Choro sorrindo

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O Clube do Choro

É um pedacinho do céu

Na noite de Brasília

É uma sonífera ilha

De sons-maravilhas

Sortidos & Alados

O Clube do Choro

É um bordado

Uma sinfonia

Usina de notas

Brasileiríssimas

Soltas no palco

Iluminado por carícias

Da citara de

Aveno de Castro

Lá, o não é nunca

E o sim tem o som

Sempre sincopado

Quando vou ao

Clube do Choro

Ahh, Chiquinha

Não vou sozinho

Vou sem medo

Quando não bebo

Bashô

Bashô

Bashô o santo

Agora todo Japão é banto

África

Olhai em si

O que não é haicai

É oriki

Teatro Nô

Em jogo de Ifá

My Butterfly

Vai piorubá

 

Luis Turiba, poeta pernambucano

Poema transcrito do livro “Qtais”, 7 Letras

CASTRO ALVES, FILHO DE BRASÍLIA

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Patrimônios, os dois, da humanidade;

deles são a petúnia, a sálvia, a gília

dos canteiros de flores da cidade.

 

Ambos buscaram (noites de vigília!…)

conseguir, preservar a liberdade.

Esse bem, garantia de família

e riqueza maior da sociedade.

 

“Cecéu”, um apelido da infância.

Por símbolo o condor – gênio entre as aves -,

para um gênio de andina culminância.

 

No céu da poesia ele é um astro:

Antonio Frederico Castro Alves.

A mãe: Clélia Brasília Silva Castro.

 

José Peixoto Júnior, poeta pernambucano

Poema transcrito da antologia poética “Sonetos de Bolso”, de

Jarbas Junior e João Carlos Taveira

Missão Cruls: 120 anos

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O homem que marcou o lugar

Por Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Em consequência, o ministro dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Antão Gonçalves de Farias (1854-1936); ministro da Fazenda e da Agricultura, (de 23 de novembro de 1891 a 23 de junho de 1892), por meio da portaria de número 119-A, de 17 de maio de 1892, organizou a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, escolhendo para chefiá-la o astrônomo brasileiro de origem belga Luiz Cruls (1848-1908), que, na época, era professor da Escola Superior Militar e diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, atual Observatório Nacional. Ao comunicar essa designação, o ministro deu as seguintes instruções que deveriam nortear a demarcação da área, onde mais tarde, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976),  seria  construída Brasília, sem dúvida uma das mais belas capitais do mundo moderno:

“No desempenho de tão importante missão deveis proceder aos estudos indispensáveis ao conhecimento exato da posição astronômica da área a demarcar, da orografia, hidrografia, condições climatológicas e higiênicas, natureza do terreno, quantidade e qualidade das águas, que devem ser utilizadas para o abastecimento, matérias de construção, riqueza florestal, etc., da região explorada e tudo mais que diretamente se ligue ao assunto que constitui o objeto da vossa missão”.
“No decurso de tais trabalhos e tanto quanto possível, podereis realizar não só os estudos que julgardes de vantagem e utilidade para mais completo desempenho do vosso encargo, mas ainda os que possam concorrer para a determinação de dados de valor cientifico com relação à essa parte ainda pouco explorada do Brasil”.

Procedimentos

Para se ter uma ideia dessa missão, convém assinalar que, além das barracas, das armas, dos mantimentos, dos instrumentos científicos – tais como dois círculos meridianos portáteis, teodolitos, sextantes, micrômetros de Lugeol, luneta astronômica, heliotrópicos, cronômetros e relógios, seis barômetros de mercúrio sistema Fortin e onze aneroides, bússolas, podômetros, diversos instrumentos meteorológicos, câmaras fotográficas com seu respectivo material de revelação – a Comissão levou uma pequena oficina de aparelhos mecânicos, destinados ao conserto dos instrumentos que viessem a sofrer algum acidente. Todo esse material ocupou um total de 206 caixas e fardos que pesavam ao todo cerca de dez toneladas.

