Cem anos de Niemeyer

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“Oscar faz a arquitetura cantar”
Edgar Graeff

“Niemeyer criou a poética do concreto armado,
que é a sua contribuição principal à arquitetura de nossos dias”

Ferreira Gullar

 

 

Poeta da arquitetura

Início da década de 1930, Rio de Janeiro. O jovem estudante de arquitetura Oscar Niemeyer está casado e é pai de uma menina. Vive do aluguel de uma casa, dinheiro contado. Mas em vez de correr atrás de salário, prefere se oferecer para trabalhar de graça no escritório de arquitetura de Lúcio Costa e Carlos Leão. Quer aprender, praticar, espantar dúvidas, descobrir respostas, aprimorar o desenho ousado e inigualável, criar, ser bom arquiteto. Não imediatista, vê o trabalho ali como oportunidade de crescimento, privilégio. No futuro, dirá que essa experiência foi uma das mais importantes de sua vida. Carlos Leão, expansivo e amigo, sempre exemplar. O civilizado e educado Lúcio Costa, mais distante e reservado, vai ser admiração permanente. Por seu zelo profissional, a empolgação pela obra de Le Corbusier, o apreço pela arquitetura colonial, a beleza e qualidade dos desenhos e projetos. E depois o surpreendente urbanista que arquiteta Brasília.

O desapego de Niemeyer por dinheiro nunca mudou. Concluído o curso de arquitetura, classificado em primeiro lugar, junto com Milton Roberto, continua no escritório de Lúcio Costa. Trabalha, por exemplo, no projeto para a Cidade Universitária de Mangueira. Ganha o mesmo que o colega Reis e menos que o arquiteto Jorge Machado Moreira. Mas é evidente sua contribuição diferenciada, o talento especial. Lúcio Costa: "Jorge, você não pode ganhar mais do que o Oscar. Temos de somar seus salários e dividir por dois." Niemeyer: "Preferia somar os três e dividir por três." Lúcio: "Oscar é camarada."
Apesar da condição profissional capaz de permitir incalculável acumulação de riquezas, inclusive pelo sucesso e fama, Niemeyer jamais fez disso objetivo. Pelo contrário. Dinheiro para ele é meio e não fim. Sabe que quando vira apenas fim é o fim. Conspurca, deforma, perverte, apequena as pessoas. "Se fosse rico, morreria de vergonha." Na política, é movido a idealismo; na arquitetura, a beleza e invenção; na vida pessoal, a amizade, a solidariedade, o desprendimento e também a libido, claro. Maneiras simples, informal, nada vaidoso, parece não se cansar de ser incansável. Não contabiliza desilusões nem se entrega. Prefere fazer sua parte na luta desigual para desentortar o mundo. Nas memórias, conclui que é preciso reformar o homem. Cita Teilhard de Chardin: "Ser é mais importante do que ter." O essencial é melhorar o homem, ter consciência da fragilidade.

Vê sua arquitetura como algo muito pessoal, não como escola a seguir. Para ele, há boa e má arquitetura. E não arquitetura antiga e moderna. Comunista, sonha um mundo melhor para todos. Uma sociedade solidária, sem dolorosas desigualdades sociais, sem miséria, pacífica, sem tanta injustiça e desamor, com oportunidades iguais para todos. Inclusive de ser desigual. Utopia? Talvez. Mas também outra razão para viver. Desde sempre, ajudou muita gente. Inclusive financeiramente. E foi muito usado, explorado. Um exemplo? Certa vez, fez trabalhoso projeto de casa para empresário arquimilionário, mas não mandou a conta. Dias depois, em contrapartida, recebe em casa uma caixa enorme. Dentro, um aparelho de televisão. Pois é. Mas é paciente, compreende, perdoa. Tem consciência dos oportunismos, das dissimulações, das safadezas. Mas também sabe que o ser humano é frágil, precário, vulnerável, muitas vezes interesseiro. Acredita que todos têm um lado bom. Sabe que a contabilidade da vida não pode ser feita em partidas dobradas, entradas e saídas, créditos e débitos. Assim, não economiza generosidade. Nem raiva dos predadores do belo e das coisas, dos direitos e sonhos do povo. Santa raiva! Orgulha-se de não ser milionário. Cita o avô, Ribeiro de Almeida, procurador-geral da República e ministro do Supremo Tribunal Federal, que morreu pobre. Exalta a ação: "Ainda bem que trabalho não falta, pois é ele que me mantém bem vivo." Gosta do que faz, diverte-se, encara o trabalho como passa-tempo. Adora criar, inventar, desenhar, ler, ouvir música. Mas diz que o importante mesmo é a vida, cuidar da família, viver com os amigos, lutar por um mundo mais justo. O poeta da arquitetura é um humanista.

Extraído do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

 

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