Belo e solitário

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Belo e solitário
Por Conceição Freitas

Dias terríveis viriam, ele sentiu pelo cheiro de terra mesclado de cheiro de óleo e de homens. Quando os tratores chegaram rugindo pressa e abrindo clareiras vermelhas no cerrado, um dos mais antigos habitantes do lugar desconfiou que dali em diante nunca mais seria a mesma coisa.

Foi um baita susto para uma população que, especulam os cientistas, habita o planeta desde o tempo das eras glaciais. Ele é parente dos lobos, dos cães e das raposas. É o maior dentre eles. Juntos eles compõem uma família – a dos mamíferos digitígrados, que tem esse nome porque andam sobre os dedos.

Tem família, mas prefere a solidão. Não gosta de turma, de bando, de multidão nem de conversê. Como os índios, necessita da imensidade da terra para caminhar, caçar, viver. Nos tempos paradisíacos, um único casal dava conta de percorrer uma área de 300 quilômetros quadrados neste cerrado infindo de meu Deus. Cercados pelos homens, pelas máquinas e pelas plantações extensivas e devoradoras de chão, abatidos pelos caçadores, atropelados nas rodovias, eles foram sendo dizimados.

Quem aqui chegou bem no começo da construção da nova cidade viu de relance o lobo-guará. Bicho arredio, dizem que muito tímido, não ataca o homem. Prefere seguir seu caminho trilhando a solitude das longas caminhadas noturnas. É monogâmico, mas não vive grudado na parceira. Os encontros acontecem somente para a procriação. São os mais belos entre os seus parentes próximos – o lobo, o cão e a raposa. Tem os pelos de cor laranja-avermelhada. Ao sol, a pelugem brilha que nem cobre ruborizado. As pernas esguias sustentam com impressionante elegância o corpo reluzente. O focinho afilado combina à perfeição com pelos e pernas, e dão a ele o garbo e a altivez próprios do lobo-guará.

Apesar da bocarra, parecida com a de um cão pastor-alemão, suas mandíbulas são suportam grandes esforços. Por isso, apesar de ser um bicho de porte considerável, o lobo-guará prefere um cardápio mais delicado: roedores, pássaros, ovos, insetos, frutas silvestres, peixes, rãs. Peixes, rãs? É o lobo-guará é um exímio nadador, ainda que aparentemente desajeitado, dadas as pernas muito finas e longas. Carne, ovos e frutas – dieta completa, a do bicho de lindos cor de quentura. Mas seu prato preferido é a lobeira, e há razões terapêuticas para a escolha. A fruta-da-loba age contra o verme-gigante-dos-rins, doença fatal para o lobo-guará.

O bicho cor-de-fogo mede até 1,45 metro de comprimento e 80 centímetros de altura e pesa não mais de 25 quilos, em média. Está na lista dos animais em risco de extinção. Ele não se reproduz facilmente em cativeiro. Pesquisadores tentam cloná-lo. Apesar de tão belo e tão único, nunca mereceu dos brasileiros a admiração dedicada, por exemplo, aos animais africanos. O lobo-guará é o animal que eu queria ser.

Transcrito do Correio Braziliense, 01/09/2009

 

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A Bela da Construção

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A Bela da Construção
Por Conceição Freitas

A formosa passageira desceu do DC-4 vestida como se estivesse chegando ao Natal de Nova York. Haviam dito a ela que, na temporada de chuva, fazia muito frio no canteiro de obras de Brasília. Então ela se protegeu com roupa de lã (e luvas!). Era final da tarde, quase noite, quando pôs os pés no descampado de chão  cor de ferrugem e vento gelado.

Só na manhã seguinte, sob o sol esplêndido do cerrado, Eleonora Morandi Quadros, 26 anos, percebeu que tinha trazido o guarda-roupa errado para a nova capital em construção. Perguntou ao chofer (naquele tempo, era assim que os motoristas eram chamados): “Filho, onde tem roupa fresca?” Só na Cidade Livre, ele respondeu, mas adiantou: “Lá só tem coisa de homem”.

Comprou calça de brim, de homem, e camisa e botas também de homem. Enrolou a  manga até acima do cotovelo e começou a trabalhar. Naquele 1957 e neste sertão goiano, mulher de calça comprida era uma revolução nos costumes, um assombro aos olhos.

Nos dois anos seguintes, Nora Quadros foi a mais inesquecível paisagem do cerrado. Confira-se nos depoimentos ao Programa Oral do Arquivo Público do Distrito Federal. Quando engenheiros, arquitetos, operários e técnicos reacendem a memória, a bela empreiteira surge na lembrança. Ela e seu perfume estonteante.

“Ela era uma presença marcante nos depoimentos, pelo fato de ser uma mulher, numa função importante, e pela beleza e simpatia dela”, conta a professora da Universidade de Brasília Georgete Medleg Rodrigues, que, junto com Luis Carlos Lopes, entrevistou Nora Quadros, em 1989, para o Programa de História Oral do Arquivo Público do Distrito Federal.

Novinho, solteiro, recém-formado, o arquiteto Carlos Magalhães, 76 anos hoje, 26 naquela época, se lembra vivamente de Nora Quadros. “Era a única mulher bonita que havia aqui durante algum tempo. Ela tinha um nariz tão perfeito que eu achava que ela tinha feito cirurgia plástica. Era do tipo ‘gostosa’. Hoje a gente diz ‘gostosa’ sem problema, mas naquele tempo a gente só dizia ‘gostosa’ bem baixinho um para o outro. Ela era o top”, diz Magalhães, passados 50 anos do tempo em que Nora Quadros passava por ele dirigindo um jipe, sozinha, indo de uma obra a outra ou de uma obra à sede da Novacap para cobrar faturas ou resolver outras pendências burocráticas.

Muita gente acredita até hoje que Nora é engenheira, mas não é. A crença deve-se ao fato de ela trabalhar na empreiteira do irmão e de usar botas (calçado que diferenciava o engenheiro do peão). Ela terminou o clássico, o ensino médio de hoje, pensou em fazer psicologia e filosofia, mas decidiu trabalhar com o irmão na empresa de terraplanagem da família, M.M.Quadros. Passou a ser responsável pelo controle das finanças da firma.

Foi o acaso que trouxe a bela para a construção de Brasília. A M.M. Quadros já estava abrindo estradas na cidade e construindo pequenas obras em madeira na Cidade Livre (a primeira sede do Banco do Brasil foi uma delas), mas não conseguia receber 25 faturas da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, a Novacap. “Fui exatamente para ver se conseguia soltar o dinheiro”. Pretendia ficar um mês, mas, recebidas as faturas, ficou mais de dois anos.

A casa onde Nora Quadros morou nos primeiros tempos de Brasília existe até hoje. Não é mais de madeira, mas está no mesmo lugar, na borda do Jardim Botânico, à margem da via que liga o Balão do Aeroporto ao Núcleo Bandeirante. Quem mora ali até hoje tem viva lembrança de Nozinha, como os que mais próximos a chamavam. Dona Palmira Alves da Silva, 74 anos, chegou a Brasília em 1956, mas teve de voltar ao Rio para cuidar da saúde de um filho. No começo de 1957, estava novamente na capital em construção, acompanhando o marido, tratorista e motorista da M.M.Quadros, Joaquim Alves da Silva Neto (que mais tarde viria a ser sócio da empresa).

“Dona Nozinha parecia um homem, mandava em todo mundo. ‘Quero aquele caminhão, agora’, ela dizia, mas ela não era masculina, não, era muito feminina. Tinha muita bolsa, muito sapato, muita coisa boa, tudo ela comprava no Rio”, conta. “Ela sabia resolver os problemas, qualquer problema”.

Apesar de imperativa e determinada, Nora Quadros era uma mulher amável. “Ela era arrebatadora pela simpatia”, conta o advogado Léo Sebastião David, 79 anos hoje, 30 quando conheceu a bela da construção. “Nora tinha um it pessoal. Ela se impunha com exuberância. Era apaixonante vê-la pelas estradas dirigindo um jipe, usando calça comprida, sozinha”. Quando Nora Quadros chegou a Brasília, havia aqui pouco mais de 4.600 homens e 1.683 mulheres (números do censo do IBGE feito em junho de 1957).

Quatro mil e seiscentos homens inebriados pelo perfume de Nora. Àquele tempo, a bela borrifava-se com Arpège, fragância francesa criada em 1927, considerada uma uma das dez mais célebres do mundo da perfumaria. (Na internet, o frasco de 50 ml custa R$ 180 e o de 100 ml, R$ 300.) Ao Arquivo Público, a perfumada atribuiu à imaginação dos homens a evocação de seu perfume.

“Eu não era uma feia, né? Havia um pouco de imaginação, de nostalgia, de solidão. Talvez fossem os fluidos de Brasília agindo. Então, eles deveriam ver um pouco mais do que eu realmente era.” Nora Quadros se lembra da agitação que sua ida à Cidade Livre sempre provocava. “Todo mundo vinha pra porta olhar. Eu achava isso uma coisa natural, uma curiosidade. Eu também faria a mesma coisa se fosse um homem. Iria olhar aquela moça perdida por ali.”

No começo, Nora só saía acompanhada de dois guarda-costas, por ordem do irmão, Maurício Morandi Quadros, um dos sócios da M.M.Quadros. Menos de seis meses depois, já transitava sozinha pelo canteiro de obras estremecendo fundações e agitando a imaginação da multidão de homens solitários. Logo, era personagem das reportagens feitas por jornalistas brasileiros e estrangeiros. Nora está em fotografia colorida da edição em inglês da revista National Geografhic de maio de 1960.

Bem antes disso, ela começou a receber cartas vindas da Europa, dos Estados Unidos, da Austrália. Gente que tinha lido reportagens sobre linda mulher na construção de Brasília e que queria vir participar da inacreditável aventura brasileira. Nora Quadros guarda uma coleção de revistas nas quais ela, e não as colunas do Palácio da Alvorada ou as cúpulas do Congresso Nacional, é a estrela principal. “Coisa boa deste mundo é morar lá em Brasília, bem perto de Eleonora”, diz uma das matérias.

(…)

Transcrito do “Correio Braziliense”, 23/03/2009.

 

 

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O Lago

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O Lago
Por Joanyr de Oliveira

Estas águas paradas
em pura aparência:
navegantes ocultas
do próprio ventre.

Águas de tilápias
e outros ciclídios
de boquinhas grávidas
e de dez espinhos.

Estas águas pardas
de rosto poluído
em dias de pasmo
e semblante lívido.

Água e seus braços
longos no invisível,
fugitivos mares
despojados, insípidos.

Águas fantásticas
de navios prenhes
de salinos pássaros
no mofo das lendas.

Águas deste Lago
sobre as redes do tempo
colhem prédios e faces
descarnadas e leves.

Águas e mais nada:
só os mitos perfeitos
e os sonos pesados
de edifícios e peixes.

Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Transcrito da antologia "Poemas para Brasília"

 

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As águas

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As águas 
Por Conceição Freitas

Esqueça as casas, as pontes, as lanchas, os barcos, as garças, os sargaços. Não deseje o píer, abandone as prainhas, abdique do mergulho, esqueça a linha e o anzol. Não pense que ele está sendo privatizado, que se fechou para o conjunto da população, que é privilégio de poucos. Concentre-se unicamente no espelho d’água do Lago Paranoá. Deite os olhos nele, só e exclusivamente nele.

A lâmina líquida que abraça o Plano Piloto de norte a sul tem o mistério das montanhas e a profundidade dos céus. Peço licença ao mar, o deus das águas infindas, para reverenciar a infinitude das águas candangas. São quase 500 bilhões de litros d’água, tantas canequinhas derramadas no vão do Paranoá quanto nossa imaginação não consegue alcançar. Pense numa caixa d’água de cinco mil litros. Agora, imagine um milhão delas. São as águas do Paranoá.

Tem malemolência, as águas do lago. Quando é dia de ventania, dançam em passos miudinhos, de ondas-bebês, umas sobre as outras, umas ao lado das outras, não fazem espuma nem marola. Em dias de pouco vento, elas tremulam docemente, como se lá no fundo alguém estivesse lhes fazendo cócegas. Coceguinhas. Movem-se em círculos concêntricos, nas margens, escorrem em pequenas ondas espumantes.

Há dias em que o espelho d’água do Paranoá fica em estado de descanso. Estende-se calmamente ao redor do Plano Piloto. Não treme, não ondula, não faísca, não corre. Fica em silêncio, mas não está inerte. Nunca está inerte, mesmo quando aparentemente parece não mover um músculo.

As águas do Paranoá nunca tem pressa. Pelo contrário, são indolentes, mas estagnadas, jamais. Uma gota de lago gasta 299 dias para sair do ponto mais distante até alcançar a barragem. Quase um ano nadando vagarosamente. Desconfia-se que seja o ritmo goiano, de quem com calma assunta o novo território. As águas que caem no Paranoá vem de quatro ribeirões, Torto, Gama, Riacho Fundo e Bananal. Quando chegam ao lago, viram candangas e se transformam no “mais belo monumento da escala bucólica da cidade”, frase que consta do “Olhares sobre o Lago Paranoá”, biografia ecológica e histórica das águas que nos cercam.

Elas mudam de cor de acordo com a hora do dia ou da noite, da vontade do sol e do humor da lua. As águas do Paranoá ora são azuis da cor do mar, ora esverdeadas como esmeraldas, ficam vermelhas com o pôr do sol ou amarelas com a luz da lua ou cinza com a proximidade das chuvas. São escuras perto dos brejos e emitem uma luz prateada em dias sem nenhuma nuvem.

O espelho d’água do Lago Paranoá é um oceano para meus olhos cansados. Aquelas águas me contam que mais coisa pra eu ver, descobrir e aprender nesta cidade que nunca termina, nunca se esgota, nunca é toda escrita e contada. Esta cidade não cabe em mim, vivê-la é muito maior que eu e por isso é bom de doer.

Transcrito do Correio Braziliense, de 24 de junho de 2009.

 

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Águas de Brasília

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Águas de Brasília
Por Ana Miranda

Quando cheguei em Brasília o lago nem era lago. Lembro que passávamos de jipe por trás do Palácio da Alvorada,
em linha reta rumo ao local da construção da barragem do Paranoá. Nosso pai dizia, aqui vai ser o lago. As dúvidas eram públicas, diziam que no lago iriam se afogar as esperanças e as negociações impuras de Brasília, que no lago não viveriam peixes, mais insetos, que a água dos riachos afundaria no leito, as águas seriam sujas, as chuvas não bastariam para manter a cota precisa, mas Juscelino abriu as comportas e o lago encheu, no começo com águas turvas, depois a lama se foi depositando no fundo, e as águas ficaram limpas, não transparentes, mas limpas, frescas, formando a paisagem bela e reconfortante, além de todas as outras utilidades de um lago com uma cidade às margens.

Menina, eu ficava longamente pescando, em pé no cais de madeira que havia em nosso clube, com meu maiô de saiote, minha varinha de bambu e um balde com água. Demorava longamente a olhar o prateado da superfície do lago, com toda a paciência, aprendendo a esperar, a contemplar, a ouvir o silêncio, a respirar quieta, a sentir a umidade, a acompanhar o colorir-se do ocaso, a perceber mínimas fisgadas, a sentir as mãos, a olhar a outra margem, a outra ainda, e a sentir o coração palpitante com o animalzinho prateado que eu capturava daquele mundo submerso e misterioso. Uma estranha comunicação. E aprendi a ter piedade, os peixinhos eu devolvia às águas, e quando percebi que minha aula, minha diversão, machucava aqueles pequenos seres inocentes, deixei de pescar.

