CONFUSÃO NA FESTA DE 100 ANOS

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CONFUSÃO
NA FESTA DE
100 ANOS

 
Como escreveu o vibrante e encantador Darcy Ribeiro, em Confissões: "(o projeto do Plano Piloto) é um dos textos mais importantes do Brasil. Tão importante como a carta de Pero Vaz de Caminha, como a Carta-testamento de Getúlio Vargas."
Três escrituras de momentos fundamentais da história desse pobre país. A primeira, a de sua fundação propriamente dita. (Antes da chegada de Cabral não havia um país. Havia um território ocupado por nações indígenas que não tinham a noção geopolítica de um país único). O primeiro contato de índios e portugueses prenuncia o surgimento de um novo povo – para o bem e para o mal. É uma beleza de texto jornalístico e literário.
A segunda, a Carta-testamento de Getúlio, anuncia as dificuldades que um estadista haverá de enfrentar caso queira fazer transformações verdadeiras no país. Revela do que são capazes as forças políticas atrasadas para jamais, em tempo algum, abdicar do poder nesse lucrativo país de miseráveis.
A terceira, o texto do projeto do Plano Piloto, é uma prova da humana genialidade de um dos grandes brasileiros daquele tempo áureo. É um convite à possibilidade de melhorar o país, de dar a seu povo uma capital à altura de seu merecimento, de construir "a cidade mais prodigiosa do mundo", no dizer de Darcy.
Muito já se falou da preciosidade que é o texto do projeto do Plano Piloto. Porém, no rastro dos justos e merecidos festejos dos 100 anos de Oscar Niemeyer, um erro se repete quase na mesma intensidade: o de se confundir, fora e dentro do Brasil, mais fora do que dentro, o papel do arquiteto centenário e o de Lúcio Costa. Sobre isso, tanto Niemeyer quanto Lúcio se manifestaram. Mas não adianta. O temperamento recluso de doutor Lucio acabou, de algum modo, obscurecendo o seu valor e os seus feitos.
Por isso não custa repetir à exaustão: o projeto do Plano Piloto de Brasília é obra única e exclusiva de Lúcio Costa. Ou seja: o desenho da borboleta, o sinal da cruz traçado no cerrado, as duas asas, a Esplanada dos Ministérios pousando suavemente no chão, a Praça dos Três Poderes, as escalas que disciplinam graciosamente as diferentes funções de uma capital da República, as superquadras, a Torre de Tevê, tudo é obra de Lúcio Costa.
A Niemeyer coube o projeto dos palácios, do Teatro Nacional, da Catedral, dos ministérios – são mais de cem obras do arquiteto em Brasília, a maior ilha de obras modernistas e de Oscar Niemeyer em todo o planeta. Coube a ele também o sacrifício (e não há como romantizar isso) de deixar o Rio de Janeiro por mais de três anos para vir morar numa nuvem de poeira.
Lúcio Costa ficou ensimesmado no Rio, em sua "toca" no Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional e em seu apartamento com vista pro mar. Ele lá e um grupo de arquitetos e engenheiros transformando o memorial descritivo no projeto do Plano Piloto em uma cidade de verdade. A única cidade do planeta – podem anotar do lado esquerdo do peito – que tem um texto literário de fundação. Ela existe em duas dimensões: a real, a que a gente vê e vive e a dimensão da criação literária que todo brasiliense deveria ter na mesinha da sala.
 
Conceição Freitas
"Crônica da Cidade"
Correio Braziliense, 22 de agosto de 2007.

 


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