Luzes Mecânicas

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Aos ventos que hão de vir;
Arrastando o ar miscigenado,
Em DNA singular, Candango,
Onde aurbis é oinspirar.

Alenta-se os monumentos,
Da Catedral a Torre Digital,
Excede-se o natural,
Da Ponte JK aos Ministérios.

Ascendevermelho-pungente,
Barro que adentra a cosmopolita
Noite que cega, luzes mecânicas.

Além das asas sul e norte,
E eixos desconcertantes, paira,
Há algo utópico, centros brasilienses.

Pablo B.P. Santos

TARDE

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Das cabeceiras do verão
o tempo incerto
traz para a cidade
um domingo deserto.
                                        Os estacionamentos abandonados.
Dentro dos muros
de um domingo morto
esta cidade pára.      
                                       A solidão nas superquadras.
Janua coeli.
Stella vespertina.
Tarde. Tarde.
Inconsolatrix.
                                        A poeira no claro espaço das brisas.
 
H. Dobal, poeta piauiense, natural de Teresina.

VICTA CAUSA

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A cidade dominada
pelos pontos cardeais:
           Norte
           Sul
           Leste 
           West.
A cidade dominada
pelos gabaritos da monotonia.
Pela arquitetura de massas.
                 Dos mármores.
                 Dos vidros.
A cidade fechada
nos seus espaços.
A cidade
Indiferente à causa dos vencidos.
 
H. Dobal, poeta piauiense, natural de Teresina.
FIM DE EXPEDIENTE
 
Passaram as siglas da manhã
Perdeu-se a paz do meio-dia.
Ficaram
                              do esplendor sub-letal,
                              das divisões de vidro,
                              das cortinas de cânhamo,
                              do ritual dos processos,
                              da cidade crucificada no planalto,
um fim de tarde e os signos da noite.

 H. Dobal, poeta piauiense, natural de Teresina.

PLANALTITUDE

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Neste planalto de azul silêncio
a vida tão me quis sem a medida
convencional do tempo, porque aqui
atravesso o dia e a noite como atravessava
o quintal de minha casa, não sabendo
da evolução constante e rude que passeava
por demais despreocupada.
Luzes de um outro lado/ladeado
trans/migrantes de nada/ar navegam anunciantes
por um lago de sal/lágrimas, resultado de rios
com amputados braços.
E virei pássaro sem inocência no aberto céu
onde não há papagaio, mas a segura/herança
e segurança nos multi/lados, onde salvei-me
de ter mutiladas as minhas asas de ouro.
 
Fernando Correia Dias, poeta português, natural de Penajoia

TEMPOS DE BRASILIA

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Eis o sertão cerrado,
cerrado mas aberto
em flores de asperezas.
Que árvore está florindo?
Cada qual tem seu tempo.
Estação? Quaresmeira.
Pelo retrovisor,
uma chuva cinzenta
na moldura do lago.
Da celeste aridez,
incide o duro sol
no luminoso ipê.
Com puro céu lavado
o verde está brotando,
louvado seja Deus.
 
Fernando Correia Dias, poeta português, natural de Penajoia

DA AMPLIDÃO

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Azulejo de paredes frias
Montanha de pele surda
Jornal amarfanhado
                             nos dentes dos aviões?
                             Planta uiva podre
                             Lago avenida
                             e torre:
                                    sangue
Dentro da nossa febre
sempre cantam estas cigarras
                              tontas e lerdas
                               brancas e pardas
                               Pode ser
                               este horizonte retilíneo
                               ou o ônibus
                               ou a pressa
                               quem sabe o vazio das vielas?
Que a cidade detém os pássaros
                                  nas artérias do vento
                                  Manhã nem é dia
                                  para a rede Macunaíma
                                  e o tempo aleijadinho
só vomitou pedras lodacentas
                                  Tantas vezes
                                  as mãos eram socos
                                   nos olhos desta cidade
No entanto
o asfalto luzidio:
                                   não se sabe
                                   por onde foi
                                   o mar
                                   desta cidade
                                   Não se retomará quase nada
                                   Nem mesmo é um jeito
                                   de se sorrir dos palácios
                                   A tortura
                                   não esmaga o eixo das flores amarelas
                                   Ou talvez
                                   não mais se sonhe
                                   por aqui
Vindos do Brasil inteiro
                                   inteiros não somos mais:
                                   a cidade estraçalha
                                                   nossos corpos famintos
                                   a cidade espicaça
                                                    nossos sonhos famintos
E famintos:
               não se sabe
               por onde foi
               a canção
               desta cidade
               Mormaço calor cerrado
               espaço branco azulado
               chuva rente primavera
               Alegria a gente inventava
               sem precisar de máquinas
Hoje realmente
               não se sabe
               por onde foi
               por onde foi
               por onde foi?
 
Stela Maris, poetisa natural de Nova Granada (SP)

Brasília

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“Entre os graus 15 e 20, aí havia uma enseada bastante extensa e bastante larga, que partia de um ponto onde se formava um lago. (…) aparecerá aqui a terra prometida, onde correrá leite e mel.”

Dom Bosco

Brasília é bastante branca
Brasília é vermelha manta
Brasília é o diáfano sobre a luz que abrilhanta

Brasília é um colar de pérolas que à noite encanta
Brasília é um manjar turco exótico que me levanta
Brasília é uma cobra recolhida que se estanca

Brasília é um vilarejo se passando por cidade
Brasília é uma expressão na geometria da felicidade
Brasília é a cidade invisível de Italo Calvino em tenra idade.

Brasília é uma profecia de Dom (Bosco)
Brasília é um poema esculpido em pedra
Brasília é canção de Carlos Drummond (de Andrade)

Brasília é o diamante na coroa
Brasília é um avião imenso que não voa
Brasília é uma cidade de Amauri afundada à toa.

Brasília é a Clarice Lispector sonâmbula sobre a água
Brasília é açaí preto na sobremesa, árdua
Brasília é a perfeição em tijolo e argamassa na frágua.

Brasília é um pedaço de torta espacial
Brasília é uma ilha de fantasia num lago irreal
Brasília é uma noite dominicana frugal.

Brasília é a última utopia
Brasília é para Sylvia Plath uma distopia
Brasília é uma paisagem de ectopia

Brasília é um oásis de pássaros migratórios
Brasília é o oráculo de vocábulos premonitórios
Brasília é uma página de um livro obrigatório.

