CONCLUSÕES DE UM NÁUFRAGO – A PARTIR DE UM DOMINGO ERMO

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Converse com os Poetas, Converse com os Poetas Sem Comentários

Tem razão aqueles para quem Bras-Ilha até hoje pouco difere de um grande descampado, arte-finalizado e traduzido por um silêncio eloquente. O domingo que passou reforça a intuição que os canaviais e réveillon desertos já ensejavam: que Brasília é uma cidade alugada. Algo como o oposto daqueles municípios de regiões me-tropolitanas, batizados de cidades-dormitórios, que dão à luz, diariamente, um exército para trabalhar na respectiva capital – exercito que retorna à origem, moribundo e desfalcado, toda santa noite. Assim, por oposição, esta urbe inaugura a categoria cidade-escritório.
Arrisco uma imagem: Brasília é um sitio alugado para trabalho, para um seminário interno, de planejamento estratégico, com duração de quatro anos. Ao fim do período, conclui-se também o contrato de aluguel. Mas ele é eventualmente renovável.
na praça dos três poderes
existe um buraco, pequeno e raso,
formado pela falta de uma pedra,
dessas portuguesas, brancas,
de calçadas
 
o buraco fica perto do meio-fio
que dá  pro palácio
 
buraco que celebro neste poema
 

*
eu
teu eterno ex-poeta oficial
com estátua falsa
nome errado
pedestal caído
e sem placa
na praça-do-buriti-morto-
duas-vezes-favela

 
Pedro Biondi, poeta natural de São Paulo.
Poema transcrito do livro “50 anos em seis: Brasília, prosa e poesia”

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