Brasília: ou reflexões sobre o poder

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A
o poder é boquirroto
e às vezes aborto
de um parto arrevezado.

o poder é falácia
se assentado em mapas
de areias movediças.

o poder é farsa
quando a mão que o traça
já nasce corroída.

B
no trato
com o poder
o cuidado com o bote
                                no fundo
                                do pote.

no trato
com o poder
                                 o destino
para o boi de corte.

no trato
com o poder
                                  a vocação
para bobo da corte.

Adão Ventura, poeta mineiro.
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”
Correio Braziliense, 3/4/2008

O segredo da Senhora

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Por Conceição Freitas

Minha Senhora, conte-me seu segredo. De onde a Senhora tira tanta majestade, tanto vigor e tamanha beleza e altivez em dias tão áridos, donde nos falta o ar apesar da imensidão do céu e da multidão de áreas verdes? Me conte lá, por favor, como a Senhora consegue ser tão exuberante, viçosa, verdejante.

Toda Brasília deste setembro insano está coberta por um tapete amarelo-acinzentado, a grama murcha há muito pede clemência. (Exceto, claro, a Brasília que não tem medo da conta de água). Nessa Brasília esturricada, a Senhora surge lindamente vestida em seus muitos tons de verde, cabeleira black-power sustentando-se num tronco rijo que transmite segurança e mistério. De onde mesmo a Senhora tira tudo isso?

Sabemos todos os que a acompanham há décadas que a Senhora tem vários momentos de esplendor ao longo do ano e ao longo dos anos, sem que jamais tenha se deixado levar pelos ventos mais ou menos tormentosos da vida. Se chove, tudo bem, se não chove, do mesmo jeito.

A Senhora tem uma capacidade de suportar a espera, de florescer em qualquer circunstancia. Quando fica mais feia (grave injustiça, porque feia a Senhora nunca fica), quando a Senhora fica menos bonita, deposita plumas ao seu redor.

Agora, por exemplo, Brasília inteira está com a pele trincada, mas a Senhora exibe uma textura sedosa. Depois, todas as suas folhas vão cair e a Senhora ficará nua em pelo – com uma beleza de desenho de nanquim. Ficará longilínea e ereta como uma top model.

Quem não a conhece não sabe o que é aprender com o seu sábio silêncio. Pode começar, então. A Senhora, aviso a seus futuros fãs, vive há quatro décadas em frente ao Palácio da Justiça, do outro lado do Buriti. Esse é um bom momento para conhecê-la porque a Senhora está garbosamente verde.

São muitos os seus admiradores, caso disso não saiba. E são fiéis e leais à Senhora. Nenhum deles, porém, conhece mais a Senhora nesta Brasília do que Ozanan Coêlho, o eterno diretor de Parques e Jardins da cidade. Ele a admira tanto e tanto que já disse aos seus que, morto, quer virar cinzas e quer que elas sejam espalhadas em quatro pontos da cidade: na copaíba da 309 Sul, no buriti em frente ao palácio, no balãozinho em frente à sede da Polícia Federal e…na paineira em frente ao Tribunal de Justiça. A Senhora receberá então um pouco da substância que deu vida ao doutor Ozanan, o jardineiro de Brasília.

Ele conta que a Senhora era uma menina quando a viu pela primeira vez, em 1967, durante a construção da Praça da Municipalidade, que a produção rebatizou de Praça do Buriti. A idéia era limpar o terreno para construir a região administrativa de Brasília. Ozanan decidiu poupá-la, nem  sabia exatamente a razão. Hoje, sabe. A Senhora é uma paineira singular. Chega a florescer duas vezes ao ano, comportamento não muito comum à sua espécie. “Ela é toda cheia de lero”, diz Ozanan. E é protegida por lei.

Texto transcrito de “Crônica da Cidade”, de 22/09/2007.