Brasília é uma miragem instável no deserto
Brasília é uma visão pálida de um ponto incerto
Brasília é quando o prego e o martelo estão muito perto.

Poema de Abhay K, vice-chefe da missão diplomática da Índia no Brasil

Meu Deus, que cidade linda!

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Por Guilherme Goulart

Ele tinha motivos de sobra para comemorar a aprovação, em concurso público, para um cargo no Banco do Brasil, em Brasília.
Além de deixar para trás o interior do país, Antenor conquistava a esperada oportunidade de conhecer e morar na cidade tantas vezes cantada por Renato Russo. Aos 25 anos, mantinha-se fá incondicional do eterno líder da Legião Urbana. Apaixonara-se pela banda no inicio da adolescência, quando ouviu, pela primeira vez, Faroeste Caboclo.

Àquela época, gastava horas e horas imaginando a Brasília reverenciada pelo ídolo. Estranhava termos como Asa Norte, rockonha, Parque da Cidade, camelo e tentava, por si só, desvendar esses mistérios. Quando soube do resultado do concurso, Antenor logo avisou: “Mãe, tô indo para Brasília! Vou conhecer a terra do Renato, a senhora acredita?” Dona Genoveva ficava com o coração apertado, mas sabia que a inteligencia e a dedicação do filho o levariam para longe dali. Ainda assim, ela era só orgulho.

Antenor deveria assumir o novo emprego dali a dois meses. Mas tamanha ansiedade o fez deixar a cidade natal quase imediatamente. Queria ver, ouvir, tocar e sentir a trilha sonora da juventude. “Mãe, vou de ônibus. Quero saber o porquê de o João (de Santo Cristo) dizer: “Meu Deus, que cidade linda” ao sair da Rodoviária e ver tudo enfeitado com as luzes de Natal. Dona Genoveva não sabia muito bem como lidar com a empolgação do filho, mas compartilhava tamanha felicidade.

O jovem legionário não dormiu nas mais de 24 horas de viagem interestadual, excitado demais para descansar o corpo e os olhos. Parecia um menino. Conversou com todos os passageiros, que, na metade do caminho, sabiam de cor a paixão do futuro funcionário do Banco do Brasil pela trupe de Renato Russo. Alguns mais solidários cantavam com ele as canções preferidas.
Geração Coca-Cola, Tempo Perdido, Faroeste Caboclo, Eu sei, Pais e Filhos…Terminava uma e logo engatava outra, transformando a viagem em excursão de segundo grau.
Antenor só ficou em silêncio quando o ônibus alcançou o Distrito Federal e enveredou pelo Eixão Sul. Encantou-se com os prédios, o verde abundante e a avenida de sete faixas, três de cada lado e uma central. Em cinco minutos, estava diante da Rodoviária. À direita, enxergou o que só a imaginação até então lhe trouxera: a Esplanada dos Ministérios. “Meu Deus, que ci-da-de lin-da”, repetiu, devagarinho, como João de Santo Cristo. Antenor Azevedo chorou como criança.

O servidor público viveu intensamente a capital federal até o primeiro dia de trabalho. As impressões e as estranhezas – era difícil entender as quadras, o trânsito e a falta de nome nas vias – apareceram nas cartas escritas à mãe. Também expandiu o conhecimento. Visitou museus, prédios públicos e monumentos. Descobriu Oscar Niemeyer, Lucio Costa, Burle Marx e Athos Bulcão. Em pouco tempo, conhecia mais a cidade do que muitos brasilienses. E prometeu à mãe que, tão logo alugasse “um apê no Sudoeste Econômico”, a traria para “um city tour de primeira”.

Antenor estava realizado. Morava na terra onde viveu o carioca Renato Russo.

Texto de Guilherme Goulart, transcrito da “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense, 24 de junho de 2017.

SK8

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SK8
É
cultura
energia
pulsação
é um tipo de célula social
para construção de laços,
amizades, cidadania

antes da existência dos paralamas do sucesso
o Herbert e o bi conheceram-se através do SK8

cresci entre livros e idas de SK8
para a pista do clube dos 200 em Taguatinga

a chegada da pista na praça do D.I.
representou o desejo de toda uma geração

ontem,
diante dos olhos do administrador de Taguatinga,
nossa pista foi derrubada

a praça do SK8 é do povo
ontem meu coração foi dormir furado
ontem foi o meu pior role em taguatédio

querem acabar com as drogas?
derrubem polític@s ordinári@s

a fúria dos deuses
irá voltar-se
para os criminosos
da beleza

Paulo Kauim
Poema transcrito da coluna “Tantas Palavras”, Correio Braziliense, 07 de maio de 2015.

As profecias que não se cumpriram

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Por Silvestre Gorgulho

Brasília nasceu predestinada. Sob o fogo cruzado da oposição, da elite e da mídia brasileira, Brasília nasceu também precocemente julgada e terrivelmente condenada. Estigmatizada!

Os brasilienses candangos sempre buscaram resgatar a historia da construção da nova Capital com muita emoção, com sentimento de humor e de alegria. Mas não foi bem assim para quem habitava o vasto e belo litoral brasileiro.

Não tenho dúvidas: no seu centenário, em 2060, os historiadores vão colocar a construção de Brasília como uma das três datas mais importantes do Brasil como Nação.

As outras duas seriam o Descobrimento e a vinda de D. João VI. A própria Independência ficará em quarto plano, como consequência da transferência da Corte de Lisboa para o Rio de Janeiro.

Da mesma forma que, pela Brasília de hoje, desfilam heróis a começar pelo presidente Juscelino Kubitschek, Lucio Costa, Oscar Niemeyer e Israel Pinheiro, no final dos anos 50 e inicio dos anos 60, desfilaram, também, vários profetas do caos. E é muito bom conhecê-los.

Quem são os profetas do caos? São justamente aqueles que queriam abortar o sonho de interiorizar a capital. Pior: são aqueles que condenaram o sonho e teimaram em não aceitar a realidade.

Em 1974, ao falar no Senado sobre o desenvolvimento de Brasília, o autor do projeto urbanístico, Lucio Costa, não escondeu sua emoção: “É estranho o fato, esta sensação de ver aquilo que foi uma simples ideia na minha cabeça se transformando nesta cidade enorme, densa, imensa, viva, que é Brasília hoje. Peço licença aos senhores, me deem um pouco de tempo. Estou muito emocionado”. No plenário, um silêncio profundo. A emoção contagiou a todos.

