Ode ao Lago Paranoá

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Às margens do nosso Lago Azul – o Paranoá,
Ao entardecer de um domingo de Sol,
Paisagem mais deslumbrante, certamente não há,
Pela variedade das cores do arrebol.
Há os voos dos patos selvagens,
Recolhendo-se apressados para os ninhos.
Avesinhas aquáticas levantam-se das margens,
Também em busca dos seus caminhos
Às vezes, inesperadamente nos aparece,
Num voo sinuoso, soturno e lento,
Uma garça branca, assustada, linda, agreste,
A procura de um peixinho como alimento.
Pousa no píer onde encostam as lanchas,
Ostentando um porte airoso, enquanto sonda,
Se por ventura vem como estranhas manchas,
Algum crustáceo na crista da onda.
Interessantes são as garças que em bando,
De plumagem branca como a neve,
Em uma perna só, se equilibrando,
Por horas, a fio, como estátua leve.
Em evoluções coreográficas, as andorinhas,
Fazem nos céus, sinuosas evoluções;
Enquanto canários, pardais e rolinhas,
Fogem da perseguição dos gaviões.
Na despedida nostálgica do sol poente,
Singram os barcos solitários para o norte,
Aos sons de acordes ou de música dolente,
Com as velas infladas pelo vento forte.
O sol, por fim, mansamente desaparece,
Deixando uma rástea de luz brilhante,
Refletindo no espelho das águas, que parece
A imagem de um brazeiro crepitante.
Amontoado de nuvens, lentamente vem cobrir,
Como um enorme e desmedido manto,
Deixando, ás vezes, de alguma fenda surgir,
A argêntea luz da Lua, de suave encanto.
Casais no enlevo dos amores, enamorados,
Despertados pela suave claridade lunar,
Agarram-se na confissão de apaixonados,
Ao entregaram-se no gesto de se beijar.
E assim os ditosos momentos agradáveis,
Essencialmente escolhido para descansar,
Nos deixa na mente, lembranças memoráveis,
Oferecidas pelo “Lago Azul,” – o nosso mar!…
 
Sidney Almeida
Morador do Lago Sul
Poema transcrito do Correio Braziliense, 12 de agosto de 2013.

EXALTAÇÃO A BRASÍLIA

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Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
Foste sonho e ideal de tantos.
Pelas mãos pioneiras, candangas.
Integrando-o de Norte a Sul
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
Niemeyer, os teus palácios,
Israel te deu forma e força,
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
Onde cabem raças e credos.
E as noites frescas e de estrelas.
E de Dom Bosco, predição;
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
Da grande síntese desponta
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
Construtora de um novo tempo,
De amor, energia e consciência.
Fruto do esforço brasileiro,
Dos novos tempos, edifício,
Aurora de um novo Brasil.
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
Dos Três Poderes, tens a Praça,
Mais a Ermida e bela Esplanada,
As Quadras, Eixos, Avenidas
E também Águas Emendadas.
Teus panoramas deslumbrantes
De chão, de luz e de horizontes,
Lembras família, pátria, Deus.
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!
A vida que ofertas a todos,
Assim no Plano e nas Satélites,
De ânimo à ação, ao trabalho,
Um homem síntese criaste,
De cores e costumes pátrios,
De um forte Brasil, alicerce.
Brasília da minha esperança,
Minha terra, meu céu, meu mar!

Post Adirson Vasconcelos, poeta cearense.

Cidade em frascos

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Deitado no espelho do asfalto
em tons de ametista
safira, topázio e rubi

o céu desdobra o horizonte
alvorado algemado
à paisagem da cidade.

Quem vem dos confins
de um país recém-inaugurado
jamais é o mesmo após adotado.

O batismo é de pedras
e o olhar se perde
pelos rastos

vazios sob arranha-céus
tontos na multidão
exaustos em procissão
rumo ao nada.

Siamesas
ela e eu
somos hoje

nervosos bordados
na trama
do tempo volátil.

Angélica Torres Lima, poetisa goiana.
Poema transcrito do livro “Luzidianas”, Coleção Oi Poema.