Brasília fênix cidade

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Uma dança minimalista
Entre janelas de neons
Assiste cerrado em fogo
(re)acinzentando o azul
do céu das curvas das asas da cidade da dança da fênix do cerrado
d’asas abertas num voo
entre o nascer e morrer
(re)cria o verde de novo
das cinzas fênix cidade

Jorge Amâncio, poeta brasiliense.
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”,
Correio Braziliense, 10/10/2012

PLANO PILOTO

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urubus
             nunca
                         riscaram
distâncias
                   castanhas
no plano piloto
por isso
              o ar
embalsamou
uma pátria baldia
de sonhos anônimos.

Ézio Pires, poeta natural de Cantagalo, RJ.
Poema transcrito do livro “Brasília: Vida em Poesia”
Organizado por Ronaldo Alves Mousinho

Brasília

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Brasília
Cidade bela,
tão ampla em teus horizontes…
A tantos sonhos
erguestes pontes…
A tanta vida
foste alvorada…
Cidade alada,
braços alados, sempre tão abertos,
teus verdes espaços.
Tal liberdade dás aos que os seus sonhos
embalam em teus braços,
pois que tu mesma de um sonho nascestes.
Cidade celeste…(…)

Lúcia Helena Galvão, poeta brasiliense
Poema transcrito da coluna “Tantas Palavras”, Correio Braziliense 21/08/2012

sonhos e sonhos

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de vez em quando me reconheço em jovens
barbudos, cabelos ao vento e roupa despojada
que caminham plantando sonhos
às margens das calçadas nas quadras de Brasília
e
às vezes me vejo refletido em anciões taciturnos
que caminham chutando pedaços de sonhos
no meio dos caminhos
e…
não pergunto nada
nem a mim
nem a Drummond

José Luiz do Nascimento Sóter, poeta brasiliense
Poema transcrito da coluna “Tantas Palavras”, Correio Braziliense 16/08/2012

Brasília: epopeia, épicos e ícones

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Por Claúdio José Pinheiro Villar de Queiroz

JK e Andre Mahaux
Foto: Arquivo Público do DF

O Marquês de Pombal, em 1751, escreveu à Corte de Portugal defendendo a interiorização da capital da Colônia. No mesmo ano, o cartógrafo italiano Colombina elaborou o mapa de Goiás, revelando o valor estratégico do Planalto Central.
Brasília começou a ser construída em 1957, foi realizada em três anos e inaugurada em 1960. A nova capital brasileira, em 1987, foi inscrita na Lista do Patrimônio Mundial por resolução da UNESCO. A primeira cidade moderna tombada como patrimônio cultural da humanidade, completou meio século em 21 de abril de 2010.
No texto “Do plano piloto ao Plano Piloto” (1985), da arquiteta Maria Elisa Costa, sob a coordenação de Lucio Costa, o urbanista se referiu ao período de realização da nova capital com o seguinte aforismo: “Brasília surgiu num momento em que a utopia era mais verdadeira que a realidade”.

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Brasília

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Brasília

Beleza que contorna a norma brusca, e renasce
Se torna inumerável de vida
Faz do céu uma plataforma azul
Onde mora o mistério do simples e infinito.

Em anos, dias mais belos e puros
Dançarei nos seus frágeis outonos
Cúmplices de seus seios brancos
Sem medo ou fúria de falsos donos

Mas nessa primavera de tristezas,
Acalento todas nossas saudades desatinadas
ao som de todo nosso silêncio amargo
Brincando fazer tuas esfinges de sol coroadas.
Amo mesmo tudo que não posso tocar, mas que me toca sem sentir.

Post poetisa Thais Lima Rocha
Poema transcrito da coletânea “Concurso Nacional de Poesias”

 

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BRASÍLIA

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BRASÍLIA

Onde um dia dormira
um vasto planalto,
hoje acorda Brasília,
nos braços do mundo.
Acorda tão viva,
formosa e bela,
abraça as estrelas
e os ipês floridos,
os sonhos sonhados
e o azul do céu.

Esta é Brasília
de asas douradas
a pairar soberana,
quase ave, aeronave,
sob a abóbada
celeste e os
raios do sol.

