Brasília: Esplendor

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Brasília: Esplendor
Por Clarice Lispector

Brasília é uma cidade abstrata. E não há como concretizá-la. É uma cidade redonda e sem esquinas. Também não tem botequim para a gente tomar um cafezinho. É verdade, juro que não vi esquinas. Em Brasília não existe cotidiano. A catedral pede a Deus. São duas mãos abertas para receber. Mas Niemeyer é um irônico: ele ironizou a vida. Ela é sagrada. Brasília não admite diminutivo. Brasília é uma piada estritamente perfeita e sem erros. E a mim só me salva o erro.

 A igreja de São Bosco tem vitrais tão esplêndidos que me quedei muda sentada no banco, não acreditando que fosse verdade.  Aliás  a época que estamos atravessando é fantástica, é azul e amarela, e escarlate e esmeralda. Meu Deus, mas que riqueza. Os vitrais tem luz de música de órgão. Essa igreja tão assim iluminada é no entanto acolhedora. O único defeito é o inusitado lustre redondo que parece coisa de novo rico. A igreja ficaria pura sem o lustre. Mas que é que se há de fazer? Ir de noite, bem no escuro, roubá-lo?

Depois fui à Biblioteca Nacional. Atendeu-me uma jovem russa que se chama Kira. Vi rapazes e moças estudando e namorando: coisa totalmente compatível. E louvável, claro.

Paro um instante para dizer que Brasília é uma quadra de tênis.

Faz lá um friozinho revigorante. Que fome, mas que fome. Perguntei se havia muito crime na cidade. Disseram-me que no satélite de Grama (é mesmo este o nome?) há uns três homicídios por semana. (Interrompi os crimes para comer). A luz de Brasília me deixou cega. Esqueci os óculos escuros no hotel e fui invadida por uma terrível luz branca. Mas Brasília é vermelha. E é completamente nua. Não há jeito da gente não ser exposta nessa cidade. Embora haja ar sem poluição: respira-se bem, um pouco bem demais, o nariz seco.

 

Brasília nua me deixa beatificada. E doida. Em Brasília tenho que pensar entre parênteses. Me prendem por viver? É isso mesmo.

 

Eu não passo de frases ouvidas por acaso. Na rua, ao atravessar o trânsito, ouvi assim: “Foi por necessidade”. E no cinema Roxy, no Rio de Janeiro, ouvi duas mulheres gordas dizerem: “De manhã ela dormia e de noite acordava”. “Ela não tem resistência física”. Em Brasília tenho resistência física, enquanto que no Rio sou meio mole, meio doce. E ouvi a frase seguinte das mesmas mulheres gordas que eram baixas: “Que é que ela que fazer lá?” E foi assim, minha gente, que fui expulsa.

 

Brasília tem euforia no ar. Eu disse para o chofer do táxi amarelo: hoje parece segunda-feira, não é? “É”, respondeu ele. E nada mais foi dito. Eu queria tanto dizer a ele que estive na adoradíssima Brasília. Mas ele não quis saber. Às vezes sobro.

Então fui ao dentista, ouviu, Brasília? eu me cuido. Devo ler revista odontológica só porque estou na sala de espera do dentista, cadeira elétrica, e vi uma máquina me olhando, chamada “Atlante 200”. Olhou foi à toa, porque eu não tinha cárie. Brasília não tem cárie. É terra forte, essa. E não é brincadeira. Joga alto e é para ganhar. Eu e Merquior demos grandes gargalhadas que ainda me ressoam no Rio. Fui irremediavelmente impregnada por Brasília.

 

Prefiro o entrelaçamento carioca. Fui delicadamente acarinhada em Brasília mas morri de medo de ler a minha palestra. (Noto aqui um acontecimento que me espanta: estou escrevendo no passado, no presente e no futuro. Estarei sendo levitada? Brasília sofre de levitação). Eu me meto em cada uma, que vou te contar. Mas é bom porque é arriscado. Acreditem ou não: enquanto eu lia as palavras, eu por dentro rezava. Mas, de novo, é bom por ser arriscado. Agora me pergunto: se não há esquinas, onde ficam as prostitutas de pé fumando? Ficam sentadas no chão? E os mendigos? Tem carro?  Pois só se pode andar de carro lá.

 

A luz de Brasília leva às vezes ao êxtase e à plenitude total. Mas também é agressiva e dura – ah, como eu gostaria da sombra de uma árvore. Brasília tem árvores. Mas ainda não convencem. Parecem de plástico.

Vou agora escrever uma coisa da maior importância: Brasília é o fracasso do mais espetacular sucesso do mundo. Brasília é uma estrela espatifada. Estou abismada. É linda e é nua. O despudoramento que se tem na solidão. Ao mesmo tempo fiquei com vergonha de tirar a roupa para tomar banho. Como se um gigantesco olho verde me olhasse implacável. Aliás Brasília é implacável. Senti-me como se alguém me apontasse com o dedo: como se pudessem me prender ou tirar meus documentos, a minha identidade, a minha veracidade, o meu último hálito intimo. Ai se o Rádio Patrulha me pega e me sova!  Ai eu lhes digo a pior palavra da língua portuguesa: sovaco. E eles caem mortos. Mas para ti, meu amor, sou mais delicada e digo baixinho: axilas…

 

Brasília tem cheiro de pasta de dentes. E quem não é casado, ama sem paixão. Simplesmente transa sexo. Mas quero voltar, quero tentar decifrar o seu enigma. Quero sobretudo conversar com os universitários. Quero que eles me convidem para participar dessa aridez luminosa e cheia de estrelas. Será que alguém morre em Brasília? Não. Nunca. Nunca ninguém morre porque lá não se pode fechar os olhos. Lá há hibernação: o ar deixa uma pessoa entorpecida durante anos, uma pessoa que depois vive de novo. O clima é desafiador e chicoteia um pouco a gente. Mas falta magia em Brasília, falta macumba. Não quero que Brasília me rogue praga: pois pega. Rezo. Rezo muito. Aí que Deus bom. Tudo lá é às claras e quem quiser que se vire. Embora or ratos adorem a cidade. Qual será a comida deles? Ah, já sei: eles comem carne humana. Escapei com pude. E parecia teleguiada.

 

Dei inúmeras entrevistas. Modificaram o que eu disse. Não dou mais entrevistas. E se o negócio é mesmo na base da invasão de minha intimidade, então que seja paga. Disseram-me que nos Estados Unidos é assim. E tem mais: eu sozinha, é um preço, mas se entra o meu precioso cachorro, cobro mais. Se me distorcerem, cobro multa. Desculpem, não quero humilhar ninguém mais não quero ser humilhada. Eu disse lá que iria possivelmente à Colômbia e escreveram que eu ia à Bolívia. Trocaram o país à toa. Mas não tem perigo: de minha vida mesma eu só concedo dizer que tenho dois filhos. Não sou importante, sou uma pessoa comum que quer um pouco de anonimato. Detesto dar entrevistas. Ora essa, sou uma mulher simples e um pouquinho sofisticada. Misto de camponesa e de estrela no céu.

 

Adoro Brasília. É contraditório? Mas o que é que não é contraditório? Só se anda de carro pelas ruas despovoadas. Quando eu tinha carro e dirigia, vivia me perdendo. Nunca sabia onde vir e aonde chegar. Sou desorientada na vida, na arte, no tempo e no espaço. Que coisa, meu Deus.

 

Lá as pessoas se jantam e se almoçam – é para ter gente que as povoe. Isto é bom e muito agradável. É a humanização lenta de uma cidade que por algum motivo oculto é penosa. Gostei muito, me acariciaram tanto em Brasília. mas havia pessoas que queriam que eu fosse embora a jatíssimo. Eu lhes atrapalhava a rotina. Para essas pessoas eu era uma novidade incômoda. Viver é dramático. Mas não há escapatória: nasce-se.

Como será quem nasce em Brasília quando crescer e virar homem? Porque a cidade é habitada por forasteiros nostálgicos. Os exilados. Os que nascem lá serão o futuro. Futuro faiscante como aço. Se eu ainda estiver viva, aplaudirei o produto estranho e altamente novo que surgirá. Será proibido fumar? Será proibido tudo, meu Deus? Brasília parece uma inauguração. Todos os dias é inaugurada. Festejos, minha gente, festejos. Que se ergam as bandeiras.

 

Quem me quer em Brasília? então que me quiser que me chame. Não já, porque ainda estou atordoada. Mas daqui a algum tempo. A serviço. Brasília é a serviço. Quero falar com a camareira que me disse ao descobrir quem eu era: eu tinha tanta vontade de escrever! Eu disse: vá, mulher, e escreva. Respondeu: mas eu já sofri tanto. Eu disse severamente: pois vá e escreva sobre o que você sofreu.

Porque é preciso que alguém chore em Brasília. Os olhos dos habitantes são secos demais. Então – então eu estou me oferecendo para chorar. Eu e minha camareira, nós, as coleguinhas. Ela me disse: quando vi a senhora senti um arrepio no braço. Disse-me que era médium.

É. Estou arrepiada. E sinto calafrios. Que Deus me acuda. Estou muda que nem uma lua.

 

Brasília é tempo integral. Tenho medo, pânico dela. É lugar ideal para se tomar sauna. Sauna? Sim. Porque lá não se sabe o que fazer de si. Olha para baixo, olha para cima, olha para o lado – e a resposta é um berro: nãããão!

Brasília dá um fora na gente que mete medo. Por que me sinto tão culpada lá? Que foi que fiz? E por que não ergueram bem no centro da cidade um grande Ovo branco? É que não tem centro. Mas o Ovo faz falta.

Que roupa se usa em Brasília? Metálica?

Brasília é o meu martírio. E não tem substantivo. É só adjetivo. E como dói.

Ah, meu Deusinho, me dá um substantivinho, pelo amor de Deus! Ah, não quer dar? Então faz de conta que eu nada falei. Sei perder.

 

Oh aeromoça, vê se dá um sorriso menos numero! Isso é lá sanduíche que se coma? Todo desidratado? Mas faço como Sérgio Porto: me disseram que num avião a aeromoça lhe perguntou: o senhor aceita um cafezinho? E ele respondeu: aceito tudo a que tenho direito.

Em Brasília nunca é de noite. É sempre implacavelmente de dia. Castigo? Mas que foi que fiz de errado, meu Deus? Não quero saber, diz Ele, castigo é castigo.

Em Brasília não se tem praticamente onde cair morto. Mas tem uma coisa: Brasília é proteína pura. Eu disse ou não disse que Brasília é uma quadra de tênis? Pois Brasília é sangue numa quadra de tênis. E eu? Onde estou? Eu? Pobre de mim, com o lençol manchado de escarlate. Me mato? Não. Vivo como bruta resposta. Estou aí para quem me quiser.

 

Mas Brasília é som oposto. E ninguém nega que Brasília é: goooooool! Embora entorte um pouco o samba. Quem é? Quem é que canta aleluia e eu ouço com alegria? Quem é que atravessa como espada afiadíssima a futura e sempre futura cidade de Brasília? repito:  proteína pura, que és. Me fertilizou. Ou sou eu mesma a cantar? Me ouço comovida. Há Brasília no ar. No ar infelizmente sem o apoio indispensável de esquina para se viver. Será que eu já disse que em Brasília não se vive? Se mora. Brasília é osso seco de puro espanto no sol inclemente da praia. Ah cavalo branco, mas que crina agreste. Ai, não posso mais esperar. Um aviãozinho, por favor. E o lívido luar que entra pelo quarto adentro e me assiste, eu, pálida, branca, sestrosa.

Estou sem esquina. Meu rádio de pilha não pega música. Que é que há? Assim também não. Me repito? E dói?

 

Pelo amor de Seus (até errei de susto a palavra Deus), pelo amor de Deus, por favor me desculpem os que moram em Brasília por eu estar dizendo o que forçadamente digo, eu, uma humilde escrava da verdade. Não quero ofender ninguém. É apenas uma questão de luz branca demais. Tenho olhos sensíveis, fico invadida pela claridade alva e tanta terra vermelha.

Brasília é um futuro que aconteceu no passado.

Eterna como uma pedra. A luz de Brasília – estou me repetindo? – a luz de Brasília fere o meu pudor feminino. É só isso, minha gente, é só isso.

Fora disso, viva Brasília! Eu ajudo a hastear a bandeira. E perdôo a bofetada que me dão no meu rosto pobre. Ai, coitadinha de mim. Tão sem mãe. É dever ter mãe. É coisa da natureza. Sou a favor de Brasília.

 

No ano 2000 vai ter festa lá. Se eu ainda estiver viva, quero participar da alegria. Brasília é uma alegria geral exagerada. Um pouco histérica, é verdade, mas não faz mal. Gargalhadas no corredor escuro. Eu gargalho, tu gargalhas, ele gargalha. Três.

Em Brasília não tem poste para cachorro fazer pipi. Falta tanto um pipi-dog. Mas Brasília é jóia, meu senhor. Lá tudo funciona como deve. Brasília me encerra em ouro. Vou é ao cabeleireiro. Estou falando do Rio. Alô, Rio! Alô! Alô! Estou realmente assustada. Que Deus me acuda.

Mas tem hora que vou lhe dizer, meu amigo, tem hora em que Brasília é um cabelo na sopa. Sou muito ocupada. Brasília,  vá para o diabo e me deixe em paz. Brasília fica em lugar nenhum. A atmosfera é de indignação e você sabe por quê. Brasília: antes de nascer já nasceu, a prematura, a nascitura, o feto, eu enfim,. Ai que safadeza.

 

Em Brasília não entra qualquer um, não. É preciso nobreza, muita sem-vergonhice e muita nobreza. Brasília não é. É apenas o retrato de si própria. Eu te amo, oh extrósima! Oh palavra que inventei e que não sei o que quer dizer. Oh furúnculo! Pus cristalizado mas de quem? Atenção: há esperma no ar.

Eu, a escriba. Eu, a infeliz definidora por destino. Brasília é o contrário de Bahia. Bahia é nádegas. Ah que saudade da embebida praça de Vendôme. Ah que saudade da praça Maciel Pinheiro em Recife. Tanta pobreza de alma. E tu a exigires de mim. Eu, que nada posso. Ah que saudade de meu cachorro. Tão intimo que ele é. Mas um jornal tirou o retrato dele e ele ficou na boca da rua. Eu e ele. Nós, irmãozinhos de São Francisco de Assis. Calados fiquemos: é melhor para nós.

 

Ai que te pego, Brasília! E vais sofrer torturas terríveis nas minhas mãos!

Você me incomoda, ó gélida Brasília, pérola entre os porcos. Oh apocalíptica.

E de repente a grande desgraça. O estrondo. Por quê? Ninguém sabe. Oh Deus, como é que eu não vi logo? Pois não é que Brasília é a “A Saúde da Mulher”? Brasília diz que quer mas não quer: negaceia. Brasília é um dente quebrado bem na frente. E é cúpula também. Tem um motivo principal. Qual é? Segredo, muito segredo, sussurros, cochichos e chichos. Diz-que-diz que não acaba mais.

 

Saudável. Saudável. Aqui sou professora de Educação Física. Dou trambolhões.  É isto mesmo: faço o inferno. Brasília é o inferno paradisíaco. É uma máquina de escrever: toc-toc-toc. Quero dormir! Me deixem em paz!!! Estou can-sa-da. De ser in-com-pre-em-sí-vel. Mas não quero que me compreendam senão perco a minha intimidade sagrada. É muito grave o que estou falando, muito grave mesmo. Brasília é o fantasma de um velho cego com cajado fazendo toc-toc-toc. E sem cachorro, coitado. E eu? Como posso ajudar?

Brasília se ajuda. É um violino fino, fino, fino. Falta violoncelo. Mas que estrondo. Não se precisava disso, não. Eu afianço. Embora Brasília não tenha fiador.

Quero voltar a Brasília para o apartamento 700. assim ponho o pingo no”i”. Mas Brasília não flui. Ela é ao contrário. Assim:iulf (flui).

 

Ela é doida porém funciona. Como detesto a palavra “porém”. Só uso porque é preciso.

 

Quando anoitece Brasília se torna Zebedeu. Brasília é farmácia noite-e-dia.

A moça me revistou toda no aeroporto. Eu perguntei: tenho cara de subversiva? Ela disse rindo: até que tem. Nunca me apalparam tanto, Virgem Maria, até que é pecado. Foi um tal de passar a mão em mim que nem sei como agüentei.

 

Brasília é magra. É toda elegante. Usa peruca e cílios postiços. É pergaminho dentro de Pirâmide. Não envelhece. É coca-cola, meu Deus, e vai me sobreviver. Que pena. Para a coca-cola, é claro. Socorro! Socorro! Help me! Sabe qual é a resposta de Brasília a meu pedido de socorro? É oficial: aceita um cafezinho? E eu? Fico sem socorro? Me trate bem, ouviu? Assim…assim…bem devagarzinho. Isso. Isso. Que alívio. Felicidade, meu bem, é alivio. Brasília é um pontapé no traseiro. É lugar para português enriquecer. E eu que jogo no bicho e não ganho?

Mas que nariz bonito Brasília tem. É delicado.

Você sabia que Brasília é etc? Pois fique sabendo. Brasília é XPTR…quantas consoantes você quiser mas nenhuma vogal para se descansar. E Brasília, ó meu senhor, me desculpe, mas Brasília ficou por isso mesmo.

 

Olhe, Brasília, não sou dessas que andam por ai, não. Mais respeito, faça o favor. Sou uma viajante espacial. Muito respeito eu exijo. Muito Shakespeare. Ah que eu não quero morrer! Ai, que suspiro. Mas Brasília é a espera. E eu não agüento esperar. Fantasma azul. Ah, como incomoda. É como tentar lembrar-se e não conseguir. Quero esquecer Brasília mas ela não deixa. Que ferida seca. Ouro. Brasília é ouro. Jóia. Faiscante. Tem coisa sobre Brasília que eu sei mas não posso dizer, não deixam. Adivinhem.

E que Deus me acuda.

Vai, mulher, vai e cumpre o teu destino, mulher. Ser a mulher que sou é dever. Estou neste instante-já hasteando bandeiras – mais que minuano! – e eu dizendo viva!

Ai que cansaço.

 

Em Brasília é sempre domingo. Mas agora vou falar bem baixinho. Assim: meu amor. Meu grande amor. Tenho dito? Você é que responde. Vou terminar com a palavra mais bonita do mundo. Assim bem devagarzinho: amor mas que saudade. A-m-o-r. Beijo-te. Assim como flor. Boca a boca. Mas que ousadia. E agora – agora paz. Paz e vida. Es-tou vi-va. Talvez eu não mereça tanto. Estou com medo. Mas não quero terminar com medo. Êxtase. Yes, my love. Entrego-me. Sim. Pour toujours. Tudo – mas tudo é absolutamente natural. Yes, Eu. Mas sobretudo você que é culpada, Brasília. no entanto eu te desculpo. Não tens culpa de ser tão bela e patética e pungente e doida. Sim, está soprando um vento de Justiça. Então eu digo à Grande Lei Natural: sim. Ó espelho partido: quem é mais bonita que eu? Ninguém, responde o espelho mágico. Sim, bem sei, somos nós duas. Sim! Sim! Sim! Eu disse sim.

 

Peço humildemente socorro. Estão me roubando. Todo o mundo é eu?  Espanto geral. Isso não é ventania não, senhor, é ciclone. Estou no Rio. Desci afinal do disco voador. E lá vem uma amiga a me dizer – olá, Carmen Miranda! – a me dizer que existe uma música chamada “Boneca de Piche” que diz assim mais ou menos: venho apertado com meus calos quentes, quase afogado no meu colarinho, pra ver meu benzinho.

Aterrissei. Estou com voz fraca mas digo o que Brasília quer que eu diga: bravo! Bravissimo! E chega. Vou agora viver no Rio com meu cachorro. Peço o favor de fazerem silêncio. Assim: si-lên-cio. Estou tão triste.

Brasília é um olho azul cintilanterríssimo que me arde no coração.

Brasília é Malta. Onde fica Malta? Fica no dia do supernunca. Alô! Alô! Malta! Hoje é domingo em Nova Yorque. Em Brasília, a fúlgida, já é terça-feira. Brasília simplesmente pula segunfa-feira. Segunda é dia de se ir ao dentista, que é que se há de fazer, o que é chato também tem que ser feito, ai de mim.

 

Em Brasília, aposto que ainda se dança, que coisa. São seis e vinte da tarde, já quase noite. Às 6,20 não acontece nada. Alô! Alô! Brasília quero resposta, tenho pressa, acabo de assumir a minha morte. Estou triste. O passo é grande demais para as minhas pernas no entanto compridas. Me ajudem a morrer em paz. Como eu disse ou como não disse, quero uma mão amada que aperte a minha na hora de eu ir. Vou sob protesto. Eu. A fantasmagórica. Meu nome não existe. O que existe é um retrato falsificado de um retrato de outro retrato meu. Mas a própria já morreu. Morri no dia 9 de junho. Domingo. Depois de ter almoçado na preciosa companhia dos que amo. Comi frango assado. Estou feliz. Mas falta a verdadeira morte. Estou com pressa de ver Deus. Rezem por mim. Morri com elegância.

 

Tenho alma virgem e portanto preciso de proteção. Quem me ajuda? O paroxismo de Chopin. Só você pode me ajudar. No fundo sou sozinha. Há verdades que nem a Deus eu contei. E nem a mim mesma. Sou um segredo., fechado a sete chaves. Por favor me poupem. Estou tão só. Eu e meus rituais. O telefone não toca. Dói. Mas é Deus que me poupa. Amém. Vocês sabem que eu sei falar língua de cachorro e de planta também? Amém. Mas minha palavra não é a última. Existe uma que não posso pronunciar. E minha história é galante. Sou uma carta anônima. Não assino o que escrevo. Os outros que assinem. Não sou credenciada. Eu? Mas logo eu? Nunca! Preciso de um pai. Quem se candidata? Não, não preciso de pai, preciso do meu igual. Espero a morte. Mas que vento, meu senhor. Vento é coisa que não se pode ver. Pergunto a Nosso Senhor Deus Jeovah sobre sua cólera em forma de vento. Só Ele pode explicar. Ou não pode? Se Ele não pode, estou perdida. Ai que te amo e amo tanto que te morro.

 

Lembram que falei na quadra de tênis com sangue? Pois o sangue era meu, o escarlate, os coágulos eram meus.

Brasília é corrida de cavalos. Eu não sou cavalo não. Que Brasília se dane e corra sozinha sem mim.

Brasília é hperbólica. Estou suspensa até a última ordem. Eu vivo de teimosa que sou. Aterrissei mesmo. There is no place like home. Como é bom voltar. Ir é bom mas voltar é mais melhor. Isso mesmo: mais melhor.

O que é superlativo em Brasília? Não sei não, meu senhor. Só sei que tudo é nada e nada é tudo. Meu cachorro dorme. Eu sou meu cachorro. Eu me chamo Ulisses. Estamos ambos cansados. Tão, tão cansados. Ai de mim, ai de nós. Silêncio. Durma você também. Ah cidade espantada. Ela se espanta com ela mesma. Estou rançosa. Vou é reclamar como Chopin reclamou sobre a invasão da Polônia. Afinal tenho direitos. Eu sou eu, é assim que os outros dizem. E se dizem, por que não acreditar? Adeus. Estou enfastiada. Vou reclamar. Vou reclamar para Deus. E se Ele puder, que me atenda. Sou uma necessitada. Sai de Brasília com uma bengala. Hoje é domingo. Até Deus descansou. Deus é uma coisa engraçada: Ele se pode a si mesmo e se precisa a si próprio.

 

Vim para casa, é verdade, mas não é que minha cozinheira faz literatura? Eu lhe perguntei cadê a coca-cola na geladeira. Ela me respondeu, nega bonita que é: ela estava tão cansadinha, então eu botei ela para descansar, coitadinha. Uma vez, há séculos, contei a Paulo Mendes Campos uma frase que minha empregada de então tinha me dito. E ele escreveu qualquer coisa assim: cada um tem a empregada que merece. Minha empregada tem uma voz linda e canta para mim quando eu peço: “Ninguém me ama”. Ela desenha, faz literatura. Tão humilde que fico. Pois não mereço tanto.

Eu não sou nada. Sou um domingo frustrado. Ou estou sendo ingrata? Muito me foi dado, muito me foi tirado. Quem ganha? Não sou eu não. É alguém hiperbólico.

 

Brasília, seja bicho um pouco também. É tão bom. Tão bom mesmo. Não ter pipi-dog é uma ofensa a meu cachorro que nunca irá a Brasília por motivos óbvios. São quinze para as seis. Hora nenhuma. Até Kissinger está dormindo. Ou está num avião? Não há como adivinhar. Feliz aniversário, Kissinger. Feliz aniversário, Brasília. Brasília é um suicídio em massa. Brasília, você está se coçando? eu não, não caio nessa porque quem começa não pára de se. Você sabe o resto.

 

O resto é paroxismo.

Ninguém sabe, mas meu cachorro não só fuma como bebe café e come flor. E bebe cerveja. Toma também remédio contra depressão. Parece um mulatinho. O que ele quer é cadela. Ele é de classe média. Eu não deixei o jornal saber tudo. Mas agora é a hora da verdade. Também você tenha a coragem de ler. É um cachorro que só lhe falta escrever. Come caneta e estraçalha papel. Melhor que eu. Égua do Sol. Ele é uma coisa que Brasília não é. Ele é: bicho. Eu sou bicho. Tenho tanta vontade de me repetir, só para chatear.

Meu Deus, voltei atrás no tempo. São exatamente vinte para as seis. E respondo à máquina: yes. A máquina monstruosa. É um telescópio. Que ventania. É ciclone? É.

 

Ma que lugar para se ser bonito. Hoje é segunda-feira, dia 10. como vê, eu não morri. Vou ao dentista. Semana perigosa, essa. Eu falo a verdade. Não a verdade toda, como disse. E se Deus sabe, isso é com Ele. Ele que se arrume. Não sei mas vou me arrumar como posso. Como aleijado. Viver de graça é que não se pode. Pagar para viver? Tenho sobrevida. Igual ao vira-lata Ulisses. Quanto a mim acho que.

Que vergonha. É meu caso de vergonha pública. Tenho três bisontes na minha vida. Um mais um mais um mais um mais um. O quarto me mata em Malta. Na verdade o sétimo é o mais brilhante. Bisonte, para quem não sabe, é animal de caverna. Desempenho as minhas histórias. Calor humano. Cidade sem medo, essa. Deus é a hora. Vou durar ainda. Ninguém é imortal. Vê lá se encontra um que não morre.

Morri. Morri assassinada por Brasília. Morri para pesquisar. Rezem por mim porque eu morri de costas.

 

Olha, Brasília, fui embora. E que Deus me acuda. É que sou um pouco antes. É só isso. Juro por Deus. E sou um pouco depois também. Que é que há de se fazer. Brasília é vidro partido no chão da rua. Cacos. Brasília é ferrinho de dentista. E muito motocicleta também. Sem deixar de ser ova de peixe, bem frita e bem salgada. Acontece que sou tão ávida da vida, tanto quero dela e aproveito-a tanto e tudo é tanto – que me torno imoral. Isso mesmo: sou imoral. Que bom ser imprópria até dezoito anos.

Brasília faz ginástica todos os dias às 5 da manhã. Só os baianos de lá é que entram nessa. Fazem poesia.

Brasília é um mistério classificado em arquivos de aço. Tudo lá se classifica. E eu? Quem sou eu? Como é que me classificaram? Deram-me um número? Sinto-me numerificada e toda apertada. Mal caibo dentro de mim. Eu sou um euzinho muito mixa. Mas com certa classe.

 

Ser feliz é uma responsabilidade tão grande. Brasília é feliz. Tem essa ousadia. O que será de Brasília no ano, digamos 3000? Quanta ossada. Ninguém se lembra do futuro porque não pode ser. As autoridades não deixam. E eu, quem sou? Obedeço de puro medo ao mínimo soldado que apareça na minha frente e me diga: considere-se prendida. Ai, vou chorar. Sou por um triz. On the verge of.

Está se vendo que não sei descrever Brasília. Ela é Júpiter. É palavra bem aplicada. É gramatical demais para o meu gosto. E o pior é que ela exige gramática but I don’t know, sir, I don’t know the rules.

Brasília é um aeroporto. Os alto-falantes anunciando fria e cortesmente a partida dos aviões.

Que mais? é que não se sabe o que se quer fazem em Brasília. Só fazem os que trabalham danadamente, os que danadamente fazem filhos e danadamente se reúnem em jantares de grandes delicadezas.

 

Fiquei hospedada no Hotel Nacional. Apartamento 800. e bebi coca-cola no quarto. Vivo – boba que sou fazendo propaganda de graça.

Às sete horas da noite falarei só por alto da vanguarda literária brasileira, já que não sou critica. Deus me livre de criticar. Tenho um medo seco de enfrentar pessoas que me ouvem. Eletrizada. Aliás, Brasília é eletrizada e é computador. Com certeza vou ler depressa demais para acabar logo. Vou ser apresentada à audiência por José Guilherme Merquior. Merquior é sadio demais. Fico honrada e ao mesmo tempo tão humilde. Afinal, quem sou eu para enfrentar um público exigente? Farei o que puder. Uma vez fiz uma palestra na PUC e Affonso Romano de Sant’Anna, não sei que diabo lhe deu a esse ótimo critico, me fez uma pergunta: dois e dois são cinco? Por um segundo fiquei atônita. Mas me ocorreu logo uma anedota de humor negro: É assim: o psicótico diz que dois e dois são cinco. O neurótico diz: dois e dois são quatro mas eu simplesmente não agüento. Houve então sorrisos e relaxamento.

 

Amanhã volto para o Rio, cidade turbulenta de meus amores. Gosto de viajar de avião: amo a velocidade. Com seu Vicente consegui que corresse em Brasília bem depressa com o carro. Sentei-me ao lado dele e conversamos muito. Até logo mais: vou ler enquanto espero que venham me buscar para a conferencia. Em Brasília dá vontade de ser bonita. Tive vontade de me enfeitar. Brasília é arriscada e eu amo risco. É uma aventura: me deixa face a face com o desconhecido. Vou dizer palavras. As palavras nada tem a ver com as sensações. Palavras são pedras duras e as sensações delicadíssimas, fugazes, extremas. Brasília humanizou-se. Só que não agüento essas ruas redondas, essa falta vital de esquinas. Lá, mesmo o céu é redondo. As nuvens são agnus dei. Brasília tem o ar tão seco que a pele do rosto fica seca, as mãos ásperas.

 

A máquina do dentista chamada “Atlante 200” fala assim comigo: tchi! tchi! tchi! tchi! Hoje é dia 14. quatorze me deixa suspensa. Brasília é quinze vírgula um. O Rio é um, mas unzinho. Atlante 200 não morre? Não, não morre. É como eu quando estou hibernada em Brasília.

Brasília é guindaste alaranjado pescando coisa muito delicada: um pequeno ovo branco. Esse ovo branco sou eu ou uma criancinha que nasce hoje?

Sinto que estão fazendo macumba para mim: quem quer roubar minha pobre identidade? Só faço o seguinte: peço socorro e bebo um cafezinho. Depois eu fumo. Como e quanto fumei em Brasília! Brasília é cigarro Hollywood com filtro. Brasília é assim: ouço neste instante o ruído da chave na fechadura da porta de entrada e de saída, mistério, sim senhor. Vou abrir e sabe quem era? era ninguém. Brasília é alguém, tapete vermelho, fraque e cartola.

 

Brasília é uma tesoura de aço puro. Economizo quanto posso para o dinheiro dar. E já fiz o meu testamento. Digo nele um bocado de coisas.

Brasília é barulho de gelinho no copo de whisky, às seis horas da tarde, hora de ninguém.

Querem que eu diga a Brasília: viva? digo viva com o copo na mão. No Rio, na copa de minha casa, matei um mosquito que tremulava no ar. Por que esse direito de matar? Ele era apenas um átomo voando. Nunca mais vou esquecer esse mosquito cujo destino eu tracei, eu, a sem destino.

Estou cansada, ouvindo de madrugada o Ministério da Educação que também é de Brasília. No momento ouço o Danúbio Azul em cujas águas me debruço séria e atenta.

 

Brasília é ficção cientifica. Brasília é Ceará ao avesso: ambos contundentes e conquistadores.

É é o coro infantil em manhã azulíssima e super gelada, os meninos abrindo as boquinhas redondas e entoando um Te Deum todo inocente, acompanhado de música de órgão. Quero que isso aconteça na igreja dos vitrais às 7 horas da noite. Ou às 7 horas da manhã. Prefiro de manhã, se bem que o crepúsculo em Brasília seja ainda mais bonito que o pôr-do-sol involuntário de Porto Alegre. Brasília é um primeiro lugar no vestibular. Eu fico contente com um segundinho segundo lugar.

Vejo que escrevi sete em número: 7. Pois Brasília é 7. É 3. É quatro. É oito, nove – pulo os outros, e no 13 me encontro com Deus.

 

O problema é que o papel branco exige que eu escreva. Vou e escrevo. Sozinha no mundo, no alto de um morro. Eu queria se regente musical, mas diz que mulher não pode ser por não ter resistência física. Ah, Schubert, adoce um pouco Brasília. Eu sou tão boa para Brasília.

Neste instante já são dez para as sete. Me muero. A casa é sua, meu senhor, e o serviço que lhe dou é serviço de luxo. Aproveite quem quiser. Brasília é uma nota de 500 cruzeiros que ninguém quer trocar. E o centavo número 1? esse reivindico para mim. É tão raro. Dá boa sorte. E dá privilégio. Quinhentos cruzeiros me atravessam com brilhantes.

Mas é um lugar-comum dizerem: quero dinheiro e quero morrer de repente. Mesmo eu. Mas S. Francisco tirou toda a roupa e ficou nu. Ele e meu cachorro Ulisses nada pedem. Brasília é um pacto que fiz com Deus.

 

Só peço um favor, Brasília, de você: não entre numa de falar esperanto. Não vê que as palavras ficam deturpadas em esperanto como em tradução mal traduzida? Yes my Lord. I said yes, sir. I almost said: my love, em vez de my Lord. But my love is my Lord. There is no answer? OK, I can stand it. Mas como dói. Dói muito se ofendida por uma falta de resposta. Agüento. Mas não me pisem nos pés porque dói. E sou familiar, eu sou você, não faça cerimônia. Vai ser assim: eu o trato de senhor doutor e você me trata de tu. Você é tão galante, Brasília.

Brasília tem Jardim Botânico? e tem Jardim Zoológico? Faz falta, porque não é só de gente que vive o homem. Ter bicho é essencial.

Cadê a tua trágica ópera, Brasília? Opereta eu não aceito, é nostálgica demais, é soldadinho de chumbo que eu embora menina, brinquei com. O blue me estraçalha mansamente o coração que no entanto é tão quente como o próprio blue.

 

Brasília é Lei Física. Relaxe-se, minha senhora, tire a cinta, não se afobe, tome um golinho de água com açúcar – e então experimente ser um pouco a Lei Natural. A senhora vai se deleitar.

Existe por acaso uma matéria de estudo chamada Matéria da Existência do Tempo? Pois devia existir.

Pois não é que passaram água oxigenada no chão de Brasília. Pois passaram: para desinfectar. Mas eu sou, graças a Deus, bem infectada. Mas fiz radiografia dos pulmões e disse para o médico: meus pulmões dever estar pretos de fumaça. Ele respondeu: pois até que não, estão clarinhos.

E assim vai se indo. Estou de repente muda e sem assunto. Respeitem o meu silêncio. Eu não pinto, não senhora, eu escrevo e quanto.

 

Em Brasília não sonhei. Será culpa minha ou em Brasília não se sonha? E a camareira? que foi feito dela? Eu também já sofri, ouviu, mulher-camareira? Sofrimento é privilégio dos que sentem. Mas agora estou pura de alegria. São quase seis horas da manhã. Acordei às quatro da madrugada. Estou alerta. Brasília é alerta. Prestem atenção ao que digo: Brasília não vai terminar nunca. Eu morro e Brasília permanece. Com nova gente, é claro. Brasília é novinha em folha.

Brasília é Marcha Nupcial. O noivo é um nordestino que come bolo inteiro porque está com fome há várias gerações. A noiva é uma velha senhora viúva, rica e rabugenta. Deste insólito casamento que assisti, forçada pelas circunstancias, saí derrotada pela violência da Marcha Nupcial que parece Marcha Militar e que me mandou me casar também e eu não quero. Saí cheia de band-aids, com o tornozelo torcido, a nuca doendo e uma grande ferida me doendo no coração.

