Brasília

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Brasília

Beleza que contorna a norma brusca, e renasce
Se torna inumerável de vida
Faz do céu uma plataforma azul
Onde mora o mistério do simples e infinito.

Em anos, dias mais belos e puros
Dançarei nos seus frágeis outonos
Cúmplices de seus seios brancos
Sem medo ou fúria de falsos donos

Mas nessa primavera de tristezas,
Acalento todas nossas saudades desatinadas
ao som de todo nosso silêncio amargo
Brincando fazer tuas esfinges de sol coroadas.
Amo mesmo tudo que não posso tocar, mas que me toca sem sentir.

Post poetisa Thais Lima Rocha
Poema transcrito da coletânea “Concurso Nacional de Poesias”

 

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BRASÍLIA

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BRASÍLIA

Onde um dia dormira
um vasto planalto,
hoje acorda Brasília,
nos braços do mundo.
Acorda tão viva,
formosa e bela,
abraça as estrelas
e os ipês floridos,
os sonhos sonhados
e o azul do céu.

Esta é Brasília
de asas douradas
a pairar soberana,
quase ave, aeronave,
sob a abóbada
celeste e os
raios do sol.

A solidão do lago
em nostálgica canção
de girassóis meninos,
traz no vento a saudade
dos candangos de outrora.

Não te desejo Brasília,
a conquista do mundo,
conquiste dias felizes,
assim conquistarás
o pólen do mundo.

Lurdiana Araújo, poetisa tocantinense.
Poema transcrito do livro “Cerrado Poético e outras poéticas”
Verbis Editora

 

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NoturNeon

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NoturNeon

Noturno pela cidade
Meu coração fotografa
O Banco Central em chamas
Noturno pela cidade
Na certeza de quem ama
Meu coração fotografa
O Banco Central em chamas

Menezes y Morais, poeta brasiliense.
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”
Correio Braziliense, 20/06/2012

 

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Burity perdido

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Burity perdido

Velha palmeira solitária, testemunha sobrevivente do drama da
conquista, que de majestade e de tristura, não exprimes, venerável
eponymo dos campos!

No meio da campina verde, de um verde esmaiado e merencoreo, onde
tremeluzem às vezes florinhas douradas do alecrim do campo, tu te
ergues altaneira levantando ao céo as palmas tesas – velho guerreiro
petrificado em meio da peleja!

Tu me appareces como o poema vivo de uma raça quasi extincta, como a
canção dolorosa dos soffrimentos das tribus, como o hymno glorioso de
seus feitos, a narração commovida das pugnas contra os homens do além!

Porque ficaste de pé, quando teus coevos já tombaram?

Nem os rapsodistas antigos, nem a lenda cheia de poesia do cantor cego
da Ilíada commovem mais do que tu, vegetal ancião, cantor mudo da vida
primitiva dos sertões!

Atalaia grandioso dos campos e das mattas – junto de ti pasce
tranquillo o touro selvagem e as potrancas ligeiras, que não conhecem
o jugo do homem.

São teus companheiros, de quando em quando, os patos pretos que
arribam ariscos das lagôas longinquas em demanda de outras mais
quietas e solitárias, a que dominas, velha palmeira, com tua figura
erecta, quêda e magestosa como a de um velho guerreiro petrificado.

As varas de queixadas bravios atravessam o campo e, ao passarem junto
de ti, talvez por causa do ladrido do vento em tuas palmas,
rodomoinham e rangem os dentes furiosamente, como o rufar de tambores
de guerra.

O corsel lubuno, pastor da tropilha, à sombra de tua fronde, sacode
vaidosamente a cabeça para arrojar fóra da testa a crina basta do
topete, que lhe encobre a vista; relincha depois, nitre com força
appellidandoa favorita da tropilha, que morde o capim mimoso da margem
da lagôa.

Junto de ti, à noite, quando os outros animaes dormem, passa o
cangussú em monteria; quando volta, a carne da prêa lhe ensaguenta a
fauce e seu andar é mais lento e ondulante.

Talvez passassem junto de ti, ha dous seculos, as primeiras bandeiras
invasoras; o guerreiro tupy, escravo dos de Piratininga, parou então
extatico deante da velha palmeira e relembrou os tempos da sua
independencia, quando as tribus nomadas vagavam livres por esta terra.

Poeta dos desertos, cantor mudo da natureza virgem dos sertões, evohé!

Gerações e gerações passarão ainda, antes que séque esse tronco pardo
e escamoso.

A terra que te circumda e os campos adjacentes tomaram teu nome, ó
eponymo, e o conservarão.

Se algum dia a civilisação ganhar essa paragem longínqua talvez uma
grande cidade se levante na campina extensa que te serve de sócco,
velho Burity Perdido. Então, como os hoplitas athenienses captivos em
Syracusa, que conquistaram a liberdade enternecendo os duros senhores
à narração das próprias desgraças nos versos sublimes de Euripedes, tu
impedirás poeta dos desertos, a propria destruiçõ comprando teu
direito à vida com a poesia selvagem e dolorida que tu sabes tão bem
communicar.

Então, talvez, uma alma amante das lendas primévas, uma alma que
tenhas movido ao amor e à poesia, não permitindo a tua destruição,
fará com que figures em larga praça, como um monumento às gerações
extinctas, uma página sempre aberta de um poema que não foi escripto,
mas que referve na mente de cada um dos filhos desta terra.

Affonso Arinos de Mello Franco, escritor mineiro, ex-membro da
Academia Brasileira de Letras.
Texto transcrito do livro "Brasília – Memória da Construção", de
L.Fernando Tamanini.

 

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Três Poderes

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Três Poderes

Não havia lua cheia,
Nem a chuva leve caía sobre nós,
Mas o néctar que da lua pingava
Molhava nossas almas
Com uma luz mais que brilhante,
E fazia nascer em meu coração
Um sentimento desconcertante,
Uma paixão inimaginável,
Uma loucura fascinante.

