Visita Inesperada

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Visita Inesperada
Por Clemente Luz

Não vi a porta abrir-se, mas, de repente, senti que alguém estava a meu lado, ouvidos atentos ao que saía do rádio. Olhei. Dois olhos azuis, em rosto sorridente marcado pelo tempo, fixaram-se nos meus e interrogavam, como há dois anos. Aumentei o volume do receptor, para que o som se repartisse e penetrasse eqüitativamente os dois pares de ouvidos.

– Como vão as coisas? – perguntou-me.

Desta vez, porém, não queria saber sobre o mundo, sobre as ameaças de guerra ou sobre a luta fria de potências, pelo domínio da energia nuclear. Queria notícias de Brasília, a cidade que, juntos, vimos nascer e ensaiar os primeiros passos. Desliguei o rádio, voltei-me inteiramente para o visitante, sem surpresa. A batina surrada trazia a mesma poeira e denotava a mesma pobreza de dois anos atrás.

Fez um gesto largo de desculpas, com as mãos enormes:

– Como vê, andamos na mesma. E esta manhã, como sei que você não é de fazer visitas, deixei minha morada e subi a Avenida W-4, que, no meu tempo, ainda não existia, para saber as novas da “cidade do leite e do mel…”

– Do leite e do mel é coisa de profecia… Na verdade, hoje é a cidade da chuva e do barro.

Riu sem convicção, ajeitou-se na cadeira e esperou.

Ofereci-lhe café.

– Obrigado. Estou livre desse problema, embora sinta saudade de seu cafezinho.

Tocado por um vago sentimento de saudade e de tristeza, comecei a falar:

– Pois é. A cidade está pronta. Bela na sua concepção urbanística e arquitetônica, aí está, plantada no chão e no tempo, para a eternidade. Mas não é mais nossa. Nem é muito humana, embora os ares se encham dos cheiros e das fumaças dos fogões domésticos, do choro das crianças, do lamento dos corações solitários, da gargalhada histérica dos novos-ricos e dos boêmios inveterados, do ruído rangente dos freios de veículos, que mãos alucinadas dirigem. As salas vazias dos palácios e blocos ministeriais se povoam lentamente de estranhos, aos olhos longínquos e tristes dos candangos, que vão tendo a entrada barrada nas portarias…

Ele suspirou fundo e deixou escapar a exclamação saudosa:

– Naquele tempo…

Sim, naquele tempo…Sayão cavalgava tratores e aviões, vencia o planalto, dominava a floresta. Mas Sayão pagou o tributo dos bravos e inaugurou o cemitério…

Ele voltou a suspirar:

– O cemitério…Lá é tão frio, tão triste, tão distante dos corações! As gentes que ali chegam não levam carinho. Levam tristes corpos vencidos pela cidade!…

Retomei a palavra:

– Imagine, amigo, como estamos ficando sozinhos, embora cercados por multidões cada vez maiores. Os de ontem, que caminharam no barro e na poeira do nosso lado, deixam a cidade, praticamente expulsos pela engrenagem voraz da realidade, que é fria e impessoal. Retornam à terra de origem ou procuram outras frentes de trabalho, onde não lhes faltam comida e teto.

Embora com aparente alegria pela partida, não conseguem esconder, nos gestos e na voz, a tristeza amarga dos expulsos…

Fiz uma pausa, para concluir:

– Muita coisa mudou aqui no Planalto. Até as ruas, como viu na subida pela Av. W-4. Os edifícios, que vimos nas estruturas, estão sendo habitados. A cidade que era traço no papel e imagem na visão do arquiteto e do urbanista aí está, quase plena. Muitos tomam o lugar de muitos, nos escritórios e nas casas, como tomariam o seu lugar, na casinha da Quadra 31. Não tomaram, entretanto, o seu lugar no coração dos amigos…

Levantou-se de mansinho, atravessou a porta sem abri-la, acenou adeus com a mão direita e desceu os três degraus da escada. Olhou longamente para o lado de sua casa a poucos metros de distância, como a dar-lhe um último adeus.

Sayão, vestido de candango, com a permanente bota, cortada à altura do calo, tomou-lhe carinhosamente o braço dizendo:

– Vamos, Padre Primo! Hoje devemos ter visitas…se é que ainda se lembram de nós.

Os dois vultos se distanciaram, perdendo-se na névoa, que a chuvinha matinal fazia dançar no espaço, na triste manhã de finados…

Transcrito do livro “Invenção da cidade”, de Clemente Luz.

 

 

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A Capital Federal no Planalto de Goiás

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A Capital Federal no Planalto de Goiás
Por Marcelino Rodrigues Machado

Antes mesmo da Independência, já a necessidade de ser colocada a capital do nosso imenso país no seu centro, era defendida por alguns espíritos de larga visão, como Hipólito José da Costa e o Conde de Linhares. Na primeira Constituinte do Império, o Patriarca José Bonifácio apresentou um projeto nesse sentido, por intermédio do seu secretário, o deputado Dr. França. Durante o Segundo Reinado nada se fez para a realização dessa aspiração, mau grado a campanha desenvolvida por patriotas como Joaquim Caetano da Silva e Francisco Varnhagen, Visconde de Porto Seguro, que chegou a empreender uma dispendiosa viagem ao planalto. Na Constituinte Republicana, a idéia resurgiu, sendo vitoriosamente consignada no art. 3º. do nosso pacto fundamental. Incorporada assim à nossa lei básica, o grande Floriano Peixoto, consciente da sua missão de consolidador da República e do nosso imenso Brasil, apressou-se em nomear uma comissão para demarcar a zona do planalto reservado pela Constituição para a Capital Federal. A comissão que era chefiada pelo astrônomo Cruls, desempenhou-se cabalmente da sua incumbência, demarcando os 14.400 quilômetros quadrados e apresentando extensa descrição da região. Floriano Peixoto teria certamente iniciado a construção da capital se não fora a infeliz revolta da armada, que teve de dominar. Segue-se um período de dificuldades para o país e nele não se falou senão raramente na mudança da capital.

Com o desenvolvimento do país falam cada vez mais ressaltando os inconvenientes da permanência da capital em um centro cosmopolita como o Rio de Janeiro. Vindo para a Câmara em 1918, interessei-me desde logo por este assunto e convencido das inúmeras e enormes vantagens para o país sob todos os pontos de vista dessa mudança para o planalto, procurei colaborar nessa campanha, que considero a de maior urgência para a nossa grandeza e coesão.

De todos os tempos, o nosso problema fundamental tem sido o da unidade territorial, sendo hoje o Brasil a maior pátria do mundo sem solução de continuidade e habitada pelo mesmo povo sem diferença de língua nem religião. Os estadistas do período colonial resolveram o nosso problema, que é o das distâncias enormes e da dispersão dos núcleos de população, pela divisão em estados e capitanias que se comunicavam diretamente com a sede do governo português. Para eles, o essencial era a conservação da colônia e não a unidade da mesma. O nosso espírito de unidade anterior ao da Independência, como o demonstraram as expulsões de todos os estrangeiros com os nossos próprios recursos, teve a sua justa compensação por ocasião da nossa Independência.

Nessa época, se não fosse a feliz coincidência de, separando-nos da mãe pátria, continuarmos com o mesmo sistema de governo, isto é, com um príncipe cercado de prestigio, teríamos certamente nos fragmentado em várias republiquetas. Foi a figura prestigiosa de D. Pedro que serviu de ponto de interseção de todos os laços da nossa unidade.

Com o advento da República e o estabelecimento da forma federativa, em obediência a essas necessidades, os nossos estadistas tiveram de dar outra solução ao problema da nossa nacionalidade.

Em lugar da centralização pela forma de governo, conseguiremos o mesmo resultado, e definitivamente, pela ligação entre as várias partes do nosso imenso território. De fato, esta tem sido a política da República. E para esse resultado, que mais poderia concorrer do que a colocação da capital no centro geográfico do país, donde irradiarão linhas de comunicação para todas as suas partes!? Colocada em clima temperado, no centro geográfico do país, donde correm rios para as grandes bacias do Amazonas, São Francisco e Prata, a futura Capital Federal servirá de ponto de convergência, de União para as várias regiões da nossa pátria, ao mesmo tempo que concorrerá para o desenvolvimento do “hinterland” brasileiro.

Só então, quando do planalto central o Governo Federal puder abranger em um só golpe de vista toda a vastidão da nossa pátria; quando de lá irradiarem como os dedos de uma das mãos as vias férreas em todas as direções do nosso imenso território; quando fora do meio cosmopolita desta cidade estivermos impregnados da alma das populações do interior, que são o cerne da nossa nacionalidade e mais próximos e sob a inspiração do Cruzeiro do Sul; só então, o Brasil realizará a profecia de sermos o país do século XX!

Transcrito da revista “Brasília”, da Novacap, outubro de 1958, número 22.

 

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Houve quem discordasse de tudo quanto aqui vedes

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“Houve quem discordasse de tudo
quanto aqui vedes: houve quem
desaprovasse esse pelejar sem
descanso, esse afã, essa paixão,
essa pertinácia, que do nada vão
tirando uma cidade bela e racional
como um teorema, leve e airosa
como uma flor”

- Juscelino Kubitschek
 
 
“A cidade nova é a síntese ou a integração das artes, eis – senhores – o belo tema que vos congrega aqui, e que, melhor que em outro qualquer lugar, aqui encontra ambiência adequada ao seu debate.

Partindo de outra ordem de considerações; almejando, em sua luta contra o subdesenvolvimento, propiciar ao Brasil a base industrial, o crescimento harmônico, as vias de comunicação, o progresso técnico, tudo, enfim, que permitisse criar e acumular riqueza e viesse assegurar autonomia econômica – o meu governo observou que a transferência da Capital se engastava, como chave de abóbada, no plano geral que se traçara, e que esta corajosa iniciativa tinha de ser tomada, não só para cumprir um compromisso com o povo brasileiro, mas principalmente por ser uma imposição da economia, um imperativo da sobrevivência nacional.
 
Era preciso um gesto ousado, uma opção heróica. Este gesto se verificou. Esta opção se exerceu. Por isso, vós, que vindes ao Brasil para transcendentes debates no campo estético e científico, podeis encontrar-nos neste planalto, a mil quilômetros do mar, em local onde, há pouco mais de dois anos, tudo era silêncio, distância e infinita soledade.
 
Vejo, em nosso encontro, um símbolo. Nele reluz uma significação extraordinária. Sugere, ou antes, afirma, e veementemente, que o futuro tecnológico, econômico e social deste País não mais se construirá à revelia do coração e da inteligência, como tantas vezes ocorreu no passado, e ainda sucede no presente, mas erguer-se-á sob o signo da arte – signo sob que Brasília nasceu.

