O Plano Piloto em 1957

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O Plano Piloto em 1957

Por Manuel Mendes

Em 1957 o Plano Piloto era, ainda, um vasto cerrado. Os tratores haviam rasgado os dois eixos e existiam dezenas de caminhos, no meio do mato, de um acampamento para outro ou para lugar nenhum, abertos pelos próprios jipes que serpenteavam, respeitando as árvores mais grossas, que não podiam derrubar. Muitas vezes nos perdíamos nesse labirinto de vielas, com um cerrado monotonamente igual. Ninguém conhecia os endereços pelo número da quadra e sim pelo Instituto ou firma responsável pela obra que ali executavam. Assim, a SQS 108 era o IAPB; a 107/307, o IAPETEC ou Cavalcanti Junqueira; a 106, o IAPC ou Kosmos; a 105, o IAPI e as 206 208, o IPASE. Mais tarde foram construídos pequenos apartamentos na Quadra 410, que ficou conhecida como "JK" porque, diziam, os apartamentos ali tinham apenas janela e kitchnete. A Quadra 409, também construída pelo IAPI, ficou conhecida como o "IAPI pobre’, porque os blocos ali não tinham elevadores, ao contrário da SQS 105. Só depois da mudança da Capital é que as quadras começaram a ser conhecidas por seus números.

Foto: Arquivo Público do DF

As únicas obras definitivas em execução, no Plano Piloto, em fins de 1957, eram o Palácio da Alvorada e o Brasília Pálace Hotel.

As fundações dos primeiros blocos de apartamento, nas superquadras, só seriam feitas nos primeiros meses de 1958, pois os diversos institutos, como o IPASE, estavam ainda na fase de instalação de seus acampamentos e de grupos geradores, para dar início à obra.

Todos os acampamentos tinham mais ou menos os mesmos problemas e dificuldades que enfrentávamos no IPASE. Todos tinham partido de uma instalação provisória inicial, para daí sair para um acampamento completo, que permitisse cumprir o programa de obra que o Presidente exigia.

Como não havia eletricidade em Brasília, cada acampamento tinha de instalar seu próprio grupo gerador para mover as serras, betoneiras, vibradores, etc. Assim, cada um era uma pequena cidade em si, independente e com vida própria. Todos possuíam uma cantina que era o ponto de reunião das famílias, sobretudo aos sábados e domingos. Ali se faziam as festinhas de aniversário, o Carnaval, o São João ou o Natal. Alguns Institutos compraram projetores de 16mm para cineminha. O IPASE foi um deles. Como eu entendesse do assunto, em virtude de trabalho anterior em um colégio, onde era o encarregado do cinema para as crianças, acabei ficando com o encargo do cineminha do acampamento do IPASE. Era um trabalho duro. Alugávamos os filmes no Rio e eu tinha que ir ao aeroporto cada sexta-feira, receber o filme e despachá-lo de volta na segunda. No sábado fazia uma projeção para os funcionários, na nossa cantina e, aos domingos, para os operários, em seu acampamento, onde todos se concentravam no refeitório. Ainda hoje não consigo esquecer aquele cheiro de corpos suados misturado com o odor de resto de comida.

Também o IAPB e a Construtora Rabelo passaram a alugar filmes no Rio, para exibição, nos fins de semana, em seus acampamentos, tal como se fazia no IPASE. Isso me deu a idéia de procurar os encarregados daqueles cineminhas e fizemos uma espécie de "pool" para utilização comum dos filmes. Assim, alugando apenas um filme por semana, podíamos assistir a três. Para tanto, passamos a exibir filmes em nossas cantinas às sextas, sábados e domingos e meu trabalho naturalmente triplicou e nada recebia por isso. Era apenas o desejo  de servir, fruto de um natural impulso de cooperação muito comum em todos os acampamentos e de que voltarei a falar depois.

Para os operários, passávamos filme apenas aos domingos, pois, nos outros dias o trabalho ia até às 23 horas. Antecipamos a exibição do filme para os operários para às 18 horas, para dar tempo de uma outra projeção, para os funcionários às 20 horas. E tudo isso em locais diferentes, carregando projetor e filme num jipe.

