SK8

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SK8
É
cultura
energia
pulsação
é um tipo de célula social
para construção de laços,
amizades, cidadania

antes da existência dos paralamas do sucesso
o Herbert e o bi conheceram-se através do SK8

cresci entre livros e idas de SK8
para a pista do clube dos 200 em Taguatinga

a chegada da pista na praça do D.I.
representou o desejo de toda uma geração

ontem,
diante dos olhos do administrador de Taguatinga,
nossa pista foi derrubada

a praça do SK8 é do povo
ontem meu coração foi dormir furado
ontem foi o meu pior role em taguatédio

querem acabar com as drogas?
derrubem polític@s ordinári@s

a fúria dos deuses
irá voltar-se
para os criminosos
da beleza

Paulo Kauim
Poema transcrito da coluna “Tantas Palavras”, Correio Braziliense, 07 de maio de 2015.

BRASILIA FUTURA

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Lua cheia
no meio do Brasil
a construção de tudo: a cidade
No princípio é moldura do nada
sobe mais de 1.000 metros no ar
nem um morro contorna a vista
no alto o plano piloto vira escultura
A primeira fase é candanga
ligação de Brasis
com o mundo
Os pés sobre a terra finavermelhácida
pele de asfalto
corpo de concreto e vidro
mãos ao norte e sul do fazer
O rosto da cidade fica conhecido
sai do papel
escala o pico do impossível
em recorde de inauguração
A cidade criança engatinha
abre os braços para toda gente
parece com a mamãe e o papai
traços da filosofia socialista e de Le Corbusier
anda com a burocracia e suas primas Poesia e Lazer
Infância de sonhos
cidade encontro de céu e chão
asas de último tipo
A dimensão Brasília
face humana do cerrado e arquitetura
fundidos em habitantes-raízes da utopia
Brasília
marco zero da ocupação do interior
voo de raças e quereres
seta ao vento da miscigenação
Aqui não tem mar, não tem esquina
nem trem ou tradição…
ter nascido cidade-capital é destino
de gente, espaço e tempo
Oscar Niemeyer e Lucio Costa
criaram os rumos da modernidade brasileira
largo gesto de autoria
de casas e palácios das mudanças
Tem palavra que é Brasília escrita e pronunciada
mudança é uma delas
muda de lugar e hora
transmuta e marca a história.

Delei
Poema transcrito do álbum “Brasília: 55 anos – da utopia à Capital

O Povoamento Poético de Brasília

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Por Anderson Braga Horta

Brasília foi um gesto ousado, corajoso, temerário para alguns, combatido por muitos. Mas não foi um gesto impensado. Repito o que disse em “Notícia de Poesia em Brasília”, texto que abre o livro “Sob o signo da Poesia: Literatura em Brasília”:

A ideia de uma cidade atravessa os séculos encoberta pela névoa da Profecia, que se clarifica no sonho-visão de Dom Bosco. A Palavra – o Logos, o Verbo – está associada a ela, em particular a Criação, a Poesia. E Brasília surge, em verdade, como um Farol de autoconhecimento, de auto-realização, de integração nacional e supranacional, de fraternidade.

O planejamento e a implantação, no cerrado quase deserto, de uma cidade moderna, destinada a ser a capital de um país em ascensão – melhor ainda: a cidade nascida de uma ideia progressista, de um pensamento generoso – mexeu com o País e provocou o interesse do mundo. Natural que estimulasse a imaginação de alguns poetas. Pois, como disse e gosto de repetir, Brasília nasceu sob o signo da Poesia.

Os grandes poetas que primeiro cantaram a nova cidade foram Vinicius de Moraes, Cassiano Ricardo e Guilherme de Almeida. Vinicius na “Sinfonia da Alvorada” (música de Tom Jobim), Cassiano Ricardo na “Toada para se Ir a Brasília”, Guilherme na “Prece Natalina de Brasília”.