Mas nunca deixei de olhar as águas, parece que alguns seres humanos precisam olhar grandes águas, e sou assim, parece que um lago, que não é tão variado e belo em sua aparência como um céu, ainda mais o céu de Brasília, que tem a função oceânica de dar escape às almas da cidade, parece que um lago ama as crianças, um lago ama os moradores de sua cidade. Alcina, a musa do poeta, sai de barco a remar. Da janela de Alcina eu costumo olhar o lago maduro. Ele parece maior e mais azul, parece me reconhecer e esconde seus peixinhos. Vejo pessoas atravessando a nado a sua extensão e retornando, alguém espera com um cronômetro, provavelmente atletas em treino. Vejo barquinhos a vela, lanchas poderosas, gente caminhando na margem…Da casa de Maria Coeli o lago é mais agreste. E da casa de Suzana o lago é passagem, ponte, sonho.

Brasília tem muitas águas. O poeta mandou-me um livro chamado “Águas emendadas”, achei o nome fabuloso. Águas emendadas…Uma paisagem de lagoa cheia de tucunarés, e poças, canais, veredas de buritis, onde lobos-guarás, capivaras ou pássaros se alimentam…Uma coisa linda. Obrigada, dr. Ezechias Heringer. Quando eu morava em Brasília, não se falava nessas águas emendadas. As águas emendadas são um mistério até para os maiores conhecedores dos fenômenos hidrográficos. Há outras ocorrências no Brasil. As brasilienses ficam a Nordeste do Distrito Federal, dividindo duas das mais importantes bacias brasileiras, a dos rios Tocantins e Araguaia, e a do Rio Paraná. Em pleno cerrado forma-se um imenso brejo. Como essas águas se emendam e formam campos alagados, e fazem uma distribuição antípoda das águas, para lados opostos, como águas nascem numa vereda, num topo, e se distribuem para lados antípodas, formando rios que deságuam longe, longíssimo, fora do território brasileiro, águas de Brasília que vão até Paraguai, Argentina e Uruguai, é o que se estuda.

Adivinhava Guimarães Rosa, “…Daí longe em longe, os brejos vão virando rios. Buritizal vem com eles buriti se segue, segue…” Responde Paulo Bertran: “Porque o cerrado é uma orquestração de paisagens da natureza e é nisso que reside a sua beleza”.

Transcrito do Correio Braziliense, 10 de maio de 2009.

 

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…e o lago se formou

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…e o lago se formou
Por Clemente Luz
 
…E no lugar onde Dom Bosco viu que se formava um lago, o lago se formou, graças ao encontro das águas! Vindas mansas, das cabeceiras cobertas de buritis ou de pequenos tufos de floresta ciliar, desceram as encostas, venceram as distâncias e se juntaram, no ponto de encontro, no leito novo, que o homem lhes preparou, cumprindo a visão do profeta.

Os ribeirões que antes se precipitavam, na luta violenta de suas espumas enraivecidas, na garganta do Paranoá, tiveram a barreira intransponível de cimento e ferro, vedando-lhes a passagem, domesticando-lhes as águas e lançando-as, uma nos braços das outras, para o tranqüilo abraço de irmãs chapadeiras.

Na extensa bacia natural, onde se diz que há milênios existiu um lago, o novo lago se formou, com as águas que as cabeceiras despejaram encosta abaixo. Tão logo se fecharam as comportas da grande barragem, começou a formar-se o lençol líquido, que, com seu abraço transparente, envolve a cidade, que se mira, vaidosa, em seu espelho de águas.

Tranqüilamente, as águas começaram a subir, rumo aos piquetes da cota mil, que os teodolitos determinaram e que o candango plantou no chão do Planalto. Tranqüilas, mais impiedosas, as águas transformavam em realidade a visão do profeta…

Retidas em seu curso natural, espraiaram-se pelo vale, caminharam pelos recôncavos e contornaram as pequenas penínsulas, para tomar a forma do leito que a terra lhes oferecia. E, na lenta subida rumo ao seu destino, engoliram a vegetação, cobriram pedras e detritos e tragaram, com impiedade, as casas de madeiras, que a temeridade de muitos candangos construíra dentro dos limites do projeto…

De repente, o lago ficou pronto.

Ninguém sabe quando nem em que segundo… Mas, de repente, as águas atingiram em silêncio os pontos de seu destino, o limite real, mais invisível, que o equilíbrio das coisas determinou, em torno da vasta bacia, e que o homem, com seus aparelhos, tentou fixar em marcos de madeira, pequenos marcos da cota mil.

De repente, o lago ficou pronto. Mas não ganhou nome, nem foi inaugurado. Aliás, parece que a única coisa que se completou de manso, sem festas inaugurais, sem discursos e sem foguetes, foi o lago sem nome.

Uns quiseram que se chamasse Paranoá, para a preservação da memória da cachoeira assassinada pelas obras da barragem. Outros, lembraram nomes de figurões da República ou da Novacap. Mas, no fim de contas, ficou mesmo sem nome, talvez porque ninguém soube quando se completou, quando ficou definitivamente pronto… As águas, que se encarregaram da tarefa de formá-lo em dobras e profundidades, em espelho e dimensão, marcharam dia e noite, sem avisos, no rumo de seu destino…

Com nome ou sem nome, para mim e para os que o viram formar-se e compor-se em dobras azuis, contrastando com o verde esmaecido das encostas, o lago é único em todo o mundo. Único, para mim, pelo menos, que nunca vi outro lago, e que, no namoro de pequenas lagoas mediterrâneas, sonhei com os grandes e misteriosos lagos, que os compêndios de geografia enumeravam… Lago sem nome, para mim pelo menos, ele é o único, porque se formou ante meus olhos, cresceu noite e dia ante meus olhos, como os filhos que vi crescerem, em volume, no mistério do ventre da mulher… único e meu, porque as suas águas recolheram um pouco de minhas lágrimas e um pouco de meus mistérios…

Único e meu, porque temos um destino comum: amparamos, com o nosso abraço e com o nosso amor, a mesma coisa bela e terna, que é a nossa Cidade!

Transcrito do livro  “Invenção da cidade”, de Clemente Luz.

 

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O texto de Vinicius de Moraes

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A idéia de escrevermos uma sinfonia celebrando Brasília não é nova. Em fevereiro de 1958, eu, acidentado em um hospital de Petrópolis, conversei pela primeira vez com Antônio Carlos Jobim sobre o assunto. Ainda no correr deste mesmo ano, alguns dos temas musicais aqui constantes já haviam sido compostos pelo jovem maestro.

Houve logo, é claro, quem falasse em “obra encomendada” e outras tolices do gênero, o que feriu certas suscetibilidades de Jobim. E a tarefa ficou postergada para dias mais inteligentes. Até que, de volta de meu posto, em Montevidéu, em junho de 1960, recebi uma telefonada de Brasília. Induzido por esse querido amigo que é Oscar Niemeyer, o presidente Kubistchek, também um velho amigo, convidava-nos para criar, com os técnicos da firma francesa Clemançon, especializada na matéria, um espetáculo “son et lumièrie” para a Praça dos Três Poderes, à maneira dos que são feitos nos principais castelos franceses e em vários outros monumentos do mundo, como a acrópole, as pirâmides e tantos mais para fins de atração turística.

Era a oportunidade. Brasília já deixara de ser um sonho para transformar-se em uma realidade de âmbito mundial. A cidade empreendida por Kubistchek e criada por Niemeyer sobre o Plano Piloto de Lúcio Costa, outro grande caro amigo, erguia suas brancas e puras empenas nas antigas solidões do planalto central de Goiás, em extensões apas¬centadas pela vetustez da terra e pela proximidade do infinito, numa paisagem de oxigênio, silêncio e saudade das origens. O lugar mais antigo da terra, como gosta de dizer Jobim, povoava-se rapidamente; e malgrado as pragas de um grupo de ressentidos, os que preferem governar o país nas proximidades das boates, a cidade crescia em um ritmo alegre de trabalho e confiança, com turmas a se revezarem de sol a sol. De nada valia o pio das aves de mau agouro da imprensa e de alhures, contra o ímpeto maravilhoso do trabalhador brasileiro, que acorreu de todos os cantos do país, sobretudo do norte para erguer aquelas estruturas adiante do tempo e para coabitar pacificamente em uma “Cidade Livre” levantada do dia para a noite com restos de mate¬rial de construção: uma autêntica cidade de “farwest”, só que sem os tiros e bandidos de cinema.

Esboçado o plano da obra, partimos para Brasília afim de estruturar temas e poemas em contato humano com a cidade. Hóspedes do “Catetinho”, hoje tombado como monumento histórico, olhávamos de nossa mesa de trabalho – a mesma em que o Presidente Kubstchek assinou os seus primeiros atos na capital – a silhueta quase sobrenatural da cidade na linha extrema do horizonte, recortada contra auroras e poentes de indizível beleza. De madrugada, enquanto víamos congelar-se no ar frio o jato ascensional do Boeing 707, escutávamos também o piar das perdizes e dos jaós, entre as surdas rajadas intermitentes do vento do altiplano. Havia em nós esta tristeza que nasce da beleza e palmilhávamos os capões de mato com a sensação do irremediável do tempo. Jobim, caçador experimentado e velho piador de pássaros, arremetia mais longe do que eu. Eu voltava, a partir do lindo olho d`água do pequeno bosque para os meus intermináveis passeios no alpendrado do “Catetinho”, onde ficava a pensar o texto da sinfonia e a esperar a comida simples e gostosa que nos dava a “patroa” de Luciano, o caseiro: o mais antigo funcionário de Brasília. Apraz-me dizer que nunca ouvi, ao longo das horas em que Antonio Carlos Jobim mergulhava no mato, um só tiro perturbar o silêncio das velhas planuras. É minha impressão que o músico perdeu a coragem de chumbar seus coleguinhas alados, mesmo quando constituíam ótimo comestível, como é o caso das perdizes.

Dez dias ficamos assim no “Catetinho”, neste “dolce far niente” de fazer uma sinfonia, com sentinela à porta, pois a princípio os numerosos turistas punham sempre o nariz na vidraça para constatar como íamos de trabalho. De vez em quando dávamos um pulo à cidade para ver os amigos Oscar Niemeyer, José (Juca) Ferreira de Castro Chaves, João Milton Prates, os bravos pioneiros de Brasília, os homens que, com o Presidente Kubistchek, primeiro puseram os pés no planalto. João Milton Prates, herói da FAB, antigo piloto e amigo de JK, grande e bom amigo nosso, esse vinha sempre nos ver, com vitualhas e licores, e tomava pela obra em progresso um interesse quase criador. Um dia exibiu-nos, de sua carteira, a histórica promissória de quinhentos contos, firmada por ele e Niemeyer, com a qual puderam erguer em dez dias o incomparável “Catetinho”. Ao grande Presidente e a todos esses homens, que não têm frio nos olhos, mas cujos olhos se umedeceram ao ouvirem pela primeira vez ao piano os temas iniciais da “Sinfonia da Alvorada”, a nossa comovida gratidão, não só pela confiança que tiveram em nós, como pelo exemplo que nos deram de ânimo, modéstia e espírito de luta.

Falei em piano. É fato. João Milton Prates providenciou-nos o piano, que veio de Goiânia. Ajudados por Luciano e três capangas candangos, nós o subimos a braço para o “Catetinho”, com mais medo de que seus degraus cedessem ao peso do que de um infarte do miocárdio. Naturalmente, pois o “Catetinho” é hoje um monumento histórico, e a estátua do fundador de Brasília parecia apreensiva, sobre o seu pedestal no terreiro em frente, com os restos de nossa operação.

Temos um último e mais íntimo agradecimento a fazer: da parte de Antônio Carlos Jobim a Thereza Hermanny Jobim, sua mulher, e Celso Frota Pessoa, um padrasto que é mais que um pai e que deu mão forte a um jovem estudante de arquitetura cuja verdadeira vocação era a música; de minha parte, à minha mulher Maria Lúcia Proença de Moraes. À “torcida” dos três, sem embargo de uma constante vigilância crítica, nos foi sempre do maior estímulo nesse empreendimento em que dois sentimentos são determinantes: amor pela obra e confiança no futuro de Brasília e do Brasil.

Vinicius de Moraes, Rio de Janeiro de 1961
Transcrito do livro "Catetinho – O Palácio de Tábuas",  ITS Instituto Terceiro Setor.

 

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O texto de Antônio Carlos Jobim

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Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios. Horizonte: 360 graus. No fundo do “Catetinho” há um capão de árvores altas por onde passa um córrego de água boa e fria. Seguindo-se a água sai-se num campo onde fui muitas vezes escutar o pio das perdizes. Sillêncio nos campos claros, batidos de sol. De repente, de perto, como um grito, veio o piado do macho chamando a fêmea. Silêncio. E de longe chega a resposta. É uma conversa que parece vir do fundo dos tempos. Aqueles dois pontos de som escondidos no capim se procuram, aproximam-se, encontram-se e cantam juntos. Uma nuvem passa e sua sombra corre pelos campos. O vento faz ondas nos penachos do capim: dourado, verde, dourado…

Neste ambiente foi composto “O Planalto Deserto”. A música começa com duas trompas em quinta, que evocam as “antigas solidões sem mágoa”, de que nos fala Vinicius de Moraes e a majestade dos campos sem arestas, que a milênios se aquietaram. O espírito do lugar prevalece. Duas flautas comentam liricamente as infinitas cores das auroras e poentes, sobre um fundo harmônico de cordas em tremolo. O mistério das coisas, anteriores ao homem, é exposto numa luz clara e transparente: “onde se ouviam nos campos gerais do fim do dia o grito da perdiz, a que respondia o pio melancólico do jaó”. Às vezes, à beira d’àgua, surge a trama vegetal dos galhos e lianas. O timbre da orquestra escurece. O infinito horizonte se enche das cores do crespúsculo e se escuta mais uma vez o tema do planalto. A segunda parte aborda o homem: seu espírito de conquista, sua violência, sua força, seus desejos e seus sofrimentos para atingir o altiplano. Enquanto escrevia a música dessa parte, tomou-se em meu espírito a seguinte imagem: uma carroça vai penosamente se arrastando serra acima. O homem instiga os animais. A marcha acelera-se e surge o canto, a que responde a natureza calma e isenta de desejos. Mas o homem quer as coisas. Seu braço forte, riscado de grossas veias, ergue-se e uma lâmina afiada corta os ramos desta natureza imparticipante. O picadão se aprofunda sertão adentro. O homem haveria de plantar sua cruz no planalto.

Na terceira parte, os modernos pioneiros retomam o trabalho dos velhos bandeirantes. O projeto da nova capital é planificado e torna-se necessário, para levar a efeito “a gigantesca tarefa”, convocar “todas as forças vivas da nação”. “A chegada dos candangos” conta da vinda desses homens de olhos puxados e zigomas salientes; homens que em toda a sua pobreza ainda encontram um jeito de rir e cantar. Homens sem os quais Brasília não existiria.