Quando o trabalho no escritório apertava e tínhamos que entrar pela noite, não passávamos filme às sextas e exibíamos dois aos sábados. Muitas vezes passávamos o mesmo filme, numa mesma noite, em dois acampamentos. Para tanto, começávamos a exibição em horário diferente, de forma que, após projetar o primeiro rolo de filme, mandávamos o motorista levá-lo ao outro Instituto, onde começava a sessão e assim fazíamos com os demais rolos, até o último. Toda a coordenação ficava a meu cargo e todos os filmes vinham para minha mão, para elaboração do programa e distribuição.

É bom lembrar que estávamos vivendo num acampamento e o cineminha era a única distração que se podia oferecer.

Em agosto de 1958, com a instalação do primeiro grupamento da Força Aérea em Brasília, eles também compraram um projetor de 16mm e, por solicitação do então capitão-médico Roberto Penteado, ainda hoje vivendo em Brasília, passei a projetar filmes também naquele grupamento, nas noites de folga, nascendo aí uma boa amizade com os primeiros oficiais que vieram para Brasília. Como agradecimento, em outubro de 1958, quando aquele núcleo pioneiro da FAB decidiu fazer a primeira celebração da Semana da Asa em Brasília, tomei parte ativa na programação e recebi um diploma de reconhecimento e a permissão de levar cerca de 70 operários do IPASE, que nunca haviam visto um avião, para vôos panorâmicos sobre Brasília.

O nosso "pool" cinematográfico trouxe uma maior aproximação entre os acampamentos. Apesar do meu trabalho intenso, na chefia do Almoxarifado Geral do IPASE, aproveitava os domingos para tornar essa aproximação mais efetiva ainda, ajudado por Ana, sempre muita ativa e dinâmica, procurando quebrar a monotonia de uma vida fechada, num mesmo pequeno grupo. Em conseqüência disso cada acampamento organizou um time de vôlei e, na Semana da Pátria de 1958, com a cantina do IPASE já pronta (era uma das melhores de Brasília na época), decidi organizar um torneio de vôlei, numa quadra que improvisamos em frente de nossa cantina, na área verde que separa a SQS 207 da 206. Os jogos foram realizados no dia Sete de Setembro, com muita alegria, animação e barulhenta torcida, formada principalmente pelas esposas dos jogadores. Ainda hoje guardo comigo fotografias de alguns daqueles times e recordo os nomes de vários participantes – Teodoro Bayma de Carvalho, engenheiro da Cavalcanti Junqueira e responsável pelas obras da SQS 107, e fundador do Cota Mil Iate Clube; engenheiro Cláudio Sant’Ana, da Kosmos Engenharia e responsável pelas obras da SQS 106; engenheiros Luiz Roberto e Nicolau Pederneiras, arquiteto José Francisco Mendes del Peloso e o procurador Irenêo Joffyli Neto, do IPASE e ainda outros do IAPB e IAPI.

Ao lado do campo, num mastro tosco, a Bandeira Brasileira, solenemente hasteada, ao se aberta a cerimônia, ao som do Hino Nacional, tocado numa vitrola, arranjada pelo sr. Sílvio Monteiro de Barros, outro pioneiro ainda hoje vivendo em Brasília, apesar do susto que nos causou uma noite, pouco depois daquele dia, sofrendo um enfarte, em nossa cantina, o primeiro registrado no acampamento. Internado no Hospital do IAPI, recuperou-se, para alegria de todos.

Para quebrar o calor, nos intervalos dos jogos, distribuímos laranjas que, na véspera, fora apanhar na fazenda perto de Brasília, na estrada velha de Luziânia, área onde, dois anos mais tarde instalaria a Granja Bom Jardim.

Para os operários, organizamos também uma bonita festa, no dia Primeiro de Maio de 1958, Dia do Trabalho. Foi programado um torneio de futebol, numa quadra improvisada exatamente onde hoje ficam as lojas e a rua que separam as SQS 206/205.

Participaram times de futebol representando os diversos acampamentos e até uma equipe de Luziânia. O chute inicial foi dado pelo pioneiro Padre Raimundo, do Colégio Dom Bosco. No meio da torcida, um operário tocando sanfona e o nosso colega Clério Gomes brandindo uma corneta que arranjara não sei onde. De tudo isso guardo comigo algumas cenas que filmei em 16mm.

