Clarice ao infinito

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Por Severino Francisco
 
“Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. – É uma praia sem mar. – Em Brasília não há por onde entrar, nem por onde sair. Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza.” Quem lê as duas crônicas que Clarice Lispector escreveu sobre Brasília costuma perguntar: “Que droga essa mulher tomou?”. Não tomou nenhuma: foi tomada de assombro pela espacialidade da capital modernista. Ela era lisérgica pela própria natureza e não precisava de aditivos químicos para ter iluminações: “A inspiração não é loucura: é Deus”, escreveu.
Se, ao visitar Brasília, Nelson Rodrigues se ateve aos fatos pateticamente triviais, às moças fazendo xixi detrás das moitas nas estradas, ao pó do Planalto – que ela declarou sagrado -, Clarice dirigiu o olhar para o céu, ao mar de ponta-cabeça em movimento silencioso, ao cinema transcendental das nuvens, à luminosidade prateada dos dias, à magnitude das noites brasilianas e ao silêncio visual da cidade. Ela não fez muitas menções explícitas ao céu, mas ele está implícito em quase tudo que escreveu. Repete, frequentemente, o fato de Brasília ser uma cidade redonda, construída na linha do horizonte, assolada pelo esplendor de uma luz branca. É o espanto em face do espaço aberto que desencadeia as epifanias brasilianas de Clarice: “Aqui eu tenho medo, esse silêncio visual que eu amo.”

Se alguém quiser saber o que é Brasília, para além do cartão-postal ou da chapa-branca, precisa consultar os artistas. Eles revelaram a capital modernista, mesmo quando a passagem pela cidade foi fugaz. Em vez de frases feitas ou ideias prontas, sempre interagiram com a cidade, se deixaram marcar e imprimiram a marca do seu olhar. Clarice só veio a Brasília duas vezes, uma em 1962 e outra em 1974. No entanto, ela captou como ninguém a alma metafísica da cidade. Rubem Braga não gostava das crônicas de Clarice: “Ela só é boa em livro”, teria dito o capixaba. Mas ele se equivocou, não percebeu que Clarice inaugurou uma vertente original: a da crônica metafísica.

O próprio Braga reconheceu que operava com antenas de radinho Galeno, mas Clarice tinha um arsenal mais poderoso de varredura e prospecção. Ela chegou a Brasília armada de ondas curtas, radares e satélites e captou a alma metafísica do Planalto, a sua natureza fluida, aérea e celeste: “Brasília é uma cidade abstrata. E não há como concretizá-la. É uma cidade redonda e sem esquinas. (…) “(Noto aqui um acontecimento que me espanta: estou escrevendo no passado, no presente e no futuro. Estarei sendo levitada? Brasília sofre de levitação.”)

A escolha do altiplano, com 360 graus de visão, pertinho do céu, foi o ato de criação mais genial de Brasília. Esse aspecto da natureza não passou despercebido a Lucio Costa e Oscar Niemeyer, arquitetos-artistas, que pegaram carona nesse presente dos deuses e conceberam uma cidade para realçar e inaugurar a paisagem: “Ao contrário de outras cidades, que se conformam e se ajustam à paisagem, no cerrado de céu imenso, como em pleno mar, a cidade criou a paisagem”, escreveu Lucio Costa. Clarice percebeu com agudeza o projeto dos arquitetos: “Construções com espaço calculado para nuvens”.

Clarice tinha na alma sibérias glaciais, desertos incomensuráveis, paisagens lunares, silêncios milenares e solidões de descampados. Por isso, identificou-se e assombrou-se tanto com Brasília; ela era a imagem de sua alma: “Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo do meu sonho. O mais fundo do meu sonho é lucidez. Brasília é uma estrela espatifada. É linda e nua. O despudoramento que se tem na solidão. Ao mesmo tempo fiquei com vergonha de tirar a roupa para tomar banho. Como se um gigantesco olho verde me olhasse implacável”.