Segue-se a quarta parte: “O Trabalho e a Construção”. Evitamos a música concreta para caracterizar o trabalho (ruídos de serras, estacas, etc) porque isso nos pareceu óbvio. O trabalho é visto de uma maneira mais subjetiva. A música começa com um fugato que retrata o início da ação. A sorte está lançada. A inexorabilidade da ação é posta em evidência. O fugato desenvolve-se de maneira matemática. A tônica é o centro de tudo: as tonalidades satélites vão e vêm mostrando suas cores puras, mas tudo reverte à ofuscante tônica central. Há um plano de construção e este plano é rigorosamente respeitado. Por vezes, o trabalho cessa para dar lugar à contemplação da obra já feita e três trompas aparecem sugerindo a graça e a leveza líricas do Palácio da Alvorada diante da “grande planície ensimesmada”, de que nos fala Vinicius. Mas o trabalho tem de prosseguir. Surge um ritmo marcato nas vozes masculinas e no piano, aqui usado como instrumento de percussão. Depois os arcos tomam a si o mesmo motivo, e, às vezes, eventualmente, se lamentam, como a dizer que nenhum trabalho é feito sem sofrimento. Os instrumentinos e logo os metais retomam o marcato, a sugerir o sol no zênite reverberando nas superfícies brancas, ferindo os olhos dos homens que trabalham. Novos temas arquitetônicos aparecem, cortados por uma frase de inusitado lirismo: pois o trabalho é também amor e poesia. Volta uma vez mais o tema do Palácio da Alvorada e tudo se encaminha para um desfecho inevitável. As tonalidades satélites mostram novamente suas cores, mas a tônica domina tudo. Os fatos se precipitam e o trabalho e a poesia dão-se as mãos. Algumas celebrações, alguma grandiosidade, e o trabalho se conclui, de repente, numa frase triste enunciada pela voz humana. Os homens voltam para as suas casas na melancolia do poente. Um cantochão diz de suas solidões, de suas tristezas, de suas mulheres ausentes. As cordas tomam a si o cantochão enquanto o texto fala dessa saudade dos homens por suas mulheres. Surgem pela primeira vez na Sinfonia vozes femininas que contrapontam intuitivamente com as vozes masculinas. Depois, em bocca chiusa volta o cantochão nas vozes masculinas retomando o tema da solidão. Um acorde de orquestra transporta ao tom menor e vem a treva total. Surge, independente do homem, o tema do “Planalto Deserto”, da primeira parte.

Segue-se, na quinta parte, o coral final, comemorativo da realização. Vinicius usou além da palavra-sentido, a palavra-som, o que causa muitas vezes um efeito surpreendente. O Brasil aparece em toda a sua nostalgia e grandeza. Uma nova civilização se esboça. Herdeiro de todas as culturas, de todas as raças, tem um sabor todo próprio.

Antônio Carlos Jobim, Rio de Janeiro de 1961

 

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Cidade literária, urbanismo arcaico: Brasília de Guimarães Rosa e João Cabral de Melo Neto

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Por Luis Alberto Brandão Santos
Universidade Federal de Minas Gerais

Aí estás, Brasília! E, como estás, pareces
ave de asas abertas sobre a terra:
vôo pousado para alçar-se, altivo!

 


Não é difícil observar, nesse trecho da “Prece natalícia de Brasília”(1), pronunciada pelo acadêmico Guilherme de Almeida no dia 21 de abril de 1960, a visão triunfalista que esteve na base do processo de planejamento e construção da nova capital. Concebida para ser um marco da modernização no Brasil, Brasília surge como signo de afirmação de uma nova era, como gesto de desafio, que pretende condensar e difundir a imagem de um Brasil-potência. Tratava-se de criar não apenas uma cidade, mas uma nova forma de organização social, nova cultura, nova sensibilidade: um homem novo. A empreitada arquitetônica, em geral restrita à interferência em espaços físicos já constituídos, se vê transformada em algo muito mais ambicioso: em atividade amplamente urbanística, entendida como a tentativa de arregimentação de todos os planos de uma sociedade humana.

Não é por acaso que Brasília é concebida como uma “capital aérea”, expressão utilizada, no Plano-Piloto, pelo próprio Lúcio Costa (2). Não se trata somente de uma referencia a seu formato. Ao se construir uma cidade dotada de asas, conjugando o saber intuitivo do pássaro à mais avançada tecnologia aeronáutica, veicula-se um desejo especifico e um determinado modo de olhar. O desejo das alturas, que é também o desejo da altivez. O desejo de se poder orbitar no vazio, em um espaço desprendido de referencias, espaço irrestrito, propício à total autonomia de vôo. Espaço sem caminhos pré-traçados, no qual é o deslocamento que constitui a trilha. Buscando os elevados ares, encontra-se um não-espaço, a utopia de libertar-se das contingências para habitar o próprio espaço do desejo. E é desse não-espaço que se forja o olhar do urbanista-aeronauta: um olhar que vê sempre de cima, como um olho divino, que é capaz de mapear territórios, de planejar suas formas ideais, de fundá-los como organismo, dotando-o de vida e leveza, içando-o ao alto com o seu sopro.

Irreverentemente, ou melhor, com uma irreverência que se considera plena inocência, o olho projeta-se na amplitude dos espaços abertos, infinitos, sem quaisquer obstáculos a seu movimento. Eis o olho do homem moderno, disposto a olhar como se fosse sempre pela primeira vez. Olho infantil, o mais adequado, segundo Baudelaire, para compreender a modernidade expressa pela cultura urbana: “A criança vê tudo como novidade: ela sempre está inebriada” (3). Brasília foi planejada para inebriar-se com as alturas, para olhar com os olhos virgens de uma criança. Em outro trecho da “Prece” de Guilherme de Almeida, ressoa a louvação ao poder inconteste desse novíssimo olho:

Aí estás, Brasília do olhar de menina! Menina-dos-olhos
olhando sem mágoa o passado e sem medo o Futuro,
sem ver horizontes na terra e no céu porque eles recuam
ao impacto impetuoso das tuas pupilas (4)


A presença intensa da imagem do vôo e a constituição de um olhar infantil também podem ser observadas em dois contos do livro “Primeira estórias”, de Guimarães Rosa, cuja primeira edição foi publicada em 1962. Os contos “As margens da alegria” e “Os cimos” (5), abertura e conclusão do livro, têm como protagonista um menino – significativamente denominado “O Menino” – e narram, ambos, viagens ao “lugar onde se construía a grande cidade” (6). O inicio do primeiro conto, quando o menino embarca no avião “especial”, “da Companhia”, é marcado por uma intensa sensação de plenitude. “Era uma viagem inventada no feliz: para ele, produzia-se em caso de sonho”. O clima de deslumbramento é hiperbólico, contamina todas as pequenas ações:

Respondiam-lhe a todas as perguntas, até o piloto conversou com ele. O vôo ia ser pouco mais de duas horas. O menino fremia no acorção, alegre de se rir para si, confortavelzinho, com um jeito de folha de cair. A vida podia às vezes raiar numa verdade extraordinária. Mesmo o afivelarem-lhe o cinto de segurança virara forte afago, de proteção, e logo novo senso de esperança: ao não-sabido, ao mais. Assim um crescer e desconter-se – certo como o ato de respirar – o de fugir para o espaço
em branco. O Menino (7).


Todas as perspectivas se abrem. Todas as promessas estão prontas para serem cumpridas.
Nada se opõe ao desejo. Ou melhor: o desejo nem chega a se manifestar, já que, nesse estado de infância absoluta, paradisíaca, qualquer possível demanda já foi, de antemão, atendida. “E as coisas vinham docemente de repente, seguindo harmonia prévia, benfazeja, em movimentos concordantes: as satisfações antes da consciência das necessidades” (8). O olhar infantil, que absorve a verdade total, que capta a mais esfuziante luminosidade, pode, do alto, compreender o mundo como um mero conjunto de pontos em um mapa. Sua visão é imponentemente cartográfica: reduz, à sua perspectiva, as dimensões dos objetos observados. “Se homens, meninos, cavalos e bois – assim insetos?” (9).

A primeira parte do conto é toda marcada pela euforia da descoberta: “O Menino via, vislumbrava. Respirava muito. Ele queria poder ver ainda mais vívido – as novas tantas coisas – o que para os seus olhos se pronunciava” (10). Este Menino maiúsculo é uma espécie de Adão, fundando um universo à medida que o nomeia. Seu olhar inaugural está sintetizado na figura de um peru, que aparece no quintal da casa de madeira, próximo à mata: um peru “imperial”, “completo”, “para sempre”, símbolo explicito de potência. A grandiloqüência da percepção do Menino condiz com o espírito norteador da construção daquela cidade. Uma grande realização que surge do nada, como num passe de mágica. Como se a mesquinhez das regras da realidade tivesse sido burlada. Por isso o Menino podia sentir-se “nos ares”. Por isso era possível afirmar: “Esta grande cidade ia ser a mais levantada do mundo” (12).

A segunda metade do conto, no entanto, coloca um fim nesse entusiasmo desmedido. O peru fora morto. O Menino agora penetra em um ambiente hostil no qual “tudo perdia a eternidade e a certeza”. A construção da cidade passa a ser percebida sob a ótica do cansaço extremo, como uma tarefa terrível, comandada pela tosca ação das máquinas: construção percebida como destruição. O Menino “descobria o possível de outras adversidades”, e, então, “abaixava a cabecinha” (13).

Entretanto, o final do conto revela uma nova mudança, que transpõe os dois pólos até então apresentados: de um lado a plenitude, do outro o desgosto e o remorso. Surge um outro peru, menor. Mas também surge a cabeça degolada do primeiro. A alegria se reconstitui, mas recortada pela perplexidade. O Menino é introduzido no reino da ambigüidade, dos sentimentos contraditórios: “O Menino se doía e se entusiasmava” (14). Constata-se a impossibilidade de compreender a perversidade do mundo: o novo peru bica, com ódio, a outra cabeça. Não há mais a luminosidade irrestrita do princípio. “Trevava” (15). O vôo, agora, não é grandioso, mas o de um modesto vagalume. O olhar é levado a se contentar com uma luz efêmera e intermitente.

Poética arquitetural

Há muitos pontos comuns entre o pensamento modernizador que fundamentou a concepção e a construção de Brasília e as opções estéticas que alicerçam a obra de João Cabral de Melo Neto. Pode-se citar, como algumas das linhas mestras da poética cabralina, a busca de racionalidade concretista, o planejamento minucioso das formas cuja autonomia é perseguida, em detrimento do subjetivismo e da ornamentação, a recusa da tradição vigente através da adoção de uma postura que considera crítica e criação como operações indissociáveis. Sobretudo, há o fascínio pela possibilidade de transplantar, para a poesia, o caráter construtivista da arquitetura. O próprio João Cabral enfatiza a grande influência exercida por nomes como Lincoln Pizzie, arquiteto, Joaquim Cardozo, calculista de Brasília e de outros projetos de Niemeyer e, fundamentalmente, Le Corbusier: “Para mim, a poesia é uma construção, como uma casa. Isso eu aprendi com Le Corbusier. A poesia é uma composição. Quando digo composição, quero dizer uma coisa construída, planejada – de fora para dentro” (16).

A eleição da concretude do “fora” como vetor determinante do processo poético equivale à recusa do império da subjetividade sustentado pela força da tradição romântica. Trata-se, assim, de esvaziar o “dentro” para que a poesia se construa a partir de um território vazio. De maneira similar ao movimento de quem almeja “edificar do nada” (17) uma cidade, como ocorre com o urbanista moderno, o gesto do poeta é o gesto daqueles que “têm um vazio a preencher” (18).

Através da identificação entre poeta e arquiteto, constata-se, na obra de João Cabral de Melo Neto, o endosso do caráter utópico – tipicamente modernista – que está na base da concepção de Brasília. Tal concepção é marcada pela grandiloqüência das intenções, pelo “caráter monumental” do empreendimento. Nas palavras de Lúcio Costa: “monumental não no sentido de ostentação, mas no sentido da expressão palpável, por assim dizer, consciente, daquilo que vale e significa” (19). Autoconsciência e racionalidade utópicas que ecoam com nitidez em versos como os do poema “Fábula de um arquiteto” (20).

O arquiteto: o que abre para o homem
(tudo se sanearia desde casas abertas)
portas por-onde, jamais portas-contra;
por onde, livres: ar luz razão certa.


Notável em João Cabral é que o fato de endossar o potencial utópico vislumbrado na ação do arquiteto não pressupõe o abandono de uma visão crítica dos riscos dessa ação. No mesmo poema, chama-se atenção para a hipótese de que a arquitetura possa vir a “refechar o homem”:

Onde vãos de abrir, ele foi amurando
opacos de fechar; onde vidro, concreto;
até refechar o homem: na capela útero,
com confortos de matriz, outra vez feto.


O ímpeto civilizador não abole a ameaça de retorno a um estágio primitivo. A lucidez obstinada pode se contaminar pela indolência sombria. A racionalidade não é necessariamente antídoto para o misticismo. A virilidade que abre pode se converter no introjetar feminino. O progresso descobre seu caráter regressivo.

Vôo parado

Retomando a obra de Rosa, pode-se dizer que o conto “Os cimos” é, de certa forma, uma imagem invertida de “As margens da alegria”. A situação inicial é a mesma: o vôo do Menino para Brasília em construção. Entretanto, ao contrário da efusividade inicial do primeiro conto, a sensação é a de um indisfarçável mal-estar, associado ao sofrimento: “Entrara aturdido no avião, a esmo tropeçante, enrolava-o por dentro um estufo como cansaço; fingia apenas que sorria, quando lhe falavam. Sabia que a Mãe estava doente” (21). O olho não se deslumbra mais com a possibilidade de ver tudo, de absorver a luminosidade plena: “A gente devia poder parar de estar tão acordado, quando precisasse, e adormecer seguro, salvo. Mas não dava conta. Tinha de tornar a abrir demais os olhos, às nuvens que ensaiavam esculturas efêmeras”. A imagem do vôo deixou de ser gloriosa e radiante, de indicar um movimento orgulhosamente progressivo. O vôo, agora, é estático, ou mesmo regressivo: “O avião não cessava de atravessar a claridade enorme, ele voava o vôo – que parecia estar parado. Mas no ar passavam peixes negros, decerto para lá daquelas nuvens: lombos e garras. O menino sofria sofreado. O avião então estivesse parado voando – e voltando para trás, mais, e ele junto com a Mãe”(22).

O frescor do olho infantil já está comprometido pela adversidade e pela nostalgia de algo que se perdeu. O Menino não é mais tão substantivo, concentrado apenas em sua própria mirada. Ele se descentra, percebe-se no ato de incorporar olhares alheios, “como assistir às certezas lembradas por um outro; era que nem uma espécie de cinema de desconhecidos pensamentos; feito ele estivesse podendo copiar no espírito idéias de gente muito grande” (23). O Menino envelhece.

No decorrer do conto, redescobre-se o encanto, reconquistado através do vôo de um tucano, “suspenso esplendentemente”. A imagem do vôo recupera um sentido de plenitude de luz e de certeza: “Toda a luz era dele, que borrifava-a de seus coloridos” (24). No entanto, constata-se em seguida que o vôo do tucano é, na verdade, descontínuo; não é movimento puro, mas também estaticidade, não-vôo, “feito se, a cada parte e pedacinho de seu vôo, ele ficasse parado, no trecho e impossivelzinho do ponto, nem no ar – por agora, sem fim e sempre” (25). O conto transforma-se em um jogo de ganhos e perdas. Perde-se o boneco, acha-se o seu chapéu anteriormente perdido. Ganha-se a desejada recuperação da saúde da mãe, arca-se com a consciência de que aqueles são “dias quadriculados” (26). Ganha-se o encanto, mas “depois do encanto, a gente entrava no vulgar inteiro do dia” (27). No final, afastando-se de Brasília, o olhar do Menino não vê mais a totalidade da paisagem a seus pés, subordinada aos mapas. A paisagem, agora, está “fora das molduras” (28). O vôo, cercado de enigmas, e não mais de verdades, não se conclui, é um vôo que ainda não chegou.