As celebrações em Brasília se resumiam em quatro festas por ano: Natal, com distribuição de presentes; dia primeiro de Janeiro, com um churrasco reunindo funcionários e operários; dia primeiro de Maio, jogos e churrasco para os operários; e dia Sete de Setembro, jogos e churrasco para os funcionários, com a participação de alguns convidados de outros Institutos. Os demais dias, mesmo o carnaval, eram de trabalho intenso das sete da manhã às 11 da noite, com algumas ocasiões em que se chegou a trabalhar 24 horas por dia. Disso, porém, voltaremos a falar logo adiante. No momento quero continuar descrevendo como vivia uma família, naquele início de 1958, no canteiro de obras que era Brasília.

 
Manuel Mendes
"Meu Testemunho de Brasília"

 

 

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O Homem

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O Homem
Por Clemente Luz

Muitos dizem que ele é um homem mau.

Outros, que é apenas um homem difícil ou complexado.

Há, ainda, os que afirmam, simplesmente, que ele é contundente.

Na verdade, é somente um homem carregado de problemas e de tarefas, que o tornam silencioso e solitário – interpretam os mais íntimos.

Mas, apenas ele e poucos dos que acompanham os seus passos, diariamente, sabem das dimensões tremendas das responsabilidades que pesam sobre seus ombros… Responsabilidades amplas demais para a exigüidade dos ombros de um homem só!

E, na dureza de suas palavras, no silêncio de sua boca, na rigidez dos seus atos, o homem é mesmo difícil e contundente, sabe dizer não, de modo definitivo e inapelável, no momento exato. E sabe dar a ordem irreversível, na hora propícia e madura da realização.

Deram-lhe a tarefa imensa. Mostraram-lhe os meios e os recursos para a execução em tempo limitado e desafiante.

E a voz superior, partida da boca amiga e companheira de JK, bateu-lhe aos ouvidos, como uma ordem:

– Deixe de lado a carreira, sacrifique o corpo e a família, se for preciso, mas vá ao Planalto Central e faça uma cidade. Faça uma cidade em nome do povo!…

A ordem, traduzida pela voz do amigo, entrou pelo coração adentro e se transformou em obsessão quase bíblica.

…O homem pôs mãos à obra.

Reuniu os primeiros voluntários da grande legião que deveria formar. Estabeleceu os primeiros postos de comando, recebeu do Poder a indicação de nomes para os cargos de direção.

E empreendeu a marcha rumo à Terra Assinalada…

Pelos caminhos do céu e da terra, as caravanas avançaram, dia e noite, sob seu comando.

Não teve de fazer parar o sol, nem abrir o mar ao meio para a vitória ou para o trânsito de seu povo.

Mas teve que perder amigos e que fazer inimigos.

Teve que abrir as florestas ao meio e ultrapassar os rios para instalar as estradas. Teve que remover rochas e montes, construir montanhas de terras e vales de cascalho, para edificar a cidade…

Chegou com sua tribo familiar, alojou-se no quarto exíguo da casa de madeira, plantada ao pé de um olho-d’água.

Passando a mão espalmada sobre o rosto – sinal difícil de ser entendido mesmo pelos mais íntimos, talvez pela própria mulher – olhou a imensidão agreste e seca, mirou os horizontes sem fim se fechando em círculo sobre seu coração. Fixou longamente, como se quisesse gravá-lo na memória, o ponto do mapa assinalado pela visão do profeta e pela decisão do povo.

 A seu lado, os companheiros aguardavam em silêncio.

 Do fundo do coração subiu mais forte, como um eco repetido por mil encostas, a voz amiga de JK ordenando:

– … E faça uma cidade"

Baixou os olhos por um segundo, como a pedir proteção. Ergueu-os, mirando de novo o imenso descampado nu, e, em seguida, estendeu o braço direito. Apontou com o indicador o ondulado do planalto e disse, seco e definitivo:

– Seja feita a vontade do povo! Cumpra-se o desafio do legislador! Faça-se aqui a cidade!…

E, de seu pequeno quarto no Catetinho, trocando o conforto da cidade pela poeira e pelo barro do planalto, com o coração rejuvenescido pela esperança e pela certeza, comandou o grande exército de homens e máquinas, fazendo com que tudo fosse coordenado e realizado no tempo previsto, para que a visão do profeta e a letra fria da lei se tornassem realidade, aos olhos do mundo.

