Hipólito José da Costa

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Hipólito José da Costa

O jornalista Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça (1774-1823) é outra referência da idéia da capital no interior. Ele fundou em Londres, em 1808, o Correio Braziliense ou Armazém Literário, considerado o primeiro periódico brasileiro. Formato tablóide, capa dura, impresso na Inglaterra, redigido em português, circulou mensalmente durante mais de treze anos – de 1808 a 1822 – e 175 números. Hipólito da Costa considerava o Rio de Janeiro inadequado para sediar o governo, conforme mostra o seguinte trecho de artigo que publicou em 1813:
"Basta lembrar que está a um canto do território do Brasil, que as suas comunicações com o Pará e outros pontos daquele Estado são de imensa dificuldade e que, sendo um porto de mar, está o governo ali sempre sujeito a uma invasão inimiga de qualquer potência marítima."
Queria a capital junto às cabeceiras de um dos grandes rios e defendia a construção de nova cidade, interligada por novas estradas aos portos de mar. Em artigo de 1818, ele volta a considerar o Rio de Janeiro impróprio para a residência da Corte e, alegando manifesto interesse de ter a capital no centro da monarquia, observa que muitos lugares nas campinas do rio Doce e nas vertentes do rio São Francisco "oferecem as mais belas situações para se estabelecer a Corte".

Extraído do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

 

 

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O Sonho

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O Sonho


Condenados ao moderno
por fatalidade
à contemporaneidade.
Sem herança ou tradição.

Uma Nova Capital como
semente, traço de união,
como sonho colonial
como ideal inconfidente
como bandeira e pregação
desenvolvimentista.

Tiradentes, JK.

Utopia. Vertigens antecipatórias,
emblemáticas miragens.
Integração nacional.

"Deste Planalto Central…"
Do litoral para as entranhas,
dos pampas guerreiros
para as altitudes serranas;
das caatingas e dunas atlânticas,
das hiléias e pantanais aquáticos,
das minas
e das serras gerais,
das chapadas e manguezais
aos entroncamentos
e altitudes planaltinas
centrais,
ao encontro das
diversidades
e adversidades
nacionais.

Brasil, capital Brasília.

Convergência e confluência.

Idealizações premonitórias,
crenças adventícias,
intuições advinhatórias,
raciocínios redentoristas.

Brasilidade.

Compreendida mais indefinida,
é e não se revela,
é sensível mas não é
inteligível.

Como um Oráculo ao qual,
nus e incrédulos,
além do Raciocínio e da Razão,
professamos.
Ou profetizamos.

Ou foi Dom Bosco,
visionário da boa-aventurança ?

Ou foi Malraux declarando
a esperança, afirmação
cultural, liderança,
força coletiva,
determinação ?

O intangível, o inteligível,
ou sem destino maior
por que Utopia,
porque impossível.

Aspiração.

Estandarte para a grande caminhada,
palavras de ordem,
ideário e bestiário,
canaã democrática, ultraista,
concreção e irradiação.

Realização pessoal e coletiva ?:

Deslumbramentos.

Paradoxos.

Antonio Miranda
"Canto Brasília"

 

 

 

 

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Caranguejos

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Caranguejos

O vazio do interior brasileiro e a concentração de população e atividades apenas no litoral já eram preocupação no século XVII. Por exemplo, do religioso baiano Vicente Rodrigues Palha, celebrizado como Frei Vicente do Salvador, historiador e cronista brasileiro, formado em Teologia e Cânones em Coimbra, que assinou, em 20 de dezembro de 1627, a primeira História do Brasil, considerada obra notável, pela fidedignidade do relato e encanto da prosa, como se vê no seguinte trecho:

Donde se colige também que é a terra do Brasil da figura de uma harpa, cuja parte
superior fica mais larga ao norte, correndo do oriente ao ocidente, e as colaterais,
a do sertão do norte a sul, e da costa do nordeste a sudoeste, se vão ajuntar no rio
da Prata em uma ponta à maneira de harpa, como se verá no mapa-múndi e na
estampa seguinte. Da largura que a terra do Brasil tem para o sertão não trato,
porque até agora não houve quem a andasse por negligência dos portugueses, que,
sendo grandes conquistadores de terras, não se aproveitam delas, mas contentam-
se de as andar arranhando ao longo do mar como caranguejos.