Superpondo, à imagem de Brasília como “cidade a mais levantada” e cidade aérea, uma gama de imagens de vôo que vão da modalidade ao estático, da luz total às trevas, do pensamento infantil ao envelhecido, da perspectiva de visão superior ao olho que não vê, Guimarães Rosa explora as ambigüidades que estão no cerne do imaginário brasileiro relativo à modernização urbana. Coloca-se em discussão a crença na viabilidade de um projeto civilizatório baseado na grandiloqüência de intervenções estatais. A Brasília literária surge como orgulho mas também como vítima de uma suposta racionalidade urbanizadora. Edificar, colocar em prática um projeto utópico envolve, inexoravelmente, a perda da inocência, o confronto com fatores que corroem os ideais, ou, ainda, que revelam a face autoritária escondida sob a máscara das boas intenções. Nesse sentido, Rosa se inscreve na mesma perspectiva de outros escritores brasileiros, como o próprio João Cabral de Melo Neto, que enxerga, nos palácios de Brasília, casas-grandes de engenho, (29) ou Clarice Lispector, quando observa que, apesar de ter sido construída sem um lugar para os ratos, Brasília acaba sendo por eles invadida (30).

Na direção contrária aos discursos triunfalistas – como o de André Malraux, que detecta, em Brasília, a possibilidade de “pôr a arquitetura ao serviço da Nação, de restituir-lhe parte da alma, que perdera” (31) -, as imagens literárias esboçam o vôo extremo da modernidade não apenas segundo seu poder de propulsão, sua velocidade, mas também segundo seus vetores de paralisia ou retenção, seus inevitáveis atrasos. Apontam para o fato de que reconstituir a alma ideal da nação é impossível, e que essa alma só pode mesmo reconhecer-se como perda.

Porosidade do concreto

Se compreendemos Brasília como uma espécie de absolutização do gesto modernista – o moderno levado a seu limiar -, encontramos nela um campo privilegiado para o reconhecimento das contradições de tal gesto. É na cidade mais tipicamente moderna que as dissonâncias do moderno se expõem na sua máxima intensidade. E a obra de João Cabral se alimenta dessas dissonâncias para propor uma reflexão a respeito do modo como se constitui a cultura brasileira. É possível detectar, acompanhando a perspectiva poética sugerida por suas imagens de Brasília, a principal linha que compõe um retrato crítico do Brasil:

No cimento duro, de aço e de cimento,
Brasília enxertou-se, e guarda vivo,
esse poroso quase carnal da alvenaria
da casa de fazenda do Brasil antigo (32).


O que se realça é que nas pretensas concretude e coesão do projeto modernizador está infiltrada a porosidade resistente da tradição colonial como traço básico da cultura brasileira. Nos interstícios da sofisticação industrial urbana, os resíduos irremovíveis do primitivismo agrário e escravocrata. É verdade que, no Plano-Piloto, o próprio Lúcio Costa já se referira à construção de Brasília como um “ato desbravador, nos moldes da tradição colonial” (33). Tal afirmativa deveria, a princípio, soar estranha ao ímpeto de modernização – que se sustenta, obviamente, pela negação do passado. No entanto, quando se associa a ação de colonizar à de desbravar, cultiva-se uma visão heróica da colonização, o que corresponde a dizer que a colonização é pensada da perspectiva do colonizador. O desenho da aeronave – traçado básico de Brasília e reconstituição moderna da Cruz de Malta içada nas caravelas portuguesas – atualiza o ímpeto de expansão do mundo, de domínio de novos territórios. Gloriosa, a expansão acredita justificar-se por si mesma, por sua própria inexorabilidade.

O que se encontra na poesia de João Cabral de Melo Neto não é o apagamento da interface conflituosa colonizador-colonizado, mas, exatamente, a exploração de tal interface. Dessa maneira, é possível fazer vir à tona o caráter profundamente arcaizante do intuito modernizador. É possível enxergar Brasília como uma cidade arcaica, como a mais arcaica das cidades. Cidade onde os palácios são “casas-grandes” (34), sintetizando a repetição das estratégias de dominação do passado colonial.

No poema “À Brasília de Oscar Niemeyer” (35), o “espraiamento da alma” visado pelo olho modernizador é viabilizado pela horizontalidade dos espaços. Contudo, se o olho se lança a partir das novas edificações – que são “horizontais, escancaradas”, mas não deixam de ser “casas-grandes de engenho” -, as imagens por ele produzidas são marcadas por uma ambigüidade perversa, seja na indisfarçável retórica de seu tom nacionalista, seja no caráter impositivo de sua pretensão pedagógica:

Eis casas-grandes de engenho,
horizontais, escancaradas,
onde se existe em extensão
e a alma todoaberta se espraia.

Não se sabe é se o arquiteto
as quis símbolos ou ginástica:
símbolos do que chamou Vinícius
“imensos limites da pátria”

ou ginástica, para ensinar
quem for viver naquelas salas
um deixar-se, um deixar viver
de alma arejada, não fanática.

Resumo

O objetivo deste ensaio é investigar, através da análise dos contos “As margens da alegria” e “Os cimos”, do livro “Primeiras estórias”, de Guimarães Rosa, e de alguns poemas de João Cabral de Melo Neto, o modo como esses autores abordam as ambigüidades do processo de modernização urbana no Brasil, ao elegerem a cidade de Brasília como ponto de partida para uma reflexão sobre as especificidades da interface moderno/arcaico na cultura brasileira.

1 ALMEIDA, 1971, p.214.
2 COSTA, 1971, p.139.
3 BAUDELAIRE, 1996, p. 18.
4 ALMEIDA, 1971, p. 214.
5 ROSA, 1988, p.7-12 e 152-160.
6 ROSA, 1988, p. 7.
7 ROSA, 1988, p. 7.
8 ROSA, 1988, p. 7.
9 ROSA, 1988, p. 8.
10 ROSA, 1988, p. 8.
11 ROSA, 1988, p. 8.
12 ROSA, 1988, p. 9.
13 ROSA, 1988, p. 10.
14 ROSA, 1988, p. 11.
15 ROSA, 1988, p. 12.
16 MELO NETO, 1996, p. 21.
17 PEDROSA, 1981, p. 352.
18 MELO NETO, 1996, p. 21.
19 COSTA, 1971, p. 124-125.
20 MELO NETO, 1994, p. 346.
21 ROSA, 1988, p. 152.
22 ROSA, 1988, p. 153.
23 ROSA, 1988, p. 154.
24 ROSA, 1988, p. 155.
25 ROSA, 1988, p. 156.
26 ROSA, 1988, p. 158.
27 ROSA, 1988, p. 157.
28 ROSA, 1988, p. 159.
29 MELO NETO, 1994, p. 399.
30 C. LISPECTOR, 1975.
31 MALRAUX, 1969, p. 20.
32 MELO NETO, 1994, p. 347.
33 COSTA, 1971, p. 123.
34 MELO NETO, 1994, p. 348.
35 MELO NETO, 1994, p. 399.

Referências Bibliográficas

ALMEIDA, Guilherme de. Prece natalícia de Brasília. In: SILVA, Ernesto. História de Brasília. Brasília: Coordenada, 1971.
BAUDELAIRE, Charles, Sobre a modernidade. Trad. Teixeira Coelho. São Paulo. Paz e Terra, 1996.
COSTA, Lúcio. Plano-Piloto de Brasília. In: SILVA, Ernesto. História de Brasília. Brasília: Coordenada, 1971.
LISPECTOR, Clarice. Visão do esplendor. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1975.
MALRAUX, André. Brasília na palavra de André Malraux. Rio de Janeiro: Presidência da República – Serviço de Documentação, 1959.
MELO NETO, João Cabral de. Considerações do poeta em vigília. Cadernos de literatura brasileira. São Paulo: Instituto Moreira Salles, n. 1, mar. 1996. Entrevista.
MELO NETO, João Cabral de. Obra completa. Rio de Janeiro. Nova Aguilar, 1994.
PEDROSA, Mário. Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília. São Paulo: Perspectiva, 1984.
ROSA, João Guimarães. Primeira estórias. 23. ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

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Discurso que André Malraux, ministro dos assuntos culturais da França, proferiu em Brasília a 24 de Agosto de 1959

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Discurso que André Malraux, ministro dos assuntos culturais da França, proferiu em Brasília a 24 de Agosto de 1959
A tradução em português é seguida do texto original, em francês

Seja-me permitido agradecer inicialmente as palavras que acabais de consagrar a meu país, ao general De Gaulle e a mim mesmo. Se o vinculo que une o Brasil à França carecesse de provas, não as haveria mais evidentes que a acolhida tão calorosa que me tributam desde ontem e a presença do presidente da República nesta cerimônia. Também a França considera que as relações entre o Brasil e a Europa, impostas pela própria natureza da civilização que vai nascendo aos nossos olhos, ultrapassarão o antigo conceito de intercâmbio em suas diferentes modalidades: que o estabelecimento de um plano mundial de exploração das riquezas naturais em proveito das nações que as detém e somente destas deve constituir um dos objetivos primordiais deste século; e que, à sua luta épica contra a terra, o homem deve afinal dar formas dignas de si mesmo. É esta ultima exigência a que simboliza nossa presença aqui, senhor presidente da Republica, como o simboliza também esta própria cidade, No processo de seu desenvolvimento, muita vez as grandes nações encontraram o seu símbolo e, indubitavelmente, Brasília
é um símbolo desse gênero -, Quase todas as grandes cidades haviam-se desenvolvido por si mesmas, em volta de um lugar privilegiado, Que hoje a Historia contemple conosco o despontar das primeiras edificações de uma cidade feita surgir unicamente pela vontade humana! Se renascer a velha paixão das inscrições nos monumentos, gravar-se-á sobre os que aqui vão nascer: “Audácia, energia, confiança". Não se trata de vossa divisa oficial, mas talvez da que vos dará a posteridade.

Sabeis – como a sabem todos as artistas, mas como os governos não o sabem tão bem – que as formas de arte destinadas a perpetuar-se na memória dos homens são formas “inventadas”. Nesta cidade que tem sua origem na vontade de um homem e na esperança de uma Nação, como as antigas metrópoles surgiram da vontade imperial de Roma ou dos herdeiros de Alexandre, o Palácio da Alvorada que edificastes, a catedral que haveis projetado nos trazem algumas das formas mais arrojadas da arquitetura, e, ante as esboços da futura Brasília, percebemos que a cidade inteira será a mais ousada que jamais o Ocidente haja concebida. Em nome de tantos monumentos ilustres que povoam nossa memória, graças vos sejam dadas por haverdes depositada confiança em vossos arquitetas para criar a cidade e em vosso povo para que lhe tenha amor. Tal ousadia, sabemos como alguns a temem, mesmo dentre amigos vossos. Mas se eles não se enganam quanta a resplendente originalidade desses projetos, é passível que apreendam mal o que lhes confere decisivo valar histórico. É chegada a hora de compreender que a obra que começa a erguer-se diante de nós e a primeira das capitais da nova civilização.

Até agora, a arquitetura moderna era uma arquitetura de edifícios. Tinha criado «casas», mesmo quando tais casas, como em Nova Iorque, se aprumam- num eriçamento de torres. Que ela devesse um dia superar este épico individualismo – já que, a cidade não é apenas um conglomerado de casas – não oferecia dúvidas para nenhum dos seus historiadores. Quase todos, porém, julgavam que a arquitetura em escala maior. a que cria cidades e não edifícios, iria nascer na União Soviética – eis contudo que está a surgir neste local.

Com efeito, vão configurar-se aqui as primeiras grandes perspectivas da arquitetura moderna ainda desconhecidas para o nosso século. Vale dizer que essa “arquitetura ereta" vai sofrer fundamental metamorfose, anunciada confusamente pela da Europa, da África do Norte, pela vossa. É a reconquista do arranha-céu pelo solo; trata-se, antes de mais nada, da ressurreição do lirismo arquitetônico, nascido com o mundo helenístico e objeto dos devaneios de Cesar em Alexandria. E, diante da decisão graças à qual o gênio brasileiro" se faz a um tempo sucessor das perspectivas da Grécia, da Roma pontifícia, de Versalhes e do Paris napoleônico, pensamos que esse vocábulo tao confuso, “Latinidade”, tem pelo menos uma acepção precisa: a de «Fraternidade».

Vamos mais longe. «Para que Brasília se torne uma verdadeira Capital – escreve Lúcio Costa – o seu planificador deve impregnar-se de uma dignidade, de uma nobreza de intenção donde resulte o senso da ordem, da utilidade e da proporção, único capaz de dar ao projeto inteiro a monumentalidade desejada».

Mas que «cidade» moderna se preocupara, até agora, com tal nobreza de intenção? O que entra em jogo é imenso: trata-se, ao pôr a arquitetura ao serviço da Nação, de restituir-lhe parte da alma, que perdera. Era isso aspiração sua? Quem sabe. O titulo de honra do Brasil esta em não se contentar com a simples aspiração.

A arquitetura tivera, como obras capitais, os templos e as catedrais; mais tarde, os palácios, quando a época das Grandes Monarquias atribuiu às moradas reais um significado que transcendia o do luxo.

O limite da arquitetura moderna é o de estar a serviço do poderio econômico ou do indivíduo. Um único e admirável conjunto arquitetônico dos Estados Unidos – o Centro Rockefeller – não se elevou à gloria de uma potencia do petróleo e, sim, à glória da solidariedade humana, da ciência e do espírito. Concebeis a cidade como um imenso conjunto e, desde a origem, exigis que os edifícios nele assumam determinada significação . Eis porque Lucio Costa assim conclui: «A cidade não será apenas a sede do governo e da administração, mas ainda um dos maiores centros culturais do pais». Esta Brasília sobre o seu gigantesco planalto é de certo modo a Acrópole sobre o seu rochedo… Salve, capital intrépida, que recordas ao mundo estarem os teus monumentos ao serviço do espírito!

O espírito que esta cidade evoca e o que sob muitos aspectos a fez nascer, pois a nobreza a que se referem os seus fundadores mergulha profundas raízes no tempo. Mas ela evoca a própria metamorfose. Até nos outros, o cortejo dos grandes fantasmas do passado formava uma linhagem. O Ocidente era o herdeiro da Bíblia e dos Antigos. A descoberta das civilizações sepultas, a dos meios de difusão da pintura e da música fazem de nós os primeiros herdeiros da terra inteira. Elabora-se uma nova civilização e a cultura que ela invoca é hoje o objeto em torno do qual lutam todas as forças do espírito. E o objeto capital dessa cultura e uma noção do homem sem a qual a nova civilização não poderia viver: não ha civilização sem alma.

