As profecias que não se cumpriram

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Por Silvestre Gorgulho

Brasília nasceu predestinada. Sob o fogo cruzado da oposição, da elite e da mídia brasileira, Brasília nasceu também precocemente julgada e terrivelmente condenada. Estigmatizada!

Os brasilienses candangos sempre buscaram resgatar a historia da construção da nova Capital com muita emoção, com sentimento de humor e de alegria. Mas não foi bem assim para quem habitava o vasto e belo litoral brasileiro.

Não tenho dúvidas: no seu centenário, em 2060, os historiadores vão colocar a construção de Brasília como uma das três datas mais importantes do Brasil como Nação.

As outras duas seriam o Descobrimento e a vinda de D. João VI. A própria Independência ficará em quarto plano, como consequência da transferência da Corte de Lisboa para o Rio de Janeiro.

Da mesma forma que, pela Brasília de hoje, desfilam heróis a começar pelo presidente Juscelino Kubitschek, Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Israel Pinheiro, no final dos anos 50 e inicio dos anos 60, desfilaram, também, vários profetas do caos. E é muito bom conhecê-los.

Quem são os profetas do caos? São justamente aqueles que queriam abortar o sonho de interiorizar a capital. Pior: são aqueles que condenaram o sonho e teimaram em não aceitar a realidade.

Em 1974, ao falar no Senado sobre o desenvolvimento de Brasília, o autor do projeto urbanístico, Lucio Costa, não escondeu sua emoção: “É estranho o fato, esta sensação de ver aquilo que foi uma simples ideia na minha cabeça se transformando nesta cidade enorme, densa, imensa, viva, que é Brasília hoje. Peço licença aos senhores, me deem um pouco de tempo. Estou muito emocionado”. No plenário, um silêncio profundo. A emoção contagiou a todos.

Hoje talvez seja fácil justificar a obra, bendizer a epopeia de sua construção e se emocionar. Mas não foi assim. A verdade é que Brasília está indissoluvelmente ligada à teimosia e à ousadia de homens que ultrapassaram obstáculos aparentemente intransponíveis. Até mesmo antes da posse de JK.
Conhecer algumas das profecias que, felizmente, não se cumpriram, é também um momento de emoção.

“Não vou baixar nenhum decreto considerando a área do novo Distrito Federal de utilidade pública. Considero a medida intempestiva e uma providência utópica.” Ex-presidente Café Filho, abril de 1955, quando o Marechal José Pessoa, presidente da Comissão de Localização da Nova Capital, levou para ele os estudos técnicos definindo a área do Distrito Federal.

“Afirma-se a necessidade da mudança da capital para garantir maior desenvolvimento econômico ao nosso hinterland. O argumento pró-mudança não tem nenhuma força.” Correio da Manhã (editorial), 14 de outubro de 1956.

“Brasília será a maior ruína da historia contemporânea. A diferença das outras é que nunca será habitada por ninguém, já que não ficará pronta”. Carlos Lacerda, 1957.

“Brasília será, para JK, o que as pirâmides são para os faraós: seu tumulo.” Carlos Lacerda, 1957.

“Afinal de contas para que tanta pressa? Para satisfação da vaidade? Bobagem. Quando se efetivar a mudança, daqui a 4, a 8 ou a 10 anos, far-se-á um obelisco monstro à entrada do El Dorado com a inscrição de que tudo aquilo é devido ao doutor Juscelino e dar-se-á o seu nome à Praça dos Três Poderes. Creio que assim ficará bem para a posteridade.” Editorial “Variações sobre a mudança” de All Right, no Correio da Manhã, de 8 de maio de 1958.

“O Brasil proporciona ao mundo o espetáculo ridículo do pobre que se apaixonou por uma atriz caprichosa e que se empenha, deixa os filhos com fome, que dá desfalques para comprar anéis e colares cobiçados pela amante insaciável. O Brasil está apaixonado pela cruel Brasília…” Gustavo Corção, jornal O Estado de São Paulo, 25 de maio de 1957.

“Antigamente era negócio da China: hoje se diz negócio de Brasília. Meta número um (Brasília) já está paralisada: falta dinheiro para obras. Três coisas estão prontas: 1) O palácio (do Presidente) 2) O hotel (dos turistas) 3) A cachoeira (que Deus fez).” Reportagem na Tribuna da Imprensa assinada pelo jornalista Adirson de Barros, 3 de setembro de 1958.

Silvestre Gorgulho, jornalista.
Texto transcrito do álbum “Brasília: 55 anos – da utopia à Capital. Réalisation/Artetude Cultural.

Era um rabisco, e pulsava

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Por Carlos Drummond de Andrade

Dia ‘histórico’ para mim foi aquele em que Lucio me apareceu, discreto como sempre, botando em minha mesa uma folha de papel rabiscada às pressas, com palavras e um esboço de desenho que, aparentemente, pouco significavam. Peguei da folha e tive entre os dedos nada menos do que a cidade de Brasília, inexistente e completa, como um germe contém e resume a vida de um homem, uma árvore, uma civilização. A primeira noção de uma cidade diferente de todas as outras até então imaginadas mostrava-se ali, nos traços rudimentais de uma cruz (ou um avião) plantada na terra ou alcançando voo. O plano-piloto de Lucio dizia bem pouco para um leigo habituado a ver cidades em funcionamento e não no papel, um papel nada luxuoso como o dos grandes escritórios de arquitetura. Falei em rabisco, e pulsava.

Sem entender, eu sentia a vibração das formas implícitas naquela folha de papel que mudava a historia do governo do Brasil e, em certa escala, a vida dos brasileiros. Comovi-me. Lucio também devia estar comovido por ter achado a solução quase mágica para o problema de conceber uma capital de país em termos absolutamente originais. Mas disfarçava?

Ou o seu pudor de aparecer era tão positivo que lhe permitia filtrar e decantar a emoção até o ponto de torná-la invisível?

Parecia o mais vago dos homens; entretanto, em dada ocasião deu-me um conselho que não segui e que, se fosse observador atento, me pouparia uma decepção política. Na realidade, era e é um observador atento e sagaz do mundo e da vida brasileira em particular. Se tudo parece escarpar-lhe, talvez o mais correto seja dizer que nada lhe escapa; se não dá mostras constantes dessa capacidade de observação e análise – uma análise quase sempre original, resultante do seu gosto, cultura e independência de espírito, e não de patrões estabelecidos de critica – isto se deve à sua inclinação natural para a penumbra, o bastidor, a ocultação de si mesmo. Lucio argumenta, julga, define-se mas desinteressa-se da ação prática que (e isto sucede com frequência) um detalhe das coisas lhe choque a sensibilidade, e ele investe contra a anomalia. No mais, que o deixem viver sossegado, reflexivo, quase uma sombra, na retaguarda dos que brilham e adoram brilhar com luz própria ou de empréstimo. Este nobre e humilde senhor não quer que o aborreçam. Será que o estou aborrecendo com estas lembranças do corredor onde trabalhávamos juntos e calados?

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense, 09 de abril de 2015.

Anotações para os 55 anos

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Por Conceição Freitas

Brasília é um ato de vontade.
Brasília é o atrevimento de um presidente.
Brasília é a exasperação do urbanismo moderno.
Brasília é a revelação de uma paisagem.
É a mistura dos Brasis, Brasília.
Brasília é uma provocação; é um segredo a ser revelado a quem se dispuser a conhecer uma outra lógica, uma nova razão.
Brasília é o sonho sonhado e o possível realizado.
É o enlaçamento da arte com a arquitetura.
Brasília são os vazios convidando cada um a inventar um sentido à solidão dos ermos.
Brasília é um deus tendo de lidar com suas imperfeições.
Brasília é a capacidade de cada um criar a própria Brasília, tantas são as perturbações que ela provoca em seus habitantes.
Brasília é tão grandiosa que sobrevive às mais terríveis investidas dos políticos e da especulação imobiliária.
Brasília é uma cidade, mas é também uma invocação do belo.
Brasília é também o que não queriam que ela fosse.
Os arquitetos projetaram a Brasília ideal. Os candangos inventaram a Brasília que eles queriam para si.
Brasília seria triste, rançosa, viciada, elitista não fossem os brasileiros que bagunçaram a maquete e fizeram dela uma cidade de verdade.
Brasília queria ser só uma, o Plano Piloto. Quando muito, duas ou três, com os lagos e o Park Way.
Brasília são 31. Brasília são as cidades-satélites que vieram quebrar a monotonia das coisas perfeitamente organizadas.
Brasília é a arqueologia recente de um Brasil que estava dando certo.
Brasília é também o desconforto do Brasil consigo mesmo. Tão inventivo e tão desigual; tão trabalhador e tão corrupto. (Para construir Brasília, os candangos ralavam até 16 horas por dia).
As superquadras de Brasília são o modo de viver confortável, ecológica e democraticamente nas cidades. São os anticondomínios. As superquadras são o futuro que se realiza no passado.
Brasília está ao alcance da mão, apesar da investida voraz dos que querem sugar sua riqueza até os ossos.
Brasília ainda é uma promessa. E uma inspiradora realidade.