 

Tudo o que eu disse é verdade. Ou é simbólico. Mas que sintaxe difícil Brasília tem! A cartomante disse que eu iria a Brasília. Ela sabe de tudo, dona Nadir, do Méier. Brasília é pálpebra batendo que nem borboleta amarela que um dia desses vi na esquina de minha casa. Borboleta amarela é bom augúrio. Lagartixa não diz sim nem não. Mas S. tem um medo de lagartixa que se pela. Eu tenho mais medo é de ratos. No Hotel Nacional me garantiram que não tinha rato. Aí, então, fiquei. Com garantia, fico muito.

Trabalha é sina. Olha, Jornal de Brasília, inclua astrologia nos seus planos.

Afinal a gente tem que saber a quantas anda. Sou toda mágica e minha aura é azul forte que nem os doces vitrais da igreja que falei. Tudo em que eu toco, nasce.

 

Amanhece aqui no Rio. Uma bela e fria manhã seca. Que bom que todas as noites tenham manhãs radiosas. O horóscopo de Brasília é fulgente. E quem quiser, que agüente.

São quinze para as seis. Escrevo ouvindo música. Qualquer uma serve, não crio problemas. Eu agora queria era ouvir um fado bem adstringente cantado por Amália Rodrigues em Lisboa. Ah que saudade de Capri. Sofri tanto em Capri. Mas perdoei. Não faz mal: Capri, como Brasília, é linda. Estou é com pena de Brasília porque ela não tem mar. Mas há maresia no ar. Banho de piscina eu desprezo. Banho de mar dá coragem. Um dia desses fui à praia e entrei no mar com emoção. Bebi sete goles de água salgada do mar. A água estava friazinha, delicada, de ondinhas que também eram agnus dei. Aviso que vou comprar um chapéu de feltro no estilo antigo, com copa pequena de abas viradas. E também um xale verde de crochê. Brasília não é crochê, é tricô feito por máquinas especializadas que não erram. Mas, como eu disse, sou erro puro. E tenho alma canhota. Me enrolo toda no crochê verde-esmeralda, me enrolo toda. Para me proteger. Verde é a cor da esperança. E terça-feira pode ser um desastre. Em minha última terça-feira chorei porque fui ofendida. Mas em geral terça-feira é muito bom. Quanto à quinta-feira, é doce e um pouquinho triste. Ride, palhaço, enquanto a casa pega fogo. Mas tout va três bien, madame la Marquise. Só que.

 

Será que em Brasília tem faunos? Está resolvido: compro é chapéu verde para combinar com o meu xale. Ou não compro nenhum? sou tão indecisa. Brasília é decisão. Brasília é homem. E eu, tão mulher. Vou andando às trambolhadas. Esbarro aqui, esbarro ali. E chego enfim.

A música que estou ouvindo agora é toda pura e sem culpa. Debussy. Com ondinhas frescas do mar.

Brasília tem gnomos?

A minha casa no Rio está cheia deles. Todos fantásticos. Experimente um só gnomo e você fica viciado. Duende também serve. Anão? tenho pena.

Já resolvi: não preciso de chapéu nenhum. Ou preciso? Meu Deus, que será de mim? Brasília, me salve que estou precisando.

 

Um dia eu era criança que nem Brasília. E queria tanto um pombo-correio. Pra mandar carta para Brasília. Recebem? sim ou não?

Sou inocente e ignorante. E quando estou em estado de escrever, não leio. Seria demais para mim, não tenho força.

No avião viajei com um senhor português, comerciante não sei de quê, mas que foi muito delicado: segurou minha maleta pesada. Na volta de Brasília viajei com um senhor que conversou comigo tão bem, uma conversa tão boa, que eu disse: é incrível como o tempo passou depressa e já chegamos. Ele disse: para mim o tempo também passou depressa. Este homem um dia encontrarei. Ele vai me ensinar. Sabe de muita coisa.

Estou tão perdida. Mas é assim mesmo que se vive: perdida no tempo e no espaço.

 

Morro de medo de comparecer diante de um Juiz. Meretíssimo, dá licença de eu fumar? Dou, sim senhora, eu mesmo fumo cachimbo. Obrigada, Vossa Eminência. Trato bem o Juiz, Juiz é Brasília. mas não vou abrir processo contra Brasília. ela não me ofendeu.

Estamos em plena copa do mundo. Tem um país africano que é pobre e ignorante e perdeu da Iugoslávia de 9 a zero. Mas a ignorância é outra: ouvi dizer que nesse país ou os rapazes pretos ganham ou morrem. Que falta de socorro.

Eu sei morrer. Morri desde pequena. E dói mas a gente finge que não dói. Estou com tanta saudade de Deus.

E agora vou morrer um pouquinho. Estou tão precisada.

Sim. Aceito, my Lord. Sob protesto.

Mas Brasília é esplendor.

Estou assustadíssima.

Brasília e Rio de Janeiro, 1962/1974.

 

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Uma capital no hinterland

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

 

Brasília: uma História de Planejamento*

Sylvia Ficher

Geraldo Nogueira Batista

Francisco Leitão

Andrey Schlee

Maio 2006

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma capital no hinterland

 

Da largura que a terra do Brasil tem para o sertão não trato, porque até agora não houve quem a andasse por negligência dos portugueses, que, sendo grandes conquistadores de terras, não se aproveitam delas, mas contentam-se de as andar arranhando ao longo do mar como caranguejos.

Frei Vicente do Salvador, História do Brasil, 1627.

 

A intenção de transferir a Capital do Brasil para o interior do país remonta a meados do século dezessete, quando o país ainda era colônia de Portugal e já se vislumbrava a possibilidade de transferência da Corte Portuguesa para o novo continente. Em 1749, Francisco Tosi Colombina faz os primeiros mapas da região.[i][i] Nos planos da Inconfidência Mineira (1789) figura uma capital distanciada do litoral, na cidade de São João del Rei. Com a ascensão de Napoleão – a qual faria do primeiro-ministro inglês, William Pitt, um defensor de uma capital brasileira no interior[ii][ii] –, em 1808 a Corte Portuguesa foi forçada a se estabelecer no Rio de Janeiro, passando o Brasil à condição de Reino Unido. Daquela época em diante, o tema da interiorização, por razões políticas ou estratégia militar, estaria sempre presente nas discussões sobre a organização territorial e administrativa do país.

 

Por ocasião da primeira eleição de representantes do Brasil em Lisboa em 1821, um importante documento de José Bonifácio[iii][iii] sintetizava a questão: "Parece-nos também muito útil que se levante uma cidade central no interior do Brasil para assento da Corte ou da Regência, que poderá ser na latitude, pouco mais ou menos, de 15 graus, em sítio sadio, ameno, fértil e regado por algum rio navegável. Deste modo fica a corte ou assento da regência livre de qualquer assalto e surpresa externa, e se chama para as províncias centrais o excesso da povoação vadia das cidades marítimas e mercantis."[iv][iv][v][v] Em 1822 aparece, em panfleto anônimo, aquele que seria o nome da futura capital: Brasília.

 

Após a Independência, a 7 de setembro desse mesmo ano de 1822, o debate iria continuar, com maior ou menor vigor, mas sem resultados práticos. De importância, deve ser lembrada a longa campanha do historiador Francisco Adolfo de Varnhagen, Visconde de Porto Seguro.[vi][vi] Seria após a Proclamação da República em 1889, com a promulgação da Constituição de 1891, que o estabelecimento da capital no hinterland se tornaria preceito constitucional. Conforme o seu Art. 3º, "Fica pertencendo à União, no planalto central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital federal."[vii][vii]

 

§ Rumo ao Planalto Central

 

Querem sem querer.

Eliseu Guilherme, Anais da Câmara dos Deputados, 1922.

 

Logo em 1892 era nomeada a comissão encarregada da demarcação dessa zona, chefiada pelo diretor do Observatório Nacional, o astrônomo Luiz Cruls.[viii][viii] A extensão e profundidade dos estudos realizados durante expedição (de junho de 1892 a março de 1893), na erudita e requintada tradição da história natural do século dezenove, faz com que o seu Relatório da Comissão Exploradora do Planalto Central (ou Relatório Cruls, 1894) deva ser considerado o primeiro documento técnico pertinente ao planejamento de Brasília.

 

A área definida – um quadrilátero esferoidal de 160 por 90 quilômetros, com os requeridos 14.400 quilômetros quadrados, situado na região centro-oeste, no Estado de Goiás, e que ficaria conhecido como "Quadrilátero Cruls"[ix][ix] – atendia integralmente as sugestões de José Bonifácio. Entre as inúmeras vantagens, a sua localização – como que predestinada, devido aos "grandes rios, que nascem na região…, e [que] por um capricho singular da natureza, têm suas cabeceiras, como que reunidas em um só ponto…"[x][x] – reforçava a dimensão simbólica de unidade e integração nacional atribuída à mudança da capital.

 

Apesar da repercussão suscitada pelo Relatório Cruls, as medidas tomadas resumiram-se à construção de umas poucas ligações ferroviárias com a região. Apenas em 1922, no contexto nacionalista das comemorações do Centenário da Independência, o Congresso aprovaria o estabelecimento da Capital federal no Quadrilátero Cruls. E a 7 de setembro era lançada a sua pedra fundamental, a poucos quilômetros de onde Brasília viria a ser de fato erigida.

 

Durante a longa ditadura de Getúlio Vargas (1930-1946), as prioridades seriam outras: a ocupação da região centro-oeste, agora com a fixação de novas populações em núcleos agrários pela Fundação Brasil Central, na chamada "Marcha para o Oeste", e a melhora, embora lenta, de sua acessibilidade, graças à ampliação das condições de navegabilidade de alguns rios e à construção ou extensão de linhas ferroviárias.[xi][xi] Mesmo assim, os especialistas – no mais das vezes geógrafos, militares e engenheiros – não iriam abandonar a problemática, como atestam inúmeros estudos técnicos, quase todos unânimes na defesa da interiorização da capital.[xii][xii]

 

§ Escolhendo a localização

 

…mais ao sul, mais ao norte, mais a leste, mais a oeste, não importa. Mas no Planalto Central.

Everardo Backheuser, Localização da nova capital, 1947.

 

Com a redemocratização do país e a subseqüente posse do Marechal Eurico Dutra na Presidência da República, a novidade agora seria uma acirrada disputa pela localização da cidade. Durante a Assembléia Constituinte haveria partidários do Quadrilátero Cruls, de Goiânia (Capital do Estado de Goiás), de Belo Horizonte (Capital do Estado de Minas Gerais) e do Triângulo Mineiro.[xiii][xiii] Porém a Constituição de 1946 somente manteria o dispositivo da interiorização, mais uma vez deixando a decisão para uma comissão a ser devidamente nomeada.[xiv][xiv]

 

Ocorria então um deslocamento da questão para a órbita militar, e naquele ano foi organizada a Comissão de Estudos para a Localização da Nova Capital, sob presidência do General Polli Coelho. Após expedições ao Quadrilátero Cruls e ao Triângulo Mineiro, a comissão apresentou dois relatórios preliminares[xv][xv] e um Relatório Técnico (1948),[xvi][xvi] todos documentos relevantes para o conhecimento da região. Seu mais palpável resultado foi a delimitação de uma nova área, o "Perímetro Polli Coelho", uma ampliação para o norte do Quadrilátero Cruls.

 

Adiantando-se a qualquer decisão, em 1947 a Assembléia Legislativa de Goiás autorizava a doação ao Governo Federal de "toda a área de terras devolutas compreendidas na zona que for escolhida para a futura Capital da República…"[xvii][xvii] Daí por diante, o empenho político goiano seria intenso, porém as primeiras desapropriações teriam início somente em 1956, após a oficialização do perímetro do Distrito Federal.[xviii][xviii]

 

No andamento do processo legislativo de 1953, foi definido um terceiro perímetro, o "Retângulo do Congresso", com 52.000 quilômetros quadrados, a ser considerado nos trabalhos da então criada Comissão de Localização da Nova Capital Federal. Presidida pelo General Caiado de Castro, dentre as medidas por ela tomadas está a contratação da firma Cruzeiro do Sul, para fazer o levantamento aerofotogramétrico da região. Na seqüência, seria contratada a empresa americana Donald J. Belcher & Associates, encarregada da foto-interpretação deste material e da determinação dos cinco melhores sítios, de 1.000 quilômetros quadrados cada, mais adequados para a futura cidade, tarefas apresentada no valioso Relatório técnico sobre a nova Capital da República (ou Relatório Belcher, 1957).[xix][xix]

 

Em 1954, Caiado de Castro foi substituído pelo Marechal Cavalcanti de Albuquerque e, no ano seguinte, a comissão seria reorganizada como Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital Federal. Com disciplina de militar acostumado a implementar empreitadas de vulto,[xx][xx] o marechal daria grande impulso aos trabalhos nos vinte meses que ficaria à sua frente. Além de uma intensa campanha de divulgação dos objetivos, tomou providências cruciais, como a elaboração de um plano rodoferroviário de acesso ao planalto central, que incluiu a construção da linha de ferro Pirapora-Belo Horizonte e o prolongamento da rodovia Anhangüera em direção a Goiás.[xxi][xxi]

 

O seu abrangente relatório, Nova Metrópole do Brasil,[xxii][xxii] é o último documento técnico sobre a localização. Nele está descrito o complexo debate que sacramentou o local definitivo de Brasília, o famoso "sítio castanho", segundo a nomenclatura adotada por Belcher: a vasta propriedade rural denominada Fazenda Bananal.

 

§ Enfim, um sítio

 

Enfim, de jornada em jornada, estudando tudo, cheguei a um vastíssimo vale…

Auguste François Marie Glaziou, Correspondência a Luiz Cruls, 1893.

 

Nenhum outro problema nacional terá sido tão debatido e analisado, por tão longo período de nossa história…

Israel Pinheiro, Uma realidade: Brasília, 1957.

 

A preferência por esse mesmíssimo local há muito existia, tanto assim que já havia dois projetos para a Capital federal feitos anteriormente para ele. O primeiro é Planópolis (1927), de autor desconhecido, caracterizado pelo traçado em retícula, nos moldes de Belo Horizonte, cujo parcelamento do solo foi registrado no Cartório de Imóveis de Planaltina e teve alguns dos seus lotes vendidos.[xxiii][xxiii] Seguiu-se o detalhado "Anteprojeto para a Futura Capital Federal do Brasil” (1938), trabalho acadêmico da engenheira Carmem Portinho, sugestivamente de clara orientação corbusiana.[xxiv][xxiv]

 

Essa coincidência representa um dos mais curiosos fatos na longa gestação da transferência da Capital para o interior do país – um incrível exemplo de amnésia histórica. A ironia da situação é que em 1955, após tantos e tão exaustivos estudos, infindáveis levantamentos topográficos e aprofundadas análises aerofotogramétricas, optou-se pelo "extenso chapadão, circundado, a nordeste, pelos vales do Rio Torto e do córrego Bananal e, a sudeste, pelo Ribeirão do Gama e Riacho Fundo."[xxv][xxv] Ou seja, o exato sítio que o botânico Auguste Glaziou[xxvi][xxvi] escolhera para a futura cidade, conforme descreveu em carta endereçada a Cruls, em 1893: "Enfim, de jornada em jornada, estudando tudo, cheguei a um vastíssimo vale banhado pelos rios Torto, Gama, Vicente Pires, Riacho Fundo, Bananal e outros; impressionou-me muitíssimo a calma severa e majestosa desse vale… Entre dois chapadões conhecidos na localidade pelos nomes de Gama e Paranoá, existe imensa planície em parte sujeita a ser coberta pelas águas da estação chuvosa; outrora era um lago devido à junção de diferentes cursos de água, formando o rio Paranoá; o excedente deste lago, atravessando uma depressão do chapadão, acabou, com o carrear dos saibros e mesmo das pedras grossas, por abrir nesse ponto uma brecha funda, de paredes quase verticais, pela qual se precipitam hoje todas as águas dessas alturas."[xxvii][xxvii]

 

De quebra, Glaziou aconselhava a formação de um lago: "É fácil compreender que, fechando essa brecha com uma obra de arte, forçosamente a água tornará ao seu lugar primitivo e formará um lago navegável em todos os sentidos. Além da utilidade de navegação, o cunho de aformoseamento que essas belas águas correntes haviam de dar à nova Capital, despertariam certamente a admiração de todas as nações." Felizmente para Brasília, o sábio conselho foi seguido…

 

§ Vera Cruz, futura Capital do Brasil

 

Impelidos pelo entusiasmo que o estímulo patriótico e idealístico… desperta, tomamos a imediata deliberação de apresentar o esboço de nossa autoria como concreta contribuição para o projeto definitivo da cidade.

Raul Penna Firme, Roberto Lacombe e José Oliveira Reis, Memorial do estudo preliminar para a cidade de Vera Cruz, 1955.

 

Além da escolha do local e do estabelecimento dos limites do território do futuro Distrito Federal, o relatório Nova Metrópole do Brasil trazia também um plano de cidade.[xxviii][xxviii] Trata-se de Vera Cruz, proposta desenvolvida em 1955 pelos arquitetos Raul Penna Firme e Roberto Lacombe e pelo engenheiro José Oliveira Reis, como parte dos trabalhos da Subcomissão de Planejamento Urbanístico da Comissão de Localização da Nova Capital Federal.[xxix][xxix] Ao elaborá-lo, seus autores trabalhavam – em primeiríssima mão – com informações detalhadas sobre os condicionantes topográficos do sítio, inclusive a cota de inundação da futura represa. E assim, consideraram a presença do Lago Paranoá, dando-lhe a devida importância como "…motivo paisagístico de encantadora apreciação, que forma com os parques naturais a serem protegidos uma agradável atração para a cidade."[xxx][xxx]

 

O traçado adotado, associando uma malha ortogonal a vias expressas e setorização, é definido por dois eixos principais que se cruzam em níveis diferentes, a Avenida da Independência (no sentido leste-oeste) e a Avenida dos Bandeirantes (no sentido norte-sul). Ele inclui ainda duas amplas avenidas que partem em ângulo de uma rotatória no extremo leste da Avenida da Independência e definem uma praça triangular; daí se estendendo em direção às margens do lago e atravessando um parque cortado por caminhos de desenho livre.[xxxi][xxxi]

 

Por fim, no memorial de Vera Cruz, seus autores explicitam as fontes das soluções adotadas, as quais refletem o conhecimento urbanístico então aceito nos meios profissionais e praticado ao longo da década de cinqüenta: "os conceitos do urbanista inglês Howard, pioneiro da cidade-jardim” e "as auto-estradas do tipo moderno para grande circulação (high-ways); avenidas largas para o tráfego de menor intensidade e ruas para os grupos residenciais (drive-ways)."[xxxii][xxxii]

 

Há muito em comum entre Vera Cruz e a concepção de Lucio Costa para Brasília. Além da estrutura básica estabelecida a partir de dois eixos, pode-se observar outros pontos de aproximação, como a configuração da área destinada à administração federal. Em Vera Cruz, tal área está localizada ao longo da larga Avenida da Independência, logo a oeste do cruzamento com a Avenida dos Bandeirantes: um imponente espaço longitudinal, flanqueado por sete edifícios de cada lado, destinados aos ministérios, todos semelhantes e regularmente perfilados. No ponto focal, na cota mais elevada do terreno, fica o Congresso Nacional, ladeado pela Presidência e pelo Judiciário, sugerindo uma organização triangular. Em Brasília, como será visto, os ministérios são, igualmente, edifícios idênticos e perfilados de cada lado do Eixo Monumental, definindo a Esplanada dos Ministérios, a qual se localiza, porém, a leste do cruzamento com o Eixo Rodoviário. Em seu ponto focal fica o Congresso, implantado em um terrapleno; na seqüência, o Palácio Presidencial e o Supremo Tribunal Federal delimitam a Praça dos Três Poderes, igualmente de planta triangular. Sem grande dificuldade, pode-se entender o conjunto constituído pela Esplanada dos Ministérios e pela Praça dos Três Poderes em Brasília como uma imagem especular da solução adotada em Vera Cruz.

 

Há, inclusive, semelhanças na disposição dos setores habitacionais das duas cidades. Em Vera Cruz eles "são constituídos de grandes quadras de um quilometro quadrado de superfície, aproximadamente, subdivididos em loteamentos especiais, servidos por uma rede de circulação ao abrigo do tráfego intensivo, reservando-se espaços livres para escolas, jardins, recreação e pequeno comércio (unités de voisinage)." Em alguns deles, "as edificações não obedecerão ao regime de lotes individuais; as edificações serão projetadas em blocos, formando unidades harmônicas em condomínio, o que permitirá maior reserva de espaços livres para parques e jardins, que funcionarão como servidão junto aos edifícios de utilidade comum…," devendo-se "separar o pedestre da ronda infernal dos automóveis."[xxxiii][xxxiii] Já em Brasília, a solução adotada seria "uma seqüência continua de grandes quadras," cujos "blocos residenciais podem dispor-se da maneira mais variada" e nas quais há uma "separação do trafego de veículos do trânsito de pedestres, mormente o acesso à escola primaria e às comodidades existentes no interior de cada quadra."[xxxiv][xxxiv]

 

O estudo da atuação da Comissão de Localização e a análise do projeto urbanístico por ela patrocinado permitem desfazer algumas ficções sobre a realização de Brasília. A primeira delas – e a mais evidente – diz respeito à primazia do Presidente Juscelino Kubitschek nas decisões que levaram à mudança da Capital.[xxxv][xxxv] Outra crença é aquela da construção de Brasília iniciada do zero, como se todas as providências tivessem sido tomadas da posse de Kubitschek à inauguração. Porém, nem tudo começou em 1956, assim como nem tudo foi concluído em 1960, seja no planejamento, seja no urbanismo, seja na arquitetura. Ao longo de uma década, as diferentes comissões deixaram muito serviço feito (como ligações ferroviárias e um plano de energia hidrelétrica para a região), além de terem produzido informações básicas imprescindíveis em uma obra de tal porte (como a cartografia e os levantamentos topográficos da área), chegando até ao detalhe de um estudo de coletores de esgotos. Tudo isto permitindo o ufanismo de se afirmar que "o Brasil deve ser louvado pelo fato de ser a primeira nação, na História, a basear a seleção do sítio de sua capital em fatores econômicos e científicos, bem como nas condições de clima e beleza."[xxxvi][xxxvi]

 

§ As novas capitais estaduais

 

Há uma vocação atlântica, marcada pela larga costa continental, que nos obriga a olhar o vasto horizonte oceânico, para o outro lado do mar. E há a serra, a floresta, o sertão, a imensidão dos horizontes que fica por detrás das serranias da costa e que desde logo alertou a curiosidade e a cobiça do aventureiro…

Cruz Costa, Contribuição à história das idéias no Brasil, 1967.

 

Apesar de toda a excepcionalidade de Brasília, a sua audaciosa realização deve ser entendida, também, como parte do esforço de colonização do hinterland do país e de adequação de suas instâncias administrativas ao longo dos primeiros cinqüenta anos do período republicano. Manifesto, entre outras coisas, na construção de cidades ex-nihilo, tal empenho já havia resultado em exemplos de grande destaque urbanístico, como Belo Horizonte e Goiânia.[xxxvii][xxxvii]

 

Almejada desde o século dezoito para substituir Ouro Preto em suas funções de sede do Governo do Estado de Minas Gerais, Belo Horizonte foi pensada a partir de 1894 pelo engenheiro-agrimensor Aarão Reis e, de 1895 em diante, pelo engenheiro Francisco Bicalho, tendo sido parcialmente inaugurada em 1897. “O plano elaborado para Belo Horizonte resume boa parte da cultura e das preocupações estéticas do século dezenove relativas à cidade.”[xxxviii][xxxviii] Na capital mineira, com sua trama ortogonal cortada por avenidas diagonais, encontram-se referências a importantes antecedentes, como Washington (EUA) e La Plata (Argentina), que lhe serviram de modelo.

 

Igualmente em relação à antiga Capital do Estado de Goiás – a cidade de Goiás Velho –, Goiânia foi objeto de um primeiro projeto do arquiteto Attilio Corrêa Lima em 1933, ampliado em 1936 pelos irmãos Alberto e Jeronymo Coimbra Bueno e pelo engenheiro Armando Augusto Godoy, sendo inaugurada em 1937. Estes profissionais “dominavam os conhecimentos teóricos e técnicos indispensáveis para a concepção de uma cidade moderna naquele período. Eles consideraram os fatores topográficos, geológicos, hidrográficos, climáticos, históricos, culturais, sociais e econômicos. Também se ativeram no zoneamento da cidade setorizada por atividades (habitar, circular, trabalhar e recrear), na integração dos espaços urbanos e rurais, no controle das terras urbanas pelo poder público e na legislação urbanística.”[xxxix][xxxix] No caso da capital goiana, as referências eram bastante atualizadas, integrando o projeto definitivo tanto soluções funcionalistas como traçados típicos do desenho das cidades-jardim.

 

 

 

 

Tempos heróicos

 

É preciso fazer o supérfluo,… porque o necessário será feito de qualquer maneira…

Juscelino Kubitschek, citado por Lucio Costa, in Tamanini, Brasília, memória da construção, 1994.

 

Em seu primeiro comício de campanha, a 4 de abril de 1955 em Jataí (GO), o então candidato à Presidência, Juscelino Kubitschek de Oliveira, comprometeu-se a cumprir o preceito constitucional de interiorização da capital: "se for eleito, construirei a nova Capital e farei a mudança da sede do Governo."[xl][xl] Empossado em janeiro de 1956, em 19 de setembro obtinha – após complexas démarches políticas – a aprovação do Congresso para a Lei no 2.874, a qual garantia as providências essenciais para o empreendimento: a autorização para a mudança da Capital Federal do Rio de Janeiro para Brasília (denominação então oficializada), a aprovação do perímetro do Distrito Federal[xli][xli] e a criação da Companhia de Urbanização da Nova Capital, Novacap.

 

Sociedade anônima estatal, tendo por sede uma cidade que ainda não existia, a Novacap seria o principal agente do processo de urbanização. Diretamente subordinada ao Presidente da República, possuía uma vasta gama de poderes, sendo a proprietária da quase totalidade do solo do DF e a promotora de todo tipo de obras. Financeiramente, tinha autoridade para dar garantias do Tesouro Nacional às operações de crédito para o custeio de construções e contratar serviços sem licitação, ou seja, independentemente dos controles oficiais de praxe.[xlii][xlii]

 

Na prática, a forma institucional da Novacap reduzia a possibilidade de intervenções políticas e desvinculava a tomada de decisões in loco de autorizações pela administração federal, o que iria permitir a agilidade que operação de tal magnitude exigia. A 24 de setembro Kubitschek empossou a sua primeira diretoria, dirigida por Israel Pinheiro e tendo Oscar Niemeyer como diretor técnico. Niemeyer já era um arquiteto consagrado quando o Presidente esboçou a intenção de deixar o projeto da nova cidade sob sua integral responsabilidade: “Oscar, desta vez vamos construir a Capital do Brasil. Uma capital moderna. A mais bela capital deste mundo!”[xliii][xliii] Entretanto, aceitou encarregar-se somente da arquitetura, recusando a autoria do urbanismo.

 

E assim, ainda sem plano urbanístico, teve início a construção de Brasília. Em outubro, Niemeyer projeta o primeiro edifício oficial da cidade, a residência presidencial provisória: singela estrutura de madeira, o chamado Catetinho foi construído em apenas dez dias, sendo inaugurado a 10 de novembro.[xliv][xliv] Na seqüência, vieram as obras de represamento do Rio Paranoá[xlv][xlv], de um aeroporto e de um alojamento para tropas da Aeronáutica. Também projetado por Niemeyer, é construído um hotel – o famoso Brasília Palace, local de hospedagem dos visitantes ilustres que, ainda antes da inauguração da cidade, vinham conhecer seu imenso canteiro de obras.[xlvi][xlvi] Em novembro, começava a instalação do primeiro acampamento para funcionários da Novacap, a Candangolândia; em dezembro, Niemeyer concluía o projeto da residência presidencial, o Palácio da Alvorada,[xlvii][xlvii] talvez sua obra-prima na cidade.

 

A produção de Niemeyer e sua equipe seria intensa, indo de prédios de apartamentos, conjuntos comerciais, igrejas, hospitais e cinemas, até as imponentes edificações públicas. Nessas últimas, o arquiteto buscou dar ênfase ao impacto visual – por vezes com grande êxito, como na Catedral (1958) ou no Palácio do Itamaraty (1962) –, reafirmando a sua condição de líder da vertente formalista que então dominava o panorama arquitetônico internacional.

 

A excepcional trajetória de Oscar Niemeyer[xlviii][xlviii] teve início em 1936, quando – pelas mãos de Lucio Costa – teve a oportunidade de colaborar estreitamente com Le Corbusier no projeto do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro.[xlix][xlix] Também com Costa, projetou o pavilhão do Brasil na New York World’s Fair, em 1939. No início dos anos quarenta conheceu Kubitschek, então prefeito de Belo Horizonte. Dele, recebeu uma importante encomenda, o Parque da Pampulha, trabalho que desenvolveu em parceria com o paisagista Roberto Burle Marx e que iria projetar seu nome também no exterior. Daí em diante, amadureceria uma linguagem própria, distante do funcionalismo e caracterizada pela invenção formal e estrutural. O seu prestígio era tal que em 1947 participou, novamente com Le Corbusier, do projeto da sede da Organização das Nações Unidas, em New York.

 

Após Brasília, iria consolidar uma fecunda carreira; a lista de suas realizações é extensa, fazendo dele um dos arquitetos com mais obras construídas em todos os tempos e no maior número de países. E segue até hoje exercendo um monopólio quase absoluto da "arquitetura federal" da cidade. Nela, entre os projetos anteriores à inauguração, destacam-se o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal, os Ministérios e o Teatro Nacional; das primeiras décadas, o Instituto Central de Ciências da Universidade de Brasília (1963), o Quartel General do Exército (1977), o Memorial JK (1980) e todos os anexos do Congresso e dos Ministérios; entre os mais recentes, o Superior Tribunal de Justiça (1993), o anexo do Supremo Tribunal (1997), o Ministério Público (2000), o Superior Tribunal do Trabalho (2006) e o Conjunto Cultural da República (2006), constituído por museu e biblioteca.

 

§ O Concurso da nova Capital

 

A definição urbanística seria mais controversa. Em janeiro de 1955, antes ainda da divulgação do projeto de Vera Cruz, o Instituto de Arquitetos do Brasil, IAB, enviava correspondência ao presidente da Comissão de Localização, o Marechal Cavalcanti de Albuquerque, na qual solicitava informações sobre as providências tomadas sobre a questão; em agosto, iria se dirigir diretamente ao Presidente da República, para sugerir a organização de um concurso público.[l][l] Neste meio tempo, Le Corbusier – então no auge de sua fama graças a Chandigarh (1950) – também se dirigia a Albuquerque, como de praxe oferecendo seus préstimos "para traçar o plano piloto da nova Capital,"

  • pleito que contava com o apoio de Affonso Eduardo Reidy e Roberto Burle Marx.[lii][lii]

     

    A reação de Albuquerque expressa bem o clima à época: desagrado à "indicação de um urbanista estrangeiro" – mesmo que só "para a orientação geral" e "ficando a cargo de técnicos brasileiros o desenvolvimento do plano urbanístico" –, uma vez que aquela "seria a primeira oportunidade para que os engenheiros brasileiros, que tanto têm contribuído para o progresso, o desenvolvimento e a beleza das nossas grandes cidades, realizassem, no setor do urbanismo, uma obra de grande envergadura."[liii][liii] Tanto assim que não ignorou os interesses locais e uma de suas providências foi "auscultar os órgãos de classe e os meios responsáveis do país, ouvindo a Faculdade Nacional de Arquitetura e nomes eminentes como Oscar Niemeyer, Affonso Reidy e outros."[liv][liv]

     

    A opção por Vera Cruz, Le Corbusier ou Oscar Niemeyer não poderia ser bem recebida pelos arquitetos brasileiros, então triunfantes com o sucesso de seus projetos modernistas. Tratava-se da Capital do Brasil, a qual deveria ser feita por brasileiros, para que o resto do mundo admirasse! A solução de compromisso seria aquela do IAB, um concurso nacional, a ser julgado por três urbanistas estrangeiros eminentes.[lv][lv] E pouco após a criação da Novacap, era aprovado o Edital do Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil (publicado no Diário Oficial de 30 de setembro de 1956), o qual facultava a participação apenas a “pessoas físicas e jurídicas domiciliadas no país, regularmente habilitadas para o exercício da engenharia, da arquitetura e do urbanismo.”[lvi][lvi]

     

    O edital é um documento sumário, no qual era solicitado tão somente o traçado básico da cidade e um relatório justificativo, sequer indicando a estrutura administrativa a ser contemplada ou listando os edifícios públicos, esses implicitamente deixados para Niemeyer. Logo depois, a Novacap colocou o Relatório Belcher à disposição dos inscritos e Niemeyer informava, na condição de diretor técnico da companhia, que a cidade deveria abrigar a mesma organização governamental existente no Rio de Janeiro (com o acréscimo de três ministérios), ter "desenvolvimento limitado" quanto à indústria e agricultura, dado o seu "caráter político-administrativo," e ser prevista para uma população máxima de meio milhão de habitantes.[lvii][lvii] Em resposta a consultas sobre parcelamento, loteamento e propriedade do solo, preferia-se aguardar as sugestões dos concorrentes: ou seja, a questão ficava completamente em aberto.

     

    Foram inscritos sessenta e seis concorrentes (segundo Geraldo Ferraz[lviii][lviii]) ou sessenta e dois (segundo o catálogo Brasília: trilha aberta[lix][lix]), vários deles com equipes multidisciplinares. Desses, vinte e seis apresentaram-se ao final. Alguns dos mais destacados arquitetos do país não se furtaram a tão relevante tarefa, como Rino Levi, os irmãos Roberto, Henrique Mindlin e Vilanova Artigas. Profissionais mais jovens, que iriam futuramente se destacar, também estavam representados, como João Khair, Joaquim Guedes e Carlos Millan, Pedro Paulo de Mello Saraiva e Júlio Neves ou Jorge Wilheim. Além, é claro, de profissionais mais afeitos à construção e/ou sem tradição no campo do urbanismo, como José Otacílio Sabóia Ribeiro José Geraldo da Cunha Camargo, ou a Predial e a Construtora Duchen, responsáveis pelas propostas mais extravagantes. E apesar da imprecisão do edital, todos, sem exceção, apresentaram-se com aplicações dos ideais funcionalistas.

     

    A comissão julgadora foi montada pela Novacap, com evidente influência de Niemeyer na indicação dos jurados estrangeiros.[lx][lx] Dela faziam parte: o engenheiro Israel Pinheiro, como Presidente da Novacap e sem direito a voto; dois representantes da Novacap: Oscar Niemeyer e Stamo Papadaki;[lxi][lxi] dois representantes de entidades de classe: Luiz Hidelbrando Horta Barbosa, pelo Club de Engenharia, e Paulo Antunes Ribeiro, pelo Instituto dos Arquitetos; e, por fim, dois urbanistas estrangeiros: o inglês William Holford, responsável pelo Plano Regulador de Londres e então trabalhando em Canberra (Austrália), e o francês André Sive, conselheiro do Ministério da Reconstrução e Moradia da França.

     

    A 23 de março de 1957 – após deliberação carreada em apenas cinco dias, de 12 a 16 de março – foi anunciado o resultado.[lxii][lxii] Mas não houve unanimidade, como indica o voto em separado do representante do IAB, expondo o seu profundo descontentamento com a metodologia adotada no julgamento e a rapidez da decisão.[lxiii][lxiii] Foram selecionadas seis propostas: Lucio Costa recebeu o primeiro prêmio, seguido por Boruch Milman (2º lugar), Rino Levi e Marcelo e Maurício Roberto (3º lugar ex æquo), Henrique Mindlin, Milton Ghiraldini e Vilanova Artigas (5º lugar ex æquo).