Cada uma das grandes religiões trouxe uma noção fundamental do homem, e nosso tempo esforça-se apaixonadamente por dar forma ao fantasma que o século das maquinas colocou em seu lugar. Tanto mais apaixonadamente quanto, com os campos de exterminação, com a ameaça atômica, a sombra de Satã reapareceu sobre o mundo, ao mesmo tempo que reaparecia no homem: a psicanálise redescobre os demônios, para reintegrá-los no indivíduo. Mas, num mundo sem chave, onde o Mal se torna fundamental enigma, qualquer sacrifício, qualquer obra prima, qualquer ato de piedade ao heroísmo propõem um enigma tão fascinante quanto o do suplicio da criança inocente, obsessão de Dostoievsky: quanto o de todos os pobres olhos humanos que descortinaram uma câmara de gás antes de se fecharem para sempre: a existência do amor, da arte ou do heroísmo não e menos misteriosa que a do mal. Quiçá a aptidão do homem para concebê-los ou conservá-los invencivelmente seja uma de suas "componentes”, como o é a aptidão para a inteligência: e o objetivo de nossa civilização, no âmbito do espírito, se torna, assim, depois de ter descoberto as técnicas que reintegram os demônios no homem, o de buscar as técnicas que reintegrariam nele os deuses.

Mas a reconquista da grandeza esquecida assume a forma que lhe dão os que a asseguram. É que cada nação a preserva a seu modo – e tende a agrupar-se, não com todas as outras, mas com algumas afins, em vastas áreas culturais. A nova civilização se manifestará de certo no Ocidente, não só sob sua forma russa, mas sob duas grandes formas que corresponderão, «grosso modo», as áreas católicas e protestantes. De cada uma dessas formas, do novo tipo de homem por elas suscitado, posso aqui dizer, como em Atenas: pertencerão a todos os que tiverem resolvido criá-las juntamente: o espírito não conhece nações menores, conhece apenas nações fraternas – e vencedores sem vencidos.

Eis aí onde a cultura encontra seu papel insubstituível. Pelo conhecimento, mas também por outros caminhos mais secretos. A cultura não consiste somente em conhecer Shakespeare, Victor Hugo, Rembrandt ou Bach: consiste antes de mais nada em amá-los. Não há cultura verdadeira sem comunhão, e talvez seu domínio mais profundo e mais misterioso seja a «presença», em nossa vida, do que deveria pertencer à morte. A cultura do novo mundo latino – que não é apenas o grande e velho mundo mediterrâneo, que não é somente a América Latina – será, como todas as verdadeiras culturas, uma cultura conquistada. O que ela deve conquistar para criar seu tipo de homem exemplar e para moldar seu novo passado é a presença, em seu seio, de todas as formas de arte, de amar, de grandeza e de pensamento que, no curso de milênios, sucessivamente permitiram ao homem «ser menos escravo»: o domínio que une, ao fundo de nossa memória, sob a imensa indiferença das nebulosas, as silhuetas invencíveis e outrora inimigas dos pescadores de Tiberíade e dos pastores da Arcádia… O império mais sangrento do mundo, o império assírio, deixa em nossa memória a majestade de sua «Leoa ferida»: se há uma arte dos campos de concentração, ela não exprimirá os carrascos e sim os mártires. "Ergue-te Lázaro". Não sabemos ressuscitar os corpos, mas começamos a saber ressuscitar os sonhos – e o que hoje vos propõe a França, é que, para todos nós, a cultura seja a ressurreição da nobreza do mundo.

Reconheçamos que nos une um futuro fraterno, mais ainda que um passado comum. Tivestes razão, nas mais sombrias horas, quando não desesperastes de nós, porquanto, hoje, o General De Gaulle, que encontrou todas as chagas de meu país em seu legado, reencontra, apesar dessas chagas, a linguagem secular da França, para lembrar ao mundo que “é o homem que se trata de salvar". Porque a cultura tem duas fronteiras intransponíveis: a servidão e a fome. Que nos seja dado contribuir para apagá-las, que nos seja dado construir uma civilização que se assemelhe à nossa esperança, uma civilização que coloque todas as grandes obras da humanidade ao serviço de quantos homens as reclamarem!

Haveis pronunciado aqui, Sr. Presidente da República, palavras conhecidas de muitos dentre nós:
«Deste planalto central, desta solidão que será em breve o cérebro de onde partirão as altas decisões nacionais, lanço um olhar, uma vez mais, sobre o futuro de meu país e entrevejo essa alvorada com fé inquebrantável e confiança sem limites na grandeza de seu destino».

Quando, por minha vez, contemplo este lugar que já não é uma solidão, acodem-me ao espírito as bandeiras que o general De Gaulle entregou, em 14 de julho, aos chefes dos Estados da comunidade franco-africana, e o solene cortejo de sombras dos mortos ilustres da França, que amais, porque seus nomes pertencem à generosidade do mundo. E em sua grande noite fúnebre, um murmúrio de glória acompanha o bater das forças que saúdam vossa audácia, vossa confiança e o destino do Brasil, enquanto se vai erguendo a capital da esperança.

André Malraux, ministro dos assuntos culturais da França
Brasília, 24 de Agosto de 1959

Texto original, em francês:

Permettez-moi de vous remercier tout d’abord des paroles que vous venez de consacrer à mon pays, au Général de Gaulle et à moi-même. Si le lien qui unit le Brésil à la France avait besoin de preuves il ne pourrait en recevoir de plus éclatantes que l’accueil si chaleureux que je rencontre depuis hier, et la présence du Président de la République à cette cérémonie.

La France pense, elle aussi, que les relations entre le Brésil et l’Europe, imposées par la nature même de la civilisation qui est en train de naître sous nos yeux, vont dépasser de loin ce que, dans divers domaines, on appelait naguère des échanges. Que l’établissement d’un plan mondial d’exploitation des richesses naturelles au bénéfice des nations qui les possèdent et d’elles seules doit devenir l’un des desseins majeurs du siècle, et qu’à sa lutte épique contre la Terre, l’homme doit donner enfin des formes dignes de lui. C’est cette dernière exigence que symbolise notre présence ici, Monsieur le Président de la République, comme la symbolise cette ville elle-même.

Au cours de leur développement, les grandes nations ont souvent trouvé leur symbole, et sans doute Brasilia est-elle un symbole de cette sorte. Presque toutes les grandes villes se sont développées d’elles-mêmes, autour d’un lieu privilégié. Que l’histoire, aujourd’hui, regarde avec nous les premiers surgissements d’une ville appelée par la seule volonté humaine ! Si renaît la vieille passion des devises sur les monuments, on écrira sur ceux qui vont naître ici : "Audace, énergie, confiance". Ce n’est pas votre devise officielle, mais c’est peut-être celle que vous donnera la postérité.

Vous savez, comme savent tous les artistes mais comme le savent moins bien les gouvernements, que les formes de l’art appelées à demeurer dans la mémoire des hommes sont des formes inventées. Dans cette ville surgie de la volonté d’un homme et de l’espoir d’une nation, comme les métropoles antiques surgirent de la volonté impériale de Rome ou des héritiers d’Alexandre, le palis de l’Alvorada que vous édifiez, la cathédrale que vous projetez, apportent quelques-unes des formes les plus hardies de l’architecture, et, devant les maquettes de la Brasilia future, nous savons que la ville entière sera la ville la plus audacieuse qu’ait conçue l’Occident. Au nom de tant de monuments illustres qui emplissent notre mémoire, soyez remerciés d’avoir fait confiance à vos architectes pour créer la ville, et à votre peuple pour l’aimer !

Cette audace, nous savons combien certains la craignent, même parmi vos amis. Mais s’ils ne se méprennent pas à l’éclatante originalité de ces projets, peut-être se méprennent-ils à ce qui fait leur valeur historique décisive. Il est temps de comprendre que ce qui commence à s’élever devant nous, c’est la première des capitales de la nouvelle civilisation. L’architecture moderne était, jusqu’ici, une architecture d’édifices. Elle a créé des maisons, même si ces maisons dressent à la proue de New-York leur hérissement de tours. Qu’elle dût dépasser quelque jour cet individualisme épique _ car la cité n’est pas seulement une agglomération de maisons _ aucun de ses historiens n’en doutait. Mais presque tous pensaient que la plus grande architecture, celle qui crée les villes et non les immeubles naîtrait en Union Soviétique, _ et elle est en train de surgir ici.

Car ici, vont naître les premières grandes perspectives de l’architecture moderne, que notre siècle ne connaissait pas encore. Ce qui veut dire que cette "architecture debout" va subir une métamorphose fondamentale, annoncée confusément par celle de l’Europe, de l’Afrique du Nord, par la vôtre. C’est la reconquête du gratte-ciel par le soleil ; c’est avant tout la résurrection du lyrisme architectural né avec le monde hellénistique, qui faisait rêver César à Alexandrie. Et devant la décision par laquelle le génie brésilien continue à la fois les perspectives de la Grèce, de la Rome pontificale, de Versailles et du Paris napoléonien, nous pensons que le mot si confus de latinité a peut-être au moins un sens précis : celui de fraternité.

Allons plus loin. "Pour que Brasilia devienne une véritable capitale, écrit Lucio Costa, son planificateur doit être imprégné d’une dignité, d’une noblesse d’intention d’où résulte le sens de l’ordre, de l’utilité et de la proportion qui seul peut donner au projet entier la qualité monumentale désirée."

Mais quelle ville moderne, jusqu’ici, s’était souciée de cette dignité, de cette noblesse d’intention ? Ce qui entre en jeu est immense : il s’agit, en mettant l’architecture au service de la nation, de lui rendre une part de son âme, qu’elle avait perdue. Elle y aspirait ? Peut-être. L’honneur du Brésil est de ne pas se contenter d’y aspirer. L’architecture avait eu pour œuvres capitales les temples et les cathédrales ; puis les palais, lorsque l’époque des Grandes Monarchies donna aux palais des rois une signification qui n’était pas seulement celle du luxe. La limite de l’architecture moderne est d’être au service de la puissance économique ou de l’individu ; le seul admirable ensemble architectural des Etats-Unis, le Centre Rockfeller, n’est pas élevé à la gloire d’une puissance du pétrole, mais à la gloire de la solidarité humaine, de la science et de l’esprit. Vous concevez la ville comme un immense ensemble, et dès l’origine vous exigez que les édifices y expriment une signification. C’est pourquoi Lucio Costa termine ainsi : "La ville ne sera pas seulement la résidence du gouvernement et de l’administration, mais encore un des centres culturels majeurs du pays". Cette Brasilia sur son plateau géant, c’est un peu l’Acropole sur son rocher… Salut, capitale intrépide, qui rappelle au monde que les monuments sont au service de l’esprit ! L’esprit que cette ville appelle, elle en est née à maints égards, car la noblesse à laquelle se réfèrent ses fondateurs plonge dans le temps de profondes racines. Mais elle en appelle la métamorphose. Jusqu’à nous, le cortège des grands fantômes du passé formait une lignée. L’Occident était l’héritier de la Bible et des Anciens. La découverte des civilisations englouties, celle des moyens de diffusion de la peinture et de la musique, font de nous les premiers héritiers de toute la terre. Une nouvelle civilisation s’élabore, et la culture qu’elle appelle est aujourd’hui l’enjeu de toutes les forces de l’esprit. Et l’objet capital de cette culture, c’est une notion de l’homme sans laquelle la nouvelle civilisation ne pourrait vivre : il n’y a pas de civilisation sans âme. Chacune des grandes religions avait apporté une notion fondamentale de l’homme, et notre temps s’efforce passionnément de donner forme au fantôme que leur a substitué le siècle des machines. D’autant plus passionnément, qu’avec les camps d’extermination, avec la bombe atomique, l’ombre de Satan a reparu sur le monde, en même temps qu’elle reparaissait dans l’homme : la psychanalyse redécouvre les démons, pour les réintégrer en lui. Mais dans un monde sans clef, où le Mal devient une énigme fondamentale, le moindre sacrifice, le moindre chef-d’oeuvre, le moindre acte de pitié où d’héroïsme, posent une énigme aussi fascinante que celle du supplice de l’enfant innocent qui obsédait Dostoïevski, que tous les pauvres yeux humains qui découvrirent une chambre à gaz avant de se fermer à jamais : l’existence de l’amour de l’art ou de l’héroïsme n’est pas moins mystérieuse que celle du mal. Peut-être l’aptitude de l’homme à les concevoir et à les maintenir invinciblement est-elle une de ses composantes comme l’est l’aptitude à l’intelligence, et le but de notre civilisation, dans l’ordre de l’esprit, devient-il, après avoir trouvé les techniques qui réintègrent les démons dans l’homme, de chercher celles qui y réintègreraient les dieux.

Mais la reconquête de la grandeur oubliée prend la forme que lui donne ceux qui l’assurent. Car chaque nation l’assure à sa manière _ et tend à se grouper, non avec toutes les autres, mais avec quelques parentes, en de vastes aires culturelles. Sans doute la nouvelle civilisation connaîtra-t-elle en Occident, outre sa forme russe, deux grandes formes qui correspondront, en gros, aux aires catholique et protestante. De chacune de ces formes, du nouveau type d’homme qu’elle suscitera, je dis ici, comme à Athènes : ils appartiennent à tous ceux qui auront choisi de les créer ensemble : l’esprit ne connaît pas de nations mineures, il ne connaît que des nations fraternelles _ et des vainqueurs sans vaincus. La culture trouve là son rôle irremplaçable. Par la connaissance, mais aussi par d’autres voies plus secrètes. La culture, ce n’est pas seulement de connaître Shakespeare, Victor Hugo, Rembrandt ou Bach : c’est d’abord de les aimer. Il n’y a pas de vraie culture sans communion, et peut-être son domaine le plus profond et le plus mystérieux est-il la présence, dans notre vie, de ce qui devrait appartenir à la mort. La culture du nouveau monde latin _ qui n’est pas seulement le grand et vieux monde méditerranéen, qui n’est pas seulement l’Amérique latine, _ sera, comme toutes les vraies cultures, une culture conquise. Ce qu’elle doit conquérir pour créer son type d’homme exemplaire et modeler son nouveau passé, c’est la présence, en elle, de toutes les formes d’art, d’amour, de grandeur et de pensée qui, au cours des millénaires, ont successivement permis à l’homme d’être moins esclave : le domaine qui unit au fond de notre mémoire, sous l’immense indifférence des nébuleuses, les silhouettes invincibles, et jadis ennemies, des pêcheurs de Tibériade et des bergers d’Arcadie… Le plus sanglant empire du monde, l’empire assyrien, laisse dans notre mémoire la majesté de sa Lionne blessée : s’il existe un art des camps d’extermination, il n’exprimera pas les bourreaux, il exprimera les martyrs. "Lève-toi, Lazare !" Nous ne savons pas ressusciter les corps, mais nous commençons à savoir ressusciter les rêves, et ce que vous propose aujourd’hui la France, c’est que pour nous tous, la culture soit la résurrection de la noblesse du monde.