O mais surpreendente é que identificamos perfeitamente a cidade real e concreta revelada por sua visão lisérgica: “A luz de Brasília me deixou cega. Esqueci os óculos no hotel e fui invadida por uma terrível luz branca. Mas Brasília é vermelha. E é completamente nua. Não há jeito da gente não ser exposta nessa cidade. (…) Eterna como a pedra. A luz de Brasília – estou me repetindo? – a luz de Brasília fere o meu pudor feminino. É só isso, minha gente, é só isso.”

O céu de Brasília em sintonia com a arquitetura de Lucio Costa e Oscar Niemeyer despertou o misticismo de Clarice: “Eu sei o que os dois quiseram: a lentidão e o silêncio, que é também a ideia que eu faço da eternidade.” A espacialidade de Brasília convida ao voo, ao exercício da liberdade e a respirar fundo: “Como a gente respira fundo em Brasília. Quem respira, começa a querer. E querer, é que não pode. Não tem. Será que vai ter?” Em outra crônica, escreveu que “respirava Deus”. Clarice revelou Brasília, mas Brasília também desvelou Clarice. Em nenhum outro lugar, ela respirou Deus tão profundamente: “Brasília é um pacto que eu fiz com Deus.”

Texto transcrito da edição especial “O céu de todos nós”, do Correio Braziliense, em 21 de abril de 2014.

Arquitetura moderna do amor

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Mônica é do plano

                         Fernando de Brazlândia

                                                         Seus caminhos fizeram
                                                                                            t

                                    e 

                                              s

                                                    o

                                                u

                                          r

                                   i

                             n

                       h

                             a

                                na estrutural

Numa tarde de c

                        h

                        u

                         v 

                         a 

lado a lado na zebrinha 

moto parcelada dele deu pau

Trocaram watzaps

combinaram de ver o por do sol na praça do cruzeiro

Mônica chegou tarde

Fernando não sabia o que fazer além de tirar fotos

o sol, no monumental, se foi

restou rodoviária do plano e um dissabor meio ponte Costa e Silva para ele

para ela, um pouco da coloração psicodélica de um fim de tarde na primavera

Combinaram novamente de se encontrar

parque olhos d’agua

caminharam e cruzaram a ponte do rio verde

entrequadras 

se entrelaçaram 

beijo com sabor de flor do cerrado e beleza de pé de pequi

perderam o eixo

esqueceram as setecentas e se perderam nas novecentas

tiraram fotos na igrejinha

e se amaram na concha acústica

terminaram em plena seca, quando floriram os ipês

voltaram junto com os flamboyants e viram a primeira chuva da janela.

 

Post Patrick Mariano

Viver é bom

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Chego a Brasília,
– Que calor é esse, meu Deus,
Tem uma lua linda,
Lua nova soprando brisa fresca.
Que venham as noites frias
Da estação das secas
E que se abra a florada
Exótica do Cerrado.
Brasília,
Acho que é um poema
Que me nasce agora,
Vem cá, dá-me um abraço,
Minha cidade linda.
Deixa-me admirar-te,
Flor digital.
Na imensidão do Planalto.
Deitada à rede de casa,
Penso que é bom viajar
E que voltar
É melhor ainda.
Viver é bom, afinal.

Post Amneres, poetisa paraibana
Poema inédito

Não há

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Não há

Dia mais curto que aquele…
Manhã mais longa que a mal começada…
Não há neste mundo…
Caminho sem volta
Pedido sem resposta
Olhar não devolvido
Pior sentimento que o da entrega…
Culpa maior que a dor…
Dor maior que a solidão…
Desejo maior que o da carne…
Coração vazio de amor…
Maior cego que o de olhos abertos…
Ou alegria maior que ver o SOL…
Mesmo que numa noite sem fim!!!