     

    Em seus trabalhos, a comissão julgadora estabeleceu como principal parâmetro de análise que “uma Capital Federal, destinada a expressar a grandeza de uma vontade nacional, deverá ser diferente de qualquer cidade de 500.000 habitantes. A Capital, cidade funcional, deverá além disso ter expressão arquitetural própria. Sua principal característica é a função governamental. Em torno dela se agrupam todas as outras funções, e para ela tudo converge.”[lxiv][lxiv] Justificando a escolha, explicava que "o Júri procurou encontrar uma concepção que apresentasse unidade e conferisse grandeza à cidade, pela clareza e hierarquia dos elementos. Na opinião dos seus membros, o projeto que melhor integra os elementos monumentais na vida cotidiana da cidade, como Capital Federal, apresentando uma composição coerente, racional, de essência urbana – uma obra de arte – é o projeto de número 22, do senhor Lucio Costa…"[lxv][lxv] Nas manifestações individuais, todas elogiando a simplicidade e unidade da solução, o projeto de Costa é comparado a Pompéia, Nancy, a Roma de Sisto V, o Campidoglio de Miguelangelo, a Praça de São Pedro em Roma, a Londres de Wren, a Paris de Louis XV, a Washington de L’Enfant, os planos para o Rio de Janeiro e Saint-Dié, ambos de Le Corbusier.[lxvi][lxvi] Ou seja, um projeto brasileiro que já nascia universal, uma vez que seu autor soubera se apropriar do repertório urbanisticamente consagrado.

     

    Mesmo enfrentando o constrangimento causado pela discordância de Antunes Ribeiro, Niemeyer comemorou o resultado.[lxvii][lxvii] Mas parece ter ficado com uma lembrança negativa do episódio, queixando-se pouco depois: “…dos primeiros tempos confesso guardar ainda uma certa amargura. Foram os dias dedicados ao Plano Piloto de Brasília, solução que teve meu total apoio… Embora honestamente realizado, o resultado do concurso desgostou a alguns… Ainda me vêm à lembrança certos incidentes, certas passagens que me fizeram descrer de muita coisa… Com a escolha do projeto de Lucio Costa, a situação se esclareceu. Não se tratava apenas de um admirável projeto, mas, também, de um homem puro e sensível, de um grande amigo com o qual me poderia entender.”[lxviii][lxviii]

     

    § Um plano piloto para Brasília

     

    The character of the plan is of the 20th Century: it is new; it is free & open; it is disciplined but not rigid.

    William Holford, Resumo das apreciações do júri, 1957

     

    Profundamente influenciado por Le Corbusier, Lucio Costa[lxix][lxix] foi um dos principais responsável pela difusão da arquitetura moderna européia no Brasil, na década de trinta. Teve papel decisivo na concepção do Ministério da Educação, para cujo projeto arregimentou uma equipe de jovens arquitetos em 1936,[lxx][lxx] ocasião em que persuadiu Le Corbusier a vir ao Rio de Janeiro, como consultor do grupo. Em 1937 participou da criação do Serviço do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (SPHAN), onde iria desenvolver sua carreira profissional. Além de projetos arquitetônicos – poucos, mas de alto padrão –, é autor do Plano Piloto da Barra da Tijuca (1969), uma área estendendo-se por cerca de vinte quilômetros ao longo do litoral sul da cidade do Rio de Janeiro, onde iria adotar princípios similares àqueles de Brasília.

     

    O seu plano para a Capital – apresentado em um texto de excepcional clareza (o Relatório do Plano Piloto), uma planta geral e uma série de perspectivas e pequenos esboços[lxxi][lxxi] – tinha como ponto de partida o caráter a ser dado à cidade, a qual deveria ser pensada "não como simples organismo capaz de preencher satisfatoriamente e sem esforço as funções vitais próprias de uma cidade moderna qualquer, não apenas como urbs, mas como civitas, possuidora dos atributos inerentes a uma capital." Seguia-se a definição do sistema viário do conjunto, estruturado por duas vias expressas principais. O Eixo Monumental,[lxxii][lxxii] dando acesso às áreas institucionais: a Esplanada dos Ministérios e a Praça dos Três Poderes a leste e a administração do DF a oeste. Ortogonalmente, e a ele articulado por um conjunto de plataformas que abriga a estação rodoviária da cidade, o Eixo Rodoviário[lxxiii][lxxiii] – no sentido norte-sul e levemente curvo –, serve de suporte para a cidade propriamente.

     

    As diferentes atividades foram apartadas em setores (diversões, bancário, comercial, hoteleiro, residencial etc.) distribuídos ao longo do Eixo Rodoviário, em duas "asas" simétricas em relação ao Eixo Monumental, a Asa Sul e a Asa Norte.[lxxiv][lxxiv] O principal setor residencial foi organizado em seqüências de "superquadras" – grandes quarteirões, de 280 por 280 metros, nos quais se distribuem prédios de apartamentos, em geral sobre pilotis.[lxxv][lxxv] Apesar da ênfase em signos de modernidade, o urbanista preferiu uma cidade de baixas densidades e alturas, com um gabarito máximo de seis pavimentos para os prédios residenciais e de dezesseis pavimentos nos demais setores.[lxxvi][lxxvi]

     

    Ao descrever os elementos de que se valia, Costa deixa explícita qual a sua relação com a história.[lxxvii][lxxvii] Nascida do “gesto primário de quem assinala um lugar ou dele toma posse: dois eixos cruzando-se em ângulo reto, ou seja, o próprio sinal da cruz," sua concepção buscava integrar desde "o triângulo eqüilátero, vinculado à arquitetura da mais remota antigüidade," e "a técnica oriental milenar" até modelos de urbanidade – Piccadilly Circus, Times Square, Champs Elysées, vielas venezianas, arcades e loggias – tudo isto em associação com a "técnica rodoviária" e a "técnica paisagística de parques e jardins." Referências que denotam a preocupação com soluções espaciais historicamente legitimas, contudo revistas pela tecnologia contemporânea, num esforço de atualização do conhecimento acumulado à modernidade.

     

    Anos depois, voltaria ao tema no pequeno texto "Ingredientes da concepção urbanística de Brasília".[lxxviii][lxxviii] Ao esclarecer suas preocupações à época, descreve a proposta de Brasília como “original, nativa e brasileira.” Mas vai além, citando como uma de suas fontes de inspiração, "a pureza da distante Diamantina" – em pé de igualdade com as perspectivas de Paris, os lawns ingleses, os terraplenos e arrimos da China e as auto-estradas e viadutos nova-iorquinos.

     

    A cidade mineira não era lembrada ao acaso. Por indicação do mentor e amigo José Mariano Carneiro da Cunha Filho, em 1922 Costa viajou pela primeira vez para Minas Gerais. Patrocinado pela Sociedade Brasileira de Belas Artes – como integrante do movimento tradicionalista, que pregava o resgate da arquitetura colonial, o chamado "estilo neocolonial" –, fora estudar as diferentes manifestações da arquitetura brasileira do século dezoito. Embora tenha visitado as principais cidades históricas da região, ao pensar Brasília escolheu Diamantina, justamente a terra natal de Kubitschek, e para a qual, na década de cinqüenta, Niemeyer havia projetado uma escola, um clube e um hotel.[lxxix][lxxix] À cidade, assim se referiu: “lá chegando, caí em cheio no passado no seu sentido mais despojado, mais puro…”[lxxx][lxxx]

     

    A conexão que Costa estabelece com Kubitschek não é fortuita, pois foi por meio da vontade e influência política desse que seu pupilo Niemeyer pôde revelar um excepcional talento para o mundo. Por outro lado, foi Kubitschek quem tornou possível a concretização de Brasília. E Diamantina, sua cidade natal, comparece como o reconhecimento de uma tradição propriamente brasileira, como o contraponto local. Por outro lado, furtou-se a incluir óbvias influências teóricas, como os postulados urbanísticos dos CIAMs, e – omissão que só pode ter sido intencional – Le Corbusier. Ao fazê-lo, valoriza a idéia de uma originalidade nativa (o particular versus o universal) e reafirma o gênio nacional, capaz de – a partir de experiências afetivas e em condições materiais e sociais precárias – dar respostas surpreendentes. Assim como inventou Aleijadinho e Niemeyer, o Brasil inventou Diamantina e, agora, Brasília.

     

    § Paradigmas urbanísticos de Brasília

     

    Nothing is so dangerous as being too modern.

    Oscar Wilde, An Ideal Husband, 1895.

     

    Independente das interpretações de seu autor, o Plano Piloto de Brasília pode ser analisado também no contexto maior do conhecimento urbanístico vigente no segundo pós-guerra.[lxxxi][lxxxi] De fins do século dezenove a meados do século vinte, no ocidente, reflexões e intervenções urbanísticas – muitas vezes de sentido utópico – tiveram como principal objetivo a superação das dificuldades advindas do crescimento exponencial da população citadina pela resolução dos aspectos então considerados problemáticos: a desordem e/ou saturação do tecido urbano, a falta de condições de higiene, os congestionamentos de trânsito etc..

     

    Algumas ações se tornariam exemplares, como a demolição e reconstrução de porções significativas das cidades, com vistas ao seu embelezamento e/ou melhoria de seu sistema viário e saneamento, resultando quase sempre na elevação de valores imobiliários – na linha das obras de Haussmann para Paris (1854-68) e definitivamente florescente a partir do City Beautiful Movement.[lxxxii][lxxxii] No que se refere à ampliação de cidades existentes, além da urbanização de suas áreas adjacentes – como a famosa ensanche de Barcelona (1859), projetada por Cerdá, ou as elegantes extensões de Amsterdã (1913-34), iniciadas por Berlage –, pode-se observar uma tendência à ocupação suburbana com bairros residenciais. Em geral para as classes mais abastadas, tal modo de expansão foi ensaiado inicialmente nos Estados Unidos, em bairros como Llewellyn Park (New Jersey, 1853), Chestnut Hills (Pensilvânia, 1854), Lake Forest (Illinois, 1856) ou Riverside (Illinois, 1865), este último projetado por Olmsted.

     

    Outra alternativa seria a proposição, na tradição renascentista, de novas formas de cidade. Lembrando apenas aquelas de maior repercussão, cabe citar a ciudad lineal – pensada por Soria y Mata para Madrid (1882), adotada por Tony Garnier na cité industrielle (1901) e levada a extremos por Le Corbusier, desde seus estudos para o Rio de Janeiro (1929) até a sua própria cité linéaire industrielle (1944); a garden city – conceito elaborado por Howard a partir das experiências suburbanas americanas e exposto em seu livro To-morrow: A Peaceful Path to Real Reform (1898), e que resultaria nos influentes empreendimentos de Unwin e Parker, como Letchworth (1904), Hampstead (1905-9) e os "bairros jardins" de São Paulo (1917-19); ou, ainda, as "cidades-satélites" – de diferentes origens e intransigentemente defendidas por Hilberseimer em Groszstadt Architektur (1927).[lxxxiii][lxxxiii]

     

    Para o ordenamento do espaço, destaca-se o instrumental do zoning – de origens germânicas e aplicado em Nova York desde 1916 –, voltado para o controle e hierarquização de localizações e atividades no corpo urbano e que iria desembocar no entendimento funcional da cidade, conforme estabelecido pelos CIAMs na Charte d’Athènes (1943). Quanto aos problemas de trânsito (que se exacerbariam com o advento do automóvel), a grande novidade estava nos sistemas metropolitanos de transportes coletivos, elevados ou subterrâneos, sendo pioneiro desses últimos o underground de Londres (1863). Mas não devem ser esquecidas as especulações, mais teóricas do que práticas, sobre a especialização de vias e concomitante separação de pedestres e veículos. Prenunciadas por Olmsted e Vaux no Central Park (Nova York, 1853), propostas em detalhe por Hénard na rue future (1910), e obsessivamente defendidas por Le Corbusier em seus ensaios, tal especialização seria objeto das experiências de Stein e Wright, a partir de Radburn (Fairlawn, NY, 1928-33), aí desenvolvidas em um espírito bem diferente.[lxxxiv][lxxxiv] Já em meados do século vinte, a resolução da circulação com vistas a garantir velocidades mais altas no trânsito passaria a ser entendida como uma contribuição importante para a melhoria das cidades, o que levaria à implantação de grandes infra-estruturas de caráter rodoviário no tecido existente, rompendo com a sua coesão e continuidade. Esse entendimento – na linha dos estudos de Sanders e Rabuck, apresentados no livro New City Patterns (1946) – findou por se tornar uma doutrina que bem pode ser rotulada de "urbanismo rodoviarista".

     

    Em meados da década de 1950, tal acervo de paradigmas era considerado referência e repertório, aceito no plano teórico e legitimamente empregado no desenho dos espaços urbanos. Era moeda corrente nos meios profissionais – como demonstra, no caso brasileiro, o livro de Adalberto Szilard e José de Oliveira Reis, Urbanismo no Rio de Janeiro (1950). Embora começasse então a ser objeto de um novo escrutínio crítico – como nos clássicos L’urbanistica e l’avvenire delle città negli stati europei (Samona, 1959), The Image of the City (Lynch, 1960), Townscape (Cullen, 1961) e The Death and Life of Great American Cities (Jacobs, 1961) –, sua mais completa síntese foi alcançada na concepção do Plano Piloto de Brasília.

     

    Por outro lado, ainda que tenha por parâmetro maior as prescrições de Le Corbusier,[lxxxv][lxxxv] esta cidade linear, modelar do rodoviarismo[lxxxvi][lxxxvi] e da setorização, a ser ampliada somente pela adição de cidades-satélites,[lxxxvii][lxxxvii]beaux-arts deste arsenal funcionalista, como demonstra o seu arcabouço rigidamente simétrico – escolhido sem dúvida para garantir "o desejável caráter monumental" da Capital.[lxxxviii][lxxxviii] não deixava de ser também uma interpretação

     

    Na vida real, a justaposição, bastante conflitante, de rodovias e tecido urbano por meio da implantação de vias expressas e de cruzamentos em viadutos, trevos e trincheiras, resultaria em escavações e aterros, muros de arrimo e taludes, tudo isso maltratando o terreno, criando barreiras e dificultando os percursos, inclusive para os automóveis. A excessiva setorização imporia uma rigidez de localizações e graves limitações tipológicas; por fim, a forma simétrica e contida não se mostraria favorável à articulação do conjunto com seus arredores.

     

    Em uma instância certamente Lucio Costa superou tais handicaps – na superquadra, o elemento mais distintivo e inspirado em termos de organização físico-espacial de Brasília. Mais uma solução com precedentes corbusianos,[lxxxix][lxxxix] o principal modelo da superquadra se encontra na obra do próprio Costa, o Parque Guinle (1948-54) no Rio de Janeiro.[xc][xc] Neste conjunto de três prédios de apartamentos (seis no projeto original), explorou com brilhantismo o uso do pilotis para articular as passagens de veículos e pedestres no andar térreo e ajustar as edificações à declividade do terreno.

     

    Dando continuidade àquela experiência, nas superquadras brasilienses optou por um tipo de separação de circulações bem mais simples do que as vias elevadas – a rua em cul-de-sac, na linha da neighborhood unit[xci][xci] e do superblock de Radburn.[xcii][xcii] E assim pôde evitar justamente aqueles espaços residuais presente nos demais setores do Plano Piloto, inúteis e de desagradável efeito no tecido, e obter uma escala das mais agradáveis. Contudo, ainda que um êxito urbanístico, do ponto de vista social a superquadra continua sendo uma resposta onerosa e elitista, que findou por não ser amplamente aplicada no restante do DF.

     

     

    Em resumo, pode-se descrever o Plano Piloto de Brasília como a sobreposição de diferentes concepções urbanísticas:

     

    * A cidade monumental, organizada a partir de dois eixos principais que definem uma estrutura viária simétrica, e em cujo tecido se distinguem nitidamente os espaços de representação do poder, seja nacional, seja local;

     

    * A cidade rodoviária, estruturada por uma trama regular e hierarquizada de vias especializadas de circulação, que se cruzam em níveis diferentes, articuladas por trevos rodoviários;

     

    * A cidade funcional, com destinações específicas para suas diferentes partes, as quais recebem tratamentos também tipologicamente diferenciados;

     

    * A cidade parque, caracterizada pela predominância de extensas áreas verdes e cujas edificações não obedecem ao regime do parcelamento tradicional em lotes;

     

    * A cidade radiosa, organizada em grandes quarteirões e na qual impera a separação de pedestres e automóveis;

     

    * A cidade central, a ser ampliada pelo acréscimo de novos núcleos distintos, as cidades-satélites.

     

    § Da concepção para o território

     

    Magicamente, a cidade se confunde com o texto e os croquis que lhe deram gênese.

    Sylvia Ficher, Brasílias, 2000.

     

    Em franco contraste com o longo período de gestação da transferência da Capital para o interior, ressalta o curtíssimo prazo de implantação do Plano Piloto. Mesmo considerando-se que a cidade resultou em um artefato com inegáveis correspondências com o risco original (o que facilmente se constata), a transposição da proposta de Lucio Costa do campo das idéias para a realidade do território em meros três anos implicou em alterações – marcantes ou sutis –, fruto de fatores diversos e de responsabilidade de diferentes profissionais. O próprio caráter da participação de Niemeyer e de Costa não poderia ser mais díspar. Enquanto o primeiro se transfere para o planalto central, levando junto todos os seus auxiliares e envolvendo-se diretamente no detalhamento de projetos e nas construções, o segundo irá manter um esquivo distanciamento de sua criação.[xciii][xciii]

     

    Pela sistemática então adotada, ao mesmo tempo em que eram tocadas as obras de infra-estrutura, eram desenvolvidos os projetos de arquitetura e urbanismo. E desenvolvidos por duas equipes diferentes, instaladas a mais de mil quilômetros uma da outra. Aqui, junto ao canteiro de obras, a Divisão de Arquitetura – por algum tempo ainda chefiada por Niemeyer, passando depois para o comando do arquiteto Nauro Esteves[xciv][xciv] – era responsável pelas edificações e por determinados projetos de desenho urbano, como as superquadras. Lá no Rio de Janeiro, a Divisão de Urbanismo – chefiada por Augusto Guimarães Filho, sob a supervisão de Costa –, cuidava do detalhamento do arcabouço geral do Plano Piloto.

     

    Tal separação, em conjunto com tamanha rapidez, ajuda a explicar a relativa escassez de informações sobre o processo e as imprecisões que marcam a historiografia do período. Há lacunas agudas, que envolvem tanto a ordem em que foram feitas alterações no projeto original, quanto os motivos e autoria das mesmas. No que se refere à cronologia das modificações mais substanciais, embora seja exposta segundo uma outra seqüência por vários autores, pesquisa recente[xcv][xcv] indica que – conforme esquematizado na figura * e verificável pela comparação das quatro plantas de conjunto apresentadas na figura * – deram-se na seguinte ordem:

     

    * Deslocamento do conjunto para leste, em direção ao Lago Paranoá;

     

    * Ampliação das áreas de destinação residencial, mediante a criação de mais uma seqüência de quadras a leste (quadras 400) e a oeste (quadras 700) do Eixo Rodoviário;

     

    * Construção de uma rodovia sobre o divisor de águas da sub-bacia hidrográfica do Lago Paranoá, com o objetivo de restringir a sua ocupação urbana (EPCT – DF 001);

     

    * Ampliação da área central da cidade;

     

    * Transferência (com ampliação) das áreas destinadas a residências individuais da margem oeste para as penínsulas e para a margem leste do lago (Setores de Habitações Individuais Sul e Norte – SHIS e SHIN, bairros que ficariam conhecidos como Lago Sul e Lago Norte), e criação de mais um bairro residencial em toda a encosta da margem direita do Córrego Vicente Pires (Setor de Mansões Park Way – SMPW);

     

    * Criação de uma faixa de grandes lotes para uso institucional a leste e a oeste das Asas Sul e Norte (Setores de Grandes Áreas Sul e Norte – SGAS e SGAN), rompendo a linearidade do esquema original;

     

    * Variações introduzidas no detalhamento da Asa Norte, como o traçado, destinação e gabarito das quadras 500 e o acréscimo de uso comercial nas quadras 700 ao longo da via W3.

     

    Quanto às motivações, as primeiras alterações derivaram já das recomendações da própria comissão julgadora do concurso, a qual foi evidentemente capitaneada por Holford. Conforme seu comentário, havia "too much underdetermined land between governmental centre and lake."[xcvi][xcvi] Por conseqüência, o conjunto urbano foi aproximado do lago, o que acarretou na transferência da maior parte dos setores de habitações individuais para a margem oposta.

     

    O contexto político vigente, apenas parcialmente favorável à mudança da Capital, também impôs certas condições para o sucesso da empreitada: a urgência e, portanto, a existência de uma estrutura operacional autônoma; a geração de receitas para a construção, cuja fonte prevista inicialmente seria a venda de terrenos;[xcvii][xcvii] a provisão imediata dos elementos essenciais para o funcionamento da nova Capital e para sua afirmação como cidade-símbolo da nação.

     

    Pouco discutida, outra influência de peso no detalhamento do Plano Piloto foi o seu diálogo com os diversos planos de infra-estrutura então em estudo e/ou implantação, o que exigiu constantes ajustes. Dada a localização de Brasília em região escassamente urbanizada, logo após a divulgação do resultado do concurso teve início a elaboração de planos de abastecimento, de saúde e de educação. Para responder às diretrizes do plano de saúde, que demandava um hospital geral no centro da cidade, foi criado um setor específico ao lado do Setor Comercial Sul, deflagrando o processo de ampliação do centro como um todo. O plano educacional introduziu as “escolas-parque” – uma para cada unidade de vizinhança (quatro superquadras) e localizadas nos espaços inicialmente previstos para escolas secundárias. Por fim, o plano de abastecimento também interferiu na concepção da unidade de vizinhança, ao prever a instalação de um mercado público em cada uma delas.

     

    Devido à rápida construção da cidade, o seu processo de detalhamento pôde contar até mesmo com decisões baseadas no uso que a população residente começava a dar a seus espaços, já antes da sua conclusão. Assim, é possível identificar alterações precoces introduzidas pelos profissionais envolvidos na tarefa – cujo pensamento urbanístico se identificava com o de Lucio Costa e que se consideravam como seus intérpretes – para evitar certas formas de apropriação então consideradas incompatíveis com o "espírito" do Plano Piloto. As mais evidentes são aquelas que dão uma configuração diferente às quadras 500 e 700 da Asa Norte, assim como aos comércios locais de suas superquadras (figuras * e *).

     

    Ainda que nada disto ofusque a capacidade de síntese e força do traço de seu admirável autor – Brasília deve ser entendida como uma criação mais coletiva e menos demiúrgica. É o que sugerem as extensas pesquisas e planos desenvolvidos ainda antes do governo Kubitschek e o grande número de projetos urbanísticos parciais de autoria de outros profissionais, entre os quais se destacam: Nauro Esteves, Maria Elisa Costa,[xcviii][xcviii] Sérgio Porto, Glauco Campelo, Ítalo Campofiorito, Oscar Niemeyer e Jayme Zettel.

     

    § Repercussões

     

    Nem Chandigarh, a metrópole que Nehru encomendou a Le Corbusier para substituir a sede administrativa do Punjab; nem a nova Bagdá, que o Iraque está construindo com recursos que fazem falta à penúria de outras zonas de seu território; nem as somas que Israel mobilizou para improvisar em poucos anos uma Nação; nem o esforço do Japão para recuperar-se urbanisticamente da decapitação atômica de suas cidades; nada logrou repercussão publicitária tão destacada e sensacional em todos os centros do universo como o planejamento e execução de Brasília.

    Osvaldo Orico, Brasil, capital Brasília, 1961.

     

    Enquanto era construída a nova Capital, o Governo Federal desenvolvia um intenso e competente programa de divulgação e propaganda. Além de publicações oficiais ou semi-oficiais – como a revista Brasília,[xcix][xcix] a Coleção Brasília[c][c] ou os livros Quando mudam as capitais (1958), de José Oswaldo Meira Penna, e Brasil, capital Brasília (1961), de Osvaldo Orico (fartamente ilustrado e amplamente distribuído) –, o Ministério de Relações responsabilizou-se pela montagem de exposições sobre o evento. Circulando pela Europa e América Latina (e contando, por vezes, com a presença de Niemeyer), elas mantinham a comunidade profissional informada do que estava ocorrendo no planalto central do Brasil.

     

    Dentre estas ações, aquela de maior relevo foi o Congresso Internacional Extraordinário de Críticos de Arte, realizado entre os dias 17 e 25 de setembro de 1959 – sete meses antes da inauguração da cidade. O evento foi sediado em São Paulo e Rio de Janeiro. O tema principal – “Brasília, cidade-síntese das artes” – foi proposto por seu organizador, o crítico brasileiro Mário Pedrosa, e serviu de pretexto para uma visita para que os participantes pudessem conhecer a grandiosa obra em primeira mão.

     

    A lista de participantes surpreende, tanto pela quantidade, como pela importância dos nomes: Alberto Sartoris, Amâncio Williams, André Bloc, André Chastel, Bruno Zevi, Carola Giedion (arquiteta e esposa do historiador), Charlotte Perriand, Eero e Aline Saarinen, Françoise Choay,[ci][ci] Gillo Dorfles,[cii][cii] Giulio Carlo Argan, Jean Prouvé, Meyer Shapiro, Stamo Papadaki, Tomás Maldonado e William Holford, entre outros.[ciii][ciii] O Brasil estava representado por Lucio Costa, Oscar Niemeyer, Mário Barata, Ítalo e Quirino Campofiorito, Carlos Cavalcanti, Ferreira Gullar, Joaquim Cardoso, José Roberto Teixeira Leite, Fayga Ostrower e Dom Clemente Maria da Silva-Nigra, entre outros.

     

    Na abertura, Lucio Costa deixou a seguinte mensagem: “Discuti, discordai à vontade. Sois críticos, a insatisfação é vosso clima. Mas de uma coisa estou certo – e a vossa presença aqui é testemunha disto – com Brasília se comprova o que vem ocorrendo em vários setores das nossa atividades; já não exportamos apenas café, açúcar, cacau – damos também um pouco de comer à cultura universal.”[civ][civ]

     

    O encontro da intelectualidade artística com Brasília teve grande impacto. Pedrosa lembra que “a maioria dos delegados estrangeiros trazia prontinhas em folha muitas e muitas críticas. Mas essa mesma maioria teve de rearrumá-las, ou alterá-las, na contraditória presença da realidade.”[cv][cv] Entre os pronunciamentos então registrados, em sua maioria elogiosos e ufanistas, destacava-se o de Bruno Zevi. O autor de Saber ver a arquitetura iniciou sua fala perguntando ao público sobre quem deveria criticar: “Dr. Lucio Costa ou Oscar Niemeyer?” Para logo sentenciar: “…os defeitos de Brasília são os defeitos de nossa cultura. Somos responsáveis. Se há alguns defeitos, provêm do fato de Brasília projetar fisicamente problemas que não resolvemos – nenhum de nós – em qualquer parte do mundo.”[cvi][cvi]

     

    Zevi falou em crise. Crise cultural, crise da urbanística, crise da arquitetura. Enfático, afirmou, “a arquitetura moderna acabou.”[cvii][cvii] Sua preocupação tinha fundamento; Brasília havia sido desenhada e estava sendo construída em um momento crucial da história da arquitetura ocidental.

     

    Enquanto era erigido o maior monumento do modernismo, boa parte das teorias que lhe davam sustentação começara a ser questionada. Em 1954, Philip Johnson havia proferido a palestra "The Seven Crutches of Modern Architecture"[cviii][cviii] na formalista Yale University; entre 1955 e 1956, James Stirling apresentava uma reavaliação crítica da obra de Le Corbusier. No front urbanístico, além das obras já acima citadas, em 1962 Aldo van Eyck iria publicar artigo sobre o Team 10; em 1963 Serge Chermayeff iria publicar Community and Privacy; de Christopher Alexander, em 1964 apareceria Notes on the Synthesis of Form[cix][cix] Aldo Rossi (1966), Robert Venturi (1966) e Charles Jencks (1969). As preocupações de tais autores certamente não estavam na pauta de Costa, como ainda hoje não estão na de Niemeyer. e, em 1965, "A city is not a tree". Ainda na década de sessenta, aparecem textos de reavaliação da arquitetura moderna de Christian Norberg-Schulz (1965),

     

    Seja como for, como conseqüência direta do congresso, Brasília entrou imediatamente para o debate arquitetônico e urbanístico internacional. Objeto de incontáveis polêmicas, avaliada positiva e negativamente, desde 1957 já era comentada nas mais importantes revistas especializadas, como Domus (1957), Architectural Record (1958), Architecture d’aujourd’huiCasabella (1958), Architectural Forum (1959), Architectural Review (1959), Progressive Architecture (1959), Werk (1959), L’Architettura (1960) e Journal of the RIBA (1960).[cx][cx] No ano de sua inauguração seria incluída na edição revista da Storia dell’architettura moderna, de Leonardo Benevolo, e o Brasil receberia números especiais da Architecture d’aujourd’hui e da Zodiac; em 1962, era citada no prefácio da nova edição de Space, Time and Architecture, de Sigfried Giedion. (1958),

     

    Brasília havia se tornado, ela mesma, um paradigma. E sua aceitação foi tal que logo influenciava empreendimentos de grande visibilidade, como a Défense (1958), em Paris, e a Empire State Plaza (1965-78),[cxi][cxi] em Albany, NY.

     

    A urbanização do Distrito Federal

     

    Sou solidário com as aspirações do povo, mas nosso relacionamento é cerimonioso.

    Lucio Costa, Registro de uma vivência, 1995.

     

    Uma primeira onda de migração para a área do futuro DF foi desencadeada já com o compromisso assumido por Kubitschek de construir Brasília. Encorajada pela aprovação da mudança e o início das obras, a migração iria se intensificar e em menos de meio século a população do DF alcançaria os mais de dois milhões atuais. Principal indicador do sucesso da interiorização da Capital, tal crescimento demográfico induziu um intenso processo de urbanização que superaria de muito as expectativas iniciais dos planejadores.

     

    § Construindo Brasília: 1956-60

     

    Naqueles primeiros anos, em que Brasília ainda era um grande canteiro de obras administrado pela Novacap, a confiança de Kubitschek no andamento do empreendimento levou-o a abandonar a idéia de uma transferência gradativa, a ser efetivada em quinze anos, e marcar a sua inauguração para o dia 21 de abril de 1960, antes mesmo do fim de seu mandato.[cxii][cxii]

     

    Os dados demográficos para a área da futura cidade são impressionantes. Em janeiro de 1957 havia cerca de 2.500 trabalhadores regularmente contratados – seja pela Novacap, seja por construtoras particulares – e em julho do mesmo ano, 6.283 habitantes (4.600 homens e 1.683 mulheres); censo de maio de 1959 indicava 64.314 habitantes, dos quais 23.834 em Brasília.[cxiii][cxiii] Quanto às origens da nova população, enquanto os servidores públicos e os quadros técnicos eram provenientes, em geral, do Rio de Janeiro, a imensa maioria dos operários vinha do Nordeste, de Minas Gerais e de Goiás, o que iria fazer da diversidade cultural um traço essencial da identidade brasiliense.

     

    Tendo então como principal base de sustentação econômica as atividades ligadas à construção civil, a qual oferecia cerca de 55% dos postos de trabalho, a população "candanga"[cxiv][cxiv] se espalhava por diferentes locais. Os funcionários da Novacap moravam na Candangolândia; os operários propriamente nos alojamentos de suas respectivas construtoras, sempre nas proximidades das obras, como a Vila Planalto, para a Praça dos Três Poderes e o Eixo Monumental, ou a Vila Paranoá, para a barragem do Rio Paranoá. E os migrantes sem emprego fixo iam se acomodando em favelas, aqui chamadas de "invasões", como a Vila Amauri, a Vila Sarah Kubitschek ou a Lonalândia. Dada a ausência de cidades pré-existentes nas proximidades, as demandas de abastecimento, serviços e diversão eram supridas pela Cidade Livre, acampamento que começou a se formar em 1956 e funcionava como o centro articulador do improvisado sistema urbano: "Surge a Cidade Livre,… o maior aglomerado até então, tendo como função básica prover de serviços o restante da população: lojas, feiras, bares, restaurantes, material de construção, enfim, o comércio em geral. Como forma de ‘incentivar’ os que chegavam, além da isenção de impostos, eles recebiam lotes mediante o compromisso de serem devolvidos na data da inauguração do Plano Piloto. Todas as construções, devido ao caráter provisório do núcleo, eram obrigatoriamente de madeira…"[cxv][cxv]

     

    As obras oficiais eram tocadas por uma plêiade de construtoras particulares, contratadas e supervisionadas pela Novacap. Para as edificações residenciais no Plano Piloto[cxvi][cxvi] – cuja demanda seria sempre muito superior à capacidade de oferta e que só fazia aumentar à medida que se aproximava a data da inauguração –, inicialmente a Novacap se valeu dos institutos de previdência de diversas categorias profissionais (como servidores públicos, comerciários, bancários, industriários etc.), então as únicas entidades com experiência na construção habitacional em larga escala no país.[cxvii][cxvii] Porém, sob a pressão dos acontecimentos, a companhia seria forçada a recorrer também a órgãos federais, instituições estatais e até empresas privadas.[cxviii][cxviii]

     

    No que se refere ao custeio do empreendimento, primeiramente foi defendida a tese do autofinanciamento, por meio da venda de cerca de 80.000 lotes para arrecadar uma receita estimada em vinte e quatro bilhões de cruzeiros. Contudo a comercialização de terrenos pela Novacap se tornou um negócio pouco transparente, objeto de denúncias de corrupção.[cxix][cxix] A solução definitiva, altamente inflacionária, foi apelar para os recursos do Tesouro, o qual bancou a maior parte da operação, consumindo de 2 a 3% do PIB do período,[cxx][cxx] algo em torno de duzentos a trezentos bilhões de cruzeiros ou quatrocentos a seiscentos milhões de dólares em valores da época.[cxxi][cxxi]

     

    Porém cifras não iriam empanar a festa. A implantação de boa parte do arcabouço viário do Plano Piloto e a conclusão dos principais palácios dominavam a cena, dividindo opiniões e incendiando a imaginação nacional e internacional. A epopéia de Brasília havia alcançado a sua apoteose. Surpreendendo os mais incrédulos[cxxii][cxxii] – e ainda que muitos prédios oficiais não estivessem prontos e até os poderosos não tivessem onde morar –, a inauguração ocorreu na data prevista.

     

    § Uma nova Capital: 1960-76

     

    Um telefone é muito pouco pra quem ama como louco e mora no Plano Piloto…

    Se a garota que o cara ama mora pra lá do Gama…

    Canção de Renato Matos.

     

    Após a inauguração, as taxas de crescimento demográfico iriam se manter elevadas, devido à paulatina transferência de servidores públicos da velha Capital e à continuada migração. O DF se tornara um pólo de atração para contingentes de todas as regiões do país, de todos os estratos sociais e dos mais diversificados ramos de atividade, de tal modo que em fins de 1960 sua população havia chegado a 141.742 habitantes (68.665 em Brasília) e em 1970 iria superar a marca do meio milhão, com 546.015 habitantes (149.982 em Brasília).[cxxiii][cxxiii]

     

    A obstinação dos migrantes de toda ordem em permanecer em Brasília (em flagrante conflito com o elitismo do programa urbanístico, que estabelecera um teto de meio milhão de habitantes) estava levando à proliferação de favelas. Dada a quase absoluta propriedade do solo pelo Estado, conseqüência das extensas desapropriações iniciadas em 1956, começavam a ser freqüentes os conflitos pela pose da terra.

     

    O permanente agravamento das demandas habitacionais, em conjunção com as disputas fundiárias, faria com que desde 1958 a Novacap – ao invés de estender de modo contínuo o tecido urbano do Plano Piloto, o que não teria sido factível, dado o entendimento, vigente até hoje, de que se tratava de uma "cidade completa", com o desenho de uma figura fechada – adotasse uma política de assentamento em subúrbios dormitórios para as populações de menor renda.[cxxiv][cxxiv] Paralelamente, logo em 1962 era criada a Sociedade de Habitações Econômicas de Brasília, SHEB,[cxxv][cxxv] a qual faria da construção de casas populares e da transferência dos moradores de invasões para esses novos subúrbios a linha mestra da "política habitacional da maioria, senão da totalidade, dos governos do DF…"[cxxvi][cxxvi]

     

    As "cidades-satélites" – fruto da expansão de pequenas vilas preexistentes, como Planaltina (1859) e Brazlândia (1933); da consolidação de acampamentos, como a Cidade Livre, com a denominação de Núcleo Bandeirante (1961); e da criação de novos povoamentos, como Taguatinga (1958), Sobradinho (1959), Gama (1960), Guará (1968) ou Ceilândia (1970)[cxxvii][cxxvii] – foram localizadas segundo uma estratégia que favoreceu a não-ocupação dos arredores do Plano Piloto, justificada por um viés sanitarista de preservação da bacia hidrográfica do Lago Paranoá.[cxxviii][cxxviii]

     

    E assim, além do preenchimento do arcabouço do Plano Piloto, do surgimento de favelas e do incentivo ao crescimento das cidades-satélites, o processo de urbanização incluiu também a definição de um "cordão sanitário"[cxxix][cxxix] de dez a quarenta quilômetros de largura ao redor da gentrificada Capital. Estava configurada uma matriz polinucleada de ocupação do território, caracterizada por aglomerações dispersas, densidades extremamente baixas e forte apartação espacial e social. A porção nobre – Brasília e arredores – havia sido apropriada pelos setores dominantes da máquina estatal e pelos grupos de renda mais alta, funcionando como pólo de oferta de empregos e serviços em torno do qual gravitava uma periferia desprovida de maiores benesses.