BICICLETA PRA BRASILIA DO CERRADO

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Na praça a trança
Voa no vento quente do Cerrado
Seco do Planalto de Brasília
Praças grandes traziam armadas amar aradas
Flores amaralindas
Folhas amarlindadas
Alguns beija-flores são azuis, brilhantes delicados
Aveludadas flores cachos casas rosas amareladas casas
Terra traço e grafite brilho e sol
Chapéus botas d’águas longe das catedrais
Praça porque pára praça porque pára parque
Cidades sitiadas armadas amarradas
Via bicicleta não precisa ser atleta
 
*
 
Bicicleteiro Corre
Pedal companheiro
Não poluente
Avenida pela frente
Vento na gente
 
*

Bic Prado, poetisa brasiliense.
Poema transcrito do livro “Poemas de um livro verde”, Coleção Oi Poema

Nova espécie urbana

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Por Conceição Freitas

Talvez nenhuma outra cidade no mundo, salvo as que se transformaram em ruínas, precise de uma iniciação para ser compreendida e só então aceita. Brasília pede uma cartilha que pegue o visitante pela mão e o ajude a decifrar sua racionalidade tão evidente, porém tão intrincada e perturbadora.

É preciso esquecer toda a experiência anterior de cidade, ou pelo menos renunciar a comparações, para só assim conseguir se aproximar desse estranho jeito de formatar um lugar urbano pra se viver. Em Brasília, até a relação corpórea com o espaço físico é singular. Aqui, um passo não tem as mesmas dimensões de um passo no Rio, em São Paulo ou em Goiânia ou em qualquer outra capital brasileira – ou estrangeira, das que tenho notícias.

O espaço brasiliense tem um vácuo interestelar. Em Brasília, não existe o ‘logo ali’. A topografia calma, serena e majestosa, como escreveu o botânico Auguste Glaziou, estica a molécula das distâncias e nos transforma em formiguinhas num planeta de dimensões astronômicas. De tão longe que tudo é, ficamos perigosamente próximos da solidão.

Em Brasília, somos todos solitários. Há entre mim e você, entre aquele e aquele outro, uma distância oceânica. E não é apenas a imposição topográfica de um extenso vale circundado de chapadas – imensidão envolta em imensidão. Os brasilienses ainda somos estrangeiros, porque mesmo os aqui nascidos são filhos de outras regiões e de outras culturas.

O que nos une é o que nos separa – a experiência de viver numa cidade que já nasceu em extinção, porque não haverá nenhuma outra para lhe fazer par. Será única desde o principio até o fim dos tempos. Quem desenhou esse lugar não quis repetir a fórmula milenar de aglomerados urbanos feito de proximidades e de misturas. Quem desenhou Brasília quis inventar um novo homem e novo corpo para o homem.

A cidade não nos sufoca, não nos cerca, não nos dá encosto. Ela nos deixa soltos no ar, com a ilusão de que estamos pousados na Terra. Que nada. Demasiada imensidão despojada de obstáculos faz do brasiliense um ser humano alado. Mesmo nos congestionamentos, sufocados pelas mazelas das metrópoles (nisso somos iguais), nos é oferecida uma perspectiva única no modo de vida urbano: a totalidade do céu, as chapadas faiscantes de luzes, as rodovias como pedras preciosas de uma joia infinda.
O brasiliense tem um corpo fechado em si mesmo. Mais do que em qualquer outro lugar habitável, em Brasília o ser humano é uma ilha. É um insulamento arbitrário, que nos constitui, como se fôssemos as primeiras gerações de uma nova espécie urbana.

Transcrito do Correio Braziliense, 5/5/2013 – “Crônica da Cidade”

Brasília, avião do futuro

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Brasília
Um avião de concreto que me leva ao futuro
Meu mundo
Cidade da alvorada, sem você fico sem rumo
As vidas
Que se encontram sem destino no centro das curvas
Essa história
Surgiu na companhia de todo esse céu azul
Ruas, avenidas no Planalto Central
Congresso, Catedral do Senado Federal
Pessoas de todos os estados do país
Essa é a capital que você fez e que eu fiz
Vivemos mergulhados nessa grande sociedade
Cidade da esperança, cidade da verdade

Brasília
Um universo paralelo que simula a fantasia
As luzes
Que à noite mostram o brilho das cidades vizinhas
As torres
Que te fazem acreditar estar no topo do mundo
As pontes
Que atravessam o espelho nesse céu do lago azul

Ruas, avenidas do Planalto Central
Congresso, Catedral do Senado Federal
Pessoas de todos os estados do país
Essa é a capital que você fez e que eu fiz
Vivemos mergulhados nessa grande sociedade
Cidade da esperança, cidade da verdade

Letra de Sara Santos e Blandu Correia
Música inscrita no concurso “Canta Brasília”, em homenagem aos 53 anos de Brasília
Transcrito do Caderno Especial “Brasília – a capital de todos os sons”, Correio Braziliense
21 de abril de 2013