A solidão do lago
em nostálgica canção
de girassóis meninos,
traz no vento a saudade
dos candangos de outrora.

Não te desejo Brasília,
a conquista do mundo,
conquiste dias felizes,
assim conquistarás
o pólen do mundo.

Lurdiana Araújo, poetisa tocantinense.
Poema transcrito do livro “Cerrado Poético e outras poéticas”
Verbis Editora

 

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NoturNeon

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NoturNeon

Noturno pela cidade
Meu coração fotografa
O Banco Central em chamas
Noturno pela cidade
Na certeza de quem ama
Meu coração fotografa
O Banco Central em chamas

Menezes y Morais, poeta brasiliense.
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”
Correio Braziliense, 20/06/2012

 

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Burity perdido

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Burity perdido

Velha palmeira solitária, testemunha sobrevivente do drama da
conquista, que de majestade e de tristura, não exprimes, venerável
eponymo dos campos!

No meio da campina verde, de um verde esmaiado e merencoreo, onde
tremeluzem às vezes florinhas douradas do alecrim do campo, tu te
ergues altaneira levantando ao céo as palmas tesas – velho guerreiro
petrificado em meio da peleja!

Tu me appareces como o poema vivo de uma raça quasi extincta, como a
canção dolorosa dos soffrimentos das tribus, como o hymno glorioso de
seus feitos, a narração commovida das pugnas contra os homens do além!

Porque ficaste de pé, quando teus coevos já tombaram?

Nem os rapsodistas antigos, nem a lenda cheia de poesia do cantor cego
da Ilíada commovem mais do que tu, vegetal ancião, cantor mudo da vida
primitiva dos sertões!

Atalaia grandioso dos campos e das mattas – junto de ti pasce
tranquillo o touro selvagem e as potrancas ligeiras, que não conhecem
o jugo do homem.

São teus companheiros, de quando em quando, os patos pretos que
arribam ariscos das lagôas longinquas em demanda de outras mais
quietas e solitárias, a que dominas, velha palmeira, com tua figura
erecta, quêda e magestosa como a de um velho guerreiro petrificado.

As varas de queixadas bravios atravessam o campo e, ao passarem junto
de ti, talvez por causa do ladrido do vento em tuas palmas,
rodomoinham e rangem os dentes furiosamente, como o rufar de tambores
de guerra.

O corsel lubuno, pastor da tropilha, à sombra de tua fronde, sacode
vaidosamente a cabeça para arrojar fóra da testa a crina basta do
topete, que lhe encobre a vista; relincha depois, nitre com força
appellidandoa favorita da tropilha, que morde o capim mimoso da margem
da lagôa.

Junto de ti, à noite, quando os outros animaes dormem, passa o
cangussú em monteria; quando volta, a carne da prêa lhe ensaguenta a
fauce e seu andar é mais lento e ondulante.

Talvez passassem junto de ti, ha dous seculos, as primeiras bandeiras
invasoras; o guerreiro tupy, escravo dos de Piratininga, parou então
extatico deante da velha palmeira e relembrou os tempos da sua
independencia, quando as tribus nomadas vagavam livres por esta terra.

Poeta dos desertos, cantor mudo da natureza virgem dos sertões, evohé!

Gerações e gerações passarão ainda, antes que séque esse tronco pardo
e escamoso.

A terra que te circumda e os campos adjacentes tomaram teu nome, ó
eponymo, e o conservarão.

Se algum dia a civilisação ganhar essa paragem longínqua talvez uma
grande cidade se levante na campina extensa que te serve de sócco,
velho Burity Perdido. Então, como os hoplitas athenienses captivos em
Syracusa, que conquistaram a liberdade enternecendo os duros senhores
à narração das próprias desgraças nos versos sublimes de Euripedes, tu
impedirás poeta dos desertos, a propria destruiçõ comprando teu
direito à vida com a poesia selvagem e dolorida que tu sabes tão bem
communicar.