Hoje talvez seja fácil justificar a obra, bendizer a epopeia de sua construção e se emocionar. Mas não foi assim. A verdade é que Brasília está indissoluvelmente ligada à teimosia e à ousadia de homens que ultrapassaram obstáculos aparentemente intransponíveis. Até mesmo antes da posse de JK.
Conhecer algumas das profecias que, felizmente, não se cumpriram, é também um momento de emoção.

“Não vou baixar nenhum decreto considerando a área do novo Distrito Federal de utilidade pública. Considero a medida intempestiva e uma providência utópica.” Ex-presidente Café Filho, abril de 1955, quando o Marechal José Pessoa, presidente da Comissão de Localização da Nova Capital, levou para ele os estudos técnicos definindo a área do Distrito Federal.

“Afirma-se a necessidade da mudança da capital para garantir maior desenvolvimento econômico ao nosso hinterland. O argumento pró-mudança não tem nenhuma força.” Correio da Manhã (editorial), 14 de outubro de 1956.

“Brasília será a maior ruína da historia contemporânea. A diferença das outras é que nunca será habitada por ninguém, já que não ficará pronta”. Carlos Lacerda, 1957.

“Brasília será, para JK, o que as pirâmides são para os faraós: seu tumulo.” Carlos Lacerda, 1957.

“Afinal de contas para que tanta pressa? Para satisfação da vaidade? Bobagem. Quando se efetivar a mudança, daqui a 4, a 8 ou a 10 anos, far-se-á um obelisco monstro à entrada do El Dorado com a inscrição de que tudo aquilo é devido ao doutor Juscelino e dar-se-á o seu nome à Praça dos Três Poderes. Creio que assim ficará bem para a posteridade.” Editorial “Variações sobre a mudança” de All Right, no Correio da Manhã, de 8 de maio de 1958.

“O Brasil proporciona ao mundo o espetáculo ridículo do pobre que se apaixonou por uma atriz caprichosa e que se empenha, deixa os filhos com fome, que dá desfalques para comprar anéis e colares cobiçados pela amante insaciável. O Brasil está apaixonado pela cruel Brasília…” Gustavo Corção, jornal O Estado de São Paulo, 25 de maio de 1957.

“Antigamente era negócio da China: hoje se diz negócio de Brasília. Meta número um (Brasília) já está paralisada: falta dinheiro para obras. Três coisas estão prontas: 1) O palácio (do Presidente) 2) O hotel (dos turistas) 3) A cachoeira (que Deus fez).” Reportagem na Tribuna da Imprensa assinada pelo jornalista Adirson de Barros, 3 de setembro de 1958.

Silvestre Gorgulho, jornalista.
Texto transcrito do álbum “Brasília: 55 anos – da utopia à Capital. Réalisation/Artetude Cultural.

Era um rabisco, e pulsava

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Por Carlos Drummond de Andrade

Dia ‘histórico’ para mim foi aquele em que Lucio me apareceu, discreto como sempre, botando em minha mesa uma folha de papel rabiscada às pressas, com palavras e um esboço de desenho que, aparentemente, pouco significavam. Peguei da folha e tive entre os dedos nada menos do que a cidade de Brasília, inexistente e completa, como um germe contém e resume a vida de um homem, uma árvore, uma civilização. A primeira noção de uma cidade diferente de todas as outras até então imaginadas mostrava-se ali, nos traços rudimentais de uma cruz (ou um avião) plantada na terra ou alcançando voo. O plano-piloto de Lucio dizia bem pouco para um leigo habituado a ver cidades em funcionamento e não no papel, um papel nada luxuoso como o dos grandes escritórios de arquitetura. Falei em rabisco, e pulsava.

Sem entender, eu sentia a vibração das formas implícitas naquela folha de papel que mudava a historia do governo do Brasil e, em certa escala, a vida dos brasileiros. Comovi-me. Lucio também devia estar comovido por ter achado a solução quase mágica para o problema de conceber uma capital de país em termos absolutamente originais. Mas disfarçava?

Ou o seu pudor de aparecer era tão positivo que lhe permitia filtrar e decantar a emoção até o ponto de torná-la invisível?

Parecia o mais vago dos homens; entretanto, em dada ocasião deu-me um conselho que não segui e que, se fosse observador atento, me pouparia uma decepção política. Na realidade, era e é um observador atento e sagaz do mundo e da vida brasileira em particular. Se tudo parece escarpar-lhe, talvez o mais correto seja dizer que nada lhe escapa; se não dá mostras constantes dessa capacidade de observação e análise – uma análise quase sempre original, resultante do seu gosto, cultura e independência de espírito, e não de patrões estabelecidos de critica – isto se deve à sua inclinação natural para a penumbra, o bastidor, a ocultação de si mesmo. Lucio argumenta, julga, define-se mas desinteressa-se da ação prática que (e isto sucede com frequência) um detalhe das coisas lhe choque a sensibilidade, e ele investe contra a anomalia. No mais, que o deixem viver sossegado, reflexivo, quase uma sombra, na retaguarda dos que brilham e adoram brilhar com luz própria ou de empréstimo. Este nobre e humilde senhor não quer que o aborreçam. Será que o estou aborrecendo com estas lembranças do corredor onde trabalhávamos juntos e calados?

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense, 09 de abril de 2015.

Anotações para os 55 anos

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Por Conceição Freitas

Brasília é um ato de vontade.
Brasília é o atrevimento de um presidente.
Brasília é a exasperação do urbanismo moderno.
Brasília é a revelação de uma paisagem.
É a mistura dos Brasis, Brasília.
Brasília é uma provocação; é um segredo a ser revelado a quem se dispuser a conhecer uma outra lógica, uma nova razão.
Brasília é o sonho sonhado e o possível realizado.
É o enlaçamento da arte com a arquitetura.
Brasília são os vazios convidando cada um a inventar um sentido à solidão dos ermos.
Brasília é um deus tendo de lidar com suas imperfeições.
Brasília é a capacidade de cada um criar a própria Brasília, tantas são as perturbações que ela provoca em seus habitantes.
Brasília é tão grandiosa que sobrevive às mais terríveis investidas dos políticos e da especulação imobiliária.
Brasília é uma cidade, mas é também uma invocação do belo.
Brasília é também o que não queriam que ela fosse.
Os arquitetos projetaram a Brasília ideal. Os candangos inventaram a Brasília que eles queriam para si.
Brasília seria triste, rançosa, viciada, elitista não fossem os brasileiros que bagunçaram a maquete e fizeram dela uma cidade de verdade.
Brasília queria ser só uma, o Plano Piloto. Quando muito, duas ou três, com os lagos e o Park Way.
Brasília são 31. Brasília são as cidades-satélites que vieram quebrar a monotonia das coisas perfeitamente organizadas.
Brasília é a arqueologia recente de um Brasil que estava dando certo.
Brasília é também o desconforto do Brasil consigo mesmo. Tão inventivo e tão desigual; tão trabalhador e tão corrupto. (Para construir Brasília, os candangos ralavam até 16 horas por dia).
As superquadras de Brasília são o modo de viver confortável, ecológica e democraticamente nas cidades. São os anticondomínios. As superquadras são o futuro que se realiza no passado.
Brasília está ao alcance da mão, apesar da investida voraz dos que querem sugar sua riqueza até os ossos.
Brasília ainda é uma promessa. E uma inspiradora realidade.