Post Helio Moura Filho, poeta natural de Sorocaba

Face do Planalto

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Face do Planalto

 

Sob as faces do Planalto

Novo tempo que começo

A espera de um milagre

Doce fato que aguardo

Meu afeto por você

 

Andarilho como sou

No aguardo do momento

Nova vida vim buscar

sob as faces do Planalto

 

E do instante que perdi

Novos olhos me guiaram

Ao abraço permanente

Nova vida estruturou

 

Sob as faces do Planalto

Doce vida vim buscar

Novo tempo que construo

Ao instante permanente

Leite mel a derramar

 

Post Helio Moura Filho, poeta natural de Sorocaba

Brasília de Mim

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Brasília de Mim

 

A doce terra do leite e mel

Planalto central de mim

Aos olhos de um novo tempo

Um novo passo se faz

 

Das curvas de concreto

Em um esboço e papel

Ergo minhas suplicas ao céu

Brasilia de mim

 

Do sonho que um dia apaguei

O cerrado do tempo os refez

Ao reflexo de um espelho

Que um dia ousei olhar.

 

E do caco que um dia fui

Sincero momento de gozo e prazer

Ao caminho que hoje trilho

Brasília de mim

 

Post Helio Moura Filho, poeta natural de Sorocaba

SENHORA BRASILIA

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SENHORA BRASILIA

 

Eu já sou senhora

Tenho quarenta e sete anos

Mas me sinto jovem

Forte e bonita

Sou conhecida

Nos quatro cantos

Do mundo

Não tenho orgulho

Acolho brancos, negros

Pobres e ricos

Todos que me veem

Se encantam

Admiram-se

E se apaixonam

Imponente para o mundo

Fui sonhada

Fui planejada

Hoje sou amada por todos

Sou a Capital do Brasil

Eu sou Brasília!!!

 

Post Francisco Pereira, poeta potiguar, natural de Natal.

Um telefone é muito pouco

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“Cheguei a Brasília em 1974, vindo de Salvador, para fazer uma exposição. Na época, carregava sempre comigo um uma boa foto que violão. Foi nele que compus Um telefone é muito pouco.  

Estava namorando uma menina que morava “Nas casas” (zona de prostituição, localizada depois do Gama). A comunicação com ela era dificílima, pela distância que nos separava e pela telefonia, que naquelaépoca era precaríssima. A musica virou sucesso já nas primeiras audições e tornou-se conhecida nacionalmente, depois da gravação de Léo Jaime”

Renato Matos

Fala, Dr. Lúcio

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“Eu tinha idealizado uma cidade assim, mais civilizada, que ocorreu em grande parte, e aí está esta cidade, uma cidade serena, uma cidade bela, uma cidade que é, enfim, diferente de todas as outras cidades brasileiras. E, como tal, é normal que ela seja diferente das demais cidades, porque é um caso singular, um caso único

O projeto todo de concepção de Brasília foi visando a isso, um projeto para fazer em três anos o arcabouço da capital definitiva do país. Nisso é que fui feliz. Estava imbuído de uma coisa mais digna, uma coisa para que cada brasileiro que venha a essa cidade nova e que venha de uma metrópole antiga, como São Paulo, Rio, ao chegar aqui não se sinta numa cidade de província, mas na capital do país, pelas dimensões, pela grandeza de intenção. Sentindo aquela nobreza de intenção, aquela dignidade que inspira um certo respeito. Eu estou aqui, gosto, não gosto, mas estou na capital. Ela, de saída, assumiu a posição de capital”.

Como conciliar esta escala ampla com a escala doméstica, a escala residencial, que é uma escala ao contrário, uma escala concentrada, limitada? Então, me vi diante dessa contradição. Aí surgiu a ideia de criar estes grandes quadrados, emoldurados de árvores. E como se uma moldura verde dentro desses quadrados que, por serem grandes, de 300 metros de lado, estavam na escala monumento do Eixo. Assim, eles se articulavam bem, estabeleciam uma unidade de composição e criação. E dentro do quadrado, então, construir os edifícios residenciais, limitados a este gabarito sereno, que é fundamental. E deixar a cidade explodir no encontro dos dois eixos, com esses edifícios altos, inclusive com duas barbaridades que eu gostaria de denunciar, o edifício do Banco Central e o segundo edifício do Banco do Brasil, feitos pelo mesmo criminoso. Foi coisa inconcebível que se fizesse aqueles dois edifícios cabeçudos, aquela coisa de uma pretensão, de uma vulgaridade que ofende a serenidade do ambiente de Brasília”.