Cercados por Três Poderes,
Uma praça, em um espaço aberto,
Coberto pelas estrelas e luzes da noite
A Terra, dava a nós o leito…
O chão onde pisávamos
E nos encontrávamos
Para sermos o que quiséramos,
O que sonhávamos.

O ar enchia nossos pulmões,
Corações, veias, mentes, almas
De um frescor alucinante
Que nos arrepiava o corpo,
Que nos embaraçava os cabelos,
Que nos jogava um contra o outro
Como um abraço louco
E animal.

O Fogo queimava nossa pele
E um desejo à flor da pele
Nos dominava e nos aproximava
Para que, em beijos apaixonantes,
Nossas bocas se tocassem
E se completassem
Como a lua completa o céu
E o céu completa a vida.
Nada nos dividia.
Tudo nos unia.

Quero dar-te a alegria
Que jamais em tua vida surgiu e
Jamais teu olho negro viu.
Quero completar-te e servir-te
E, como numa orgia de sentimentos fantásticos,
Perder-me em desatino,
Esquecer-me do meu destino
E entregar-me ao teu prazer.

Post do poeta Alessandro Eloy Braga.
Poema transcrito do livro “Madrigais cantantes”

 

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Os amantes do Eixo Rodoviário

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Os amantes do Eixo Rodoviário

O homem atravessou as seis pistas do Eixão, correndo em ziguezague no
meio do trânsito enfurecido, mas a mulher empacou, paralisada pelo
medo. A separação já dura cinco dias: ele do lado de cá, ela do lado
de lá, e os automóveis voando-zunindo entre um e outro. E se ninguém
avisou que existe passagem subterrânea pra pedestre nem foi por
maldade: é que dá gosto ver aqueles dois, ela desenhando corações no
ar, ele mandando carta em aviõezinhos de papel. Acho que nunca se
amaram tanto.

José Rezende Jr., poeta mineiro, natural de Aimorés.
Texto transcrito do livro “50 anos em Seis: Brasília, prosa e poesia”

 

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Terra Nova Do Paranoá

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Terra Nova
Do Paranoá

Nosso ofurô
Será de nossos volumes
corporais.

Tuas pernas
recipiendam
as minhas.

Neste monte farás
nossa casa.
No santuário do leste
nossa cama se banhará
de luas neves.

Para o Ocidente,
o sol e a cidade
servirão ao tédio.
Acolá perto,
descendo a serra,
viverão filhos de nossos filhos.

No meio,
nascerão os filhos
de nossas cabeças.

No norte e sul
habitarão
nossos afilhados.

Nós, pais e mães
da Terra Nova.

Paulo Bertran, poeta goiano, natural de Anápolis.
Poema transcrito do livro “Sertão do Campo Aberto”

 

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Observador lunático

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Observador lunático
 
a lua faz seu show feminino
strep-tease na boca da luz
de frente
de costas
de ladinho
faz da nuvem toda oca
seu leito nupcial
 
a sombra engole a lua
 
                            luaquase
                            quasenua
 
renasce a lua
um pouco cinza
das próprias sombras
das tintas guimbas
 
não adianta se esconder
lua não tem pr’onde correr
 
lua vermelha
sonha vergonhas
 
no céu uma grande cratera
com cara de lua amarela
 
Luis Turiba, poeta natural de Recife.
Poema transcrito do livro “68”
Coleção Oi Poema

 

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o traço equivocado do arquiteto

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o traço equivocado do arquiteto
é superfície
papel oficio é superfície
a superfície da catedral
é superfície
grama também é superfície
a solidão da superquadra
é superfície
o volume do bloco é superfície
o lago Paranoá, mesmo seco,
é superfície
 
brasília é superficial
 
Nicolas Behr, poeta natural de Cuiabá.
Poema transcrito do livro “O bagaço da laranja”
Coleção Oi Poema

 

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O lugar de ser feliz

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O lugar de ser feliz

Deus abriu a janela do mundo
e nela projetou o céu do cerrado.
Acendeu o diamante azul do dia na esplanada do destino.
As nuvens saem do chão,
numa explosão álacre de âmbar.
A lua é um pássaro de bruma na textura esvoaçante.
Pode-se descansar do mormaço num banco de concreto,
olhando o trânsito da Asa Sul,
na fronteira da 307,
à sombra das horas,
na liberdade da vida sem perigos.
Ninguém me perguntará onde moro ou o que faço
nesta quadra de Brasília,
em frente a uma biblioteca,
no espaço livre da vida.

Márcio Catunda, poeta cearense, natural de Fortaleza.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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As grades, nossa proteção

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As grades, nossa proteção

As casas estão guardadas. As casas, nossas casas,
estão cercadas a ferro, contra ladrões.
Mais felizes que as moças, as que são violentadas
nas horas noturnas e nas horas do dia, as casas,
nossas casas, estão vigiadas pelos cães,
pelos guardas, pelas grades de ferro enormes.
Em Brasília, virgem imaculada, os tapumes
sobem a mil metros e são como lanças
dos velhos guerreiros de impérios loucos;
os habitantes olham por entre os ferros
e se imunizam do mundo, as grandes lanças
de pontas superagudas desafiam o invasor.
Ninguém ultrapassará os umbrais de nossas
casas, em Brasília, em Goiânia, Uberaba.
Há infinitos seres perversos lá fora.
Mas aqui dentro nós vivemos nossa paz.
Não passarão, nem o temporal, nem duendes,
nem a memória, nada, estamos ilhados,
cercados, vigiados, seguros, prontos,
solertes, imaculados da sanha inimiga
que ronda lá fora, como pássaros e
répteis loucos famintos de vingança
contra nossa vitória na vida,
nossa honra, nossa oração, nossa
santidade, nossa serena confiança
nas instituições e em Deus.

José Godoy Garcia, poeta goiano, natural de Jataí.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Em Brasília há uma Lei que proíbe buzinar

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Em Brasília há uma Lei que proíbe buzinar

Mais do que um protesto na cidade,
que se diga
Brasília-comércio.
                               Préstito,
mais do que
passeata na cidade,
Brasília-manifesto,
procissão,
é a notícia.