Houve quem discordasse de tudo quanto aqui vedes; houve quem desaprovasse esse pelejar sem descanso, esse afã, essa paixão, essa pertinácia, que do nada vão tirando uma cidade bela e racional como um teorema, leve e airosa como uma flor.
 
Se Brasília foi uma imprudência, viva a imprudência! Os que tem meditado, a fundo, sobre os destinos desta Nação, compreenderam Brasília e por ela se apaixonaram, cônscios de que, agora e não mais tarde, esta cidade tinha de ser erguida no Planalto.

Não foi por capricho ou fantasia que a Nação brasileira vinha clamando, em sucessivas gerações, pela transferência de sua Metrópole. Com a fina intuição das coletividades, a Nação pressentia que de Brasília viria o equilíbrio, a força distribuída, o desenvolvimento harmonioso deste País, vasto como um continente. Era necessário que o seu comando se deslocasse para o centro, mormente nesta grande hora em que o Brasil é tomado de um frenesi criador, como força irrefreável, em busca de uma vida melhor e mais alta. Se essa força não fosse dominada e orientada, se essa imensa energia, que se liberta, não se submetesse à linha mais pura do interesse nacional, o País marcharia em desequilíbrio e em insegurança, crescendo de um lado só, como um gigante coxo, e aprofundando ainda mais as diferenças que existem entre as suas regiões pobres e as suas regiões ricas.
 
Há quatro séculos o brasileiro se adestra para este arremesso decisivo contra a vastidão inexplorada e solitária dos nossos sertões. Brasília não poderia ter nascido antes: as circunstâncias não o teriam permitido. Devia nascer precisamente agora, como nasceu, porque os recursos da técnica, os modernos inventos hoje asseguram ao espírito pioneiro da nossa raça os instrumentos que antes lhe faltavam. Se não surgisse nesta hora, em que a Nação se vê psicologicamente preparada para o grande passo e encontra meios de realizá-lo; se continuasse a ser procrastinada, como um sonho utópico, a nossa geração teria sido, com justiça, acusada de inépcia e desídia; a nossa geração teria falhado e retardado, criminosamente, a marcha ascensional deste País.
 
Mas, aqui tendes Brasília, obra de juventude, obra de audácia, de uma Nação que se vê diante de um futuro esplendente e dispõe de energia bastante para antecipá-lo. Graças ao espírito inventivo de dois notáveis arquitetos brasileiros, dois corajosos inovadores, cujos nomes tem merecido a consideração dos meios cultos de todo o mundo, Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, e também à colaboração devotada de jovens talentosos que formam uma admirável equipe de urbanistas e arquitetos – nesta cidade, que a energia dos brasileiros faz surgir no coração do território pátrio, tudo é beleza, harmonia, equilíbrio, eficácia.

Foram precisos séculos, de esforço contínuo e vigoroso, para criar uma civilização brasileira, e para que esta civilização tomasse posse de si mesma, tornando-se apta a dirigir o seu próprio processo de crescimento e de renovação. Brasília é o fruto amadurecido deste longo esforço. Em cada pormenor do seu planejamento, seja na órbita política, seja na feição urbanística ou na forma arquitetônica, se imprimem, vivas, as características de singularidade que nosso povo alcançou, como civilização.
 
O Brasil pode mirar-se no espelho de cristal que a nova metrópole lhe estende: a singeleza da concepção e o seu caráter diferente, a um tempo rodoviário e urbano; a sua escala, digna deste País e de nossa ambição, e o modo como essa escala monumental se entrosa na escala humana das quadras residenciais, sem quebra da unidade, do conjunto; a idéia, enfim, de localizar a sede dos três poderes fundamentais, não no centro do núcleo urbano, mas na sua extremidade, sobre o terrapleno triangular, como palma de mão que se abrisse além do braço estendido da esplanada, onde se alinham os ministérios. Assim sobrelevados, e tratados com dignidade e apuro arquitetônicos, em contraste com a agreste natureza circundante, eles se oferecem simbolicamente à Nação e parecem dizer ao povo: votai, que o poder é vosso!
 
É palpável, está ao alcance de todos a dignidade da intenção que presidiu ao traçado desta cidade. Mas, discuti, discordai à vontade. Sois críticos, a insatisfação é o vosso clima. De uma coisa estou certo, porém, e a vossa presença aqui é testemunho disto. Com Brasília se comprova o que vem ocorrendo em vários setores da nossa atividade: já não exportamos apenas café, açúcar, cacau; em nossa pauta já não figuram somente produtos coloniais ou artigos de uma indústria que se expande: mostramo-nos capazes também de fornecer um pouco de alimento à cultura universal.
 
Espero que Brasília responda, por si mesma, a uma das indagações que constam do temário dos vossos debates – a saber, se tem a arte um papel na civilização que se abre. André Malraux, em palavras que ficarão gravadas na lembrança dos brasileiros, disse que, na verdade, se erige, aqui, a primeira capital da nova civilização; as grandes perspectivas da arquitetura moderna, que o nosso século não conhecia ainda, aparecem nesta cidade, a mais audaciosa concebida pelo Ocidente; nela, renasce, enfim, o lirismo arquitetural que floresceu no mundo heleno.

Brasília, civilização nova, é, pois, assistida pela arte, desde o berço, em pleno surgimento. Que mais significativa participação poderia a arte almejar no mundo que desponta?
 
Sede benvindos ao Brasil, senhores. Vejo, aqui reunidos, em jovial camaradagem, alguns dos mais altos expoentes da crítica de arte e da arquitetura, em todo o mundo. O povo brasileiro orgulha-se de vos receber. Vossa visita se inscreverá como um dos acontecimentos mais importantes da vida cultural deste País, onde o vosso nome é, há muito, admirado e respeitado.

Espero que, de regresso a vossas Pátrias, possais levar do Brasil uma imagem bela, e talvez o pensamento de que este povo jovem, ao mesmo tempo que procura o bem-estar material, busca, no domínio do espírito, satisfazer àquelas outras exigências, tão imperiosas na alma do homem, quanto as que dizem respeito a sua subsistência e segurança.”
 
Discurso do Presidente Juscelino Kubitschek na instalação do Congresso Internacional de Críticos de Arte. Brasília, 17 de setembro de 1959.

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Ernesto Silva, o pioneiro das memórias

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Ernesto Silva, o pioneiro das memórias
Por Ana Miranda
 
Sempre ouvi dizer que uma das pessoas mais atuantes na construção de Brasília foi o doutor Ernesto Silva.
Lembro da quadrinha popular, feita para celebrar a ativa cooperação dos três principais construtores da cidade:
 
O açúcar e o mel
são filhos de Israel.
A carne e o pão
são filhos de Sayão.
E o resto?
é do Ernesto.
 
Pensava que ele fosse engenheiro como meu pai, o qual falava nele com admiração, como se fossem colegas de trabalho. Talvez meu pai pensasse realmente tratar-se de um engenheiro, mas Ernesto Silva é médico, militar e, além disso, como um toque requintado, formado bacharel de letras, a citar frase de Oscar Wilde.

Não contente de trabalhar na comissão do marechal Pessoa para a localização da nova capital, de presidir a comissão composta para estudos de planejamento de construção e mudança da capital e de dirigir a Novacap entre 1956 e 1961, doutor Ernesto Silva tornou-se historiador da grande epopéia e um historiador “sério”, com “estilo sereno”, segundo o presidente Kubitschek. Silva publicou uma História de Brasília, livro “no qual se acompanha, da primeira à última hora, tudo aquilo que se fez para dotar o Brasil de um ponto de apoio de onde partissem as grandes estradas de desbravamento”, segundo palavras de Juscelino em carta ao bravo pioneiro de Brasília.

O livro contém relatos, documentos, fac-símiles, fotos, memórias, curiosidades, mapas, até partituras… É riquíssimo de informações privilegiadas de quem esteve por dentro dos processos da construção. Ficamos sabendo, por exemplo, que o marechal Pessoa, da famosa comissão, nasceu em Cajazeiras, na Paraíba, e tinha grande obstinação e exigência no trabalho. Lemos ali interessantes histórias machadianas, do não-acontecido: o marechal paraibano tentou, de diversos modos, implantar uma estrada de ferro que viesse da Colômbia até o Planalto Central. Segundo nosso historiador, era um plano favorável ao país e à população, mas a proposta foi rejeitada. Se não, hoje poderíamos ir de Brasília a São Paulo por via férrea.

Ou o caso da venda de mansões a deputados…a escolha dos lotes para as embaixadas… Assim por diante, os tópicos vão se sucedendo organizadamente e, como disse o presidente, de forma serena. O capítulo “Pioneirismo” revela o primeiro telegrama em Brasília, a primeira menina nascida em Brasília, batizada de Brasilina, a primeira escola, a primeira aula, debaixo de uma árvore, dada pela professora Anahir Pereira Costa…o primeiro reservatório d’água, o primeiro vôo de helicóptero, o primeiro asfaltamento, o primeiro pouso de emergência, de um vôo procedente de Miami…o primeiro casamento, de José Vitório e Generina, apadrinhados por Sayão…a primeira farmácia, os primeiros gêmeos…

Uma das partes mais interessantes trata das opiniões acerca de Brasília, do The New York Times, do escritor Aldous Huxley, de Eisenhower, de André Malraux, do historiador Arnold J. Toynbee, do pintor francês Mathieu ou do cineasta Frank Capra, e de tantos outros que visitaram a cidade entre 1957 e 1959. A frase do escritor John dos Passos é a de maior impacto: “É como se isto fosse a Pompéia ao contrário”. A frase do astronauta russo Yuri Gagárin é a mesma que eu pensei, quando criança, ao ver Brasília pela primeira vez: “A idéia que tenho, presidente, é a de que estou desembarcando em outro planeta”.

Ler e reler o livro de Ernesto Silva é uma fonte de inspiração, um guia para nossas memórias candangas.

Transcrito do Correio Braziliense, 18 de janeiro de 2009.

 

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Vocação histórica de Brasília

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Vocação histórica de Brasília
Por J. Guilherme de Aragão

 
Já em 1948, escrevêramos a propósito da interiorização da capital federal, ao comentar o primeiro relatório da “Comissão de Estudos para a Localização da Nova Capital do Brasil”, então sob a presidência do general Djalma Poli Coelho: “Pela sua magnitude e complexidade, a transferência da capital da República para o centro do país entra na categoria dos problemas nacionais de discussão intermitente, mas de solução cronicamente irrealizada.”

E vinha o exemplo das tentativas e sugestões históricas da mudança; a dos Inconfidentes, em 1789; a de Hipólito José da Costa, no “Correio Brasiliense”; a de José Bonifácio, na “Memória” à Assembléia-Geral Constituinte, em 1823; a de Varnhagen, perante o ministro da Agricultura, Tomaz Coelho, em 1887; a do deputado Virgilio Damásio, representante do Bahia perante o primeiro Congresso Constituinte da República, e conseqüente inscrição no art. 3º. da Constituição de 1891; finalmente, a palavra de ordem do art. 4º. do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, da Constituição vigente, segundo o qual “a capital da União será transferida para o planalto central do país.”