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense de 25 de março de 2015.

Geografia sentimental

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Por Severino Francisco

Climério Ferreira é um dos habitantes do silêncio de Brasília. Fez doutorado na Austrália, mas cultiva a simplicidade e o anonimato com unhas e dentes. Sempre vi os irmãos piauienses (Clodo, Climério e Clésio) na condição de índios yanomamis, índios da festa e da paz. No momento, Brasília oferece poucos motivos para a gente gostar dela, mas Climério mira a cidade com a devoção que só o olhar amoroso pode revelar. Em “Entre as manias que eu tenho”, ele diz: “Eu não sei quando adquiri/Essa mania doente/De gostar da terra da gente”.

Ele sempre me mandava por e-mail versinhos e poemínimos. Não é pretensão; a sua língua é a do lirismo. Ele é do século 19, conquistou todas as namoradas com um soneto. Se a gente traçar uma geopoética brasiliense, o pedaço que cabe a Climério é a Asa Norte. Aparentemente distraído, ele é muito atento ao que acontece na cidade e, principalmente, em aldeia. Em ‘Meados de novembro’, faz uma crônica dos dilúvios que costumam se abater sobre a cidade durante o período das chuvas: “Carros anfíbios mergulham nas tesourinhas/Os passageiros dos ônibus nadam afoitos/Árvores são arrancadas das raízes/As quadras da Asa Norte naufragam/A arquitetura moderna sobreviverá ao mês/Mesmo que o arquiteto morra”.

Nas décadas de 1970 e 1980, a 312 Norte foi uma quadra de muitas agitações e conexões culturais. Os irmãos Ferreira moraram naquele território e estabeleceram parcerias muito ricas. Por lá, passaram Glauber Rocha, os compositores Fagner e Petrucio Maia; e o pintor pernambucano Vicente Rego Monteiro. É esse o tempo que Climério evoca em ‘SQN 312’: “Lembro-me de Glauber já doente sentado na escadaria do bloco/Eu, Clodo e Zeca Bahia tramando futuras canções no F/Luiz Amorim sonhando um açougue cultural/Gera de Castro armando um show coletivo/Clodo e Petrucio Maia compondo ‘Cebola Cortada no Cavalo Negro’/Fagner mostrando em primeira mão o arranjo de Hermeto para Cebola/O som do pandeiro de Pernambuco percutindo na quadra/Enquanto Vicente do Rego Monteiro pintava figuras godas/A 312 era o Vietnam do Norte”.

A 209 Norte é um dos temas de sua geografia sentimental brasiliense, constituída a partir da que ele e seus amigos fazem da cidade: “Umas frutinhas no Oba/Leitura na quadra de esporte/Guido Heleno na lotérica/Bené Fonteles caminhando/Paulo José Cunha no Sinhá Moça/Fausto e Manoel todo sábado/Eu&Helô no Mineiro/Sobremesa no Rappel/O traço de Lucio Costa não previa tudo isso”.

Mesmo quando está indignado, Climério prefere soprar uma ironia lírica delicada em vez de dar um berro. O comentário que ele faz sobre o excesso de zelo pelo silêncio nas superquadras com bares que apresentam música, em Banho de lua, estabelece um contraponto divertido dos tempos românticos com os tempos pragmáticos em que vivemos: “Acredite, havia donzelas/E existiam rapazes desafinados/Que faziam serenatas nas janelas/Cantando boleros apaixonados/Acredite, ninguém atirava/Nem chamava a policia/Uma bacia d’água era derramada/Para aplacar no cantor a euforia”.

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense 29 de junho de 2015.

Brasília, par ou ímpar?

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Entre as curiosidades – ou excentricidades – propiciadas pelo traçado urbano de Brasília, uma é a confusão entre par e ímpar.

Os brasilienses, quando tentam explicar as particularidades da capital, como a numeração das quadras, dizem bem assim:
– De um lado ficam as quadras pares, do outro ficam as ímpares.

Eu mesmo, com três dias aqui, procurava a 309 Norte e fui parar na 209, depois na 409, mas nada de achar a 309.
– Flávia, já passei pela 209, pela 409, e não achei a 309!
– Você entrou errado! – ela disse. – Aí são as pares.
– Mas 209 e 409 são ímpares!!
– Não, 209 e 409 ficam nas pares…
– Mas elas não são ímpares?
– Não, são pares!

Parecia conversa de bêbado: ela dizendo par, eu falando ímpar, até que a bateria do celular arriou, mas, antes, ainda pude ouvi-la dizer:
– Querido, é a lógica da cidade. Brasília é organizada, planejada. Aqui tudo tem uma lógica…

Sem celular, desisti da visita a Flávia. E passei uma hora para acertar o caminho de casa, no Sudoeste.
No dia seguinte, os colegas se revezavam em explicações sobre essas “lógicas da cidade”.

Lucio Costa – e não Niemeyer – desenhou Brasília com dois eixos, formando o sinal da cruz, que lembra a imagem de um avião.
É nos “braços” dessa cruz onde fica a área residencial, sendo que de um lado ficam as quadras que começam com dígito par (200, 400) e de outro ficam as que começam com dígito ímpar (100, 300).

Ocorre, porém, que nos dois lados há pares e ímpares. Nas quadras 100 temos 102, 103, 104, 105… Nas 200 temos 202, 203, 204, 205…
Porém, a simplificação – “lado par” e “lado ímpar” – faz com que 304, 506, 708 sejam ditas ímpares, mesmo sendo pares; e 203, 405, 607 sejam ditas pares, mesmo sendo ímpares.

Complicado, não é?

Para o brasiliense, que nasceu e se criou sob essas coordenadas, tudo parece simples, fácil, óbvio até. Mas para o visitante, é tudo diferente.
Brasília é complicada e perfeitinha. É onde o par pode ser ímpar e o ímpar pode ser par.

Texto de Marcelo Torres, cronista

Adoro minha quadra

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Por Conceição Freitas

O leitor Edson Shimabukuro escreve, a propósito da diversidade de produtos e serviços das entrequadras comerciais do Plano Piloto:

“Minha quadra também é cosmopolita. Temos um legítimos restaurante grego, uma crossanteria que não deve às de Paris, uma bela padaria estilo às de São Paulo, um boteco com nuanças pernambucanas, o churrasquinho de gato do Eliomar, o bar do Mocó que fica escondido, e que só os iniciados frequentam. Também temos a distribuidora de bebidas do Paixão, que herdou do falecido Cezar das faixas provocativas e que virou bar tal como o depósito do Piauí na Asa Sul. Adoro minha quadra”.

Na memória descritiva do Plano Piloto, Lucio Costa cita, a título de exemplo, o comércio das entrequadras: mercadinho, açougue, venda, quitanda, casa de ferragem, barbearia, cabeleireiro, modista, confeitaria. Quase 60 anos depois (o projeto de LC é de 1956), a modista foi substituída pela costureira que faz pequenos consertos, o açougue foi engolido pelos supermercados, mas a variedade ficou ainda mais rica.

Há de um tudo nas entrequadras: de lojinhas de candomblé e umbanda a sex shop. De pet shop a serviço de depilação. De biscoito mineiro a chope belga. De restaurante nordestino a bistrô francês. Pizzaria, espagueteria, crossanteria, creperia, padaria, cafeteria, choperia, barbearia, torteria, tapiocaria.

Loja de calçados, de colchões, de cortinas, de cine-foto. Loja que conserta tênis, loja que conserta roupa, que conserta brinquedo, que conserta eletrônicos, que conserta celular, que recupera artigos de couro.

A alta gastronomia e o PF estão representados nas entrequadras. O cassoulet e a feijoada borbulham, calóricos, no comércio local do Plano Piloto. A comida natural e o churrasco reforçam o espírito democrático das lojinhas entre as superquadras.

Os serviços de beleza, cada vez mais especializados, estão à disposição das clientes e dos clientes nas entrequadras: SPA, sauna rejuvenescimento facial, terapia da água, ofurô, sauna, desenhos pubianos, design de sobrancelha.

Calçados ortopédicos, para diabéticos, calçados magnéticos, calçados artesanais, calçados de grife, calçados com numeração especial. Os mercadinhos japoneses estão concentrados na Asa Sul. Nem a chegada dos mercados gourmet tirou-lhes a freguesia de décadas.