Quando ouvi os carros,
desumanos,
buzinarem
o diretas-já da mudança.

Escutei as máquinas
ressoarem
marcha inédita.

Ouvi-la
me trouxe à memória
motores novos de ônibus,
aeroplanos,
deixando o cais,
os desmedidos.

Lembrei-me então
e ainda mais
de máquinas
da mão humana,
operárias, musicais,
alargando o horizonte
emergente
do cais.
São máquinas, estas, de mãos
que produzem outras
mãos
que fabricam mãos,
máquinas
que engrenam motores,
clarins, trombetas.

E foi como
se àquela hora,
em cada buzina,
tocasse a mão do operário
que a produz
e afina.

Afinal entendi
que o arraial de Brasília
(diz-se
feito para carros)
pode também ser humano
– cada máquina, uma voz,
toda voz, o voto claro.

Ouvi os carros, acorde
sobre o tambor do DF.
Tal um balão
que alçasse voo,
ao grito, lírico,
de amarelo.

Eu vi a gente,
ação de carros,
refeita gente.

Hermenegildo Bastos, poeta baiano, natural de Salvador.
Poema transcrito da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

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Brasília e a Bienal

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Brasília e a Bienal

Brasília, a capital,
é outra, após a Bienal.
De certo e com razão,
depois de tanta emoção,
não seria normal
que ficasse tudo igual.
 É que muitos poetas
te olharam e pensaram
e, em teu céu, projetaram
amor, sonho e paixão.
Em teu aniversário,
dois anos do cinquentário,
ressurge, no imaginário,
viva, nova e transfigurada.
Sim, tu foste abraçada,
beijada e amada,
e em trova entoada.
Sim, estás transformada.
Pois, senão em nossa cabeça,
onde mais existirá?
Oh, Brasília, não se esqueça:
seu povo sempre te amará!

Post Jorge de Campos Carneiro Hage.

 

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MINHA BRASíLIA

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MINHA BRASíLIA

Saberemos, Brasília,
sobre o futuro por ti declarado?
Feitiços jogados por uma prisão
de entretenimento duvidoso.
No anonimato, as estrelas ainda podem ser vistas;
Mesmo com tão pouco tempo para darem pistas.
Nas veredas impostas por vultos,
deixando a cada dia todos mudos.
Deixe sorrir aquilo que ainda
confina com segredos.
Permita-se viver com a mudança.
E assim saberá mudar!
Vamos então, Brasília,
desça do pedestal que todos dizem que estás!
Onde vamos com seus atos inconsequentes,
e as mentes doentes?
Vamos, então, deitar o olhar;
Que por incrível que pareça,
ainda há estrelas a brilhar!

Post Maria Clara Rezende Avelino, poetisa brasiliense, 15 anos de idade.

 

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Majestosamente Simples

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Foto: Arquivo Público do DF

Em meados de setembro de 1956, o presidente Juscelino Kubitschek chorou de alegria com uma noticia: o Congresso havia aprovado a construção de Brasília. A decisão provocou surpresa, pois, desde o inicio, a idéia de transferir a sede da presidência do Rio de Janeiro para uma nova capital nos descampados de Goiás dividiu o país de uma maneira polêmica, como se fosse um Fla-Flu, em que só era possível ser apaixonadamente contra ou a favor. Mas o astucioso JK não se enganou e sabia que tratava-se de uma armadilha dos adversários para destruí-lo: “Hoje é o dia mais feliz da minha vida. E sabe por que o projeto foi aprovado? Eles pensam que não vou conseguir executá-lo", comentou com um amigo. E ele estava certo: no cálculo das raposas políticas que conspiravam contra a idéia de Brasília, a construção de uma capital modernista no meio do deserto, em prazo curto, era uma temeridade inviável. Com certeza, a aventura resultaria em uma capital inacabada, um gigantesco canteiro de obras abandonado, um megafiasco histórico que liquidaria com JK do ponto de vista politico.

Ao ser indagado se Juscelino conseguiria mudar a capital do Rio de Janeiro para Brasília, o irascível líder udenista da oposição, Carlos Lacerda, respondeu em tom de escárnio: “Vai nada. Juscelino não é de nada. Isso aí vai é desmoralizá-lo, porque ele não dará conta”. Esse cenário politico transformou a construção de Brasília em um desafio e em uma vida ou morte para JK. Isso explica o sentido de urgência que dominou a construção da nova capital, erguida a toque de caixa, em dramática contagem regressiva. E com o empenho pessoal do presidente, que fiscalizava pessoalmente os canteiros de obras, enfrentando nuvens de poeira vermelha, metendo os pés na lama, em corpo a corpo com as adversidades, cobrando velocidade dos técnicos responsáveis e incentivando cada operário.

O Palácio da Alvorada foi o primeiro desafio, o primeiro prédio de alvenaria erguido no descampado do Planalto Central. É com ele que o sonho impossível ou a idéia maluca de Brasília começava a se tornar realidade. A construção do Palácio da Alvorada inaugurou o “ritmo de Brasília”, com a chegada de uma legião de candangos, as escavadeiras abrindo crateras, os caminhões em trânsito incessante descarregando material para a obra, o barulho dos operários batendo nas vigas de aço, o som dos serrotes cortando madeira, as betoneiras preparando cimento, os engenheiros com os mapas de produção controlando o andamento do serviço em um cronograma rigoroso.

Os operários se revezavam em três turnos, as obras não podiam parar. Tudo se desencadeava em um caos organizado e com pouca burocracia. O “ritmo Brasília” era frenético, entusiasmado, delirante e épico. E era JK quem orquestrava o caos. Ele liderou todas as etapas do processo de construção do Palácio, da concepção do projeto arquitetônico até a execução de detalhes prosaicos. Acompanhava tudo de perto com o zelo de quem constrói uma casa para morar com a família.