E de toda essa sucessão mais do que sesquicentenária de bons propósitos em favor desse empreendimento invariavelmente considerado como necessário ao progresso do país, só havia, naquele ano de 1948, o roteiro de alguns estudos técnicos e um marco menos metafísico: a pedra fundamental de Planaltina.

Agora que a metrópole interior está sendo edificada, graças ao governo empreendedor e construtivo do presidente Kubitschek, chegamos felizmente a uma histórica fronteira em que mais de século e meio de sonho e aspiração se converte na realidade de Brasília. Coincidência curiosa: mineiros tinham sido os precursores da interiorização da metrópole, no século XVIII; na fronteira, entre o século XIX e o século XX, empreendeu o Estado de Minas Gerais a transferência de sua capital de Ouro Preto para Belo Horizonte; e na segunda metade deste século, é um estadista originário de Minas Gerais que está realizando a empresa histórica da transferência da capital da República para o planalto central.

Afigura-se, então, Brasília, a esta altura, como realização profética dos dois dos maiores sonhadores do progresso do Brasil interior – Hipólito José da Costa e José Bonifácio – ao mesmo tempo que se erige como instrumento novo de vitalização e transfiguração social e econômica do país. Para Hipólito José da Costa, por exemplo, a capital interior tornaria factível lançar “os fundamentos do mais extenso, ligado, bem defendido e poderoso império que é possível que exista na superfície do globo.”

E citava o exemplo de Washington, a pretexto de profligar os derrotistas: “Quanto às dificuldades da criação de uma nova capital, estamos convencidos de que todas elas não são mais do que mornos subterfúgios.” A facilidade com que nos Estados Unidos de América Setentrional se edificam novas cidades, o plano que os americanos executaram de fundar a sua nova capital, Washington, onde não havia uma só casa, mais no centro de seu território, é um argumento tirado da experiência dos nossos tempos, que nada pode contradizer.” Se estas palavras do redator do “Correio Brasiliense” são ainda hoje válidas tanto no seu aspecto construtivo em que pretende esmaltar a significação do empreendimento da capital interior como na parte dialética de combate a seus opositores, as de José Bonifácio ressoam como súmula doutrinária atualíssima.

Começa ele na sua “Memória” à Assembléia Constituinte e Legislativa do Brasil, em 1823: “Parece muito útil, até necessário, que se edifique uma nova capital do Império no interior do Brasil para assento da Corte, da Assembléia Legislativa e dos Tribunais Superiores, que a lei determinar.” E vem agora a denominação profética da nova metrópole: “Esta capital poderá chamar-se Petrópole ou Brasília.”

Quanto às razões da transferência, menciona-as sob vários aspectos. Assim aduz quanto à defesa nacional: “sendo ela (a capital) central e interior, fica o assento do Governo e da legislatura livre de qualquer assalto ou surpresa feitos por inimigos externos.” Expende argumentos de redistribuição demográfica no interior: “Chama-se para as Províncias do Sertão o excesso da povoação sem emprego das cidades marítimas e mercantis.” Prenuncia a nova capital como centro ideal irradiador de vias de comunicação tal como está sendo orientada agora na fase prática de realização: “Como esta cidade (Petrópole ou Brasília) deve ficar, quanto possível, eqüidistante dos limites do Império, tanto em latitude como em longitude, vai-se abrir deste modo por meio das estradas que devem sair deste centro como raios para as diversas Províncias e suas cidades interiores e marítimas, uma comunicação que de certo criará, em breve, giro de comércio interno da maior magnitude, visto a extensão do Império, seus diversos climas e produções.”

Há ainda razões de ordem política da época, como a rivalidade entre cidades litorâneas decorrentes do direito de sede da Corte, deferido ao Rio de Janeiro. Finalmente, sugere o Patriarca, os meios financeiros de edificação da nova capital, consignando efusiva confiança pela concretização da magna obra: “Em suma, nunca faltam meios quando um povo rico e generoso, como o brasileiro, toma a peito empresas de honra e utilidade nacional.”

Dir-se-á que todas essas afirmações ora surgem redivivas apenas com algumas modificações estilísticas ou simples substituição de termos como “Império” por “República”, “Província” por “Estado”. Impressionante é verificar, numa análise de substância, que a edificação de Brasília responde a velhos anseios dos construtores da pátria brasileira e, projetando-os à distância, na segunda metade do século XX, abre caminho para a edificação do grande Brasil, em nossos dias.

Neste ponto de refração da História, Brasília já está impelindo o país para um plano eminente de evidência externa como para uma posição, no âmbito interno, de centro de propulsão nacional, tal como a anteviu José Bonifácio. Quanto ao primeiro aspecto, é do conhecimento geral o interesse e a admiração que em todo mundo vem despertando a façanha da construção da nova capital. Quando, em setembro de 1957, estivemos nos Estados Unidos a convite do Departamento de Estado, choveram as indagações sobre tão apaixonante empreendimento. Bolsistas brasileiros que chegam da Europa trazem a nova de que Brasília é assunto corrente do homem de rua.

Arquitetos e artistas de países americanos e europeus incluem Brasília entre as novas maravilhas de nosso tempo.

E para completar, um congresso de arquitetura em Leningrado acaba de encerrar-se com um voto coletivo de visita à nova capital do Brasil, depois que os participantes exaltaram Brasília e a arquitetura brasileira.

Com tamanha evidência não apenas internacional, mas ainda mundial, Brasília está conquistando para o país surpreendente atração turística, justificável, aliás, por dois motivos. Em primeiro lugar, oferece espetáculo único em todo o mundo, pois não há noticia de país algum, na face da terra, a construir e transferir, neste momento, sua capital.

O empreendimento, já por si raro e singular, constitui convite fascinante à inteligência humana. Em segundo lugar, a arquitetura da nova capital submete qualquer espírito, avançado ou mesmo retrógado, a um impacto de espanto. É o perfil arrojado e imprevisto da cidade do futuro que surge vaporosa, funcional, como um desafio à arquitetura convencional, que nos persegue em toda grande cidade de construção tradicional.

É assim que, se pela projeção externa que já alcançou, Brasília é bem o símbolo do novo Brasil, dinâmico e empreendedor; do ponto de vista interno, afirma-se como centro de propulsão para outra obra não menos grandiosa, a de acelerar o progresso econômico e social do país.

É o que veremos proximamente.

(Transcrito de “O Jornal”, 21/8/1958)

 

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Leveza, lego, luz

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Leveza,
lego,
luz

Por Ana Miranda

Dia desses vi a foto de uma criança em sua cadeira de rodas. Ela estava numa sala ampla, toda branca, inundada de uma luz maravilhosa e natural, como uma piscina de azul cristalino, na parede o desenho colorido de um delfim, recordo assim, e umas enfermeiras ao fundo. A criança naquela cadeira sugeria bons cuidados, esperança e felicidade. Isso era uma cena num hospital público brasileiro. Projeto de João Filgueiras Lima. Carinhosamente chamado por todos de Lelé. Mesmo quando lhe dão um capacete de obra, escrevem não Dr. Filgueiras, mas Dr. Lelé, como uma homenagem à afinidade perfeita entre operários e arquiteto. Lelé é um nome de altíssimo coturno, que ouvi desde minha mais tenra adolescência em Brasília. Lembro de uma ida com arquitetos ao canteiro de obras da Disbrave, um dos primeiros projetos do Lelé. Os arquitetos acompanhavam aquele talento extraordinário florescendo a cada novo trabalho.

Recém-saído da faculdade, Lelé foi atraído por Oscar Niemeyer para trabalhar na construção de Brasília em 1957. Seu primeiro desafio foi construir, quase sem material, sem tempo, sem infraestrutura, um alojamento para uns 2.500 operários no precário canteiro da nova capital. Depois, uma superquadra. Foi o caminho aberto para a sua arquitetura modular, de repetição, que nasce das circunstâncias de uma realidade que ele divisa, compreende e sente. A partir daí, há aspectos fabulosos na obra de Lelé. Um, observado por Lucio Costa, é a fusão entre o sonho e o real, a obra não é apenas o gesto poético, não é apenas o pensamento que resulta na forma, mas toda a luta da sua criação, que faz parte intrínseca da obra, e determina a forma. Se algo parece o chifre de um rinoceronte, deve ser na verdade uma abertura de ventilação zenital.

São muito reconhecidos sua busca pela racionalização e industrialização da arquitetura e seu poder de harmonizar a racionalidade com a delicadeza. Suas fantásticas fábricas foram capazes de fornecer material para a construção de 200 escolas no período de dois anos, ou hospitais plantados nos mais variados sítios geográficos, com peças de argamassa armada, metalurgia para formas do cimento e do ferro, para estruturas, e marcenaria, injeção de plástico e fibra de vidro, centros de desenvolvimento de tecnologia… Seus projetos preferem localizar-se em estados do Nordeste ou do Centro-Oeste, e jamais perdem a dimensão social. Lelé não faz apenas arquitetura, mas prenuncia a arquitetura do futuro, iluminando as necessidades de atender a grandes populações e de sustentabilidade, tanto nos países feito nosso Brasil como nos do lado de lá.

Tudo isso é muito importante na obra de Lelé. No entanto, o que vejo quando para na frente de uma construção sua é simplesmente a pureza encantadora e comovente de suas formas, como se fosse trabalho de um ser prodigioso inventando brinquedos abstracionistas, interpretando seu mundo com asas, elipses, naves, colméias… Vem uma sensação de firmamento, aragem, respiro ao contemplar aqueles volumes, pátios, jardins, solários… E música quando vejo uma obra do Lelé. Dizem seus amigos que ele é também músico.

Conforme as palavras de Goethe, a arquitetura é música petrificada. E Lelé, uma espécie de Strawinski no cerrado.

Transcrito do Correio Braziliense, 7 de junho de 2009.

 

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A profecia de Toscanelli

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A profecia de Toscanelli
Por Carlos Xavier de Azevedo
 
A profetisa Hirrhéa havia dito: mãos invisíveis criarão aqui uma cidade de homens fortes e formosas deidades.

A ampulheta do tempo já muito se escoara quando, não longe das praias desertas de Àtica, – conta a velha lenda – a Maga Iléa parou na enorme savana, proferiu algumas palavras cabalísticas e deixou cair de suas mãos ao solo um punhado de doiradas sementes.