Trecho da entrevista concedida ao repórter Omar Abudd, do Jornal do Brasil, em novembro de 1984.

 
 

BRASÍLIA

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Se fosse abraço

me fundiria em ti.

Se fosses luz

me esculpiria em tua sombra.

Se fosses orvalho

me derreteria em teus lagos.

Se fosses ilusão

te sonharia licenciosa.

Se fosses remanso

me embalaria nos teus côncavos.

Se fosses tudo

o que és,

Brasília dos mil poderes

mágica alucinação

do desafio

se fosses

então eu seria em ti.

 

Sofia Vivo, poetisa natural de Montevideo, Uruguai

Poema transcrito do acervo da I Bienal Internacional de Poesia de Brasília

Quando saí do quadrado

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Quando saí do quadrado;
Vi que os andares não se acabavam no seis
Que o mundo era muito maior que
O eixão e a W3

Fora do quadrado;
Valorizei o chão, o vão, pintar o asfalto
Sangrar o nariz.
Correr, cair e levantar
Debaixo do pilotis.

Voltar pro quadrado;
É um plano, é um vôo
É ser piloto do próprio avião

Aprendi que a voltinha no parque
Demora mais que imaginava.
Aprendi que o silêncio de muitos
fazia valer a quem se falava.

E pouco a pouco, na planitude,
Vi passar muitos e largos anos
Como largas eram as ruas e escolhas
no meu viver cartesiano.

Post de Cevs Volpi e Jóta Stilben, via Facebook

Brasília revisitada

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Para Adirson Vasconcelos

Que sei de ti?

Que sei de mim?

Volto às origens de tudo: barro.

Tumulto e barro mal comprimidos

no largo espaço do meu espanto.

Vagas lembranças de um pé-de-vento

e o redemoinho varrendo sonhos.

Desde o começo desta epopeia,

homens e bichos se circunscreveram em puídos mapas,

em utopias de sonhadores do amanhã.

Volto ao passado,

Vejo o presente

e a solidão frutificada.

João Carlos Taveira, poeta mineiro

Choro sorrindo

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O Clube do Choro

É um pedacinho do céu

Na noite de Brasília

É uma sonífera ilha

De sons-maravilhas

Sortidos & Alados

O Clube do Choro

É um bordado

Uma sinfonia

Usina de notas

Brasileiríssimas

Soltas no palco

Iluminado por carícias

Da citara de

Aveno de Castro

Lá, o não é nunca

E o sim tem o som

Sempre sincopado

Quando vou ao

Clube do Choro

Ahh, Chiquinha

Não vou sozinho

Vou sem medo

Quando não bebo

Bashô

Bashô

Bashô o santo

Agora todo Japão é banto

África

Olhai em si

O que não é haicai

É oriki

Teatro Nô

Em jogo de Ifá

My Butterfly

Vai piorubá

 

Luis Turiba, poeta pernambucano

Poema transcrito do livro “Qtais”, 7 Letras

CASTRO ALVES, FILHO DE BRASÍLIA

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Patrimônios, os dois, da humanidade;

deles são a petúnia, a sálvia, a gília

dos canteiros de flores da cidade.

 

Ambos buscaram (noites de vigília!…)

conseguir, preservar a liberdade.

Esse bem, garantia de família

e riqueza maior da sociedade.

 

“Cecéu”, um apelido da infância.

Por símbolo o condor – gênio entre as aves -,

para um gênio de andina culminância.

 

No céu da poesia ele é um astro:

Antonio Frederico Castro Alves.

A mãe: Clélia Brasília Silva Castro.

