Com a palavra, Bebé Prates

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Blog do Velho Ranja Sem Comentários

Com a palavra, Bebé Prates:

Velho e querido Ranja,
Já se passou algum tempo, mas ainda dá para agradecer sua gentileza em citar meu nome no belo site Brasília Poética, a próposito dos livros que lhe enviei. E é o que faço agora, ao mandar mais um precioso volume que se encontrava perdido em minhas estantes amadas, porém desorganizadas.
O exemplar surrado -nem poderia deixar de ser, a edição, muito simples, é de 1962 – e quase caseiro tem como responsável, no entanto, a Editõra Dom Bosco, o que mostra que os poetas, como sempre, estavam bem antenados com os mistérios e lendas daquela Brasília quase inaugural que habitavam lá pelo início dos anos 60. Afinal, Dom Bosco e sua profecia faziam parte do dia-a-dia de todos que toparam viver a aventura de uma nova cidade plantada no meio do nada no interior do país, sonho de um sonho de uma nova civilização. E a poesia estava presente desde o início da epopéia, e como estava.
Este volume que agora você tem em mãos reúne poetas consagrados, cuja obra permanece, e outros que ‘poetaram’ por inspiração de Brasília, da mudança em suas vidas que a vinda para cá propiciou ou pelo momento histórico que sabiam viver. Não importa, no entanto, saber os motivos, o que interessa, e nos traz beleza, é ver estes versos reunidos e conhecer uma Brasília que se perdeu há muito tempo por conta das incríveis transformações que o mundo moderno vai operando em cidades, pessoas, culturas, modos de ser e viver. Mas, diga-se a bem da verdade, o olhar poético sobre o mundo e a vida, este fica para sempre e é justamente o que nos consola e nos instiga e nos faz ter um sentimento de pertencência à nossa raça humana.
Mas, Ranja, é uma delícia saborear os versos dos Poetas de Brasília, versão 1962, e rever uma Brasília que vislumbramos quando aqui chegamos, bem depois, já nos anos 70, mas que, àquela época, ainda guardava bem nítidos os traços de sua originalidade e construção.
Veja só o que nos diz, por exemplo o grande Alphonsus de Gumaraens Filho -que por aqui vivia naquela época – sobre a Lua de Brasília:
Lua de Brasília,
lua de Goiás,
lua plena, filha
da noite que em mim faz…
 
Um outro poeta, Gaudêncio de Carvalho, faz o Perfil da Tarde de Brasília
A amplitude desapareceu  no último reflexo branco da claridade
 A mansidão surgiu no primeiro raio triste do entardecer
O pássaro preto cantava por que entardecia
Desmaio de luz na escavação dos ares
Desmaio de luz na solidez dos cerros.
Eu fiquei parado ouvindo a emoção do pássaro
ouvindo o murmúrio do córrego
quando caíam nas águas as flores do ipê… 
 
Viu só, era uma Brasília quase rural ainda que se desenhava naquele começo, um barato se compararmos com a Brasília de hoje, um abismo, também, mas, felizmente, ainda dá para ovuir os pássaros e as flores do ipê, convenhamos, estão mais lindas do que nunca.
Querido amigo, no livro ainda estão figuras sumidas mas muito queridas como Ézio Pires, Santiago Naud – que tem entre seus poemas publicados um Hino a Brasília, um belo hino, diga-se de passagem, que espero que você estampe logo no site. Bom, Ranja, acho que é isso, poderia passear ainda muito por estas poesias que falam de uma época, de uma história que ainda estamos vivendo. Por favor, faça bom uso do livrinho, ele é precioso para todos nós que vivemos e amamos Brasília.

Um grande abraço,
Bebé Prates .
Um grande abraço 


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