Um Poeta do Cretáceo no Distrito Federal

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Um dinossauro montou banca de camelô
na rodoviária de Brasília.
Em horas de fastio
come ônibus da linha de Samambaia.
Um ninho de megatérios
ocupou a esplanada dos ministérios,
para geral agrado dos funcionários,
parceiros da preguiça gigante.
O serviço público existe
para o feito de todos os mais desistirem.
Na Taquatinga persistem os mitos
do Arqueopteriz, já assim idoso,
mendigando entre a praça do Bicalho
e o largo do Relógio.
Mas é no Gama
que agora afama o Velociraptor.
Três vitimas fatais em uma semana.
Todo o tempo equipes da polícia
estão no encalço, para lhe cobrar
multas de trânsito e o imposto sobre assaltos.
Vivendo assim é que escapamos da pré-história.
Três Tiranossauros, em três dias,
consomem Brasília inteira.
A única solução é seu novo desadvento.

Paulo Bertran, poeta goiano, natural de Anápolis.
Poema transcrito do livro “Sertão do Campo Aberto”

Brasília utópica/distópica

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Brasília
visualizada por
místicos e revolucionários,
é ícone da ruptura
do passado colonial;
utopia de uma nova sociedade
mais humanitária e igualitária,
e expressão singular da
arquitetura modernista,
minimalista,
onde só o essencial é traçado.

Raiz
dos Guayases,
Brasília acolhe tribos
de todas as nações.
É cidade porto e cidade parto
de uma nova civitas,
eclética em seitas
que a todos abriga
esotéricos e racionais.
Sonho/realidade erguido
a partir de uma encruzilhada
por peregrinos que consolidaram
a etnologia tupiniquim, orgulhosa
de sua genialidade e miscigenação
de múltiplos matizes, enriquecida
por mosaicos culturais globais.

Ao sopro inicial
em um 21 de abril,
primeiro dia de Touro,
signo de terra e de realização,
consolidou-se após
o arrojo inicial do Carneiro,
que crê nos sonhos impossíveis
e a tudo enfrenta
para os concretizar.

Sua
mitologia é do novo,
do pragmático e do imaginário
arquitetônico fundidos na criação
de uma realidade monumental
inspirada no tarô egípcio e
na cabala hebraica,
subvertendo o óbvio
que a tantos confunde
por só reconhecerem como belo
a miragem das urbis convencionais.
A esses, o cerrado, inusitado,
assusta,
enquanto aos que admiram sua
originalidade,
Brasília encanta.

Indo além do convencional de
moradia, trabalho e circulação,
Brasília é espaço vivo,
alterando continuamente
sua topografia e
estabelecendo novos topologias,
urbanas e humanas,
na entropia em que está inserida.

Lúdica,
Brasília assume novas direções no
fluxo continuo dos processos sociais
transformadores de planos pilotos
que são desfeitos
para outros serem criados
mas preservando sua insígnia
futurista, mesmo repetindo
cartesianos passos pretéritos,
posto que,
se por mitos foi concebida,
por humanos é forjada,
e destes se retraem
as asas do arrojo
para saltar no desconhecido
de novas alvoradas.

Interiorização
e equilíbrio
nos convidam Brasília.
Suas largas vias e
horizonte amplo
purificam o ar e remetem
os corpos ao movimento e
as mentes a olharem
a plenitude do
Planalto Central.
Suas tesouras não cortam,
unem caminhos.

Anos,
décadas, séculos e milênios
terminam e iniciam,
e a vida segue seus passos
construindo um novo futuro.
Nesse pulsar eterno, Brasília,
com sua magia plural,
como somos em nosso painel de
diversidade geográfica, cultural,
étnica e religiosa, continuará a
abrigar renovadas auroras, em um
convívio utópico/distópico a ser
(re)construído.

Roberto Rodriguez
Poema transcrito da Revista do Correio, 21/04/2013

Às tesourinhas!

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Essa maravilha da engenharia
Contemporânea, este ícone
Arquitetônico de quem os vê
Fica até atônito.
Essas incríveis tesourinhas
Que parecem
Até asas de borboletinhas
Ou qualquer outro desenho de criança
E que nas imagens aéreas nos encanta
E não há outra semelhança.
A genialidade deste e a funcionalidade
De quem os fez
Proporcionou aos usuários
A acessibilidade de vez.
Lucio Costa deveria estar
Iluminado com áureas infantis
Ao projetar as tesourinhas
Tão emblemáticas e tão sutis.
É lindo de se ver e saber
Que na nossa capital federal
Tal projeto, não há outro igual.
Parabéns, Brasília!
Dos candangos heróis.
Parabéns Brasília!
Das eternas e únicas tesourinhas
Que se enchem de orgulho todos nós.