Em 8 de junho, foi concedida anistia a todos os cidadãos detidos e expulsos durante os conflitos ocorridos em abril. No dia seguinte, mais exatamente, no dia 9 de junho, ocorreu a partida da Comissão, do Rio de Janeiro para Uberaba, ponto final da linha férrea da Companhia Mogiana. Desse ponto em diante, todo o percurso da missão foi realizado com o auxilio de animais cargueiros. Na realidade, a Comissão só partiu de Uberaba no dia 29 de junho, tendo em vista todos os preparativos para reunir os animais e os acompanhantes que deveriam auxiliar os membros da comitiva, não só no transporte dessa enorme carga, mas também na orientação das trilhas a serem percorridas. Uma greve dos ferroviários da Central do Brasil, em 22 de julho, paralisou os transportes, o que indiretamente motivou o pequeno atraso.

Todos os itinerários percorridos foram levantados cuidadosamente pelo processo americano de caminhamento, que consistia em se servir do podômetro, da bússola e do aneroide. O podômetro – aparelho que mede o número de passos dados durante uma marcha – adaptado aos animais, foi usado para determinar a distância por eles percorrida, uma vez que se conhecesse a extensão do passo dos diferentes animais, cujos valores, segundo Cruls, variaram dentro dos limites de 0,66 e 0,72m. Com a bússola, determinava-se a direção a ser seguida e, com os barômetros e/ou aneroides, a altura. Ao longo de todo o trajeto, além do itinerário determinado pelo processo de caminhamento, os astrônomos e auxiliares fizeram numerosas observações astronômicas, com o objetivo de determinar as coordenadas geográficas, com o auxilio dos sextantes, por meio das alturas meridianas do Sol e das estrelas.

Depois que deixaram Uberaba, a caminho de Pirenópolis, a Comissão passou pelas cidades de Catalão, Entre Rios e Bonfim, chegando em 1 de agosto ao seu destino. Em Pirenópolis, a 12 de agosto, Cruls decidiu dividir o pessoal em duas turmas, com o objetivo de percorrer o planalto, a ser explorado por dois caminhos diferentes. A primeira turma – chefiada por Cruls – seguiu diretamente para Formosa, onde chegou a 23 de agosto. A segunda, que passou por Corumbá, Santa Luzia (hoje Luziânia) e Mestre d’Armas (hoje Planaltina), chegou em Formosa a 14 de setembro. Ambas as turmas deviam determinar diariamente a hora e a latitude. Para tanto, deviam usar quaisquer fenômenos que pudessem servir para determinar a longitude, como os eclipses do primeiro satélite de Júpiter e as ocultações que deveriam ser observadas pelo menos em alguns pontos do itinerário. Outro processo usado foi a determinação da longitude por distâncias lunares – quer pela passagem da Lua e/ou de uma estrela pelo mesmo vertical ou pela mesma altura -,  quer  por diferenças de altura entre os dois astros. Em cada acampamento, faziam-se visadas com o trânsito de Gurley, em direção aos acidentes geográficos mais notáveis e, sempre que possível, deveriam determinar a declinação magnética das cidades visitadas, em especial Santa Luzia e Formosa.

Ambas as turmas, em especial a segunda, determinaram, desde a sua partida de Pirenópolis, o volume das águas dos diversos rios que encontraram no seu trajeto.

Depois dessa primeira exploração preliminar da região, o principal problema da Comissão era a demarcação da zona. Havia diversas soluções possíveis. No entanto, convinha procurar a que melhor satisfizesse a determinação do artigo terceiro da Constituição: “Fica pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”.

Uma delas seria adotar uma forma irregular, para a zona do futuro Distrito Federal, na qual tornar-se-ia para limites os sistemas orográficos e hidrográficos. A outra seguiria o exemplo dos EUA, onde os limites dos estados da sua federação são, na verdade, arcos de meridiano e arcos de paralelo. Imaginou Cruls que se fosse adotado o critério norte-americano, o melhor seria demarcar a área sob a forma de um quadrilátero que tivesse por lados arcos de paralelos e meridianos.

A primeira solução – a forma irregular – exigiria um longo tempo para a sua demarcação, em virtude da necessidade de um indispensável levantamento do perímetro da zona delimitada, com medições de base fundamental numa primeira demarcação, definitiva e absoluta, por meio de um levantamento geodésico.