     

    § Ordenando o Distrito Federal: 1977-87

     

    À medida que a população se aproximava do milhão de habitantes,[cxxx][cxxx] a mancha urbana também se espraiava para além dos limites do DF, agora em áreas de Goiás e Minas Gerais, no chamado Entorno, sempre com o mesmo padrão de extensos vazios demográficos. Em meados da década de 1970 seriam feitas as primeiras tentativas de ordenamento territorial – cuja necessidade ficara evidente desde a instituição do Governo do DF em 1969[cxxxi][cxxxi] – por meio de propostas de planejamento, nem sempre muito efetivas e tendo como variáveis dominantes saneamento e transportes.[cxxxii][cxxxii]

     

    A primeira da série foi o Plano Estrutural de Organização Territorial (PEOT, 1977).[cxxxiii][cxxxiii] Suas análises deixavam explícito o dilema entre dois objetivos contraditórios: por um lado, a preservação da bacia do Paranoá para o abastecimento de água, o que implicava na interdição de novas ocupações em sua área e resultava, indiretamente, no isolamento do Plano Piloto; por outro, a diminuição dos custos e tempos de deslocamento da população, o que exigiria uma estrutura urbana mais contínua e compacta do que a matriz polinucleada.[cxxxiv][cxxxiv]

     

    A visão sanitarista iria predominar e o PEOT findou por estabelecer um vetor prioritário de expansão afastado da bacia do Paranoá – o quadrante sudoeste do DF –, ainda que recomendasse também a implantação de um sistema de transporte de massa e a alocação de algumas poucas áreas para usos não-residenciais na bacia. O PEOT seria complementado por dois outros estudos: o Plano de Ocupação do Território (POT, 1985)[cxxxv][cxxxv] e o Plano de Ocupação e Uso do Solo (POUSO, 1986).[cxxxvi][cxxxvi] Eminentemente físicos, esses planos estabeleceram as grandes áreas ambientais do DF (naturais, rurais e urbanas) e mantiveram a premissa de preservação da bacia do Paranoá. Contudo, em 1987 seria o próprio Lucio Costa quem iria quebrar o tabu da sua não-ocupação, com o plano Brasília revisitada,[cxxxvii][cxxxvii] no qual propunha a construção de "quadras proletárias" ao longo das principais vias de acesso ao Plano Piloto e a formação de seis novos bairros residenciais. Desses, foi oficializada a Vila Planalto, finalmente legalizando o pitoresco acampamento, e implantado o Setor Sudoeste, localizado acima da Asa Sul; dos demais, o Setor Noroeste, simetricamente localizado na Asa Norte, tem sido objeto de sucessivos projetos.

     

    Enquanto isso, evidenciava-se mais uma peculiaridade da urbanização do DF: seus déficits habitacionais não haviam ficado restritos às camadas menos favorecidas. A acentuada elevação do custo do solo – tanto no Plano Piloto,[cxxxviii][cxxxviii][cxxxix][cxxxix] – causara uma situação de demanda reprimida também para as classes médias e altas. Como decorrência, generalizavam-se as apropriações ilegais de terras públicas – quase sempre em áreas de preservação ambiental altamente desaconselháveis para ocupação –, efetivadas graças a títulos falsos de propriedade imobiliária. Parceladas por empreendedores privados, dariam origem aos condomínios "clandestinos" ou "irregulares", pequenos bairros fechados de casas unifamiliares de padrão elevado, implantados fora dos controles urbanísticos de praxe. O primeiro deles foi o Condomínio Quintas do Alvorada (1977), localizado na bacia do Rio São Bartolomeu, no quadrante nordeste do DF.[cxl][cxl] Daquela época em diante, iriam se multiplicar a uma velocidade vertiginosa, de tal modo que atualmente representam 41% da mancha urbana do DF.[cxli][cxli] nos bairros residenciais do Lago Sul e no Lago Norte, quanto em algumas cidades-satélites, como Taguatinga, Guará e Núcleo Bandeirante

     

    Em meados da década de 1980, a cidade-capital estava consolidada, abrigando a quase totalidade da administração federal. As principais tendências de crescimento estavam firmadas e a área urbanizada havia se estendido significativamente para o Entorno. O complexo urbano do DF, com uma população estimada de 1.392.075 habitantes em 1986 (267.641 em Brasília),[cxlii][cxlii] havia se tornado uma metrópole brasileira típica, apresentando padrões de localização de prestígio, indicadores de qualidade de vida e valores imobiliários decrescentes do centro para a periferia.

     

    § Preservação urbana e autonomia política: 1987 em diante

     

    Com o fim da ditadura em 1985,[cxliii][cxliii] o Brasil entrou em uma fase de profundas alterações institucionais, desencadeadas por um processo constituinte. Concretizando um anseio expresso desde os tempos da inauguração,[cxliv][cxliv] em 1987 Brasília – entendida tão somente como o Plano Piloto – foi inscrita no Patrimônio Cultural da Humanidade da Unesco.[cxlv][cxlv] Tornava-se o primeiro conjunto urbano do século vinte a obter tal distinção.[cxlvi][cxlvi] Com a nova Constituição,[cxlvii][cxlvii] em 1988 o DF adquiriu autonomia política, passando a ter um Governador eleito e uma Câmara Legislativa de representantes, também eleitos, com poderes para estabelecer diretrizes de uso do solo.

     

    Em atendimento à exigência pela Unesco de medidas de proteção, em 1990 Brasília foi tombada pelo Instituto Brasileiro do Patrimônio Cultural, IBPC (atual Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, IPHAN).[cxlviii][cxlviii] A edição de legislações específicas de preservação e a aprovação pela nova Câmara de uma Constituição própria do DF[cxlix][cxlix] – a qual tornou obrigatório a elaboração periódica de Planos Diretores de Ordenamento Territorial, PDOT – fariam de Brasília objeto da ação tanto de órgãos federais como distritais, em uma coabitação nem sempre das mais harmoniosas. Divergências de tal ordem verificavam-se desde a promulgação da Lei Santiago Dantas,[cl][cl] a qual atribuía as deliberações urbanísticas no DF a agentes externos à sua administração.[cli][cli] A ambigüidade e o conflito de objetivos apenas iriam se tornar mais agudos na década de noventa.

     

    O primeiro Plano Diretor de Ordenamento Territorial (1º PDOT, 1992)[clii][clii] manteve a diretriz de ocupação do quadrante sudoeste, agora definitivamente polarizada entre os dois maiores centros – Brasília e Taguatinga. Para atenuar as discrepâncias crescentes entre as cidades-satélites, estabeleceu a exigência de Planos Diretores Locais para cada Região Administrativa do DF, de modo a identificar vocações específicas e indicar medidas de desenvolvimento social e econômico.[cliii][cliii]

     

    Por outro lado, a mesma administração que preparou o 1º PDOT vinha adotando, desde 1989, uma agressiva política de remoção de favelas, o Programa de Assentamento de População de Baixa Renda. De clara orientação populista, esse programa – efetivado pela doação de lotes servidos por infra-estrutura mínima e relegando aos moradores a construção de suas casas ou barracos – promoveria mais um forte espraiamento. Apesar de socialmente progressista, tal política vem sistematicamente desconsiderando determinações consistentes quanto à preservação ambiental e a zonas prioritárias de expansão. As localizações dos novos assentamentos, em conjunção com suas baixas densidades, fazem deles subúrbios dormitórios com características que não incentivam o surgimento de atividades econômicas capazes de gerar um número significativo de empregos locais e só reforçam a segregação espacial já tão marcada no DF. E assim, em apenas quatro anos foram oficializadas mais seis cidades-satélites: Candangolândia, São Sebastião, Samambaia, Santa Maria, Recanto das Emas e Riacho Fundo,[cliv][cliv] consagrando a distribuição graciosa de terrenos como a principal moeda de barganha nos processos eleitorais locais.

     

    Em paralelo, nos últimos oito anos o Governo do DF vêm realizando obras grandiosas de ampliação do sistema de vias expressas por todo o território, as quais induzem não só o espraiamento, como também a ampliação da frota de veículos particulares em circulação.[clv][clv] Neste contexto, uma medida que deverá trazer incomensuráveis alterações para o quadro urbano é a implantação de um sistema de transportes de massa, com quarenta quilômetros de extensão, ligando Brasília a Taguatinga, Ceilândia e Samambaia. Lançado sem maiores estudos quanto a seu impacto no uso do solo nas áreas por ele servidas, sua construção – iniciada em 1991 e com boa parte de sua extensão em funcionamento desde 2001 – está em fase de conclusão.

     

    Com o segundo Plano Diretor de Ordenamento Territorial (2º PDOT, 1997),[clvi][clvi] foi estabelecido um macro-zoneamento que considera o Entorno, ao menos formalmente, como parte da gestão urbana do DF.[clvii][clvii] Além de um novo centro metropolitano, constituído por Taguatinga, Ceilândia e Samambaia (consistente com a política convencional de ocupação do quadrante sudoeste), o 2º PDOT reconheceu os problemas fundiários causados pelos condomínios clandestinos e introduziu uma polêmica diretriz para a sua regularização. Por decorrência, ampliou os perímetros urbanos de Sobradinho e Planaltina (onde estão mais densamente concentrados), facilitando a ocupação dos quadrantes nordeste e sudeste, em desrespeito a todas as diretrizes ambientais anteriores.

     

    Em 2005 teve início a revisão do 2º PDOT, apoiada em estudos demográficos que apontam alterações significativas na dinâmica populacional da cidade e consideram a cifra de 2.580.757 habitantes em 2010. Pelo censo de 1996, o DF tinha 1.821.946 habitantes (257.583 em Brasília);[clviii][clviii] em 2005, a população foi estimada em 2.332.948 habitantes (dos quais 256.064 em Brasília).[clix][clix] Ineditamente, o incremento decorreu mais do crescimento vegetativo do que da migração; simultaneamente, a população experimentou um processo de envelhecimento, de maior intensidade nas áreas mais consolidadas de classe média ou de alto poder aquisitivo.[clx][clx] Estes são fatores a serem considerados na reformulação de políticas públicas de habitação, saúde, educação e geração de empregos.

     

    Mesmo que dando prosseguimento à orientação do plano anterior, a proposta atualmente em estudo introduz algumas inovações relevantes. O novo documento, a ser elaborado até o final de 2006, deverá aprofundar a política de legalização de condomínios clandestinos e de outras situações fundiárias irregulares, carreadas nas inúmeras invasões de terra por grupos de baixa renda. Apesar da forte oposição de movimentos ambientalistas,[clxi][clxi] poderá apresentar diretrizes que contribuam para a consolidação de uma mancha urbana mais densa e contínua. Mais do que em suas versões anteriores, está sendo feito algum esforço – ainda que tímido – no sentido de contemplar a imperiosa necessidade de integrar diretrizes de transporte público e de estruturação urbana.[clxii][clxii] Afinal, pensada como "a cidade para o automóvel", Brasília já vem enfrentando sérios problemas de transito, que só irão se agravar em um futuro próximo.[clxiii][clxiii]

     

    Observando-se a metrópole brasiliense, ficam evidentes os descompassos entre a proposta original, o planejamento territorial e a gestão urbana, de um lado, e a realidade, de outro. A ideologia do projeto do Plano Piloto impôs o polinucleamento da mancha urbana; os planos de ordenamento, baseando-se em seus cânones, pouco fizeram para contemplar a formação de um tecido coeso, servindo no mais das vezes para legalizar situações de fato. Quanto à gestão, é o próprio Governo do DF quem desrespeita as diretrizes que aprova, inclusive construindo obras de infra-estrutura em áreas não prioritárias, como vem de acontecer com a recém-inaugurada terceira ponte do Lago Paranoá (2003), fruto de investimentos vultuosos em um sistema viário que inescapavelmente levará à intensificação da ocupação de uma zona de crescimento controlado.

     

    Brasília Hoje

     

    BSB botou a Bauhaus no baú…

    Canção de Renato Matos.

     

    Diferentemente de outras cidades-capitais construídas no século vinte, como Canberra e Ottawa, Brasília tornou-se uma importante metrópole por si mesma[clxiv][clxiv] e é hoje o coração da Região Integrada do Distrito Federal e Entorno (RIDE).[clxv][clxv] Com 2.948.421 habitantes, trata-se da nona concentração urbana do país e aquela com a mais alta taxa de crescimento demográfico, de 3,41% ao ano.[clxvi][clxvi]

     

    Na verdade, Brasília abarca diferentes universos. A capital, propriamente, concentra as decisões políticas e os recursos financeiros do Estado e está conectada a circuitos locais, nacionais e internacionais de poder. Espaço sofisticado, oferece as mais diversificadas conveniências e uma qualidade de vida excepcional, ao mesmo tempo em que vê o número de seus residentes diminuir a cada ano, de tal modo que abriga pouco mais de um décimo da população metropolitana. A Brasília patrimônio da humanidade – o único complexo urbano de tal envergadura no mundo com características rigorosamente funcionalistas – existe principalmente na imaginação de seus defensores, uma vez que seu tombamento resultou mais na definitiva sacralização do Plano Piloto do que na adoção de medidas conseqüentes de preservação.

     

    A expectativa de que um core planejado induziria uma ocupação ordenada do território – utopia essencial do modernismo – não se verificou. As disposições urbanísticas do Plano Piloto se repetem em suas expansões, porém realizadas de forma apressada e a custos inferiores. Dispersa por uma área várias vezes superior àquela de uma cidade tradicional de igual porte, é uma metrópole que experimenta o crescimento tumultuado das periferias populares com altos índices de migração[clxvii][clxvii] e com as carências típicas de saneamento, pavimentação e iluminação, de serviços de saúde, educação e segurança, de transportes coletivos eficientes e baratos, de equipamentos culturais e de lazer.

     

    Brasília também traz boas notícias. O sítio escolhido por Cruls, Glaziou e Cavalcante de Albuquerque é de uma beleza ímpar, graças à ondulação suave de suas colinas e à "imensidão dos horizontes", à abóbada celeste impressiva e aos nascentes e crepúsculos melodramáticos, à diversidade da flora nativa, tudo isso valorizado pelo Lago Paranoá e por um paisagismo inspirado. A sua relativa juventude, em conjunção com a proximidade do poder e a concentração de recursos,[clxviii][clxviii]hinterland brasileiro, impulsionando um desenvolvimento econômico que se difunde para toda a região centro-oeste e começa a alcançar a região norte. Devido à história da formação da cidade, com sua população miscigenada, compõe um vasto painel da sociedade brasileira, de sua diversidade cultural, de suas contradições e aspirações. oferece oportunidades que atraem ricos e pobres. Até as cidades-satélites, com todas as suas mazelas, oferecem serviços sociais incomparavelmente melhores do que aqueles das demais regiões do país. Por fim, a interiorização da Capital federal foi o principal incentivo para o desenvolvimento do

     

    Bibliografia

     

    Albuquerque, José Pessôa Cavalcanti de. Nova metrópole do Brasil: relatório geral de sua localização. Rio de Janeiro: Imprensa do Exército, 1958.

     

    Alexander, Christopher. A city is not a tree. Architectural Forum, v. 122, no 1, April 1965.

     

    ____. Notes on the Synthesis of Form. Cambridge, MASS.: Harvard University Press, 1964.

     

    Architecture d’aujourd’hui. Brésil, Brasilia, Actualités. Architecture d’aujourd’hui, no 90, número especial, jun. 1960.

     

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    Unesco. Operational guidelines for the implementation of the World Heritage Convention. Paris: Unesco, data*.

     

    Architectural Review (no 131)

     

    Holford – cita Saint-Dié na ata

     

    Papadaki, elogiando o projeto vencedor, comenta: "O plano da nova capital deve apresentar, acima de tudo, a essência de uma entidade – podemos dizer, mesmo, de uma personalidade própria. E essa entidade característica deve ser prontamente reconhecível do alto de um aeroplano, do nível do solo, das estradas, de dentro e de fora, como um todo e como o fragmento de um todo" (p. 22). O concurso para o Plano Piloto de Brasília, Declara

     




     





    * O presente trabalho é um desenvolvimento do artigo de Batista, Ficher, Leitão e França, "Brasília: A Capital in the Hinterland" (in Gordon, 2006, pp. 164-81). A fonte mais conveniente para os antecedentes históricos de Brasília é a Coleção Brasília (Brasil, 1960, 18 v.). Para a história do concurso do Plano Piloto, recomenda-se a exaustiva pesquisa de Tavares (2004); para análises da realidade urbana, os seis livros organizados por Paviani; para legislações urbanísticas do Distrito Federal, os levantamentos dirigidos por Barreto (1996-99); para a arquitetura da cidade, Ficher e Batista (2000). Entre os títulos estrangeiros, lembramos, entre outros, Bacon (1967), Epstein (1973), Espejo (1984), Fils (1988) e Holston (1989), afora inúmeros artigos em periódicos especializados.

    [i][i] Fontana, 2004, p. 50.

    [ii][ii] Em discurso proferido no Parlamento em 1805, Pitt sugeriu algumas localizações e um nome, Nova Lisboa (Brasil, op. cit., v. 1, pp. 34-5).

    [iii][iii] José Bonifácio de Andrada e Silva, o "Patriarca da Independência", era então ministro do Regente Dom Pedro (futuro Imperador Pedro I), foi seu primeiro-ministro após a Independência e seria tutor do futuro Imperador Pedro II durante a 2ª Regência.

    [iv][iv] Apud Brasil, op. cit., v. 1, p. 41.

    [v][v] Posteriormente, José Bonifácio iria sugerir as denominações de Petrópole e Brasília.

    [vi][vi] No panfleto Memorial orgânico (1850), Varnhagen alinha doze razões para a construção de uma nova capital, sugere o nome de Imperatória e – concordando com José Bonifácio – propõe que esteja a 15 ou 16º de latitude; quanto à altitude, propõe que "fique elevada sobre o mar pelo menos 3.000 pés" (apud Brasil, op. cit., v. 1, p. 139). Em 1877 fez uma viagem à então Província de Goiás e publicou seu estudo definitivo, A questão da capital: marítima ou do interior?.

    [vii][vii] Constituição da República dos Estados Unidos do Brasil, de 24 de fevereiro de 1891.

    [viii][viii] Portaria do Ministério dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, de 17 de maio de 1892.

    [ix][ix] Essa área está no Relatório Parcial de 1894, publicado somente em 1896. Suas coordenadas em relação a Greenwich são:

    Latitude S Longitude W

    Vértice NW15º 10’0" 3h 15m 25s

    Vértice NE15º 10’0" 3h9m 25s

    Vértice SE 16º8′ 35" 3h9m 25s

    Vértice SW16º8′ 35" 3h 15m 25s

    [x][x] Cruls, 1894, p. 18.

    [xi][xi] Fazendo de Anápolis, a 155 quilômetros de Brasília, a cidade mais próxima do Quadrilátero Cruls já servida por estrada de ferro (Demosthenes, 1947, pp. 90-1 e 106-7).

    [xii][xii] Ver, por exemplo, Castro (1946), Guimarães (1946), Demosthenes (1947) ou Backheuser (1947-8).

    [xiii][xiii] Demosthenes, op. cit., pp. 13-19, e Brasil, op. cit., v. 3, p. 12. O Triângulo Mineiro era defendido, entre outros, por Juscelino Kubitschek, então Deputado Federal por Minas Gerais.

    [xiv][xiv] Conforme o Art. 4º do Ato das Disposições Transitórias, Constituição dos Estados Unidos do Brasil, de 18 de setembro de 1946.

    [xv][xv] Brasil, op. cit., v. 3, pp. 288-376 e 388-415.

    [xvi][xvi] Comissão de Estudos para a Localização da Nova Capital do Brasil, 1948.

    [xvii][xvii] Lei no 41, de 13 de dezembro de 1947.

    [xviii][xviii] A maior parte das terras foi adquirida de fato com verbas federais, ainda que por meio do Governo de Goiás. Como nem todas as desapropriações foram corretamente registradas, no futuro a questão fundiária iria se complicar sobremaneira, levando à abertura de morosos processos legais.

    [xix][xix] Sobre a contratação de Belcher, ver Mattos, 1957, pp. 3-21.

    [xx][xx] Cavalcanti de Albuquerque foi o idealizador da Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende (RJ), cujo sítio foi por ele escolhido e cujas instalações foram construídas, de 1939 a 1944, segundo suas especificações (Câmara, 1985).

    [xxi][xxi] Governo do Distrito Federal (GDF), 1984, v. 3, pp. 38 e 50-1

    [xxii][xxii] Albuquerque, 1958. Apesar de ter sido publicado em 1958, trata das atividades desenvolvidas até maio de 1956. Sua retórica foi profética: "… faço um apelo a todos os brasileiros, para que reconheçam que se não pode mais adiar a solução deste problema vital, tão angustiante ele se apresenta. Será um dos maiores acontecimentos da história brasileira, porque encerra também a maior oportunidade de uma ressurreição político-econômico-administrativa e, ao mesmo tempo, oferece a oportunidade de abrir as portas da imortalidade ao grande patriota e eminente homem público que concretizar a ciclópica e consagradora obra da construção da terceira metrópole brasileira" (p. 119)

    [xxiii][xxiii] Tavares, 2004, pp. 125-29.

    [xxiv][xxiv] Portinho, 1939. Como se verá adiante, esse plano é particularmente importante como antecedente tanto de Vera Cruz (1955) como do Plano Piloto de Brasília (1957), na medida em que, vinte anos antes, partia de pressupostos semelhantes, como a separação da circulação de veículos e pedestres e soluções habitacionais nos moldes da ville radieuseRevista Municipal de Engenharia, periódico no qual colaboravam José Oliveira Reis e Lucio Costa. Reforçando a suposição, vale lembrar que Carmem Portinho pertencia ao mesmo milieu profissional e era casada com o arquiteto Affonso Eduardo Reidy, colaborador próximo de Lucio Costa e um dos membros originais da Subcomissão de Planejamento Urbanístico da Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital Federal. Sobre a localização que adotou, a autora esclareceu que seguia justamente as indicações que encontrou nos arquivos de Cruls, pertencentes ao acervo do Observatório Nacional (Tavares, op. cit., p. 136). (1935). E pode, facilmente, ter sido do conhecimento de alguns dos envolvidos, uma vez que foi publicado em 1939 na

    [xxv][xxv] Albuquerque, op. cit., p. 114.

    [xxvi][xxvi] Paisagista francês, Auguste François Marie Glaziou (1833-1906) foi o responsável pela remodelação de alguns dos principais jardins do Rio de Janeiro, como o Passeio Público, o Campo de Sant’Ana e a Quinta da Boa Vista (Segawa, 1996, p. 105).

    [xxvii][xxvii] Apud Silva, 1999, pp. 295-96.

    [xxviii][xxviii] Ver Schlee e Ficher, 2006.

    [xxix][xxix] Albuquerque, op. cit., pp. 190-93.

    [xxx][xxx] Idem, p. 191.

    [xxxi][xxxi] Aqui há uma coincidência, fruto provavelmente do interesse em aproveitar uma localização privilegiada: em Vera Cruz, o extremo do promontório do parque é ocupado por um mirante, enquanto que na cidade real aí seria erigido o seu primeiro monumento, o Palácio da Alvorada.

    [xxxii][xxxii] Albuquerque, op. cit., p. 192. Nada a se estranhar, pois Penna Firme e Lacombe eram professores da Faculdade de Arquitetura da Universidade do Brasil e Oliveira Reis tinha vasta experiência no trato das questões urbanísticas do Rio de Janeiro.

    [xxxiii][xxxiii] Idem, pp. 191-92.

    [xxxiv][xxxiv] Costa, 1957, p. 42.

    [xxxv][xxxv] Cavalcanti de Albuquerque refere-se mais de uma vez ao empenho do Presidente Café Filho neste propósito. Por exemplo, em ofício de 1955 expressa seu reconhecimento: "…a Comissão da Localização da Nova Capital Federal prossegue ativamente na sua missão e espera, como tem sucedido até o momento, obter o apoio decidido, patriótico e firme de Vossa Excelência, cuja alta visão de estadista imprimiu ao problema da interiorização da Capital Federal tão acelerado ritmo que jamais poderá ser detido" (Albuquerque, op. cit., p. 19).

    [xxxvi][xxxvi] Idem, p. 76

    [xxxvii][xxxvii] E segue inclusive em nossos dias, inclusive com empreendimentos de vulto, como a cidade de Palmas. Prevista na Constituição de 1988, Palmas – uma nova cidade construída para ser capital de um estado também novo, o Estado do Tocantins – foi projetada pelos arquitetos Luiz Fernando Cruvinel Teixeira e Walfredo Antunes de Oliveira Filho e parcialmente inaugurada em maio de 1990 (Segawa, 1991, p. 94).

    [xxxviii][xxxviii] Leme, 1999, p. 222.

    [xxxix][xxxix] Idem, p. 226.

    [xl][xl] Oliveira, 1975, p. 6.

    [xli][xli] Contido no Quadrilátero Cruls, com cerca de 5.800 quilômetros quadrados e coordenadas em relação a Greenwich:

    Latitude SLongitude W

    Vértice NW15º 30′ 0" 47º 25′ 0"

    Vértice NE15º 30′ 0" 48º 12′ 0"

    Vértice SE 16º3′ 0" talvegue do Rio Descoberto

    Vértice SW16º3′ 0" talvegue do Rio Preto

    [xlii][xlii] Moreira, 1998, p. 61. Com a criação em 1969 do Governo do DF, a Novacap passou a integrar sua estrutura administrativa; do antigo poder sobrou apenas o nome de prestígio e atualmente é o órgão encarregado, entre outras coisas, da manutenção de parques e jardins.

    [xliii][xliii] Apud Niemeyer, 1999, p. 109.

    [xliv][xliv] Ficher e Batista, 2000, p. 80.

    [xlv][xlv] Para formar o Lago Paranoá, um dos principais elementos da fisionomia da cidade.

    [xlvi][xlvi] O hotel foi quase totalmente destruído em um incêndio em 1975 (Idem, p. 83).

    [xlvii][xlvii] Brasil, op. cit., v. 4, p. 56.

    [xlviii][xlviii] Oscar Niemeyer Soares Filho, nascido no Rio de Janeiro em 1907.

    [xlix][xlix] Sobre as relações desses três arquitetos, ver Durand, 1991, pp. 5-26.

    [l][l] Roza, 1956.

  • Albuquerque, op. cit., p. 364. É bem possível que tal correspondência tenha levado à adoção da expressão "plano piloto" ao se tratar do urbanismo de Brasília.

    [lii][lii] Sobre a possibilidade de se convidar Le Corbusier, vale lembrar as polêmicas precedentes sobre a autoria dos projetos do Ministério da Educação (Rio de Janeiro, 1937-43) e das Nações Unidas (Nova York, 1947), que muito provavelmente deixaram descontentes tanto Corbusier como Niemeyer.

    [liii][liii] Idem, pp. 189-90 e 359.

    [liv][liv] Ibidem, p. 364-65.

    [lv][lv] Em 1956, o IAB indicou os seguintes nomes para o júri: Walter Gropius, Richard Neutra, Percy Johnson-Marshall, Max Lock, Alvar Aalto, Clarence Stein, Le Corbusier e Mario Pane (Roza, op. cit.).

    [lvi][lvi] "Edital para o Concurso Nacional do Plano Piloto da Nova Capital do Brasil", Módulo, 1957, p. 9.

    [lvii][lvii] Niemeyer, 1957, p. 12. No que diz respeito à população, a sua ordem de grandeza atendia à Lei no 1.803, de 5 de janeiro de 1953, cujo Art. 1º, § 2º, determinava: "Os estudos serão feitos na base de uma cidade para 500.000 habitantes."

    [lviii][lviii] Ferraz, 1960, p. 52.

    [lix][lix] GDF, 1986.

    [lx][lx] Em um primeiro momento, Niemeyer indicou Maxwell Fry, então Presidente dos CIAMs, e Charles Asher, professor de ciências políticas em Nova York (Bruand, 1981, p. 355).

    [lxi][lxi] Arquiteto grego-americano, autor do primeiro livro sobre a obra de Niemeyer (Papadaki, 1950).

    [lxii][lxii] As duas Atas da Comissão Julgadora do Plano Piloto de Brasília foram publicadas no Diário Oficial da União, a 25 de março de 1957 ("Atas da Comissão Julgadora do Plano Piloto de Brasília", Módulo, 1957, pp. 17-21).

    [lxiii][lxiii] Idem, pp. 19-20.

    [lxiv][lxiv] Ibidem, p. 18.

    [lxv][lxv] Ibidem, pp. 18-19.

    [lxvi][lxvi] "Declarações de membros do júri", Módulo, 1957, pp. 22-28.

    [lxvii][lxvii] A festa ocorreu em estilo nada protocolar. Uma festa mundana e brasileira, em um apartamento no Rio de Janeiro, com muita bebida, “meia dúzia de conhecidas,” Niemeyer, Holford, Sive e Papadaki. Como convidados especiais: o pintor Di Cavalcanti, famoso por seus quadros representado belas mulheres mulatas, e o músico Ari Barroso, compositor do grande sucesso popular "Aquarela do Brasil", verdadeiro hino do país. “Uma festa humana e cordial que só os surrealistas de Paris poderiam ter concebido” (Niemeyer, 1999, p. 126).

    [lxviii][lxviii] Niemeyer, 1961, pp. 12-13.

    [lxix][lxix] Lucio Ribeiro da Costa, nascido em Toulon (França) em 1902, faleceu no Rio de Janeiro em 1998.

    [lxx][lxx] Carlos Leão, Jorge Moreira, Affonso Eduardo Reidy e, posteriormente, Ernani Vasconcellos e Oscar Niemeyer.

    [lxxi][lxxi] Costa, 1957, pp. 33-48.

    [lxxii][lxxii] Com oito faixas divididas por um canteiro central de 200 metros.

    [lxxiii][lxxiii] Composto por três avenidas paralelas, em um total de quatorze faixas de trânsito.

    [lxxiv][lxxiv] Para muitos, a figura resultante deste esquema lembra um avião.

    [lxxv][lxxv] Como se verá, no detalhamento foram criados outros setores residenciais: uma seqüência de quarteirões de casas geminadas econômicas e dois bairros de casas isoladas na outra margem do lago. Sobre a superquadra, ver Ficher, Leitão, Batista e França, "The Residential Building Slab in the Superquadra" (in El-Dahdah, 2005, pp. 49-67).

    [lxxvi][lxxvi] A estrutura mais alta de Brasília é a Torre de Televisão, com 224 metros de altura; as edificações mais altas são as torres gêmeas do Congresso, com vinte e sete pavimentos cada. As disposições de gabarito não foram respeitadas em uma única ocasião: a sede do Banco Central (1976-81), com vinte e um andares.

    [lxxvii][lxxvii] Ver Schlee, 2003, pp. 11-14.

    [lxxviii][lxxviii] Costa, 1995, p. 282.

    [lxxix][lxxix] A Escola Júlia Kubitschek, o Clube Diamantino e o Hotel Tijuco.

    [lxxx][lxxx] Costa, "Diamantina" (in Costa, 1995, p. 27).

    [lxxxi][lxxxi] Ver Ficher e Palazzo, 2005, pp. 49-71.

    [lxxxii][lxxxii] Ou "city of monuments", na feliz expressão de Peter Hall (2002, p. 189), particularmente adequada a Brasília. Após a década de quarenta do século vinte, este tipo de intervenção irá paulatinamente perdendo seu caráter beaux-arts, substituído pela orientação funcionalista, ficando conhecido como urban renewal.

    [lxxxiii][lxxxiii] A menos da preocupação com os transportes, sua exposição é um retrato profético do processo de urbanização do DF: "Esta separação ou dissolução da grande cidade em zonas de trabalho e zonas de residência leva, como conseqüência, à formação do sistema satélite. Ao redor do núcleo da grande cidade, a Cidade central, que no futuro será somente cidade do trabalho, se encontram situados, circularmente e a distâncias suficientes, bairros residenciais fechados em si mesmos, cidades-satélites de população limitada, cuja distância pode ser considerável, com todos os modernos meios de circulação e um sistema adequadamente traçado de trens rápidos. Ainda que possuam independência local, tais bairros residenciais são membros de um corpo comum, permanecem estreitamente unidos ao núcleo central, constituem com ele uma unidade econômica e técnico-administrativa."

    [lxxxiv][lxxxiv] Stein, 1951, pp. 37-73.

    [lxxxv][lxxxv] Para a arquitetura, Le Corbusier preconizava edifícios unifuncionais, isolados entre si e sobre pilotis (liberando o solo para os pedestres), com ossatura independente, fachadas de vidro e coberturas planas; no desenho urbano, a setorização estrita de atividades e a segregação espacial das classes sociais, a especialização das circulações e a separação de veículos e pedestres por meio de viadutos e passarelas, com a conseqüente dissolução da rua-corredor. Para a forma urbana, propunha três tipos de aglomerações: as aldeias agrícolas, as cidades lineares industriais e as cidades radioconcêntricas de negócios, governo, "de pensée et d’art" ("Aux approches d’une synthèse", 1945; in Le Corbusier, c. 1946, pp. 66-8).

    Apenas uma única dessas orientações não foi seguida no Plano Piloto, aquela referente à forma urbana, para a qual Costa preferiu dois ramos de cidade linear, o que teria um caráter industrial nessa linha de divagação. Contudo, as outras formas estavam presentes no concurso: o projeto de Rino Levi tem clara influência da ville radieuse (cf. Le Corbusier, 1935) e o projeto dos irmãos Roberto lembra um agrupamento de unités d’exploitation agricole (cf. Le Corbusier, 1959, p. 73).

    [lxxxvi][lxxxvi] Tal opção, apresentada logo na abertura do Relatório ("E houve o propósito de aplicar os princípios francos da técnica rodoviária – inclusive a eliminação dos cruzamentos – à técnica urbanística…", Costa, 1957, p. 34), respondia ao desejo expresso de Kubitschek de construir uma "cidade para o automóvel."

    [lxxxvii][lxxxvii] Como entendeu Holford, porém para um futuro mais distante: "the town is limited: further growth after 20 years (a) by the peninsulas; (b) by satellites" (Holford, 1957, p. 13)

    [lxxxviii][lxxxviii] Costa, 1957, p. 34; ver também "Conceito de monumentalidade" (1957; in Costa, 1962, p. 281). A preocupação com a monumentalidade já estava presente na adaptação do anteprojeto de Le Corbusier para a Cidade Universitária do Rio de Janeiro (1936) às exigências da Universidade do Brasil, feita por Costa em 1937. Nela, mostra sua preferência por eixos de composição incisivamente expressos e regularidades volumétricas.

    [lxxxix][lxxxix] Como o gratte-ciel cartésien (1935), implantado no centro de um quarteirão circundado por vias para automóveis com cruzamentos em trevos rodoviários (Le Corbusier, c. 1947, pp. 74-7).

    [xc][xc] Costa, 1995, pp. 205-12.

    [xci][xci] Princípio elaborado por Perry e apresentado em livros como Wider Use of the School Plan (1910) e Neighborhood and Community Planning (1929), entre as suas prescrições estão o dimensionamento de novos bairros em função das distâncias a pé entre habitações e escola primária (600 metros) e o isolamento do tráfego de passagem, de modo a evitar "the automobile menace" (Perry, 1929, p. 31).

    [xcii][xcii] Desenvolvida por Stein e Wright, caracteriza-se pela separação estrita de pedestres e veículos por meio de passarelas; sua morfologia é composta por grupos de casas geminadas ou semi-geminadas distribuídos em torno de culs-de-sac, de modo a liberar grandes áreas de jardins no interior dos quarteirões, os inner parks (Stein, op. cit., pp. 37-73).

    [xciii][xciii] Em suas próprias palavras: "No memorial do plano piloto eu digo: não pretendo participar do desenvolvimento do plano, senão em caráter consultivo. Porque me conhecendo – eu sou arquiteto e tenho noção de proporção – eu sabia que não teria condições, por feitio meu, de estar acompanhando isso" (Costa, "Entrevista ao Jornal do Brasil"; apud Costa e Lima, 1985, p. 20).