Sachons-nous unis par un avenir fraternel plus encore que par un passé commun. Vous avez eu raison, aux heures les plus sombres de ne pas désespérer de nous, puisqu’aujourd’hui le Général de Gaulle, qui a trouvé toutes les blessures de mon pays dans son héritage, retrouve malgré ces blessures le langage séculaire de la France, pour rappeler au monde que "c’est l’homme qu’il s’agit de sauver". Car la culture a deux infranchissables frontières : la servitude et la faim. Puissions-nous contribuer à les effacer, puissions-nous créer une civilisation qui ressemble à notre espoir, et qui, la première, mette toutes les grandes œuvres de l’humanité au service de tous les hommes qui les appellent. Vous avez prononcé ici, Monsieur le Président de la République, des paroles que connaissent beaucoup d’entre nous : "De ce haut plateau central, de cette solitude qui sera bientôt le cerveau d’où partiront les hautes décisions nationales, je jette un regard, une fois de plus, sur l’avenir de mon pays et j’entrevois cette aurore avec une foi inébranlable et une confiance sans limite dans la grandeur de son destin". Lorsque je contemple à mon tour ce lieu qui n’est déjà plus une solitude, j’y évoque les drapeaux que le Général de Gaulle remit, le 14 juillet, aux chefs des états de la Communauté franco-africaine, et le solennel cortège d’ombres des morts illustres de la France, que vous aimez parce que leurs noms appartiennent à la générosité du monde. Et dans leur grande nuit funèbre, un murmure de gloire accompagne le battement des forges qui saluent votre audace, votre confiance, et le destin du Brésil, tandis que s’élève la capitale de l’espoir.

André Malraux, ministro dos assuntos culturais da França
Brasília, 24 de Agosto de 1959

 

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A Marcha para o Oeste e Outras Marchas

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

A Marcha para o Oeste e Outras Marchas
Por Cassiano Nunes

 
Ainda há pouco tempo, em discurso memorável no Senado, Darcy Ribeiro, com a autoridade que ninguém lhe nega, se perguntava por que o Brasil, possuindo reais privilégios, terra e povo admiráveis, foi um país que não deu certo. Há razões, no meu entender, para isto, e especialmente uma razão fundamental: no Brasil, o Governo nunca foi do povo nem para o povo. Aqui, o povo foi sempre cuspido, vomitado, expulso da terra. Dominado pelos donos da terra. Mas há uma outra razão que se relaciona com a que foi exposta: o povo brasileiro nunca chegou a tomar posse integral de seu vasto território. No segundo século da nossa História, já Frei Vicente do Salvador denunciava os portugueses por só quererem permanecer nas costas do País “como caranguejos…”

A História do Brasil é uma história no litoral. Toda ela realizada à beira d’água, transatlântica, com muitos estudantes…em Coimbra, com muitas farras em Paris. Na Belle Época, as famílias brasileiras importantes mantinham vivendas na Suíça, em Portugal, na França. D.Olívia Guedes Penteado, uma das patrocinadoras do modernismo, quando começava a gostar do que via nas vitrinas da Mappin Stores ou da Casa Alemã, em São Paulo, refletia preocupada: “Estou precisando ir logo para Paris”. Qual o grupo de intelectuais brasileiros mais influentes, mais espirituosos? É o que chamo “o grupo de Ipanema…” Perguntei a um de seus componentes o que achava de uma “marcha para o Oeste”. Perturbado, respondeu-me com uma piada… A audiência riu e eu ainda passei por bobo. Na Segunda Grande Guerra, Carlos Drummond, num poema famoso, já denunciava a alienação dos “inocentes do Leblon”.
Mesmo em Brasília, a juventude é conformista e cosmopolita, ou ianquizada da pior maneira.

Há anos, numa revista de jovens da Capital Federal, “Há vagas”, defendi a idéia de uma “entrada” moderna nas nossas terras virgens… os jovens não conseguiram me entender, porque o seu espírito está longe…
Brasília possui 400 grupos de rock enquanto o japonês é o herói verdadeiro que faz florescer o cerrado… Os bandeirantes pararam no fim do Século XVIII. Forças republicanas trucidaram os jagunços de Canudos porque defendiam um Brasil autêntico do interior, do sertão. A FEB foi defender a democracia… na Itália. Monteiro Lobato defendeu um capitalismo brasileiro e acabou indo parar na cadeia. Em vez de nossas populações irem para o interior plantar milho e feijão, dá-se o inverso neste País que parece teatro do absurdo: são os camponeses que deixam suas terras e vão para as desmesuradas metrópoles, construir favelas, participar dos bandos de malfeitores e procurar o apoio dos bicheiros e traficantes de drogas.
A fundação de Brasília foi um marco importante na penetração do Brasil, mas foi feito à moda da casa: de modo majestoso, com a ostentação de pobres tolos que somos. Resultado: o Brasil verdadeiro se vingou. Desde a frontaria da Rodoviária, monumental e degradada, até a Torre, se estende uma legítima feira de Caruaru. A branca e aerodinâmica Brasília é invadida por gente encardida e raquítica, marcada dolorosamente pela doença da indigência, que veio de Jequié, de Cabrobó, de Canhotinho… Será preciso ainda defender a inversão do processo vigente? Mas, de qualquer maneira, o dinamismo histórico, a dialética, tem muita força. E, por esta razão, o interior do Brasil tem progredido apesar de tudo. Quer dizer, apesar do nosso bovarismo, da nossa inautenticidade, do nosso horror à verdade e à justiça social. A luta dos sem-terra comprova essa mutação histórica. E há mais: a construção de rodovias, o planejamento de ferrovias, a criação de comunidades, de cooperativas, de empresas, de instituições, de escolas. Apesar da crise terrível que nos afeta, sabemos que o interior do Brasil fervilha. Nem tudo é positivo, naturalmente.

Nossas populações indígenas, por exemplo, estão sendo dizimadas pela cupidez de patrícios desalmados.

Defendo um documentário cinematográfico honesto, verdadeiro, que reproduza a amarga esperança do povo brasileiro. Devemos registrar este momento culminante de nossa História. A nós, que durante décadas, louvamos o americano, compete agora o dever patriótico de conservar, para a História, o capítulo emocionante do presente: a epopéia do faroeste brasileiro que agora se desenrola.

Dois filmes brasileiros importantes já tocaram no assunto com sucesso: BYE, BYE BRASIL, de Carlos Diegues, e IRACEMA, de Jorge Bodanski. Os dois filmes de Vladimir Carvalho sobre Brasília, CONTERRANEOS VELHOS DE GUERRA e PAISAGEM NATURAL, são inegavelmente duas obras primas. Mas o registro de nossa marcha para o Oeste e outras marchas não estão sendo feitos. Vamos ver sempre o País ignaro, imprevidente, desmemorizado, perdulário? Hoje em dia, Rondônia, Roraima e Amapá deixaram de ser meros nomes geográficos. Palpitam, tem vida.

Glauber, o inesquecível vidente, previu certo: o sertão vai virar mar.

(…)

Brasília, projetada desde os primórdios da Pátria pelos melhores filhos dela – os de espírito mais penetrante e que, por conseguinte, pareciam videntes e profetas – surgiu justamente para dar consistência a um país geograficamente frouxo, descosturado, incompleto, fragmentado e também para vencer a alienação e a dinamização do interior. Brasília teve, por missão, dar, ao Brasil, o seu remate, as suas feições definitivas, em suma, o seu acabamento. Ainda hoje o Brasil é uma nação inacabada como a célebre sinfonia de Schubert. Deixamos de fazer o que os americanos fizeram com pleno sucesso: assumir a posse total do seu território. E mais que isto: ir do leste ao oeste – atingir o Pacífico. Ao contrário, o Brasil, passada a febre do bandeirismo, acocorou-se junto das costas, esperando as notícias influenciadoras que vinham da Europa, hoje substituída pelos Estados Unidos. A Marcha para o Oeste, realização criteriosa de Getúlio e João Alberto, foi logo dissolvida. O Projeto Rondon – cancelado. Nos Estados Unidos, foi importante o “American Dream”, o “Sonho Americano”. No Brasil, nunca houve o Sonho Brasileiro, uma ânsia de trabalho construtor, uma aspiração ampla, nacional. Limitamo-nos a sonhos individuais, medíocres, mesquinhos, alimentados pelo jogo do bicho e pelas raspadinhas… Nossas migrações marcham na direção contrária do progresso. Em vez do nosso caboclo se arraigar na sua terra, ou… terras novas, vem para as metrópoles mendigar ou, o que é pior, engrossar as hostes do banditismo.

Muito poeta, no sentido nobre etimológico da palavra (o que cria, o que faz) Kubitschek, a quem atribuem sangue cigano, deu o sinal da caminhada certa, racional, lógica. Contra a maledicência dos épicos do imobilismo, dos defensores da estagnação, o sonhador de Diamantina determinou a impetuosa arrancada e deixou evidente que as utopias deixam de ser utopias quando o homem decide criar, construir, dinamizar.

Realizada Brasília, de maneira majestosa e vitoriosa, desde os seus primórdios foi fácil notar que teve que enfrentar a frieza dos impotentes e a inveja dos paralíticos. A impressionante capital ainda não conquistou o assentimento da mentalidade costeira, transoceânica, alienada, que predomina no Brasil. Esses adversários do progresso não querem perceber que o Brasil é um país de costas voltadas para o seu interior. Aceitam – e defendem o subdesenvolvimento, ou antes o antidesenvolvimento.

Contudo, a Canaã bíblica, a “terra de leite e mel”, existe, e espera pacientemente que os brasileiros, entusiastas do “rock”, da Disneylândia e de tudo o que as multinacionais nos impigem, se apercebam dela. Ainda, há poucos dias, presenciei, maravilhado, o progresso, a riqueza, o desenvolvimento cultural, numa região do Brasil, que tem muito a nos oferecer!

Refiro-me a Mato Grosso do Sul, e, de maneira mais geral, ao Centro-Oeste. Com estes olhos que a terra há de comer, vi Dourados, cidade vital, bela, limpa, farta! Senti que esse triunfo do Centro-Oeste – ainda muito no seu começo, pois suas possibilidades, sua potencialidade, são enormes – tem muito a ver com a construção de Brasília.

O sentido de Brasília, que é o pioneirismo e o da afirmação da identidade do Brasil, precisa de ter uma divulgação no país inteiro, para o próprio bem do nosso povo. A salvação do Brasil está na colonização, na abertura de novas regiões para a produção, no aumento das lavouras e da criação das riquezas, e não nas lutas e cambalachos políticos, que não geram coisa nenhuma. A mesma esterilidade encontramos nos planos dos economistas, que terminam todos em fracasso, pois não resultam no aumento de bens para o povo. Que esperar de uma grande nação como a nossa que importa até arroz e o feijão? Dourados ri-se desses políticos e economistas e nos oferece fartamente gado, arroz, milho e soja. Lá fica a famosa fazenda Itamarati, a maior plantação de soja do mundo!

A epopéia de Brasília não feita das armas, foi criação dos candangos nordestinos ou mineiros que Vladimir Carvalho evocou nos filmes fabulosos “Brasília – a última utopia” e “Conterrâneos Velhos de Guerra”.

(…)

Transcrito de “Vinte Vezes Cassiano”
Thesaurus Editora/Livraria Presença. Brasília.1993

 

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Conterrâneos Velhos de Guerra: realidade e sentido poético em Vladimir de Carvalho

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Conterrâneos Velhos de Guerra: realidade
e sentido poético em Vladimir de Carvalho

Por João Batista Brito

Naquela quinta-feira, 21 de abril de 1960, todos os jornais do país ostentaram as manchetes da fundação da Nova Capital. Na primeira página de sua “Folha Ilustrada”, a Folha de São Paulo, entre fotos e facsimile do Plano Piloto, exultava: “Hoje, data de sua inauguração, Brasília é um acontecimento que empolga o mundo. E o mundo acredita nela. O brasileiro, antes indiferente, agora está eufórico. E orgulhoso. O sonho realizou-se”.
Nem tudo por trás da realização desse sonho, contudo, é digno de euforia e de orgulho. A faceta disfórica e vergonhosa da construção da “capital da esperança” é justamente o que revela o filme/documentário “Conterrâneos Velhos de Guerra”, do cineasta Vladimir Carvalho, presentemente em exibição no Cine Bangüê.

Referencialmente, o filme conta a trágica estória extra-oficial dos candangos que fizeram a nova capital e não puderam habitá-la. Por meio dos depoimentos filmados, relata o massacre dos operários da Construtora Pacheco Fernandes, ocorrido no segundo dia do Carnaval de 1959, quando cerca de 500 homens foram metralhados e enterrados em local nunca identificado, além de inúmeros outros fatos de gravidade análoga, sempre escondidos do conhecimento público pelas autoridades da época. E, no entanto, quem estiver supondo que o filme de Vladimir se define pelas premissas do cinema-direto está equivocado. Em todos os níveis de “Conterrâneos…”, é evidente a primazia do “estruturalmente construído” em cima do “mimeticamente fotografado”. Com efeito, toda a narração gira em torno do poema de Jomar Morais Souto, um dos elementos mais importantes na costura de sua significação geral, e recai na figura completamente ficcional do narrador/comentador, que é vivida pelo ator B. de Paiva.
Em artigo publicado no Correio das Artes, de título “Como Uma Ópera”, o montador do filme, Eduardo Leone, aponta a musicalidade assumida no ritmo, que faz o documentário transcender a linearidade narrativa da mera reportagem, e o próprio Vladimir explica, em texto de divulgação, como aproveitou aquelas imagens do Badernaço na Esplanada (que “não passou de um simulacro da direita policial para justificar a violência”), onde o povo derruba e queima automóveis, como um elemento de construção de sentido, que, contrariamente ao seu valor de veracidade, deve ser lido, no contexto do filme, como metáfora da revolta popular.

Se esse exemplo de manipulação do real para instaurar um sentido novo, não fosse suficiente para evidenciar a construção semiótica em “Conterrâneos…”, seria o caso de se atentar para aspectos mais setorizados e particulares de sua estrutura. Aqui, ressalto o papel criativo da montagem, em pelo menos duas direções: horizontalmente (do visual ao visual, ou do auditivo ao auditivo) e verticalmente (do visual ao auditivo e vice-versa). Lembro aqui como, depois de termos visto os barracos dos desvalidos serem destruídos pelos tratores dos poderosos, a narração tem o cuidado de “cortar” para o outdoor afixado no terreno, em que se lê em close, e na ordem de aparição, os seguintes letreiros “a arte de morar” e, posteriormente, grand style. O espectador deve ter notado, também, a esperteza de se justapor, no momento e na ordem certa, as falas dos depoentes: logo depois de ficarmos sabendo da chacina na Pacheco Fernandes, pelas pessoas do povo que a testemunharam, ouvimos o historiador oficial de Brasília garantir que nada disso aconteceu, que tudo não passa de invenção de mentirosos. E assim por diante…

Mas, no que tange à relação entre visualidade e audição, os melhores momentos são indubitavelmente aqueles em que a música (clássica) é usada como ponto de contraste: prestem atenção, por exemplo, no efeito obtido pela contraposição entre as imagens das taperas devastadas pelos tratores e a grandiosidade de “A cavalgada das Valquírias”, de Wagner, ou ainda, naquela longa seqüência intermediária em que os mendigos são mostrados catando lixo no terreno de despejo, ao som sublime do “Va Pensiero Su Lalle Doratti”, trecho da ópera Nabuco, de Verdi.

Em seqüências como essas, a sensibilidade do espectador é tocada por uma tensão entre o horror do que se vê e a beleza do que ouve, e o resultado semiótico é uma poesia estranha, ao mesmo tempo arrebatadora e dolorosa, que concede ao filme um estatuto estético, muito além daquele possível para o mero cinema-verdade. Eventualmente, é fato, um efeito poético particular pode advir do próprio material extra-filmico, como no caso de certas falas dos populares que depõem, expressando-se sem a gramática dos cultos, e com uma intuição primitiva que estarrece. “Vou morar no tempo”, responde a mãe despejada que viu seu barraco destruído, e não tem mais onde residir, salvo debaixo da sombrinha velha que segura. “Se me enterrarem aqui, o meu defunto vai a pé para o Maranhão”, assegura o dono do Bumba-Meu-Boi. Mas, quando se considera que o filme teve um copião de 70 horas, essas escolhas – em detrimento de outras! – ganham um peso estilístico extraordinário.