E as copas ondeantes, pejadas de odorosos pomos, as plantas, toucadas de flores de ricos matizes, os regatos murmúrios, que rolavam entre pedrouços, povoaram tão logo o solo, antes vazio e tristonho. Ao centro desse encantado paraíso, um palácio de grandes minaretes foi erguido pelas mãos invisíveis. Fontes belas atiravam ao ar punhados de águas claras, que voltavam à terra como chuva de estrelas.

O próprio ocaso, ali, lembrava uma camponesa envolta em gazes róridas indo depor no cadáver ensangüentado do sol braçadas de flores luminosas.

E nessa encantada região era regida por homens fortes e a eleita das mulheres que pareciam estátuas vivas de escultores divinizados.

As mãos dos homens foram erguendo em torno o casario novo, desde as colinas graciosas à praia de Ática.

E Atenas nasceu, assim, nas mãos milagrosas de Iléa.

Longe daqui, no ocaso de 1464, quando Paulo del Pozzo Toscanelli adotou como discípulo o genial Leonardo da Vinci, o discípulo viu o mestre físico e astrônomo terminar uma planta, feita em papel quadriculado, que serviria aos arrojados navegadores daquele gloriosa época.

Quase ao centro da planta, lia-se a palavra “Brazilae”, com o implicante ditongo latino a enfeiar o nome Brasília.

O Brasil, então, aguardava também que a ampulheta do tempo escoasse mais trinta e seis anos para receber o batismo dos primeiros audazes que andariam “por mares nunca dantes navegados”.

Que profética intuição teria feito o inspirador sábio escrever esse nome? A América, guardadora de um sol em brasa, andaria pela mente do sábio precursor dos gnomos modernos e teria inspirado ao grande mestre esse vocábulo tão querido.

O fato é que lá estava o nome Brasília.

E o Tempo, esse lento e incansável viandante, marchou sem parar quatrocentos e noventa e cinco anos.

E um dia, um mágico oriundo talvez das terras de Egeu, onde o Minotauro foi vencido e o labirinto desencantado, parou um instante nas savanas formosas do planalto goiano.

E Juscelino Kubitschek deixou cair de suas mãos as sementes àvaramente guardadas para a mágica sementeira.

Aquele solo espanco, onde o urutu lançava à tarde o som magoado de um hino triste, foi ao toque mágico sendo povoado.

O fumo das oficinas galgava o espaço anunciando o novo labor.

Como cantara o poeta baiano, “entre a orquestra da serra e do malho brota a vida, a cidade, o amor”.

A profecia de Toscanelli fez-se realidade.

E ali, naquele ermo, as mãos do mago foram plasmando a cidade, a cujo centro, como um sonho, o Palácio da Alvorada derrama em torno o encantamento de seu perfil, a influência luminosa de seu mágico nascimento.

O homem criatura fez-se um dia criador e Brasília nasceu, assim, das mãos mágicas de Juscelino Kubitschek.

Transcrito da revista “Brasília”, edição de julho de 1959, número 31.

 

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A Caderneta da Caixa

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A Caderneta da Caixa
Por Clemente Luz

 
O candango subiu os três degraus de madeira, que separavam o auditório e o palco da Rádio Nacional. Estava inscrito para o programa de calouros daquela noite de sábado.
Como todo calouro, foi recebido pelo público e, principalmente, pelo animador, com a intransitável predisposição, para a ironia e para a “gozação”. Depois de ligeiro diálogo, soube-se que se chamava Severino e tinha dente de ouro…
…aliás, todo Severino é pernambucano… O amigo é de Pernambuco, por acaso? – perguntou o animador.
Era. E de Caruaru.
– Da terra dos Condes? – O animador fez a pergunta, tentando melhorar o padrão da apresentação.
– Não, sinhô… Sou de Caruaru, mesmo…
E que é que vai cantar?
Sem jeito, amassando a aba do chapéu entre os dedos rudes e inquietos, Severino respondeu que ia cantar um samba. Um samba de sua autoria, intitulado “Caderneta da Caixa”.
Após ironizar enquanto lhe valeram “engenho e arte”, o animador deu sinal de partida e a orquestra atacou um bem ritmado samba. Entre tímido e orgulhoso, com o corpo gingando ao compasso da música, Severino entrou, meio desafinado, na letra, que dizia:
 
“Entraram no barracão,
levaram tudo o que eu tinha…
Levaram a roupa, os sapatos,
terno de linho, o violão
levaram o retrato dela
e a caderneta da Caixa…
 
Apois, douto, só não levaram
esta saudade que trago
cativa no coração…”
 
O samba contava uma longa história, dizia da tristeza de não poder ir “ver as morenas, pois a roupa e a caderneta” tinham se evaporado, nas mãos do amigo do alheio. Sem roupa de linho e sem dinheiro, pernambucano que se preza não sai de casa, para ver as morenas… Sem caderneta, não tinha dinheiro, e sem dinheiro, nem balinhas, nem água-de-cheiro…

O gongo esteve para soar, sob o impacto do golpe do carrasco Mataempé. Mas o animador o conteve e Severino chegou ao fim, sem vaias. Foi a referência à popular “caderneta” que manteve Severino no palco, pois o auditório, não fosse isso, telo-ia castigado sem piedade.

Sem ser bom, nem atingir o nível razoável, o samba representava um estado de espírito. Como o caneco de folha inseparável do corpo, como a mala de madeira onde se confinam as pequenas posses do candango, outro objeto se incorporou, como novo símbolo, à vida do trabalhador nordestino: a caderneta de depósitos, que tinha de ser da Caixa. De banco, curiosamente, não servia…

A verdade é que todo candango, naquele tempo, para sua própria segurança e tranqüilidade, depositava grande parte de seu pagamento semanal, ficando apenas com o indispensável para o cigarro, as pingas domingueiras na Cidade Livre ou para os encontros de amor fortuito no Hotel Brasília… Os depósitos eram facilitados pelos patrões, que mandavam caminhões levar os candangos ao Núcleo, todos os sábados. Mais tarde, uma agência volante da Caixa recolhia o pobre dinheirinho suado, à porta dos acampamentos, onde os pagamentos eram feitos aos sábados.

A guarda do dinheiro era um ato quase religioso. Uma obrigação intransferível. E essa poupança triste e poeirenta servia, com generosidade, meses mais tarde, para custear a ambicionada visita à terra natal ou para comprar dois ou três lugares no “pau-de-arara” que descia… Outras vezes, serviu como base para “montar boteco na Invasão” e trabalhar por conta. Negócio que, quase sempre, libertou o candango de sua condição de simples trabalhador, fichado numa firma empreiteira qualquer.
O samba não era bom, mas tinha mensagem humana.
 
Transcrito do livro “Invenção da cidade”, de Clemente Luz.

 

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Determinismo histórico da mudança da capital

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Por Cônego Trindade

A geografia no comando dos povos constitui o maior fator da grande marcha da civilização. Na conquista da “Terra de Santa Cruz” predominou a orla marítima. Vivemos uma época de completa estagnação social, política e econômica. Do Recôncavo baiano para São Vicente, em rumo às terras de Castela. E para o Norte – ilha de São Luis – para o Amazonas ao encontro dos Incas e dos Maias através do grande rio. Coube às Bandeiras e sobretudo a Raposo Tavares inegavelmente o desbravador de nossa “interlândia” o avanço do meridiano até aos Andes. Sebastião Marinho, em 1592, atinge às nascentes do Tocantins. As entradas baianas e pernambucanas por sua vez, cruzam as cabeceiras da potamografia brasileira de cuja concentralização geográfica nasceu o nome de Planalto Central, onde, agora, se encontram, como hino à Federação, todos os anseios nacionais, esperanças do povo, através da coragem indômita do Presidente Kubitschek.

Em que pese a responsabilidade do grande mestre de História, Capistrano de Abreu, foi o genovês Francisco Tossi Colombina, o primeiro cartógrafo, o primeiro medidor de nossas terras, abridor dos caminhos oficiais: das Minas Gerais, de São Paulo de Piratininga, dos Currais Baianos para as Minas dos Goiases. Daqui a preciosidade para a história de Brasília. Foi esse italiano desbravador, discípulo e companheiro do cronista padre Gabriel Soares que anteviu ao cruzar o planalto goiano em 1750, a realidade profética da futura metrópole brasileira, citação histórica confirmada por Azevedo Pimentel, acervo precioso atualmente na sessão de cartografia do arquivo mineiro. Vinte anos mais tarde são os Inconfidentes. Em todo o século XIX não houve historiador de renome que não falasse desse maior problema brasileiro. William Pitt, circunspecto embaixador de Sua Majestade Britânica junto às Cortes Portuguesas, em plena Lisboa lançou em 1809 a idéia de se mudar quanto antes a capital da grande Colônia, o Brasil, e que em homenagem perene se lhe fosse dado o nome de Nova Lisboa. Posição que mais tarde, ao desabrochar da nossa independência, ativou a Hipólito José da Costa a se constituir no jornalista da mudança da capital para o conhecido planalto central brasileiro.

O nome de Brasília deve-se, entretanto, ao Patriarca José Bonifácio de Andrada, conforme memorável ata do dia 9 de junho de 1821, do Conselho da Governança, quando S. Paulo devia mandar às Cortes de Lisboa o seu representante, em cujo programa, ao lado das idéias independencistas, a grande marcha da interiorização da capital da então colônia, para o Planalto Central brasileiro. Antes da Constituição, a geografia, a história, como fatores positivos, que caracterizam os movimentos nacionais, exteriotipados na equivalência das distancias, na equidade dos benefícios e na equanimidade da função social, política que uma capital distribui a todo o território nacional.

Uma das características da vida ativa é a mobilidade. O ouro foi como Saturno, devorou as Vilas que nasceram com os seus filões. Daqui a fatalidade histórica do seu desaparecimento, porque faltou a estas vilas a alma propulsora dos núcleos humanos, faltou a agricultura. Por causa do ouro, proibiu-se o plantio de cana de açúcar, do milho e do arroz.

Vila Velha do Espírito Santo transforma-se em Vitória; Vila Real, em Niterói; Vila Bela, na cidade de Cuiabá; Vila Rica, de Ouro Preto, em Belo Horizonte; Vila Boa dos Goiases, em Goiânia. No mesmo ritmo da mobilidade como fator de vida: no Amazonas, muda-se a capital de Barcelos para Manaus; a cidade de Alagoas, para Maceió; no Piauí, de Oeiras para Teresina; Sergipe, da cidade de São Cristóvão, para Aracaju; e na terra de Araribóia, na cidade real de Petrópolis, para Niterói.