    [xciv][xciv] Garcia, 2005.

    [xcv][xcv] Leitão, 2003.

    [xcvi][xcvi] Holford, op. cit., p. 13.

    [xcvii][xcvii] A simples comparação das plantas A e B da figura * revela o aumento da quantidade de lotes comercializáveis.

    [xcviii][xcviii] Filha de Lucio Costa, arquiteta formada em 1958 pela Faculdade Nacional de Arquitetura da Universidade do Brasil, Rio de Janeiro.

    [xcix][xcix] Publicação mensal da Novacap, dirigida pelo jornalista Nonato Silva, segundo o qual a revista "nasceu por força de lei. A de número 2.874, de 19 de setembro de 1956, que autorizou a mudança da capital federal, a construção de Brasília e a criação da Novacap. A lei mandava que a Novacap divulgasse mensalmente seus atos administrativos. Quatro meses depois, em janeiro de 1957 surgia o seu primeiro número” (Freitas, 2006, p. 32).

    [c][c] Com 18 volumes e publicada em 1960 pelo Serviço de Documentação da Presidência da República.

    [ci][ci] Choay, 1959, pp. 76-83.

    [cii][cii] Dorfles, 1959, p. 19.

    [ciii][ciii] Listagem apresentada no documento "Relação de Membros" (Associação Internacional de Críticos de Arte, Doc. 27-P, 1959). Orico acrescenta à lista os nomes de Alvar Aalto, Richard Neutra e Sigfried Giedion.

    [civ][civ] Costa, "Saudação aos críticos de arte" (1959; in Costa, 1995, p. 299).

    [cv][cv] Pedrosa, 1981, p. 366.

    [cvi][cvi] Apud Pedrosa, op. cit, p. 370.

    [cvii][cvii] Zevi, "A dimensão das estruturas urbanísticas" (1959).

    [cviii][cviii] In Johnson, 1979.

    [cix][cix] In Norberg-Schulz, 1977.

    [cx][cx] Para um levantamento mais completo de publicações estrangeiras sobre Brasília, ver Bruand, 1981, pp. 389-97.

    [cxi][cxi] Ideada pela Governador Nelson A. Rockefeller, a Empire State Plaza foi projetada por Wallace K. Harrison e Max Abramovitz. Harrison era amigo de longa data da família do governador, tendo participado do projeto do Rockefeller Center e tido, coincidentemente, atuação destacada no projeto da Organização das Nações Unidas, em 1947.

    [cxii][cxii] Lei no 3.273, de 1 de outubro de 1957.

    [cxiii][cxiii] Brasil, op. cit., v. 4, pp. 54 e 243, e GDF, 1984, v. 1, p. 10. Não foram encontrados dados sobre a população preexistente à oficialização dos limites do DF. No presente trabalho, os números sobre Brasília se referem sempre à soma da população do core planejado e dos bairros do Lago Sul e Lago Norte.

    [cxiv][cxiv] A denominação popular dada àqueles que vieram trabalhar na construção de Brasília e, por extensão, àqueles aí nascidos, é uma palavra de origem quilombo que significa "indivíduo desprezível, abjeto, destituído de bom gosto" (Dicionário eletrônico Houaiss, 2001).

    [cxv][cxv] Ribeiro, 1982, p. 116. A Cidade Livre não perderia sua importância após a inauguração, uma vez que até o Plano Piloto continuou a depender de seu comércio ainda por muitos anos (Pescatori, 2002, p. 1).

    [cxvi][cxvi] A diversificação sócio-econômica dos moradores do Plano Piloto havia sido uma preocupação de Costa; no Relatório recomendava que "cabe à Companhia Urbanizadora prover dentro do esquema proposto acomodações decentes e econômicas para a totalidade da população" (Costa, 1957, p. 44).

    [cxvii][cxvii] França, 2001, pp. 5-7. Sua participação permitiu que o Governo Federal resgatasse as dívidas que elas tinham junto ao erário público (Tamanini, 1994, p. 197).

    [cxviii][cxviii] França, op. cit., pp. 8 e ss.

    [cxix][cxix] Moreira, op. cit., pp. 104 e ss.

    [cxx][cxx] Lafer, 1970, p. 210.

    [cxxi][cxxi] Dada a forte depreciação do cruzeiro em relação ao dólar por todo o período, há grandes divergências sobre tais cômputos. Ver Mindlin (1961) e Vaitsman (1968).

    [cxxii][cxxii] Como Norma Evenson. Imbuída de preconceitos simplórios sobre o Brasil – possíveis somente em alguém que não se dá conta de como os brasileiros pegam no pesado e do grau de competência administrativa e de dedicação ao trabalho exigido na organização do desfile de uma única escola de samba no Carnaval carioca, a qual movimenta 3.000 a 6.000 mil pessoas de forma precisa e em apenas setenta minutos rigorosamente cronometrados –, desconsiderando precedentes respeitáveis, como Belo Horizonte e Goiânia, essa autora sentiu-se autorizada para afirmar que "The creation of Brasília represented a triumph of administration in a country never noted for efficient administration; it represented adherence to a time schedule in a society where schedules are seldom met; and it represented continuous hard work from a people reputedly reluctant to work either hard or continuously" (1973, p. 155).

    [cxxiii][cxxiii] GDF, 1984, v.1, p. 10.

    [cxxiv][cxxiv] Decisão criticada, anos depois, por Lucio Costa: "O crescimento da cidade é que ocorreu de forma anômala. Houve a inversão que todos conhecem, porque o plano estabelecido era para que Brasília se mantivesse dentro dos limites para os quais foi planejada, de 500 a 700 mil habitantes. Ao aproximar-se destes limites, então, é que seriam planejadas as cidades-satélites, para que estas se expandissem ordenadamente, racionalmente projetadas, arquitetonicamente definidas" (apud Tamanini, op. cit., p. 440).

    [cxxv][cxxv] Posterior Sociedade de Habitações de Interesse Social, SHIS (1966), Instituto de Desenvolvimento Habitacional, IDHAB (1989) e, desde 1999, Secretaria de Desenvolvimento Urbano e Habitação, SDUH (Vieira, 2002).

    [cxxvi][cxxvi] Pescatori, op. cit., p. 3. Uma tentativa de rever tal filosofia foi a organização, em 1983, do Grupo Executivo para Assentamento de Favelas e Invasões, Gepafi, com uma orientação bem mais comprometida com prioridades comunitárias; contudo, apesar de sua intensa atuação, foi extinto em 1985.

    [cxxvii][cxxvii] Implantada pela Campanha de Erradicação de Invasões, cuja sigla, CEI, explica a sua denominação.

    [cxxviii][cxxviii] Viés não mais abandonado, como mostra, por exemplo, o Plano Diretor de Água, Esgoto e Controle de Poluição (Planidro), que recomendava a adoção de um limiar populacional para a bacia (GDF, 1970).

    [cxxix][cxxix] Ou, como dizia Le Corbusier, "uma zona não edificável de proteção" (1925, p. 181).

    [cxxx][cxxx] 937.600 habitantes (228.141 em Brasília) em 1976; 1.002.988 habitantes (228.386 em Brasília) em 1978; e 1.176.748 habitantes (275.087 em Brasília) em 1980 (GDF, 1984, v. 1, p. 10).

    [cxxxi][cxxxi] Sob a direção não mais de um Prefeito, mas de um Governador designado pela Presidência da República.

    [cxxxii][cxxxii] Batista, “The view from Brazil” (in Galantay, 1987, pp. 355-64).

    [cxxxiii][cxxxiii] Brasil, 1977. O PEOT teve por base alguns estudos anteriores (GDF, 1976).

    [cxxxiv][cxxxiv] Batista, "Problemas e respostas de uma metrópole emergente" (in Paviani, 1987, pp. 208-20).

    [cxxxv][cxxxv] GDF, 1985.

    [cxxxvi][cxxxvi] GDF, 1986.

    [cxxxvii][cxxxvii] Costa, 1987.

    [cxxxviii][cxxxviii] Um dos fatores da extrema valorização foi a retenção de terrenos destinados a prédios de apartamentos na Asa Norte por sua proprietária majoritária, a Universidade de Brasília, o que retardou por décadas a ocupação de cerca de um quinto da área total disponível para ocupação residencial nas superquadras e introduziu uma forte assimetria no Plano Piloto.

    [cxxxix][cxxxix] Dadas as menores restrições de zoneamento, estas cidades cedo adquiriram peso na dinâmica econômica do DF e começaram a perder suas peculiaridades de guetos de baixa renda.

    [cxl][cxl] Malagutti, 1996, p. 74.

    [cxli][cxli] Segundo o geógrafo Rafael Sanzio, na década de 1990 a área urbanizada do DF passou de 40 mil para 72 mil hectares, devido principalmente à proliferação de condomínios (Nossa, "Brasília, do planejamento ao toque de recolher", 2002, p. C3). Hoje, na gestão do Governador Joaquim Roriz (1999-2006), constituem a mais grave questão política e jurídica do DF, tendo há muito alcançado as páginas policiais dos jornais.

    [cxlii][cxlii] GDF, 1996, p. 121.

    [cxliii][cxliii] A administração militar (1964-1985) foi essencial para a irreversibilidade da transferência da Capital, em um claro "efeito Versalhes".

    [cxliv][cxliv] Ainda antes da inauguração, Niemeyer havia apontado a necessidade de legislações que preservassem o Plano Piloto em todos os seu pormenores (Niemeyer, 1960, p. 518).

    [cxlv][cxlv] Graças à pressão exercida junto àquele organismo por um setor da inteligência brasileira – liderado pelo então Governador José Aparecido (1985-1988) –, temeroso de que a redemocratização acarretasse alterações no projeto de Lucio Costa.

    [cxlvi][cxlvi] Para um determinado monumento ser considerado patrimônio cultural da humanidade, deve haver a concordância do Estado-membro em cujo território está situado. O bem deve ser enquadrado em, pelo menos, um dos critérios estabelecidos pelo Comitê do Patrimônio Mundial. No caso de Brasília, foram obedecidos os critérios I (representar uma obra notável do gênio criativo humano) e IV (ser exemplo destacado de um tipo de construção ou de conjunto arquitetônico, tecnológico ou paisagístico que ilustre uma ou mais etapas significativas da história da humanidade; Unesco, Operational guidelines for the implementation of the World Heritage Convention.

    [cxlvii][cxlvii] Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de outubro de 1988.

    [cxlviii][cxlviii] Portaria Regulamentadora no 04/90, posteriormente alterada pela Portaria Regulamentadora no 314/92.

    [cxlix][cxlix] Lei Orgânica do Distrito Federal, de 8 de junho de 1993.

    [cl][cl] A Lei no 3.751, de 13 de abril de 1960, que dispunha sobre a administração do DF, introduziu uma visão estática do Plano Piloto, como algo a ser mantido sem alterações, postura reforçada na seqüência pelo regime autoritário.

    [cli][cli] Primeiramente a uma comissão específica do Senado e, já no âmbito do GDF, ao Conselho de Arquitetura e Urbanismo (CAU), posterior Conselho de Arquitetura, Urbanismo e Meio-Ambiente (CAUMA), cuja composição sempre esteve longe de ser representativa da comunidade. Atualmente, as questões patrimoniais são da competência do Conselho de Gestão da Área de Preservação de Brasília, Conpresb.

    [clii][clii] Lei no 353, de 18 de novembro de 1992, e GDF, 1992.

    [cliii][cliii] Até o presente, das 28 regiões administrativas, Sobradinho, Candangolândia, Taguatinga, Samambaia e Ceilândia tiveram seus planos locais aprovados e Gama, Planaltina e Guará aguardam aprovação pela Câmara Legislativa.

    [cliv][cliv] A Candangolândia corresponde à ampliação do antigo acampamento da Novacap; Samambaia começou a ser implantada em 1983; São Sebastião resultou da urbanização de uma colônia agrícola; as demais são inteiramente novas.

    [clv][clv] Batista, "Brasília, pessoas ou carros?" (in Ribas, 2005, pp. 93-108.

    [clvi][clvi] Lei Complementar no 17, de 28 de janeiro de 1997, e GDF, 1997.

    [clvii][clvii] Suas determinações, contudo, não vêm sendo muito respeitadas e algumas áreas consideradas de uso rural remanescente já estão urbanizadas.

    [clviii][clviii] GDF, 2001, p. 7.

    [clix][clix] GDF, 2005, p.15.

    [clx][clx] Tal processo deverá se acentuar no futuro. O índice de 19 idosos, com mais de 65 anos de idade, para cada 100 jovens, registrado no ano 2000, deverá passar para 79 em cada 100 em 2030.

    [clxi][clxi] Alguns grupos ambientalistas propõem o congelamento da ampliação da mancha urbana do DF. Segundo eles, toda e qualquer expansão deveria ser deslocada e ocorrer somente no Entorno.

    [clxii][clxii] Ver o documento Projeto de lei complementar: proposta preliminar (GDF, 2006).

    [clxiii][clxiii] Batista, 2005

    [clxiv][clxiv] Uma hipótese que poderia ajudar a explicar tal fato diz respeito à escolha do sítio. Enquanto a localização daquelas cidades foi decidida em disputas acirradas entre importantes metrópoles – no caso australiano, Sidney e Melbourne; no caso canadense, Toronto e Montreal –, a localização de Brasília no centro-oeste do Brasil resultou de uma decisão de longo termo que evitou maiores disputas regionais. Como conseqüência, a cidade foi construída em uma região pouco ocupada e bastante distante do raio de influência das duas maiores metrópoles brasileiras, São Paulo e Rio de Janeiro.

    [clxv][clxv] Instituída pela Lei Complementar no 94, de 19 de fevereiro de 1998, é constituída pelo DF, 19 municípios de Goiás e 3 de Minas Gerais.

    [clxvi][clxvi] IBGE, Censo Demográfico de 2000.

    [clxvii][clxvii] Desde fins da década de oitenta, o DF é a região do país que recebe, relativamente, o maior número de migrantes.

    [clxviii][clxviii] Pelo Censo de 2000, a renda per capita do DF é a mais alta do país (R$ 14.405) e a participação do DF no PIB nacional passou, entre 1985 e 2000, de 1,37% para 2,69%. Mas não se deve esquecer que tal desempenho inclui o orçamento do Governo Federal, cujos gastos representam quase 60% do PIB do DF.

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    Brasília estranha

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    Brasília estranha
    Por Mara Bergamaschi
     
    Madrugada. O vôo atrasara muito. Não foi fácil deixar os confins de Belo Horizonte. Do Novo Destino soprava uma brisa desconhecida, mas fria e fina, aguda o suficiente para insinuar-se entre os ossos. Depois da friagem, o silêncio. Normal: madrugada. Logo, no táxi, a paisagem: árvore-árvore-árvore, prédio-prédio-prédio, baixos e simétricos, escondidos pelo verde e geometricamente dispostos, a perder de vista, ao longo da autopista de asfalto macio.
    – Moço, quando começa a cidade?
    – Já passou a metade.
    Não achou graça. Nada daquele imenso campus universitário – a melhor descrição que lhe vinha à mente – constava da coleção de cartões-postais do Novo Destino que carregara consigo na infância. Se não estivessem agora apenas ao alcance da memória, repassaria um a um, como fizera cem mil vezes dos cinco aos seis anos, instalada dentro do guarda-roupa, seu posto secreto para conhecimento avançado e iletrado do mundo.
    Antes que se perdesse conferindo mentalmente a antiga coleção de imagens, voltou ao presente, recorrendo a informações adultas e não figuradas: claro, as superquadras. Que deviam estar ainda em construção quando o irmão mais velho visitou, em excursão de formatura do colégio dos padres, a recém-inaugurada Brasília. Na volta, trouxe algumas fotos de rapazes magricelas de terno e cabelo dos Beatles – pequenas, em preto e branco, desinteressantes -, e vários postais coloridos de palácios e esculturas sem igual, emoldurados por céus de luzes magníficas, no nascer ou no pôr-do-sol.
    Lugares incríveis, julgou a irmã que, em estado de mais pura imaginação, apossou-se dos cartões.
    Como as superquadras da Asa Sul, homogeneamente bucólicas e ordeiras, não eram parte de sua memória imaginativa, a primeira visão real de Brasília aproximou-se do anticlímax. Mas o Novo Destino mal havia começado a revelar-se. Na manhã seguinte, ao pular direto da cama para a sacada do hotel, foi brindada com a visão de um redemoinho de poeira vermelha que subia suavemente no imenso terreno baldio. Há 20 anos, daquela área do Setor Hoteleiro Sul, a terra nua ainda dominava a vista. Lá longe, apenas os fundos do Conjunto Nacional. Impossível, para quem chegasse de qualquer grande cidade brasileira, não sentir, antes do primeiro café no Novo Destino, uma ponta de desalento. Ao primeiro contato, a cidade mostrava-se mais inóspita do que bela. Mas nada que pudesse abalar o entusiasmo de uma jovem jornalista para trabalhar, a convite de um grande jornal, no coração político do país. Ainda mais quando havia nutrido uma paixonite infantil – depois esquecida – pela cidade erguida no Planalto Central.
    Na verdade, nunca sonhou em morar ali. Ao escolher a profissão, a distante capital federal passou a ser vista como um lugar importante, mas não exatamente desejável, de aprimoramento profissional. Quando se mudou, na reta final da Assembléia Constituinte, planejava ter uma experiência de dois anos. Foi somente na madrugada da chegada que reviveu intensa e detalhadamente as lembranças de seu encantamento com Brasília. Sequer nesse momento pensou na palavra predestinação. Não sabia ainda que os dois esperados anos de trabalho virariam onze – de trabalho, casa, marido, filhos, gato, cachorro, peixe, periquito. No começo, o Novo Destino era somente uma escolha racional, adequada e previsível.
    A surpresa era que suas expectativas não se confirmavam, ou melhor, confirmavam-se, mas de forma diferente. Estava lá, visível desde os primeiros dias, a exuberância da arquitetura e das linhas urbanas, mas, antes do traçado humano, impunham-se a geografia e a natureza. O tempo todo a vastidão do céu limpidamente azul, baixo sobre a cabeça, mais baixo do que qualquer outro. Por outro lado a terra vermelha sempre exposta ou insuficientemente protegida pela vegetação rala, sem porte, desbotada. Então, quando se postou, diminuta, na frente dos Dois Candangos, na Praça dos Três Poderes, já entendia que somente seres como aqueles, de pernas longuíssimas, seriam capazes de vencer com os próprios passos as distâncias do lugar. Não eram alienígenas: eram apenas a representação do brasiliense se dependesse do próprio caminhar – e não de veículos. E quando se aproximou, ainda na praça, do laguinho artificial atrás do Congresso, já conhecia o novo valor da água – não apenas líquido essencial, mas ar primordial. A baixíssima umidade já fizera sua cabeça rodar, o nariz sangrar, a boca e os olhos arderem. A devoção à primeira chuva conheceria depois: livrai-me, senhor, do ar rarefeito, repetiria, pagã, no breve ritual de descer do carro, abrir uma janela ou sair de onde estivesse para sentir no rosto e nas mãos os primeiros pingos depois de seis meses de seca. E testemunharia a vida ressuscitar: em minutos, a grama torrada, que ardera em chamas por toda a cidade, explodia em brotos verdes.
    As lições de Brasília eram – e permanecem – desconcertantes. A filosofia já ensinara que temos dificuldade com o tempo. Quando o evocamos, quem responde ao chamado é o espaço. Mas como ocupar/driblar/esquecer/vencer o tempo quando o espaço é uma sucessão de vazios? Como distrair/abstrair o tempo, se o seu Guardião, o cavalo azul derruído pela morte eterna, mas ainda iridescente e emplumado (estampa que recortara de cartões da Unicef), posta-se com suas patas de nuvens nos ermos pontos cardeais da cidade? Pégaso fantasmagórico, o Guardião do Tempo, em espetacular vôo rasante, descortinaria, pra lá da Rosa dos Ventos, os portais do Setor de Áreas Isoladas. Quando leu aquele endereço, pleonasmo maior do lugar, na placa de concreto, depois do Palácio do Buriti, nos confins do Eixo Monumental, não teve mais dúvidas. Se lhe perguntassem agora o que era Brasília, responderia: meu amigo, minha amiga, Brasília é um encontro ao ar livre com a solidão.
     
    Era isso: quase 30 anos após JK ter bradado a posse da vastidão do Planalto Central, de Lucio Costa riscar o sinal da cruz no meio do nada, ela, a “solidão sem mágoa” – aquela que Vinicius de Moraes e Tom Jobim encontraram nos capões do Catetinho quando compunham para a cidade em construção a Sinfonia da Alvorada – apresentava-se aos que ainda empreendiam a Marcha para o Oeste. Persistia a sensação de estranheza, a mesma que perturbou o cosmonauta-pioneiro Yuri Gagarin quando visitou a recém-inaugurada capital. Ao ver as formas brancas e surpreendentes de Niemeyer flutuando na planície descampada, sobre a vermelhidão do solo e contra o céu límpido, Gagarin, o homem que proferiu a inesquecível frase “a terra é azul”, não reconheceu Brasília como território humano. “A idéia que tenho é que estou desembarcando num planeta diferente, que não a terra”, definiria, daquela vez.
    Como, décadas depois, os forasteiros reagiam ao cumprimento dessa mão que não era mais do que aragem fria? Na cidade que continuava estranha, reações também estranhas. Pode um jovem, uma jovem, gostar da desolação? Sim, pode. Os vazios, meu amigo, confortam: calam a mente, pacificam o coração. Mudam o foco da visão, do exterior para o interior. Poucos sabem, poucos talvez acreditem, mas Brasília tem efeito zen-budista. Relaxa, com seus horizontes abertos, até os que chegam como arautos contemporâneos do Destino Manifesto, dispostos a cumprir grandes metas.
    Manifesta ainda é a natureza. Nessa cidade, o canto das cigarras ribomba, meses a fio, de tardinha, nos bosques das entrequadras. Sabe o que é escrever as notícias do dia seguinte (quando era assim) com uma trilha sonora dessas na cabeça? E de manhã corujas várias – brancas, escuras, cor de caramelo, grandes, pequenas – procuram  com seus olhos arregalados buracos nos terrenos. Todo dia podem ser vistos também maritacas, tucanos, pica-paus e beija-flores, estes sempre dispostos a se perderem dentro de casa, junto com grilos e libélulas. Passam ainda pelos quintais gambás, tatus e besouros-cascudos-gigantes. E alguém imagina que na capital federal, antes de se chegar a um poço de águas límpidas, num parque aberto ao público no Plano Piloto, pode-se ouvir, bem ao lado das trilhas, o som do autêntico chocalho de cascavel? Antes do mergulho, o frio na barriga: será que as cobras também gostam de água mineral?
    E quem já pensou que, para se fazer um piquenique num Jardim Botânico, é preciso atravessar de carro uma longa picada no meio do cerrado de árvores tortuosas, mais tenebroso para criancinhas do que a floresta de Chapeuzinho Vermelho e de João e Maria? E sabia que há milhares de pés de mangas, ameixas e jacas espalhados pelos canteiros dos eixos rodoviários? E que, na época das frutas, há um cheiro doce no ar? E que há um buritizal atrás do aeroporto? E que raios cegam, trovões explodem e o vento ruge, arrancando telhas e vergando árvores, nas tempestades noturnas no Planalto? E que toda madrugada, não importa a estação, faz um leve frio?
    Não. Os que estão longe não sabem nada disso. Nem imaginam também que a amizade brote entre forasteiros confinados no deserto. Os que aqui chegaram e ficaram logo percebem que as “solidões sem mágoa” acalmam, mas com o tempo também desamparam. Há limites: depois de horas a céu aberto, cortando a cidade sobre rodas, muitas vezes sem ver viva alma, é preciso recolher-se entre quatro paredes, proteger-se sob um teto. Em casa, somos menos vulneráveis. Para sermos quase fortes, visitemo-nos. Juntos, façamos uma comida e quebremos, com nossas vozes e risos, o silêncio que ronda nossas moradias, isoladas, por concepção, do movimento dos carros e do comércio. Visitemo-nos: sejamos nós, amazonenses-goianos-pernambucanos-mineiros-acreanos-paulistas-gaúchos-cearenses-catarinenses-cariocas-baianos, etc., amigos nesta terra de todos e de ninguém.
    E quando sairmos à noite para ver a lua nascer espetacularmente sobre o Lago Paranoá, imensa e dourada, a mais bela lua do mundo, lembremo-nos dos Dois Candangos, que agora somos: ao ar livre, na brisa fria, devemos dar-nos os braços, fraternalmente. E esperar pela redentora saudação lunar, aquela que nos colocará em segurança no nosso lugar (esqueçamos Gagarin). Na voz de todos os sotaques, ressoará no altiplano: boa noite, terráqueos!
     
    Em Brasília, acreditem, há natureza e arte, há solidão e amizade. A maioria não sabe nada disso. Por quê? Porque os brasileiros não conhecem sua capital. Há muito – ou talvez desde o começo – a parte substituiu o todo: Brasília reduziu-se à Esplanada dos Ministérios e à Praça dos Três Poderes. E esse território simbólico da política nacional, pantanoso e fétido, é alvo de desprezo e ódio. Os brasileiros, meu amigo, não amam sua capital. Alguns dizem que o objetivo era esse mesmo: a construção do novo Distrito Federal no Centro-Oeste, com seu traçado antimultidão, serviu justamente para isolar e blindar o poder.
    Na contramão dessa tese, a história recente mostra que, quando a política chega ao ultraje, os brasilienses tem sido os primeiros a mostrar nas ruas sem esquinas sua cara e coragem. Foi assim no auge da ditadura militar, quando a UnB foi invadida várias vezes, ou no estado de emergência do general Figueiredo. Reconquistado o poder civil, foi o povo de Brasília que literalmente incendiou a entrada da Esplanada, naquilo que ficou conhecido como “badernaço” contra a farsa do Cruzado. Também foram os candangos que aderiram maciçamente ao “domingo negro”, que resultou no impeachment do primeiro presidente eleito em 20 anos. E entraram também na onda eleitoral vermelha, elegendo um governador de esquerda. Deparam-se agora, depois de invadirem com fúria o plenário da Câmara Distrital, com outro grande desafio: ter persistência para vencer, na democracia, a megacrise do poder local, flagrado nas repartições públicas guardando dinheiro vivo em ternos, meias e bolsas de fina estampa.
    Para fazer justiça aos brasilienses é preciso ainda lembrar algo que deveria ser prosaico, mas é inusitado no Brasil: os motoristas do Distrito Federal devem ser os únicos nativos que obedecem e param nas faixas destinadas aos pedestres. Parece pouco? Mas é um passo grande para a cidade dominada pelos automóveis. Quer ter mais uma surpresa? Fora do servilismo dos palácios, em Brasília há relações democráticas. Única capital do país construída pelo trabalho livre de 60 mil operários, a cidade, meu amigo, preza a democracia. Sabe que, na falta dela, será a primeira a sofrer na pele as conseqüências: os Urutus bloqueiam em minutos as largas avenidas. O que certamente lhe falta é a companhia solidária dos demais brasileiros. É preciso que os Estados marchem sobre Brasília. Que se façam presentes, especialmente quando tudo vai muito mal, para cobrar e exigir de seus representantes lá instalados pelo menos o respeito aos votos a eles concedidos.
    Que estejam lá também nos bons momentos. Para conhecer a beleza de sua capital, reconhecida pelos gringos já há duas décadas como patrimônio da humanidade por seu conjunto de urbanismo, arquitetura e arte moderna. Que aproveitem o museu aberto que é Brasília – não só da obra de Oscar Niemeyer e Lucio Costa, mas também de Alfredo Ceschiatti, Athos Bulcão, Cândido Portinari, Burle Marx e tantos outros talentos. Que possam saber que Lucio Costa a idealizou não apenas como centro governamental, mas como “cidade viva e aprazível, própria ao devaneio e à especulação intelectual”.
    E que, para isso, pensou nos mínimos detalhes. Determinou, por exemplo, que, nas superquadras, as luzes próximas aos blocos deveriam ser tênues, amareladas, para não invadir os apartamentos e privá-los do aconchego doméstico.
     
    Não é fácil falar bem de Brasília. Quando alguém, seja um empregado da iniciativa privada, um profissional liberal ou um funcionário público, diz que vive na capital, costuma ser alvo de dois tipos de olhares, às vezes simultâneos: de pena ou desconfiança. O primeiro diz: coitado, morar naquele fim de mundo. Para esses, Brasília será sempre a prima rica, mas feia e caipira, do Rio de Janeiro. Maldição eterna para quem ousou roubar o lugar da Cidade Maravilhosa. O segundo olhar diz: de qual mamata participa? De novo, o pressuposto da desonestidade irrestrita da cidade – estigma reforçado como nunca pelo escândalo político de 2009.
    O que pode ser generalizado, porque corresponde à realidade, são as condições especiais que cercam os moradores do Plano Piloto. Mesmo sob a ameaça crescente da violência, os que vivem nesse espaço restrito do Distrito Federal ainda são privilegiados diante das mazelas urbanas a que está exposta a maioria dos brasileiros. Eles habitam boas residências, emolduradas por áreas verdes e floridas, em uma cidade limpa e civilizada, onde a miséria ainda não domina a paisagem e vários dos serviços públicos funcionam a contento.
    Mas a promessa de prosperidade, que atraiu intenso movimento migratório desde o inicio da criação da nova capital, nunca foi para todos.
    Pouco antes da inauguração, quando já não existiam novos postos de trabalho, cinco mil flagelados da seca do Nordeste aguardavam para serem assentados: foi assim que nasceu a nada modernista Taguatinga, hoje a segunda mais povoada cidade-satélite do Distrito Federal. E esse movimento jamais foi interrompido. A capital é parte hoje de uma gigantesca mancha urbana, desigual e desordenada, onde vivem, muitas vezes em condições precárias, quase três milhões de pessoas. Com mais gente, carros e edifícios do que o planejado, Brasília caminha para partilhar as mesmas agruras dos grandes centros urbanos do país.
    Quem sabe, enfim, aos 50 anos, consiga ser aceita como igual? Nada disso: acolha todos, mas sem perder a estranheza jamais, querida Brasília.
     
    Texto transcrito do livro “Brasília aos 50 anos. Que cidade é essa?”
    Tema Editorial, 2010

     

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    Mufunfa de Candango

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    Mufunfa de Candango
    Por Conceição Freitas

    Quando a Caixa abriu sua primeira agência em Brasília, em setembro de 1957, teve um problemão pra resolver. A maioria dos clientes era analfabeta e a lei exigia que o correntista soubesse, pelo menos, assinar o nome. Como fazer? Decidiu-se permitir que os iletrados assinassem a caderneta com a impressão digital. Era preciso alguém para conferir a autenticidade das linhas do dedo polegar embebido em tinta de carimbo. A agência então passou a recorrer aos serviços de peritos em datiloscopia para assessorar o atendimento bancário.
    Houve mais um problema: o peão de obra não tinha tempo de deixar a obra para ir à agência bancária. A Caixa criou então uma agência volante, um cofre forte num caminhão. No dia do pagamento, os candangos interrompiam o sobe e desce da girica para receber a mufunfa, em envelope de papel, e depositar uma parte no banco. O caminhão aproveitava a hora do almoço para atrair o operário com a promessa de que seu tesouro estaria muito bem guardado.
    O candango não entendia muito bem a razão de entregar seu dinheiro a um cofre forte em troca de um pedaço de cartolina onde estavam anotados seu nome, a construtora onde trabalhava e a quantia depositada. E num cantinho do papel, em tinta azul, a impressão das nervuras da ponta do polegar. O peão de chapéu, botina e coragem desconfiava da boa vontade banqueira. Até hoje há deles que acreditam ter pago ao banco para que seu dinheiro fosse guardado. Mas, se a Caixa fazia a gentileza de ir buscar o dinheiro no bolso do candango, quando quisesse sua fortuna de volta o operário teria de ir à agência.
    O candango não tinha muita saída: ou levava sua fortuna para o alojamento, imensos quartos coletivos, no qual ele só tinha direito a uma cama; ou guardava no banco. Mas aí ele trocava o medo de ser roubado por um constrangimento: não poucos tinham vergonha de tirar o seu dinheiro do banco. Quando precisava sacar alguma quantia, chegava ao gerente, meio sem jeito, e dizia: “Seu doutor, vou precisar de uns trocados, mas o senhor não fica chateado não, é porque estou precisando mesmo”.
    Quem não entregava seu dindim pro caminhão corria mais um sério risco: o de ver seus caraminguás serem engolidos pelo fogo nos corriqueiros incêndios nas casas de madeira da Cidade Livre. A Caixa gostava de contar a história de um candango, de nome João Gonçalves de Brito, que guardava sua poupança numa lata de açúcar, na cozinha. Quando o barraco pegou fogo, João conseguiu recuperar a lata carbonizada e dentro dela cédulas fumegantes. Salvou pedaços de cédulas e, desconsolado, procurou a Caixa para ver se ela trocava os restos de papel queimado pela quantia correspondente. O caso foi levado para o Conselho Administrativo do banco, que decidiu fazer a troca para o candango. Em contrapartida, os pedaços de cédula se transformaram em material publicitário para convencer os peões a depositar seu rico dinheirinho na caderneta da Caixa.
    No mês em que Brasília foi inaugurada, a Caixa contava com 17 mil cadernetas de operários que construíram a cidade.

    Transcrito da “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense, 7/72010.

     

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    Primeira geração

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    Primeira geração

    a terra nova – a Terra da Promissão
    eldorado que aos poucos foram-se acostumando
    a ver e a compreender como um filme de faroeste
    o novo oeste brasileiro se integrando
    na civilização do planalto marcada por seus pés
    de aço e micaxisto
     
    Iam crescendo numa ordem rígida
    buscando a forma ideal da cidade
    (forma/modelo/estilo)
    a ordem dos edifícios nas linhas puras
    (eixo central da cidade)
    a Praça dos Três Poderes
    o Palácio da Alvorada
    a Catedral
    o seriado das superquadras
    a paisagem de vidro sob as transparentes persianas
     
    Eis Brasília – cidade nascida do cerrado
    dos lençóis dágua represados
    da destruição do agreste
    (ossos crânios culhões divididos)
    tudo à terra misturados – à doce terra-mãe
    violentada por uma legião de homens-bárbaros
    homens-feras de armas nuas nas mãos
    mãos mais fortes que seus instrumentos de trabalho
    acostumadas a rasgar o útero das rochas com as unhas
    a sufocar entre os dentes as explosões das granadas
     
    A cidade nascia da determinação de homens rebeldes
    esticada em suas ligas de aço e cobre
    (…)
     
    Desse esperma de lama argamassa cimento metal fundido
    madeira ferro aço acrílico e vidro
    nasceu Brasília mineral e semáfora
    como uma mundana portadora de grande beleza
    (objeto de assédio de homens poderosos)
    rainha-puta arrancada à beleza da terra primitiva
     
    Arrancada do agreste – não obstante – soberana
    ave migratória – ave alva (branca) erva
    (com gestos de heroína e mártir):
    nasceu feminina em suas curvas e meneios
    de flor se abrindo à luz do sol
    – trevo de quatro folhas quatro estrelas –
    vitórias-régias em doces giros navegando
    sob o remo dos ventos
    Assim nasceu Brasília
    a cidade-candango
    de Juscelino/Lúcio Costa/Niemeyer
    as crianças iam crescendo nos núcleos comunitários
    em creches escolas parques de diversões
    e era delas agora a cidade mais que de seus pais
    que a fizeram explodir de suas mãos
    com seus facões mais afiados que o vento
    machados serras de dentes perfurantes
    máquinas pesadas a remover entulhos:
    o fogo a destruição total
    até que a terra nua despojada de seu manto verde-malva
    se entregasse como uma puta à violência dos homens
     
    O corpo informe da mata jazia triturado
    sob relinchos de cavalos encantados
    assovios gritos uivos
    a tudo o fogo ia devorando como um incêndio
    restou o que não restou como se jamais fora
    os homens – cegos e nus – no deserto desorientados
    No aboio e no assovio do candango
    mais do que nunca vivo e diligente
    agora mais consciente de sua missão
    o planalto semeado de barracos ao rés-do-chão
    ia-se transformando em paredes de alvenaria
    (em aldeias cidades-satélites)
    sua comunidade crescendo diversificada e anômola
     
    Não havia mais homens de matolão às costas
    panela fervendo ao ar livre
    homens com chinelo de arrasto roupa de brim listrado
    chapéu de palha de carnaúba à cabeça
    mas de calças jeans jaqueta chapéu de massa
    boné de pala botina de cano longo
    lenço de seda amarrado no pescoço sobrecasaca de pelica
    vestidos de terno de linho branco e casimira
     
    As trempes cederam lugar ao fogão de gás
    as redes de tucum aos colchões de mola
    tudo em silêncio crescia mudava de aspecto
    os candangos não usavam mais ceroulas de madapolão
    mas cuecas de náilon e poliéster
    óculos raiban charuto mastigado entre os dentes
     
    As mulheres trocaram o vestido de chita pela seda estampada
    chinelos de rosto por sapatos de salto alto
    anáguas armadas por saiotes de cambraia colorida
    passaram a freqüentar salão de beleza e usar cosméticos
    integradas na sociedade compareciam às
    reuniões na casa dos políticos
    damas de honra – princesas do planalto – da nova cidade do W.
     