A segunda – a solução do quadrilátero esferoidal – preenchia melhor a proposta. Tinha também a vantagem, pelo seu perímetro em forma de uma figura geométrica regular, de evitar futuras questões litigiosas que pudessem surgir entre os estados limítrofes. Na verdade, as latitudes de dois arcos de paralelo, bem como as longitudes de dois arcos de meridianos, delimitam a área demarcada e tornam possível verificar, a qualquer momento, a posição exata no terreno dos limites da zona. Por outro lado, a forma e as dimensões do esferoide terrestre permitiriam determinar, com suficiente rigor, a área de um quadrilátero limitado por arcos de meridiano e de paralelo, uma vez que suas respectivas longitudes e latitudes fossem bem conhecidas.
Uma vez decidida que a segunda solução era a melhor, Cruls devia escolher a forma do quadrilátero. Para isso, inspirou-se em considerações relativas à própria região, tais como o seu sistema hidrográfico, orográfico, riquezas naturais, etc.

Com base nessas considerações, Cruls concluiu que a forma mais conveniente seria um quadrilátero que tivesse cerca de 160 e 90 quilômetros como arcos de paralelo e meridiano. De modo que o quadrilátero teria uma superfície de 14.400 quilômetros quadrados, como havia sido determinado na Constituição.

Texto transcrito do livro “Luiz Cruls: o homem que marcou o lugar”, Gráfica e Editora Qualidade.

BRASILIANAS

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I
O céu se abre ao infinito
Teus espaços são a capital dos meus pensamentos
Sorri o busto que fundou esse sentimento monumental
De poder, nas tuas letras, estar agora, brasiliana

II
Inauguraram um monumento
Mas é a tua estampa
Que transforma meus pensamentos
Em traços curvos
Que nem Niemeyer sonhou

III
Tempo Estio
Em que corpo e alma tem mais sede
Embora muita água possa ver, em realidade
Não é fácil atingir teu lago
Mesmo assim,
Vou forjando uma orla
Pela beira –
Mar que, um dia, em sonhos verei

IV
Pesadelo alado
Que voa ao Norte
Mas é para o Sul que vertem tuas veias
No entanto, a alma, condor que vaga
Do alto vê: é um avião!
Quando enfim, ao leitor regresso
Eis que uma voz de metal me chama
Novamente ao teu aeroporto!

V
Ando em tua perspectiva
Por uma avenida sem fim e sem nome
Estonteante velocidade colorida
De sonhos em movimento
No rosto do menino
As luzes de uma cidade perdida
Olho para frente
O sinal deve abrir
(Qual será o caminho mais curto até o teu ser?)

VI
Abrindo picadas no teu seio
Pelo cerrado
Acreditando na visão
Vou quebrantando tua fé de pedra
Esse plano de gelo, bloco de certeza
De quem não quer me habitar
E sentir a paixão dos pioneiros
Com a força
E os sonhos
Nos quais sou operário
Que despenca de todos os andaimes

VII
Brasiliana tem olhos de gata
Iris de velha xamã
Com tuas seitas
Seus novos mistérios
Feiticeira do altiplano
De bruxa, de benzedeira
E não foi a cruz em sua fortaleza
Que lhe livrou desse feitiço
De possuir toda a gente
E a cidade
Que no inicio
Não tinha Deus
Não tinha amor, nem nada
Passou a crer mais na vida
E os templos: a natureza!

VIII
Na noite em que parti
Levantei poeiras e dúvidas
Na bagagem que juntei
Um mapa sem legenda
E o coração como bússola
Apenas na procura de teus jardins em mudança de estação
Porque meus pastores
São os pássaros que desenham em teu céu
As luzes coloridas desses dias

IX
O expediente
O calhamaço, o ouro e o calmante
O lilás de bocas trêmulas
De longe brilham e fazem fama
A Brasiliana que me engana
É uma miragem em reluzente deserto
Sinuosa, prematura e disfarçada
Que agora caminha distante
Batendo asas
Buscando a mortal travessia
Em saltos loucos
Nos meios-fios de Brasília

Marcelo Ferreira Carámbula, poeta gaúcho.
Poema transcrito da lista de ganhadores do “Prêmio Cassiano Nunes”

MEMÓRIA FUTURA

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Mesmo coberta
Brasília é uma cidade
nua. Intervalos,
espaço, o plano em que se inventa
se despojam, verticalmente
Planalto, Brasília salta
e se repete para o alto.