Nas entrequadras de Lucio Costa,as lojinhas da década de 1960 (Casa das Meias e Pizzaria Dom Bosco, dois lendários exemplos) assistem, da janela da história, às mudanças continuas na vizinhança. Pode-se arriscar a dizer, sem nenhuma aferição sistemática, que os estabelecimentos modestos tem mais longevidade que as iniciativas mais ousadas. Raras são as entrequadras que não tem um pé sujo devidamente estabelecido há mais de década.

As entrequadras compõem, com as superquadras, o melhor da invenção de Lucio Costa.

Texto transcrito da “Crônica da Cidade”, de Conceição Freitas, de 27 de novembro de 2014.

Festa na quadra

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Por Glaucia Chaves

Viviane Oliveira, 38 anos, especialista em comunicação institucional, dispensou os valores altos de locais para festas infantis e organizou o aniversário de 8 anos do filho na entrequadra da 104/105 Sul. O plano inicial era alugar um campo de futebol society, já que o futebol é uma das paixões do menino Vinicius. Mas o aluguel do espaço não sairia por menos de R$ 700. A reforma da entrequadra veio na época da festa e Viviane pensou que seria uma boa maneira de comemorar sem limitar a quantidade de convidados e sem gastar demais. “Antes, havia muitos usuários de drogas, mas consertaram a quadra de esportes, colocaram bancos e campo de areia”.

Faltava pensar em como organizar uma festa de aniversário ao ar livre. Algumas pesquisas na internet depois, Viviane teve uma ideia das providências indispensáveis: saco de lixo, canga, toalha de piquenique, bandeja para o bolo. “Contratamos duas carrocinhas, uma de pipoca e uma de cachorro-quente, que não precisavam de energia elétrica”. O toque final foi dado pela cama elástica e pela comida extra para os curiosos e os passantes. “A inauguração da entrequadra reformada foi no mesmo dia, então muita gente achou que a festinha do Vinicius fazia parte do evento. A cama elástica foi usada por crianças que a gente nem conhecia.”

Viviane acha que os “convidados adicionais” deram justamente o clima que ela queria para a festa: algo participativo, na cidade, para todos. “Mostrou que a quadra está sendo usada pelas pessoas e que a gente está dando valor às melhorias que foram feitas.” Em Brasília há quatro anos, a carioca acredita que sair mais de casa deveria ser uma vontade de todos que vivem na cidade. “Aqui é um lugar bastante criticado por ser muito automobilístico. Cabe a nós mudar isso.”

Em 2010, Daniela Perdigão Lima, 37 anos, também viu no verde da 416 Sul a chance de comemorar o aniversário de 1 ano do filho de uma maneira charmosa e, ao mesmo tempo, barata. A experiência foi tão boa que, este ano, o quarto ano de Tito também foi celebrado embaixo das árvores, desta vez, na 402 Sul. E o pessoal ainda tinha a estrutura do apartamento do meu sogro, que fica na mesma quadra.”

Daniela e o marido montaram mesas com sanduíches, bolo e brigadeiros. No convite, os convidados foram orientados a levar toalhas, brinquedos e o que mais quisessem para um dia ao ar livre. Era chegar, esticar a toalha na grama e curtir uma tarde sem paredes. Algumas crianças da quadra, curiosas com a movimentação, apareceram. “Levamos lembrancinhas a mais, fomos preparados.” Para Daniela, a iniciativa foi só vantagens: é o lugar mais barato da cidade, é lindo e não faz bagunça em casa. “Muitas vezes, deixamos o lugar mais limpo do que quando o encontramos. Já cortamos a grama e tiramos as guimbas de cigarro antes da festa.”

Texto reproduzido da Revista do Correio, Correio Braziliense de 16 de fevereiro de 2014.

Se esta quadra fosse minha

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Por Theresa Negrão de Mello

Desatar os derradeiros nós daquela precoce e frustrante união implicava deixar o apartamento no qual provisoriamente me instalara para, enfim, com o que me coubera na partilha da casa em São Paulo, dar entrada em nova moradia por aqui.

Não obstante breve,  aquela etapa de primeiro contato com a cidade havia sido suficiente para consolidar a ideia de permanecer em Brasília, cuja hospitalidade se incumbira de descartar os estereótipos que davam suporte aos longos discursos norteados por uma retórica de dissuasão.

Das cartas, telefonemas e encontros eventuais afloravam, com frequência, as marcas de representações de uma cidade “sem alma”, “sem esquinas”, “sem gente nas ruas”. Na verdade, tais sintomas de uma “brasilite negativa” evidenciavam, em não poucas vezes, uma desconcertante contaminação, não associada a qualquer contato ou conhecimento mais efetivo, nutrindo-se do sopro eficiente de enunciados que, “legitimando-se” pela repetição, constituem o celeiro propício dos preconceitos.

Sem querer esmiuçar antigas polêmicas, e apenas visando a contextualizar vetores de representações engendradas em uma conjuntura especifica, cabem aqui as considerações de Holston, cuja pesquisa ressalta uma primeira geração de migrantes que cunhou a expressão “brasilite”, para sinalizar a um só tempo impactos positivos e negativos desencadeados pelo encontro com a cidade nova.

Os aspectos negativos da “brasilite” estão ligados a uma rejeição das intenções desfamiliarizadoras contidas na concepção de Brasília. Rejeitam a negação do Brasil urbano, tal como comumente expresso na organização e na arquitetura da cidade.

(…) Sem a agitação das ruas, Brasília lhes parecia “fria”, embora a separação especial entre as funções de trabalho, moradia, lazer e tráfego produzisse uma clareza na organização urbana (…)

(…) Desse ponto de vista, os migrantes usavam o termo “brasilite” para se referir a uma vida cotidiana destituída de prazeres – as distrações, as conversas, os flertes e os rituais da vida nas ruas em outras cidades brasileiras.

Tendo sido outras as condições, até porque minha vinda não se situa nas primeiras levas de migrantes e, ademais, nada teve de compulsória, a síndrome da “brasilite negativa” não prosperou como suporte das minhas representações sobre a cidade que escolhi para”começar de novo”.

Nesse sentido, a sempre alegada monotonia das superquadras não deu conta de obscurecer uma seleção que, na oportunidade da compra, desde o inicio, privilegiou a 205 Sul. Assim, não sem uma certa angustia, envidei esforços para que o meu, então recente, “trocando em miúdos” me possibilitassem arcar com a entrada, o ágio, o dilúvio de documentos e sei lá mais quantas providências lembradas por uma legião de corretores tagarelas.

Aliás, a todos eles parecia escapar tão peremptória preferência pela “205 Sul com vista para o lago”, e, de fato, meus argumentos não iam além de uma difusa simpatia pelo lugar como um todo, pois sequer os blocos residenciais eu conhecia. Enfim, tais motivações, não se confinando ao racional, são capazes, entretanto, ou bem por isso, de mobilizar-nos. Em tais casos, a mais trivial preferência ganha no representacional foros de aspirações insubstituíveis, daí o titulo desta pesquisa “Se esta quadra fosse minha”, fragmento do repertorio popular, pleno de significações.

Quando finalmente surgiu o esperado “imóvel”, como se esmerava em soletrar o corretor quase gordo, preenchi ali mesmo, durante a visita, o cheque referente ao sinal, com direito à vista belíssima para o lago e, de quebra, à grotesca visão de absurdas paredes rosa, literalmente “choque”, pedindo, quando menos, caiação urgente. Tudo bem, o corretor negociaria a pintura, o que me fez sair faceira, estalando com os saltos das sandálias as dezenas de tacos descolados. Em menos de duas semanas cá estava eu instalada, uns poucos móveis, os inseparáveis discos e livros, “começando de novo”, agora como membro da comunidade da 205 Sul.

Hoje percebo que a comunidade, não se confundindo com a ideia de superquadra enquanto concepção administrativa e urbanística, circunscreve um cenário ampliado que, ao incorporar espaços contíguos, multiplica lugares de comunicação e socialidade.

Assim, pessoas que cotidianamente se cruzam na quadra e suas imediações, não raro se conhecem e se relacionam, de modo a evidenciar um sentimento comum de pertença que extrapola, por exemplo, as práticas ritualizadas do simples cumprimento. Trata-se, como diria Maffesoli, de uma socialidade que se exprime também na partilha dos afetos, no lúdico, na emoção, enfim, no interacionismo simbólico perpassado de transfigurações imáginárias.

Tais elementos concorrem, sem dúvida, para a construção “…dessa identidade perceptível que se chama cidade, bairro, quadra, etc.