    A cidade não era de quem a inventara,
                                [mas de quem a fizera crescer
    como uma dor no osso uma febre no crânio
    um buraco na alma
    a cidade era de quem vira a luz do cerrado morrendo
    lenta ao pôr-do-sol como uma oração
    na noite que de repente chegava
    com sua pele negra a esmagava e imensidão do agreste
    – manopla que golpeia sem piedade um corpo que se fende
     
    A cidade nasceu do espaço de um centímetro
    de um passo de ave um pulo de bicho um vôo
          ensaiado no altiplano
    para o céu – um céu limitado à estatura do homem
    ao seu movimento cotidiano
    à distensão de seus músculos
    à sua imperiosa angústia existencial
     
    A cidade-metrópole – eixo do país (dínamo-automação):
    a cidade de vidro e alumínio erguida
    dos ossos e dos nervos de homens simples e pobres
    do norte e do sul do leste e do oeste
    homens (antes de tudo) sertanejos
    (antes de tudo) fortes – homens
    na expressão mais exata da palavra
     
    Ah! Foi do ímpeto de suas determinações que a cidade nasceu:
    a mais típica de todas as cidades
    a mais socialmente política
    a mais original das urbes brasileiras
    que nome outro te dariam se não – Brasília?
     
    Nasceu do papel vegetal
    da imaginação de dois homens
    da determinação de um terceiro
    (a quem cabia dar as ordens)
    para que a cidade fosse construída acaba habitada
    um homem das Minas Gerais – governo de um grande povo
     
    A cidade nasceu da ampla mancha escura do W
    (convergência e conjuntura do planalto)
    cerrado-agreste – território sem divisão
    (inteiriço no mapa)
    como um oco um grande oco no estômago da terra
    nesse território agora delimitado medido em
          toda sua extensão
    aqui neste território desenhou-se o espaço da cidade
    mistura de muitas raças
    unidas pelo ideal de fazer a cidade crescer
    inesperadamente como uma estrela irrompendo da noite
    uma inseminação artificial.
     
    José Alcides Pinto, poeta cearense, natural de São Francisco do Estreito, distrito de Santana do Acaraú.
    Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.


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    PARALELO 15: HOMEM DIANTE DO MAR

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    Do alto do edifício de forma cilíndrica que desponta imponente do Setor de Autarquias Sul, um homem contempla a cidade. A capital do país construída no cerrado ainda desperta sua admiração, depois de cinco décadas – apesar do esbulho de seus políticos detratores, da mutilação dos administradores inescrupulosos e o adultério do projeto original, escultores criminosos das rugas urbanas, das estrias sociais, das celulites imorais, que o povo em si, guardião de sua alma, sabe exorcizar ou vencer.

    Vejo-o, entre absorto e macambúzio, com os olhos fixos num ponto. O que veem seus olhos tão pressurosos quanto enigmáticos? Talvez, admire que às margens da usina de esgotos da Asa Sul, apesar do mau cheiro e do circunlóquio de urubus, ainda vicejam plantas ribeirinhas e as garças fazem pouso e se alimentam de detritos.

    Ou será que o absolutismo de seu silêncio e a paralisia dos olhos vêm da sinuosidade de seus pensamentos quando contempla a Esplanada dos Ministérios? Aquela enorme via, corredor de invisíveis mistérios, onde papéis e decisões tomam rumos muitas vezes inesperados.

    De onde estou, numa mesa (melhor dizendo, estação de trabalho, para não perder o bonde da história e estar em sintonia com a noção terminológica dos novos tempos e a semântica do mundo globalizado e competitivo), sim, nesse lugar em que me encontro compulsoriamente, como numa relação bovina com a realidade funcional, com computador, telefone e outros implementos, vejo-o, entre silêncios e fugas interiores, observando a marcha da vida e do tempo. Onde estarão seus olhos, seus pensamentos, sua vida, sua esperança – nesse espaço quase sem movimento que ele abriu no galope das horas?

    Que cidade aquele homem vê? A cidade oficial, da mordomia e das aparências, burocrática, marmórea e sem alma – de políticos behavioristas, justiça enclausurada e sentimentos esquivos? Ou aquela em que as cigarras de agosto e os ipês em flor, conspurcando com suas belezas a palidez decretada pela estação seca, fazem um concerto simbiótico, plástico e melódico, anunciando a primavera? Ou a dos homens e mulheres que circulam pela W-3 Sul, entre passos apressados e o fluxo vertiginoso de animais metálicos, como na solene marcha das formigas em sua meticulosa faina?

    Um homem qualquer? Não, um homem que vê e se vê diante da urbe que existe além do círculo do poder. Mas noto em sua quase intangibilidade, em seu estado de pessoalíssima solidão, a pressa em descobrir para que lado vão as coisas na polis enclausurada, para onde seu coração caminha, e por onde voam seus pensamentos (quais falenas em jardins suspensos).

    Um ser que, sem sair do lugar, nada de braçadas no horizonte onde desponta um sol incendiário para fazer a mais luminosa das manhãs do mundo na metrópole balzaquiana. Diante da imensidão do altiplano tenta entender o deserto psicológico das vidas que passam, entrar no seu ritmo, carregar-se na sua energia, numa espécie de solidariedade anônima mas consciente.

    O céu é azul e enorme. Maior é o seu comedimento diante da grande arquitetura que o rodeia.  E seus olhos passeiam, porque parece que ele compreende bem dentro de si o que Niemeyer um dia reconheceu: “Passear em Brasília é como passear num jardim. O céu é o mar de Brasília”.

    Por isso eu vejo aquele homem como qualquer homem diante do mar. Deslumbramento e reverência ante a natureza indissolúvel, com seu poder de afeto e sedução.

    Sim, ele vê um mar. Mas nesse trânsito onírico, ele não divisa navios ancorados nem cais ou despedidas, pois essa é a “única cidade onde não haverá saudade”, como disse um poeta. Mas vê os palácios da Praça dos Três Poderes que parece flutuar na planura sem fim do Planalto Central, território de babilônicos contrastes. E esse encantamento nasce da descoberta que se faz a cada dia, novos ângulos de visão que fluem dos ângulos retos da cidade que é arte em permanente estado de construção e beatificação.

    Não, esse homem não quer ir embora pra Pasárgada, ele quer ficar em Brasília, a Capital da Esperança batizada por André Malraux. Eu não perguntei, mas sei que ele quer ficar aqui. É o que traduz seu jeito de observar o Plano Piloto que se abre em asas, de norte a sul, nos 180 graus em que se lança a vislumbrá-lo. É o que dizem os olhos desse homem (Severino? Antônio? Tomé? Nonato? José Raimundo? ou simplesmente João?)? Ele parado no décimo quinto andar do prédio público, de onde descortina tudo com discreta serenidade, sem perceber que o estamos vendo, admirando seus olhos que jamais se fatigam de deambular pelos espaços federais, ora compungido como a arquitetura da Catedral moderna, ora contornando as “tesourinhas” que bifurcam o Eixo Rodoviário e vão levá-lo às superquadras, com seus blocos sobre pilotis e seu comércio localizado, em que a vida também pulsa, apesar da falta de esquinas.

    A cidade para ele é um mistério? Onde estão as pessoas, Brasília? Estão nas escolas, e daqui a pouco sairão como os pássaros, em revoada. Estão nos gabinetes, ó homem em transe. Estão por aí, nas Satélites, nas autarquias, na feira do Guará, no Parque da Cidade, no Conjunto Nacional. Por aí, ó homem, onde a vida se desvia em mil trajetos arteriais e pulsa e as pessoas vão de um lado ao outro, pelo grande Circular ou de Metrô, num permanente movimento  em que não há lugar para a melancolia ou o retrocesso.

    Taciturno, o homem sobre o qual nada sei, vai se fazendo perguntas entre uma e outra baforada de fumaça de um cigarro que custa a desaparecer entre seus dedos. Assim como quero entendê-lo, ele quer compreender o jeito próprio dos candangos, essa gente vinda de todos os lados, atraída pelo eldorado juscelinista, confiantes que um valor novo se alevantava na doida marcha para despertar o gigante: a esperança.  Aquela mesma que Cassiano Ricardo cantou num madrigal “Vou-me embora pra Brasília, /Sol nascido em chão agreste. /Como quem vai para uma ilha. /A esperança mora a oeste.”  E que Drummond anteviu como alternativa ao marasmo e descontentamento do ser com velhos e vãos territórios: “Vou no rumo de Brasília,/não é aqui o meu lugar.”

    Não, não é o Lago Paranoá que o faz navegar. É o céu de Brasília: mar absoluto. Esse céu-mar, essa cidade que nos espanta, porque uma das características essenciais de uma obra de arte é sua capacidade de provocar surpresa e espanto, como reconhece Baudelaire. Por isso, deter-me naquele homem ensimesmado, diante do desafio de entender a obsessiva saga de fazer surgir do nada, do agreste e da poeira uma cidade de corpo e alma, completa minha sensação sobre viver num lugar que representa a unidade na diversidade, o encontro de todos os brasis, a heterogeneidade consolidando o humanismo a que almejaram os idealizadores e os que amalgamaram cada tijolo na busca da concretude e do sonho.

    A mesma e profunda lição de se perder nos sete mares que os antigos galeões provocavam nos desbravadores, é semelhante ao ensinamento de que, para viver em Brasília, que se abre todos os dias como uma alvorada, não é preciso ter somente cabeça, tronco e rodas. É preciso, antes de tudo, uma eternidade permanente no olhar.

    Muito mais que isso, a humanidade e qualidade de vida de que tanto se ressentem os habitantes de outras metrópoles, é vivida e sentida aqui, cidade antevista no sonho de Dom Bosco, para quem, entre os paralelos 15 e 20 surgiria uma nova civilização, onde verteria leite e mel.  Mas sobre ela não preciso que me falem pitonisas ou adivinhos, pois fico com  a singela e poética constatação do saudoso escritor Esmerino Magalhães Júnior: “uma cidade é uma porção de coisas de onde emana o humano, e não os monumentos apenas”.

    Por isso, aquele homem está ali, diante do mar, diante de nós, arquipélago invisível de ternuras e segredos, e  como uma câmara sem pressa registrando o mundo sob este céu: imensidão oceânica que tanto nos devora quanto nos alimenta. E isso me diz tudo. E é o que não nos faz sentir (n)uma ilha.

    Por Ronaldo Cagiano

     

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    A rodoviária, à noitinha…

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    “Eu caí em cheio na realidade, e uma das realidades que me surpreenderam foi a rodoviária, à noitinha. Eu sempre repeti que essa plataforma rodoviária era o traço de união da metrópole, da capital, com as cidades-satélites improvisadas da periferia.

    É um ponto forçado, em que toda essa população que mora fora entra em contacto com a cidade. Então eu senti esse movimento, essa vida intensa dos verdadeiros brasilienses, essa massa que vive fora e converge para a rodoviária. Ali é a casa deles, é o lugar onde eles se sentem à vontade. Eles protelam, até, a volta para a cidade-satélite e ficam ali, bebericando. Eu fiquei surpreendido com a boa disposição daquelas caras saudáveis.

    E o “centro de compras”, então, fica funcionando até meia noite… Isso tudo é muito diferente do que eu tinha imaginado para esse centro urbano, como uma coisa requintada, meio cosmopolita. Mas não é. Quem tomou conta dele foram esses brasileiros verdadeiros que construíram a cidade e estão ali legitimamente. Só o Brasil… E eu fiquei orgulhoso disso, fiquei satisfeito. É isto. Eles estão com a razão, eu é que estava errado.

    Eles tomaram conta daquilo que não foi concebido para eles. Foi uma bastilha. Então eu vi que Brasília tem raízes brasileiras, reais, não é uma flor de estufa como poderia  ser, Brasília está funcionando e vai funcionar cada vez mais. Na verdade, o sonho foi menor do que a realidade. A realidade foi maior, mas bela. Eu fiquei satisfeito, me senti orgulhoso de ter contribuído”.

    Lúcio Costa
    30/03/1987

     

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    A Catedral

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    A Catedral:
     
    Por hora
    nada mais é que uma estrutura:
    vigas monstruosas tecem o espaço.
    Se cavará no chão sob as raízes
    uma redonda catacumba de fiéis
    submergidos em seus véus e negros crepes.
    Aqui se deporá a alma forrada em moedas
    e misérias, e o homem
    escorrerá nestes pilares seus pecados
    ouvindo a voz doirada em finos mantos
    que toca em sua língua um disco branco
    gravado de infortúnios e promessas.
    E, então, isto será um feixe de trigo em campo verde
    acinturando almas sob o altar.
    Mas chamam-na desde agora catedral,
    quando é um feixe de pecados rubros no planalto
    que nenhuma tempestade lavará.
    Em verdade, esses cimentados ferros
    guardam segredos concretos
    erguidos sobre o espesso sangue do operário
    na entressafra imobiliária;
    e a lua que passeia branca
    nem sempre é uma hóstia: ela escuta
    que há bocas secas e ranger de dentes
    e afia nas fornalhas do crepúsculo
                                                          – um largo alfanje.
     
    Affonso Romano de Sant’Anna, poeta mineiro, natural de Belo Horizonte.
    Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

     

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    Solitária travessia

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    Solitária travessia
    Por Conceição Freitas

    Quando o céu fica limpo de nuvens, é sinal de que chegou o tempo sertanejo na cidade derramada. Como o azul pode ser incandescente? Em Brasília, ele treme, faísca, corta, queima, cega, cansa, desprotege, faz de cada um de nós o único habitante de um planeta árido e indiferente. Junho nos prepara para agosto – céu claro com névoa seca e baixos índices de umidade relativa do ar, avisa a meteorologia. A previsão é de que o céu permaneça devasso pelo menos nos próximos três dias e, de agora em diante, em espaços cada vez largos de tempo até que todos nós sejamos condenados a agosto e setembro.

    Os ventos ainda estão tímidos, entre fracos e moderados, mas logo vão tomar corpo e avançar em imensas labaredas de ar, levantando poeira e folhas secas, formando redemoinhos e nos afogando em excessos. Por enquanto, avisa o Inmet, teremos entre 75 e 20 por cento de umidade no ar. Cedinho e de noitinha, haverá vapor d’água em quantidade suficiente na atmosfera.

    Na hora do sol empinado, o vapor está diminuindo aos desconfortantes 20 por cento.

    Como só chove quando o ar atmosférico come todo o vapor d’água que encontra entre o céu e a Terra, não há sinal de que a chuva chegue tão cedo nesse pedaço de chão que um dia foi goiano. Há 28 dias sem chuva (a última gota d’água caiu em 26 de maio), o brasiliense já empresta o corpo para as maldades do clima.

    Quando as nuvens vão embora, o brasiliense fica mais brasiliense. Somos nós e o universo, sem nenhum biombo pra nos proteger da solidão do infinito. Ninguém é mais solitário que o brasiliense no tempo da seca.

    Sem sombra, sem ar, sem vapor d’água, acossados por um imensidão de vazios, voltamos todos para a aridez de um planeta indiferente ao homo brasiliensis.

    Brasília não negocia com as estações do ano: se é seca, é seca. Se é chuva, é chuva. E quanto mais densa a ocupação urbana, mais a cidade se exaspera e reage. De uns tempos pra cá, tem aumentado a névoa seca que de certo modo transforma Brasília em São Paulo, por mais distante que uma esteja da outra. A bruma cinza e densa condensa o vapor d’água e toda a poluição do lugar. Névoa seca é o véu de tristeza das metrópoles.

    Basta olhar para o horizonte mais próximo que se verá a cortina de sujeira seca flutuando na atmosfera.

    Nesse junho de meu deus, os dias estão mais curtos, porém não menos cruéis. O Sol está nascendo às 6h37 e indo embora às 17h49. Os ventos estão vindo do leste e indo em direção ao nordeste, a temperatura tem variado dos 10º aos 28º, e os brasilienses começamos a nos preparar para a longa travessia da seca, que vai durar pelo menos 90 dias, até as primeiras chuvas de setembro ou outubro. Não será fácil, não tem sido fácil, mas há pelo menos uma boa notícia pra nos animar – Eurides Brito foi cassada!

    Transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense – 23 de junho de 2010.

     

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    Sob o signo da poesia

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    Sob o signo da poesia
    Por Joanyr de Oliveira

    Entre as primeiras frases que me vêm – ao iniciar este registro em atendimento a honroso convite do prof. Ronaldo Mousinho -, destaco esta, cunhada por Anderson Braga Horta, crítico literário e poeta pioneiro da Capital da República: “Brasília nasceu sob o signo da poesia.”

    Em mais de uma ocasião, tenho enfatizado que desde os tempos da chamada Inconfidência Mineira, estava na alma de alguns poetas o impulso em direção ao coração geográfico do Brasil. Tomás Antonio Gonzaga, Cláudio Manoel da Costa, Alvarenga Peixoto associavam independência política, soberania, com a região que temos o privilégio de habitar, como partícipes da “Marcha para o Oeste”.

    Antes que se definisse a área em que os “insanos” de Juscelino viriam a concretizar uma das mais arrojadas obras de todos os tempos, os vates – reitero – já se voltavam para cá. (Lembremo-nos de que vate, além de quem verseja, é, também, quem vaticina, profetiza, advinha…) Suas almas e mentes anelavam por Brasília – “avant la lettre”, é bom ressalvar, para que nesta assertiva não se veja absurdo, clamoroso anacronismo. Anelavam pela Brasília cuja idealização em documento oficial; quando José Bonifácio, Hipólito José da Costa, Varnhagen e outros de igual quilate erguiam a voz em favor da transferência da capital litorânea para o interior rejeitado e esquecido.

    Em 1923, ao que consta, Brasília finalmente se torna tema poético. É a pena de Osvaldo Orico que tem o privilégio de cantá-la pela primeira vez, o que dele fez o vanguardeiro do grande número de poetas que escrevem sobre Brasília. (E, de muitos, se tornam legião se considerarmos, antes, a condição de radicados na nova Capital). Porventura surpreendido com a palavra “legião”, não suponha o leitor tratar-se de força de expressão, de exagero: em pesquisa realizada durante mais de um ano para os livros “Poesia de Brasília e Literatura de Brasília”, a sair, pinçaram-se cerca de 1.000 (sim, mil) nomes de brasilienses que já escreveram e publicaram pelo menos um poema em livro, suplemento cultural, jornal ou revista…

    Entre os poetas da cidade por Malraux cognominada “Capital do Século”, temos vários do mais alto conceito, consagrados pela crítica, como o já referido Anderson Braga Horta, José Santiago Naud, Fernando Mendes Vianna, José Godoy Garcia, Lina del Peloso, Oswaldino Marques, Hugo Mund Jr., Cassiano Nunes, Jesus Barros Boquadi, José Helder de Souza, para – sem desmerecer os novos e os outros – ficar apenas em alguns dos veteranos. Enfatiza-se que, de poetas nivelados aos melhores do Brasil, temos aqui mais de uma dezena, o que é deveras impressionante, sobretudo se levarmos em conta a idade desta ainda jovem Capital. Isto posto, não nos deveria surpreender o fato de ser quase incontável o número de brasilienses, (poetas e prosadores) laureados em importantes concursos nacionais e até internacionais.

    As antologias editadas em Brasília, algumas delas colocadas entre as de mais alto nível no País, constituem mais uma eloqüente demonstração da importância da cidade que elegemos como nossa.

    Com estas palavras, escritas às vésperas do encaminhamento ao prelo dos originais de “Brasília: Vida em Poesia”, associo-me ao querido idealista Ronaldo Mousinho, aos poetas – já bem conhecidos – Ézio Pires, Esmerino Magalhães Jr, Ronaldo Cagiano, Berecil Garay, Amargedon e Danilo Gomes (este também aplaudido cronista), e aos demais autores que nestas páginas se congregam para homenagear a “Capital da Esperança”, no transcurso de seu trigésimo sexto aniversário de fundação.

    Transcrito do livro “Brasília: Vida em Poesia”, organizado por Ronaldo Alves Mousinho.

     

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    Começo de mundo

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    Começo de mundo
    Por Beth Cataldo
     
    A cena teve como endereço um escritório em Nova York, naqueles ambientes elegantes e impessoais em que se entabulam negócios de marca época. A crise econômica de proporções históricas que eclodiu em setembro de 2008, na esteira da derrocada do banco de investimentos norte-americano Lehman Brothers, ainda não havia mostrado sua face mais sombria. A sala transpirava curiosidade e expectativa.

    De um lado da mesa, um grupo de chineses engravatados e contidos. Do outro, investidores do calibre de William Rhodes, executivo do Citibank – um nome familiar no Brasil que quebrava e recorria ao Fundo Monetário Internacional (FMI), não necessariamente nessa ordem, em décadas passadas. O plano em foco: construir 200 novas cidades na China, cada uma com três milhões de habitantes, até 2030.
     
    Meticulosos, os enviados do governo chinês mencionaram projetos arquitetônicos, valores a serem investidos, oportunidades vitais naqueles canteiros de obras que brotariam múltiplos e urgentes, no compasso da grande potência emergente. Os chineses evitaram pronunciar a meta de arrebatar o posto de maior nação industrial do planeta, que justiçava o esforço de erguer os novos núcleos urbanos. Mas nem era preciso, todos ali sabiam dessa ambição.
     
    A cada cidade estaria reservado um papel na cadeia produtiva da fábrica do mundo, como a China já foi chamada, assim como se delegou a prestação de serviços à Índia e reservou-se ao Brasil o título de fazenda global.

    Especializar comunidades na produção de bens não é nada muito novo para um país que tem municípios inteiros dedicados apenas à confecção de gravatas, outros concentrados em inventar brinquedos e um terceiro, mais adiante, que cuida somente de bolsas e malas.
     
    No tempo em que a China incendiava imaginações com a revolução comunista liderada por Mão Tsé-tung, também se discutia, do outro lado do mundo, a construção de uma nova cidade – a capital – no coração de um vasto e longínquo território. Era o momento em que se idealizava Brasília, o engenho destinado ao duplo oficio de encarnar o centro político-administrativo do país e gestar um pólo de desenvolvimento regional.
     
    As contradições da marca de nascença ditariam o destino brasiliense em seus primeiros 50 anos de vida, um começo de história atribulado e imprevisível. Os recursos para sua construção, avisou logo o idealizador, Juscelino Kubitschek, seriam subtraídos das fontes possíveis e imagináveis. Valia recorrer aos cofres dos institutos de previdência daquele final dos anos 1950, tornando-os tutores da edificação de quadras residenciais inteiras. Também valiam empréstimos externos, financiamentos para equipamentos, recursos do orçamento…
     
    Por fim, quando tudo o mais se esgotara, fazer funcionar a guitarra, ou seja, a emissão pura e simples de moeda, aquilo mesmo que é amaldiçoado pelos rigorosos manuais de economia. Naquele começo de mundo no Planalto Central, foram gastos pelo menos US$ 130 bilhões para construir Brasília, calcula o ex-ministro Ronaldo Costa Couto, que atualizou estimativas apresentadas na época da inauguração da cidade. Pelo menos, porque cálculos precisos nunca se tornaram conhecidos.

    A cidade monumental que Juscelino imaginou para inaugurar uma nova era no Brasil seria também estigmatizada como a mãe de todos os processos inflacionários que o país suportaria estoicamente nos anos vindouros. Ou como parente em primeiro grau de um Estado perdulário e fantasioso, ilhado em meio a privilégios, dono de um olhar indiferente e arrogante para o resto do país, visto de longe. A maioria dos brasileiros estaria representada na capital apenas pelos impostos que sustentam as transferências da União destinadas a custear a hospedagem cara e luxuosa dos donos do poder. O que sobrou de um sonho febril parece, muitas vezes, pouco mais do que uma miragem.

    O insuspeito economista Raul Velloso, crítico implacável dos gastos públicos excessivos, acredita que os investimentos destinados à construção de Brasília frutificaram, tiveram um efeito catalisador sobre processos que teriam sido deixados à própria sorte e ao passo lento da história. Velloso não concorda que a cidade seja responsável por deformações execráveis. Não fosse a Ilha da Fantasia no cerrado, existiriam “subilhas da fantasia”, como ele chama, encravadas no território do Rio de Janeiro ou do Recife, onde quer que estivesse a capital do país.

    A concentração de órgãos públicos e de uma burocracia especializada se encarregaria de gerar um lugar onde os servidores federais teriam maior poder de barganha e influência, com uma visão de país condicionada pela realidade próxima de seu cotidiano. A atração de profissionais comodamente instalados em outros locais também seria feita à custa de vantagens oferecidas em seus primórdios. O resto ficaria por conta dos vícios típicos do setor público brasileiro, como em quase todas as versões estaduais e municipais pelo país afora.

    O Estado brasileiro que foi forjado a partir da existência de Brasília, na palavra do especialista, não foi muito diferente do que teria sido em qualquer outro lugar do Brasil. Talvez, sem Brasília, tivesse sido um pouco pior, ele arrisca. Os militares que tomaram a cidade quatro anos depois de sua fundação, e a consolidaram, teriam buscado da mesma maneira um processo de profissionalização da burocracia pública. Os sindicalistas que protagonizam atualmente o governo de Luiz Inácio Lula da Silva e ditam os costumes políticos de sua administração não agiriam de modo muito diverso se a capital estivesse no ABC paulista.

    O que distingue a experiência da capital inventada por JK e os pioneiros que o acompanharam é a absoluta gravitação da atividade econômica em torno do Estado e de suas ramificações. A cidade pulsa ao ritmo do governo de plantão no Palácio do Planalto, com seus eventuais acertos e suas freqüentes deformações. Encolhe quando os tempos são de vacas magras no orçamento público e se expande quando vicejam reajustes salariais e novas contratações na máquina federal, como acontece no período petista. Ou se queda aterrorizada quando um inesperado Fernando Collor atira sem rumo contra marajás e apartamentos funcionais.

    As bancas de jornais forradas de apostilas para concursos públicos não deixam dúvida sobre as forças que movimentam a economia local, nem os cursos especializados que parecem dispostos a arrombar as portas cerradas do Banco Central e da Polícia Federal para instalar lá dentro os candidatos a cargos estáveis. As faixas que adornam a Esplanada dos Ministérios remetem a planos salariais e carreiras públicas, reclassificação de funções e reposição de perdas, compondo uma moldura exclusiva e monocórdia. Os amigos que se reúnem em bares e restaurantes costumam dividir a mesma repartição pública, as mesmas aspirações e os mesmos cobiçados DAS.

    No meio do ordenamento rígido das quadras residenciais e da grandiloqüência dos monumentos dedicados às atividades de Estado, os sinais da iniciativa privada parecem intrusos que se imiscuíram no salão sem convite dos donos da casa. Nas áreas que abrigam o comércio agitado da cidade, como o popular Setor de Indústria e Abastecimento, o SAI, reinam fachadas de cores berrantes e desencontradas. Os corredores comerciais dos condomínios que se espalharam pelos arredores de Brasília ostentam uma galeria improvisada e pouco harmoniosa de lojas de material de construção, pet shops de sotaque americano e drogarias.

    A população ávida por consumo e qualidade de vida inspira uma atmosfera dinâmica e instigante nessas áreas. Há também o reino afortunado dos shopping centers e das grifes de todos os cantos que vieram em busca dos consumidores de alta renda da cidade, ainda às voltas com escassez de bens de consumo sofisticados. Os barcos e as lanchas que atravessam o Lago Paranoá no final de semana ancoraram Brasília como um dos maiores mercados de produtos náuticos do país. A frota de veículos que aos poucos vai conseguindo ocupar os largos espaços da capital é a que mais cresce no Brasil, para citar alguns dos muitos indícios de prosperidade.

    A combinação de estabilidade no emprego e renda média elevada dos funcionários públicos favorece a concessão de financiamentos e a formação de um mercado sólido na região. Os que construíram fortuna à margem de atividades estatais costumam, no entanto, dividir uma reputação pouco recomendável, como se a iniciativa privada fosse sempre sinônimo de falcatrua e os empreendedores nunca passassem de ardilosos contraventores. Mas é essa mistura efervescente e polêmica que molda o perfil da cidade.

    No debate sobre a capital posta no Planalto Central, são recorrentes os argumentos que remetem ao que teria se tornado o Rio de Janeiro, ou mesmo o eixo Rio-São Paulo, sem que o fluxo migratório interno fosse parcialmente desviado para o centro do país. Algo irrespirável, responde Ronaldo Costa Couto, estudioso dedicado e perspicaz do assunto, valendo-se das lembranças de um Juscelino Kubitschek que queria “desesperadamente” deixar o Rio. O mineiro que inventou Brasília achava que a então capital não favorecia o que hoje costuma se chamar de governabilidade.

    JK assistira ao desenrolar do cerco político a que fora submetido Getúlio Vargas e acreditava que a capital à beira do litoral – como de resto a ocupação do território brasileiro, que foi “arranhando a areia das praias, como caranguejos” – alimentava a crônica instabilidade política do país. Mais tarde, veria que a geografia não pouparia o Brasil de um fulminante golpe militar, e ele, da perseguição do regime dos generais.

    Havia também argumentos econômicos e estratégicos para justificar a mudança da cabeça do Estado, muitos dos quais tinham em sua origem o próprio Vargas dos anos 1940 e o movimento da Marcha para o Oeste, que o caudilho gaúcho vislumbrou em seu projeto de país expansionista e poderoso. No seu turno, Juscelino tornou realidade um vasto entroncamento viário em função da nova capital, que significava “uma verdadeira costura do Brasil por dentro”, como definiu no livro “Por que construí Brasília”.

    Antes, à frente do governo de Minas, JK havia usado a imagem de que o Estado era um virtual arquipélago e que lhe caberia unir as ilhas desconexas por meio de estradas. Ecoavam em sua memória as viagens que duravam meses do interior para a cidade grande, a desolação do isolamento. Nos vazios do Brasil Central e da Amazônia, a missão que ele e os entusiastas da época se atribuíram era a de estabelecer um novo centro de gravidade do país. Ali mesmo, no cerrado, Juscelino anteviu “o maior deserto fértil do mundo”.

    O retrato de hoje mostra que, à força de pesquisas da Embrapa e de desbravadores de todos os lados, a região se tornou um dos principais centros de produção agropecuária do mundo. De fato, o eixo rodoviário que ostenta fez a ligação entre o Norte e o Sul do país, atesta a professora Marília Steinberg, da Universidade de Brasília (UnB), especialista no tema. Ela faz questão de ressaltar, entretanto, que não enxerga um processo de desenvolvimento orgânico e articulado nas regiões cortadas pelas estradas que desbravaram a região.

    As condições logísticas e estruturais da nova capital influenciaram fortemente, de qualquer maneira, uma extensa área que abrange desde as chapadas do Piauí até os campos de Mato Grosso, passando pelo Noroeste da Bahia ou o ainda recente Tocantins, completa o executivo Benjamin Sicsú, vice-presidente de uma multinacional da área de tecnologia de ponta. É possível encontrar reflexos da presença de Brasília também no Pará, que está numa das pontas dos fios que costuraram o Brasil por dentro, ou no Sudoeste do Maranhão. O perímetro de influência estende-se ainda ao Triângulo Mineiro e à paulista Ribeirão Preto. Mais próximas, as cidades de Paracatu e João Pinheiro viraram rotas de investimento.

    A profecia de que Brasília promoveria a interiorização do desenvolvimento brasileiro, como tantas vezes se reiterou na época de sua fundação, cumpriu-se. Outros acreditam que o agronegócio teria se expandido de qualquer modo, até pela demanda irresistível do mercado internacional por commodities agrícolas que o Brasil pode produzir em abundancia. Mas em que velocidade esse trem teria chegado à estação? E as intempéries que cruzariam o caminho pelo interior de uma nação ausente de dois terços de seu território?

    Sicsú tem algumas dessas respostas. A começar pela estimativa de que sem Brasília, as regiões mencionadas teriam levado pelo menos 40 anos a mais para atingir o estágio em que se encontram atualmente. As áreas que se tornaram pólos de plantio de soja e milho, e também passaram a abrigar grandes rebanhos bovinos, respondem agora por cerca de 15% a 20% da economia brasileira, pelos seus cálculos. Antes da construção da capital, mal alcançavam 1% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Um novo mapa econômico e político do país foi desenhado a partir da explosão da atividade agropecuária no cerrado.

    O que JK e os pioneiros que o acompanhavam não profetizaram é que o mapa restrito da Brasília inaugural, planejada para ter 500 mil habitantes na altura do ano 2000, seria expandido rapidamente e chegaria, apenas dez anos adiante, a abranger 2,6 milhões de pessoas em todo o Distrito Federal.

    Adicionados os moradores das 22 cidades de Goiás e Minas que formam a Rede Integrada de Desenvolvimento do Distrito Federal e Entorno (RIDE), pode-se contar com pelo menos mais de 1,1 milhão de habitantes – uma soma de quase quatro milhões de almas. Alongaram-se os braços das primeiras cidades-satélites, o fluxo intenso de imigrantes adensou a população de Brasília e suas cercanias. Em 2030, somente o Distrito Federal deverá abrigar cerca de 3,1 milhões de habitantes.

    Levante-se o olhar um pouco mais ao longe e se poderá ver Brasília solidamente instalada pelo IBGE na condição de terceira metrópole nacional, apenas um passo atrás das quinhentistas São Paulo e Rio quando se trata de avaliar a importância e influência no restante do país. São critérios técnicos variados, desde a gestão empresarial e presença de órgãos públicos federais, até a oferta de serviços financeiros, a existência de instituições de ensino, acesso à internet, conexões aéreas, serviços de saúde, presença de rede de televisão e jornais. Brasília irradia mais diretamente sua influência por uma área de 1,7 milhão de quilômetros quadrados, inferior apenas à capital paulista, a grande metrópole nacional.

    De cima, quando os aviões começam a descer para pousar no movimentado Aeroporto JK, é possível visualizar essa ocupação que se estende pela paisagem plana, quase sem ondulações: os campos cultivados geometricamente, as habitações que vão pontilhando cada vez mais o espaço na medida em que se aproxima a cidade, desenhada, em sua origem, no meio do nada. Também se pode observar, do alto, a seqüência dos retângulos de águas azuis das piscinas que enfeitam as residências abastadas da região do Lago Sul, próxima ao aeroporto. Mais adiante, sob os reflexos da luminosidade ofuscante do cerrado, despontam os novos arranha-céus. Antes tão escassos, marcaram agora um território próprio, espetados na moldura horizontal e espaçosa da capital.

    Ajuste-se o foco e será possível enxergar os pormenores dessa mancha urbana em acelerada e desigual expansão. A metade da população é dali mesmo, precisamente 48,92% nasceram no Distrito Federal – no Plano ou fora dele, mas ainda dentro do recorte de terras extraídas de Goiás. Plano é a expressão abreviada de se referir ao Plano Piloto, a alcunha tecnocrata que ficou como herança dos tempos em que a cidade era projetada nas pranchetas. Ali estão os símbolos maiores da capital: o Congresso, o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal, o poder central.

    Fora dali, é o universo das cidades-satélites, que muitos preferem designar hoje como bairros de uma mesma metrópole. Ou cidades, com vida e identidade próprias. No jargão burocrático, são meras regiões administrativas. Ainda pouco afeitos a essa linguagem codificada, os forasteiros, que eram ampla maioria nos idos de 1960 e 1970, continuam a chegar. Agora, menos instalados pelas benesses populistas do ex-governador Joaquim Roriz e mais pelos motivos de sempre, para lutar por emprego e melhores condições de vida.

    O retrato dessa população que emerge dos dados oficiais é impressionante. A renda média mensal é de R$ 2.117,00, mais do que o dobro da nacional, de acordo com os dados mais recentes da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), do IBGE. Pelo critério de renda per capita, o mesmo instituto aponta Brasília no patamar de R$ 34.510,00, enquanto a média brasileira não passa de R$ 8.380,00. Escolha-se qualquer outro parâmetro de prosperidade ou bem-estar e a capital também estará no topo.