 

José Peixoto Júnior, poeta pernambucano

Poema transcrito da antologia poética “Sonetos de Bolso”, de

Jarbas Junior e João Carlos Taveira

Missão Cruls: 120 anos

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O homem que marcou o lugar

Por Ronaldo Rogério de Freitas Mourão

Em consequência, o ministro dos Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, Antão Gonçalves de Farias (1854-1936); ministro da Fazenda e da Agricultura, (de 23 de novembro de 1891 a 23 de junho de 1892), por meio da portaria de número 119-A, de 17 de maio de 1892, organizou a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, escolhendo para chefiá-la o astrônomo brasileiro de origem belga Luiz Cruls (1848-1908), que, na época, era professor da Escola Superior Militar e diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro, atual Observatório Nacional. Ao comunicar essa designação, o ministro deu as seguintes instruções que deveriam nortear a demarcação da área, onde mais tarde, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976),  seria  construída Brasília, sem dúvida uma das mais belas capitais do mundo moderno:

“No desempenho de tão importante missão deveis proceder aos estudos indispensáveis ao conhecimento exato da posição astronômica da área a demarcar, da orografia, hidrografia, condições climatológicas e higiênicas, natureza do terreno, quantidade e qualidade das águas, que devem ser utilizadas para o abastecimento, matérias de construção, riqueza florestal, etc., da região explorada e tudo mais que diretamente se ligue ao assunto que constitui o objeto da vossa missão”.
“No decurso de tais trabalhos e tanto quanto possível, podereis realizar não só os estudos que julgardes de vantagem e utilidade para mais completo desempenho do vosso encargo, mas ainda os que possam concorrer para a determinação de dados de valor cientifico com relação à essa parte ainda pouco explorada do Brasil”.

Procedimentos

Para se ter uma ideia dessa missão, convém assinalar que, além das barracas, das armas, dos mantimentos, dos instrumentos científicos – tais como dois círculos meridianos portáteis, teodolitos, sextantes, micrômetros de Lugeol, luneta astronômica, heliotrópicos, cronômetros e relógios, seis barômetros de mercúrio sistema Fortin e onze aneroides, bússolas, podômetros, diversos instrumentos meteorológicos, câmaras fotográficas com seu respectivo material de revelação – a Comissão levou uma pequena oficina de aparelhos mecânicos, destinados ao conserto dos instrumentos que viessem a sofrer algum acidente. Todo esse material ocupou um total de 206 caixas e fardos que pesavam ao todo cerca de dez toneladas.

Em 8 de junho, foi concedida anistia a todos os cidadãos detidos e expulsos durante os conflitos ocorridos em abril. No dia seguinte, mais exatamente, no dia 9 de junho, ocorreu a partida da Comissão, do Rio de Janeiro para Uberaba, ponto final da linha férrea da Companhia Mogiana. Desse ponto em diante, todo o percurso da missão foi realizado com o auxilio de animais cargueiros. Na realidade, a Comissão só partiu de Uberaba no dia 29 de junho, tendo em vista todos os preparativos para reunir os animais e os acompanhantes que deveriam auxiliar os membros da comitiva, não só no transporte dessa enorme carga, mas também na orientação das trilhas a serem percorridas. Uma greve dos ferroviários da Central do Brasil, em 22 de julho, paralisou os transportes, o que indiretamente motivou o pequeno atraso.

Todos os itinerários percorridos foram levantados cuidadosamente pelo processo americano de caminhamento, que consistia em se servir do podômetro, da bússola e do aneroide. O podômetro – aparelho que mede o número de passos dados durante uma marcha – adaptado aos animais, foi usado para determinar a distância por eles percorrida, uma vez que se conhecesse a extensão do passo dos diferentes animais, cujos valores, segundo Cruls, variaram dentro dos limites de 0,66 e 0,72m. Com a bússola, determinava-se a direção a ser seguida e, com os barômetros e/ou aneroides, a altura. Ao longo de todo o trajeto, além do itinerário determinado pelo processo de caminhamento, os astrônomos e auxiliares fizeram numerosas observações astronômicas, com o objetivo de determinar as coordenadas geográficas, com o auxilio dos sextantes, por meio das alturas meridianas do Sol e das estrelas.