Brasília está, com essa espécie de batismo poético, desde o nascedouro ligada à melhor literatura nacional. A rigor, desde antes, e muito antes, se pensarmos em tudo quanto se escreveu – em tudo o que se sonhou! – sobre a interiorização da capital brasileira. Recordo, a propósito, o caso curioso de Osvaldo Orico, que publicou, no livro “Dança dos Pirilampos”, de 1923, o poema “A Cidade do Planalto”, que lhe parece cair – premonitoriamente – como uma luva.

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Arquitetura moderna do amor

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Mônica é do plano

                         Fernando de Brazlândia

                                                         Seus caminhos fizeram
                                                                                            t

                                    e 

                                              s

                                                    o

                                                u

                                          r

                                   i

                             n

                       h

                             a

                                na estrutural

Numa tarde de c

                        h

                        u

                         v 

                         a 

lado a lado na zebrinha 

moto parcelada dele deu pau

Trocaram watzaps

combinaram de ver o por do sol na praça do cruzeiro

Mônica chegou tarde

Fernando não sabia o que fazer além de tirar fotos

o sol, no monumental, se foi

restou rodoviária do plano e um dissabor meio ponte Costa e Silva para ele

para ela, um pouco da coloração psicodélica de um fim de tarde na primavera

Combinaram novamente de se encontrar

parque olhos d’agua

caminharam e cruzaram a ponte do rio verde

entrequadras 

se entrelaçaram 

beijo com sabor de flor do cerrado e beleza de pé de pequi

perderam o eixo

esqueceram as setecentas e se perderam nas novecentas

tiraram fotos na igrejinha

e se amaram na concha acústica

terminaram em plena seca, quando floriram os ipês

voltaram junto com os flamboyants e viram a primeira chuva da janela.

 

Post Patrick Mariano

Viver é bom

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Chego a Brasília,
– Que calor é esse, meu Deus,
Tem uma lua linda,
Lua nova soprando brisa fresca.
Que venham as noites frias
Da estação das secas
E que se abra a florada
Exótica do Cerrado.
Brasília,
Acho que é um poema
Que me nasce agora,
Vem cá, dá-me um abraço,
Minha cidade linda.
Deixa-me admirar-te,
Flor digital.
Na imensidão do Planalto.
Deitada à rede de casa,
Penso que é bom viajar
E que voltar
É melhor ainda.
Viver é bom, afinal.

Post Amneres, poetisa paraibana
Poema inédito

Não há

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Não há

Dia mais curto que aquele…
Manhã mais longa que a mal começada…
Não há neste mundo…
Caminho sem volta
Pedido sem resposta
Olhar não devolvido
Pior sentimento que o da entrega…
Culpa maior que a dor…
Dor maior que a solidão…
Desejo maior que o da carne…
Coração vazio de amor…
Maior cego que o de olhos abertos…
Ou alegria maior que ver o SOL…
Mesmo que numa noite sem fim!!!

Post Helio Moura Filho, poeta natural de Sorocaba

Face do Planalto

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Face do Planalto

 

Sob as faces do Planalto

Novo tempo que começo

A espera de um milagre

Doce fato que aguardo

Meu afeto por você

 

Andarilho como sou

No aguardo do momento

Nova vida vim buscar

sob as faces do Planalto

 

E do instante que perdi

Novos olhos me guiaram

Ao abraço permanente

Nova vida estruturou

 

Sob as faces do Planalto

Doce vida vim buscar

Novo tempo que construo

Ao instante permanente

Leite mel a derramar

 

Post Helio Moura Filho, poeta natural de Sorocaba

Brasília de Mim

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Brasília de Mim

 

A doce terra do leite e mel

Planalto central de mim

Aos olhos de um novo tempo

Um novo passo se faz

 

Das curvas de concreto

Em um esboço e papel

Ergo minhas suplicas ao céu

Brasilia de mim

 

Do sonho que um dia apaguei

O cerrado do tempo os refez

Ao reflexo de um espelho

Que um dia ousei olhar.