O nascimento do Brasil

Em 1763, no reinado de José I, por decisão do marquês de Pombal, primeiro-ministro de Portugal, o Rio de Janeiro, substituindo Salvador, torna-se a capital colonial. Era cidade pequena e sem grandes atrativos, exceto a exuberante beleza natural. Um deslocamento litorâneo. Do Nordeste para o Sudeste. Puxado principalmente pelos interesses na mineração do ouro em Minas Gerais. O rio será capital do país por quase duzentos anos.
Mas a idéia da mudança para o interior não demora a brotar. Por razões de natureza político-militar, ela floresce em Minas, Vila Rica, em 1788-89, anos marcados pelo declínio e crise da própria mineração. Surge no ideário de grupo de intelectuais conhecedores da filosofia das luzes, o iluminismo. Poetas, juristas, cientistas e religiosos – aliados a militares, mineiros, comerciantes endividados e gente do povo. Um sonho libertário. Mas que de todos, de um alferes sem medo e semeador de esperanças: "Se todos quisessem, poderíamos fazer do Brasil uma grande nação". Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. O herói-mártir da Independência, enforcado, decapitado e esquartejado em abril de 1792. Nos planos da Conjuração, que não se completaram, estavam a Independência, a República e também a nova capital: a Vila de São João del-Rei.

(…) No depoimento do padre José da Silva e Oliveira Rolim, prestado na Casa dos Contratos, Vila Rica, em 26 de outubro de 1789:

Que também sabe pretenderem os confederados – executado que fosse o levante
– mudar a situação da capital. (…) Que nada mais lhe restava a declarar, e só sim
lhe lembra haver-lhe dito o dito alferes Tiradentes que a capital se havia de
mudar para São João del-Rei.

São João del-Rei não é distante de Ouro Preto. Cerca de 240 quilômetros. Importante: o projeto dos conjurados era a separação de Portugal e a criação de uma república progressista. Não lhes interessavam apenas Minas Gerais. Tentaram articular-se com unidades vizinhas. Visavam ao país inteiro. Pensavam na capital da grande nação republicana que sonhavam construir. Para Vila Rica, inspirados em Coimbra, imaginavam uma universidade. Nos últimos anos da década de 1750, Minas, ainda na fase de brilho da mineração do ouro e das pedras preciosas, era o centro da Colônia. Foi nessa ambiência que cresceu o menino Tiradentes, nascido em 1746, na fazenda do Pombal, então compreendida nos limites da Vila de São João del-Rei. Uma síntese feliz do historiador Francisco Iglesias:

A mineração exigiu intercâmbio com as Capitanias do norte e do sul, no
primeiro momento de integração nacional. A área devia importar gêneros
alimentícios, artigos elaborados. O ouro provocou a mudança da capital de
Salvador para o Rio de Janeiro, em 1763. Criou uma consciência nacional,
traduzida em rebeliões contra o poder português ou em movimento artístico
fecundo. A riqueza pouco ficava em Minas ou no Brasil; nem mesmo em
Portugal, pois ouro e diamantes só passavam por Lisboa, indo para os Países
Baixos – aí se fazia a lapidação dos diamantes, ou para a Inglaterra, em
Pagamento das inúmeras e dispensáveis importações.

E outra do historiador Luiz Felipe de Alencastro:

No final da década de 1750, quanto Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho,
entrava nos seus vinte anos, Minas Gerais era o centro do Brasil. Mais ainda,
Minas Gerais estava inventando o Brasil e os brasileiros, um país e um povo
que até então não tinham conhecimento de sua própria existência. Vinte anos
mais tarde, duas gerações já haviam tido consciência da nova realidade
geográfica e cultural. Atraídos pelo imã do ouro, os criadores dos confins
gaúchos, os paulistas, os fluminenses, os baianos, os pernambucanos, os
sertanejos do São Francisco, os curraleiros do Maranhão afluíam para Minas.
Toda essa gente de fala portuguesa até então dispersa pela América do Sul mal
tinha notícia uma da outra e, sobretudo, nunca se tinha visto junto.

É o nascimento do Brasil e dos brasileiros. O país toma consciência, conhecimento de si mesmo.
Mesmo sem se concretizar como movimento de rebeldia, a Inconfidência Mineira impõe-se historicamente pela força simbólica. Tiradentes se transforma em dramático símbolo da liberdade e do inconformismo com a voraz espoliação da Metrópole. Em mito; mais tarde, em mártir republicano. Claro: as idéias e os ideais da Conjuração Mineira não morrem com ele. Pelo contrário. Ganham força ao longo da história. Inclusive o projeto de mudança da capital, que permanecerá na agenda política por mais de 160 anos.

Extraído do livro "Brasília Kubitschek de Oliveira", de Ronaldo Costa Couto.

 

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