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, do Correio Braziliense de 25 de março de 2015.

Geografia sentimental

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Por Severino Francisco

Climério Ferreira é um dos habitantes do silêncio de Brasília. Fez doutorado na Austrália, mas cultiva a simplicidade e o anonimato com unhas e dentes. Sempre vi os irmãos piauienses (Clodo, Climério e Clésio) na condição de índios yanomamis, índios da festa e da paz. No momento, Brasília oferece poucos motivos para a gente gostar dela, mas Climério mira a cidade com a devoção que só o olhar amoroso pode revelar. Em “Entre as manias que eu tenho”, ele diz: “Eu não sei quando adquiri/Essa mania doente/De gostar da terra da gente”.

Ele sempre me mandava por e-mail versinhos e poemínimos. Não é pretensão; a sua língua é a do lirismo. Ele é do século 19, conquistou todas as namoradas com um soneto. Se a gente traçar uma geopoética brasiliense, o pedaço que cabe a Climério é a Asa Norte. Aparentemente distraído, ele é muito atento ao que acontece na cidade e, principalmente, em aldeia. Em ‘Meados de novembro’, faz uma crônica dos dilúvios que costumam se abater sobre a cidade durante o período das chuvas: “Carros anfíbios mergulham nas tesourinhas/Os passageiros dos ônibus nadam afoitos/Árvores são arrancadas das raízes/As quadras da Asa Norte naufragam/A arquitetura moderna sobreviverá ao mês/Mesmo que o arquiteto morra”.

Nas décadas de 1970 e 1980, a 312 Norte foi uma quadra de muitas agitações e conexões culturais. Os irmãos Ferreira moraram naquele território e estabeleceram parcerias muito ricas. Por lá, passaram Glauber Rocha, os compositores Fagner e Petrucio Maia; e o pintor pernambucano Vicente Rego Monteiro. É esse o tempo que Climério evoca em ‘SQN 312’: “Lembro-me de Glauber já doente sentado na escadaria do bloco/Eu, Clodo e Zeca Bahia tramando futuras canções no F/Luiz Amorim sonhando um açougue cultural/Gera de Castro armando um show coletivo/Clodo e Petrucio Maia compondo ‘Cebola Cortada no Cavalo Negro’/Fagner mostrando em primeira mão o arranjo de Hermeto para Cebola/O som do pandeiro de Pernambuco percutindo na quadra/Enquanto Vicente do Rego Monteiro pintava figuras godas/A 312 era o Vietnam do Norte”.

A 209 Norte é um dos temas de sua geografia sentimental brasiliense, constituída a partir da que ele e seus amigos fazem da cidade: “Umas frutinhas no Oba/Leitura na quadra de esporte/Guido Heleno na lotérica/Bené Fonteles caminhando/Paulo José Cunha no Sinhá Moça/Fausto e Manoel todo sábado/Eu&Helô no Mineiro/Sobremesa no Rappel/O traço de Lucio Costa não previa tudo isso”.

Mesmo quando está indignado, Climério prefere soprar uma ironia lírica delicada em vez de dar um berro. O comentário que ele faz sobre o excesso de zelo pelo silêncio nas superquadras com bares que apresentam música, em Banho de lua, estabelece um contraponto divertido dos tempos românticos com os tempos pragmáticos em que vivemos: “Acredite, havia donzelas/E existiam rapazes desafinados/Que faziam serenatas nas janelas/Cantando boleros apaixonados/Acredite, ninguém atirava/Nem chamava a policia/Uma bacia d’água era derramada/Para aplacar no cantor a euforia”.

Texto transcrito da coluna “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense 29 de junho de 2015.

BRASILIA FUTURA

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Lua cheia
no meio do Brasil
a construção de tudo: a cidade
No princípio é moldura do nada
sobe mais de 1.000 metros no ar
nem um morro contorna a vista
no alto o plano piloto vira escultura
A primeira fase é candanga
ligação de Brasis
com o mundo
Os pés sobre a terra finavermelhácida
pele de asfalto
corpo de concreto e vidro
mãos ao norte e sul do fazer
O rosto da cidade fica conhecido
sai do papel
escala o pico do impossível
em recorde de inauguração
A cidade criança engatinha
abre os braços para toda gente
parece com a mamãe e o papai
traços da filosofia socialista e de Le Corbusier
anda com a burocracia e suas primas Poesia e Lazer
Infância de sonhos
cidade encontro de céu e chão
asas de último tipo
A dimensão Brasília
face humana do cerrado e arquitetura
fundidos em habitantes-raízes da utopia
Brasília
marco zero da ocupação do interior
voo de raças e quereres
seta ao vento da miscigenação
Aqui não tem mar, não tem esquina
nem trem ou tradição…
ter nascido cidade-capital é destino
de gente, espaço e tempo
Oscar Niemeyer e Lucio Costa
criaram os rumos da modernidade brasileira
largo gesto de autoria
de casas e palácios das mudanças
Tem palavra que é Brasília escrita e pronunciada
mudança é uma delas
muda de lugar e hora
transmuta e marca a história.

Delei
Poema transcrito do álbum “Brasília: 55 anos – da utopia à Capital

Brasília, par ou ímpar?

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Entre as curiosidades – ou excentricidades – propiciadas pelo traçado urbano de Brasília, uma é a confusão entre par e ímpar.

Os brasilienses, quando tentam explicar as particularidades da capital, como a numeração das quadras, dizem bem assim:
– De um lado ficam as quadras pares, do outro ficam as ímpares.

