Como nascem os palácios

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Por Conceição Freitas

Quando Lucio Costa escreveu que o projeto do Plano Piloto surgiu praticamente pronto, deu a entender que o santo baixou e ele, num lampejo, criou a capital. Do mesmo modo, há a sensação de que Oscar Niemeyer, incorporado por uma entidade arquitetônica, projetou os palácios de Brasília num átimo de tempo criativo. Muito longe disso. Tanto o arquiteto quanto o urbanista gastaram muita ponta de lápis para transformar o vazio do papel em genial invenção. O próprio Niemeyer, ao descrever o processo de criação das obras da nova capital, não revela o quanto ele ralou, foi e voltou, voltou e foi, para criar alguns dos mais belos palácios da história da arquitetura moderna.

Para descobrir, afinal, quanta pestana o arquiteto queimou até chegar aos projetos finais dos quatro primeiros palácios de Brasília – o do Alvorada, o do Planalto, o do Supremo Tribunal Federal e o do Congresso Nacional – o também arquiteto Elcio Gomes da Silva produziu e defendeu, em abril passado, na Universidade de Brasília (UnB), uma tese de doutorado de 1.200 páginas. “Os palácios originais de Brasília” percorre as pegadas de Niemeyer, do engenheiro Joaquim Cardozo, das construtoras, dos fornecedores de material de construção, dos mestres de obra dos quatro palácios para reconstituir o ato mesmo da criação. Investiga também as mudanças ocorridas nas edificações desde então.

“Fiz essa tese para aprender arquitetura”, diz Elcio Gomes, arquiteto de prancheta e de pesquisa acadêmica. Ele é autor, junto com Danilo Macedo e Fabrício Sobreira, do projeto da sede da Fundação Habitacional do Exército, no Setor Militar Urbano, escolhido em concurso público.

É a arquitetura em sua forma mais preciosa que salta das páginas da pesquisa. Entre as centenas de desenhos reproduzidos no calhamaço, há uma série de extrema importância para estudiosos da joalheria em concreto armado. São mais de 100 croquis de Niemeyer que relatam, passo a passo, como ele chegou à forma final do Congresso. É como se o autor da tese tivesse tido o privilegio de entrar na cabeça do gênio para acompanhar a movimentação dos neurônios (e do lápis) rumo à criação de uma das formas mais espantosas de Brasília: duas torres e uma plataforma, encimada por duas cúpulas, uma côncava e outra convexa.

A genealogia dos quatro primeiros palácios de Brasília começa antes mesmo do lançamento do edital do concurso do Plano Piloto, ocorrido em setembro de 1956. Na ausência de datas fixadas com exatidão, Elcio Gomes levou em conta as datas constantes dos desenhos originais de Niemeyer, elaborados entre 1956 e 1960, e conseguiu esboçar uma linha do tempo, a mais precisa de que se tem noticia até agora, para mostrar quando Niemeyer começou a pensar efetivamente na arquitetura de Brasília. Tudo indica que isso teria acontecido em agosto de 1956, quando nem o projeto de lei que criava a Novacap havia sido aprovado. A descoberta de documentação inédita da arquitetura e da engenharia estrutural dos palácios ajudou o pesquisador a perceber que o percurso criativo e produtivo de Niemeyer foi “mais complexo do que a bibliografia registra”. A falha deve-se “à falta de investigações que tenham por fundamento as fontes primárias da documentação dos projetos”. Nessa busca pela linha do tempo da projeção dos palácios, Elcio Gomes aponta, por exemplo, que Niemeyer pensou, inicialmente, numa praça à beira do lago com quatro prédios: o hotel, a igreja, o palácio do governo e a residência oficial, projetos elaborados antes do concurso do Plano Piloto. Desses quatro esboços originais, só o Hotel de Turismo (futuro Brasília Palace Hotel) foi construído conforme o previsto. A residência oficial (atual Palácio da Alvorada) era uma edificação singela.

As investigações de Elcio Gomes nos fazem entender por que o presidente Juscelino Kubitschek rejeitou o primeiro projeto de edifício residencial e pediu a Niemeyer “um palácio que daqui a 100 anos seja admirado”. Composto de um volume retangular (como o Hotel de Turismo) e de uma extensa marquise de formato geométrico, o projeto original era modesto para a função a que se destinava. O próprio arquiteto reconheceu que o presidente tinha razão. E que deveria encontrar “um partido que não se limitasse a caracterizar uma grande residência, mas um verdadeiro palácio, com  o espírito de monumentalidade e nobreza que deve  marcá-lo”.

