "urgente" e constituiam um conjunto de peças que se completavam. Mas, dois problemas se situavam na área das prioridades essenciais: erguer os prédios onde os três poderes da República pudessem funcionar condignamente e construir moradias em número suficiente para atender aos funcionários públicos que demandariam Brasília como suporte das necessidades administrativas dos primeiros tempos.

O palácio-residencial do Presidente fora iniciado antes mesmo que houvesse um projeto para a cidade; antes, portanto, que se soubesse sequer como seria, como viria a ser a nova capital. O prazo era pequeno, impunha-se ganhar tempo. Um ano e meio (em 30-06-1958) o palácio era inaugurado. Mas, destinava-se a residência do Presidente e não a seu local de trabalho.

Conhecido, entretanto, o resultado do Concurso do Plano Piloto, logo se cuidou das providências que levariam à construção das Casas do Executivo, do Legislativo e do Judiciário, bem como dos ministérios, a começar pelo enorme movimento de terra necessário à definição dois terraplenos, em níveis diferentes, onde se localizariam aquelas construções.

Lúcio Costa projetara o primeiro terrapleno, a que dera o nome de Praça dos Três Poderes, na forma de um triângulo eqüilátero, situando em cada ângulo um dos Poderes. Esse triângulo, como se sabe, é considerado a forma justa do equilíbrio, e assim Lúcio Costa queria simbolizar que os Três Poderes, igualmente importantes e autônomos, se interligavam harmoniosamente num relacionamento de perfeito equilíbrio.

Nos primeiros meses de 1958, iniciaram-se as obras, propriamente ditas, do Congresso Nacional e do Palácio dos Despachos. Este viria a chamar-se Palácio do Planalto.

O estaqueamento do prédio do Congresso começou em 4 de janeiro. Ao se iniciarem as obras da estrutura Juscelino e o Presidente Alfredo Stroessner, do Paraguai, que visitava Brasília, lançaram, juntos, a "pedra fundamental".

 

General Stroessner na 1ª. Estaca do Palácio da Justiça
Foto: Arquivo Público do DF

A construção, num total de 32.776m2, ficou pronta em dezembro de 1959, salvo arremates finais, atendidos o inicio de 1960.

O prédio do Congresso se completava com dois anexos, um para o Senado, outro para a Câmara, ambos com 28 pavimentos (o mais alto prédio previsto para Brasília), totalizando 29.000m2, construídos a partir de estruturas metálicas adquiridas nos EEUU, juntamente com as estruturas metálicas dos onze ministérios, dentro de um "pacote" vinculado a empréstimo de 10 milhões de dólares, contratado com o Banco de Exportação e Importação em 20 de setembro de 1957.

A Casa do Legislativo, ao ser inaugurada em 21 de abril de 1960, provocou alguns resmungos de pequenos setores da Oposição radical. Deputado da UDN chegou a apresentar projeto de lei que autorizava o Poder Executivo a abrir crédito especial destinado à construção de uma nova sede para o Congresso e a doar à Prefeitura de Brasília o edifício recém-inaugurado, por entendê-lo "infuncional".

A simples leitura da Memória que Lúcio Costa apresentara com seu Projeto, indicaria o absurdo de se pensar numa prefeitura substituindo o Congresso Nacional na Praça dos Três Poderes. E havia ainda a considerar que o projeto do edifício, da autoria de Niemeyer, fora enviado, previamente, ao Congresso, para exame e sugestões e lá permanecera por muito tempo sem que nenhum deputado ou senador oferecesse qualquer contribuição ou reparo.

O projeto de lei do deputado udenista sequer recebeu da Mesa despacho de encaminhamento às Comissões, tal o desarrazoado de sua formulação. Mas serviu para demonstrar a que ponto chegara a paixão política naqueles dias, o aturdimento da Oposição intransigente ante as manifestações consagradoras que recebia o Presidente Kubitschek, quer no país, quer do exterior, pelo sucesso do seu governo e do seu Plano de Metas, onde avultava a obra notável, por suas proporções e complexidade, da interiorização da Capital.