Comercialmente suicida, o documentarismo, aqui e no exterior, foi e tem sido, uma questão de vocação. A grande vocação do autor de “O País de São Saruê” e o “Homem de Areia” para o documentário não precisa ser recordada, mas, de qualquer modo, vale a pena escutar o próprio Vladimir remontando ao inicio de sua carreira, em depoimento escrito para o arquivo do Nudoc: “…tive a grande revelação – diz ele – assistindo o “Homem de Aran”, de Robert Flaherty, inteiramente diferente de tudo o que havia visto, e naquele momento descobri o documentário, uma estrada para mim absolutamente nova, pontilhada de luz por uma poesia humana em estado puro. Mais tarde vi o “Borinage”, de Joris Ivens, e decidi que iria em busca da realidade do mesmo gênero com o qual me sentia comprometido – e eu sabia onde encontrá-la”.

Não sei até que ponto Vladimir Carvalho tem consciência de que “a poesia humana em estado puro” que está, não só em certas falas, mas também em certas imagens dos seus depoentes populares de “Conterrâneos…” (lembram da chapliana figura em preto-e-branco daquele operário sujo e triste que come um rango miserável na mesa de um galpão da Construtora, à qual a câmera retorna várias vezes?) é apenas parte de uma poesia maior que, esta sim, a grandeza supostamente “impurra” de seu estilo…proporciona.

Transcrito de “O Norte”
(23/4/1993)

 

 

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Arqueologia de uma cidade

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Arqueologia de uma cidade
Por Gustavo Lins Ribeiro

Há 20 anos apenas que em Brasília ocorreu o rito de passagem da sua inauguração. Para muitos pode dar a impressão que se está numa cidade sem história. Pura ilusão, 20 anos são história. Não é a duração ou a distância no tempo que define a importância de um período. Certamente em Brasília as pessoas acreditam-se um pouco fora da história por não sentirem aquilo que denominam tradição.
Brasília, dizem, é terra de ninguém. De fato, ao chegar aqui, hoje ou 10 anos atrás, os indivíduos deixam em seus locais de origem toda uma extensa rede de relações sociais – incluindo, claro, as de parentesco – que definia suas relações com o mundo. Ser criado, socializado numa cidade, ou nela viver durante longo tempo, implica numa multiplicidade de detalhes que vão desde o reconhecimento de sinais urbanos que trazem à memória lembranças positivas ou negativas, até encontrar-se por acaso com o velho merceeiro da esquina, que há anos se mudou por causa da concorrência de um supermercado. A ausência de tal rede social – por um lado fonte de controle e repressão, por outra fonte de segurança e satisfação por se poder realizar a leitura “ordenada” do espaço em que se vive – definiria a ausência de tradição, e, por conseguinte, a ausência de história em Brasília, já que em geral no senso comum é freqüente a identidade entre percepção do tempo individual e história.
A intenção deste texto é mostrar que a história, ao ser feita por forças sociais concretas, define o presente. É também tentar jogar luz numa área bastante esquecida de nossa história contemporânea, contribuindo para que se possa perceber que equacionar o passado é desvendar o presente. A história de Brasília, fora da perspectiva oficial, é tão desconhecida que ao nos dedicarmos ao período anterior a sua inauguração sentimo-nos realizando verdadeira arqueologia. Assim, parece-nos interessante que mergulhemos, ainda que rapidamente, na pré-história da cidade. Remarquemos apenas que o mergulho deve ser dado justamente nas águas mais profundas e que propositadamente permanecem as mais escuras: a experiência dos trabalhadores.

Concretiza-se uma idéia

Ano de 1956. O país vivia sob o peso de momentos cruciais como o suicídio de Getulio Vargas, em agosto de 54, expressão do embate de forças políticas e econômicas que mais uma vez se defrontariam durante os acontecimentos de novembro de 55, quando o general Lott, ao impedir um golpe de Estado arquitetado pelos chamados “entreguistas” (grosso modo uma coalizão de udenistas, militares e interesses estrangeiros), assegurava a posse dos recém-eleitos Juscelino Kubitschek e João Goulart. Estava em pleno vigor a polêmica no nacional-desenvolvimentismo. De um lado, os chamados nacionalistas abrigando grupos com matizes diversos. Havia desde tendências para soluções econômicas visando fortalecer a burguesia nacional face à crescente hegemonia do capital estrangeiro, até propostas que apontavam para mudanças profundas, como reforma agrária e luta contra o imperialismo. Do outro lado, os grupos comprometidos com a penetração do capital estrangeiro, obedecendo a uma tradição de oposição udenista francamente golpista como se evidenciou, por exemplo, nos já mencionados Agosto de 54 e Novembro de 55, e que iria encontrar seu ponto máximo em Abril de 64. Ao nível internacional, a Guerra Fria impunha-se congelando as cabeças das pessoas e as relações de força das grandes potências. Neste universo dividido em nacionalistas e entreguistas, legalistas e golpistas, toma dimensão mais concreta o antigo projeto de interiorização da capital do país. Em cima de um Programa de Metas destinado a promover mudanças importantes na estrutura econômica, acrescenta-se a Meta Síntese: Brasília.

No plano ideológico, vincula-se a mudança da capital a um projeto mesmo de nacionalidade, uma vez que a idéia é parte integrante de alguns momentos importantes, na ótica da mitologia da nossa história: a Inconfidência Mineira, a Independência política através da figura de José Bonifácio, nos Constituintes de 1891, na Marcha Para o Oeste de Getúlio, etc. Além do mais, casava-se com a necessidade de interiorizar e integrar economicamente o país. Neste sentido, os Bandeirantes, segundo o discurso da história dominante, converteram-se em verdadeira matriz para a reedição de um esforço desbravador e aventuresco, onde não havia espaço para “horários burocráticos”. Nada melhor do que as Bandeiras e os seus mitos para construir uma contrafação do pioneirismo oficial: os brasileiros dos anos 50 retomavam as trilhas do século XVII para levar ao interior do país a civilização, o cristianismo, a modernidade…

No entanto, a construção de uma obra das proporções de uma capital federal, no interior afastado dos grandes centros, era um trabalho que demandava um elenco de decisões e iniciativas. Eram necessárias transformações que comportassem as levas de milhares de operários que acorriam para a maior frente de trabalho da época. No puro cerrado goiano, passaria a existir uma obra gigantesca com prazo marcado para a inauguração: 3 anos e 10 meses.

“Que capital da esperança que nada! Brasília é a capital da inlusão” (de um mestre de obras).

Já é quase lugar comum dizer-se que os que construíram Brasília foram impedidos de habitá-la. A história da construção permite-nos encontrar os pontos de ruptura e demonstrar a concretização desta contradição. Desde o inicio um dos problemas mais graves foi a habitação. A solução encontrada para propiciar as condições concretas de reprodução da vida de uma população basicamente composta de operários (mais de 60.000 pessoas no ano de 1959), foi estabelecer núcleos habitacionais provisórios. Assim, vários acampamentos foram instalados. Surge a Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante, o maior aglomerado de então, tendo como função básica prover de serviços o restante da população: lojas, feiras, bares, restaurantes, material de construção, enfim, o comércio em geral. Como forma de “incentivar” os que chegavam, além da isenção de impostos, recebiam lotes mediante o compromisso de serem devolvidos na data da inauguração do Plano Piloto. Todas as construções, devido à provisoriedade do núcleo, eram obrigatoriamente em madeira. A partir de 31.12.58 estavam proibidas novas construções que, no entanto, prosseguiram à revelia do órgão governamental responsável, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital – NOVACAP. A Cidade Livre, crescendo desordenadamente, transformou-se num “formigueiro humano”, composto por milhares de barracos amontoados sem a menor infra-estrutura urbana.

Destaquemos – para dar uma idéia da dramaticidade do quadro – os incêndios freqüentes que exigiam fossem derrubadas alas inteiras de barracos para se impedir que o alastramento do fogo consumisse grande parte da cidade.

Acampamentos como Velhacap, Candangolândia e Vila Planalto foram construídos, agora não em decorrência da “iniciativa privada” como era o caso da Cidade Livre, mas diretamente pela NOVACAP. Na região da Velhacap, próxima a administração da NOVACAP, hospital, policia, restaurante da previdência social, escola, etc. Já a Vila Planalto, que tomou emprestado esse nome de uma companhia americana então responsável pelas estruturas metálicas dos ministérios e pela barragem do Paranoá, era um conjunto de acampamentos de várias empresas de construção, aí localizados pela sua proximidade com a Praça dos Três Poderes. Empresas como Ecisa, Rabelo, Pacheco Fernandes Dantas, Nacional, Pederneiras, lá abrigavam seus operários.

Estes eram os principais núcleos preparados para dar conta da habitação de quem aqui chegava. Evidentemente a carência de moradias levou à pratica de invasões como a Vila Amauri, encostada à Vila Planalto, e que foi propositadamente realizada, em princípios de 1958, em terreno que seria futuramente o Lago do Paranoá. Um ano depois, a população desta invasão tipicamente proletária, chegava a cerca de 7.000 pessoas, vivendo uma grande parte em casebres cobertos apenas com sacos de cimento. Fato, aliás, bastante comum, como atestam invasões chamadas de Sacolândia e Lonolândia, devido a precariedade dos materiais utilizados na construção das casas operárias.

A imensa maioria dos trabalhadores aqui chegava na busca de melhores condições salariais ou com um projeto de ascensão social – ganhar dinheiro e tornar-se um pequeno comerciante para “sair do pesado”, por exemplo. Assim grande parte deste operariado era composta por solteiros ou por homens que haviam deixado suas famílias nos locais de origem. De fato, a experiência individual do trabalhador poderia ser bastante diferenciada segundo a sua situação familiar. O operário que aqui estivesse só, por um lado se desvencilhava de problemas como prover alimentação e moradia para sua família no território em construção, mas, por outro lado se submetia, em geral, ao esquema de alojamentos coletivos para solteiros, o que lhes deixava inteiramente à mercê das construtoras para uma maior exploração de sua força de trabalho. Além disso, os alojamentos para solteiros primavam pela insegurança (roubos, agressões), sujeira, má qualidade da comida na cantina e a vivência de relações sociais obedecendo a uma disciplina e dinâmica que obviamente não se comparam ao homem inserido no seu grupo doméstico. Nestes acampamentos havia também alojamentos para casados. Porém, conseguir uma destas casas de acampamento, ou um barraco, uma lona, ou restos de materiais de construção era tarefa difícil e improvável. Para vários, conseguir uma moradia mais razoável só foi possível manipulando relações pessoais, passando por operário exemplar, ou manipulando o pacto populista que em Brasília se exprimia com todo vigor. Através de contatos com políticos, administradores, engenheiros, abria-se um caminho estratégico para obtenção de residências. Mas, está claro que este caminho não poderia ser percorrido por todos. A alternativa que restava era iniciar uma invasão, ou incorporar-se a uma já existente.

A grande presença de operários sem família, expressou-se na disparidade entre o número de homens e mulheres solteiros – 17 mulheres para cada 100 homens – gerando vários problemas. As poucas mulheres que aqui viviam precisavam praticamente ser escoltadas nas ruas por seus maridos e filhos, porque corriam o risco de serem atacadas. A ausência de maiores oportunidades de lazer limitava os operários basicamente à cachaça e ao baralho que, lógico, tornaram-se fontes de conflitos. Não demorou a se instalar na Cidade Livre, uma enorme zona de prostituição, sempre lotada, e que foi mais tarde transferida para a fronteira do Distrito Federal com Goiás, na estrada Brasília/Belo Horizonte.

Por outro lado, o território da construção continuava formalmente sob a jurisdição de Goiás que não tinha condições de dar conta, em todos os níveis, da manutenção da lei e da ordem. Há indicações de que esta situação foi assim conservada deliberadamente, quando se nota, por exemplo, a ausência dos órgãos do Estado que deveriam regular o conflito entre o capital e o trabalho. Nada deveria impedir o célebre ritmo de Brasília, cujo preço foi uma super-exploração da força de trabalho. A possibilidade de fiscalização do trabalho e da aplicação das leis trabalhistas, na época da construção, permeava-se da ideologia do pioneirismo que orientava as pessoas a se distanciarem de “problemas burocráticos ou políticos”. Assim, estavam as construtoras praticamente liberadas para manipular o operariado ao seu bel-prazer.

Sem lazer, sem mulheres e sem lei; com cachaça e muito cansaço, logo surgia a questão do policiamento. Gozando da situação ambígua de dentro em breve tornar-se a Capital Federal, mas, por enquanto, estar submetida básica e concretamente à tutela das cidades goianas mais próximas (Planaltina e Luziânia), Brasília teve como sua primeira polícia propriamente dita, uma espécie de departamento de segurança da NOVACAP, com funções policiais. Obviamente não foi suficiente para atender a uma população que crescia vertiginosamente. A solução foi drástica e de triste memória. Instalou-se a célebre Guarda Especial de Brasília, mais conhecida como GEB. Os métodos de recrutamento desta polícia eram tão esdrúxulos quanto a sua atuação. Peões eram escolhidos por serem fortes e bem dispostos, e por desejarem sair do trabalho de construção. Eram então sumariamente incorporados para fazer a repressão tanto na Cidade Livre quanto nos outros acampamentos. O quadro que se formou é assim descrito por moradores da época:

– Na zona, quando era de sábado pra domingo, o dia que não morria nada, morria quatro, cinco. O policiamento daqui tinha nome de GEB. Pegava, por exemplo, você que num sabia nada e coisa e tal, um sujeito forte, isso e aquilo outro, pegava você e engajava você na GEB. Ali, por exemplo, você numa tinha instrução, num tinha nada. Em vez de você botar respeito você era o pior. A policia chegava, o sujeito tava brigando, o sujeito chega e metia o cacete, a policia atirava, matava. Sem nem mais nem menos.

– Policia mais covarde que teve, que existe no mundo, foi essa que começou aqui. Judiaram demais das pessoas. Aqui não tinha lei não. Só tinha era covardia terrível.

Definitivamente marcado na memória popular está um massacre de operários promovido pela GEB em fevereiro de 1959, na cantina do acampamento da construtora Pacheco Fernandes Dantas, na Vila Planalto, devido a um conflito causado pela má qualidade da comida. São as mais variadas as versões sobre o fato, mas não se duvida do assassinato a sangue-frio de vários operários (inclusive foram metralhados os alojamentos onde vários homens estavam dormindo), cujos cadáveres teriam sido transportados em caminhões basculantes, para serem enterrados em vala de localização desconhecida. A responsabilidade por este crime não foi atribuída nem cobrada a ninguém em especial. Tudo por conta da grande repressão policialesca de então e do espírito de pioneirismo que não permitia paralisação de obras para averiguações tão “burocráticas”. De qualquer modo, este massacre é a expressão agudizada de componentes como a má qualidade da alimentação nos acampamentos, disciplina e controle do operariado ao arbítrio das empresas, repressão policial violenta, dilapidação da força de trabalho, obediência ao prazo da construção sob qualquer argumento.