Ao considerar a comunidade no âmbito de um cenário ampliado, constato que se a ideia de quadra não a contém, a de bairro igualmente não a traduz. Entendo, ao final das contas, que a quadra em que moro e suas adjacências, este espaço do lado de baixo do Eixo Monumental até a L 2 Sul, muito se assemelha a uma espécie de quartier fincado no planalto Central. Dialogando com Bresciani, suas ideias fornecem-me interessantes pistas:

Há, porém, ainda uma outra percepção da rua que forma algo bastante pessoal, daí subjetivo, e ao mesmo tempo tecido num fio que permite algo  que se aproxima da comunidade perdida: o percurso diário para as compras e demais tarefas domésticas, um mesmo açougue, a mesma quitanda, sapateiro, jornaleiro, palavras trocadas entre pessoas para as quais a civilidade aprendida e um laivo de interesse pessoal se mesclam no bom-dia, como vai?

Exatamente aquilo que faz um francês e uma francesa se referirem ao lugar onde moram como mon quartier, não inteiramente traduzível por bairro. Um recanto que às vezes pouco lembra o recorte administrativo do bairro, mas é composto pelas ruas percorridas, pelos locais visitados, pelas pessoas encontradas.

E é bem o que aqui ocorre, sobretudo nas manhãs de sábado, nos bares, confeitarias, lojas, butiques, padarias e farmácias. Ali, o simples “bom dia” acaba emendando um dedo de prosa entre pessoas que geralmente se conhecem pelos nomes e mesmo apelidos. Ali se realizam as conversas sem consequência “sobre a saúde, o tempo que passa, a meteorologia, as emissões televisivas, o esporte e tudo o mais. Ali, “tudo se sabe”, e é naquela espacialidade que se ensejam “as varias ocasiões em que se vive, conjuntamente e sem brilho, o crucial problema do tempo que passa”.

Na verdade, o mesmo quadro parece reproduzir-se nos blocos residenciais na comunicação diária entre vizinhos. “Seu” Diamantino, meu vizinho de porta, desde a minha chegada jamais se limitou à glacial polidez do cumprimento. A ele devo a mediação com “seu” José, uma espécie de mestre-de-obras oficial da quadra, e o sindico, logo às primeiras semanas da minha instalação no sonhado “imóvel na 205 Sul com vista para o lago”.

Deixar o imóvel com a minha cara, até meio excessivamente personalizado, significou percorrer uma saga de mais de uma década, pontuada por três inesquecíveis reformas, com o mesmo modesto orçamento, fosse qual fosse o novo apelido da moeda da ocasião.

Tão inoportuna quanto inadiável, a primeira obra que se impôs envolveu também o condomínio, e mesmo com as despesas assim partilhadas, não consigo apagar da memória o discurso do entusiasmado corretor que, ciente ou não, me vendeu também, além da vista para o lago e do enfatizado sossego de um imóvel no último andar, uma inesperada goteira, apenas evidenciada com as fortes chuvas que fechavam o verão brasiliense. Com um balde de plantão logo à entrada, eu tentava poupar, em março, o carpete colocado em fevereiro.

Segundo meu solidário vizinho, em breve teríamos a seca e, com ela, a possibilidade de cuidar da imprescindível impermeabilização do teto. Se a propalada secura brasiliense jamais me incomodara, naquele momento, mesmo prevendo despesas, eu contava os dias para dar-lhe as boas-vindas.

Enfim, sempre vi, com o devido desconto ao exagero, os discursos que a cada estação elegem como “o pior dos últimos anos” o clima do nosso Saara federal, com seus baixos índices de umidade relativa do ar, sobretudo como um bom pretexto para os breves temas acionados na tentativa de vencer o secular silêncio que se segue ao cordial bom-dia do elevador.

Com a chegada da seca chegou também “seu” José, cuja historia de vida remonta aos tempos da construção da quadra da qual ele participou, como tantos nordestinos que aqui chegaram, compondo o exercito de candangos recrutados e seduzidos com o trabalho na cidade nova. Orgulhoso, “seu” José afirma ter na cabeça a planta dos antigos imóveis, e tem mesmo. Por ocasião das reformas, ele dá conta da localização de colunas e passagens de canos com a intimidade de quem teve a experiência da construção. Morando em uma cidade-satélite, “seu” José frequenta a quadra há décadas e, como “seu” Edmundo, o marceneiro, faz parte da nossa comunidade.

Além dos serviços que nos prestam, esses trabalhadores articulam suas historias pessoais à memória da quadra. Seus relatos desenham no quartier uma historia local, naquele entendimento que lhe confere Souza Martins:

“Nela o tempo e o espaço não podem ser separados. Por isso é uma historia local. A historia do cotidiano não tem sentido quando separada do cenário em que se desenrola. Por isso, é quase uma historia intimista, de vizinhanças e pequenos grupos”.

É sobre essa historia local e seu arquivo de memórias, sobre as representações que dela fazem seus atores, e sendo eu mesma uma das personagens, que direciono um dos meus trabalhos atuais.

Estudando o bairro de Copacabana, lugar onde passou grande parte de sua vida, o antropólogo Gilberto Velho lembra o desafio por ele enfrentado ao propor uma pesquisa que, deslocando-se dos convencionais estudos “dos outros”, se propunha a estudar o “nós”.

Também no caso da investigação aludida, reflito sobre um tema que, sem perder o compromisso com os sempre lembrados paradigmas científicos, trará ao final as marcas das minhas representações sobre o cenário ampliado da 205 Sul e, é claro, uma esparramada carga de subjetividade. Conforta entender com Morin que “o campo real do conhecimento não é o objeto puro, mas o objeto visto, percebido e co-produzido por nós”.

Nas providências preliminares dessa co-produção, venho elecando alguns atores da quadra. Seus depoimentos constituem uma exuberante fonte onde miríades de sentidos possíveis podem ser consideradas. Paulistas como eu, paraibanos como “seu” José, piauienses como “seu” Edmundo, baianos como o zelador, cariocas como “seu” Diamantino e tantos outros dos mais diversos lugares oferecem, na multiplicidade dos enredos sobre como aqui chegaram e que representações fazem do quartier, articulações que, pinçadas desse universo empírico, darão vida aos estudos teóricos enclausurados nas obras cujos autores se dedicam ao simbólico, ao imaginário e ao cotidiano que os engendra.

Pretendo ouvir moradores antigos e recentes dos diferentes blocos residenciais, trabalhadores tais como empregadas domésticas e funcionários dos blocos. Penso também no contingente constituído pelo pessoal ligado ao comercio das entrequadras, bem como nos trabalhadores do setor informal, protagonistas dessa prática tão brasiliense de chamar, para os mais variados pequenos serviços de casa, os fazedores e furos e colocadores de varais. Pacientemente, chova ou faça sol, eles estão ali em grupos ou isoladamente, disponíveis para atendimento imediato. São, enfim, atores nos quais a condição de não-residentes nas superquadras não lhes retira o status de membros da comunidade, em seu cenário ampliado. É o caso de Walter e Josafá, que nos prestam pequenos serviços como eletricistas, bombeiros e são, porém, identificados como os “rapazes do varal”. É também o caso de Manuel, o jornaleiro da 205  que vimos crescer, de “seu” Nicácio, o verdureiro da Kombi, e de “seu” Jáder, que, com Maria e Zé Baiano, compõem o “setor” dos sapateiros. “Seu” Jader, na verdade, mudou-se para a Asa Norte, mas frequenta a quadra comercial com a mesma intensidade de antes. Impossível chamá-los a todos neste breve painel, onde tento apenas ilustrar com alguns personagens conhecidos a animação do quartier que, em certo sentido, poderia também, numa versão mais “tapuia”, ser identificado como “o pedaço”.

É que, com as devidas compatibilizações, a noção de “pedaço” utilizada por Magnani ao trabalhar o universo de um bairro periférico da grande São Paulo harmoniza-se com a ideia de cenário ampliado da quadra, pelo menos quando se retém na noção de “pedaço” a sua condição de lugar “onde se tece a trama do cotidiano e espaço de mediação entre o lar e o resto do mundo”.

Girando o dedo indicador ao lado da fronte, no gesto que na identificação popular traduz “uma coisa de doidos”, o jovem estudante interpela-me no estacionamento da universidade, entre perplexo e curioso: “Professora, é você que trabalha com o imaginário ?” Afirmando que sou uma delas, tentei resumir o que andamos fazendo em nosso grupo de estudos. Talvez por sincronicidade, ao buscar um exemplo, lembrei-me de minhas reflexões sobre o cenário ampliado da 205 Sul e acabei sabendo que o interessado aluno é um ator do “pedaço”, pois mora na 405 Sul. Com uma breve troca de palavras, tentei esclarecer os contornos de uma noção que, mesmo presumidamente entendida, não logrou escapar do gestual reproduzido durante todo o tempo. De todo modo, como membros do quartier, partilhávamos representações gestadas no imaginário comum e vivenciávamos experiências cotidianas análogas.