E comemora-se, num céu
declarado, num horizonte
preciso, como quem sabe
o que faz de si
e guarda o rosto explicito.

Em que cidade os vãos
se mostram com tanto
azul, e ventos e vertentes?
Onde limites
Que se correspondem, onde
lacunas que se preencham
apontando
sua vizinha evidência;
onde é que
guarda tanto sentido
em sua indiferença?

Os edifícios, nítidos
como cactus, contra uma terra
envolta em terra
se amaciam e se retomam em lago.
E o branco é mais longo
no assalto do poente,
e a técnica se arredonda
na memória da Acrópole
e pelo ser
se aconchega, nas dobras
do existente.

Nada se aglomera
ou se expulsa
nesta paisagem onde a razão
é o sensível e sua imagem.

Aqui se faz o homem:
geografia-geometria
e a historia murmurando
amanhã
nas curvas da poesia.

Aqui a terra se ergue,
lapidada em seu proveito,
aqui medita
o que a pátria espera
de nós, por nós,
na nudez dos que pensam.

Lupe Cotrim Garaude, poetisa natural de São Paulo

BILHETE PARA ADIRSON

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Caro Adirson, suas histórias
não são contos, são memórias
de Brasília, de suas glórias.
Acordes de violoncelos
nas encenações de Otelo;
validadas promissórias
em as outorgas uxórias
da cidade em formação.
 
Você é um aventurado
do mistério de obá,
fecundo, predestinado,
no rubro pó do cerrado
bem cedo chegou pra cá.
Trouxe a perspicácia e a pena,
a alma ardente e serena,
a garra pela notícias
novas, bem quentes, notórias,
o gosto pela pesquisa,
as narrações sem malícia,
a mais genuína historia.
 
 Assim, caríssimo Adirson,
tão zeloso e devotado
Barão do Paranoá,
continue investigando,
juntando os sagrados elos,
pontos, planos, paralelos
da custosa conexão,
cosendo o caso perfeito,
com manemolência e jeito,
nas trelas do coração.

Antonio Temóteo, poeta baiano, natural de Piatã.

Dois poemas de Joana: A travessia

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Dois poemas de Joana: A travessia
(ou uma tentativa apenas)
 
Vozes eufóricas e
fortes zumbidos
se espalhando
no enorme corredor
mal iluminado do Minhocão.
A aula que não houve
se transforma
no estudo solitário
da diacronia
da Língua Portuguesa,
segundo Marcos.
Sorrisos, risadas e
gargalhadas escandalosas
não me deixam concentrar.
Já não percebo
a voz monocórdica
dos professores nas salas.
Início tardio
do semestre letivo.
Caótico.
É o caos da greve
deixando os estilhaços
em nosso caminho.
Como obstáculos,
a pedra no meio do caminho.
Lá fora,
a moto sem silencioso
sai em disparada no
breu estacionado no ICC Norte.
E eu adoro silêncio.
Espero a carona
até no último minuto.
O barulho oscila
entre as vozes meio gritadas
e o volume alternado do ruído
dos saltos-agulha que
desfilam fazendo
um eco comprido
até se tornarem inaudíveis.
A leve brisa espalha
o cheiro da erva sagrada,
tal capim santo.
Hoje, os rapazes
disputam a histeria ruidosa
com as moças.
E se sobressaem brilhantemente.
Atravessar a nado
o Lago Paranoá.
Pedir socorro e abrigo
aos monges beneditinos
ou às irmãs carmelitas.
Poder calar e descansar
para ouvir o mais fundo
do meu coração.
 
A LIMPEZA DA CAPITAL..
 