Transcrito do livro “Brasília, Ano 20 – Depoimento de 35 Fotógrafos de Brasília”

 

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Canção dos pioneiros

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(Eu vi o candango triste
cantando sobre o planalto
a canção dos pioneiros
a canção cantava assim:)
O Palácio da Alvorada
não é castelo de mouro
nem coisa do arco-da-velha
nem morada de fidalgo
rei de Espanha ou qualquer outro:
é um palácio de cristal
leve armadura de ventos
em doces linhas montado
ritmo de pauta emendado
ou vôo curvo de pássaros
voando entrelaçados
por entre os vãos do palácio
 
Bandeira dos pioneiros
presa a uma haste de prata
bandeira deste país
erguida sobre o planalto
(que a brisa beija e balança)
no gênio de Castro Alves
e mais heróis legendários
 
Mais brasileira essa terra
com esta bandeira-perfil
de Brasília construída
com cruz plantada no chão
linguagem e poema pátrio
(flor do Lácio inculta e bela)
no poema de Bilac

No sonho dos bandeirantes
mártires e heróis brasileiros
tamoios/confederados
(de Fernão Dias Paes Leme
 
Mororó e tantos outros
Frei Caneca e Tiradentes
que a liberdade é uma só
praeiros & inconfidentes)
 
O Palácio da Alvorada
– cisne nadando em espuma –
moça-virgem de grinalda
donzela de seio-pluma.
 
Poema “Canção dos pioneiros”
José Alcides Pinto, poeta cearense,nascido em São Franciso do Estreito, distrito de Santana do Acaraú.
Reproduzido da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Brasília (A criação)

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Brasília
(A criação)

Amava o homem, Seu filho,
Criou-o com sopro dançarino.
Mas amava também
Os círculos e semicírculos,
Esferas, retas, semi-retas,
Pentágonos, hexágonos,
Cubos, ângulos, retângulos
E o giro exato dos planetas
Junto a todas as leis da simetria.
 
Pelas mãos do homem então
Deixou que se fizesse a cidade
E quando veio a luz do dia,
Era tudo harmonia.
 
Cidade do vôo continente,
Cidade conteúdo em sua mente,
Cidade de leves arcos e portais,
O homem: chama em seus cristais.
 
E sendo perfeito Ele
Perfeito era seu filho homem
Que fez perfeita e boa a cidade.
 
E todos descansaram.
 
Maria da Glória Lima Barbosa, poetisa baiana, nasceu em Camaçari.
Reproduzido da Antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Brasília não é o capricho de um homem

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Brasília não é o capricho de um homem
Por Alves Pinheiro

Jamais se poderá compreender Brasília, vista à distância, superficialmente, com a filosofia, a despreocupação, a galante ignorância do asfalto. Aqui, no Rio, com o desconhecimento dos complexos problemas do Brasil Central, com vagas noções de Geografia física e econômica, nada poderá parecer mais estranho e inoportuno do que a futura Capital.

O carioca (e, todos nós que vivemos aqui, somos afinal, cariocas), ignora o resto do Brasil. Seus conhecimentos das realidades brasileiras, fora da área bem-aventurada do Distrito Federal são imprecisos, deturpados, diluídos, disformes. Somos espectadores mais ou menos curiosos dos flagelos, dos grandes dramas sociais, das calamidades que se abatem sobre além dos limites desta maravilhosa terra de eleição.

Imaginamos, então, Brasília como simples capricho de um homem quando é a imposição de uma civilização. Entrevemo-la na importância de suas construções, na audácia arquitetônica, no fascinante milagre do cimento armado que opera prodígios no planalto, sem compreendermos que aquilo é, apenas, a moldura da tela gigantesca em que se projetará o futuro desta nação.

A propaganda de Brasília devia começar na escola primária e desenvolver-se nos cursos secundários e universitários. Dever-se-ia mesmo criar uma nova disciplina: Brasília.

Porque é que não se promovem aulas, conferências públicas, exposições, catálogos, prospectos sobre a importância econômica desse empreendimento ciclópico e o papel de libertação, redescoberta e valorização que Brasília desempenhará para um mundo fabuloso de fantásticas possibilidades, ainda adormecido, como no primeiro dia da Criação?

Ninguém melhor do que o Marechal Teixeira Lott definiu a necessidade e a oportunidade da edificação de Brasília. Na memorável entrevista que me concedeu, antecipando o sim ao lançamento de seu nome como candidato à sucessão do Presidente Kubitschek, o Ministro da Guerra expressou assim, com meridiana clareza e bom senso, o seu pensamento:

“O que se deve lamentar é que somente agora se cuide de dar cumprimento a um imperativo ainda da nossa primeira Constituição”.

Transcrito da revista “Brasília”, da Novacap, edição de junho de 1958, número 30.

 

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VEIO, VIU, VENCEU

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VEIO,
VIU,
VENCEU

Por Conceição Freitas
 
Taguatinga não estava no mapa, mas ela se impôs nas pranchetas dos urbanistas pela insistência dos brasileiros que queriam aproveitar, um cadinho que fosse, da utopia que estava sendo construída. Veio, viu e venceu. Mas, para vencer, construiu uma estratégia de deixar Juscelino sem saída. Aquela que todo taguatinguense conhece: para comover o presidente da República, os sem-terra daquele tempo ocuparam uma área próxima à Cidade Livre e deram a ela o nome de Sarah Kubitschek.

Naquele 1958, os nordestinos estavam enfrentando uma das piores secas da história. Sabedores de que Juscelino estava construindo uma nova capital, eles desceram em grandes levas para o Planalto Central, mas foram barrados na porta de entrada, onde hoje é o começo do Núcleo Bandeirante (de quem vem do Plano). Israel havia mandado fechar as entradas da cidade, assustado com a chegada ininterrupta de paus de arara superlotados de nordestinos. Era pouca Brasília para tantos brasileiros.

Às pressas, Lucio Costa esboçou uma cidade-satélite – a primeira -, mas os novos candangos não sabiam esperar, não podiam esperar o planejamento do urbanista e a vontade de Israel. Cerca de três mil brasileiros recém-chegados a Brasília, que se amontoavam em barracas de saco de cimento, pedaços de madeira velha, de folhas de zinco, fizeram uma manifestação histórica, na noite de 5 de junho de 1958, no restaurante onde Juscelino iria jantar, na Cidade Livre.

JK não foi e Israel mandou Ernesto Silva enfrentar a multidão. “Subi num caixote de madeira e falei com os manifestantes”, lembra doutor Ernesto. Eram homens e mulheres agitados, cansados da peleja, da viagem, da penúria, esperando por Juscelino. “Disse a eles que a Novacap já providenciara a criação de uma cidade-satélite a 25 quilômetros do Plano Piloto.” Marcou nova reunião para o dia seguinte, um domingo. Doutor Ernesto foi e levou a planta da nova cidade – era o trunfo que tinha para acalmar aquela gente com os nervos despedaçados.

Se Juscelino tinha pressa para construir a nova capital, os brasileiros tinham mais urgência ainda para ter um lugar para viver. Aqueles migrantes, a maioria nordestinos fugindo da seca, precisavam desesperadamente de Brasília, mas até àquele 5 de junho de 1958, Brasília não havia pensado que aqueles homens não podiam esperar pelas pranchetas.

Ao longo de 51 anos, Taguatinga repetiu incontáveis vezes o gesto de resistência. Na cidade nasceram movimentos culturais de resistência e contestação – o Teatro Rolla Pedra, o Teatro da Praça, o Mamulengo Presepada, o Detrito Federal, o Bar do Careca, lugares, bandas, trupes, projetos, sonhos de gerações de taguatiguenses para quem a utopia não era exclusivamente do Plano Piloto.

Na intensa e múltipla Avenida Comercial Norte, existe uma loja de R$ 1,99 chamada Shop Jota Ka. É Taguatinga inventando um novo Juscelino, mais popular, mais engraçado, bem menos solene que Brasília. É o jeito taguatinguense de ser brasiliense.

Reproduzida da “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense, 5 de junho de 2009.

 

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uma forte tempestade trouxe à luz…

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uma forte tempestade trouxe à luz
uma parte do que poderiam ter sido
os ministérios, iniciando escavações
que permitiram identificar também
estruturas habitacionais bastante
complexas, com pessoas aparentemente
vivendo dentro de grandes caixas de concreto
 
seriam estas estruturas parte das primeiras
moradias permanentes da civilização,
as legendárias superquadras?
 
Nicolas Behr, poeta mato-grossense, nasceu em Cuiabá.
“Deste Planalto Central: Poetas de Brasília”
Antologia organizada por Salomão Sousa.

 

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Não é dia nem é noite

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NÃO É DIA
NEM É NOITE
Por Conceição Freitas

Pouco depois das seis da tarde, Brasília dia e noite se junta em territórios separados, como numa lata de doce dois em um. Tudo que existe sobre o chão, grama, árvores, prédios, carros, fica negro como a escuridão, mas no céu ainda é dia. O chapéu da Terra continua azulíssimo e as nuvens, brancas, apesar de o Sol já ter emborcado nas costas do horizonte. Como se do chão emanasse a negritude de um planeta abandonado pela luz da vida.

É como se o céu tivesse se descasado da Terra e o Sol tivesse decidido a não mais clarear nada abaixo das nuvens. Do ponto de vista plástico, é um belo efeito. É uma cisão muito bem demarcada do escuro das coisas tangíveis com a claridade das intangíveis. Tanta dualidade dá vontade de lançar uma âncora até a ponta da nuvem mais próxima, abandonar a terra soturna e procurar o rumo do sol.

Quando passa pouco das seis da tarde, ainda há alguma luz na atmosfera, mas as copas das árvores já estão negras como se tivessem sugado toda a escuridão do universo. No céu ainda é estranhamente dia. Não há nenhum vermelho nessa hora, porque o sol já levantou barraca e levou junto os seus efeitos incandescentes. Mas ele é tão poderoso que, mesmo estando do outro lado do horizonte, ainda lança raios de claridade acima de nossas cabeças.

O efeito é bonito, mas é estranha essa cisão daquilo que a gente se acostumou a ver como uma unidade: a noite é uma só, no céu e na Terra e o dia também. Escuridão lá, escuridão cá. Dá pra suspeitar que, pouco depois das seis da tarde, o dono do mundo altera as leis de sua criação. A Terra fica triste e o céu, indiferentemente alegre. Como se houvesse um lamento no térreo e uma festa no primeiro andar.

Dura algum tempo o instante em que é noite, mas é dia e é dia, mas é noite. Quanto mais perto do ponto mais alto do Plano Piloto, a Praça do Cruzeiro, mais demorado é esse instante e mais nítida é essa dualidade.

Quando o céu que cobre o Congresso já está quase adormecendo, num azul quase marinho, o céu da Rodoferroviária ainda treme de tão claro.

Da passarela entre o Conjunto e o Conic dá pra ver esse céu a leste querendo adormecer e a oeste, acordado como o quê. Privilégios de quem vive em cima de uma bacia de boca pra baixo. Somos, por obra e graça da topografia deste lugar, astronautas de pés no chão e cabeça encostando no céu.

Quando a Terra anoitece e no céu ainda é dia é porque a hora do silêncio se aproxima. Logo, o sol estará aquecendo o hemisfério norte e nenhum vestígio de seus raios agirá sobre nós. Vagarosamente, o céu vai perdendo o azul e ganhando pedrinhas faiscantes sobre o fundo negro. Acabou a dualidade, a noite chegou, por inteiro.

Reproduzido do Correio Braziliense, “Crônica da Cidade”, 4/4/2009. 

 

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O cenário

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O cenário
 
Desde fins do século XVII, princípios do século XVIII, viram-se os planaltos goianos cortados pelo homem civilizado à procura do ouro. Às pressas lançavam-se todos na direção do sudoeste, onde Bartolomeu Bueno, o filho, fundara, às margens do Rio Vermelho, a “Vila de Sant’Ana”, que logo tomaria seu nome, “Vila do Bueno”, para finalmente se tornar conhecida como “Vila Boa de Goiaz”, nome que ficou. Ali o ouro era apanhado fácil à flor da terra e nas águas rasas do rio.

Não havia parada. Rumo marcado, fazia-se urgente chegar lá. A meio caminho, correndo tranqüilo, um outro ribeirão guardava seu ouro escondido nas margens. Os primeiros conquistadores não se deram ao trabalho de pesquisar. Parar não podiam, as minas de “Vila Boa” estavam longe ainda. Anhanguera, pai, a seu tempo também passara, deixando as marcas do seu trajeto em roteiros inteligentes e esclarecidos. Suas artimanhas de sertanejo sabido, incendiador de rios, corriam entre os silvícolas que povoavam o cerrado e as matas do planalto. Mas, em 1746, o bandeirante Antonio de Bueno Azevedo, saindo de Paracatu e atravessando o São Marcos, descobriu as minas de Santa Luzia e fundou florescente povoado às margens do ribeirão que corria tranqüilo a meio caminho, batizado, então, também de Rio Vermelho, como o da “Vila Boa”, pois era costume chamar assim os rios de areia aurífera.
 
Santa Luzia, a Luziânia de hoje, teve seu tempo de fastígio, como todas as localidades nascidas à sombra do ouro. Para lavar o cascalho das catas, rico de pepitas e areia dourada, trouxeram de longe, num rego de sete léguas de extensão, que acompanhava a falda dos morros e era todo calçado de pedra, as águas do Saia Velha. Durante dois séculos foi essa a mais importante obra de engenharia do sertão. O Vermelho corria em nível mais baixo, não houve como aproveitar suas águas; com o tempo, esgotadas as areias de ouro de seu leito, foi perdendo até o nome e acabou, dentro da Vila, com o “Canal Grande”.
 
Quando o ouro escasseou, surgiram as grandes fazendas de criação. Aquelas paragens passaram a viver na quietude uniforme do planalto. Os buritis alinhavam-se tranqüilos nas veredas silenciosas. “Canelas de ema” floriam na estação de abril. O murici cheiroso, as cabacinhas perfumadas, pontilhavam o cerrado agreste. O gado vagava por aquele mundo, mudando de quando em quando de pastagem no campo aberto.
 
Esquecidos além do meridiano de Tordesilhas, os bandeirantes aventureiros não puderam tolerar a vida monótona e primitiva das vastas fazendas. Sentiam dentro de si, tal como seus ancestrais, aquela força atávica que faz sonhar o homem com outras terras, outras gentes e partir em busca da conquista. E assim se foram.
 
O silencio da planura se fez maior. A vida mais pacata e doce. Ali não havia chegado ainda o ronco das máquinas pesadas da civilização contemporânea. Que vinham a caminho. E que ganhariam aquelas paragens quebrando para sempre sua quietude, o seu silêncio. Às centenas, aos milhares, chegariam os técnicos, os operários, traçando no solo o sinal da nova posse. Um sonho de séculos estava por materializar-se na paisagem bucólica e perdida. Novos anhangueras, novos bandeirantes ergueriam ali uma bela e nobre cidade. Dentro em pouco não mais cantariam as seriemas ao alvorecer e ao por do sol. Velozes desapareceriam os veados campeiros em busca de novos abrigos. As “canelas de ema” não se cobririam de flores por toda aquela vasta extensão…”

Reproduzido do livro “Brasília: Memória da Construção”, de L. Fernando Tamanini.

 

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