De volta das férias, e contando ainda com o espaço fora da sala de aula, ocupei-me com o presente texto. Na mesma ocasião tomava algumas providências que, uma vez iniciado o semestre, acabam sendo sempre adiadas. Pequenos consertos, uma revisão nos armários e mais uma estante, pois novamente se repetia a situação – as novas aquisições sempre “imperdíveis” faziam pilhas sobre a mesa de estudos e disputavam com os CDs mais recentes, igualmente imperdíveis, um lugar ideal.

Enfim, era preciso chamar “seu” Edmundo, o nosso marceneiro. Nos dias em que trabalhamos juntos, eu neste ensaio e ele nas estantes, o incômodo barulho das ferramentas não deu conta de obscurecer aquela sociabilidade de base que saía dos livros para ganhar visibilidade na pratica cotidiana. Nos “recreios”, partilhávamos o cafezinho e conversávamos. Há mais de uma década com “ponto” na 205 Sul, o discurso de “seu” Edmundo traz as marcas que naturalmente respondem a indagações da minha pesquisa, como que traduzindo, de modo singelo, os nexos entre espaço e socialidade e a fecundidade da sinergia que as preside.

Se, como ensina Barbero, o imaginário “no es sólo aquello de que trata un discurso sino aquello de que está hecho”, a prosa de “seu” Edmundo, carregada ainda de um forte sotaque piauiense e eivada de provérbios populares, parece legitimar, apesar dos percalços de sua luta diária, aquele “gosto muito de estar aqui”, tão bem trabalhado por Certeau em suas reflexões sobre lugares, espaços e práticas cotidianas.

Partilhando a experiência comum da quadra, alternando nossos relatos pessoais, desdobro com”seu” Edmundo fragmentos de enredos “empilhados em um lugar” que outro não é senão a quadra, daí as mesmas ressonâncias. É ainda Certeau quem resume:

“O memorável é aquilo que se pode sonhar a respeito do lugar (…) nesse lugar (…) a subjetividade se articula sobre a ausência que a estrutura como existência e a faz “ser-aí” (…) este ser-aí só se exerce em práticas do espaço, ou seja, em maneiras de passar ao outro”.

Não me surpreendi com a compreensão que “seu” Edmundo demonstrou ao naturalizar a justeza dos meus estudos atuais e percebi que, de algum modo, consegui passar-lhe meus propósitos. Com um sorriso significativo, ele meneou a cabeça como que discordando do gesto adotado pelo estudante, e que eu reproduzia ludicamente, para falar sobre o imaginário da quadra. Segundo “seu” Edmundo, “há coisas que mesmo a gente não explicando muito bem, a gente sente. Acho que é o caso nosso com a quadra”.

Ou muito me engano ou pelo menos na primeira parte da fala meu amigo marceneiro entrou em perfeita sintonia com o antropólogo Durand, a quem parafraseou. Para ambos, o imaginário, antes de mais nada, manifesta-se. Percebo que “seu” Edmundo e eu, por diferentes vias, chegamos às mesmas representações sobre a quadra e seu cenário ampliado. Claro que entrevistarei “seu” Edmundo. Naquele final de tarde prosseguimos conversando, e nossas impressões, ao confluírem, revelavam um mesmo “processo de captação espacial”.

Na janela, a festa cotidiana do lago iluminado mais uma vez homenageava, cúmplice e ritualisticamente, a quadra onde moro e seu cenário ampliado, como que referendando a minha escolha.

Texto de especialização da autora, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da FAC/UnB, organizado pela Professora Cremilda Medina: “Narrativas a céu aberto: Modos de ver e viver Brasília”, 2007.

Eduardo e Mônica

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“Eduardo e Mônica é de 1980, da época do Trovador Solitário, personagem criado por meu irmão.

Algumas das citações da letra tinham a ver com o dia a dia dele, que fazia natação na AABB, gostava de cinema de arte, lia bastante e fazia seguidas audições de discos.
Embora nunca tenha revelado quem era o Eduardo e a Mônica cantados na letra, deixava no ar a ideia de que poderia ser algum dos casais do seu ciclo de amizade, como o formado pelo diplomata Fernando Coimbra e pela artista plástica Leo Coimbra”.

Carmem Teresa, irmã de Renato Russo

Arte e Poesia nas paradas de ônibus

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por Guilherme Pera
 
As paradas de ônibus da W3 Norte são acompanhadas de livros há quase uma década, com as Estações Culturais, idealizadas e promovidas pelo proprietário do Açougue Cultural T-Bone, Luiz Amorim. Nos últimos tempos, uma mudança é visível: as páginas, agora, estão acompanhadas pelos versos de Vicente Sá e as ilustrações de Ribamar Fonseca.

Inspirados na iniciativa do açougueiro e agitador cultural, o poeta e o ilustrador unem os trabalhos e os colocam em paradas da cidade. Até agora, foram três edições do projeto “Poesia de Quinta” (como o nome sugere, sempre às quintas-feiras), sendo a última na semana passada, entre 707 e a 709 Norte. Hoje, amanhecem estilizados os pontos de ônibus da L2 Norte, perto do Hospital Universitário de Brasília (HUB), entre a 405 e 407 Norte.
A ideia é simples: levar a arte ao espaço público, convidar as pessoas do Plano Piloto, habituadas a viverem ilhadas em carros, a andarem pela cidade, verem que há vida nas ruas da capital. É, segundo Vicente Sá, um projeto “de presente” para a paisagem urbana, que, na visão do artista, carece disso.

O poeta lembra casos como do Café da Rua 8, fechado por não poder tocar música, e cita o bloco carnavalesco Galinho de Brasília, impedido de ter o ponto de partida na 405 Sul. “Alguns moradores estão impedindo as pessoas de ocupar a cidade”, afirma. “A capital deve ser de quem anda pelas ruas e não dos que ficam trancados em casa vendo novela”, dispara.

A vontade da dupla é ocupar as paradas de ônibus toda semana. Após 10 edições, Vicente Sá pensa em fazer algo maior. “Quero guardar o material que produzirmos para fazer uma exposição nas paredes do Buraco do Tatu. Em um domingo de manhã, vamos chamar os artistas da cidade e, por ali, aumentar a ocupação das ruas”, explica.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 22 de fevereiro de 2014.

Cyro, o poeta e Brasília

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Por Conceição Freitas
 
Peça preciosa chegou via postal, delicadeza do leitor Pedro Rogério Couto Moreira. Trata-se de cartas trocadas entre o escritor Cyro dos Anjos, em Brasília, e o poeta Carlos Drummond de Andrade, no Rio. Entre o subchefe do gabinete civil da Presidência da República no governo Juscelino Kubitschek e o colega de repartição de Lucio Costa.

Em 23 de maio de 1960, o autor de “O amanuense Belmiro” escreve ao amigo e compadre que, declaradamente, estava inconformado com a mudança da capital.

“Meu caro poeta, esta não é ainda a carta que lhe quero escrever, dando noticias de minha nova morada. Envio-lhe apenas umas linhas para acompanhar a do seu afilhado, escrita do próprio punho e lavra, salvo quanto às anedotas do criado-mudo e do candango que fala no edifício como uma cuia pra riba e outra emborcada – parte em que valeu da colaboração do João Carlos.

Estou gostando muito da terra, e uma das razões deve ser a de que burro velho aprecia capim novo. Mas há outra:
1 – uns crepúsculos fabulosos (das auroras ainda não posso dar noticias, mas qualquer dia madrugarei só para vê-las);
2 – um horizonte imenso, abarcante, que se insinua por toda a parte, enfiando-se pelas casas e até pelas almas adentro. O qual horizonte é tão dilatado e sereno, que a gente é conduzida a todo instante a matutar no Sumo Arquiteto – esse que faz, nas nuvens, palácios mais leves do que os de Oscar Niemeyer – e a conversar sobre temas como a imortalidade da alma, etc., tal como sucedia, em tempos idos, na Praça da Liberdade, às 3 da manhã, ao se encerrar uma serenata;
3 – noites estreladas em que ouve, de verdade, a pitagórica música das esferas;
4 – a terra é praiana, chã e formosa, com pequenos outeiros mui disfarçados e algumas veredas mui graciosas.

Por outro lado, sinto-me devolvido à minha paisagem de infância, neste tabuleirozinho, meio campo, meio cerrado, onde bodoquei passarinho (sem acertar nenhum) nas orlas de Montes Claros. O ar é seco, à noite vem o friozinho de Belo Horizonte, outro motivo de retrospectivas ternuras. Seu velho compadre, Cyro.”