O Palácio do Executivo, com área de 36.000m2, teve suas obras iniciadas também no começo de 1958. Nesse ano foram executados os serviços de terraplanagem, fundações, concretagem de blocos e baldrames. No ano seguinte, concluiu-se a estrutura e iniciaram-se as obras de acabamento, finalizadas só às vésperas da inauguração da cidade, quando pode ser apresentado na plenitude de sua beleza.

O terceiro pavimento fora reservado para uso pessoal do Presidente da República. Os amplos salões, bem como os gabinetes de despacho, de audiências e de trabalho, receberam espesso carpete verde-escuro e poucos móveis, mesas de jacarandá apoiadas em armações de metal dourado, algumas poltronas e, marcando e definindo ambientes, tapetes macios de extremo bom gosto. A sobriedade era a nota dominante.

Do seu gabinete, o Presidente tinha a visão do lago, do Palácio da Alvorada e, mais adiante, a perder de vista, do planalto imenso e sem fronteiras.

Novecentos jornalistas, de rádios, jornais, revistas e televisões, do Brasil e do exterior, haviam recebido credenciais faltando ainda três dias para a inauguração da cidade e queriam conhecer por dentro o Palácio, o Congresso, o Supremo Tribunal. Não havia como atender a todos e os poucos que receberam permissão aceitaram tirar os sapatos e entrar só de meias, pois Brasília ainda era um canteiro de obras, poeira e barro por toda parte, não se podia correr riscos. Essa exigência de tirar os sapatos se fez também, democraticamente, a alguns senadores que desejavam visitar sua Casa antes da inauguração.

No outro ângulo da praça, o Palácio da Justiça, a Casa do Supremo Tribunal Federal, só pode ser iniciada em 10.07.1958. Mas, era uma obra bem menor (10.192m2), não houve dificuldade em terminá-la até dezembro de 1959, ficando, naturalmente, os arremates finais, para o início de 1960.

Ao mesmo tempo em que se desenvolviam, no terrapleno triangular, as obras de construção dos três palácios, iniciava-se no segundo terrapleno, mais alto para acompanhar a topografia local e formando uma extensa esplanada retangular, iniciava-se montagem das estruturas metálicas dos blocos dos ministérios. Eram onze, seis de um lado da esplanada, cinco do outro. Essas estruturas, adquiridas, conforme já ficou dito, nos EEUU, não se aproximavam muito do edifício do Congresso Nacional, deixando, tanto de um lado como do outro, espaço para a construção futura dos ministérios da Justiça e do Exterior, que teriam projetos próprios, diferentes dos demais ministérios, estes padronizados.

O conjunto dos onze blocos somavam uma área de construção apreciável, 210.000m2. Cada um deles afixava, no seu canteiro de obras, uma grande placa onde se podia ler a data em que começara o prédio e a data em que estaria concluído. Os visitantes olhavam, consideravam o pé em que a obra estava, faziam as contas, verificavam que o prazo era mínimo, abanavam a cabeça, saiam sorrindo. Não acreditavam. Mas, na noite de 20 de abril de 1960, lá estavam todos eles prontos, lindos, paredes de cristal, iluminados, como se havia programado.

Niemeyer descreveria suas emoções ao ver a cidade surgir do nada, "como uma flor naquela terra agreste e solitária":

"Víamos com satisfação que o Plano Piloto de Lúcio Costa era justo e certo, que se adaptava bem ao terreno, às suas conformações, e que os espaços livres e volumes previstos eram belos e equilibrados. E sentíamos que a atmosfera procurada já estava presente, uma atmosfera de digna monumentalidade, como uma capital requer, com os ministérios se sucedendo numa repetição disciplinada e a Praça dos Três Poderes rica de formas e ao mesmo tempo sóbria e monumental."

Reproduzido do livro "Brasília: memória da construção", de L. Fernando Tamanini

 

 


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