    Os brasilienses ocupam o primeiro lugar no ranking de residências com computadores (48,8%), com acesso à internet (29,7%), com telefone (94,1%) ou celulares (135/100). Nada menos do que 99,8% das residências são providas de energia elétrica e 96% contam com saneamento básico.

    Transforme-se Brasília em país e o seu nível de 0,936 de IDH, ou seja, Índice de Desenvolvimento Humano, medido pelas Nações Unidas, estará ombreado com o da Alemanha e superior ao de Portugal.

    Essa exuberância estatística, no entanto, perde o brilho quando se observa o Distrito Federal sob a ótica da distribuição de renda. O dado mais confiável para se avaliar esse desequilíbrio é o chamado coeficiente de Gini, que varia de 0 a 1. Quanto mais próximo de 1, mais profundo será o quadro de desigualdade. Brasília aparece, por essa medição, com um índice de 0,62, muito pior do que o indicador válido para todo o Brasil, que é de 0,53, de acordo com dados de 2008.

    Os economistas gostam de contar, como se fosse a última novidade, uma piada velha e desgastada sobre o significado dos índices montados para calcular médias. A receita é colocar alguém com a cabeça dentro do forno e as pernas na geladeira para se obter, em média, um indivíduo com temperatura normal. Numa ponta de Brasília, encontram-se os rendimentos mais altos, os empregos públicos bem remunerados, as moradias confortáveis. Na outra, em áreas ainda abrangidas pelo Distrito Federal, os aglomerados urbanos mal cuidados e populosos. Em volta, sinais de completa indigência.

     

    No topo desta pirâmide, a renda média mensal dos moradores do Lago Sul alcançava 10,4 salários mínimos, em 2004, de acordo com a Pesquisa Distrital por Amostra de Domicílio (PDAD). Na base, os habitantes das áreas mais pobres, como Estrutural e Itapoã, não conseguiam atingir sequer o menor salário vigente no país – o valor apurado para a renda média mensal equivalia a 0,4 salário mínimo. Se pudesse voltar na altura do cinqüentenário da cidade que fundou, Juscelino Kubitschek se espantaria, assegura Ronaldo Costa Couto, com o cinturão de pobreza formado em torno da capital.

    É verdade que se formou também um sólido grupo de renda intermediária nas cidades-satélites mais bem estruturadas e tradicionais, e no próprio Plano. Assim como um movimento febril de assentamento de condomínios de classe média, muitos situados de forma ilegal em terrenos públicos, cuidou de acomodar os que seriam expulsos para regiões mais distantes do centro da capital. Nem todos resistiram. Nada menos do que 30% dos habitantes de áreas periféricas do Distrito Federal já moraram no núcleo central de Brasília, aquele que abrange as Asas Sul e Norte, o Setor Militar Urbano – mais um dos códigos exóticos da capital – e três vilas tradicionais.

    Os mapas demográficos, sociais e econômicos do Distrito Federal estão esquadrinhados de forma criteriosa e confiável nas publicações técnicas da Companhia de Planejamento do Distrito Federal (Codeplan). Sim, é a sigla que batiza a CPI sobre o desvio de recursos públicos no governo local em favor de empresas privadas e lideranças políticas. A Codeplan foi tomada de assalto por dirigentes obscuros, nomeados com o propósito deliberado de usar o órgão como balcão de negócios. Mas bem poderia simbolizar os setores governamentais de excelência técnica que existem em abundância na capital da República – pouco percebidos e valorizados, em meio às incessantes marés de denúncias de irregularidades que varrem os gabinetes oficiais.

    No laboratório da cidade planejada, marcada pelo preconceito e pela rejeição de boa parte dos brasileiros, alguma coisa está ainda mais fora da ordem: faltam empregos e moradias para acomodar a ascensão meteórica de sua população. Os índices de desemprego nas áreas menos favorecidas do Distrito Federal chegam a atingir 19% da População Economicamente Ativa (PEA). No Plano, onde estão os grupos de renda mais elevada, não passam de 7,5% e chegaram a cair em pleno furacão da crise econômica histórica do final de 2008, que subtraiu vagas no mercado de trabalho do restante do país. As áreas de Brasília preservadas das marchas e contramarchas dos ciclos da iniciativa privada ficaram a salvo da intempérie.

    É inegável que os imigrantes atraídos pelas luzes da capital, os símbolos que aparecem no noticiário dos telejornais, os serviços médicos estruturados ou o acesso à educação de qualidade encontraram no Planalto Central do Brasil melhores condições do que tinham na terra natal. A tarefa urgente é gerar mais empregos, preocupa-se o economista Jandir de Moraes Feitosa Júnior, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), pois se aproxima o tempo da colheita ainda mais abundante de populações marginalizadas e imersas no ambiente de violência e degradação, sinais que já pontuam o cenário de maquete da capital.

    Mais do que apenas empregos públicos, ele alerta, é crucial apostar também em postos de trabalho na iniciativa privada, estimular o ânimo de empreendedores capazes de dotar a região do dinamismo necessário para construir um futuro de oportunidades semelhantes às que sedimentaram o seu passado. Restam poucas dúvidas de que o período mais expressivo de expansão do setor público em Brasília, que resultou da ampliação de gastos e de novas contratações de pessoal, pode estar próximo do esgotamento – ou pelo menos refluir seu ritmo de forma significativa em cenário próximo. Na virada dos 50 anos, a cidade precisará girar outras engrenagens para manter a higidez econômica e social.

    Do ponto de vista técnico, existem caminhos para que isso aconteça. Afinal, Brasília lidera o ranking nacional que mede as condições favoráveis à realização de negócios, elaborado com base em dados do Banco Mundial.

    A classificação leva em conta o tempo e o custo de abertura de empresas, o registro de propriedades e garantias, o nível da carga tributária local e os procedimentos para o recolhimento de tributos. O Governo do Distrito Federal contabiliza hoje cerca de 170 mil empresas na região, que ainda tem uma clara predominância da administração pública, responsável por 54,80% do PIB local, estimado em R$ 100 bilhões.

    Para uma cidade concebida com o objetivo declarado de manter a distância as indústrias que poluiriam seus ares e águas, e que também poderiam transportar para o ambiente asséptico dos gabinetes governamentais legiões de operários indesejados e vociferantes, a atividade industrial dá poucos sinais de vitalidade. Em 2007, a indústria não representava mais do que 6,55% do seu PIB, um nível que vem se mantendo com poucas oscilações nos últimos anos. A denominação de “metrópole terciária” cai como uma luva em Brasília.

    É preciso muito mais do que isso para alicerçar o desenvolvimento e garantir a geração de novos empregos. Jandir de Moraes critica a interdição que ainda hoje afasta da cidade indústrias consideradas poluentes.

    Para abrigá-las, emenda Benjamin Sicsú, bastaria impor-lhes o tratamento adequado aos rejeitos e processos produtivos. Sem a diversificação de um parque industrial mais completo, a economia local ainda depende muito do segmento da construção civil, cuja trajetória está entrelaçada à história da capital, embora continue movida maciçamente por produtos importados de outras regiões do país.

    O cenário da construção em Brasília mostra uma busca sôfrega por áreas habitacionais. Elas costumam surgir no compasso de uma indústria imobiliária azeitada e bilionária, que teve seu principal representante comodamente instalado no Executivo: o ex-vice-governador Paulo Octávio, que controla boa parte dos terrenos disponíveis para novas edificações na capital. Ele ocupou por muito tempo posição estratégica e decisiva no governo de uma cidade em que as regras de ocupação do solo são estritamente definidas pelo poder público. Ou seja, um claro conflito ético, para dizer o mínimo. Os interesses onipresentes de seu grupo empresarial em áreas diversas como hotelaria, comunicação, concessionárias de veículos e centros comerciais o tornaram um vice-rei na capital do país, em pleno século 21.

    Os meses a fio em que os porões da corrupção no Distrito Federal desfilaram diante da sociedade comprovaram, de forma eloqüente, que o ambiente de negócios da cidade está contaminado de forma profunda e dramática por práticas ilegais de toda ordem. Obras de infraestrutura foram direcionadas para beneficiar empreendimentos privados, restrições ambientais acabaram derrubadas a golpes de propina na Câmara Legislativa, licitações terminaram solenemente burladas. O planejamento urbano do Distrito Federal, como ficou nítido nessa coreografia de sombras, florescia muito mais nos escritórios particulares das incorporadoras de imóveis do que nas pranchetas de especialistas do setor público – prática disseminada, aliás, em muitos pontos do país.

    As ondas que o mercado imobiliário consegue criar, com seu arsenal de recursos, podem ser surfadas por poucos quando se trata das áreas nobres do Plano Piloto, inflacionadas pela demanda que não para de crescer. Já esteve do lado Sudoeste e mais recentemente atinge o Setor Noroeste, que é alvo de propagandas idílicas para atrair compradores, com a promessa sonora de que se trata do “primeiro bairro ecológico do Brasil”. A contradição é apontada pelo geógrafo Aldo Paviani, um respeitado estudioso da realidade local, que lamenta o modelo de urbanização que vai dilapidar nichos preciosos de cerrado nativo e sufocar três nascentes. “Quando se tira a vegetação acaba a água”, ensina.

    O futuro sustentável dessa potência econômica que foi semeada no Planalto Central passa por um debate que comporta angústia e inquietações, mas que também desperta sonhos e ainda pode inspirar otimismo. Nesse caminho, os olhos dos administradores locais terão que estar voltados muito menos para a Esplanada dos Ministérios e mais para as áreas distantes do Plano Piloto. São os locais que abrigam grandes contingentes de mão de obra excedente, ansiosa por oportunidades que o antigo Eldorado costumava oferecer em profusão.

    Para seguir em frente, a cidade dificilmente poderá prescindir de uma gestão pública que estimule a integração das diversas áreas do Distrito Federal e torne efetiva a articulação com municípios vizinhos de Goiás e Minas, esboçada apenas no papel. Será necessário também depurar a capital e suas ramificações das influências nocivas que subordinam projetos públicos de interesses privados escusos. Assim como parece crucial vencer a resistência que a cultura forjada nas entranhas do Estado nutre contra a iniciativa privada, justamente para agregá-la ao esforço de gerar renda e emprego.

    Idéias existem, dentro e fora do governo, como a construção da chamada cidade digital, que pretende colocar de pé um centro tecnológico destinado a criar empregos qualificados e transformar a capital em rota de produção de alta tecnologia e conhecimento. Trata-se de uma vocação que parece natural para o grande centro de decisões do país, que se consolidou ao longo de 50 anos. Os serviços de informação já respondem por 3,9% do PIB do Distrito Federal e nada menos do que seis entre as dez principais empresas brasileiras desse setor estão instaladas em Brasília.

    Outra vertente é a cidade aeroportuária, ainda embrionária nas pranchetas oficiais, mas que poderia estabelecer conexões no transporte de cargas de valor agregado para a região geoeconômica do Brasil Central, aprimorando uma vocação de entroncamento viário e logístico que remonta aos ideais dos fundadores da capital. Nesse projeto, Brasília tem condições de se valer da posição privilegiada que ocupa entre os centros dinâmicos do agronegócio brasileiro, cujo destino foi gestado em boa parte por sua própria existência.

    Mesmo nos circuitos tradicionais do poder é possível vislumbrar perspectivas para alicerçar o futuro da cidade e de seus habitantes. A grande consultoria de 300 mil funcionários públicos, lançando-se mão da definição curiosa de Sicsú para nomear o conjunto de tomadores de decisão do governo, envolve gente especializada e ligações com o país e o mundo. É um dínamo que fomenta também escritórios de representação, alimenta a rede de hotelaria, infla o pólo de gastronomia, que já é o terceiro do Brasil, e multiplica novas rotas de transporte.

    Os exercícios que tratam dos horizontes da capital combinam com sua natureza aberta e personalidade múltipla, receptiva e arroubos de imaginação e a ventos inovadores. As características desse perfil mutante podem ser valiosas para enfrentar as complexas adversidades que se insinuam em sua curta história. A usina se move e guarda promessas e desafios.

    Transcrito do livro “Brasília aos 50 anos: que cidade é essa?”

     

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    A esfinge do cerrado

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    A esfinge do cerrado
    Por Paulo José Cunha
     
            A cidade é de vidro e de luz, de régua e de compasso, mas sobretudo, de amplidão e espaço. Em Brasília o olhar nunca chega ao fim, e quando parece que chega, outro horizonte se abre, e depois dele mais outro, e assim a cidade de mil horizontes, em todos os sentidos, vai misteriosamente multiplicando seus espaços. Para onde se olha, a cidade não acaba. Marcada pelos horizontes sem fim, a cidade é um convite permanente à reflexão. Talvez por isso todo mundo é meio filósofo em Brasília, porque todo mundo é obrigado a parar de vez em quando, diante da ousadia dos traços do arquiteto, diante da ousadia do por do sol, diante da ousadia dos homens que um dia arrancaram da imaginação uma cidade que dormia no centro do Brasil profundo. Aqui, o que se conhece como modernidade, começou. Aqui, o Brasil entendeu que futuro é apenas o que ainda não foi tentado. Aqui, o espaço é uma interrogação permanente, testando os limites da liberdade e do sonho.
     
            Dizem que a cidade é fria. Dizem que a cidade é exata. Dizem que a cidade é burocrática. Dizem que a cidade é atrevida. Dizem que a cidade é monótona. Dizem que a cidade não tem alma. Dizem isso. E dizem mais. E vão continuar a dizer, porque Brasília é principalmente um enigma em permanente busca de tradução.  Vão continuar a dizer coisas de Brasília. E nunca conseguirão traduzi-la.  Brasília,  a esfinge plantada no meio do Planalto Central, foi criada para  provocar o espanto dos filósofos. Porque a cidade dos espaços, do vidro e da luz, da amplidão que o olhar não consegue abarcar, foi condenada em sua origem a ser eterna, e mesmo que um dia se transforme em ruínas, provavelmente serão as mais belas ruínas da história do homem. Ruínas de curvas e retas e horizontes, esfinge de concreto e aço propondo e repropondo um enigma que ninguém sabe qual é, embora saiba que existe. O que atordoa os críticos e os estudiosos é que daqui a alguns milênios, mesmo se ela tomar a forma das ruínas, permanecerá moderna. E assim, por dentro dos milênios, entre seus planos de vidro e de luz, a cidade feita de régua e compasso descobre, espantada, que guarda o mistério de uma esfinge, entre seus espaços infinitos, que os olhos não conseguem abarcar.

     

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    “Assim nasceu Brasília”

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    “Assim nasceu Brasília”
    Por Juscelino Kubitschek
     
    Todo mundo estava certo de que Brasília não seria construída. Os meus adversários chegavam a afirmar – alguns em tom de pilhéria, outros falando com seriedade – que o que eu pretendia era jogar nas costas da oposição o problema de Brasília. E raciocinavam da seguinte maneira: “Devemos aprovar o projeto porque, se não o aprovarmos, ele dirá que não construiu a nova capital porque o Congresso não deixou. Vamos aprová-lo. Depois, então, cobraremos rigorosamente a sua execução”. E quando perceberam que Brasília estava sendo realmente construída, e que o avião do presidente decolava todas as noites do aeroporto Santos Dumont com destino àquela longínqua região do Brasil, começaram a ter medo. Ao mesmo tempo, meus adversários iam tomando conhecimento das estradas que começavam a ser abertas em torno do planalto, o que lhes deu motivo para novas inquietações. Logo, a oposição se levantava, num bloco violento, contra o meu governo. Os fatos de então são do conhecimento de todos, e eu compreendo muito bem que eles tenham ocorrido. Não é fácil deixar uma cidade com os encantos do Rio de Janeiro para ir residir no deserto do planalto, distante de todos e de tudo.
     
    Lembro-me perfeitamente do dia em que um figurão nacional teceu uma série de críticas amargas contra Brasília. Minha resposta foi esta: “Tenho pena dos que tomam tal atitude de descrença. E contra eles minha vingança será simples. Estou mandando guardar todos os ataques que vêm sendo feitos a Brasília e que a imprensa registra.
    Vou guardá-los no futuro museu de Brasília e quero que os filhos desses que combatem a nova capital julguem, mais tarde, a visão estreita dos próprios pais”. E hoje eu sei que já existem muitos temendo aquele julgamento.
     
    Além de Lúcio Costa, convoquei para a construção de Brasília uma outra figura, hoje considerada a maior expressão da arquitetura mundial: Oscar Niemeyer. Quando deixou, já formado, a Escola de Arquitetura, Oscar ainda tinha uma cara de menino – e foi assim que ele me apareceu, certo dia, em Belo Horizonte, levado pelo Rodrigo Melo Franco. Eu era, então, prefeito de Belo Horizonte, e tinha planos de transformar o alagadiço da Pampulha num local aprazível. Melo Franco, ao saber dos meus projetos, sugeriu: “Conheço um arquiteto ainda muito jovem e cheio de talento. Você não quer experimentá-lo?”. Concordei, e ele me levou o Oscar Niemeyer. E foi exatamente esse projeto de Niemeyer que serviu de semente, de ponto de partida para o advento da nova arquitetura brasileira, hoje de fama universal.
     
    Eu me encontrava em Paris quando Le Corbusier morreu. André Malraux, ministro da Cultura da França, fez o elogio fúnebre ao grande arquiteto morto, pronunciando, diante do túmulo, um discurso de extraordinária beleza. Nele, por diversas vezes, Malraux se referiu a Oscar Niemeyer e também a Juscelino Kubitschek, “o criador de Brasília”, exaltando o gênio admirável de Niemeyer e a influência que eu havia tido na projeção de tão notável figura brasileira. Proclamava-se, ali, diante do túmulo de Le Corbusier, que Niemeyer se tornara o substituto daquele que, naquele instante, estava sendo glorificado pela cultura e pela arte da nação francesa.
     
    Quando convoquei Niemeyer para a construção de Brasília, disse-lhe o seguinte: “Você terá toda a liberdade para construir Brasília, mas quero que tenha uma coisa sempre em vista: é meu objetivo que, daqui a 100 anos, os pósteros, diante da cidade que vamos construir, digam: “Os que levantaram Brasília, há 100 anos passados, tiveram uma grande visão desta cidade e do futuro do Brasil, porque a construíram à altura de uma nação que eles sabiam viria a ser uma das mais poderosas do mundo”.
     
    Entre os mais sérios problemas que enfrentei na construção de Brasília, o principal foi o do transporte. Brasília fica a 1.200 km do Rio, a 700 de Belo Horizonte e a 1.100 de São Paulo. Como, então, não houvesse uma só estrada conduzindo até o local onde a nova capital seria erguida, tivemos que fazê-la. O problema foi enfrentado com coragem, e mesmo audácia, e para sua solução contei com a colaboração de extraordinários auxiliares. Um deles foi Régis Bittencourt, então diretor do DNER, que alcançou um verdadeiro recorde ao construir duas extensíssimas estradas asfaltadas, ligando Brasília ao Rio e a São Paulo.
     
    No início, tudo foi terrivelmente difícil. Um exemplo: tínhamos necessidade de transportar para lá um enorme gerador, pesando mais de 70 toneladas, e não dispúnhamos de meios para fazê-lo. Entreguei o problema ao Exército, já que se tratava de uma verdadeira operação de guerra. O Exército cumpriu galhardamente a missão, mas houve um imprevisto amargo. Quando, em balsas improvisadas, o gerador ia sendo levado de uma margem à outra de um curso fluvial, uma das balsas virou e o gerador mergulhou no rio.
    Um verdadeiro desastre, que doeu profundamente em cada um de nós. Foram precisos quatros meses para arrancarem-no do leito onde afundara. Mas no dia em que o gerador foi plantado lá em cima, no planalto, iluminando os pontos principais da cidade e também as repartições federais já instaladas, esse dia foi para nós de louvação a Deus e também de louvor à coragem e ao esforço dos brasileiros que haviam realizado a tarefa de transportar um gerador de 70 toneladas através de caminhos improvisados na hora, em muitos dos quais algumas casas de aldeias tiveram que ser derrubadas para que o trator que puxava o gigante pudesse passar.
     
    Agora, um outro aspecto da construção de Brasília. Logo que se espalhou a notícia de que uma cidade ia ser construída no planalto, acorreram ao local trabalhadores vindos de todos os pontos do Brasil. Uma coisa verdadeiramente extraordinária. E vimos como aqueles homens que ali haviam chegado descalços, bisonhos, sem qualquer aprendizado ou técnica, se transformaram logo em operários especializados, realizando suas tarefas como se tivessem freqüentado uma universidade.
     
    Durante mais de dois anos, viajei 204 vezes entre o Rio e Brasília. Como de dia estivesse ocupado, eu viajava sempre à noite. E mal desembarcava em Brasília, corria aos canteiros de obras para conversar com os trabalhadores. Era a maneira que encontrava de ajudá-los na sua dura tarefa.
    Dizia-lhes: “Esta obra não é minha, nem de vocês – esta obra é do Brasil. Temos de entregá-la no prazo fixado por nós mesmos, e por isso é que peço a vocês, encarecidamente, que cumpram, cada um, a sua tarefa”.
     
    Também a San Tiago Dantas ficamos devendo os recursos financeiros necessários para a construção de Brasília. Foi ele quem, no projeto aprovado pelo Congresso, estabeleceu os princípios que permitiram a Brasília dispor daqueles recursos, através de operações com órgãos de crédito e também através da venda dos terrenos em torno da futura capital. E é bom que eu repita aqui: custou infinitamente mais barato do que posteriormente procuraram fazer crer, inclusive, querendo atribuir-lhe a culpa da inflação brasileira.
    Basta dizer que o preço de Brasília, e isto é verdade fácil de ser comprovada, foi o correspondente a um ano de déficit da Rede Ferroviária Federal.
     
    Devo, ainda, a San Tiago Dantas a solução de um outro problema, igualmente sério. Disse-lhe, certa vez: “Meu caro San Tiago, se eu tiver que bater às portas do Congresso pedindo novas leis e créditos que me permitam concluir Brasília, não os terei. Porque quando a oposição perceber que Brasília vai ser mesmo construída, reagirá contra a minha pretensão da maneira mais implacável. Não posso correr tal risco, nem eu, nem Brasília, e daí a necessidade de que você me dê uma lei qualquer que me libere do Congresso”. Poucos dias depois, San Tiago me trazia a lei, mas disse, em tom de advertência: “Aqui está a lei. Mas o senhor terá de voltar ao Congresso de qualquer maneira, pois só ele poderá marcar a data da inauguração da nova capital”. Aquilo me surpreendeu. Mas logo encontrei a solução. Chamei ao Catete o deputado Emival Caiado, eleito por Goiás, e lhe disse: “O senhor poderá prestar um grande serviço ao seu estado e a todo o Brasil, conseguindo do Congresso uma lei marcando a data em que Brasília deve ser inaugurada”.
     
    Quando o Congresso tomou conhecimento do projeto do deputado goiano, marcando a inauguração de Brasília para o dia 21 de abril de 1960, recebeu-o como se fosse uma pilhéria. Mas o projeto foi aprovado, e a partir desse dia senti que Brasília era uma realidade, que não havia mais nada que pudesse impedir a sua concretização. Disse comigo mesmo: “Tudo dependerá, agora, apenas da minha ação, do meu entusiasmo. Mas hei de trabalhar dia e noite até alcançar o grande objetivo”.
     
    Para julgar os projetos, constituí uma comissão de três técnicos: um inglês, o mais famoso de todos, um francês e um norte-americano. No dia do julgamento, o arquiteto inglês me chamou de lado e, apontando um deles, disse: “Este é o que vai ganhar, o que deve ganhar. É o que tem genialidade”. O projeto que o arquiteto inglês me mostrava era apenas um pedacinho de papel, com rabiscos desenhados à mão. Procurei saber quem o assinava. E li, no rodapé do pergaminho, este nome: Lúcio Costa. Declarei ao arquiteto inglês que Lúcio Costa era muito respeitado no Brasil por sua capacidade e inteligência. O inglês me respondeu: “O projeto já pode ser considerado aprovado. Não precisamos mais de cinco minutos para escolhê-lo”.
     
    As emoções que senti, no dia em que Brasília foi inaugurada, ainda as guardo, todas, no coração e no espírito. Pelo menos 300 mil pessoas acorreram de todos os pontos do Brasil para assistir ao acontecimento. Presenciamos, então, o espetáculo de milhares e milhares de pessoas estendidas sob as árvores e debaixo das pontes, dormindo ao relento ou nos carros que as haviam trazido, ansiosas por serem testemunhas de um episódio que já adivinhavam histórico. É que o povo pressentiu logo o que seria, o que já era Brasília. E hoje ninguém mais discute que Brasília foi construída com 100 anos de atraso. Uma das razões pelas quais os Estados Unidos progrediram de maneira tão assombrosa é que eles conseguiram dominar e integrar as vastas terras do seu Oeste, criando novas fontes de riqueza em longínquas partes do país. No Brasil, até o advento de Brasília, dispúnhamos apenas do litoral, enquanto que o centro do país permanecia deserto. Ao construir Brasília, vi logo que era imprescindível, também, construir estradas que ligassem a nova capital às demais regiões do país.
     
    Ainda há pouco li, no discurso de um senador, hoje ministro, a declaração de que “Brasília foi uma aventura com êxito”. Ele tem razão – e o nome “aventura” é o que mandamos colocar na placa de inauguração de Brasília.
    Brasília e a Belém-Brasília foram duas fabulosas aventuras cada vez mais dignas da grandeza do nosso país.
     
    Li, também, uma referência a Brasília como sendo “uma obra poética”. Sim, uma obra poética, mas poética no sentido grego da palavra, para os quais poesia era ação.
    E Brasília é ação guiada por um sonho que os brasileiros alimentavam há mais de 200 anos.
     
    O mundo inteiro já sabe da importância de Brasília nos destinos do Brasil. Hoje, com mais de 300 mil habitantes, a nova capital aglutina em torno de si mais de um milhão de pessoas, residentes nas várias pequenas cidades das vizinhanças, gente vinda de todos os pontos do Brasil.
    Naquilo que, pouco antes, era um deserto plano, ermo e de vegetação rasteira, brota hoje uma vida nova. Muito antes do que esperávamos, Brasília já está dando os frutos que – sabíamos – haveriam um dia de nascer naquele chão que domamos.
     
    Texto transcrito da Revista “Brasília Em Dia”, número 689, de 17 a 23/abril de 2010.


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    O Grande Dia

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    Dia 21 de abril
    (quinta-feira)

    Madrugada
    Já quase todos haviam se retirado, sob o domínio de uma profunda emoção. Só as luzes dos palácios e dos ministérios, atravessando as paredes de cristal, inundavam de alegre claridade os largos espaços da esplanada nua e silenciosa.

    Juscelino também se fora. Eram duas horas da manhã. De pé, diante do Palácio da Alvorada, o Presidente contemplava, ao longe, a cidade iluminada. Alguns amigos e convidados o cercavam. Um deles comentou: “A missa… que coisa maravilhosa!” E Juscelino, a voz contida: “É… creio que nunca mais veremos coisa igual!”

    O amanhecer
    Dormiu-se pouco, naquela noite. Às 8 horas da manhã – fraque, cartola, colete preto – estavam todos de novo na Praça dos Três Poderes.

    Em uniforme de grande gala, os Dragões da Independência montavam guarda ao palácio, com suas lanças embandeiradas. Clarins do Batalhão de Guardas executaram o Toque da Alvorada, a 1ª. Alvorada de Brasília.

    Pequena multidão, ali já concentrada, guardou silêncio. Juscelino hasteou, em seguida, a bandeira brasileira, ao som do Hino Nacional, tocado pela Banda dos Fuzileiros Navais, enquanto troavam os canhões numa salva de 21 tiros. Militares presentes perfilaram-se e bateram continência; alguns, inteiramente envolvidos pela magia e força do momento, esqueceram-se de fazê-lo.


    Foto: Arquivo Público do DF

    O Presidente pronunciou rápida oração, destacando que o país crescera. E afirmou que sentia naquele momento, ao hastear o pavilhão nacional, “a mesma vibração, o mesmo entusiasmo, o mesmo tremor” que certamente estariam sentindo todos os que, naquele dia festivo, “nos quatro cantos da pátria”, repetiam seu gesto do hastear a nova bandeira com uma estrela a mais, a simbolizar que o país se tornara maior.

    Sob a proteção de Deus
    Às 9h30 teve inicio a Reunião Solene do Ministério, ato formal de instalação do Poder Executivo na nova Capital.

    Cerimônia rápida, não durou mais que dez minutos. O ambiente era de pura alegria. Ministros, governadores, embaixadores em missão especial, altas patentes das Forças Armadas, convidados e jornalistas, cumprimiam-se no salão. Juscelino leu seu discurso de sete minutos.

    Lembrou que naquele dia virava-se uma página da história do Brasil e pediu que os pais explicassem aos filhos que fora sobretudo para eles que se erguera a cidade, para eles, os jovens, que nos iriam julgar no futuro.

    As palavras finais do discurso, o Presidente as disse marcando cada palavra:

    “Neste dia – 21 de abril – consagrado ao alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, ao centésimo trigésimo oitavo ano da Independência e septuagésimo primeiro da República, declaro, sob a proteção de Deus, inaugurada a cidade de Brasília, capital dos Estados Unidos do Brasil.”

    Ao cessarem os aplausos, o Ministro da Educação, Clovis Salgado, passou ao Presidente a íntegra da Mensagem que o chefe da Nação devia enviar ao Congresso Nacional, propondo a criação da Universidade de Brasília. Ao receber os documentos, o Presidente declarou que sempre tivera o desejo de que seu primeiro ato na Nova Capital fosse a criação de uma universidade. Os presentes aplaudiram. Juscelino leu o artigo 1º do projeto e depois assinou a Mensagem com uma caneta de ouro que a cidade de Goiânia lhe ofertara para o ato.


    Supremo Tribunal

    De todas as solenidades oficiais a mais singela foi a instalação do Poder Judiciário. No mesmo horário em que acontecia no Palácio do Planalto a reunião solene do Ministério, tendo a assisti-la toda uma multidão de autoridades, jornalistas e convidados, do outro da praça, no edifício do Supremo Tribunal Federal, os Ministros da Egrégia Corte, de toga e capelo, também se reuniram, em cerimônia presidida pelo Ministro Frederico Barros Barreto, que evocou lição de Rui Barbosa ressaltando que nos países democráticos a Justiça é o eixo do regime e a própria essência do Estado. Ressaltou, também, esperar o surgimento de uma nova era nos destinos da Pátria, a partir da inauguração de Brasília.

    O Procurador Geral da República, Carlos Medeiros da Silva, congratulou-se com a Nação Brasileira pelo cumprimento do dispositivo constitucional que mandava transferira a Capital para o interior do país, “sonho dos pioneiros de nossa independência política e compromisso da república consubstanciado em três assembléias constituintes”.

    Por último, o Ministro Nelson Hungria afirmou seu convencimento de que em Brasília, “longe dos rumores da babilônia carioca, longe daquela cidade tentacular que os absorvia até à medula, os Ministros poderiam fazer uma justiça mais profunda e mais refletida.”


    Congresso Nacional

    Da catedral Juscelino se deslocou para o prédio do Congresso Nacional. Formou-se, novamente, o interminável cortejo de automóveis.

    A multidão que se concentrava em torno do edifício, nos seus acessos, nos salões e corredores, tornava quase impossível a caminhada do Presidente e das autoridades que o acompanhavam.

    Uma Comissão de parlamentares havia sido designada para conduzir JK ao gabinete do deputado Ranieri Mazzilli, Presidente da Câmara, mas naquela confusão “se perdeu”, misturando-se com a multidão.

    Foi nessa hora que o deputado José Bonifácio de Andrada, primeiro secretário da Câmara, improvisou, com a ajuda de funcionários do Congresso, uma “faixa de segurança”, um semicírculo em torno do chefe de governo, permitindo que ele pudesse atravessar a multidão.

    José Bonifácio, deputado pela UDN, o maior partido da Oposição, fora contrário à construção de Brasília e era adversário de JK em Minas Gerais, Mazzilli aplaudiu a iniciativa do deputado e lhe pediu que abraçasse Juscelino.

    - “Abraço sim”, disse o deputado oposicionista; “sou amigo de Juscelino. Nossas diferenças são apenas políticas e se não melhoram é porque ele nos pregou esta peça…”

    A peça a que se referia era, naturalmente, a construção de Brasília.

    O Presidente rindo, e numa alusão à idéia pioneira do outro José Bonifácio, o Patriarca, ascendente do deputado, lhe disse:

    - “Quem lhe pregou esta peça, Zezinho, não fui eu mas seu avô…”

    O programa oficial, previa que o Senado e a Câmara realizariam, separadamente, no começo da manhã, sessões próprias de instalação na nova Capital. Duas horas depois haveria, então, a reunião conjunta, solene, das duas Casas, com a presença do Presidente da República, do Legado Pontifício, dos Embaixadores em Missão Especial, do Presidente do Supremo Tribunal, dos Ministros, Governadores e outras autoridades e convidados. Na véspera decidiu-se realizar, apenas, a sessão conjunta.

    Ao entrar, Juscelino, às 11h40min, no plenário da Câmara, acompanhado da refeita Comissão de parlamentares, foi acolhido com intensa ovação. Autoridades e convidados, deputados e senadores e o povo que superlotava as galerias, prorromperam em aplausos e gritos de “Viva Juscelino”, enquanto o Presidente atravessava o corredor central até chegar ao seu lugar na mesa, de onde acenou repetidamente aos que o aplaudiam. Durante os discursos, sempre que seu nome era mencionado, novas manifestações de entusiasmo se verificavam.

    O vice-presidente da República e Presidente do Congresso Nacional, João Goulart, abriu a sessão e, no discurso que em seguida leu, declarou oficialmente instalados os trabalhos do Congresso Nacional na nova Capital.

    Falaram, também, Filinto Muller, Vice-Presidente do Senado e Ranieri Mazzilli, Presidente da Câmara.

    No encerramento da Sessão Solene, João Goulart designou a mesma comissão que introduzira o Presidente no recinto para acompanha-lo até à rampa de saída, mas o hall do prédio fora literalmente tomado por massa humana que, à força, tentava agora carregar nos ombros o Presidente até seu carro. Foi necessária muita persuasão para evitá-lo, trocando JK a “homenagem” pela assinatura de centenas de autógrafos dados na hora.


    Fraque e cartola

    Detalhe que não passou despercebido na ocasião, foi a resistência da maioria dos parlamentares ao uso do fraque e da cartola. Os Senadores, quase todos, compareceram vestidos a rigor, mas foram poucos os Deputados que o fizeram e estes não escaparam à brincadeiras dos colegas. Defendiam-se explicando que o protocolo fora discutido com a Mesa da Casa e aprovado, não se justificando, assim, as críticas, posto que eles, os de fraque e cartola, apenas cumpriam o protocolo.


    Foto: Arquivo Público do DF

    A propósito dos trajes a rigor, algumas cerimônias exigiam fraque, outras pediam casacas. Nem todos os convidados dispunham de tais trajes. A solução fora recorrer a casas especializadas em aluguel de roupas. Havia contudo, por parte das autoridades, o temor de que alguns indesejáveis pudessem valer-se do expediente para insinuar-se em recepções onde não deveriam estar. Por isto as Polícias do Rio de Janeiro e de outras capitais solicitaram às casas alugadoras que lhes submetessem previamente os nomes dos pretendentes. A medida revelou-se, na prática, muito acertada.

    Na cidade ainda em obras, predominando na paisagem a terra nua dos amplos espaços ainda sem grama, donde se levantava fina poeira à brisa do outono, era realmente um espetáculo curioso o contraste de sisudos senhores de fraque e cartola a cruzar, sob o sol forte de abril, com os alegres candangos de calças e camisas de brim, velhos chapéus desabados na cabeça. Mas era confortador verificar que traziam todos, indistintamente, no olhar, o brilho de uma esperança renovada no destino do Brasil.

     

    Prece natalícia
    Terminara antes do previsto a solenidade no Congresso Nacional e assim o Presidente chegou ao Museu, local da cerimônia seguinte, ali perto, na mesma Praça dos Três Poderes, mais cedo do que devia. E decidiu dar inicio imediato à cerimônia.

    O povo, que se concentrara em torno do Congresso, ao ver JK na Praça aglomerou-se diante do monumento. A PE – Polícia do Exercito tentou manter afastados os populares e com isto provocou pequena confusão, contornada por Juscelino que, acenando, mandou o povo se aproximar.