A imagem do presidente Juscelino Kubitschek que passou para a posteridade é a de um homem de entusiasmo invencível, que raramente dizia um não. No entanto, quem conviveu com ele sabe que, apesar de sempre elegante, JK também podia marcar uma posição firme quando algo não lhe agradava. JK era amigo de Oscar Niemeyer e confiava muito no talento do arquiteto, a ponto de dizer, com todas as letras, quando o convidou para desenhar o cenário modernista da nova capital no sertão bravo do planalto central: “Vou lhe dar a mesma oportunidade que Júlio II proporcionou a Miguel Ângelo, ao pedir-lhe que fizesse seu túmulo”.

Niemeyer sorriu com a lisonja espirituosa, mas não deixou de meditar sobre a similaridade das situações, segundo depoimento do próprio JK em “Porque construí Brasília”. Ao receber a encomenda de conceber um projeto para o Palácio da Alvorada, em 1956, um ano antes, portanto, da aprovação do Plano Piloto de Brasília, Niemeyer atendeu prontamente ao desafio e entregou em poucos dias o desenho da residência presidencial.

JK passou uma vista de olhos em tudo e disse não: “Examinei-o com a maior atenção e concluí que, apesar do seu esforço, ele não havia emprestado à obra a monumentalidade que se impunha à residência do chefe do governo. Conquanto fosse uma obra-prima de concepção artística, o edifício não refletia, no seu conjunto, o que eu, de fato, desejava. Disse-lhe, então, com a franqueza permitida pela amizade que nos ligava: ‘O que eu quero, Niemeyer, é um palácio que, daqui a cem anos, ainda seja admirado’.

Era tudo o que um arquiteto audacioso, de ambição poética e grandes vôos de imaginação, gostaria de ouvir. Em vez de agastado, Niemeyer ficou felicíssimo com a provocação do amigo e, no dia seguinte, retornou ao presidente, com um rolo de papel vegetal sob o braço, para espanto de JK: “Estendeu a planta sobre a mesa, e não pude conter um gesto de admiração. Ali estava um edifício que era uma revelação. Leveza, grandiosidade, lirismo e imponência – as qualidades mais antagônicas se mesclavam, interpenetravam-se, para realizar o milagre da harmonia do conjunto”.

O encontro entre Niemeyer e JK ocorreu em meados de novembro de 1956. Logo em seguida, em 2 de dezembro, Niemeyer apresentou o projeto e a maquete do palácio à Novacap, a Companhia Urbanizadora da Nova Capital. O concurso público do Plano Piloto sequer havia sido anunciado. A única edificação de Brasília era o Catetinho, o chamado Palácio de Tábuas, desenhado pelo próprio Niemeyer e erguido em dez dias, residência provisória do presidente, com uma pista de pouso, meia dúzia de trilhas recém-abertas e algumas dezenas de barracas de lona assustando os lobos-guarás, emas, veados-galheiros, entre outros habitantes do cerrado.

O ideal que animou Niemeyer ao projetar os palácios da nova capital era encontrar, para além das limitações funcionalistas, uma forma clara de bela de estrutura que definisse e caracterizasse os edifícios principais dentro do critério de simplicidade e nobreza, indispensável. Ele se preocupava que esses prédios se constituíssem em algo de novo e diferente, algo que fugisse à rotina em que a arquitetura da época ia melancolicamente se estagnando, de modo a proporcionar aos futuros visitantes da nova capital uma sensação de surpresa e emoção que a engrandecesse e caracterizasse: “Lembrava-me da Praça de São Marcos na Itália, com o Palácio dos Doges, da Catedral de Chartres, de todos esses monumentos que acabava de conhecer, obras que causam um impacto indescritível, pela beleza e audácia com que foram realizadas, sem contribuírem para a emoção, razões técnicas ou funcionais. “É a beleza plástica apenas que atua e domina, como uma mensagem permanente de graça e poesia”, escreve Niemeyer em “Minha experiência em Brasília”.

Niemeyer concebeu um projeto simples de três pavimentos para o Palácio da Alvorada, sob inspiração da arquitetura das antigas casas brasileiras coloniais de fazenda, com uma ampla fachada, uma larga varanda de proteção e uma capelinha ao lado, para a devoção religiosa. A estrutura do prédio contempla as funções de residência e área de trabalho do presidente.

O prédio está dividido em três pavimentos: no superior, fica a parte intima, com os quartos da família presidencial. O primeiro pavimento é reservado à área de trabalho do presidente, com sala de recepção, biblioteca e ampla sala de jantar. Na parte inferior, fica a área de serviço. A larga varanda está situada um metro acima do chão, com as famosas colunas a se sucederem. Elas provocaram o espanto e suscitaram inúmeras imitações no Brasil e no mundo: “As cópias não me incomodaram”, escreveu Niemeyer. “Tal como ocorreu com relação à Pampulha, as aceitava satisfeito. Era a prova de que meu trabalho agradava muita gente.”

A construção do Palácio só começou quatro meses depois da entrega do projeto, em abril de 1957. Um ano e dois meses mais tarde, em 30 de junho de 1958, o Palácio da Alvorada seria inaugurado. Os candangos que ergueram o Palácio no meio da paisagem agreste também sentiram o mesmo espanto que Niemeyer no inicio dos trabalhos. O mineiro Edwardes Cabral, carpinteiro de oficio, foi um dos primeiros operários a ficar impregnado pela terra vermelha do cerrado virgem, onde foi construído o palácio com as colunas que encantaram o mundo. O carpinteiro da Construtora Rabello chegou à Brasília quando a nova capital era ainda aquele imenso deserto, ocupado apenas por um solitário palácio de tábuas, três estradas estreitas abertas no cerrado, um galpão que abrigava a Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap) e algumas barracas de lona instaladas por engenheiros e operários.