 

E do caco que um dia fui

Sincero momento de gozo e prazer

Ao caminho que hoje trilho

Brasília de mim

 

Post Helio Moura Filho, poeta natural de Sorocaba

SENHORA BRASILIA

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SENHORA BRASILIA

 

Eu já sou senhora

Tenho quarenta e sete anos

Mas me sinto jovem

Forte e bonita

Sou conhecida

Nos quatro cantos

Do mundo

Não tenho orgulho

Acolho brancos, negros

Pobres e ricos

Todos que me veem

Se encantam

Admiram-se

E se apaixonam

Imponente para o mundo

Fui sonhada

Fui planejada

Hoje sou amada por todos

Sou a Capital do Brasil

Eu sou Brasília!!!

 

Post Francisco Pereira, poeta potiguar, natural de Natal.

BRASÍLIA

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Se fosse abraço

me fundiria em ti.

Se fosses luz

me esculpiria em tua sombra.

Se fosses orvalho

me derreteria em teus lagos.

Se fosses ilusão

te sonharia licenciosa.

Se fosses remanso

me embalaria nos teus côncavos.

Se fosses tudo

o que és,

Brasília dos mil poderes

mágica alucinação

do desafio

se fosses

então eu seria em ti.

 

Sofia Vivo, poetisa natural de Montevideo, Uruguai

Poema transcrito do acervo da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília

Quando saí do quadrado

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Quando saí do quadrado;
Vi que os andares não se acabavam no seis
Que o mundo era muito maior que
O eixão e a W3

Fora do quadrado;
Valorizei o chão, o vão, pintar o asfalto
Sangrar o nariz.
Correr, cair e levantar
Debaixo do pilotis.

Voltar pro quadrado;
É um plano, é um vôo
É ser piloto do próprio avião

Aprendi que a voltinha no parque
Demora mais que imaginava.
Aprendi que o silêncio de muitos
fazia valer a quem se falava.

E pouco a pouco, na planitude,
Vi passar muitos e largos anos
Como largas eram as ruas e escolhas
no meu viver cartesiano.

Post de Cevs Volpi e Jóta Stilben, via Facebook

Brasília revisitada

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Para Adirson Vasconcelos

Que sei de ti?

Que sei de mim?

Volto às origens de tudo: barro.

Tumulto e barro mal comprimidos

no largo espaço do meu espanto.

Vagas lembranças de um pé-de-vento

e o redemoinho varrendo sonhos.

Desde o começo desta epopeia,

homens e bichos se circunscreveram em puídos mapas,

em utopias de sonhadores do amanhã.

Volto ao passado,

Vejo o presente

e a solidão frutificada.

João Carlos Taveira, poeta mineiro

Choro sorrindo

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O Clube do Choro

É um pedacinho do céu

Na noite de Brasília

É uma sonífera ilha

De sons-maravilhas

Sortidos & Alados

O Clube do Choro

É um bordado

Uma sinfonia

Usina de notas

Brasileiríssimas

Soltas no palco

Iluminado por carícias

Da citara de

Aveno de Castro

Lá, o não é nunca

E o sim tem o som

Sempre sincopado

Quando vou ao

Clube do Choro

Ahh, Chiquinha

Não vou sozinho

Vou sem medo

Quando não bebo

Bashô

Bashô

Bashô o santo

Agora todo Japão é banto

África

Olhai em si

O que não é haicai

É oriki

Teatro Nô

Em jogo de Ifá

My Butterfly

Vai piorubá

 

Luis Turiba, poeta pernambucano

Poema transcrito do livro “Qtais”, 7 Letras

CASTRO ALVES, FILHO DE BRASÍLIA

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Patrimônios, os dois, da humanidade;

deles são a petúnia, a sálvia, a gília

dos canteiros de flores da cidade.

 

Ambos buscaram (noites de vigília!…)

conseguir, preservar a liberdade.

Esse bem, garantia de família

e riqueza maior da sociedade.

 

“Cecéu”, um apelido da infância.

Por símbolo o condor – gênio entre as aves -,

para um gênio de andina culminância.

 

No céu da poesia ele é um astro:

Antonio Frederico Castro Alves.

A mãe: Clélia Brasília Silva Castro.