Carla Duarte
Poema transcrito da Revista do Correio, 21/04/2013

Brasília

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Desenhada por Lucio Costa, Niemeyer e Pitágoras
Lógica e lírica
Grega e brasileira
Ecumênica
Propondo aos homens de todas as raças
A essência universal das formas justas

Brasília despojada e lunar como a alma de
um poeta muito jovem
Nítida como Babilônia
Esquia como um fuste de palmeira
Sobre a lisa página do planalto
A arquitetura escreveu a sua própria paisagem
O Brasil emergiu do barroco e encontrou o seu número

No centro do reino de Artemis
– Deusa da natureza inviolada –
No extremo da caminhada dos Candangos
No extremo da nostalgia dos Candangos
Athena ergueu sua cidade de cimento e vidro
Athena ergue sua cidade, ordenada e clara
como um pensamento
E há anos arranha-céus uma finura delicada de coqueiro

Sofhia Mello Breyner Andresen, poetisa portuguesa.

Flor do Pequi

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Flor do Pequi - Por Roberto Castello
Uma estrela assim formosa
Que nasce aqui no cerrado
Do pequizeiro é a rosa
E seu fruto é afamado.

Esta flor é bem sensível,
Não se pode apertar não
Sua reação é incrível,
Ela murcha e cai no chão.

O seu fruto é saboroso
Quem o come não esquece.
Sem espinhos é gostoso,
Vem provar, se não conhece.

Hull de La Fuente, poetisa mato-grossense.
Transcrito de “Tantas Palavras”, Correio Braziliense.

Estrela Cadente

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“Numa noite de junho de 1979, eu estava indo para o Colégio Planalto, na 908 Sul, quando uma imensa estrela caiu. Clareou tudo ao redor e fiquei fascinado com o acontecimento. Fui para a sala de aula e não conseguia me concentrar em nada. Agoniado, resolvi voltar para casa e escrever algo. No meu quarto, peguei caneta e papel e escrevi de primeira: ‘Cai dos ares, vem dizer/O caminho da esperança/Vem deixando rastros/como um feixe de luz…’ Na hora me lembrei do amigo Edbert Bigeli, meu colega na Escola de Música, e na mesma noite ele fez a melodia”

Paulo Maciel, Mel da Terra

Ouça a música:

Brasília: ou reflexões sobre o poder

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A
o poder é boquirroto
e às vezes aborto
de um parto arrevezado.

o poder é falácia
se assentado em mapas
de areias movediças.

o poder é farsa
quando a mão que o traça
já nasce corroída.

B
no trato
com o poder
o cuidado com o bote
                                no fundo
                                do pote.

no trato
com o poder
                                 o destino
para o boi de corte.

no trato
com o poder
                                  a vocação
para bobo da corte.

Adão Ventura, poeta mineiro.
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”
Correio Braziliense, 3/4/2008

O segredo da Senhora

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Por Conceição Freitas

Minha Senhora, conte-me seu segredo. De onde a Senhora tira tanta majestade, tanto vigor e tamanha beleza e altivez em dias tão áridos, donde nos falta o ar apesar da imensidão do céu e da multidão de áreas verdes? Me conte lá, por favor, como a Senhora consegue ser tão exuberante, viçosa, verdejante.

Toda Brasília deste setembro insano está coberta por um tapete amarelo-acinzentado, a grama murcha há muito pede clemência. (Exceto, claro, a Brasília que não tem medo da conta de água). Nessa Brasília esturricada, a Senhora surge lindamente vestida em seus muitos tons de verde, cabeleira black-power sustentando-se num tronco rijo que transmite segurança e mistério. De onde mesmo a Senhora tira tudo isso?

Sabemos todos os que a acompanham há décadas que a Senhora tem vários momentos de esplendor ao longo do ano e ao longo dos anos, sem que jamais tenha se deixado levar pelos ventos mais ou menos tormentosos da vida. Se chove, tudo bem, se não chove, do mesmo jeito.

A Senhora tem uma capacidade de suportar a espera, de florescer em qualquer circunstancia. Quando fica mais feia (grave injustiça, porque feia a Senhora nunca fica), quando a Senhora fica menos bonita, deposita plumas ao seu redor.

Agora, por exemplo, Brasília inteira está com a pele trincada, mas a Senhora exibe uma textura sedosa. Depois, todas as suas folhas vão cair e a Senhora ficará nua em pelo – com uma beleza de desenho de nanquim. Ficará longilínea e ereta como uma top model.