Edwardes integrou a primeira turma de operários enviados pela empreiteira para construir o Alvorada. Eram 29 homens, vindos de obras da Rabello em outros pontos do país. “Vem embora porque nós vamos para Goiás fazer a capital pro Juscelino mudar pra lá”, ordenou o encarregado de uma obra da construtora em Ressaquinha, na época pequena cidade ao sul de Minas Gerais, num dos primeiros dias de novembro de 1956.

A vegetação retorcida, áspera e tortuosa, eriçada por pequenos arbustos, aguardava os primeiros candangos. A área escolhida por Oscar Niemeyer e Israel Pinheiro já estava demarcada pelos topógrafos com piquetes, único vestígio de intervenção humana no cerrado. Edwardes chegou em um caminhão Alfa 5, já sentindo o clima de urgência que imperava nos trabalhos da nova capital. Tudo era para ontem. Logo recebeu a missão de participar da construção rápida de um abrigo para os recém-chegados ao sertão goiano.

Outro caminhão veio em seguida com a madeira para erguer os barracos dos candangos. Eles foram construídos à direita do palácio, onde hoje está situado o Corpo da Guarda (casa que abriga os responsáveis pela segurança). Edwardes só foi entender onde se encontrava e o que estava fazendo quando o presidente Juscelino Kubitschek passou a aparecer na obra, antes mesmo que fosse iniciada.

Os operários ainda construíam os alojamentos quando ouviram pela primeira vez a noticia que se repetiria com frequência ao longo dos próximos dois anos: “O presidente vem ai”. Juscelino não precisava fazer esforço para ser simpático. Ele era afável, cálido e espontâneo. Chegava, abraçava os operários um a um e dizia: “Eu sou o candango número 1. Você é o número 2”.

Sorria e deixava Edwardes confuso: “Se candango era o peão que pegava no pesado e o presidente dizia que era o candango número 1, eu ficava sem saber…”

Momento de folga era uma expressão muito rara naqueles tempos épicos em que os operários pegavam no pesado das sete da manhã até a noite, quando não havia “virada”, um dia e uma noite trabalhados sem interrupção. E, não raras vezes, ela era dobrada. Duas viradas com uma noite no meio.

Nem toda a alegria dos candangos dependia de Juscelino. Sempre era possível bebericar uma cachacinha vendida nos quiosques montados improvisadamente nas proximidades das obras. Abria-se um canteiro e logo aparecia um boteco: “A gente fugia do encarregado e ia tomar uma lá perto da Petrobras”, (num quiosque onde hoje está situado o Setor de Autarquias Norte, perto da L-2). Mas as melhores horas de relaxamento e diversão ocorriam mesmo em Planaltina de Luziânia, para onde os trabalhadores iam no domingo de folga, nas zonas de meretrício. Edwardes se lembra que em 21 de abril de 1960, um galpão foi montado ao lado do Palácio do Planalto. Ele e a mulher Doracy sentaram-se numa das mesas e assistiram a um animado show de Luiz Gonzaga, o rei do baião.

Edwardes se orgulha de ter fixado o primeiro prego na forma da fundação do Palácio da Alvorada. Nos três anos que morou no Rio de Janeiro, ele ouvia dos encarregados que era preciso tirar a capital da beira do mar se houvesse uma guerra. “A gente gravou aquilo na cabeça”. E quem repassou o primeiro maço de pregos a Edwardes foi o mineiro Geraldo Resende de Carvalho, na época responsável pelo almoxarifado da Companhia Rabello. “É vaidade, né? Na hora, a gente nem sabe, só depois começa a saber”.

Quando chegou ao galpão da Velhacap, vindo de Minas Gerais, em janeiro de 1957, o mineiro soube que uma construtora, “uma tal de Rabello”, estava erguendo os primeiros alojamentos lá onde seria construído o Palácio da Alvorada. Ele e um parceiro, que havia conhecido pouco antes, desceram a pé da hoje Candangolândia em direção ao futuro Alvorada.

Depois de dezoito meses de trabalho árduo, o encarregado-geral da Construtora Rabello anunciou que o Palácio da Alvorada estava concluído.

Geraldo fica emocionado quando se lembra de um episódio singular. Anoitecia quando os funcionários mais graduados foram convidados a inaugurar a piscina olímpica do palácio. Era junho de 1958, mês de muito frio na Brasília daquela época, mas ninguém recusou a honraria. Na manhã seguinte, o encarregado liberou a piscina de um mil metros quadrados para os operários. Geraldo calcula que mais de 400 trabalhadores mergulharam nas águas da piscina, antes mesmo do próprio Juscelino, o chefe.

Niemeyer se espanta ao olhar novamente uma velha foto dos tempos épicos da construção de Brasília, quando a cidade era um imenso e árido descampado, e compará-la com a grandeza da capital erguida no Planalto Central, cindida por todas as contradições do país: “Que metamorfose! Em pouco tempo tudo mudou. Brasília surgiu como uma flor do deserto, dentro das áreas e escalas que seu urbanista criou, vestida com as fantasias da minha arquitetura. E o velho cerrado cobriu-se de prédios e de gente, de ruído, tristezas e alegrias”, escreve Niemeyer em “Minha experiência em Brasília”.

Texto de Severino Francisco transcrito do livro “Palácio da Alvorada: majestosamente simples”
Coleção Memória, ITS – Instituto Terceiro Setor

 

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POEMA (S) PARA BRASÍLIA

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POEMA (S) PARA BRASÍLIA

As conchas dos olhos
recolhem a cidade recém-vinda
das réguas, das pranchetas.
Em cantos translúcidos,
o sangue inaugural de suas ruas.
 
O olhar se inebria no mistério
que encanta luas
habitadas  por feras e Anhangüeras,
abrindo-se em vôos
aos astros mais remotos e esquecidos.
 
O útero azul desta comuna
concebida em cios seculares
armados por duendes.
O útero azul desta comuna
que num átimo se forma
das carnes das auroras.
(Ah, urbe alada, há bem pouco
matéria de miragens
geradas entre insânias e insônias.)
 