O autor tem o cuidado acadêmico de não ser assertivo quando não há comprovações documentais, mas declarações e fotografia sugerem que Oscar Niemeyer pode ter se inspirado, mesmo que de longe, na Fazenda Colubandê (São Gonçalo/RJ) para projetar o Palácio da Alvorada. Por certo, há entre os dois semelhança evidente. Em 1943, o engenheiro Joaquim Cardozo, responsável pelos cálculos das principais obras de Niemeyer, escreveu um texto destacando a fazenda “como um dos exemplares de arquitetura das casas rurais ligadas a um gosto espontâneo e popular às quais não faltava a marca inconfundível da boa arte de projetar”, como escreve o autor da tese.

O próprio Niemeyer diria, mais tarde, que o Alvorada “sugeria coisas do passado: o sentido horizontal da fachada: a larga varanda, sem peitoril”, situada “a um metro acima do chão, protegida por uma série de colunas; e a capelinha a lembrar no fim da composição nossas velhas casas de fazenda”. Em 1965, Paulo Santos (arquiteto e historiador de arquitetura) havia vinculado o palácio à linhagem da Fazenda Colubandê, identificando uma “serena grandeza, a mesma nobreza desaparatosa, e um não sei quê de indefinivelmente brasileiro a provar que mais do que a forma o que importa é a tradição e o espirito”.

De Lucio e Oscar
Não dá para dizer quando Niemeyer começou e terminou cada projeto, mas pode-se afirmar que, em julho de 1957, quando o Palácio da Alvorada já estava em construção, o arquiteto se dedicou a buscar a solução final para o Congresso Nacional. “Os estudos tiveram início, provavelmente, logo após a decisão acerca de resultado para o concurso do Plano Piloto, vencido por Lucio Costa e cuja divulgação ocorreu em março de 1957”, escreve Elcio Gomes. O projeto vencedor trazia o esboço do que viria a ser o Congresso – com o que se pode dizer que a obra, em certa medida, pertence a Lucio e Oscar. Em um dos croquis para o Plano Piloto, ou seja, no desenho de Lucio, o Congresso surge como uma “composição de três volumes: lâmina de predominância vertical; embasamento horizontal; e elemento destacado como cúpula encimada, conjunto que constitui os marcos visual e monumental pretendidos”, escreve o autor da tese.

Antes de tomar a forma tão conhecida pelos brasileiros, o Congresso Nacional passou por diversas mudanças na fase de estudos preliminares. Teve colunas, como as do Alvorada; as duas torres chegaram a ser um prisma triangular; os plenários tiveram  forma de cunha, em vez de forma de cúpula; as duas torres estiveram posicionadas à frente dos plenários; até finalmente chegar à solução final.

Do mesmo modo, o engenheiro e poeta responsável pelos cálculos estruturais do Congresso, Joaquim Cardozo, também suou a camisa para descobrir como por de pé as duas cúpulas, especialmente a da Câmara, que, por ser côncava, exigia equações mais sofisticadas para encontrar o ponto certo de sustentação. A árdua tarefa ficou marcada na historia por uma frase que o arquiteto e atribuiu ao engenheiro: “Oscar, consegui a tangente que vai fazer a cúpula da Câmara solta como você queria!”, exclamação que revela o quanto o calculista fritou os miolos para encontrar a formula matemática que poria de pé a cúpula da Câmara e dando a impressão de estar simplesmente pousada sobre a laje. A cúpula “é um elemento ótimo em termos estruturais, porque te permite cobrir um grande vão com espessura de casca mínima”, explica Elcio Gomes. “Mas, quando você inverte a coisa, é um problema, porque ela altera o caminho usualmente conhecido dos pontos de sustentação.” Em comparação caricata, era o desafio de equilibrar uma cuia no chão.