Vinte e dois dias depois, Drummond responde: “Eu já soubera, por algumas fontes, que você se aclimatara bem no planalto, o que me causou satisfação, pois não haverá muitos dramas superiores ao de nos sentirmos estranhos e sobrando numa cidade. Acredito que a identificação com paisagens da infância e crepúsculos belo-horizontinos ajudou a coisa; já eu não teria maior facilidade em incorporar-me ao ambiente, por faltarem aí as tenebrosas montanhas de ferro da minha região e também porque, a essa altura dos acontecimentos e da vida, sinto que vendi minha alma ao Rio.”

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense, de 21 de fevereiro de 2014.

Prece natalícia de Brasília

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Agora e aqui é a Encruzilhada Tempo-Espaço.
Caminho que vem do Passado e vai ao futuro;
caminho do Norte, do Sul, do Leste e do Oeste:
caminho de ao longo dos séculos,
caminho de ao longo do mundo:
– agora e aqui todos se cruzam
pelo sinal da Santa Cruz.
Ave, Cruz! Tanta cruz pelos caminhos,
através de tanto tempo e tanto espaço!
Deus de braços abertos para os homens,
do broquel dos Cruzados estampou-se,
potentéia, de goles e vazada,
no velame das naus da Descoberta.
Do Restelo veio ela ao Mar Ignoto
e, seguindo “por este mar de longo”,
na passagem de linha, à noite, quando
mergulhou no horizonte a Tramontana,
o céu de lua-nova persignou-se
no Cruzeiro do Sul de Mestre João,
Vera Cruz, Santa Cruz – chamou-se a terra
achada, e “em tal maneira graciosa”
que deu árvore sua à cruz chantada
para a missa, e que foi padrão de posse,
armoriada de quinas e castelos.
Crucifixo foi a arma que, nas selvas,
contra as flechas ervadas empunharam
Ad majorem Dei gloriam as missões.
Signo heroico daqueles que partiam
do cruzeiro dos adros aos sertões,
foi o gesto, na gesta das Bandeiras,
do que elevou a mão para benzer-se
e levou-a depois à cruz da espada.
Presidiu o amoroso cruzamento
dos três sangues que as redes e as esteiras
conheceram nas ocas e senzalas.
Subiu a um cadafalso de ignomínia
para o beijo final de um sonhador.
Sobre a esfera-armilar de uma coroa
e no centro estelar de uma bandeira
foi o fulcro supremo do poder.
E da intersecção de auroras e poentes
– setas em cruz sobre os arcos retesos –
partiram os dias, partiram as noites,
cruzaram os ares, cruzaram as terras,
por séculos e anos e luas e…
…E, um dia inaugural,
num alvo papel pregado à prancheta
a cruz sempiterna pousou sua sombra
e – um traço, outro traço –
“do gesto primário de quem assinala um lugar”:
dois riscos cortando-se em ângulo reto, e, pois, de uma cruz
nasceste, Brasília!
E, sublimação do “gesto primário”,
ponto de encontro das fundas raízes do Tempo e do Espaço,
emerges da terra em forma de cruz.
E, porque és Cruz, és Fé; e, porque és Fé, Brasília,
sozinha no plaino serás a intangível, a ilesa:
na sombra, a teus pés, não se há de tramar
o torvo conluio dos quatro elementos,
nem contra os teus muros as fúrias adversas prevalecerão.
Chuva que te inunde,
vento que te açoite,
sol que te incendeie,
bruma que te ofusque,
astro que te agoure,
raio que te toque:
– tu secarás a chuva,
abaterás o vento,
apagarás o sol,
dissiparás a bruma,
conjurarás o astro,
embotarás o raio!
Ai estás, Brasília! E como está vivendo
belamente este instante que é, de todos
os teus instantes, o eternizador!
Ai estás, Brasília! E, como estás, pareces
ave de asas abertas sobre a terra:
voo pousado para alçar-se, altivo!
Aí estás, Brasília do olhar de menina! Menina-dos-olhos
olhando sem mágoa o Passado e sem medo o Futuro,
sem ver horizontes na terra e no céu porque eles recuam
ao impacto impetuoso das tuas pupilas;
com teu meridiano que foi Tordesilhas:
corda torcida que os teus ancestrais distenderam
para que aos quatro ventos soltasses agora o teu gesto de setas
– és tu, juvenília, “non urbs sed civitas”,
o centro da Cruz, Tempo-Espaço,
plantada no teu Quadrilátero,
com suas quatro hastes que são quatro séculos,
e são quatro pontos cardeais,
e são quatros ciclos de ação:
o da Descoberta, o do Bandeirismo,
o da Independência e o da Integração.
Feita do fluxo e refluxo das forças que dão o poder,
centrípeta para tornar-se centrífuga,
Brasília, é a tua Cruz da Quarta Dimensão, e Tetragrama
do Milagre Novíssimo que és tu;
a que dirá “Presente”, impávida, ao chamado
do fasto e do nefasto; a que é o Marco Zero
das vias todas, da mais ínvia à mais viável;
o imã para a limalha de aço do Trabalho;
a ponta do compasso autor da Equidistância;
Brasília, a tua Cruz que é Presépio também
e a cujos pés a ti, no teu Natal, rogamos:
– Barca de esperança,
Carta de marear,
Rosa-dos-ventos,
Vela de conquista,
Figura de proa,
Bandeira de popa,
Torre de comando,
Estrela de mareante,
Porto de destino,
Âncora de firmeza,
Portal do sertão,
Corda de arco,
Farpa de flecha,
Doutrina na taba,
Foice de desbravamento,
Clareira na selva,
Clarinada no ermo,
Bateia no garimpo,
Diadema de esmeraldas,
Crisol de raças,
Ara de liberdade,
Trono de império,
Barrete frígio,
Toque de alvorada,
Meta das metas:
                                      – Vive por nós!
 
Guilherme de Almeida, poeta natural de Campinas (SP).
Poema transcrito da antologia poética “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira  

Clarice ao infinito

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Por Severino Francisco
 
“Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. – É uma praia sem mar. – Em Brasília não há por onde entrar, nem por onde sair. Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza.” Quem lê as duas crônicas que Clarice Lispector escreveu sobre Brasília costuma perguntar: “Que droga essa mulher tomou?”. Não tomou nenhuma: foi tomada de assombro pela espacialidade da capital modernista. Ela era lisérgica pela própria natureza e não precisava de aditivos químicos para ter iluminações: “A inspiração não é loucura: é Deus”, escreveu.
Se, ao visitar Brasília, Nelson Rodrigues se ateve aos fatos pateticamente triviais, às moças fazendo xixi detrás das moitas nas estradas, ao pó do Planalto – que ela declarou sagrado -, Clarice dirigiu o olhar para o céu, ao mar de ponta-cabeça em movimento silencioso, ao cinema transcendental das nuvens, à luminosidade prateada dos dias, à magnitude das noites brasilianas e ao silêncio visual da cidade. Ela não fez muitas menções explícitas ao céu, mas ele está implícito em quase tudo que escreveu. Repete, frequentemente, o fato de Brasília ser uma cidade redonda, construída na linha do horizonte, assolada pelo esplendor de uma luz branca. É o espanto em face do espaço aberto que desencadeia as epifanias brasilianas de Clarice: “Aqui eu tenho medo, esse silêncio visual que eu amo.”

Se alguém quiser saber o que é Brasília, para além do cartão-postal ou da chapa-branca, precisa consultar os artistas. Eles revelaram a capital modernista, mesmo quando a passagem pela cidade foi fugaz. Em vez de frases feitas ou ideias prontas, sempre interagiram com a cidade, se deixaram marcar e imprimiram a marca do seu olhar. Clarice só veio a Brasília duas vezes, uma em 1962 e outra em 1974. No entanto, ela captou como ninguém a alma metafísica da cidade. Rubem Braga não gostava das crônicas de Clarice: “Ela só é boa em livro”, teria dito o capixaba. Mas ele se equivocou, não percebeu que Clarice inaugurou uma vertente original: a da crônica metafísica.

O próprio Braga reconheceu que operava com antenas de radinho Galeno, mas Clarice tinha um arsenal mais poderoso de varredura e prospecção. Ela chegou a Brasília armada de ondas curtas, radares e satélites e captou a alma metafísica do Planalto, a sua natureza fluida, aérea e celeste: “Brasília é uma cidade abstrata. E não há como concretizá-la. É uma cidade redonda e sem esquinas. (…) “(Noto aqui um acontecimento que me espanta: estou escrevendo no passado, no presente e no futuro. Estarei sendo levitada? Brasília sofre de levitação.”)