E, na Terra Assinalada, a Cidade nasceu e se compôs, dentro das linhas demarcadas pelos artistas e pelos técnicos, dentro dos limites fixados pela lei.

Foi assim, sob o comando de Israel – homem difícil e contundente, que a Cidade se corporificou no tempo próprio, para se transformar em coração e cérebro de um povo que crê no seu destino.

A cidade é essa que amamos, chamada Brasília.

A cidade que, sendo eterna, inscreverá na eternidade da História o nome daqueles que tornaram possível a sua edificação.

 
Reproduzido do livro "Invenção da cidade", de Clemente Luz

 

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11 de novembro de 1957

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11 de novembro de 1957
  Por Manuel Mendes

 
Inicio este livro com uma data. Data que marcou uma passagem decisiva de minha vida. (…)
Era uma tarde quente, característica do verão no Planalto em um dia sem chuva. O céu de um azul impressionante, salpicado aqui e ali por grandes pedaços de nuvens brancas e brilhantes.
Desci do DC-3 meio cambaleante, depois de uma viagem que começara às sete da manhã, no Santos Dumont, Rio de Janeiro, com passagem por São Paulo, onde trocamos de avião. O vôo não podia ser mais cansativo, com paradas em Uberaba, Uberlândia, Araguari e Goiânia, até chegar a Brasília que me pareceu, então, infinitamente mais distante do Rio do que é hoje, onde podemos ir agora em menos de uma hora e meia.
Eu fazia parte do segundo grupo pioneiro que o IPASE – Instituto de Previdência e Assistência dos Servidores do Estado – mandava para Brasília. Neste segundo grupo havia mais três companheiros: Lineu Selos, Paulo Frederico da Costa Ferreira e Alfeu Gadelha. Este último, coitado, fez uma viagem horrível, pois começou a enjoar já no trecho Rio-São Paulo. Em todo o percurso permaneceu enrolado em um cobertor, sem falar e, praticamente sem se mexer.
O tempo por vir iria mostrar, aliás, que daquele nosso grupo de quatro o Gadelha seria o menos feliz. Poucos meses depois de estarmos em Brasília, ele sofreria um fratura complicada no pé, num acidente de jipe, obrigando-o a usar muletas por muito tempo. Viúvo, deixara uma noiva no Rio, com quem se casaria um ano depois, trazendo-a para Brasília. Em dezembro de 1962, uma semana antes do Natal, sua esposa tomou ônibus para ir ao Rio, juntar-se à família. Gadelha iria depois. Era época de muita chuva e a viagem noturna. O rio da Prata, transbordando, arrancara o vão central da ponte, na recém inaugurada rodovia Brasília-Belo Horizonte. Com a chuva e o escuro, o motorista não percebeu, a tempo, que faltava um pedaço da ponte e caiu nas águas. Morreram dezenas de pessoas, entre elas a segunda esposa do nosso colega Gadelha que passou dez dias de ansiedade, sacrifício e sofrimento, ao lado do médico Rômulo Maroclo, praticamente morando às margens do rio com as turmas de resgate, sem que o corpo da mulher jamais tivesse sido encontrado.
Mais feliz foi o sr. Pedro Teixeira, hoje titular do Cartório de Títulos e Protesto e um dos passageiros daquele fatídico ônibus. Ele conseguiu sair por uma janela e ficou preso a uma galhada de paus, até ser encontrado na manhã do dia seguinte.
Mas, tudo isso, no momento, estava longe de nós, fazia parte daquele futuro que Deus, em sua infinita sabedoria, esconde-nos. O que sabíamos é que estávamos ali, na escada do DC-3, onde fomos efusivamente recebidos pelos nossos colegas do IPASE que estavam em Brasília há alguns dias. O entusiasmo e a emoção com que fomos recebidos pareceram-me, na ocasião, exagerados, pois alguns tinham os olhos rasos d’água e, afinal, éramos apenas colegas de um mesmo Instituto, sem maiores laços de afeição. Alguns dias depois eu iria compreender a razão dessa alegria incontida – a imensa solidão em que vivíamos naqueles primeiros dias transformavam a chegada de alguém na vinda de um irmão há muito esperado. Brasília era o fim do mundo!
Trocados os abraços, feitas as perguntas próprias das circunstâncias –  E já agora com o Gadelha mais animado, talvez pelo calor da recepção – atravessamos a pequena estação de passageiros do aeroporto, onde apanhamos nossa bagagem. Lá fora uma dezena de jipes, marcados com grandes letras das siglas dos diversos institutos a que serviam.