Joaquim Cardozo, então, usou uma solução heterodoxa. Qual seja: a combinação de curva elíptica com um tronco de cone. Para que a cúpula da Câmara tivesse um formato casado com o formato da cúpula parabólica do Senado, optou-se por uma geometria combinada que aliasse viabilidade do calculo à intenção arquitetônica. O engenheiro limitou à curva elíptica os anéis superior e inferior que sustentam a cúpula (o superior se esconde abaixo de uma casca de concreto de 11cm de espessura que cobre o vão). Assim, o complemento na parte superior pôde ser resolvido para alcançar a forma pretendida. Exercícios que entraram para a história da engenharia estrutural brasileira. Costuma-se dizer que Brasília não trouxe grandes contribuições técnicas para a engenharia em geral, afirmação que seria injusta no que diz respeito ao concreto armado. “As estruturas de concreto dos palácios da cidade têm muito a nos ensinar”, diz Elcio Gomes. “Cardozo forçou a resistência do concreto além do que se fazia usualmente. Ele levou em conta as normas de engenharia da época, mas avançou muito em relação a elas. Porém, não vale dizer que ele foi displicente com a norma. Cardozo, e muitos dos que trabalharam nos projetos de Brasília, eram engenheiros de vanguarda. Tinham conhecimento técnico em altíssimo nível para a época. Tinham domínio da matéria construtiva e da relação aço-concreto, que hoje a norma contempla. Cardozo lia artigos técnicos em russo e alemão para aprender com os caras lá de fora.” A genialidade de Joaquim Cardozo, portanto, fazia o devido par com a de Oscar Niemeyer. Era preciso projetar em regime de urgência palácios para a capital de um pais que se pretendia grandioso. “Projeto é coisa que demora, mas não havia esse tempo. E esses projetos não poderiam resultar em obra pobre. O palácio tinha que ter caráter de palácio, tinha que ter refinamento”. Então, o arquiteto se concentrou em buscar um ordenamento estrutural – uma sintaxe uniforme – com poucos elementos de acabamento externo e interno, que não exigissem detalhamento exaustivo do projeto. Os palácios do Executivo e do Judiciário teriam colunas externas, revestidas de mármore branco, e, como pano de fundo, esquadrias com traves alternadas. A mesma solução foi adotada do lado de dentro dos edifícios. Lambris, pedras, revestimentos em geral, foram escolhidos de modo que o arquiteto não tivesse que ficar acompanhando com lupa o serviço dos construtores. Elcio Gomes compara a artimanha de Niemeyer à de Athos Bulcão na composição dos azulejos de Brasília no relevo do Teatro Nacional. As peças eram desenhadas de modo que o operário pudesse aplicar a peça na posição que quisesse, sem com isso interferir na essência da criação do artista.

De Oscar a Cardozo
Para ilustrar a gorda encadernação da tese, o arquiteto Elcio Gomes, brasiliense de nascimento, escolheu um desenho da coluna do Alvorada, uma síntese entre o desenho arquitetônico de Niemeyer e a solução geométrica resultante dos cálculos estruturais de Cardozo. O pesquisador diz que não tem como afirmar que Niemeyer começou a desenhar os palácios de Brasília pelas colunatas, mas a coluna de sustentação dos três palácios (Alvorada, Planalto e STF) tomou de Niemeyer um tempo significativo dadas as várias alterações que ele fez na disposição e no formato delas, desde que apareceram no primeiro projeto. A coluna que tanto impressionou o ministro da Cultura da França à época, André Malraux, que se transformou em emblema do Brasil moderno, que enfeitou fachadas das casas mais modestas do Brasil, que foi logomarca de dois carros (o JK FNM 2000 e o primeiro Uno Mille), surpreendeu a arquitetura moderna já em 1957, quando o Alvorada já estava em construção.

A coluna apareceu pela primeira vez no projeto do palácio presidencial (futuro Palácio do Planalto). Mas foi o Palácio da Alvorada que estreou a invenção de Niemeyer. Mais tarde, esteve nos estudos para o STF – inteira e de frente (como no Alvorada). E numa escala diferente da finalmente adotada. Tem altura suficiente para uma pessoa passar debaixo dela. Em dezembro de 1957, o arquiteto apresenta o projeto do palácio do Judiciário, mas a coluna tem escala menor e perdeu a inteireza. Niemeyer havia inventado a meia coluna. Todos os estudos para os quatro palácios seguem uma mesma direção, a de caracterizar unidade entre eles. Talvez por isso ele tenha utilizado as colunas em arco nos primeiros esboços para o Congresso, mas à medida que avançava nas especulações, parece ter percebido que a solução conflitava com o jogo de volumes. Então, ele abre mão de colocar a coluna no Congresso, palácio que já tem suficientes elementos de composição arquitetônica (cúpulas, torres, plataforma). É o que supõe o pesquisador.

Apesar de ter feito uma investigação minuciosa inédita sobre os quatro palácios, Elcio Gomes diz que ele só mostrou a ponta do iceberg de tudo o que ainda se precisa estudar, do ponto de vista da arquitetura e da engenharia, sobre os quatro projetos.

Os documentos reunidos pelo pesquisador são fundamentais para a proteção dos quatro palácios – todos eles tombados como patrimônio histórico e artístico nacional. Elcio Gomes, aliás, faz parte do corpo de arquitetos da Câmara, cuja função é proteger a obra e acompanhar os serviços de manutenção.

Depois de quatro anos de investigação, Elcio Gomes da Silva se sentou para, finalmente, escrever o calhamaço. Passou um ano teclando letrinhas, escondido numa pequena sala do 28º e último andar do anexo I da Câmara. Para se concentrar na elaboração do texto, o pesquisador fechava as venezianas da imensa janela envidraçada: STF, cúpula da Câmara, renque de palmeiras do Congresso, anexos II e III da Câmara, Lago Paranoá e, ao fundo, o anel de chapadas que contorna o Plano Piloto. O pesquisador habitava a criação no tempo e na história.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 17 de junho de 2012.

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