A escolha do altiplano, com 360 graus de visão, pertinho do céu, foi o ato de criação mais genial de Brasília. Esse aspecto da natureza não passou despercebido a Lucio Costa e Oscar Niemeyer, arquitetos-artistas, que pegaram carona nesse presente dos deuses e conceberam uma cidade para realçar e inaugurar a paisagem: “Ao contrário de outras cidades, que se conformam e se ajustam à paisagem, no cerrado de céu imenso, como em pleno mar, a cidade criou a paisagem”, escreveu Lucio Costa. Clarice percebeu com agudeza o projeto dos arquitetos: “Construções com espaço calculado para nuvens”.

Clarice tinha na alma sibérias glaciais, desertos incomensuráveis, paisagens lunares, silêncios milenares e solidões de descampados. Por isso, identificou-se e assombrou-se tanto com Brasília; ela era a imagem de sua alma: “Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo do meu sonho. O mais fundo do meu sonho é lucidez. Brasília é uma estrela espatifada. É linda e nua. O despudoramento que se tem na solidão. Ao mesmo tempo fiquei com vergonha de tirar a roupa para tomar banho. Como se um gigantesco olho verde me olhasse implacável”.

O mais surpreendente é que identificamos perfeitamente a cidade real e concreta revelada por sua visão lisérgica: “A luz de Brasília me deixou cega. Esqueci os óculos no hotel e fui invadida por uma terrível luz branca. Mas Brasília é vermelha. E é completamente nua. Não há jeito da gente não ser exposta nessa cidade. (…) Eterna como a pedra. A luz de Brasília – estou me repetindo? – a luz de Brasília fere o meu pudor feminino. É só isso, minha gente, é só isso.”

O céu de Brasília em sintonia com a arquitetura de Lucio Costa e Oscar Niemeyer despertou o misticismo de Clarice: “Eu sei o que os dois quiseram: a lentidão e o silêncio, que é também a ideia que eu faço da eternidade.” A espacialidade de Brasília convida ao voo, ao exercício da liberdade e a respirar fundo: “Como a gente respira fundo em Brasília. Quem respira, começa a querer. E querer, é que não pode. Não tem. Será que vai ter?” Em outra crônica, escreveu que “respirava Deus”. Clarice revelou Brasília, mas Brasília também desvelou Clarice. Em nenhum outro lugar, ela respirou Deus tão profundamente: “Brasília é um pacto que eu fiz com Deus.”

Texto transcrito da edição especial “O céu de todos nós”, do Correio Braziliense, em 21 de abril de 2014.

Um telefone é muito pouco

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“Cheguei a Brasília em 1974, vindo de Salvador, para fazer uma exposição. Na época, carregava sempre comigo um uma boa foto que violão. Foi nele que compus Um telefone é muito pouco.  

Estava namorando uma menina que morava “Nas casas” (zona de prostituição, localizada depois do Gama). A comunicação com ela era dificílima, pela distância que nos separava e pela telefonia, que naquelaépoca era precaríssima. A musica virou sucesso já nas primeiras audições e tornou-se conhecida nacionalmente, depois da gravação de Léo Jaime”

Renato Matos

Fala, Dr. Lúcio

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“Eu tinha idealizado uma cidade assim, mais civilizada, que ocorreu em grande parte, e aí está esta cidade, uma cidade serena, uma cidade bela, uma cidade que é, enfim, diferente de todas as outras cidades brasileiras. E, como tal, é normal que ela seja diferente das demais cidades, porque é um caso singular, um caso único

O projeto todo de concepção de Brasília foi visando a isso, um projeto para fazer em três anos o arcabouço da capital definitiva do país. Nisso é que fui feliz. Estava imbuído de uma coisa mais digna, uma coisa para que cada brasileiro que venha a essa cidade nova e que venha de uma metrópole antiga, como São Paulo, Rio, ao chegar aqui não se sinta numa cidade de província, mas na capital do país, pelas dimensões, pela grandeza de intenção. Sentindo aquela nobreza de intenção, aquela dignidade que inspira um certo respeito. Eu estou aqui, gosto, não gosto, mas estou na capital. Ela, de saída, assumiu a posição de capital”.

Como conciliar esta escala ampla com a escala doméstica, a escala residencial, que é uma escala ao contrário, uma escala concentrada, limitada? Então, me vi diante dessa contradição. Aí surgiu a ideia de criar estes grandes quadrados, emoldurados de árvores. E como se uma moldura verde dentro desses quadrados que, por serem grandes, de 300 metros de lado, estavam na escala monumento do Eixo. Assim, eles se articulavam bem, estabeleciam uma unidade de composição e criação. E dentro do quadrado, então, construir os edifícios residenciais, limitados a este gabarito sereno, que é fundamental. E deixar a cidade explodir no encontro dos dois eixos, com esses edifícios altos, inclusive com duas barbaridades que eu gostaria de denunciar, o edifício do Banco Central e o segundo edifício do Banco do Brasil, feitos pelo mesmo criminoso. Foi coisa inconcebível que se fizesse aqueles dois edifícios cabeçudos, aquela coisa de uma pretensão, de uma vulgaridade que ofende a serenidade do ambiente de Brasília”.

Trecho da entrevista concedida ao repórter Omar Abudd, do Jornal do Brasil, em novembro de 1984.

 
 

Missão Cruls: 120 anos

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O homem que marcou o lugar

Por Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Em consequência, o ministro dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Antão Gonçalves de Farias (1854-1936); ministro da Fazenda e da Agricultura, (de 23 de novembro de 1891 a 23 de junho de 1892), por meio da portaria de número 119-A, de 17 de maio de 1892, organizou a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, escolhendo para chefiá-la o astrônomo brasileiro de origem belga Luiz Cruls (1848-1908), que, na época, era professor da Escola Superior Militar e diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, atual Observatório Nacional. Ao comunicar essa designação, o ministro deu as seguintes instruções que deveriam nortear a demarcação da área, onde mais tarde, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976),  seria  construída Brasília, sem dúvida uma das mais belas capitais do mundo moderno:

“No desempenho de tão importante missão deveis proceder aos estudos indispensáveis ao conhecimento exato da posição astronômica da área a demarcar, da orografia, hidrografia, condições climatológicas e higiênicas, natureza do terreno, quantidade e qualidade das águas, que devem ser utilizadas para o abastecimento, matérias de construção, riqueza florestal, etc., da região explorada e tudo mais que diretamente se ligue ao assunto que constitui o objeto da vossa missão”.
“No decurso de tais trabalhos e tanto quanto possível, podereis realizar não só os estudos que julgardes de vantagem e utilidade para mais completo desempenho do vosso encargo, mas ainda os que possam concorrer para a determinação de dados de valor cientifico com relação à essa parte ainda pouco explorada do Brasil”.

Procedimentos

Para se ter uma ideia dessa missão, convém assinalar que, além das barracas, das armas, dos mantimentos, dos instrumentos científicos – tais como dois círculos meridianos portáteis, teodolitos, sextantes, micrômetros de Lugeol, luneta astronômica, heliotrópicos, cronômetros e relógios, seis barômetros de mercúrio sistema Fortin e onze aneroides, bússolas, podômetros, diversos instrumentos meteorológicos, câmaras fotográficas com seu respectivo material de revelação – a Comissão levou uma pequena oficina de aparelhos mecânicos, destinados ao conserto dos instrumentos que viessem a sofrer algum acidente. Todo esse material ocupou um total de 206 caixas e fardos que pesavam ao todo cerca de dez toneladas.

Em 8 de junho, foi concedida anistia a todos os cidadãos detidos e expulsos durante os conflitos ocorridos em abril. No dia seguinte, mais exatamente, no dia 9 de junho, ocorreu a partida da Comissão, do Rio de Janeiro para Uberaba, ponto final da linha férrea da Companhia Mogiana. Desse ponto em diante, todo o percurso da missão foi realizado com o auxilio de animais cargueiros. Na realidade, a Comissão só partiu de Uberaba no dia 29 de junho, tendo em vista todos os preparativos para reunir os animais e os acompanhantes que deveriam auxiliar os membros da comitiva, não só no transporte dessa enorme carga, mas também na orientação das trilhas a serem percorridas. Uma greve dos ferroviários da Central do Brasil, em 22 de julho, paralisou os transportes, o que indiretamente motivou o pequeno atraso.