Eu mesmo, com três dias aqui, procurava a 309 Norte e fui parar na 209, depois na 409, mas nada de achar a 309.
– Flávia, já passei pela 209, pela 409, e não achei a 309!
– Você entrou errado! – ela disse. – Aí são as pares.
– Mas 209 e 409 são ímpares!!
– Não, 209 e 409 ficam nas pares…
– Mas elas não são ímpares?
– Não, são pares!

Parecia conversa de bêbado: ela dizendo par, eu falando ímpar, até que a bateria do celular arriou, mas, antes, ainda pude ouvi-la dizer:
– Querido, é a lógica da cidade. Brasília é organizada, planejada. Aqui tudo tem uma lógica…

Sem celular, desisti da visita a Flávia. E passei uma hora para acertar o caminho de casa, no Sudoeste.
No dia seguinte, os colegas se revezavam em explicações sobre essas “lógicas da cidade”.

Lucio Costa – e não Niemeyer – desenhou Brasília com dois eixos, formando o sinal da cruz, que lembra a imagem de um avião.
É nos “braços” dessa cruz onde fica a área residencial, sendo que de um lado ficam as quadras que começam com dígito par (200, 400) e de outro ficam as que começam com dígito ímpar (100, 300).

Ocorre, porém, que nos dois lados há pares e ímpares. Nas quadras 100 temos 102, 103, 104, 105… Nas 200 temos 202, 203, 204, 205…
Porém, a simplificação – “lado par” e “lado ímpar” – faz com que 304, 506, 708 sejam ditas ímpares, mesmo sendo pares; e 203, 405, 607 sejam ditas pares, mesmo sendo ímpares.

Complicado, não é?

Para o brasiliense, que nasceu e se criou sob essas coordenadas, tudo parece simples, fácil, óbvio até. Mas para o visitante, é tudo diferente.
Brasília é complicada e perfeitinha. É onde o par pode ser ímpar e o ímpar pode ser par.

Texto de Marcelo Torres, cronista

Adoro minha quadra

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Por Conceição Freitas

O leitor Edson Shimabukuro escreve, a propósito da diversidade de produtos e serviços das entrequadras comerciais do Plano Piloto:

“Minha quadra também é cosmopolita. Temos um legítimos restaurante grego, uma crossanteria que não deve às de Paris, uma bela padaria estilo às de São Paulo, um boteco com nuanças pernambucanas, o churrasquinho de gato do Eliomar, o bar do Mocó que fica escondido, e que só os iniciados frequentam. Também temos a distribuidora de bebidas do Paixão, que herdou do falecido Cezar das faixas provocativas e que virou bar tal como o depósito do Piauí na Asa Sul. Adoro minha quadra”.

Na memória descritiva do Plano Piloto, Lucio Costa cita, a título de exemplo, o comércio das entrequadras: mercadinho, açougue, venda, quitanda, casa de ferragem, barbearia, cabeleireiro, modista, confeitaria. Quase 60 anos depois (o projeto de LC é de 1956), a modista foi substituída pela costureira que faz pequenos consertos, o açougue foi engolido pelos supermercados, mas a variedade ficou ainda mais rica.

Há de um tudo nas entrequadras: de lojinhas de candomblé e umbanda a sex shop. De pet shop a serviço de depilação. De biscoito mineiro a chope belga. De restaurante nordestino a bistrô francês. Pizzaria, espagueteria, crossanteria, creperia, padaria, cafeteria, choperia, barbearia, torteria, tapiocaria.

Loja de calçados, de colchões, de cortinas, de cine-foto. Loja que conserta tênis, loja que conserta roupa, que conserta brinquedo, que conserta eletrônicos, que conserta celular, que recupera artigos de couro.

A alta gastronomia e o PF estão representados nas entrequadras. O cassoulet e a feijoada borbulham, calóricos, no comércio local do Plano Piloto. A comida natural e o churrasco reforçam o espírito democrático das lojinhas entre as superquadras.

Os serviços de beleza, cada vez mais especializados, estão à disposição das clientes e dos clientes nas entrequadras: SPA, sauna rejuvenescimento facial, terapia da água, ofurô, sauna, desenhos pubianos, design de sobrancelha.

Calçados ortopédicos, para diabéticos, calçados magnéticos, calçados artesanais, calçados de grife, calçados com numeração especial. Os mercadinhos japoneses estão concentrados na Asa Sul. Nem a chegada dos mercados gourmet tirou-lhes a freguesia de décadas.

Nas entrequadras de Lucio Costa,as lojinhas da década de 1960 (Casa das Meias e Pizzaria Dom Bosco, dois lendários exemplos) assistem, da janela da história, às mudanças continuas na vizinhança. Pode-se arriscar a dizer, sem nenhuma aferição sistemática, que os estabelecimentos modestos tem mais longevidade que as iniciativas mais ousadas. Raras são as entrequadras que não tem um pé sujo devidamente estabelecido há mais de década.

As entrequadras compõem, com as superquadras, o melhor da invenção de Lucio Costa.

Texto transcrito da “Crônica da Cidade”, de Conceição Freitas, de 27 de novembro de 2014.

Festa na quadra

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Por Glaucia Chaves

Viviane Oliveira, 38 anos, especialista em comunicação institucional, dispensou os valores altos de locais para festas infantis e organizou o aniversário de 8 anos do filho na entrequadra da 104/105 Sul. O plano inicial era alugar um campo de futebol society, já que o futebol é uma das paixões do menino Vinicius. Mas o aluguel do espaço não sairia por menos de R$ 700. A reforma da entrequadra veio na época da festa e Viviane pensou que seria uma boa maneira de comemorar sem limitar a quantidade de convidados e sem gastar demais. “Antes, havia muitos usuários de drogas, mas consertaram a quadra de esportes, colocaram bancos e campo de areia”.

Faltava pensar em como organizar uma festa de aniversário ao ar livre. Algumas pesquisas na internet depois, Viviane teve uma ideia das providências indispensáveis: saco de lixo, canga, toalha de piquenique, bandeja para o bolo. “Contratamos duas carrocinhas, uma de pipoca e uma de cachorro-quente, que não precisavam de energia elétrica”. O toque final foi dado pela cama elástica e pela comida extra para os curiosos e os passantes. “A inauguração da entrequadra reformada foi no mesmo dia, então muita gente achou que a festinha do Vinicius fazia parte do evento. A cama elástica foi usada por crianças que a gente nem conhecia.”