No frio seco da manhã,
em meio a nuvens
do vento empoeirado.
Lá estão elas…
Lá estão eles…
Tentam agasalhar-se,
e a se proteger
como podem.
De longe, percebo
o alaranjado movimento
do azul de seus casacos.
Vassouras, pás,
sacos de lixo,
baldes e carrinhos…
Estou confortavelmente
congelada dentro
do carro.
Olhos admirados
e agradecidos.
— Cenário típico e
aburguesado.
Tento acompanhar
o grupo por um instante
para adivinhar-lhes
os sonhos…
As cuidadoras
e os cuidadores da cidade
transpiram cansaço.
Da vida
Das viagens
Das madrugadas
Dos ônibus
mal cuidados
em direção
ao Plano Piloto.
Do almoço dormido
em suas marmitas.
E da volta pra casa,
que não termina nunca…
Preservam o bom humor,
apesar de tudo.
Será que todos sabem
que há muita sujeira
espalhada pela cidade
que o seu trabalho
nunca vencerá?
Abençoai-as, abençoai-os,
Ó Senhora Padroeira
da mais bela catedral do país!
E também a nossa cidade,
porque Brasília
está carente de bênçãos
e de luz.

Joana Eleuterio, poetisa mineira, natural de Bom Despacho.

Ode ao Lago Paranoá

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Às margens do nosso Lago Azul – o Paranoá,
Ao entardecer de um domingo de Sol,
Paisagem mais deslumbrante, certamente não há,
Pela variedade das cores do arrebol.
Há os voos dos patos selvagens,
Recolhendo-se apressados para os ninhos.
Avesinhas aquáticas levantam-se das margens,
Também em busca dos seus caminhos
Às vezes, inesperadamente nos aparece,
Num voo sinuoso, soturno e lento,
Uma garça branca, assustada, linda, agreste,
A procura de um peixinho como alimento.
Pousa no píer onde encostam as lanchas,
Ostentando um porte airoso, enquanto sonda,
Se por ventura vem como estranhas manchas,
Algum crustáceo na crista da onda.
Interessantes são as garças que em bando,
De plumagem branca como a neve,
Em uma perna só, se equilibrando,
Por horas, a fio, como estátua leve.
Em evoluções coreográficas, as andorinhas,
Fazem nos céus, sinuosas evoluções;
Enquanto canários, pardais e rolinhas,
Fogem da perseguição dos gaviões.
Na despedida nostálgica do sol poente,
Singram os barcos solitários para o norte,
Aos sons de acordes ou de música dolente,
Com as velas infladas pelo vento forte.
O sol, por fim, mansamente desaparece,
Deixando uma rástea de luz brilhante,
Refletindo no espelho das águas, que parece
A imagem de um brazeiro crepitante.
Amontoado de nuvens, lentamente vem cobrir,
Como um enorme e desmedido manto,
Deixando, ás vezes, de alguma fenda surgir,
A argêntea luz da Lua, de suave encanto.
Casais no enlevo dos amores, enamorados,
Despertados pela suave claridade lunar,
Agarram-se na confissão de apaixonados,
Ao entregaram-se no gesto de se beijar.
E assim os ditosos momentos agradáveis,
Essencialmente escolhido para descansar,
Nos deixa na mente, lembranças memoráveis,
Oferecidas pelo “Lago Azul,” – o nosso mar!…
 
Sidney Almeida
Morador do Lago Sul
Poema transcrito do Correio Braziliense, 12 de agosto de 2013.

EXALTAÇÃO A BRASÍLIA

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Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
Foste sonho e ideal de tantos.
Pelas mãos pioneiras, candangas.
Integrando-o de Norte a Sul
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
Niemeyer, os teus palácios,
Israel te deu forma e força,
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
Onde cabem raças e credos.
E as noites frescas e de estrelas.
E de Dom Bosco, predição;
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
Da grande síntese desponta
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
Construtora de um novo tempo,
De amor, energia e consciência.
Fruto do esforço brasileiro,
Dos novos tempos, edifício,
Aurora de um novo Brasil.
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
Dos Três Poderes, tens a Praça,
Mais a Ermida e bela Esplanada,
As Quadras, Eixos, Avenidas
E também Águas Emendadas.
Teus panoramas deslumbrantes
De chão, de luz e de horizontes,
Lembras família, pátria, Deus.
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
A vida que ofertas a todos,
Assim no Plano e nas Satélites,
De ânimo à ação, ao trabalho,
Um homem síntese criaste,
De cores e costumes pátrios,
De um forte Brasil, alicerce.
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!

Post Adirson Vasconcelos, poeta cearense.

Cidade em frascos

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Deitado no espelho do asfalto
em tons de ametista
safira, topázio e rubi

o céu desdobra o horizonte
alvorado algemado
à paisagem da cidade.