Então, talvez, uma alma amante das lendas primévas, uma alma que
tenhas movido ao amor e à poesia, não permitindo a tua destruição,
fará com que figures em larga praça, como um monumento às gerações
extinctas, uma página sempre aberta de um poema que não foi escripto,
mas que referve na mente de cada um dos filhos desta terra.

Affonso Arinos de Mello Franco, escritor mineiro, ex-membro da
Academia Brasileira de Letras.
Texto transcrito do livro "Brasília – Memória da Construção", de
L.Fernando Tamanini.

 

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Três Poderes

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Três Poderes

Não havia lua cheia,
Nem a chuva leve caía sobre nós,
Mas o néctar que da lua pingava
Molhava nossas almas
Com uma luz mais que brilhante,
E fazia nascer em meu coração
Um sentimento desconcertante,
Uma paixão inimaginável,
Uma loucura fascinante.

Cercados por Três Poderes,
Uma praça, em um espaço aberto,
Coberto pelas estrelas e luzes da noite
A Terra, dava a nós o leito…
O chão onde pisávamos
E nos encontrávamos
Para sermos o que quiséramos,
O que sonhávamos.

O ar enchia nossos pulmões,
Corações, veias, mentes, almas
De um frescor alucinante
Que nos arrepiava o corpo,
Que nos embaraçava os cabelos,
Que nos jogava um contra o outro
Como um abraço louco
E animal.

O Fogo queimava nossa pele
E um desejo à flor da pele
Nos dominava e nos aproximava
Para que, em beijos apaixonantes,
Nossas bocas se tocassem
E se completassem
Como a lua completa o céu
E o céu completa a vida.
Nada nos dividia.
Tudo nos unia.

Quero dar-te a alegria
Que jamais em tua vida surgiu e
Jamais teu olho negro viu.
Quero completar-te e servir-te
E, como numa orgia de sentimentos fantásticos,
Perder-me em desatino,
Esquecer-me do meu destino
E entregar-me ao teu prazer.

Post do poeta Alessandro Eloy Braga.
Poema transcrito do livro “Madrigais cantantes”

 

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Os amantes do Eixo Rodoviário

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Os amantes do Eixo Rodoviário

O homem atravessou as seis pistas do Eixão, correndo em ziguezague no
meio do trânsito enfurecido, mas a mulher empacou, paralisada pelo
medo. A separação já dura cinco dias: ele do lado de cá, ela do lado
de lá, e os automóveis voando-zunindo entre um e outro. E se ninguém
avisou que existe passagem subterrânea pra pedestre nem foi por
maldade: é que dá gosto ver aqueles dois, ela desenhando corações no
ar, ele mandando carta em aviõezinhos de papel. Acho que nunca se
amaram tanto.

José Rezende Jr., poeta mineiro, natural de Aimorés.
Texto transcrito do livro “50 anos em Seis: Brasília, prosa e poesia”

 

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Terra Nova Do Paranoá

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Terra Nova
Do Paranoá

Nosso ofurô
Será de nossos volumes
corporais.

Tuas pernas
recipiendam
as minhas.

Neste monte farás
nossa casa.
No santuário do leste
nossa cama se banhará
de luas neves.

Para o Ocidente,
o sol e a cidade
servirão ao tédio.
Acolá perto,
descendo a serra,
viverão filhos de nossos filhos.

No meio,
nascerão os filhos
de nossas cabeças.

No norte e sul
habitarão
nossos afilhados.

Nós, pais e mães
da Terra Nova.

Paulo Bertran, poeta goiano, natural de Anápolis.
Poema transcrito do livro “Sertão do Campo Aberto”

 

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Observador lunático

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Observador lunático
 
a lua faz seu show feminino
strep-tease na boca da luz
de frente
de costas
de ladinho
faz da nuvem toda oca
seu leito nupcial
 
a sombra engole a lua
 
                            luaquase
                            quasenua
 
renasce a lua
um pouco cinza
das próprias sombras
das tintas guimbas
 
não adianta se esconder
lua não tem pr’onde correr
 
lua vermelha
sonha vergonhas
 
no céu uma grande cratera
com cara de lua amarela
 
Luis Turiba, poeta natural de Recife.
Poema transcrito do livro “68”
Coleção Oi Poema