Depois que deixaram Uberaba, a caminho de Pirenópolis, a Comissão passou pelas cidades de Catalão, Entre Rios e Bonfim, chegando em 1 de agosto ao seu destino. Em Pirenópolis, a 12 de agosto, Cruls decidiu dividir o pessoal em duas turmas, com o objetivo de percorrer o planalto, a ser explorado por dois caminhos diferentes. A primeira turma – chefiada por Cruls – seguiu diretamente para Formosa, onde chegou a 23 de agosto. A segunda, que passou por Corumbá, Santa Luzia (hoje Luziânia) e Mestre d’Armas (hoje Planaltina), chegou em Formosa a 14 de setembro. Ambas as turmas deviam determinar diariamente a hora e a latitude. Para tanto, deviam usar quaisquer fenômenos que pudessem servir para determinar a longitude, como os eclipses do primeiro satélite de Júpiter e as ocultações que deveriam ser observadas pelo menos em alguns pontos do itinerário. Outro processo usado foi a determinação da longitude por distâncias lunares – quer pela passagem da Lua e/ou de uma estrela pelo mesmo vertical ou pela mesma altura -,  quer  por diferenças de altura entre os dois astros. Em cada acampamento, faziam-se visadas com o trânsito de Gurley, em direção aos acidentes geográficos mais notáveis e, sempre que possível, deveriam determinar a declinação magnética das cidades visitadas, em especial Santa Luzia e Formosa.

Ambas as turmas, em especial a segunda, determinaram, desde a sua partida de Pirenópolis, o volume das águas dos diversos rios que encontraram no seu trajeto.

Depois dessa primeira exploração preliminar da região, o principal problema da Comissão era a demarcação da zona. Havia diversas soluções possíveis. No entanto, convinha procurar a que melhor satisfizesse a determinação do artigo terceiro da Constituição: “Fica pertencente à União, no Planalto Central da República, uma zona de 14.400 quilômetros quadrados, que será oportunamente demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”.

Uma delas seria adotar uma forma irregular, para a zona do futuro Distrito Federal, na qual tornar-se-ia para limites os sistemas orográficos e hidrográficos. A outra seguiria o exemplo dos EUA, onde os limites dos estados da sua federação são, na verdade, arcos de meridiano e arcos de paralelo. Imaginou Cruls que se fosse adotado o critério norte-americano, o melhor seria demarcar a área sob a forma de um quadrilátero que tivesse por lados arcos de paralelos e meridianos.

A primeira solução – a forma irregular – exigiria um longo tempo para a sua demarcação, em virtude da necessidade de um indispensável levantamento do perímetro da zona delimitada, com medições de base fundamental numa primeira demarcação, definitiva e absoluta, por meio de um levantamento geodésico.

A segunda – a solução do quadrilátero esferoidal – preenchia melhor a proposta. Tinha também a vantagem, pelo seu perímetro em forma de uma figura geométrica regular, de evitar futuras questões litigiosas que pudessem surgir entre os estados limítrofes. Na verdade, as latitudes de dois arcos de paralelo, bem como as longitudes de dois arcos de meridianos, delimitam a área demarcada e tornam possível verificar, a qualquer momento, a posição exata no terreno dos limites da zona. Por outro lado, a forma e as dimensões do esferoide terrestre permitiriam determinar, com suficiente rigor, a área de um quadrilátero limitado por arcos de meridiano e de paralelo, uma vez que suas respectivas longitudes e latitudes fossem bem conhecidas.
Uma vez decidida que a segunda solução era a melhor, Cruls devia escolher a forma do quadrilátero. Para isso, inspirou-se em considerações relativas à própria região, tais como o seu sistema hidrográfico, orográfico, riquezas naturais, etc.

Com base nessas considerações, Cruls concluiu que a forma mais conveniente seria um quadrilátero que tivesse cerca de 160 e 90 quilômetros como arcos de paralelo e meridiano. De modo que o quadrilátero teria uma superfície de 14.400 quilômetros quadrados, como havia sido determinado na Constituição.