Como no tempo de Dom José 1º., cujo grande Ministro, Marques de Pombal, em que pese, com meu protesto, seu ódio aos padres jesuítas, da cidade do Salvador, em 1763, desce para a cidade fundada por Estácio de Sá, a cabeça da Colônia, para a leal cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Até então o Brasil estaria de costas viradas para os centros produtores. Hoje, como outrora, sonhara o genovês, do século dezoito, a seiva da vida, da administração pública, do amparo do Governo central, obedece ao determinismo geopolítico extereotipado numa capital situada na altiplanura que as três grandes veias potâmicas definiram e indicaram aos técnicos a escolha de Brasília

Fonte: revista “Brasília”, da Novacap, edição de junho de 1958, número 18.

 

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LUA, O PÉ E A PANELA

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LUA, O PÉ E A PANELA
Por Conceição Freitas

 
Na cidade sem esquina, em cada esquina mora uma lembrança. Os milhares de candangos que estavam aqui quando o cerrado era o inteiro dono da terra e que aqui permaneceram tem histórias, mais histórias pra contar.

Um deles está há quase dois meses em tratamento intensivo de saúde por conta de um infarto. Cláudio Oscar de Carvalho Sant’Anna, 83 anos, dono da Kosmos Engenharia, é um dos poucos empreiteiros que, ao fim das obras, ficaram morando na cidade.

Por conta da doença do marido, dona Norma não tem motivos para celebrações, nem mesmo do passado. Mas, muito generosamente, me contou a história do dia em que Luiz Gonzaga trouxe aquela sanfona branca e aquele chapéu de couro para animar os operários num dos últimos Natais antes da inauguração, no acampamento da Kosmos Engenharia.

Os candangos do serviço pesado estavam meio acabrunhados diante da perspectiva de mais um Natal longe da família. Engenheiros, arquitetos, técnicos em geral, funcionários da Novacap já se preparavam para passar as festas de fim de ano numa cidade de verdade. Os operários vindos das cidades mais próximas, de Goiás e Minas, tinham como visitar a família, mas aos nordestinos e aos desgarrados de outras paragens só restava esperar que Papai Noel já soubesse da existência de uma imensa ferida no cerrado no coração do Brasil.

O baião de Luiz Gonzaga era um senhor presente aos operários solitários e saudosos. Àquele tempo, ele já tinha vivido a primeira grande explosão da carreira. Asa Branca havia sido um megasucesso no final da década de 1940, mas depois de meados de 1950, Gonzagão tinha de fazer shows em cidades do interior. A Bossa Nova lhe tomara o lugar ao sol.

Daí que no Natal de 1958 (ou de 1959, dona Norma não sabe precisar ao certo), Luiz Gonzaga veio ganhar a vida num canteiro de obras. trouxe o chapéu (desenhado em homenagem a seu ídolo, Lampião), o gibão, a sanfona branca e um parceiro cujo nome se perdeu na história. Ocupou o palanque de madeira especialmente construído para o show e começou a espalhar o vozeirão pelo cerrado sem fronteira.

Cantou uma, cantou duas, cantou três músicas e, estranhamente, os operários não se animaram. Talvez porque estivessem no local de trabalho, eles assistiam ao show com a animação de uma estaca de madeira.

Luiz Gonzaga decidiu então provocá-los – “Vocês não abrem a mão nem para bater palma?”. Tanto provocou a peãozada que eles, à vontade, subiram no palanque. Foram todos ao chão. alguns tiveram ferimentos leves e Lua machucou o pé.

Foi dona Norma quem cuidou do machucado do sanfoneiro de Exu – mas não tinha sido nada grave. No dia seguinte, Luiz Gonzaga fez novo show e ofereceu uma das músicas a uma das filhas de dona Norma, Tereza Cristina, à época com 2 anos.

Muitos anos depois, dona Norma procurava panelas de barro em Guarapari quando cruzou com o velho Lua. Ele largou tudo o que estava fazendo e foi ajudá-la a escolher as melhores panelas de barro do Espírito Santo.

Reproduzido do Correio Braziliense, 25 de março de 2009.
“Crônica da Cidade”, Conceição Freitas.

 

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Alma das Casas

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Alma das Casas
Por Clemente Luz

 
   A certeza de que Brasília, na sua essência e na sua estrutura, traz uma centelha de eternidade e do milagre humano da criação, essa certeza, entranhada no coração, me leva aos luminosos caminhos da esperança. A luta política, a disputa acirrada pela fortuna, o entrechoque de ambições desmedidas, a paixão pelas posições, tudo isso, com sua força perturbadora e destruidora, não chega sequer a riscar de leve a face polida do mármore eterno, onde o gênio da raça está inscrevendo a legenda de uma cidade.

   Cada manhã traz novas certezas e novos espantos.

   Falta muita coisa aos que aqui chegaram para construir a cidade.

   Os que a construíram, até o ponto em que está, não tiveram tempo para se deter no exame de determinados problemas. A cidade tinha que ser feita no tempo marcado. Os problemas humanos, como os de alojamento, de localização das primeiras famílias, e de suprimentos, constituíram e constituem uma infra-estrutura minúscula, talvez minúscula demais, em face dos grandes projetos. O braço operário foi levado para as obras, mas os corpos ficaram confinados nos limites dos acampamentos cercados de arame farpado. Nas mesas coletivas das cantinas, as bocas atenderam ao apelo dos estômagos, marcando ritmo seco e monótono da mastigação. Nas fileiras superpostas de camas de madeira,  a saudade e a solidão assaltaram os corpos cansados, no silêncio noturno, e as lágrimas se derramaram, sem peias, sobre os travesseiros sem fronhas… Coletivamente, o homem comeu, trabalhou, dormiu e construiu. Mas sozinho, abandonado ao próprio desespero, chora de saudade ou de tristeza, na longa e solitária noite do planalto…

   Depois, vieram outros, que traziam padrão de vida mais alto, que não viajaram em paus-de-arara em busca de trabalho ou simplesmente de teto e pão. Para eles, a cidade havia sido inventada, preparada.

   Mas eles a receberam e não a compreenderam de pronto.

   E talvez nem a compreendam ainda, pois ainda se lamentam e se maldizem, embora saibam que a segunda fase da batalha lhes pertence. A fase da humanização dos palácios e das casas.

   Mas, se não souberem dar vida à obra de arte, ao mármore frio, ao cimento e ferro transformados em estrutura definitiva, ao asfalto negro das pistas, se não souberem dar alma às casas e às coisas, terão fracassado por completo. E só quem tem alma e coração pode transmitir a vida, prolongá-la aos objetos e seres, até a vitória sobre a eternidade do mármore.

   E, para dar alma às casas, apenas umas poucas coisas são necessárias… Umas flores plantadas no jardim improvisado, um fogão doméstico, o tempero refogado cheirando nas panelas, o choro das crianças, o trinar de um passarinho, o latido de um cão…

   O resto virá com a técnica e o tempo.

Reproduzido do livro “Invenção da cidade”, de Clemente Luz.

 

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De meninos e heróis

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De meninos
e heróis
Por Conceição Freitas

 
Quando as crianças ficaram sabendo que no acampamento da Rodobrás, a empresa responsável pela construção da Belém-Brasília, havia uma caixa mágica que falava e cantava, elas se juntavam todas as tardes ao redor do rádio do vigia da empresa. Precisavam trilhar longa distância entre suas casas no povoado e a casa da caixa falante. Uma tarde, de tão encantados com as músicas e as vozes que saíam do pequeno caixote de madeira, eles adormeceram como bebês ouvindo canções de ninar. Como já havia escurecido, tiveram de dormir no acampamento da obra em Açailândia. Voltar para casa, pelo mato, era correr risco de ser devorado pelas onças.

Essa história foi contada pelo maranhense de Barra do Corda João Neves de Oliveira, João Mariquinha, um dos caboclos que enfrentaram a selva amazônica, armado de coragem e facão, para abrir a Belém-Brasília. Mariquinha é um dos heróis da construção da rodovia que juntou Belém a Brasília e trouxe o Norte para dentro do Brasil.

Não houve festa, pelo menos até agora, e bolo, se houvesse, haveria de ter 2 mil quilômetros de extensão para que pudesse ser ofertado a todos quantos vivem na borda da estrada do herói. A Belém-Brasília, ou rodovia Bernardo Sayão, fez 50 anos este ano. Há meio século, no dia 31 de janeiro de 1959, a turma de trabalhadores que vinha de Belém se encontrou com a turma que vinha de Brasília num lugar que, a partir deste dia, passou a se chamar de Ligação. A linha reta que unia Anápolis a Belém estava concluída.

Bernardo Sayão havia morrido dezesseis dias antes, quando uma árvore amazônica caiu sobre ele. Brasília ainda chorava a morte do herói quando Juscelino levou para a selva meio governo: dona Sarah, as duas filhas, vários ministros, embaixadores, jornalistas brasileiros e estrangeiros. Mais de trezentos anos depois da ocupação do extremo norte do país, finalmente o Brasil se completava.

O progresso se aproximava, mas cobrava um preço alto pela aventura. Não se fez ainda as contas de quantos adoeceram e morreram de malária ou de ataque de bicho ou de ferimentos no trabalho de desbravar a selva com a força dos braços e o corte do facão.

Era uma guerra com um inimigo ubíquo e onipotente, a selva amazônica. Desbravá-la a golpes de terçado, em curtíssimo espaço de tempo, tinha o sentido das grandes conquistas. O progresso não conseguia vencer as defesas da insondável Amazônia. Os alimentos eram lançados dos aviões nas clareiras abertas na mata. Tudo isso somado à dificuldade de contato entre a frente de trabalho e o acampamento mais próximo transformava cada dia numa experiência de vida e morte. Bernardo Sayão tinha consciência da experiência extrema que vivia: “Se não mandarem mantimentos, estamos com os dias contados”, dizia um bilhete que mandou para Açailândia, uma semana antes de morrer.
Antes mesmo de a Belém-Brasília ser asfaltada já se contavam quase cem cidades às suas margens. O Brasil esquecido aparecia à beira da pista.
 
Transcrito da “Crônica da Cidade”, 07 de abril de 2009, Correio Braziliense.

 

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Árvores de Brasília

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Árvores de Brasília
Por Ana Miranda

 

                                        ‘num cerrado deserto e exposta a um céu imenso,
                                           como pleno mar, a cidade criou a paisagem’

                                                                                                               Lucio Costa

 

 

Em minha quadra, a antiga 23, ainda não havia gramado nem jardins, apenas a terra vermelha do cerrado, quando apareceram homens com cavadeiras e fizeram covas para o plantio de árvores. Passado um tempo, outros homens deixaram, ao lado de cada cova, uma muda.