As mãos dos pioneiros desabrocham
esplanadas e verdes
por entre calos duros e selvagens.
Despojadas de plumas,
as palmas – espetadas por bichos e pequis -,
a trotar sobre praça imaginária.
Nos cumes de pirâmides de vento.
Nos eixos com seus trevos
a girar no invisível.
 
As mãos indóceis estrangulam noites,
a acender miríades de sóis
pelos andaimes,
triunfantes sobre o escuro.
 
As mãos, armadas
da aspereza dos cactos e dos mares,
rasgam sangram os nervos do cerrado,
esmagam os troncos retorcidos,
que choram o diluído predomínio,
o augusto império
sobre a nação do Oeste.
 
Plantas de ferro (indômitos calcâneos)
dos pés adventícios
marcham nas madrugadas planaltinas.
As marchas, que promanam
dos quadrantes das praias,
das garras litorâneas,
das engrenagens das ruas e dos óxidos,
desaguam um ritmo de guerra
contra o sono do Oeste.
 
Candangos pés, em binário compasso,
nos campos do silencio
desvirginam veredas
a enfatizar sua cor – candente e rubra.
Tecem pautas de luz
hasteadas nos píncaros do tempo
e em estuários de contos e de lendas.
 
Cidade submersa na memória,
nos sonhos, mas concreta
no útero de luz que a acaricia.
Eu canto as suas linhas irmanadas
em arcanos de pedra,
de ouro e prata
(mares de sol, lunares oceanos),
onde efusões do ser colho e equilibro.
 
Navegam no ar as mãos pesadas e ósseas
a florir superquadras
e o perfeito embalar de seus meandros.
(Estas mãos de cartola
informes, tecidas pelos ventos,
haurindo de metáforas
palácios e luas e esplanadas.)
 
Canto os trevos. E neles canto o verde
dos burocratas exatos,
deferidos,
cronômetros nos punhos e nas frontes,
essas férreas formigas quotidianas.
 
As águas, as águas dos milênios,
no lago de finos tributários,
de peixes, de magias,
de rios natais sorvidos (sequestrados)
para as doces vertigens
do altiplano.
 
Sim, claros domicílios
do silêncio – esta urbe, esta ave –
onde alforriados de mares e fuligens,
de salsugens e becos,
em voejos difusos, coloridos,
desintegram raízes de veneno.
 
Amoldado à aridez da atmosfera,
eu canto esta comuna
em seu milagre, em seu murmúrios.
Por mais que a concha azul e luminosa
me complete em loucuras.
Por mais que a secura da aragem
em suas cordas me sangre.
Por mais que as vibrações
indecifráveis do azul
dardejem-me a garganta.
 
Joanyr de Oliveira, poeta mineiro, natural de Aimorés.
Poema transcrito do livro “Casulos do Silêncio”, 1988.

 

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Nos Olhos de Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Nos Olhos de Brasília
Ah! Brasília, como chora o vento que
sopra nosso Campo de Esperança…
Nos seus olhos onde moro
a tristeza da utopia me namora.
Pelos caminhos que deram
na Cidade Livre e Pacheco Fernandes…
O ar já embalsamou as vozes ouvidas…
Se já sei que entrei pelo Eixão
no seu coração
Proteja-me do sol e da chuva no sexo de suas curvas…
Para ser a cidade com a idade que sinta ter
espante a velhice / caranguejeira
(tecelã de insônias que nos obriga a fazer anos)
Como cura em seus olhos vidas tão doídas
se o tempo que tem o remédio entrou em férias
eternas…?
Ah…Aquelas primeiras estrelas
que luziam para o cerrado ignorado
como piscam ainda em seus olhos…
Ah!…O Planeta ameaçado ainda respira sem mágoa
em suas asas de terra e água…
Pra quê ter nos olhos
             Imenso palco / político
se as peças têm atos secretos?
Pra quê dançar carnaval de falso luxo em alto custo
se nos teus olhos tem um pacotão de carnaval
              sem susto sem custo?
Pra ouvir vidas doídas escuto no escuro:
– E o amor?
                – Falso.
                            – E o poder?
                                              – Podre.
E Deus, como ver isto?
                                        – Muito triste…
Pra que fugir do Entre Lagos
coberto por um céu amargo
              me escondo em teus olhos molhados
de Águas Lindas, Claras e Emendadas.
 
Ézio Pires, poeta natural de Cantagalo (RJ) 
Poema transcrito do livro “Fincapé: Coletivo de Poetas”, Thesaurus Editora

 

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Domesticidade Moderna: A feição das moradias de Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Domesticidade Moderna: A feição das moradias de Brasília
Por Carlos Henrique de Lima

 


Foto: Arquivo Público do DF

 


Até onde se vê, até onde a vista alcança, tudo é encontro: entre a força da terra vermelha e o azulado celeste, da campina circunvizinha tomando aos poucos as massas edificadas, da linha tênue do horizonte que lhe desenha a feição.

Em Brasília, essa simbiose se dá em diversas escalas que possibilitam leitura rica e plural, e que nunca terminam o que tem a nos dizer, É desse encontro de oposições que podemos enxergar seus espaços urbanos a partir de uma perspectiva sensorial muito particular. Ao circular pela cidade, especialmente ao fazê-lo com certa vagueza, redescobrimos os nossos sentidos e o expediente de nossas percepções se dilui em uma disposição contemplativa com aquilo que Lucio Costa imaginou de maneira precisa e afetuosa.

E muitas são as maneiras de nos reencontramos com essa cidade: no caminho das crianças para a escola, que nos oferecem sonho e nostalgia, imaginamos que elas passarão por uma manhã de descobertas; nos carros que correm como uma manada metálica enfurecida em direção ao centro; no café da manhã servido nas saídas das passarelas subterrâneas de pedestres, apreciados por aqueles que vêm, tanto de longe como de perto, para exercerem a dura rotina de seus trabalhos. Essa tangência ininterrupta promovida pela atividade urbana, e que tanto modela nossa experiência de mundo, tem em Brasília um sentido a mais, uma vez que estabelece outras afinidades entre tempo e materialidade, resultado da filiação às ideias de Le Corbusier sobre a relação entre construção e natureza.