Viviane acha que os “convidados adicionais” deram justamente o clima que ela queria para a festa: algo participativo, na cidade, para todos. “Mostrou que a quadra está sendo usada pelas pessoas e que a gente está dando valor às melhorias que foram feitas.” Em Brasília há quatro anos, a carioca acredita que sair mais de casa deveria ser uma vontade de todos que vivem na cidade. “Aqui é um lugar bastante criticado por ser muito automobilístico. Cabe a nós mudar isso.”

Em 2010, Daniela Perdigão Lima, 37 anos, também viu no verde da 416 Sul a chance de comemorar o aniversário de 1 ano do filho de uma maneira charmosa e, ao mesmo tempo, barata. A experiência foi tão boa que, este ano, o quarto ano de Tito também foi celebrado embaixo das árvores, desta vez, na 402 Sul. E o pessoal ainda tinha a estrutura do apartamento do meu sogro, que fica na mesma quadra.”

Daniela e o marido montaram mesas com sanduíches, bolo e brigadeiros. No convite, os convidados foram orientados a levar toalhas, brinquedos e o que mais quisessem para um dia ao ar livre. Era chegar, esticar a toalha na grama e curtir uma tarde sem paredes. Algumas crianças da quadra, curiosas com a movimentação, apareceram. “Levamos lembrancinhas a mais, fomos preparados.” Para Daniela, a iniciativa foi só vantagens: é o lugar mais barato da cidade, é lindo e não faz bagunça em casa. “Muitas vezes, deixamos o lugar mais limpo do que quando o encontramos. Já cortamos a grama e tiramos as guimbas de cigarro antes da festa.”

Texto reproduzido da Revista do Correio, Correio Braziliense de 16 de fevereiro de 2014.

Se esta quadra fosse minha

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Poemas para Brasília, Posts Sem Comentários

Por Theresa Negrão de Mello

Desatar os derradeiros nós daquela precoce e frustrante união implicava deixar o apartamento no qual provisoriamente me instalara para, enfim, com o que me coubera na partilha da casa em São Paulo, dar entrada em nova moradia por aqui.

Não obstante breve,  aquela etapa de primeiro contato com a cidade havia sido suficiente para consolidar a ideia de permanecer em Brasília, cuja hospitalidade se incumbira de descartar os estereótipos que davam suporte aos longos discursos norteados por uma retórica de dissuasão.

Das cartas, telefonemas e encontros eventuais afloravam, com frequência, as marcas de representações de uma cidade “sem alma”, “sem esquinas”, “sem gente nas ruas”. Na verdade, tais sintomas de uma “brasilite negativa” evidenciavam, em não poucas vezes, uma desconcertante contaminação, não associada a qualquer contato ou conhecimento mais efetivo, nutrindo-se do sopro eficiente de enunciados que, “legitimando-se” pela repetição, constituem o celeiro propício dos preconceitos.

Sem querer esmiuçar antigas polêmicas, e apenas visando a contextualizar vetores de representações engendradas em uma conjuntura especifica, cabem aqui as considerações de Holston, cuja pesquisa ressalta uma primeira geração de migrantes que cunhou a expressão “brasilite”, para sinalizar a um só tempo impactos positivos e negativos desencadeados pelo encontro com a cidade nova.

Os aspectos negativos da “brasilite” estão ligados a uma rejeição das intenções desfamiliarizadoras contidas na concepção de Brasília. Rejeitam a negação do Brasil urbano, tal como comumente expresso na organização e na arquitetura da cidade.

(…) Sem a agitação das ruas, Brasília lhes parecia “fria”, embora a separação especial entre as funções de trabalho, moradia, lazer e tráfego produzisse uma clareza na organização urbana (…)

(…) Desse ponto de vista, os migrantes usavam o termo “brasilite” para se referir a uma vida cotidiana destituída de prazeres – as distrações, as conversas, os flertes e os rituais da vida nas ruas em outras cidades brasileiras.

Tendo sido outras as condições, até porque minha vinda não se situa nas primeiras levas de migrantes e, ademais, nada teve de compulsória, a síndrome da “brasilite negativa” não prosperou como suporte das minhas representações sobre a cidade que escolhi para”começar de novo”.

Nesse sentido, a sempre alegada monotonia das superquadras não deu conta de obscurecer uma seleção que, na oportunidade da compra, desde o inicio, privilegiou a 205 Sul. Assim, não sem uma certa angustia, envidei esforços para que o meu, então recente, “trocando em miúdos” me possibilitassem arcar com a entrada, o ágio, o dilúvio de documentos e sei lá mais quantas providências lembradas por uma legião de corretores tagarelas.

Aliás, a todos eles parecia escapar tão peremptória preferência pela “205 Sul com vista para o lago”, e, de fato, meus argumentos não iam além de uma difusa simpatia pelo lugar como um todo, pois sequer os blocos residenciais eu conhecia. Enfim, tais motivações, não se confinando ao racional, são capazes, entretanto, ou bem por isso, de mobilizar-nos. Em tais casos, a mais trivial preferência ganha no representacional foros de aspirações insubstituíveis, daí o titulo desta pesquisa “Se esta quadra fosse minha”, fragmento do repertorio popular, pleno de significações.

Quando finalmente surgiu o esperado “imóvel”, como se esmerava em soletrar o corretor quase gordo, preenchi ali mesmo, durante a visita, o cheque referente ao sinal, com direito à vista belíssima para o lago e, de quebra, à grotesca visão de absurdas paredes rosa, literalmente “choque”, pedindo, quando menos, caiação urgente. Tudo bem, o corretor negociaria a pintura, o que me fez sair faceira, estalando com os saltos das sandálias as dezenas de tacos descolados. Em menos de duas semanas cá estava eu instalada, uns poucos móveis, os inseparáveis discos e livros, “começando de novo”, agora como membro da comunidade da 205 Sul.

Hoje percebo que a comunidade, não se confundindo com a ideia de superquadra enquanto concepção administrativa e urbanística, circunscreve um cenário ampliado que, ao incorporar espaços contíguos, multiplica lugares de comunicação e socialidade.

Assim, pessoas que cotidianamente se cruzam na quadra e suas imediações, não raro se conhecem e se relacionam, de modo a evidenciar um sentimento comum de pertença que extrapola, por exemplo, as práticas ritualizadas do simples cumprimento. Trata-se, como diria Maffesoli, de uma socialidade que se exprime também na partilha dos afetos, no lúdico, na emoção, enfim, no interacionismo simbólico perpassado de transfigurações imáginárias.