Quem não a conhece não sabe o que é aprender com o seu sábio silêncio. Pode começar, então. A Senhora, aviso a seus futuros fãs, vive há quatro décadas em frente ao Palácio da Justiça, do outro lado do Buriti. Esse é um bom momento para conhecê-la porque a Senhora está garbosamente verde.

São muitos os seus admiradores, caso disso não saiba. E são fiéis e leais à Senhora. Nenhum deles, porém, conhece mais a Senhora nesta Brasília do que Ozanan Coêlho, o eterno diretor de Parques e Jardins da cidade. Ele a admira tanto e tanto que já disse aos seus que, morto, quer virar cinzas e quer que elas sejam espalhadas em quatro pontos da cidade: na copaíba da 309 Sul, no buriti em frente ao palácio, no balãozinho em frente à sede da Polícia Federal e…na paineira em frente ao Tribunal de Justiça. A Senhora receberá então um pouco da substância que deu vida ao doutor Ozanan, o jardineiro de Brasília.

Ele conta que a Senhora era uma menina quando a viu pela primeira vez, em 1967, durante a construção da Praça da Municipalidade, que a produção rebatizou de Praça do Buriti. A idéia era limpar o terreno para construir a região administrativa de Brasília. Ozanan decidiu poupá-la, nem  sabia exatamente a razão. Hoje, sabe. A Senhora é uma paineira singular. Chega a florescer duas vezes ao ano, comportamento não muito comum à sua espécie. “Ela é toda cheia de lero”, diz Ozanan. E é protegida por lei.

Texto transcrito de “Crônica da Cidade”, de 22/09/2007.

Brasília fênix cidade

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Uma dança minimalista
Entre janelas de neons
Assiste cerrado em fogo
(re)acinzentando o azul
do céu das curvas das asas da cidade da dança da fênix do cerrado
d’asas abertas num voo
entre o nascer e morrer
(re)cria o verde de novo
das cinzas fênix cidade

Jorge Amâncio, poeta brasiliense.
Poema transcrito da seção “Tantas Palavras”,
Correio Braziliense, 10/10/2012

PLANO PILOTO

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urubus
             nunca
                         riscaram
distâncias
                   castanhas
no plano piloto
por isso
              o ar
embalsamou
uma pátria baldia
de sonhos anônimos.

Ézio Pires, poeta natural de Cantagalo, RJ.
Poema transcrito do livro “Brasília: Vida em Poesia”
Organizado por Ronaldo Alves Mousinho

Brasília

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Brasília
Cidade bela,
tão ampla em teus horizontes…
A tantos sonhos
erguestes pontes…
A tanta vida
foste alvorada…
Cidade alada,
braços alados, sempre tão abertos,
teus verdes espaços.
Tal liberdade dás aos que os seus sonhos
embalam em teus braços,
pois que tu mesma de um sonho nascestes.
Cidade celeste…(…)

Lúcia Helena Galvão, poeta brasiliense
Poema transcrito da coluna “Tantas Palavras”, Correio Braziliense 21/08/2012

sonhos e sonhos

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de vez em quando me reconheço em jovens
barbudos, cabelos ao vento e roupa despojada
que caminham plantando sonhos
às margens das calçadas nas quadras de Brasília
e
às vezes me vejo refletido em anciões taciturnos
que caminham chutando pedaços de sonhos
no meio dos caminhos
e…
não pergunto nada
nem a mim
nem a Drummond

José Luiz do Nascimento Sóter, poeta brasiliense
Poema transcrito da coluna “Tantas Palavras”, Correio Braziliense 16/08/2012

Brasília: epopeia, épicos e ícones

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Por Claúdio José Pinheiro Villar de Queiroz

JK e Andre Mahaux
Foto: Arquivo Público do DF

O Marquês de Pombal, em 1751, escreveu à Corte de Portugal defendendo a interiorização da capital da Colônia. No mesmo ano, o cartógrafo italiano Colombina elaborou o mapa de Goiás, revelando o valor estratégico do Planalto Central.
Brasília começou a ser construída em 1957, foi realizada em três anos e inaugurada em 1960. A nova capital brasileira, em 1987, foi inscrita na Lista do Patrimônio Mundial por resolução da UNESCO. A primeira cidade moderna tombada como patrimônio cultural da humanidade, completou meio século em 21 de abril de 2010.
No texto “Do plano piloto ao Plano Piloto” (1985), da arquiteta Maria Elisa Costa, sob a coordenação de Lucio Costa, o urbanista se referiu ao período de realização da nova capital com o seguinte aforismo: “Brasília surgiu num momento em que a utopia era mais verdadeira que a realidade”.

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