A terminal aérea era uma força de expressão. A pista, a mesma que hoje utilizamos, então um pouco mais curta, era boa. A estação de passageiros, a primeira de Brasília, naquela área, era um simples barracão de madeira, na extremidade norte da pista, na área onde hoje está instalado o VI Comando Aéreo Regional.
O barracão era retangular, bem construído e com piso de cimento. De um lado, os boxes para atendimento dos passageiros, uma área livre ao centro, para circulação e que abria para o pátio e para a pista. Na outra extremidade, um bar e restaurante, um dos recantos mais acolhedores de Brasília de então, não apenas pela qualidade da comida, limpeza do ambiente, mas pelo "whisky" contrabandeado via Belém, por preços bastante acessíveis. Havia ainda a gentileza do concessionário, um pioneiro que ficou conhecido de todos como Laurindo de Araxá (Lauro Santos).
Ao lado de tudo isso, o aeroporto era, em 1957, o único local onde se podia conseguir jornais, tirados dos aviões, e encontrar gente vinda do Rio e de São Paulo, trazendo novidades. Ainda que as pessoas que chegassem fossem estranhas, eram gente – e gente era o que a gente queria ver, para afugentar a solidão. Por tudo isso formou-se um pequeno grupo que freqüentava o aeroporto, nos finais da tarde e que ficou conhecido como "AFA" – Associação dos Freqüentadores do Aeroporto – um dos primeiros clubes de Brasília, constituído pelo processo natural, sem estatutos e sem taxa de freqüência, mas com distintivo e tudo.
A maior parte da "AFA" era formada por engenheiros e constituída um clube essencialmente masculino, com honrosas exceções, como a nossa amiga Talita Aparecida de Abreu, que chegou a Brasília em 1957, como Tesoureira do IAPETEC (Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Empregados em Transportes e Cargas) e se transformaria depois, com a fundação do "Correio Braziliense", em abril de 1960, na primeira colunista social da nova Capital, sob o pseudônimo de "Katucha" que todos conhecem.
Vale lembrar aqui que a fundação do Cota Mil Iate Clube nasceria, depois, de um grupo da "AFA", composto dos engenheiros Teodoro Bayma de Carvalho (Cavalcanti Junqueira) e Gilberto Scarpa (Estacas Franki) e da própria Talita de Abreu, e dos senhores Walter Galante e Obdego Batista.
Foi esta terminal, pequena, movimentada apenas nas horas de partida e de chegada dos aviões – raros então – que encontrei naquela tarde ensolarada de 11 de novembro de 1957.
Já no pátio, olhei em torno. Nada. Silêncio. Dois carneiros tranqüilos. Céu azul. Nuvens brancas. Horizontes amplos e o cerrado igual por todos os lados. A cidade era ainda um sonho, uma vaga esperança.
Duas estradas de terra partiam do pátio do aeroporto e se perdiam no cerrado mais na frente. Uma seguia à esquerda, em direção dos acampamentos da NOVACAP (Companhia Urbanizadora da Nova Capital) e da Cidade Livre; a outra, um pouco à direita, ia para o Plano Piloto, passando pela altura dos atuais QI e QL 4 e 5, alcançando a área da Embaixada da Espanha, depois de atravessar um pequeno córrego, por uma ponte de toros, na altura da atual ponte número 2, até alcançar o Plano Piloto, passando pelas Embaixadas da Áustria e do Japão, atingindo as quadras 407 e 207.
Logo que deixávamos o pátio do aeroporto e tomávamos essa velha estrada, uma grande placa, em forma de seta, apontando para o Plano Piloto, lembrava a polêmica que a construção da cidade desencadeara – "Brasília – alguns contra; muitos a favor: todos beneficiados". Na verdade a placa era otimista, pois, na ocasião, o correto seria dizer: muitos contra e poucos a favor!
Quero me deter um pouco mais na impressão que senti naquele primeiro dia. Não fora fácil para mim decidir aceitar o convite que o Dr. Irineo Jofilly Neto me fizera, no IPASE,  no Rio de Janeiro, onde eu trabalhava como Encarregado da Seção Imobiliária, para vir para Brasília.
Conhecia o Dr. Jofilly Neto há algum, pois,  minha Seção pertencia à Divisão que ele chefiava no IPASE. O Dr. Jofilly fora nomeado, naqueles dias, para integrar a Comissão Especial de Obras em Brasília, conhecida pela sigla "CEOB’. Os outros membros da Comissão eram o engenheiro Levi Furtado e o Dr. Glauco Lessa, que seria, anos depois, já com Brasília Capital, Diretor do DASP e Ministro do Tribunal de Contas da União.
 