O poeta Durs Grünbein, em um ensaio de impressionante concisão, fala de uma passagem na Odisséia na qual o herói, aprisionado por uma ninfa, chora solitári0 à beira do mar. Esse momento é descrito pelo escritor alemão como uma parábola da vida, por nos dizer que somos, afinal, feitos da mesma matéria que compõe o mundo. Assim sendo, estamos sujeitos à inclemência dos ciclos da vida e a todas as tribulações que eles nos causam. “A umidade menor, o véu de lágrimas, é cercada, reabsorvida sumariamente – para não dizer sorvida – pela umidade maior, o mar salgado”.

A imagem que Homero nos oferece encontra em Brasília eco semelhante. Tanto as amplas panorâmicas em que se descortinam os fundos infinitos como as sucessivas vistas fragmentadas que se abrem ao percorrermos os espaços mais contidos da capital nos fazem recobrar nosso contato com a natureza e com a maneira como lidamos com suas transformações. Afinal, a essência das coisas também nos forma e, aqui, nosso contato com o céu, a água e o chão nunca ocorre a distância. A severidade dos ciclos da natureza dá a devida escala da nossa presença nessa cidade, inventada com sensibilidade e erguida com firmeza por levas de trabalhadores.

Lucio Costa previa um alto grau de interação entre a cidade e seus habitantes. Para ele, a estrutura urbana poderia condicionar essa relação e, consequentemente, definiria também o modo de ocupação dos espaços públicos. Na leitura precisa de Guilherme Wisnik, essa lógica deve ser compreendida a partir de um contexto histórico, dentro do que se pode chamar de uma construção social da paisagem. Para o autor, a arquitetura robusta e introspectiva que caracteriza a época colonial é um reflexo do processo de interiorização do país, baseado nas ideias de proteção e refúgio, no medo do selvagem e do desconhecido. Por outro lado, o urbanismo moderno aplicado em Brasília, apesar se apropriar de certos elementos da arquitetura colonial, propõe uma nova configuração espacial, baseada em um desenho urbano livre, disperso e conciso, capaz de promover uma sociabilidade ativa. Esse é o pano de fundo sobre o qual se delineiam as esferas da vida pública e privada nessa cidade.

Sobre as sucessivas distâncias

Brasília é uma plataforma privilegiada de observação que a todo tempo nos confronta com a memória que temos de outras cidades, com a experiência que guardamos delas, seja de suas ruas, cheiros, sons, cores ou pessoas. Esse constante movimento de aproximação e afastamento, e essa estranheza sentida com a lógica de articulação dos espaços que compõem a capital demandam uma modificação interna em nossos parâmetros de sociabilidade.

A partir da experiência de seus moradores e do contexto sócio-político dos anos 1960 em diante, o cotidiano de Brasília foi tomando uma feição própria que, pouco a pouco, traduziu-se em um distanciamento em relação aos preceitos que guiaram a sua fundação. Essa assimetria acontece em duas vias: por um lado, os espaços das superquadras se tornaram os mais propícios para que a vida privada das classes média e alta pudesse se desenvolver. Por outro lado, essas mesmas áreas assistiram a um esvaziamento da vida pública que havia sido projetada para elas.

Apesar da generosidade dos gramados que conformam as tramas de caminhos dos pedestres, são raros os momentos em que percebemos sua ocupação mais deliberada e menos cerimoniosa. Nas entrequadras, “peladas” acontecem espontaneamente; moradores levam seus cachorros para passeios e corridas; crianças podem se espalhar com entusiasmo. Mas não se vêem pessoas fazendo piqueniques e churrascos, ou dispostas a tomar sol em roupas de banho, o que certamente daria outro tom ao lugar. Para isso, dependemos da capacidade de desprendimento em nossa relação com o outro, ainda marcada por um evidente baixo grau de interação.

O conforto e a comodidade que deveriam ser propiciados pela cidade acabaram se convertendo em exceção. Os próprios pilotis, concebidos como elementos de interação urbana, por liberar a passagem no nível do chão, em muitos casos acabaram sucumbindo à lógica não superada da delimitação entre o público e o privado. Cercas, pisos e calçadas adjacentes servem para lembrar que o espaço térreo dos edifícios residenciais não são lugares de passagem, como se a circulação pelas quadras fosse uma concessão a ser controlada por poucos. Assim, os pedestres ficam impedidos de exercer trajetos livres, abertos à especulação e ao devaneio, tal como definiu seu autor.

Ainda que possamos perceber alguma pluralidade de proposições entre os blocos das superquadras construídas nas primeiras décadas de Brasília, as adaptações seguintes – com amaneiramentos por parte de síndicos e condôminos -, foram sucedendo-se em diferentes graus de circunspecção. É possível até mesmo perceber tendências e padrões nas reformas efetuadas, ao analisarmos um conjunto de duas ou mais quadras iguais, como é o caso das SQN 403 a 406, que possuem, duas a duas, um único tipo de bloco e a mesma disposição entre eles. Uma variedade de materiais de revestimento e de detalhes de acabamento transforma os pilotis em verdadeiros mostruários públicos, vitrines que procuram criar uma diferenciação em meio à unidade.

Daí a exata medida em que podemos estender, em duas frentes, essa leitura para os interiores dos apartamentos. Primeiro, porque o desenho de cada planta deriva de um contexto de época que envolve um programa de necessidades arquitetônicas, técnica construtiva, legislação específica e, principalmente, determinada filiação de linguagem por parte de cada arquiteto. Segundo, porque cada residência é território livre, sujeito a um infinito número de reformas e adaptações, em muitos casos opostas à depuração de elementos e austeridade geométrica que caracteriza esses edifícios modernos. Todo o expediente da técnica urbanística do século XX, convivendo sem constrangimento com a personificação livre que cada habitante confere à sua moradia.