Texto transcrito do livro “Luiz Cruls: o homem que marcou o lugar”, Gráfica e Editora Qualidade.

BRASILIANAS

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I
O céu se abre ao infinito
Teus espaços são a capital dos meus pensamentos
Sorri o busto que fundou esse sentimento monumental
De poder, nas tuas letras, estar agora, brasiliana

II
Inauguraram um monumento
Mas é a tua estampa
Que transforma meus pensamentos
Em traços curvos
Que nem Niemeyer sonhou

III
Tempo Estio
Em que corpo e alma tem mais sede
Embora muita água possa ver, em realidade
Não é fácil atingir teu lago
Mesmo assim,
Vou forjando uma orla
Pela beira –
Mar que, um dia, em sonhos verei

IV
Pesadelo alado
Que voa ao Norte
Mas é para o Sul que vertem tuas veias
No entanto, a alma, condor que vaga
Do alto vê: é um avião!
Quando enfim, ao leitor regresso
Eis que uma voz de metal me chama
Novamente ao teu aeroporto!

V
Ando em tua perspectiva
Por uma avenida sem fim e sem nome
Estonteante velocidade colorida
De sonhos em movimento
No rosto do menino
As luzes de uma cidade perdida
Olho para frente
O sinal deve abrir
(Qual será o caminho mais curto até o teu ser?)

VI
Abrindo picadas no teu seio
Pelo cerrado
Acreditando na visão
Vou quebrantando tua fé de pedra
Esse plano de gelo, bloco de certeza
De quem não quer me habitar
E sentir a paixão dos pioneiros
Com a força
E os sonhos
Nos quais sou operário
Que despenca de todos os andaimes

VII
Brasiliana tem olhos de gata
Iris de velha xamã
Com tuas seitas
Seus novos mistérios
Feiticeira do altiplano
De bruxa, de benzedeira
E não foi a cruz em sua fortaleza
Que lhe livrou desse feitiço
De possuir toda a gente
E a cidade
Que no inicio
Não tinha Deus
Não tinha amor, nem nada
Passou a crer mais na vida
E os templos: a natureza!

VIII
Na noite em que parti
Levantei poeiras e dúvidas
Na bagagem que juntei
Um mapa sem legenda
E o coração como bússola
Apenas na procura de teus jardins em mudança de estação
Porque meus pastores
São os pássaros que desenham em teu céu
As luzes coloridas desses dias

IX
O expediente
O calhamaço, o ouro e o calmante
O lilás de bocas trêmulas
De longe brilham e fazem fama
A Brasiliana que me engana
É uma miragem em reluzente deserto
Sinuosa, prematura e disfarçada
Que agora caminha distante
Batendo asas
Buscando a mortal travessia
Em saltos loucos
Nos meios-fios de Brasília

Marcelo Ferreira Carámbula, poeta gaúcho.
Poema transcrito da lista de ganhadores do “Prêmio Cassiano Nunes”

MEMÓRIA FUTURA

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Mesmo coberta
Brasília é uma cidade
nua. Intervalos,
espaço, o plano em que se inventa
se despojam, verticalmente
Planalto, Brasília salta
e se repete para o alto.

E comemora-se, num céu
declarado, num horizonte
preciso, como quem sabe
o que faz de si
e guarda o rosto explicito.

Em que cidade os vãos
se mostram com tanto
azul, e ventos e vertentes?
Onde limites
Que se correspondem, onde
lacunas que se preencham
apontando
sua vizinha evidência;
onde é que
guarda tanto sentido
em sua indiferença?

Os edifícios, nítidos
como cactus, contra uma terra
envolta em terra
se amaciam e se retomam em lago.
E o branco é mais longo
no assalto do poente,
e a técnica se arredonda
na memória da Acrópole
e pelo ser
se aconchega, nas dobras
do existente.

Nada se aglomera
ou se expulsa
nesta paisagem onde a razão
é o sensível e sua imagem.

Aqui se faz o homem:
geografia-geometria
e a historia murmurando
amanhã
nas curvas da poesia.