 

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o traço equivocado do arquiteto

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o traço equivocado do arquiteto
é superfície
papel oficio é superfície
a superfície da catedral
é superfície
grama também é superfície
a solidão da superquadra
é superfície
o volume do bloco é superfície
o lago Paranoá, mesmo seco,
é superfície
 
brasília é superficial
 
Nicolas Behr, poeta natural de Cuiabá.
Poema transcrito do livro “O bagaço da laranja”
Coleção Oi Poema

 

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O lugar de ser feliz

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O lugar de ser feliz

Deus abriu a janela do mundo
e nela projetou o céu do cerrado.
Acendeu o diamante azul do dia na esplanada do destino.
As nuvens saem do chão,
numa explosão álacre de âmbar.
A lua é um pássaro de bruma na textura esvoaçante.
Pode-se descansar do mormaço num banco de concreto,
olhando o trânsito da Asa Sul,
na fronteira da 307,
à sombra das horas,
na liberdade da vida sem perigos.
Ninguém me perguntará onde moro ou o que faço
nesta quadra de Brasília,
em frente a uma biblioteca,
no espaço livre da vida.

Márcio Catunda, poeta cearense, natural de Fortaleza.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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As grades, nossa proteção

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As grades, nossa proteção

As casas estão guardadas. As casas, nossas casas,
estão cercadas a ferro, contra ladrões.
Mais felizes que as moças, as que são violentadas
nas horas noturnas e nas horas do dia, as casas,
nossas casas, estão vigiadas pelos cães,
pelos guardas, pelas grades de ferro enormes.
Em Brasília, virgem imaculada, os tapumes
sobem a mil metros e são como lanças
dos velhos guerreiros de impérios loucos;
os habitantes olham por entre os ferros
e se imunizam do mundo, as grandes lanças
de pontas superagudas desafiam o invasor.
Ninguém ultrapassará os umbrais de nossas
casas, em Brasília, em Goiânia, Uberaba.
Há infinitos seres perversos lá fora.
Mas aqui dentro nós vivemos nossa paz.
Não passarão, nem o temporal, nem duendes,
nem a memória, nada, estamos ilhados,
cercados, vigiados, seguros, prontos,
solertes, imaculados da sanha inimiga
que ronda lá fora, como pássaros e
répteis loucos famintos de vingança
contra nossa vitória na vida,
nossa honra, nossa oração, nossa
santidade, nossa serena confiança
nas instituições e em Deus.

José Godoy Garcia, poeta goiano, natural de Jataí.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Em Brasília há uma Lei que proíbe buzinar

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Em Brasília há uma Lei que proíbe buzinar

Mais do que um protesto na cidade,
que se diga
Brasília-comércio.
                               Préstito,
mais do que
passeata na cidade,
Brasília-manifesto,
procissão,
é a notícia.

Quando ouvi os carros,
desumanos,
buzinarem
o diretas-já da mudança.

Escutei as máquinas
ressoarem
marcha inédita.

Ouvi-la
me trouxe à memória
motores novos de ônibus,
aeroplanos,
deixando o cais,
os desmedidos.

Lembrei-me então
e ainda mais
de máquinas
da mão humana,
operárias, musicais,
alargando o horizonte
emergente
do cais.
São máquinas, estas, de mãos
que produzem outras
mãos
que fabricam mãos,
máquinas
que engrenam motores,
clarins, trombetas.

E foi como
se àquela hora,
em cada buzina,
tocasse a mão do operário
que a produz
e afina.

Afinal entendi
que o arraial de Brasília
(diz-se
feito para carros)
pode também ser humano
– cada máquina, uma voz,
toda voz, o voto claro.

Ouvi os carros, acorde
sobre o tambor do DF.
Tal um balão
que alçasse voo,
ao grito, lírico,
de amarelo.

Eu vi a gente,
ação de carros,
refeita gente.

Hermenegildo Bastos, poeta baiano, natural de Salvador.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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