Tais elementos concorrem, sem dúvida, para a construção “…dessa identidade perceptível que se chama cidade, bairro, quadra, etc.

Ao considerar a comunidade no âmbito de um cenário ampliado, constato que se a ideia de quadra não a contém, a de bairro igualmente não a traduz. Entendo, ao final das contas, que a quadra em que moro e suas adjacências, este espaço do lado de baixo do Eixo Monumental até a L 2 Sul, muito se assemelha a uma espécie de quartier fincado no planalto Central. Dialogando com Bresciani, suas ideias fornecem-me interessantes pistas:

Há, porém, ainda uma outra percepção da rua que forma algo bastante pessoal, daí subjetivo, e ao mesmo tempo tecido num fio que permite algo  que se aproxima da comunidade perdida: o percurso diário para as compras e demais tarefas domésticas, um mesmo açougue, a mesma quitanda, sapateiro, jornaleiro, palavras trocadas entre pessoas para as quais a civilidade aprendida e um laivo de interesse pessoal se mesclam no bom-dia, como vai?

Exatamente aquilo que faz um francês e uma francesa se referirem ao lugar onde moram como mon quartier, não inteiramente traduzível por bairro. Um recanto que às vezes pouco lembra o recorte administrativo do bairro, mas é composto pelas ruas percorridas, pelos locais visitados, pelas pessoas encontradas.

E é bem o que aqui ocorre, sobretudo nas manhãs de sábado, nos bares, confeitarias, lojas, butiques, padarias e farmácias. Ali, o simples “bom dia” acaba emendando um dedo de prosa entre pessoas que geralmente se conhecem pelos nomes e mesmo apelidos. Ali se realizam as conversas sem consequência “sobre a saúde, o tempo que passa, a meteorologia, as emissões televisivas, o esporte e tudo o mais. Ali, “tudo se sabe”, e é naquela espacialidade que se ensejam “as varias ocasiões em que se vive, conjuntamente e sem brilho, o crucial problema do tempo que passa”.

Na verdade, o mesmo quadro parece reproduzir-se nos blocos residenciais na comunicação diária entre vizinhos. “Seu” Diamantino, meu vizinho de porta, desde a minha chegada jamais se limitou à glacial polidez do cumprimento. A ele devo a mediação com “seu” José, uma espécie de mestre-de-obras oficial da quadra, e o sindico, logo às primeiras semanas da minha instalação no sonhado “imóvel na 205 Sul com vista para o lago”.

Deixar o imóvel com a minha cara, até meio excessivamente personalizado, significou percorrer uma saga de mais de uma década, pontuada por três inesquecíveis reformas, com o mesmo modesto orçamento, fosse qual fosse o novo apelido da moeda da ocasião.

Tão inoportuna quanto inadiável, a primeira obra que se impôs envolveu também o condomínio, e mesmo com as despesas assim partilhadas, não consigo apagar da memória o discurso do entusiasmado corretor que, ciente ou não, me vendeu também, além da vista para o lago e do enfatizado sossego de um imóvel no último andar, uma inesperada goteira, apenas evidenciada com as fortes chuvas que fechavam o verão brasiliense. Com um balde de plantão logo à entrada, eu tentava poupar, em março, o carpete colocado em fevereiro.

Segundo meu solidário vizinho, em breve teríamos a seca e, com ela, a possibilidade de cuidar da imprescindível impermeabilização do teto. Se a propalada secura brasiliense jamais me incomodara, naquele momento, mesmo prevendo despesas, eu contava os dias para dar-lhe as boas-vindas.

Enfim, sempre vi, com o devido desconto ao exagero, os discursos que a cada estação elegem como “o pior dos últimos anos” o clima do nosso Saara federal, com seus baixos índices de umidade relativa do ar, sobretudo como um bom pretexto para os breves temas acionados na tentativa de vencer o secular silêncio que se segue ao cordial bom-dia do elevador.

Com a chegada da seca chegou também “seu” José, cuja historia de vida remonta aos tempos da construção da quadra da qual ele participou, como tantos nordestinos que aqui chegaram, compondo o exercito de candangos recrutados e seduzidos com o trabalho na cidade nova. Orgulhoso, “seu” José afirma ter na cabeça a planta dos antigos imóveis, e tem mesmo. Por ocasião das reformas, ele dá conta da localização de colunas e passagens de canos com a intimidade de quem teve a experiência da construção. Morando em uma cidade-satélite, “seu” José frequenta a quadra há décadas e, como “seu” Edmundo, o marceneiro, faz parte da nossa comunidade.

Além dos serviços que nos prestam, esses trabalhadores articulam suas historias pessoais à memória da quadra. Seus relatos desenham no quartier uma historia local, naquele entendimento que lhe confere Souza Martins:

“Nela o tempo e o espaço não podem ser separados. Por isso é uma historia local. A historia do cotidiano não tem sentido quando separada do cenário em que se desenrola. Por isso, é quase uma historia intimista, de vizinhanças e pequenos grupos”.

É sobre essa historia local e seu arquivo de memórias, sobre as representações que dela fazem seus atores, e sendo eu mesma uma das personagens, que direciono um dos meus trabalhos atuais.

Estudando o bairro de Copacabana, lugar onde passou grande parte de sua vida, o antropólogo Gilberto Velho lembra o desafio por ele enfrentado ao propor uma pesquisa que, deslocando-se dos convencionais estudos “dos outros”, se propunha a estudar o “nós”.

Também no caso da investigação aludida, reflito sobre um tema que, sem perder o compromisso com os sempre lembrados paradigmas científicos, trará ao final as marcas das minhas representações sobre o cenário ampliado da 205 Sul e, é claro, uma esparramada carga de subjetividade. Conforta entender com Morin que “o campo real do conhecimento não é o objeto puro, mas o objeto visto, percebido e co-produzido por nós”.

Nas providências preliminares dessa co-produção, venho elecando alguns atores da quadra. Seus depoimentos constituem uma exuberante fonte onde miríades de sentidos possíveis podem ser consideradas. Paulistas como eu, paraibanos como “seu” José, piauienses como “seu” Edmundo, baianos como o zelador, cariocas como “seu” Diamantino e tantos outros dos mais diversos lugares oferecem, na multiplicidade dos enredos sobre como aqui chegaram e que representações fazem do quartier, articulações que, pinçadas desse universo empírico, darão vida aos estudos teóricos enclausurados nas obras cujos autores se dedicam ao simbólico, ao imaginário e ao cotidiano que os engendra.