Essas plantas ficaram ali, esperando, murchando… Eu as olhava todos os dias, com apreensão. Tive a iniciativa de plantar a que esqueceram ao lado de minha casa, com a pouca terra que estava mesmo ali, sem ciência nenhuma, mas as mãos de criança são abençoadas e minha mudinha pegou, primeiro bem tímida, depois foi tomando força, eu a observava, jogava água, quando saía um broto eu me inundava de espanto, eram umas folhas bem pequenas e, por isso, eu as chamava de confetes. Não tardou e a muda floriu, deitou umas vagens que eu ouvia quando secas, crescemos juntas, a muda foi se transformando numa árvore e eu, numa adolescente, ela com sua copa e eu com as minhas tranças, ela mais alta do que a casa. Sentava-me ao seu lado, lia encostada ao seu tronco, tomava o fresco da sua sombra, e um dia descobri, como na história do Patinho Feio, era um flamboyant. Mudei de cidade, porém sempre levei essa amizade vida afora. Eu tinha uma árvore em Brasília.

Anos depois voltei à cidade, fui visitar meu flamboyant, mas havia sido cortado. A mudança mais surpreendente em Brasília era a vegetação, nada mais daquele cerrado, daqueles desertos, a cidade estava envolta por uma esplêndida arborização, que me parecia ter nascido naturalmente. Mas a maravilha arbórea da cidade tem uma crônica de trabalho, dedicação, erros e acertos, que vem desde as primeiras expedições, ou quando Lucio Costa escreveu que Brasília seria uma cidade-parque, as construções “emolduradas por uma larga cinta densamente arborizada, árvores de porte, prevalecendo em cada quadra determinada espécie vegetal, com chão gramado e uma cortina suplementar de arbustos e folhagens a fim de resguardar melhor, qualquer que seja a posição do observador, o conteúdo das quadras, visto sempre num segundo plano e como que amortecido pela paisagem”. Isso foi feito, e com grande arte. O poeta Nicolas Behr, dendrólogo e enamorado das palmeiras, mostrou-me em sua casa a dissertação de Simone Cruz de Lima sobre o longo processo de arborização urbana de Brasília, o trabalho de suavizar os descampados, amenizar o clima seco, relacionar-se com a poeira, o vento, o sol do planalto, de se criar bosques com uma feição naturalista…

No começo de Brasília, o cerrado era bem menos conhecido e as primeiras tentativas de arborização utilizavam espécies de fora, eram escolhidas nos viveiros as que cresciam depressa, ou as que sombreavam, ou as que davam belas floradas, assim deve ter chegado o meu flamboyant. A dissertação me fez recordar as guarirobas plantadas no Alvorada, os jardins prístinos do Brasília Palace, o gramado da igrejinha de Nossa Senhora de Fátima, tudo isso vi brotar, reverdecer… Plantaram cássias, paineiras, ipês, jacarandás, quaresmeiras… Os jardins de Burle Marx… Depois, nos 1980, as fruteiras…

Passo a passo, a arborização de Brasília foi uma conquista, e hoje a cidade possui esse tesouro, cada morador tem, imagino, duas árvores, que em seu simples, pacífico e exato comportamento foram trazidas para o convívio humano. Delícia é passear no Eixão com o poeta que sabe todos os nomes e vai ensinando. Aquele cinamomo…Aquele pau-ferro…Aquela sibipiruna…Ao contrário das cidades que se conformam às paisagens, como o Rio de Janeiro, ou diferente de cidades como São Paulo, que expressa a realização humana, apagando de seu perfil urbano a natureza, em Brasília, como diz Lucio Costa, “num cerrado deserto e exposta a um céu imenso, como em pleno mar, a cidade criou a paisagem”.

Reproduzido do Correio Braziliense, 1 de fevereiro de 2009.

 

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Onde está Brasília

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Onde está Brasília
Por Osvaldo Orico
 


Foto: Arquivo Público do DF

 
Vamos ver, Brasília, se posso deixar aqui, nestas últimas páginas, uma impressão lírica da primeira visita que ti fiz. Contar aos leitores como te vi em nosso primeiro encontro. Vestida de futura Capital? Nem tanto. Quase nua, isso sim. Ainda despenteada. Com um palácio extravagante assustando os operários com suas linhas arrojadas; um Hotel arrumando as lages para servir de gaveta aos hóspedes; e rolos mecânicos alisando o solo para fazer a Praça dos Três Poderes.
Ninguém poderá, até agora, fazer uma idéia do que serás. Porque ainda não és. Estás por ser. Não és, por enquanto, uma cidade para ser vista, mas para ser advinhada. Os que vão com pressa de encontrar-te voltam desiludidos, falando mal. Não te encontraram, porque não se encontraram antes. Querem antecipar a realidade à realização. Já não és miragem, mas ainda és horizonte. Os que vão ao teu encontro tem de procurar-te onde estás. Não só na arrumação das praças e jardins, no arruado de casas que ainda se encontram nas pranchetas dos arquitetos e urbanistas, mas no espaço em que mãos invisíveis plantam os serviços de base, captando a água, a luz a energia para fazer funcionar as torneiras, as lâmpadas, os elevadores. E amansam o sertão, riscando nele estradas e trilhos que já alcançam as cidades vizinhas. Que amanhã chegarão a Belo Horizonte e São Paulo. E que, um dia, tocarão o litoral. Este litoral gostoso, de que não queremos sair. Tudo isso acontecerá. Enquanto não acontece, a felicidade está em desejar o possível, em conseguir o razoável. Isto é: em concordar que uma Capital não se arranca do chão, como um ovo da cartola de um mágico. É esperar. Enquanto se espera, muitas coisas sucedem liricamente. Por exemplo: ficar um momento junto ao Cruzeiro que domina a cidade, e olhar em torno da geometria do altiplano, para gozar com a vista uma tranqüilidade redonda; escutar os nomes dos edifícios que vão nascendo para chamar os habitantes à Nova Capital. Este é o Palácio da Alvorada. Ali será o Palácio do Planalto. Acolá a Praça dos Três Poderes. Adiante, será – quem sabe ? – a Igreja do Orvalho. Ou, talvez, a Praça dos Milagres.
E quando puxarem o lago artificial, colocando ali uma círculo d’água, por que não lhe dar um nome romântico, um nome de canção? Por exemplo: Lago Azul. Ou então: Espelho do Céu.
O batismo das construções de Brasília põe no oeste pinceladas de poesia. É como se entre os engenheiros, urbanistas e arquitetos que a erguem do chão, houvesse um pintor que se encarregasse de pedir ao léxico as palavras mais bonitas e sonoras para decorar com elas a fachada dos edifícios que se estão construindo e as placas das avenidas e praças que vão surgir.
A nomenclatura de Brasília – só ela – já explicaria a necessidade de uma urbe onde nunca lêssemos nas tabuletas: rua do Dr. Fulano; do vereador Sicrano; do major Beltrano. A nomenclatura de Brasília é uma volta à tradição imperial, que fez de Recife a metrópole do bom gosto vocabular; e deu ao inglês Burke a impressão de “ser mais cidade do que o Rio”, cidade onde os letreiros, em vez de constituírem quebra-cabeças para os turistas e transeuntes, evocam cenários e épocas: rua da Aurora, Palácio das Princesas, rua da Imperatriz, Teatro Santa Isabel, Estrada dos Aflitos, Igreja do Terço, Largo de Cinco Pontas, rua do Encantamento. Pena haverem mudado para Tobias Barreto (mesmo sendo um grande nome) a rua dos sete Pecados Mortais, onde as baianas de Recife vendiam cocadas, bolo de milho e mugunzá…
O senso paisagístico das construções identifica Brasília com a região em que desponta.
As palavras que batizam seus edifícios têm aroma. Se as letras, como quer Rimbaud, possuem cor, as palavras possuem asas, como queria Victor Hugo: “Lês vers sont des oiseaux”. Transportam-se para a imagem que exprimem. Não é mais novo, atraente, original, em vez de dizer Palácio do Governo, dizer Palácio do Planalto? Não é mais sugestivo chamar – Palácio da Alvorada – à casa residencial do Presidente? E que é, por sinal, a preciosa construção definitiva, quando Brasília nascia.
O encanto da Nova Capital não reside apenas na circunstância de ser uma cidade planejada e executada a compasso. Geométrica e fotogênica. Sem mangues, nem favelas. Escrita em cimento branco e mármore sobre a crosta vermelha do altiplano. Lá, onde a argila tem cor de carne. Seu atrativo maior está no caráter com que nasceu. Anti-cenográfica. Tendo por si apenas o céu e o horizonte. Tanto assim que foi necessário pedir aos quatro riachos, ao Gama, ao Torto, ao Fundo e ao Bananal um braço emprestado para demarcar no centro a marcha d’água de um lago. Um lago que dará futuramente aos turistas a impressão de haverem encontrado no trópico uma nova Zurique ou uma outra Genebra.
Com coqueiros espichados, olhando de cima a água roubada dos rios…
Vista do alto, Brasília parece, por enquanto, uma concha de tênis. Escavadeiras revolveram a terra em cicatriz. Moto-scrapers passaram a ferro o solo, que espera as estruturas metálicas para levantar-se em pilotis e colunatas.
Olhando aquela área salpicada de andaimes, ainda despedida das promessas arquitetônicas do Plano Piloto, sem o arruamento que lhe dará a perspectiva de que carece, a fisionomia urbana que lhe falta, temos vontade de parodiar a quadra que negros de maracatu de Cambinda entoavam dançando em frente da Igreja do Rosário, na Velha Recife colonial.
 
“Se Brasília fosse minha,
eu mandava ladriá
com pedrinha de diamante
para nono passeá”
 
O senador Juraci Magalhães, que é um dos políticos mais inteligentes e capazes que possuímos, declarou que foi ver Brasília e não encontrou a Nova Capital. Não viu; mas não gostou. O S. Tomé da UDN, mais realista do que o outro, bateu com o cajado no chão. E como não encontrasse asfalto, nem ouvisse buzinas, nem apitos de fábricas, lembrou-se que era representante da terra de Castro Alves. Parodiou o poeta:
 
“Ó Brasília, onde estás que não respondes? Em que mundo, em que estrela tu te escondes?”
 