Aqui a terra se ergue,
lapidada em seu proveito,
aqui medita
o que a pátria espera
de nós, por nós,
na nudez dos que pensam.

Lupe Cotrim Garaude, poetisa natural de São Paulo

BILHETE PARA ADIRSON

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Caro Adirson, suas histórias
não são contos, são memórias
de Brasília, de suas glórias.
Acordes de violoncelos
nas encenações de Otelo;
validadas promissórias
em as outorgas uxórias
da cidade em formação.
 
Você é um aventurado
do mistério de obá,
fecundo, predestinado,
no rubro pó do cerrado
bem cedo chegou pra cá.
Trouxe a perspicácia e a pena,
a alma ardente e serena,
a garra pela notícias
novas, bem quentes, notórias,
o gosto pela pesquisa,
as narrações sem malícia,
a mais genuína historia.
 
 Assim, caríssimo Adirson,
tão zeloso e devotado
Barão do Paranoá,
continue investigando,
juntando os sagrados elos,
pontos, planos, paralelos
da custosa conexão,
cosendo o caso perfeito,
com manemolência e jeito,
nas trelas do coração.

Antonio Temóteo, poeta baiano, natural de Piatã.

Dois poemas de Joana: A travessia

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Poemas para Brasília Sem Comentários

Dois poemas de Joana: A travessia
(ou uma tentativa apenas)
 
Vozes eufóricas e
fortes zumbidos
se espalhando
no enorme corredor
mal iluminado do Minhocão.
A aula que não houve
se transforma
no estudo solitário
da diacronia
da Língua Portuguesa,
segundo Marcos.
Sorrisos, risadas e
gargalhadas escandalosas
não me deixam concentrar.
Já não percebo
a voz monocórdica
dos professores nas salas.
Início tardio
do semestre letivo.
Caótico.
É o caos da greve
deixando os estilhaços
em nosso caminho.
Como obstáculos,
a pedra no meio do caminho.
Lá fora,
a moto sem silencioso
sai em disparada no
breu estacionado no ICC Norte.
E eu adoro silêncio.
Espero a carona
até no último minuto.
O barulho oscila
entre as vozes meio gritadas
e o volume alternado do ruído
dos saltos-agulha que
desfilam fazendo
um eco comprido
até se tornarem inaudíveis.
A leve brisa espalha
o cheiro da erva sagrada,
tal capim santo.
Hoje, os rapazes
disputam a histeria ruidosa
com as moças.
E se sobressaem brilhantemente.
Atravessar a nado
o Lago Paranoá.
Pedir socorro e abrigo
aos monges beneditinos
ou às irmãs carmelitas.
Poder calar e descansar
para ouvir o mais fundo
do meu coração.
 
A LIMPEZA DA CAPITAL..
 
No frio seco da manhã,
em meio a nuvens
do vento empoeirado.
Lá estão elas…
Lá estão eles…
Tentam agasalhar-se,
e a se proteger
como podem.
De longe, percebo
o alaranjado movimento
do azul de seus casacos.
Vassouras, pás,
sacos de lixo,
baldes e carrinhos…
Estou confortavelmente
congelada dentro
do carro.
Olhos admirados
e agradecidos.
— Cenário típico e
aburguesado.
Tento acompanhar
o grupo por um instante
para adivinhar-lhes
os sonhos…
As cuidadoras
e os cuidadores da cidade
transpiram cansaço.
Da vida
Das viagens
Das madrugadas
Dos ônibus
mal cuidados
em direção
ao Plano Piloto.
Do almoço dormido
em suas marmitas.
E da volta pra casa,
que não termina nunca…
Preservam o bom humor,
apesar de tudo.
Será que todos sabem
que há muita sujeira
espalhada pela cidade
que o seu trabalho
nunca vencerá?
Abençoai-as, abençoai-os,
Ó Senhora Padroeira
da mais bela catedral do país!
E também a nossa cidade,
porque Brasília
está carente de bênçãos
e de luz.

Joana Eleuterio, poetisa mineira, natural de Bom Despacho.


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