Quem vem dos confins
de um país recém-inaugurado
jamais é o mesmo após adotado.

O batismo é de pedras
e o olhar se perde
pelos rastos

vazios sob arranha-céus
tontos na multidão
exaustos em procissão
rumo ao nada.

Siamesas
ela e eu
somos hoje

nervosos bordados
na trama
do tempo volátil.

Angélica Torres Lima, poetisa goiana.
Poema transcrito do livro “Luzidianas”, Coleção Oi Poema.

BICICLETA PRA BRASILIA DO CERRADO

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Na praça a trança
Voa no vento quente do Cerrado
Seco do Planalto de Brasília
Praças grandes traziam armadas amar aradas
Flores amaralindas
Folhas amarlindadas
Alguns beija-flores são azuis, brilhantes delicados
Aveludadas flores cachos casas rosas amareladas casas
Terra traço e grafite brilho e sol
Chapéus botas d’águas longe das catedrais
Praça porque pára praça porque pára parque
Cidades sitiadas armadas amarradas
Via bicicleta não precisa ser atleta
 
*
 
Bicicleteiro Corre
Pedal companheiro
Não poluente
Avenida pela frente
Vento na gente
 
*

Bic Prado, poetisa brasiliense.
Poema transcrito do livro “Poemas de um livro verde”, Coleção Oi Poema

Nova espécie urbana

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Por Conceição Freitas

Talvez nenhuma outra cidade no mundo, salvo as que se transformaram em ruínas, precise de uma iniciação para ser compreendida e só então aceita. Brasília pede uma cartilha que pegue o visitante pela mão e o ajude a decifrar sua racionalidade tão evidente, porém tão intrincada e perturbadora.

É preciso esquecer toda a experiência anterior de cidade, ou pelo menos renunciar a comparações, para só assim conseguir se aproximar desse estranho jeito de formatar um lugar urbano pra se viver. Em Brasília, até a relação corpórea com o espaço físico é singular. Aqui, um passo não tem as mesmas dimensões de um passo no Rio, em São Paulo ou em Goiânia ou em qualquer outra capital brasileira – ou estrangeira, das que tenho notícias.

O espaço brasiliense tem um vácuo interestelar. Em Brasília, não existe o ‘logo ali’. A topografia calma, serena e majestosa, como escreveu o botânico Auguste Glaziou, estica a molécula das distâncias e nos transforma em formiguinhas num planeta de dimensões astronômicas. De tão longe que tudo é, ficamos perigosamente próximos da solidão.

Em Brasília, somos todos solitários. Há entre mim e você, entre aquele e aquele outro, uma distância oceânica. E não é apenas a imposição topográfica de um extenso vale circundado de chapadas – imensidão envolta em imensidão. Os brasilienses ainda somos estrangeiros, porque mesmo os aqui nascidos são filhos de outras regiões e de outras culturas.

O que nos une é o que nos separa – a experiência de viver numa cidade que já nasceu em extinção, porque não haverá nenhuma outra para lhe fazer par. Será única desde o principio até o fim dos tempos. Quem desenhou esse lugar não quis repetir a fórmula milenar de aglomerados urbanos feito de proximidades e de misturas. Quem desenhou Brasília quis inventar um novo homem e novo corpo para o homem.

A cidade não nos sufoca, não nos cerca, não nos dá encosto. Ela nos deixa soltos no ar, com a ilusão de que estamos pousados na Terra. Que nada. Demasiada imensidão despojada de obstáculos faz do brasiliense um ser humano alado. Mesmo nos congestionamentos, sufocados pelas mazelas das metrópoles (nisso somos iguais), nos é oferecida uma perspectiva única no modo de vida urbano: a totalidade do céu, as chapadas faiscantes de luzes, as rodovias como pedras preciosas de uma joia infinda.
O brasiliense tem um corpo fechado em si mesmo. Mais do que em qualquer outro lugar habitável, em Brasília o ser humano é uma ilha. É um insulamento arbitrário, que nos constitui, como se fôssemos as primeiras gerações de uma nova espécie urbana.