Recife, quem ali o recebeu foi Joaquim Nabuco. Este o levou a visitar Olinda. Para dar-lhe, porém, uma visão real e viva de Pernambuco, não ficou pelo litoral. Subiu ao alto no monte da Fé e de lá descortinou para o visitante o espetáculo de sua terra, transportando-o, instrutivamente, a um a invocação que fizera em seus escritos: “A Alma de Pernambuco, se a atual geração de pernambucanos, esquecendo três séculos de vida local, própria e distinta, renunciasse a ela, estaria… nas nossas praias, nas nossas árvores, nas mangueiras, cajueiros, coqueiros e jaqueiras”. Ao que Gilberto acrescentou: também nos nossos montes, nos de Olinda, nos Guararapes, no das Tabocas, no do Arraial. Cada um com sua data e sua legenda…
“Mutatis mutandis”, esse é igualmente o caso de Brasília. Se pretendêssemos esquecer ou renunciar a todas as etapas de uma longa e laboriosa formação política e social, nossa alma de pioneiros estaria documentada nessa investida para levantar no sertão a capital administrativa do País. Na vizinhança das grandes vertentes do território nacional. À semelhança do que fizeram os norte-americanos com a conquista do Mississipi e dos Grandes Lagos. E de que resultará um ponto de apoio: “o ponto de apoio da decantada e sempre adiada, marcha para o oeste”, para Goiás, para Mato Grosso, Amazonas, Guaporé e Acre, onde o Rio Amazonas e os seus afluentes, inclusive o Tocantins e o Araguaia – segundo a previsão de Peixoto da Silveira – poderão fazer as vezes de um oceano, uma espécie de Oceano Pacífico brasileiro”.
Se a nossa geração tivesse de aceitar, por uma dessas imposições do destino, de que falava Nabuco, a renúncia de herança secular, para guardar a sua alma, estaria agora nos contrafortes do Altiplano, impelida pela coragem de levar a civilização do litoral para o sertão. Abrindo caminhos até antes cerrados.
Na cartografia americana, Brasília não é apenas uma capital que se projeta. É um mundo novo que nasce.
 

Extraído da revista “Brasília”, da Novacap, edição de fevereiro de 1958.

 

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Pau-de-Arara

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Pau-de-Arara 
Por Clemente Luz

Uma das histórias de Sayão, que mais diz de sua personalidade vigorosa e estranha, é esta, que me foi contada há anos e que agora me vem à memória, de repente.
Deixando a selva, onde rasgava a Brasília-Belém, Sayão sobrevoou o imenso mar verde do arvoredo. Lá pelas tantas, seu piloto, que residia em Goiânia, pediu-lhe licença para visitar a família. A licença foi mais do que concedida. Sayão mandou que o avião descesse em certo ponto, entre Goiânia e Anápolis, e ali ficou à espera de uma carona terrestre para Brasília.
Depois de algumas horas de espera, passou um  "pau-de-arara" lotado. Tomou-o, como qualquer nordestino, sem declinar o nome ou a qualidade de diretor da Novacap.
Naquele tempo, quando a chegada dos nordestinos constituia  sério problema, pois não havia demanda suficiente de mão-de-obra, a Polícia vigiava as entradas da cidade em construção. Havia dificuldades no abastecimento e número reduzido de alojamentos. As levas de imigrantes só eram permitidas, dentro das fronteiras de Brasília, mediante documentos do INIC ou da Novacap.
Ao aproximar-se o caminhão da entrada da cidade, os cansados viajantes começaram a inquietar-se. Será que poderiam entrar e descansar, depois da penosa viagem? A expectativa era enorme e dolorosa. Os homens, curtidos pelo tempo e pelos sofrimentos, entreolhavam-se, temerosos. O silêncio foi descendo, pesado e triste, ao interior do caminhão.
Bernardo Sayão, tranqüilo e gigante, assistia às cenas, sem nada dizer.
À entrada da cidade, lá estava a Polícia, toda-poderosa, erguendo intransponível barreira para as duas dezenas de seres humanos desesperados.
– Aqui só entra quem tiver cartão do INIC ou cartão de emprego da Novacap. Ordem é ordem!
O guarda, todo-poderoso, deixou cair, como sentença fria, as palavras de condenação. Houve apelos, oferecimentos de "propina", lágrimas e gritos de raiva, aos pés do guarda impassível…
Foi quando Bernardo Sayão, que nada dissera até então, destacou-se do grupo, trazendo o paletó amassado sob o braço.
Disse ao guarda:
– Seu guarda, este povo viajou não sei quantos dias, para vir construir Brasília. Será que não pode entrar?
– Não – foi a resposta seca do guarda.
Sayão tentou mais uma vez, sem nada conseguir.
Por fim, meteu a mão no bolso da camisa e tirou o seu cartão de identidade. Apresentou-o ao guarda, dizendo:
– Pode deixar esta gente passar. Todo mundo está empregado por mim, para trabalhar na Novacap e na rodovia.
O guarda arregalou os olhos, pediu milhões de desculpas e, por fim, sem outra saída, disse:
– Mas, doutor Sayão! O senhor tem cada uma!… Pra que fazer todo esse mistério! Podia ter falado logo…
Sayão bateu-lhe levemente no ombro, subiu ao caminhão e rumou para Brasília, com a nova turma de candangos.

Extraído do livro "Invenção da cidade", de Clemente Luz.

 

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O Mito

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

O Mito
Por Clemente Luz
 
Contam-se muitas histórias dos primeiros dias de Brasília.
Dizem que, quando foi o tempo da formação do Núcleo Bandeirante, depois de demarcado o traçado da primeira avenida, surgiu o problema sério: os homens tinham que comer. Não naquele dia apenas, mas nos dias seguintes, até o final da construção de Brasília.
Dizem que Sayão, com o seu porte de líder, estendeu o braço, chamou o motorista e entregou-lhe uma lista de nomes, dizendo-lhe:
– Vá a Ceres e traga esse povo. Diga que mandei chamar. Que venham todos com a tralha e a família.
E hoje a gente encontra essa gente de Ceres, que Sayão mandou buscar.
O Vovô, por exemplo, que plantou barraca inicialmente perto da ponte da antiga estrada de Planaltina, e que tinha o Bar Vera Cruz, ao lado do Cinema Bandeirantes, gosta de contar como foi a marcha de Ceres a Brasília.
Abre uma cerveja muito gelada, explicando antes:
– Na minha casa nunca falta cerveja bem gelada, porque não deixo ninguém meter a mão na geladeira. Quando vou pegar uma garrafa, já levo outra pra pôr no lugar…
Depois, curva-se sobre o balcão:
– Eu tava muito bem do meu em Ceres, cuidando de minha vida, quando chegou o caminhão e parou na minha porta. O motorista entrou, mostrou o papel e disse:
– Vovô, o dotô Sayão mandou le chamá pra fazer Brasília.
E o bonachão e próspero dono de bar, com os cabelos grisalhos, cercado por uma dezena de filhos, diz:
– Nem discutimos. Com o dotô a gente não discutia…
Veio, e aqui já encontrou o lote demarcado, e a tarefa que deveria cumprir.
– Eu tinha de montar pensão pra fornecer pros trabalhadores. Outros tinham de fazer pão, de cortar boi, de vender arroz e feijão.
Se alguém indaga por que veio, assim, atendendo apenas a um recado, ele diz:
– Se vosmicê conhecesse o dotô Sayão, não fazia a pergunta!
E, de história em história, nós, que chegamos depois, fomos sentindo que um personagem se transformava em lenda, se transfigurava, à medida que Brasília tomava contornos de cidade. Era Bernardo Sayão, cuja história é a própria história da conquista do planalto e cuja estatura máscula mais parecia uma coluna sustentando os blocos de cimento e ferro do primeiro edifício da cidade.
 
Clemente Luz,
Reproduzido do livro "Invenção da Cidade".

 

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"VÊ UM CAIXÃO AÍ"

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"VÊ UM CAIXÃO AÍ"
   