Reproduzido do livro "Meu Testemunho de Brasília", de Manuel Mendes

 

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Um ideal em comum

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Um ideal em comum
   Por Ernesto Silva
 
"Minha primeira noite em Brasília não teve descanso. Recordá-la-ei como uma noite sem sono. Ali, onde a história se faz com pressa, dia e noite, não houve descanso para mim, mas por que havia de havê-lo quando todos estavam trabalhando?"

Juan Manoel Garcia Puga, no diário El Ideal Gallego, de La Coruña, em 23 de abril de 1959
 
Brasília começou do NADA. Não havia casas, instalação elétrica, água, recursos humanos. NADA, absolutamente NADA. Ter-se-ia que fazer o provisório ao lado de definitivo. Não havia qualquer ponto de apoio para a execução do trabalho.
E, se o milagre se operou, é que Brasília foi construída a partir dos impulsos dos mais nobres sentimentos e uma inabalável fé nos destinos do Brasil. Todos eram solidários, todos participavam de um mesmo ideal e se sentiam como se fossem membros de uma só família.
Todos se trajavam de maneira semelhante. O candango anônimo era um amigo dileto do engenheiro e todos se encontravam nos mesmos bares, restaurantes, até mesmo na mesma mesa. Pretos, brancos, brasileiros e estrangeiros deram um exemplo de solidariedade talvez jamais visto em qualquer outra parte. O ideal e a fé, o entusiasmo e o desejo de realizar algo de novo e excepcional, a fascinação do empreendimento, a solidariedade e a ausência da interferência política (importante) foram muitos dos motivos que nos levaram a construir em tempo recorde a mais bela e a mais moderna cidade do mundo.
Se alguém chegava a Brasília com idéias menos nobres, de explorar o próximo ou ganhar dinheiro fácil, dentro de pouco tempo se definia: ou deixava Brasília por se sentir um intruso ou se incorporava à legião dos que somente pensavam no trabalho cotidiano e lutavam por um ideal comum.
E assim se desenrolava a vida nesses ermos. À proporção que os dias avançavam, maiores eram as responsabilidades, principalmente depois que se concretizou o que se chamou de DESAFIO DO CONGRESSO, isto é, a fixação da data da mudança da capital para 21 de abril de 1960. Estávamos, então, a 1º. de outubro de 1957 a dois anos e meio da data fixada.
A 21 de abril de 1960, perante milhares de turistas, do corpo diplomático, dos heróicos construtores da cidade, do povo da região, Brasília se transforma na Capital do Brasil.
Naquele momento, a cidade representava o fim da epopéia, da música trepidante e da luta frenética, o epílogo do trabalho ininterrupto. Era o inicio do cotidiano e da rotina – sem grandeza, sem entusiasmo, sem gosto de heroísmo.
Os que a planejaram e a construíram sentiam, naquele momento, de antemão, uma saudade imensa, como que experimentassem a perda de um ente querido.
Após receber de Israel Pinheiro a chave da cidade, às 16h do dia 21 de abril, Juscelino se dirige à multidão presente na Praça dos Três Poderes:
"Brasília só pode estar aí, como vemos, e já deixando entender o que será amanhã, porque a fé em Deus e no Brasil nos sustentou a todos nós, a esta família aqui reunida, a vós todos, candangos, a que me orgulho de pertencer. Reconheço e proclamo, neste momento, que sois a expressão da força propulsora do Brasil. Ninguém vos subtrairá a glória de terdes lutado nesta tremenda batalha. Com o pensamento na Cruz em que foi celebrado o Santo sacrifício, peço ao Criador que mantenha cada vez mais coesa a unidade nacional, que nos dê sempre esta atmosfera de paz, indispensável ao trabalho fecundo, e conserve em vós, obreiros de Brasília, o mesmo espírito forte com que erguestes a grande cidade."
Ao completar 48 anos, Brasília entusiasma os que a visitam e acolhe e afaga os que nela vivem.
Mas, crescendo a população incomensuravelmente, descaracterizando o Plano Urbanístico de Lucio Costa em todas as escalas, pergunto: qual será o destino desta cidade "edificada no entusiasmo e na precipitação de uma das maiores epopéias da História dos homens?
Tornar-se-á uma metrópole gigante, ingovernável e desumana?
 