    O Museu, erguido para guardar os documentos mais importantes ligados à construção da cidade, era uma obra de aspecto inusitado, semelhante a um”T” de traço horizontal bem longo e haste vertical curta e excêntrica. Essa posição excêntrica do apoio transmitia uma sensação de equilíbrio precário. Também, vista de relance, a obra parecia não ter portas nem janelas. Na verdade, um projeto curioso, concebido por Niemeyer.

    Na parte voltada para os edifícios do Congresso, uma placa de mármore resumia os episódios marcantes da interiorização da Capital.

    Essa placa fora retirada às pressas, poucos dias antes da inauguração, para que se procedesse a uma alteração sugerida por historiadores prudentes. Nela se gravara:

    “1789 – Na antevisão da liberdade, o inconfidente Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, inscreve em seu programa a localização da Capital no interior”.

    Na nova placa ficou assim:

    “1789 – Na antevisão da liberdade, os Inconfidentes inscreveram em seu programa a localização da Capital no interior.”

    No apoio vertical do prédio fixou-se uma escultura, voltada para a Praça, reproduzindo a cabeça do Presidente. A idéia inicial fora a de colocar um pedestal diante do Museu e nele um busto de Juscelino, fundido em ouro de Diamantina; mas prevaleceu o bom senso e decidiu-se por uma escultura de pedra sabão mineira. Essa escultura, apenas da cabeça, foi fixada diretamente no monumento, eliminando-se o pedestal. O escultor José Alves Pedroso modelou em gesso e os irmãos João e Bruno Prati, “italianos de São Paulo nascidos em Verona”, reproduziram em pedra sabão, num trabalho ininterrupto de 12 dias.

    Foi simples a cerimônia. Guilherme de Almeida, “Príncipe dos Poetas Brasileiros” e membro da Academia Brasileira de Letras, leu seu poema “Prece Natalícia de Brasília” – e a cerimônia encerrou-se.

    Aproveitando-se dos abraços e cumprimentos ao autor, logo após a leitura da “Prece”, um repórter apoderou-se dos originais, que se encontram, desde então, não se sabe onde.

    Guilherme de Almeida fez presente a Juscelino de uma cópia do poema em pergaminho, com iluminuras no mais puro estilo medieval, gravadas por um ex-religioso dominicano.

     

    Fogos de artifício e baile popular
    A queima, na Plataforma Rodoviária, de quase trinta toneladas de fogos de artifício, prevista para as 19h30min, só começou uma hora e meia depois, em razão do atraso da parada. Mas valeu a pena esperar.

    De qualquer ponto da cidade podia-se acompanhar o espetáculo maravilhoso. Via-se no céu a explosão colorida de uma cascata de luzes e comentava-se: “Mais bonito do que este não pode haver!” E logo outro mais lindo, mais espetacular, nos tirava o fôlego. A certa altura os fogos em luzes escreveram no céu “Brasília 21 de abril de 1960” e desenharam em luzes a figura de Juscelino. Depois, em rápida sucessão, surgiram as imagens de Lúcio Costa, de Niemeyer e a de Israel.

    Alguns convidados, que haviam assistido em Londres à coroação da Rainha Elizabeth, afirmaram que os fogos da inauguração da cidade suplantaram as da coroação.

    Durante mais de uma hora Brasília viveu um sonho.

    Transcrito do livro “Memória da Construção”, de L. Fernando Tamanini.

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    Prece natalícia de Brasília

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    Prece natalícia de Brasília

     

    Agora e aqui é a Encruzilhada Tempo-Espaço.

    Caminho que vem do Passado e vai ao futuro;

    caminho do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste:

    caminho de ao longo dos séculos,

    caminho de ao longo do mundo:

    - agora e aqui todos se cruzam

    pelo sinal da Santa Cruz.

     

    Ave, Cruz! Tanta cruz pelos caminhos,

    através de tanto tempo e tanto espaço!

    Deus de braços abertos para os homens,

    do broquel dos Cruzados estampou-se,

    potentéia, de goles e vazada,

    no velame das naus da Descoberta.

    Do Restelo veio ela ao Mar Ignoto

    e, seguindo “por este mar de longo”,

    na passagem de linha, à noite, quando

    mergulhou no horizonte a Tramontana,

    o céu de lua-nova persignou-se

    no Cruzeiro do Sul de Mestre João,

    Vera Cruz, Santa Cruz – chamou-se a terra

    achada, e “em tal maneira graciosa”

    que deu árvore sua à cruz chantada

    para a missa, e que foi padrão de posse,

    armoriada de quinas e castelos.

    Crucifixo foi a arma que, nas selvas,

    contra as flechas ervadas empunharam

    Ad majorem Dei gloriam as missões.

    Signo heróico daqueles que partiam

    do cruzeiro dos adros aos sertões,

    foi o gesto, na gesta das Bandeiras,

    do que elevou a mão para benzer-se

    e levou-a depois à cruz da espada.

    Presidiu o amoroso cruzamento

    dos três sangues que as redes e as esteiras

    conheceram nas ocas e senzalas.

    Subiu a um cadafalso de ignomínia

    para o beijo final de um sonhador.

    Sobre a esfera-armilar de uma coroa

    e no centro estelar de uma bandeira

    foi o fulcro supremo do poder.

     

    E da intersecção de auroras e poentes

    - setas em cruz sobre arcos retesos –

    partiram os dias, partiram as noites,

    cruzaram os ares, cruzaram as terras,

    por séculos e anos e luas e…

    …E, um dia augural,

    num alvo papel pregado à prancheta

    a cruz sempiterna pousou sua sombra

    e – um traço, outro traço –

    “do gesto primário, de quem assinala um lugar”:

    dois riscos cortando-se em ângulo reto, e, pois, de uma cruz

    nasceste, BRASILIA!

    E, sublimação do “gesto primário”,

    ponto de encontro das fundas raízes do Tempo e do Espaço,

    emerges da terra em forma de cruz.

    E, porque és Cruz, és Fé; e, porque és Fé, Brasília,

    sozinha no plaino serás a intangível, a ilesa:

    na sombra, a teus pés, não se há de tramar

    o torvo conluio dos quatro elementos,

    nem contra os teus muros as fúrias adversas prevalecerão.

    Chuva que te inunde,

    vento que te açoite,

    sol que te incendeie,

    bruma que te agoure,

    raio que te toque:

    - tu secarás a chuva,

    abaterás o vento,

    apagarás o sol,

    dissiparás a bruma,

    conjurarás o astro,

    embotarás o raio!

     

    Aí estás, BRASÍLIA! E como estás vivendo

    belamente este instante que é, de todos

    os teus instantes, o eternizador!

    Ai estás, BRASÍLIA do olhar de menina! Menina-dos-olhos

    olhando sem mágoa o Passado e sem medo o Futuro,

    sem ver horizontes na terra e no céu porque eles recuam

    ao impacto impetuoso das tuas pupilas;

    com teu meridiano que foi Tordesilhas:

    corda torcida que os teus ancestrais distenderam

    para que aos quatro vento soltasses agora o teu gesto de setas

    - és tu, juvenília, “non urbs sed civitas”,

    o centro da Cruz, Tempo-Espaço,

    plantada no teu Quadrilátero,

    com suas quatro hastes que são quatro séculos,

    e são quatro pontos cardeais,

    e são quatro ciclos de ação:

    o da Descoberta, o do Bandeirismo,

    o da Independência e o da Integração.

    Feita do fluxo e refluxo das forças que dão o poder,

    centrípeta para tornar-se centrífuga,

    BRASÍLIA, é a tua Cruz da Quarta Dimensão, e Tetragrama

    do Milagre Novíssimo que és tu;

    a que dirá “Presente!”, impávida, ao chamado

    do fasto e do nefasto; a que é o Marco Zero

    das vias todas, da mais ínvia à mais viável;

    o ímã para a limalha de aço do Trabalho;

    a ponta do compasso autor da Eqüidistância;

    BRASÍLIA, a tua Cruz que é Presépio também

    e a cujos pés a ti, no teu Natal, rogamos:

    - Barca de esperança,

    Carta de marear,

    Rosa-dos-ventos,

    Vela de conquista,

    Figura de proa,

    Bandeira de popa,

    Torre de comando,

    Estrela de mareante,

    Porto de destino

    Ancora de firmeza,

    Portal do sertão,

    Corda de arco,

    Farpa de flecha,

    Doutrina na taba,

    Foice de desbravamento,

    Clareira na selva,

    Clarinada no ermo,

    Bateia de garimpo,

    Diadema de esmeraldas,

    Crisol de raças,

    Ara de liberdade,

    Trono de império,

    Barrete frígio,

    Toque de alvorada,

    Meta das metas:

     

                                                                    - Vive por nós!

     

    Guilherme de Almeida, poeta natural de Campinas, São Paulo.

    Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

     

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    A derrota dos cretinos

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    A derrota dos cretinos
    Nelson Rodrigues

    O carro encosta na estrada. Uma mocinha salta. Dezesseis, dezessete, no máximo dezoito anos. Na sua graça ágil, no seu passo leve, corre para o mato. Os cabelos presos num lenço fino. Outros carros vão passando e vêm à urgência pânico da mocinha. Em seguida, a pequena some, liricamente, atrás de um arbusto. O automóvel espera à beira da estrada.

    Quanto tempo passaria, lá, a adolescente? Não importa. O que importa é que, nas vésperas da inauguração de Brasília aquela cena de estrada repetiu-se dez, vinte, trinta, cinqüenta vezes. Íamos nós, eu e o Tenente-Coronel Moacir Matos Oliveira, num comboio do CPOR, do Rio de Janeiro. Três ônibus, com oitenta e poucos alunos. O Coronel Álvaro convidara-nos a mim e ao Tenente-Coronel Moacir para acompanhar a caravana. E justiça se faça: os três ônibus cumpriam uma meta pesada, quase bovina, de cinqüenta ou na melhor das hipóteses, sessenta quilômetros. Que experiência densa, apaixonante, viajar, não num jato, mas em três briosas carroças encantadas. Conhecemos então esta coisa comovente que é a Estrada Belo Horizonte-Brasília que não pára, não cansa, que assombra com seu asfalto interminável e épico.

    Mas como eu ia dizendo: À medida que o comboio se aproximava de Brasília, começamos a ver carros parados na estrada. Sempre meninas fugindo docemente para o mato e fazendo de um arbusto o biombo do pudor. Era lindo. Digo “lindo” e já acrescento: — Inédito. De fato, o “pipi na estrada” (feminino) foi o detalhe novo da inauguração de Brasília. Não me lembro, em toda a minha experiência rodoviária, de ter visto nada parecido. Homens, sim. Nunca mocinhas e muito menos com tamanha constância.

    O Asfalto Honesto

    Dir-se-ia que a cistite física às portas da grande cidade era um sintoma nacional. O Brasil tem a sua primeira e última Brasília. Por que não se comover até as profundezas? As meninas que saltavam na estrada, que se escondiam atrás da moita densa, percebiam, instintivamente, que a História as solicitava. Ainda bem que nós e os alunos do CPOR estávamos embaixo e não lá em cima. Como o chão é realmente mais empolgante que as altitudes tremendas? Não há Céu tão genial como o simples e honesto asfalto da Belo Horizonte-Brasília. Com que tensão, com que gana os alunos do CPOR e o Major Rodin que os comandava, se prepararam para entrar em Brasília!

    Pó Fundamental

    Para mim, uma das coisas fundamentais de Brasília é que, no futuro, devem ser provocadas artificialmente, é o pó. Quando entramos, erguia-se, na cidade, um pó cor de canela. Tive, então, a idéia de que, depois de aspirar essa emanação gloriosa, o sujeito venta fogo! O poeta Carlos Drummond de Andrade escreve que os Vereadores Gladstone de Melo e Dulce Magalhães estão limpos da “poeira de Brasília”. Falso elogio e digo mais, falsa, indesejável e comprometedora limpeza. Todos nós, inclusive o poeta, inclusive os Vereadores citados e todos os outros, deviam se encharcar do santo pó do Planalto — o pó que curou a alma do Oto Lara Rezende:

    Horror Simbólico

    Esse horror granfino ao pó tem, como é óbvio, muito de simbólico. O que se esconde, ou melhor, o que não se esconde por trás dessa alergia, é o sonho de uma confortabilíssima honestidade em Copacabana, sem risco, sem atropelo e com um imaculado asseio físico. Eu imagino o Sr. Gladstone de Melo como simples candango, sujando-se limpa e nobremente no pó de Brasília e, depois, expelindo fogo pelas ventas. Vendo-o dar duro no Planalto, bater o martelo, entupido de barro, eu bateria nas suas costas épicas: — “Muito bem, Gladstone, muito bem! Até que enfim você está sendo útil!”Outro que eu gostaria de ver, aqui, dando rijas e saias marteladas, era o próprio Carlos Drummond.

    Certeza Fanática

    Foi bom que os rapazes do CPOR andassem pelo Planalto. Eles conversaram com os candangos, morderam o pó sagrado de Brasília. E, sobretudo, viram a mais bela cidade do mundo. Eu sei que, segundo os inimigos de Brasília, a beleza passou a ser uma indignidade. Diante do belo, do simplesmente belo, rosnam: — “Fascismo! Fascismo!” E, no entanto, o paralelepípedo mais analfabeto teria vontade de chorar lágrimas de esguicho ante a beleza de Brasília. Na Praça dos Três Poderes, o brasileiro que não viajou nada, que não passou do Méier, é atravessado pela certeza fanática: —A Praça de São Marcos não chega aos pés da nossa. Eu não me esqueço de uma moreninha, leitosa de corpo e de rosto, que, diante do Palácio dos Despachos, dizia no seu deslumbramento:— “Acabo tendo um filho pela orelha!”

    Primeira Missa

    Essa mocinha anônima, que chegava dos cafundós do Judas, e que falava em dar à luz pelo ouvido, fazia mais que uma piada ginecológica. Ela traduzia todo um estado de alma histórico e nacional. Amigos, eu quero dizer por fim: — Andou bem o Coronel Álvaro, do CPOR, em oferecer aos alunos a maravilhosa experiência humana e brasileira, que é uma simples visita ao Planalto. Ir a Brasília é voltar mais brasileiro. Se o Corção estivesse lá à meia-noite, de vinte e um, na Praça dos Três Poderes, havia de arrancar do fundo de sua acidez de magro e de lívido a confissão total: — “Esta, sim, é a Primeira Missa do Brasil”!

    Crônica de Nelson Rodrigues sobre a inauguração de Brasília publicada no Jornal Ultima Hora, em 22 de abril de 1960.

     

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    Máscara de Pedra

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    Máscara de Pedra
    Por Israel Pinheiro


    Foto: Arquivo Público do DF

    Durante três longos anos minha preocupação única consistia em dedicar um esforço sem limites para entregar a cidade em condições de ser inaugurada na data marcada. Atingir esse objetivo exigia que trabalhássemos como se cada hora fosse a última hora concedida e a madrugada viesse iluminar o dia festivo da inauguração. Não nos foram permitidos o ócio, a pausa, a vacilação. Era condição de vitória que todos multiplicassem o esforço para cumprir o compromisso assumido com a Nação, levando, se preciso, seu entusiasmo pelo trabalho e sua identificação com a obra até o limite crucial do próprio sacrifício.


    Para conseguir nível tão excepcional de rendimento no trabalho, era necessário que o Chefe encobrisse seus próprios sentimentos sob uma aparente armadura de insensibilidade. E assim sofri, durante três anos imensos, que o Presidente da Novacap fosse apontado como incapaz de premiar e de reconhecer, devorador insaciável de energias e dedicações.

    Hoje, que o compromisso com a Nação foi pago no devido tempo, posso me despir daquela armadura que me sufocou por todo o período de construção da nova Capital e abrir minha alma aos amigos e companheiros de todas as horas.

    Deliberadamente nunca tolerei que os meus mais íntimos sentimentos filtrassem através da austeridade que me impus e nunca fui pródigo em elogios e manifestações de agrado. Pretendia incutir-lhes a flama do incentivo apenas com o meu apoio e o meu exemplo. Temia que manifestações de regozijo por um bom resultado parcial pudessem levar, na valorização de um imediatismo efêmero, a uma enganadora euforia de vitória total. Mas minha maior alegria, nos momentos de recolhimento espiritual, sempre foi registrar, no meu foro interior, o valor de cada um dos meus companheiros de jornada, cercando-os de toda a força afetiva do meu coração. Por isso, sinto-me agora liberto e inteiramente à vontade para pedir-lhes que me perdoem ter usado, durante três anos infindáveis, a máscara de pedra do Presidente da Novacap.

    Trecho do discurso de Israel, então Prefeito do Distrito Federal, por ocasião da homenagem que lhe prestaram amigos e funcionários na data de seu natalício
    (4-1-1961)

    Fonte: “Brasília: Memória da Construção”, de L.Fernando Tamanini

     

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    BRASÍLIA: Capital da Utopia

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    A idéia da construção da Nova Capital do Brasil é contemporânea de nossos colonizadores, transformou-se em ideal inconfidente, em símbolo para o Patriarca de nossa Independência, serviu como bandeira de luta para os nacionalistas e virou, por acaso, a meta-síntese da pregação desenvolvimentista do Presidente JK.

    Uma Utopia.

    Brasília estava no subconsciente da nacionalidade como o Graal, o Macchu Picchu, Atenas, o Sangri-Lá ou como Jerusalém ou a Meca antecipatórias.
    As capitais anteriores – Salvador e Rio de Janeiro – serviram às estratégias mercantilistas da metrópole ultramarina. Brasília seria o verdadeiro inicio de uma nova era, de um avançar sobre a geografia para tomar posse definitiva de suas riquezas e redimir o seu povo, para fecundar a terra com os valores da ideologia prática da integração nacional.

    Brasil-capital-Brasília como afirmação – tautológica mas teleológica – de um Brasil brasileiro. Um recomeçar do centro para o litoral, de dentro para fora, em busca de uma unidade ameaçada e preservada por milagre, por teimosia, por casualidade. Como conservar unidos esses “brasis” tão díspares, tão dissímeis, tão múltiplos mas nunca antagônicos e conflitivos? Que nos une na diversidade e na adversidade?
    Brasília seria, então, uma catedral votiva a essa unidade. Mais: uma escalada no processo de fusão, uma sentinela avançada na força catártica e miscigenatória de raças, valores, energias criativas. Nunca um monumento pétreo e fossilizado. Antes, o campus avançado da intelligentsia brasileira, o laboratório de teste dessa pretensa convergência ou confluência de talentos, de iniciativas, de programas redentores.
    A Utopia brasiliense foi embalada por imaginações conseqüentes. Inseminada de idealizações premonitórias. Eivada de crenças adventícias. Postulada por raciocínios redentoristas. Formulada por criadores platônicos, buscando o eidos, sua forma original e própria, ditada pela tradição de nossa brasilidade, irremediavelmente moderna.
    Uma brasilidade que é compreendida por todos mas é indefinida: que é, mas não se mostra; que é sensível mas não é inteligível porque está em formação; tem mil faces, tem mil arestas despistadoras mas subjace, sublinha, delineia nossa forma, nosso jeito, nossa existência.
    A literatura sobre essa Utopia perde-se no tempo de nossa História. Uma história curta, recente, em parte tomada emprestada mas que nos amolda e estabelece e nos serve de espelho e fonte de inspiração.
    Uma espécie de Oráculo ao qual acudimos mais com a intuição e a sensibilidade do que com o raciocínio e a Razão. Todos os caminhos de nossa História pareceriam conduzir-nos a Brasília.
    Dom Bosco previu a construção de Brasília no ensejo de uma generosa profecia. O profeta tem a capacidade de antever acontecimentos, de projetar-se sobre o inexistente e o desconhecido. Ele cria o insumo básico que alimenta a esperança do homem, que delineia o seu sonho e dimensiona a sua expectativa humana.
    Malraux foi um visionário em outro sentido: ele entendeu o significado da utopia brasiliense no que ela contribuía para a reavaliação da condição cultural do homem moderno diante dos desafios do progresso, da manutenção da paz, da liderança da inteligência criativa e redentora.
    Em tal contexto, Brasília figurou-se-lhe como uma esperança em vias de realização, isto é, como uma força coletiva liderada pela utopia.
    Juscelino foi a vanguarda do progresso, a liderança catalizadora do pensamento utópico de vastos segmentos da sociedade brasileira.
    Meta-síntese, ou meta das metas, Brasília significava a culminação de uma revolução redentorista, propulsada pelo desenvolvimentismo obstinado do ex-Presidente. Residia naquela determinação a essência da Utopia: a materialização de um desejo inteligível e com partilhável ao nível dos indivíduos que dela participavam.
    Toda profecia vai além da vontade humana para vislumbrar as conseqüências últimas de seu destino maior. A utopia é sempre uma proposta de realização concreta, que pode ser, à medida que o indivíduo se empenhe, fervorosamente, em sua concretização.

    Os jovens franceses que tomaram Paris de assalto, na madrugada da Revolução de Maio (1968), foram movidos pela utopia, pela crença de que eram realistas e acreditavam no impossível. Faltou-lhes a estratégia, a organização necessária, a liderança efetiva para atingir os objetivos.

    A idéia de Brasília foi alimentada, durante séculos, como um sonho e uma aspiração vaga de afirmação da unidade e da confluência de forças da integração nacional. O sonho, porém, apenas sublinha o espírito mas não o move, necessariamente. Sua elevação à categoria de pensamento utópico é que transformou Brasília em uma bandeira de luta, em um estandarte para a grande caminhada, uma palavra de ordem para a batalha maior.

    Seria a Nova Atenas platônica, redimida dos vícios e crimes da cidade litorânea e pregressa, exposta aquela às influências nefastas dos costumes estrangeiros. Construir-se-ia uma espécie de oásis onde se pudesse cultivar o espírito democrático e racional, fugir do hedonismo desagregador, da corrupção reacionária, do comodismo prevaricador e entreguista.

    A cidade da perfeição, do ultraismo, onde a inteligência e a sabedoria imperassem sobre o egoísmo e o oportunismo dos homens no poder, harmonizando as forças dos Três Poderes que regem os destinos da cidadania.

    Brasília, para as aspirações nacionais do juscelinismo, converteu-se em Capital da Utopia, em promontório a ser conquistado, em ponto de irradiação de novos valores. Ela não se esgotaria em si mesma. Ao contrário, Brasília seria o símbolo, o lugar de conjunção de forças, o zênite de um processo multiplicador e emancipatório.

    (…)
    A Utopia de Brasília é desse tipo de imanência e evidência que levita em todo escrito sobre a Nova Capital, embora uns escritores fiquem na imediaticidade dos fatos correntes ou mesmo passados e outros escapem pelas metáforas ou rimas modernistas.
    (…)

    Antonio Miranda
    Texto extraído do Prefácio do livro “Brasília: Capital da Utopia”, de Antonio Miranda.

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    A Posse

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    A Posse
    Por Clemente Luz


    Foto: Arquivo Público do DF

     

    Dos quadrantes da Pátria, marcharam as colunas, para a posse da terra conquistada no Planalto. Através das extensões mediterrâneas de Minas e do continente confinado de Goiás, veículos e homens, na mesma luta contra o desconforto das estradas ainda em formação, ainda cobertas de barro e poeira, caminhavam para o mesmo objetivo e aqui chegaram, em horas diferentes, para o encontro de hora certa, aos pés do feixe de colunas da Catedral em obras. Colunas móveis marcharam para o encontro de colunas fixas, plantadas na terra, pela eternidade do ferro e da pedra, que o homem transformou em semente moldável e generosa.

    Homens e veículos, cobertos da mesma poeira ou enlameados do mesmo barro, trouxeram, até o sítio onde se ergue a nova Cidade, o cheiro das selvas inconquistadas da Amazônia, as surpresas dos grandes descampados e o marulhar, sempre renovadas, dos rios, sobre cujos leitos se estenderam as pontes. Os pontos esparsos da Pátria, separados por rios e florestas, por montanhas e abismos, por solidão e abandono, começam a ligar-se, através dos fios das estradas, abertas na direção dos ventos. Homens e máquinas chegaram, para marcar, com outros homens e outras máquinas, aos pés simbólicos da cruz, a posse da terra, destinada a ser o cérebro e o coração da Pátria do povo.

    Como pontas de um imenso leque, a grande marcha terminou com a convergência das colunas de veículos sobre a área do Park Way Dom Bosco, ponto de partida e chegada de todas as estradas que sairão de Brasília. O Posto da Petrobrás em construção, com sua forma de cogumelo azul, prenuncia a aglutinação dos postos de gasolina, que guardarão, no seio dos imensos tanques, a força do petróleo, que o subsolo brasileiro começa a oferecer à Nação…

    Na manhã fria, com a neblina renitente descendo sobre a cidade, os carros e os homens recém-chegados aguardavam, como colunas guerreiras, prontas para a luta prenunciada, a última revista do comandante e a palavra de ordem final. Só que, na manhã nevoenta de janeiro, a palavra não seria propriamente de ordem de luta, mas de aplauso e de entusiasmo, pela batalha concluída com sucesso.

    De manhã, sob a névoa que impedia o extravasamento alegre do sol sobre o planalto, talvez a mais singela e mais tocante cerimônia de “revista a tropas” jamais vista… Nenhum pensamento de conquistas territoriais sobre nações ou grupos de humanos. Nenhum desejo de grandeza, maior do que a própria  grandeza conquistada e consolidada pela extensa marcha… Homens e máquinas, irmanados, recebiam, com efusão, o gesto simples do homem que os saudava, em nome de todo o povo.

    E, ao invés da continência militar, da posição de sentido indefectível do guerreiro, da exibição de frias armas de destruição, braços se ergueram para o céu, agitando mãos vitoriosas, que dirigiram veículos de fabricação nacional – praticamente os primeiros, através das novas estradas abertas no território antes abandonado. E, nos gestos das mãos, no sorriso dos lábios e no brilho dos olhos, a esfuziante alegria de gente vitoriosa.

    Com seu sorriso de permanente esperança, de otimismo contagiante, Juscelino Kubitschek passou revista às vitoriosas Colunas de Integração Nacional, que convergiram para o Planalto, para a posse da terra conquistada.

    A pequena “romiseta”, mais vidro do que ferragens, recebeu o homem, que se acomodou em seu interior, para aguardar, sob as colunas da Catedral, defendido da umidade, o ato final da grande marcha. O “Bolha d’água” – este o apelido que o povo deu ao minúsculo e extravagante veículo – rolou sobre o asfalto da Esplanada dos Ministérios e estacionou no lugar que lhe estava destinado, perto do Altar recém-montado. Através do vidro do “Bolha d’água” que o abrigava em seu bojo, JK olhava os extensos espaços vazios da Esplanada, fixando os olhos na Rodoviária quase concluída, de onde surgiram os veículos em marcha. O homem, que se abrigara da umidade, embora aparentasse calma, se remoia de impaciência e contava os segundos, em seu relógio de pulso, no próprio pulsar do coração agitado pelos acontecimentos. O menino, que se abrigava do tempo, na memória do homem, acordou de seu sono cinquentão mais uma vez, e veio roer as unhas, impaciente e inquieto, sob as colunas eternas da Catedral…

    Debaixo do céu úmido da manhã de janeiro, a multidão aguardava.

    As caravanas chegaram, os homens deixaram os carros e caminharam para o lugar preparado para a Missa. E quando JK deixou o interior do pequeno veículo, não teve tempo sequer para abrir os braços. Seu gesto, apenas esboçado, foi interrompido pelo braços imensos de Bauhid e pelas exclamações de entusiasmo do Coronel Lino, do Major Perpétuo, do Governador do Amazonas e de todos quantos, ainda sujos da poeira e do barro das estradas, acabam de trazer, dos quadrantes da terra, o cheiro da mata, o grito do índio, o apito das máquinas, o mugido dos bois, o choro das crianças, enfim, os próprios e misteriosos ruídos da Nacionalidade, que acordava…

    Foi nesse instante que vi o pranto coletivo de homens.

    Sujos de poeira e de barro, a barba de vários dias e as roupas rotas, estavam chorando de alegria. Homens do Norte e do Sul, homens do Leste e do Oeste, que convergiram sobre o Planalto, choravam de pura e incontida alegria.

    Eu vi o pranto coletivo!

    Eu vi o pranto coletivo dos homens, sob as colunas da Catedral, na Cidade Nova, que se preparava para o seu grande Natal de abril.

    Eu vi homens chorando…

    Mas nada havia de trágico ou de vergonhoso no pranto coletivo. Havia, isto sim, esperança e fé no pranto livre e franco de cada um dos milhares de homens, que ali estavam, ao lado de seu Comandante, tomando posse da terra.

    E cada qual desejava, no contato rápido e quente de mãos, transmitir o calor das terras distantes: da selva recém-conquistada, dos pampas e do pantanal, das chapadas e das montanhas.

    Transcrito do livro “Invenção da cidade”, de Clemente Luz.

     

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    Brasília, flor e bomba

    Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

    Brasília, flor e bomba
    Por Cláudio Abramo

    Brasília tem sido o tema preferido de dois setores da nação que se diferenciam menos por classificações políticas do que pela visão que cada qual deles tem do que deve ser este país. Um e outro promoveram a construção de uma cidade a entidade cujo significado vai além dos limites específicos de um empreendimento desta ordem. Uns e outros, nos discursos, nos artigos, nas manifestações escritas ou orais, empregam em relação à futura capital uma terminologia cujo simbolismo é demasiado revelador para não ser preocupante.

    De construção de cidade nova, com soluções atuais de urbanismo, travada de audaciosa concepção arquitetônica, tangida pelo arrojo, Brasília passou a constituir-se num mito; mito necessário, já que a grande massa dos brasileiros – acrescida dos filhos de imigrantes – carece de figuras e momentos suficientemente épicos para fustigar sua vontade de imaginação. Brasília passou a ser defendida e atacada como se de suas estruturas metálicas corresse sangue, como se em suas rampas, asfalto, pedra, cimento e cal pulsassse vida. Tornou-se ela simultaneamente ser e abstração, objeto e entidade – solução e danação. Brasília, transfigurada, passa assim por cima dos seus criadores e dos seus adversários. No debate nacional, no qual a ponderação do ataque e da defesa se alterna com o frenesi da defesa e do ataque, Brasília, de capital em estado embrionário, foi transmudada em forma pulsante e sensorial.

    Mas afinal, de quoi s’agit’il? De que se trata? Brasília, afinal de contas, éapenas uma cidade que se constrói. Ser contra ela, nesta altura, é tão efetivo e válido quanto ser contra a existência da Lua. Apontar os erros que orientam sua construção, fazer o rol do que se deixa de executar para executar Brasília constitui certamente uma comovente demonstração de interesse patriótico pelos problemas públicos – mas não passa, neste momento, de puro exercício acadêmico. Porque há uma coisa inelutável nisto tudo: desde que as forças interessadas na construção de Brasília não têm, pelo menos nesta quadra da vida nacional, nenhuma força efetiva e material, dinamicamente válida, pela frente, e desde que as forças contrárias à construção são obrigadas a uma oposição de mera opinião, a discussão sobre o prosseguimento das obras, em si, é estéril.

    A quantidade e os recursos dos que enumeram as razões pelas quais são contrários a Brasília é tão grande quanto a quantidade e o recurso dos que perdem tempo igual a absolver a futura capital. Mas de qualquer maneira, é necessário colocar algumas perguntas que se situam no mesmo nível da exclamação da criança diante da invisível indumentária real: são perguntas elementares, que trazem a resposta da negação, mas por isso mesmo fundamentalmente necessárias.

    Façamo-la, a primeira pergunta:

    Afinal de contas, era tão necessário assim mudar a capital do Rio para o planalto goiano? Estava nas determinações dos legisladores do fim do século XIX. Mas muito está determinado e escrito, que não se cumpre nem se olha ou vê. Para decidir a questão, seria indispensável consultar sociólogos, urbanistas, especialistas em cálculos de trabalho – e não esquecer os psicólogos.

    Era necessário construir Brasília tão depressa? Ninguém respondeu a esta interrogação de maneira satisfatória. O custo das obras aumenta com a rapidez ou a lentidão? Seriamente, ninguém parece ter feito esse cálculo para fins de esclarecimento. Gasta-se muito? Provavelmente sim. Galtam-se bilhões; mas ninguém até hoje fez cálculo algum do que poderia ser feito com o que se despende em Brasília. Os governos anteriores não construíram Brasílias, mas também nada fizeram em seu lugar. O governo deveria interromper as obras, porque a oposição é contrária? Contrária como, se lá encontramos, familiarmente instalado, um fiscal da oposição? Contra, sim, mas essa oposição se limita aos lampejos dos discursos e aos brilhantes editoriais. Brasília adiantará de alguma coisa? Provavelmente sim; pelo menos existem ali 65 mil trabalhadores que ocupam terras e casas, que se casam e criam filhos. Tirá-los de lá será extremamente difícil – e não os tirar significa um problema que não exclui a aprovação de uma legislação especialíssima. Brasília é longe? De quê? Do mar? Mas é perto do Amazonas, por exemplo, mais perto do que o Rio ou São Paulo o são.

    Brasília é bela? É. No meio da planície, delicada e sensível, leve, projetada no futuro, Brasília revela-se como uma miragem: incompleta, embrionária, metade cidadela, metade alga, anêmona, ela parece pulsar – tem-se a impressão de que se pode estender a mão e colhê-la, fruto delicado, flor brasileira, pétala, pele de pêssego, pedra lapidada, elegante e inteligente abrigo do homem.

    Por que, em primeiro lugar, colocar o problema de Brasília na base em que ele está sendo colocado, se, no fundo, jamais se discutiu, até hoje, com essa abundância de pormenores que são abundantes apenas para ocultar seu vazio, os problemas nacionais de fundo? Veja-se, por exemplo, com que lamentável fatalidade, com que submissão catastrófica uma ponderável parcela da opinião pública se entrega, olhos fechados e mãos amarradas, às candidaturas, um de fita mexicana, outra de opereta vienense, sem que ninguém, por um minuto, pare para perguntar: mas afinal de contas, o que pensa, o que é, o que significa o Sr. Jânio Quadros (ou o marechal Lott)?

    Não se discutem esses pormenores porque de um lado eles são inelutáveis e de outro não se possuem dados efetivos. Os dados à mão são circunstanciais ou irrelevantes. Num caso de alega boa administração, e uma esperteza erigida em qualidade, noutro um nacionalismo de extração heterogênea e duvidosa filiação. Na realidade, a opinião pública é chamada a manifestar-se apenas no dia da eleição.

    Se fizéssemos um plebiscito entre a massa de trabalhadores, Brasília seria derrotada porque eles veem nela apenas o vácuo feito daquilo de que eles necessitam e que não recebem. Mas a voz da grande massa de trabalhadores não conta porque não é transmissível.

    Ficam portanto cingidos aos temas centrais das alegações contrárias que podem ser manifestadas.

    Uma parcela esclarecida da opinião pública vê em Brasília o instrumento acelerador de um processo crítico cujas conseqüências serão trágicas e – o que é muito mais sombrio para ela – incontroláveis. Outro argumento é o de que construir uma cidade nova neste momento constitui um ato de declarada irresponsabilidade; outro ainda é o fato de se cometerem ali, provavelmente, irregularidades (como o denuncia a insistência de uma parte da oposição em realizar um inquérito esclarecedor).

    Que entusiastas, por sua vez, depositam nela todo o significado e todo o fulfillment de que a incapacidade governamental (do município à União) deste país torna sequiosos e sedentos os seus burocratas.

    Em suma, não se possuem dados efetivos para discutir o “caso Brasília” no plano racional porque: 1) as irregularidades, se existem, não bastam para condenar a ideia da nova capital. Antes, sanadas, elas a absolveriam. 2) Nunca é momento de gastar tanto dinheiro, a não ser em hospitais, escolas, pesquisas científicas e obras capazes de elevar efetivamente o nível de vida do povo. Finalmente, o que falta ao Brasil é precisamente um momento sério; um momento no qual o brasileiro se mire no espelho e pergunte a si próprio: isto tudo está certo? Isto tudo tem sentido? Um momento, enfim, de crise incontrolável, de crise trágica, de abalo sísmico, acima dos homens e das coisas.

    Só poderemos ser, portanto, a favor de Brasília, se ela traz consigo – como dizem seus adversários – todas essas conseqüências e problemas.
    Somos a favor de Brasília no plano irracional. Como se é a favor de uma flor, de um animal ferido, de uma criança.

    Transcrito do jornal “O Estado de São Paulo”, 21 de junho de 1959.

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