 

José Peixoto Júnior, poeta pernambucano

Poema transcrito da antologia poética “Sonetos de Bolso”, de

Jarbas Junior e João Carlos Taveira

BRASILIANAS

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I
O céu se abre ao infinito
Teus espaços são a capital dos meus pensamentos
Sorri o busto que fundou esse sentimento monumental
De poder, nas tuas letras, estar agora, brasiliana

II
Inauguraram um monumento
Mas é a tua estampa
Que transforma meus pensamentos
Em traços curvos
Que nem Niemeyer sonhou

III
Tempo Estio
Em que corpo e alma tem mais sede
Embora muita água possa ver, em realidade
Não é fácil atingir teu lago
Mesmo assim,
Vou forjando uma orla
Pela beira –
Mar que, um dia, em sonhos verei

IV
Pesadelo alado
Que voa ao Norte
Mas é para o Sul que vertem tuas veias
No entanto, a alma, condor que vaga
Do alto vê: é um avião!
Quando enfim, ao leitor regresso
Eis que uma voz de metal me chama
Novamente ao teu aeroporto!

V
Ando em tua perspectiva
Por uma avenida sem fim e sem nome
Estonteante velocidade colorida
De sonhos em movimento
No rosto do menino
As luzes de uma cidade perdida
Olho para frente
O sinal deve abrir
(Qual será o caminho mais curto até o teu ser?)

VI
Abrindo picadas no teu seio
Pelo cerrado
Acreditando na visão
Vou quebrantando tua fé de pedra
Esse plano de gelo, bloco de certeza
De quem não quer me habitar
E sentir a paixão dos pioneiros
Com a força
E os sonhos
Nos quais sou operário
Que despenca de todos os andaimes

VII
Brasiliana tem olhos de gata
Iris de velha xamã
Com tuas seitas
Seus novos mistérios
Feiticeira do altiplano
De bruxa, de benzedeira
E não foi a cruz em sua fortaleza
Que lhe livrou desse feitiço
De possuir toda a gente
E a cidade
Que no inicio
Não tinha Deus
Não tinha amor, nem nada
Passou a crer mais na vida
E os templos: a natureza!

VIII
Na noite em que parti
Levantei poeiras e dúvidas
Na bagagem que juntei
Um mapa sem legenda
E o coração como bússola
Apenas na procura de teus jardins em mudança de estação
Porque meus pastores
São os pássaros que desenham em teu céu
As luzes coloridas desses dias

IX
O expediente
O calhamaço, o ouro e o calmante
O lilás de bocas trêmulas
De longe brilham e fazem fama
A Brasiliana que me engana
É uma miragem em reluzente deserto
Sinuosa, prematura e disfarçada
Que agora caminha distante
Batendo asas
Buscando a mortal travessia
Em saltos loucos
Nos meios-fios de Brasília

Marcelo Ferreira Carámbula, poeta gaúcho.
Poema transcrito da lista de ganhadores do “Prêmio Cassiano Nunes”

MEMÓRIA FUTURA

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Mesmo coberta
Brasília é uma cidade
nua. Intervalos,
espaço, o plano em que se inventa
se despojam, verticalmente
Planalto, Brasília salta
e se repete para o alto.

E comemora-se, num céu
declarado, num horizonte
preciso, como quem sabe
o que faz de si
e guarda o rosto explicito.

Em que cidade os vãos
se mostram com tanto
azul, e ventos e vertentes?
Onde limites
Que se correspondem, onde
lacunas que se preencham
apontando
sua vizinha evidência;
onde é que
guarda tanto sentido
em sua indiferença?

Os edifícios, nítidos
como cactus, contra uma terra
envolta em terra
se amaciam e se retomam em lago.
E o branco é mais longo
no assalto do poente,
e a técnica se arredonda
na memória da Acrópole
e pelo ser
se aconchega, nas dobras
do existente.

Nada se aglomera
ou se expulsa
nesta paisagem onde a razão
é o sensível e sua imagem.

Aqui se faz o homem:
geografia-geometria
e a historia murmurando
amanhã
nas curvas da poesia.