Pretendo ouvir moradores antigos e recentes dos diferentes blocos residenciais, trabalhadores tais como empregadas domésticas e funcionários dos blocos. Penso também no contingente constituído pelo pessoal ligado ao comercio das entrequadras, bem como nos trabalhadores do setor informal, protagonistas dessa prática tão brasiliense de chamar, para os mais variados pequenos serviços de casa, os fazedores e furos e colocadores de varais. Pacientemente, chova ou faça sol, eles estão ali em grupos ou isoladamente, disponíveis para atendimento imediato. São, enfim, atores nos quais a condição de não-residentes nas superquadras não lhes retira o status de membros da comunidade, em seu cenário ampliado. É o caso de Walter e Josafá, que nos prestam pequenos serviços como eletricistas, bombeiros e são, porém, identificados como os “rapazes do varal”. É também o caso de Manuel, o jornaleiro da 205  que vimos crescer, de “seu” Nicácio, o verdureiro da Kombi, e de “seu” Jáder, que, com Maria e Zé Baiano, compõem o “setor” dos sapateiros. “Seu” Jader, na verdade, mudou-se para a Asa Norte, mas frequenta a quadra comercial com a mesma intensidade de antes. Impossível chamá-los a todos neste breve painel, onde tento apenas ilustrar com alguns personagens conhecidos a animação do quartier que, em certo sentido, poderia também, numa versão mais “tapuia”, ser identificado como “o pedaço”.

É que, com as devidas compatibilizações, a noção de “pedaço” utilizada por Magnani ao trabalhar o universo de um bairro periférico da grande São Paulo harmoniza-se com a ideia de cenário ampliado da quadra, pelo menos quando se retém na noção de “pedaço” a sua condição de lugar “onde se tece a trama do cotidiano e espaço de mediação entre o lar e o resto do mundo”.

Girando o dedo indicador ao lado da fronte, no gesto que na identificação popular traduz “uma coisa de doidos”, o jovem estudante interpela-me no estacionamento da universidade, entre perplexo e curioso: “Professora, é você que trabalha com o imaginário ?” Afirmando que sou uma delas, tentei resumir o que andamos fazendo em nosso grupo de estudos. Talvez por sincronicidade, ao buscar um exemplo, lembrei-me de minhas reflexões sobre o cenário ampliado da 205 Sul e acabei sabendo que o interessado aluno é um ator do “pedaço”, pois mora na 405 Sul. Com uma breve troca de palavras, tentei esclarecer os contornos de uma noção que, mesmo presumidamente entendida, não logrou escapar do gestual reproduzido durante todo o tempo. De todo modo, como membros do quartier, partilhávamos representações gestadas no imaginário comum e vivenciávamos experiências cotidianas análogas.

De volta das férias, e contando ainda com o espaço fora da sala de aula, ocupei-me com o presente texto. Na mesma ocasião tomava algumas providências que, uma vez iniciado o semestre, acabam sendo sempre adiadas. Pequenos consertos, uma revisão nos armários e mais uma estante, pois novamente se repetia a situação – as novas aquisições sempre “imperdíveis” faziam pilhas sobre a mesa de estudos e disputavam com os CDs mais recentes, igualmente imperdíveis, um lugar ideal.

Enfim, era preciso chamar “seu” Edmundo, o nosso marceneiro. Nos dias em que trabalhamos juntos, eu neste ensaio e ele nas estantes, o incômodo barulho das ferramentas não deu conta de obscurecer aquela sociabilidade de base que saía dos livros para ganhar visibilidade na pratica cotidiana. Nos “recreios”, partilhávamos o cafezinho e conversávamos. Há mais de uma década com “ponto” na 205 Sul, o discurso de “seu” Edmundo traz as marcas que naturalmente respondem a indagações da minha pesquisa, como que traduzindo, de modo singelo, os nexos entre espaço e socialidade e a fecundidade da sinergia que as preside.

Se, como ensina Barbero, o imaginário “no es sólo aquello de que trata un discurso sino aquello de que está hecho”, a prosa de “seu” Edmundo, carregada ainda de um forte sotaque piauiense e eivada de provérbios populares, parece legitimar, apesar dos percalços de sua luta diária, aquele “gosto muito de estar aqui”, tão bem trabalhado por Certeau em suas reflexões sobre lugares, espaços e práticas cotidianas.

Partilhando a experiência comum da quadra, alternando nossos relatos pessoais, desdobro com”seu” Edmundo fragmentos de enredos “empilhados em um lugar” que outro não é senão a quadra, daí as mesmas ressonâncias. É ainda Certeau quem resume:

“O memorável é aquilo que se pode sonhar a respeito do lugar (…) nesse lugar (…) a subjetividade se articula sobre a ausência que a estrutura como existência e a faz “ser-aí” (…) este ser-aí só se exerce em práticas do espaço, ou seja, em maneiras de passar ao outro”.

Não me surpreendi com a compreensão que “seu” Edmundo demonstrou ao naturalizar a justeza dos meus estudos atuais e percebi que, de algum modo, consegui passar-lhe meus propósitos. Com um sorriso significativo, ele meneou a cabeça como que discordando do gesto adotado pelo estudante, e que eu reproduzia ludicamente, para falar sobre o imaginário da quadra. Segundo “seu” Edmundo, “há coisas que mesmo a gente não explicando muito bem, a gente sente. Acho que é o caso nosso com a quadra”.

Ou muito me engano ou pelo menos na primeira parte da fala meu amigo marceneiro entrou em perfeita sintonia com o antropólogo Durand, a quem parafraseou. Para ambos, o imaginário, antes de mais nada, manifesta-se. Percebo que “seu” Edmundo e eu, por diferentes vias, chegamos às mesmas representações sobre a quadra e seu cenário ampliado. Claro que entrevistarei “seu” Edmundo. Naquele final de tarde prosseguimos conversando, e nossas impressões, ao confluírem, revelavam um mesmo “processo de captação espacial”.

Na janela, a festa cotidiana do lago iluminado mais uma vez homenageava, cúmplice e ritualisticamente, a quadra onde moro e seu cenário ampliado, como que referendando a minha escolha.

Texto de especialização da autora, no Programa de Pós-Graduação em Comunicação da FAC/UnB, organizado pela Professora Cremilda Medina: “Narrativas a céu aberto: Modos de ver e viver Brasília”, 2007.


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