Há ainda outra questão que permeia a difícil superação das condições atávicas de nossas interações sociais. Na mesma medida em que ocorre uma gradativa separação entre o planejamento espacial do Plano Piloto e a vagueza na administração das cidades satélites, as próprias plantas das moradias refletem significativamente essa oposição. Não são raros os apartamentos que possuem dois quartos e dependência de empregados, ou ainda, num extremo, plantas de apenas um dormitório e com um sanitário de serviço, reflexo da coexistência de uma certa mentalidade retrógrada com as concepções progressistas que deram origem à capital.

Inventário aberto

Em 1967, Joaquim Pedro de Andrade realizou um filme institucional a pedido da Olivetti que acabou ficando por muitos anos sem exibição e sendo armazenado de maneira precária. “Brasília: contradições de uma cidade nova” é um relato de impasses diversos, das relações sociais conflituosas que presidiram tanto o período de construção quanto as épocas posteriores à sua inauguração. Cabe aqui ressaltar um mérito do documentário, que é abordar, por meio de longos planos de filmagens, a cidade ao rés-do-chão. Em muitos casos, as sequencias se iniciam nos interiores de apartamentos e lojas de comércio local, e seguem em direção ao chão gramado ou às vias de veículos.

As filmagens das escalas do Plano Piloto são acompanhadas pela “Gymnopédie”, do compositor Éric Satie, enquanto o registro da rodoviária e das satélites é intercalado pela canção “Viramundo”, de Gilberto Gil e Capinam, interpretada por Maria Bethânia. Tal escolha dá bem o tom de separação que o cineasta procurou estabelecer entre a depuração formal e estabilidade na concepção de Brasília, e a vida dura dos retirantes que ali não encontraram lugar. Em outro momento, vê-se o desacordo entre as propostas dos arquitetos e o gosto dos moradores. A ambição ou expectativa dos habitantes em manifestar sua individualidade não encontram limites no âmbito privado dos apartamentos, mas se multiplicam em modos de comportamento e de intervenção nos outros espaços.

Outro trabalho chave sobre a cidade é o livro “Arquivo Brasília”, coordenado por Lina Kim e Michael Wesely. Trata-se de uma compilação feita a partir do acervo fotográfico do Arquivo Público do Distrito Federal e de outras fontes, e que traz à luz as vidas cheias de expectativas dos pioneiros que aqui vieram construir suas histórias. A possível equivalência entre a intimidade dos interiores e as grandes perspectivas sobre as áreas públicas que esse trabalho deixa entrever nos permite pensar a arquitetura dentro de uma perspectiva mais ampla, com a reflexão sobre o espaço no centro dos debates.

Esse conjunto de narrativas e conteúdos sedimentados em torno de Brasília nos ajuda a compreender melhor como as qualidades morfológicas de cada trecho urbano, ou melhor, de cada uma das escalas do Plano Piloto, tecem entre si um jogo de equilíbrio tênue e um diálogo constante com o sentido da formação espacial brasileira. Sendo assim, esse registro é um inventário contemporâneo de um determinado modo de vida e das memórias que se acumulam no lastro da cultura arquitetônica do século XX.

De posse de roteiro impreciso, mas revelador, Leonardo Wen contribui para a antologia de discursos sobre Brasília com uma narrativa que nos permite explorar as questões colocadas ante a perspectiva moderna sobre os espaços residenciais. As imagens aqui apresentadas propõem uma visão que ultrapassa a presumível subjetividade desse encontro e vai mais além: as fotografias se mostram como peças autônomas àqueles vestígios encontrados em porta-retratos, texturas de paredes e recortes e janelas, para também constituir a fina matéria dessa história particular.

Abordagem que traz algo de nostalgia, seja de caráter intimista ou coletivo, e de contrariedade ante a noção que se tem dessas barras de apartamentos enquanto entidades anônimas, como se ali estivéssemos todos divididos, cientes e acostumados à nossa própria solidão. Nessa trilha, somos levados por visões de espaços que se constituem como um dispositivo de bricolagem e sobreposição, não alinhados aos preceitos de depuração da arquitetura moderna, dando novo folego e intensidade à leitura que se possa fazer dos limites residenciais.

As fotografias mostram os apartamentos menos reformados da superquadra 108 Sul, a primeira a ser inaugurada e formam um epilogo às imagens em preto-e-branco do inicio do livro. É a partir daí que se pode compreender os blocos e apartamentos em um contexto histórico específico, enquanto elementos vivos e em transformação. Os planos de laje e fiadas de tijolos erguidas com destreza pelos operários acabaram se transformando em favor de outras necessidades, adaptações inerentes às imprecisões do tempo, dessas que nos movem adiante e nos projetam além.

Se por um lado lamentamos a frustrada gradação social que poderia ser estabelecida entre os padrões de edifícios, por outro celebramos o fato de esses blocos não terem começo nem fim, de estarem em movimento constante. A cada página encontramos novas surpresas: os revestimentos que se sobrepõem sem regras precisas; os ângulos cinzentos que se descortinam das salas, tomadas por uma luz lenta e gradual. Tudo parece convergir em uma aparência poética e reveladora. O olho mágico traz uma analogia precisa com esse jogo entre o público e desconhecido que as fotos querem nos trazer.

Os espaços dispostos por Lucio Costa parecem ter agregado uma grande dose de afetividade, tão logo foram traçados os dois eixos que conformam o sinal da cruz, fazendo nascer aqui, como ele bem definiu, uma paisagem que a própria cidade criou. Esse acontecimento constitui um fato notável para a cultura nacional. Percorrer os labirintos dessa empreitada, ou descobrir aos poucos seu estado presente, é uma aventura à qual nos lançamos com grande entusiasmo, por sermos feitos dessa mesma matéria que constituirá, aqui e além, o conjunto de tantas memórias.

Texto transcrito do livro “APTO”, de Leonardo Wen

 

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