Aqui a terra se ergue,
lapidada em seu proveito,
aqui medita
o que a pátria espera
de nós, por nós,
na nudez dos que pensam.

Lupe Cotrim Garaude, poetisa natural de São Paulo

BILHETE PARA ADIRSON

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Caro Adirson, suas histórias
não são contos, são memórias
de Brasília, de suas glórias.
Acordes de violoncelos
nas encenações de Otelo;
validadas promissórias
em as outorgas uxórias
da cidade em formação.
 
Você é um aventurado
do mistério de obá,
fecundo, predestinado,
no rubro pó do cerrado
bem cedo chegou pra cá.
Trouxe a perspicácia e a pena,
a alma ardente e serena,
a garra pela notícias
novas, bem quentes, notórias,
o gosto pela pesquisa,
as narrações sem malícia,
a mais genuína historia.
 
 Assim, caríssimo Adirson,
tão zeloso e devotado
Barão do Paranoá,
continue investigando,
juntando os sagrados elos,
pontos, planos, paralelos
da custosa conexão,
cosendo o caso perfeito,
com manemolência e jeito,
nas trelas do coração.

Antonio Temóteo, poeta baiano, natural de Piatã.

Dois poemas de Joana: A travessia

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Dois poemas de Joana: A travessia
(ou uma tentativa apenas)
 
Vozes eufóricas e
fortes zumbidos
se espalhando
no enorme corredor
mal iluminado do Minhocão.
A aula que não houve
se transforma
no estudo solitário
da diacronia
da Língua Portuguesa,
segundo Marcos.
Sorrisos, risadas e
gargalhadas escandalosas
não me deixam concentrar.
Já não percebo
a voz monocórdica
dos professores nas salas.
Início tardio
do semestre letivo.
Caótico.
É o caos da greve
deixando os estilhaços
em nosso caminho.
Como obstáculos,
a pedra no meio do caminho.
Lá fora,
a moto sem silencioso
sai em disparada no
breu estacionado no ICC Norte.
E eu adoro silêncio.
Espero a carona
até no último minuto.
O barulho oscila
entre as vozes meio gritadas
e o volume alternado do ruído
dos saltos-agulha que
desfilam fazendo
um eco comprido
até se tornarem inaudíveis.
A leve brisa espalha
o cheiro da erva sagrada,
tal capim santo.
Hoje, os rapazes
disputam a histeria ruidosa
com as moças.
E se sobressaem brilhantemente.
Atravessar a nado
o Lago Paranoá.
Pedir socorro e abrigo
aos monges beneditinos
ou às irmãs carmelitas.
Poder calar e descansar
para ouvir o mais fundo
do meu coração.
 
A LIMPEZA DA CAPITAL..
 
No frio seco da manhã,
em meio a nuvens
do vento empoeirado.
Lá estão elas…
Lá estão eles…
Tentam agasalhar-se,
e a se proteger
como podem.
De longe, percebo
o alaranjado movimento
do azul de seus casacos.
Vassouras, pás,
sacos de lixo,
baldes e carrinhos…
Estou confortavelmente
congelada dentro
do carro.
Olhos admirados
e agradecidos.
— Cenário típico e
aburguesado.
Tento acompanhar
o grupo por um instante
para adivinhar-lhes
os sonhos…
As cuidadoras
e os cuidadores da cidade
transpiram cansaço.
Da vida
Das viagens
Das madrugadas
Dos ônibus
mal cuidados
em direção
ao Plano Piloto.
Do almoço dormido
em suas marmitas.
E da volta pra casa,
que não termina nunca…
Preservam o bom humor,
apesar de tudo.
Será que todos sabem
que há muita sujeira
espalhada pela cidade
que o seu trabalho
nunca vencerá?
Abençoai-as, abençoai-os,
Ó Senhora Padroeira
da mais bela catedral do país!
E também a nossa cidade,
porque Brasília
está carente de bênçãos
e de luz.

Joana Eleuterio, poetisa mineira, natural de Bom Despacho.


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