Ernesto Silva
Presidente da Comissão de Planejamento da Construção e da Mudança da Capital Federal (1956)

 

 

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Encontro Matinal

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Encontro Matinal
 
O Pequeno Príncipe saiu do livro e sentou-se à beira da mesa onde eu me preparava para trabalhar. Olhou-me com seus olhos profundamente azuis e perguntou-me:
 
– O que é que você está fazendo ?
– Trabalhando – respondi-lhe.
– Com quê ?
Mostrei-lhe a máquina de escrever, o papel, o teclado, e lhe expliquei o meu trabalho.
Não ficou satisfeito. Perguntou de novo:
– Mas isso não é tudo. Com que é que você trabalha?
Respondi-lhe, seco:
– Com as palavras!
– Como ?
Com paciência, expliquei:
– Eu coleciono as palavras no papel, na ordem necessária para a fixação das idéias, e, no fim, escrevi alguma coisa…
– Para quê? – perguntou o Principezinho.
– Ora, para que os outros escutem ou leiam.
O Principezinho coçou a cabeça, baixou os olhos, ficou pensativo e, de repente, agitou os louros cabelos e falou:
– Vi muitos homens revolvendo a terra, vi uns monstros esquisitos rasgando vãos na terra e vi outros homens dependurados de umas armações vermelhas. Vi também coisas redondas, coisa bonitas, inclusive uma coisa leve, leve, pousada no chão, com jeito de navio…
Fez uma pausa, e perguntou:
– Que é que esses homens estão fazendo?
– Uma cidade – respondi-lhe. – E aquilo que tem jeito de navio é o Palácio. E é sobre essa Cidade que escrevo…
Ele riu o seu riso claro e disse:
– Engraçado, no meu planeta isso não seria possível…
– Por quê? – perguntei.
Ele não respondeu e prosseguiu:
– Estão construindo uma cidade… Para quê?
– Para mudar a sede do Governo.
Perguntou:
– Para quê?
Dei-lhe uma longa explicação, falei da necessidade de interiorização da Capital, etc e tal. O Pequeno Príncipe, sem curiosidade, olhou-me e disse:
– Tudo isso é muito importante, não há dúvida! Mas o mais importante é a gente ter o coração limpo de ódio, cheio de amor, para receber uma cidade nova, como esta que está sendo construída… O essencial de tudo não é aquilo que a gente vê, mas aquilo que a gente sente da ponta dos cabelos até ao fundo da alma…
Dizendo isto, meteu-se entre as folhas do livro e foi cuidar de sua rosa, no seu pequeno asteróide.
Voltei, sem espanto e sem desespero, ao meu humilde trabalho de domesticar palavras, para contar coisas sobre a Cidade que nascia…
 
Clemente Luz
"Invenção da Cidade"

 

 

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