Transcrito do Correio Braziliense, 5/5/2013 – “Crônica da Cidade”

Brasília, avião do futuro

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Brasília
Um avião de concreto que me leva ao futuro
Meu mundo
Cidade da alvorada, sem você fico sem rumo
As vidas
Que se encontram sem destino no centro das curvas
Essa história
Surgiu na companhia de todo esse céu azul
Ruas, avenidas no Planalto Central
Congresso, Catedral do Senado Federal
Pessoas de todos os estados do país
Essa é a capital que você fez e que eu fiz
Vivemos mergulhados nessa grande sociedade
Cidade da esperança, cidade da verdade

Brasília
Um universo paralelo que simula a fantasia
As luzes
Que à noite mostram o brilho das cidades vizinhas
As torres
Que te fazem acreditar estar no topo do mundo
As pontes
Que atravessam o espelho nesse céu do lago azul

Ruas, avenidas do Planalto Central
Congresso, Catedral do Senado Federal
Pessoas de todos os estados do país
Essa é a capital que você fez e que eu fiz
Vivemos mergulhados nessa grande sociedade
Cidade da esperança, cidade da verdade

Letra de Sara Santos e Blandu Correia
Música inscrita no concurso “Canta Brasília”, em homenagem aos 53 anos de Brasília
Transcrito do Caderno Especial “Brasília – a capital de todos os sons”, Correio Braziliense
21 de abril de 2013

Um Poeta do Cretáceo no Distrito Federal

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Um dinossauro montou banca de camelô
na rodoviária de Brasília.
Em horas de fastio
come ônibus da linha de Samambaia.
Um ninho de megatérios
ocupou a esplanada dos ministérios,
para geral agrado dos funcionários,
parceiros da preguiça gigante.
O serviço público existe
para o feito de todos os mais desistirem.
Na Taquatinga persistem os mitos
do Arqueopteriz, já assim idoso,
mendigando entre a praça do Bicalho
e o largo do Relógio.
Mas é no Gama
que agora afama o Velociraptor.
Três vitimas fatais em uma semana.
Todo o tempo equipes da polícia
estão no encalço, para lhe cobrar
multas de trânsito e o imposto sobre assaltos.
Vivendo assim é que escapamos da pré-história.
Três Tiranossauros, em três dias,
consomem Brasília inteira.
A única solução é seu novo desadvento.

Paulo Bertran, poeta goiano, natural de Anápolis.
Poema transcrito do livro “Sertão do Campo Aberto”

Brasília utópica/distópica

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Brasília
visualizada por
místicos e revolucionários,
é ícone da ruptura
do passado colonial;
utopia de uma nova sociedade
mais humanitária e igualitária,
e expressão singular da
arquitetura modernista,
minimalista,
onde só o essencial é traçado.

Raiz
dos Guayases,
Brasília acolhe tribos
de todas as nações.
É cidade porto e cidade parto
de uma nova civitas,
eclética em seitas
que a todos abriga
esotéricos e racionais.
Sonho/realidade erguido
a partir de uma encruzilhada
por peregrinos que consolidaram
a etnologia tupiniquim, orgulhosa
de sua genialidade e miscigenação
de múltiplos matizes, enriquecida
por mosaicos culturais globais.

Ao sopro inicial
em um 21 de abril,
primeiro dia de Touro,
signo de terra e de realização,
consolidou-se após
o arrojo inicial do Carneiro,
que crê nos sonhos impossíveis
e a tudo enfrenta
para os concretizar.

Sua
mitologia é do novo,
do pragmático e do imaginário
arquitetônico fundidos na criação
de uma realidade monumental
inspirada no tarô egípcio e
na cabala hebraica,
subvertendo o óbvio
que a tantos confunde
por só reconhecerem como belo
a miragem das urbis convencionais.
A esses, o cerrado, inusitado,
assusta,
enquanto aos que admiram sua
originalidade,
Brasília encanta.

Indo além do convencional de
moradia, trabalho e circulação,
Brasília é espaço vivo,
alterando continuamente
sua topografia e
estabelecendo novos topologias,
urbanas e humanas,
na entropia em que está inserida.