Todos os itinerários percorridos foram levantados cuidadosamente pelo processo americano de caminhamento, que consistia em se servir do podômetro, da bússola e do aneroide. O podômetro – aparelho que mede o número de passos dados durante uma marcha – adaptado aos animais, foi usado para determinar a distância por eles percorrida, uma vez que se conhecesse a extensão do passo dos diferentes animais, cujos valores, segundo Cruls, variaram dentro dos limites de 0,66 e 0,72m. Com a bússola, determinava-se a direção a ser seguida e, com os barômetros e/ou aneroides, a altura. Ao longo de todo o trajeto, além do itinerário determinado pelo processo de caminhamento, os astrônomos e auxiliares fizeram numerosas observações astronômicas, com o objetivo de determinar as coordenadas geográficas, com o auxilio dos sextantes, por meio das alturas meridianas do Sol e das estrelas.

Depois que deixaram Uberaba, a caminho de Pirenópolis, a Comissão passou pelas cidades de Catalão, Entre Rios e Bonfim, chegando em 1 de agosto ao seu destino. Em Pirenópolis, a 12 de agosto, Cruls decidiu dividir o pessoal em duas turmas, com o objetivo de percorrer o planalto, a ser explorado por dois caminhos diferentes. A primeira turma – chefiada por Cruls – seguiu diretamente para Formosa, onde chegou a 23 de agosto. A segunda, que passou por Corumbá, Santa Luzia (hoje Luziânia) e Mestre d’Armas (hoje Planaltina), chegou em Formosa a 14 de setembro. Ambas as turmas deviam determinar diariamente a hora e a latitude. Para tanto, deviam usar quaisquer fenômenos que pudessem servir para determinar a longitude, como os eclipses do primeiro satélite de Júpiter e as ocultações que deveriam ser observadas pelo menos em alguns pontos do itinerário. Outro processo usado foi a determinação da longitude por distâncias lunares – quer pela passagem da Lua e/ou de uma estrela pelo mesmo vertical ou pela mesma altura -,  quer  por diferenças de altura entre os dois astros. Em cada acampamento, faziam-se visadas com o trânsito de Gurley, em direção aos acidentes geográficos mais notáveis e, sempre que possível, deveriam determinar a declinação magnética das cidades visitadas, em especial Santa Luzia e Formosa.

Ambas as turmas, em especial a segunda, determinaram, desde a sua partida de Pirenópolis, o volume das águas dos diversos rios que encontraram no seu trajeto.

Depois dessa primeira exploração preliminar da região, o principal problema da Comissão era a demarcação da zona. Havia diversas soluções possíveis. No entanto, convinha procurar a que melhor satisfizesse a determinação do artigo terceiro da Constituição: “Fica pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”.

Uma delas seria adotar uma forma irregular, para a zona do futuro Distrito Federal, na qual tornar-se-ia para limites os sistemas orográficos e hidrográficos. A outra seguiria o exemplo dos EUA, onde os limites dos estados da sua federação são, na verdade, arcos de meridiano e arcos de paralelo. Imaginou Cruls que se fosse adotado o critério norte-americano, o melhor seria demarcar a área sob a forma de um quadrilátero que tivesse por lados arcos de paralelos e meridianos.

A primeira solução – a forma irregular – exigiria um longo tempo para a sua demarcação, em virtude da necessidade de um indispensável levantamento do perímetro da zona delimitada, com medições de base fundamental numa primeira demarcação, definitiva e absoluta, por meio de um levantamento geodésico.

A segunda – a solução do quadrilátero esferoidal – preenchia melhor a proposta. Tinha também a vantagem, pelo seu perímetro em forma de uma figura geométrica regular, de evitar futuras questões litigiosas que pudessem surgir entre os estados limítrofes. Na verdade, as latitudes de dois arcos de paralelo, bem como as longitudes de dois arcos de meridianos, delimitam a área demarcada e tornam possível verificar, a qualquer momento, a posição exata no terreno dos limites da zona. Por outro lado, a forma e as dimensões do esferoide terrestre permitiriam determinar, com suficiente rigor, a área de um quadrilátero limitado por arcos de meridiano e de paralelo, uma vez que suas respectivas longitudes e latitudes fossem bem conhecidas.
Uma vez decidida que a segunda solução era a melhor, Cruls devia escolher a forma do quadrilátero. Para isso, inspirou-se em considerações relativas à própria região, tais como o seu sistema hidrográfico, orográfico, riquezas naturais, etc.

Com base nessas considerações, Cruls concluiu que a forma mais conveniente seria um quadrilátero que tivesse cerca de 160 e 90 quilômetros como arcos de paralelo e meridiano. De modo que o quadrilátero teria uma superfície de 14.400 quilômetros quadrados, como havia sido determinado na Constituição.

Texto transcrito do livro “Luiz Cruls: o homem que marcou o lugar”, Gráfica e Editora Qualidade.

Nova espécie urbana

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts 3 Comentários

Por Conceição Freitas

Talvez nenhuma outra cidade no mundo, salvo as que se transformaram em ruínas, precise de uma iniciação para ser compreendida e só então aceita. Brasília pede uma cartilha que pegue o visitante pela mão e o ajude a decifrar sua racionalidade tão evidente, porém tão intrincada e perturbadora.

É preciso esquecer toda a experiência anterior de cidade, ou pelo menos renunciar a comparações, para só assim conseguir se aproximar desse estranho jeito de formatar um lugar urbano pra se viver. Em Brasília, até a relação corpórea com o espaço físico é singular. Aqui, um passo não tem as mesmas dimensões de um passo no Rio, em São Paulo ou em Goiânia ou em qualquer outra capital brasileira – ou estrangeira, das que tenho notícias.

O espaço brasiliense tem um vácuo interestelar. Em Brasília, não existe o ‘logo ali’. A topografia calma, serena e majestosa, como escreveu o botânico Auguste Glaziou, estica a molécula das distâncias e nos transforma em formiguinhas num planeta de dimensões astronômicas. De tão longe que tudo é, ficamos perigosamente próximos da solidão.

Em Brasília, somos todos solitários. Há entre mim e você, entre aquele e aquele outro, uma distância oceânica. E não é apenas a imposição topográfica de um extenso vale circundado de chapadas – imensidão envolta em imensidão. Os brasilienses ainda somos estrangeiros, porque mesmo os aqui nascidos são filhos de outras regiões e de outras culturas.

O que nos une é o que nos separa – a experiência de viver numa cidade que já nasceu em extinção, porque não haverá nenhuma outra para lhe fazer par. Será única desde o principio até o fim dos tempos. Quem desenhou esse lugar não quis repetir a fórmula milenar de aglomerados urbanos feito de proximidades e de misturas. Quem desenhou Brasília quis inventar um novo homem e novo corpo para o homem.

A cidade não nos sufoca, não nos cerca, não nos dá encosto. Ela nos deixa soltos no ar, com a ilusão de que estamos pousados na Terra. Que nada. Demasiada imensidão despojada de obstáculos faz do brasiliense um ser humano alado. Mesmo nos congestionamentos, sufocados pelas mazelas das metrópoles (nisso somos iguais), nos é oferecida uma perspectiva única no modo de vida urbano: a totalidade do céu, as chapadas faiscantes de luzes, as rodovias como pedras preciosas de uma joia infinda.
O brasiliense tem um corpo fechado em si mesmo. Mais do que em qualquer outro lugar habitável, em Brasília o ser humano é uma ilha. É um insulamento arbitrário, que nos constitui, como se fôssemos as primeiras gerações de uma nova espécie urbana.

Transcrito do Correio Braziliense, 5/5/2013 – “Crônica da Cidade”

Flor do Pequi

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Posts 1 Comentário

Flor do Pequi - Por Roberto Castello
Uma estrela assim formosa
Que nasce aqui no cerrado
Do pequizeiro é a rosa
E seu fruto é afamado.

Esta flor é bem sensível,
Não se pode apertar não
Sua reação é incrível,
Ela murcha e cai no chão.

O seu fruto é saboroso
Quem o come não esquece.
Sem espinhos é gostoso,
Vem provar, se não conhece.

Hull de La Fuente, poetisa mato-grossense.
Transcrito de “Tantas Palavras”, Correio Braziliense.

Estrela Cadente

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Posts Sem Comentários

“Numa noite de junho de 1979, eu estava indo para o Colégio Planalto, na 908 Sul, quando uma imensa estrela caiu. Clareou tudo ao redor e fiquei fascinado com o acontecimento. Fui para a sala de aula e não conseguia me concentrar em nada. Agoniado, resolvi voltar para casa e escrever algo. No meu quarto, peguei caneta e papel e escrevi de primeira: ‘Cai dos ares, vem dizer/O caminho da esperança/Vem deixando rastros/como um feixe de luz…’ Na hora me lembrei do amigo Edbert Bigeli, meu colega na Escola de Música, e na mesma noite ele fez a melodia”

Paulo Maciel, Mel da Terra

Ouça a música:


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