Lúdica,
Brasília assume novas direções no
fluxo continuo dos processos sociais
transformadores de planos pilotos
que são desfeitos
para outros serem criados
mas preservando sua insígnia
futurista, mesmo repetindo
cartesianos passos pretéritos,
posto que,
se por mitos foi concebida,
por humanos é forjada,
e destes se retraem
as asas do arrojo
para saltar no desconhecido
de novas alvoradas.

Interiorização
e equilíbrio
nos convidam Brasília.
Suas largas vias e
horizonte amplo
purificam o ar e remetem
os corpos ao movimento e
as mentes a olharem
a plenitude do
Planalto Central.
Suas tesouras não cortam,
unem caminhos.

Anos,
décadas, séculos e milênios
terminam e iniciam,
e a vida segue seus passos
construindo um novo futuro.
Nesse pulsar eterno, Brasília,
com sua magia plural,
como somos em nosso painel de
diversidade geográfica, cultural,
étnica e religiosa, continuará a
abrigar renovadas auroras, em um
convívio utópico/distópico a ser
(re)construído.

Roberto Rodriguez
Poema transcrito da Revista do Correio, 21/04/2013

Às tesourinhas!

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Essa maravilha da engenharia
Contemporânea, este ícone
Arquitetônico de quem os vê
Fica até atônito.
Essas incríveis tesourinhas
Que parecem
Até asas de borboletinhas
Ou qualquer outro desenho de criança
E que nas imagens aéreas nos encanta
E não há outra semelhança.
A genialidade deste e a funcionalidade
De quem os fez
Proporcionou aos usuários
A acessibilidade de vez.
Lucio Costa deveria estar
Iluminado com áureas infantis
Ao projetar as tesourinhas
Tão emblemáticas e tão sutis.
É lindo de se ver e saber
Que na nossa capital federal
Tal projeto, não há outro igual.
Parabéns, Brasília!
Dos candangos heróis.
Parabéns Brasília!
Das eternas e únicas tesourinhas
Que se enchem de orgulho todos nós.

Carla Duarte
Poema transcrito da Revista do Correio, 21/04/2013

Brasília

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília Sem Comentários

Desenhada por Lucio Costa, Niemeyer e Pitágoras
Lógica e lírica
Grega e brasileira
Ecumênica
Propondo aos homens de todas as raças
A essência universal das formas justas

Brasília despojada e lunar como a alma de
um poeta muito jovem
Nítida como Babilônia
Esquia como um fuste de palmeira
Sobre a lisa página do planalto
A arquitetura escreveu a sua própria paisagem
O Brasil emergiu do barroco e encontrou o seu número

No centro do reino de Artemis
– Deusa da natureza inviolada –
No extremo da caminhada dos Candangos
No extremo da nostalgia dos Candangos
Athena ergueu sua cidade de cimento e vidro
Athena ergue sua cidade, ordenada e clara
como um pensamento
E há anos arranha-céus uma finura delicada de coqueiro

Sofhia Mello Breyner Andresen, poetisa portuguesa.

Flor do Pequi

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Posts 1 Comentário

Flor do Pequi - Por Roberto Castello
Uma estrela assim formosa
Que nasce aqui no cerrado
Do pequizeiro é a rosa
E seu fruto é afamado.

Esta flor é bem sensível,
Não se pode apertar não
Sua reação é incrível,
Ela murcha e cai no chão.

O seu fruto é saboroso
Quem o come não esquece.
Sem espinhos é gostoso,
Vem provar, se não conhece.

Hull de La Fuente, poetisa mato-grossense.
Transcrito de “Tantas Palavras”, Correio Braziliense.

Estrela Cadente

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Posts Sem Comentários

“Numa noite de junho de 1979, eu estava indo para o Colégio Planalto, na 908 Sul, quando uma imensa estrela caiu. Clareou tudo ao redor e fiquei fascinado com o acontecimento. Fui para a sala de aula e não conseguia me concentrar em nada. Agoniado, resolvi voltar para casa e escrever algo. No meu quarto, peguei caneta e papel e escrevi de primeira: ‘Cai dos ares, vem dizer/O caminho da esperança/Vem deixando rastros/como um feixe de luz…’ Na hora me lembrei do amigo Edbert Bigeli, meu colega na Escola de Música, e na mesma noite ele fez a melodia”

Paulo Maciel, Mel da Terra

Ouça a música:


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