Por Edson Béu
 
Novamente, sem eira nem beira, Rui foi atrás de um senhor de sobrenome Ferraz, empregado da Novacap, o qual havia conhecido durante uma de suas incursões pelos canteiros de obra. Parecia alguém de boa posição na empresa, mas não era o nível hierárquico do funcionário que poderia ajudá-lo no momento, pois, de "doto", ali estava cheio, e sim o fato de se tratar de uma daquelas pessoas solidárias por excelência.
Desde que havia visto o garoto pela primeira vez, angustiado, à procura de emprego, o funcionário quis ajudá-lo. Naquele primeiro instante, porém, nada lhe viera à cabeça. Só depois se lembrou da mulher em casa, sozinha o dia inteiro, sem ninguém para dividir os afazeres domésticos, que não eram poucos naquele mundo ainda tão inóspito.
Até para comprar um quilo de café na improvisada mercearia, tinha que ser ela. Estava correndo um grande risco, porque mulher ali era fruta rara. Quem tivesse uma, que a segurasse firme. Quando os peões viam um rabo-de-saia rodando pelos becos dos acampamentos, até lambiam os beiços de desejo. Algumas empreiteiras chegavam a separar, com cerca de arame farpado, os alojamentos de solteiros e casados. A própria construtora oficial, Novacap, fazia questão de demarcar a separação com as abreviaturas AFS, escritas em letras garrafais, que significavam alojamento para funcionários solteiros. Mas isso nem sempre resolvia:
Um operário despede-se da companheira com um beijo apressado. O peão, na espreita, sente chegar a sua vez. Pula a cerca e avança sobre a mulher igual bicho faminto. Ela grita, esperneia daqui e dali. Não tem filho para socorrê-la. Se ninguém mais acode, tem que ceder. O peão descarrega o tesão de muitos cios e some no mundo. Deixa para trás até o emprego.
– Foda-se! Na frente, arrumo outro.
Os barracos da Novacap eram todos pintadinhos de azul. Tinham um leiaute simples e bastante funcional. Chegavam a perder de vista, de tão numerosos. Rui estava esperançoso. Afinal, o homem trabalhava na empresa do governo. Se quisesse, poderia até dar um jeitinho na papelada, esquecer a questão da idade e fichá-lo. Muita gente fazia isso. O problema é que ele não tinha coragem de pedir uma coisa dessa, porque, apesar da amizade ser ainda incipiente, o funcionário já conseguia lhe inspirar um certo respeito de pai.
Seu Ferraz não precisou de muita conversa para perceber que Ceará continuava arrastando uma cachorra. Encarou-o, olho no olho, fez um paralelo com o desamparo da esposa em casa e não teve dúvidas em decidir:
– Faz o seguinte, pega suas coisas e vá lá pra casa.
Rui pôs as mãos para o céu. Ia fechar a birosca naquele mesmo dia e ainda não sabia onde ia passar a noite. Era hora de deixar o orgulho de lado. Primeiro, a sobrevivência. Naquele instante, pensou em Feliciano. Era sempre assim. Qualquer coisa que lhe acontecia, boa ou ruim, lembrava-se do mecânico. Queria lhe contar logo aquela novidade. Não sabia ele que o seu amigo também tinha uma importante conquista para festejar.
– Me respeita, porque agora sou funcionário público! – disse, batendo orgulhosamente a mão no peito, antes de contar que havia sido fichado na Novacap.
Rui, então, lhe falou sobre seu Ferraz. Nada melhor do que fechar a birosca com uma dupla comemoração. Paraíba ficou encarregado de vender o ponto com o minguado estoque de mercadorias, o que não foi difícil. Sempre havia alguém de olho gordo para achar que os dois estavam ganhando rios de dinheiro debaixo daquela espelunca.
Só deixei os cigarros – disse Paraíba, mostrando o apurado.
Rui sentiu pena do amigo, que não tinha onde cair morto, mas nem parecia se dar conta disso. Em sua santa honestidade, insistia nos detalhes daquela mísera prestação de contas. Ceará torcia para Feliciano chegar logo e animar um pouco a conversa. Por um instante, deixou o ex-sócio falando sozinho e ficou observando o cenário. A Esplanada dos Ministérios parecia um grande formigueiro humano. As estruturas dos edifícios cresciam a olhos vistos. Do outro lado do canteiro de obras, uma dupla de euclides esgoelava os motores num vaivém sem fim. Às vezes, pareciam perder o fôlego. Mas os maquinistas, molhados de suor, não davam trégua ao acelerador. Homens e máquinas eram regidos por uma mesma palavra de ordem: força total. Não havia distinção. Empreiteiros, operários, caloteiros, fornecedores, os interesses de todos ali, nobres ou não, tinham, como um único parâmetro, o dia da inauguração. Daí a pouco, um vulto surgiu no meio da poeira. Era o mecânico, com alguma coisa camuflada, debaixo da camisa.
– Olha aqui. É da terrinha, a melhor de toda a beira do São Francisco! – gabou-se o mineiro de Januária, exibindo rapidamente uma garrafa de pinga, voltando a escondê-la. Havia uma razão para tanto cuidado. No começo da construção, as autoridades impuseram a lei seca. Nada de cachaça nos canteiros de obras. Nem mesmo para ajudar a escarrar a poeira da garganta nos finais dos turnos. Bebida era sinônimo de confusão e o governo não queria correr riscos. Bastavam aqueles inerentes ao porte daquela empreitada e sobre  os quais os adversários políticos jogavam todas as fichas. Uma dose a mais entre um turno e outro poderia trazer conseqüências imprevisíveis. A proibição fez surgir um mercado clandestino nos acampamentos. Sempre havia alguém disposto a pagar um bom preço por uma dose de cachaça. Alguns escondiam a garrafa sob os colchões, no canto do armário ou até dentro da descarga do banheiro. Os mais precavidos escolhiam uma moita de arbusto no meio do cerrado. Quando encontravam um tempinho, corriam lá e tomavam um gole.
É bem verdade que a fiscalização já tinha afrouxado bastante, mesmo porque, a essa altura, o consumo estava completamente fora de controle. Além do crescimento da população, um outro fator contribuiu para transformar a proibição em uma medida completamente inócua: o surgimento, também proibido, de uma zona de baixo meretrício nas imediações da Cidade Livre. Apesar das atenuantes, Feliciano preferiu não abusar da sorte. Por isso, todo aquele sigilo. Há dias que vinha escondendo aquela garrafa debaixo de sete chaves. Chegara a hora de abri-la no melhor estilo, isto é, numa roda de amigos. Paraíba queria o privilégio do primeiro gole. O mecânico girou o corpo, fazendo figa.
Rui não costumava beber. Uma abstinência que vinha de família. Ninguém era besta de botar uma gota de álcool na boca, na vista dos pais. Chegar da rua com bafo de cachaça já representava um grande desrespeito. Se lá no Ceará não bebia devido à criação, em Brasília, além de hábito, faltava-lhe dinheiro. Mas achou que não podia fazer feio diante dos amigos.
– Arre égua! – berrou, com a garganta pegando fogo.
– Não sabe dar valor ao que é bom! – zombou Paraíba, pegando a garrafa de volta.
Acenderam uma vela no interior da barraca e ficaram batendo papo, enquanto o mundo se acabava lá fora. Um amigo deles havia desaparecido no canteiro de obras, depois de ficar três dias seguidos, fazendo hora extra. Pensavam no pior, pois muita gente já tinha sido enterrada viva junto com o concreto das fundações.
Segurança no trabalho era letra morta, um conceito maldito pelos empregadores, por representar custos, e completamente ignorado pelas autoridades, mais preocupadas com o cronograma das obras. Não havia cintos, botas, luvas, capacetes. – Capacete era a cabeça da gente – lembravam-se os peões. As levas de migrantes, a maioria procedente da zona rural, iam para as construções do jeito que chegavam. Às vezes, com um simples par de chinelas agarradas nos pés; no máximo, botinas, e um surrado chapéu de palha, ou de couro, se nordestinos.
O governo conseguira aprovar, no Congresso Nacional, a criação da Novacap, medida essencial para viabilizar o início das obras. Ardilosamente, a oposição havia votado a favor, convencida de estar oferecendo a pá para Juscelino cavar a própria sepultura, pois nenhum deles acreditava no êxito da empreitada. JK sabia que os adversários queriam transformar a construção da capital em seu túmulo político, segundo registraria em "Por que construí Brasília", livro de memórias. Para enfrentar o desafio, confiou a presidência da Novacap ao engenheiro Israel Pinheiro, cujo pragmatismo o levava a fazer vistas grossas à legislação trabalhista. "O governo JK colocou toda a autoridade jurídica da região nas mãos da Novacap, embora, logo de início, ela não estivesse aparelhada para exercê-la", afirma o pesquisador Márcio de Oliveira em "Brasília: o mito na trajetória da nação".
Pode-se dizer que o território administrado pela empresa oficial vivia no limbo jurídico – não estava mais subordinado a Goiás e nem era ainda, constitucionalmente, Distrito Federal. Os superpoderes delegados à Novacap dariam margem à prática de excessos, pois, sem fiscalização para coibir abusos, quase tudo era permitido em nome da viabilização do projeto. O limite de duas horas-extras, por exemplo, era multiplicado várias vezes nas "viradas", situação em que o operário, literalmente, virava a noite e o dia na obra.
Clementino, negro, baixinho, mineiro de Rio Casca, servente da Rabelo, conta que havia empreiteiras clandestinas, conhecidas popularmente por "gatos", atuando livremente na região. Com custos operacionais menores, pois não assinavam carteira de trabalho, "os gatos pagavam mais do que as outras firmas", diz ele. Além de ganhar mais, os operários podiam fazer horas extras à vontade, culminando com as viradas. Por isso, explica o candango, as obras tocadas pelos "gatos" seguiam um ritmo mais acelerado do que o das construtoras legalmente constituídas. A relativa lentidão destas últimas preocupava o presidente, que corria desesperadamente contra o tempo para que seu projeto de governo, ancorado na transferência da capital, não se transformasse no "túmulo político" agourado pela oposição.
– Se continuasse naquela vagareza, Juscelino não teria conseguido construir Brasília de jeito nenhum – avalia, convicto, o operário da Rabelo, que, por diversas vezes, presenciou o presidente exaltar os ânimos dos peões durante as vistorias que costumava fazer nos canteiros de obra, algumas delas, altas horas da madrugada.
O servente fora batizado pelo nome de Clementino Cândido Rosário da Silva. Analfabeto, na hora de ser fichado, não conseguia assinar a carteira de trabalho. Com medo de o patrão perder a paciência e ele, o emprego, resolveu abdicar dos dois sobrenomes. E assim passaria a ser identificado em todos os documentos pessoais. Mas sua memória não dependia da escrita, muito menos de sua capacidade de observação. Segundo ele, foi para acompanhar o ritmo dos "gatos" e, com isso, viabilizar a inauguração da capital no prazo previsto, que as demais empreiteiras resolveram adotar a prática das "viradas". Assim, elas mataram dois coelhos com uma cajadada: aumentaram produtividade e reduziram custos, pois era mais barato pagar hora extra do que contratar novos empregados.
Apesar dos acidentes, os peões, de modo geral, não se opunham a extrapolar a jornada de trabalho. Pelo contrário. Seduzidos pela possibilidade de dobrar os salários, corriam o risco e, com isso, atendiam também os interesses dos patrões: – Todo o mundo queria fazer hora extra, porque a gente veio pra cá pra ganhar dinheiro – conta Clementino.
A esperança de garantir um pé-de-meia ao ritmo de "cinqüenta anos em cinco", conhecido slogan do governo, alimentava o ciclo de uma tragédia cotidiana.
José Cosme Pereira; profissão: carpinteiro; estado civil: solteiro; naturalidade: paraibano de Boqueirão das Cabeceiras, em Brasília desde julho de 1958. Seu trabalho era montar o madeirame que servia de molde para lajes e vigas:
– A memória dos acidentes acontecia na hora da concretagem. A correria era maior, porque o cimento não podia passar do ponto. A empreiteira chamava todos os quebra-galhos, gente que nem sabia usar um martelo. Quando o bico da laje quebrava, saía derrubando operário de andar em andar até chegar lá embaixo. Mais do que depressa, o encarregado, sujeito responsável pela obra, jogava um pedaço de lona em cima para ninguém identificar o corpo. E a mulher, coitada, ficava lá no Norte, junto com os filhos, pensando que tinha sido abandonada pelo marido…
Se coubesse aos operários eleger uma espécie de "túmulo ao candango desconhecido", à semelhança dos monumentos erigidos para homenagear soldados desaparecidos em campos de batalha, provavelmente apontariam o anexo do Congresso Nacional, o "vinte e oito", como era chamado, devido ao número de andares. Impossível saber a quantidade de trabalhadores que havia caído de lá, pois nem às empreiteiras nem ao governo interessava fazer essas contas, muito menos divulgá-las.
– Pra complicar, aqui não havia justiça trabalhista nem representação sindical. A gente só ficava sabendo das coisas pela "rádio peão" – conta Cosme, que se aposentou por acidente de trabalho, ganhando quatro salários-mínimos, reduzidos a apenas um pelos sucessivos planos de combate à inflação dos governos posteriores. Apesar dos infortúnios, uma das cenas que o carpinteiro mais gostava de lembrar era a de ver Juscelino se misturar entre os peões de obra como se fosse um deles:
– Os operários formavam um corredor e ele passava no meio, batendo a mão nos ombros da gente. De vez em quando, parava na frente de um de nós e falava: não gaste tudo o que ganha, não, meu filho. Procure guardar um pouco do dinheiro, pra você sair daqui com uma luvinha na mão!
Na tese de mestrado defendida na UnB, em 1980, sob o sugestivo título "O Capital da Esperança", Gustavo Sérgio Lins Ribeiro transcreve falas que reafirmam aquilo que a "rádio peão" noticiava e a oficialidade jogava debaixo do tapete.
– Do jeito que eles construíram aquele ‘vinte e oito’, principalmente a estrutura, foi um troço criminoso – diz um dos depoentes. Segundo ele, um dos testes utilizados na hora da contratação era fazer o candidato andar em cima de uma viga de uns quinze centímetros de largura, a uns dez metros do solo.
– Se o sujeito passasse nela, passava no teste. Podia ser ele analfabeto.
Uma das várias fontes ouvidas pelos pesquisadores era "fazedor de caixão" da Novacap. Certa ocasião, conta ele, despencaram nove trabalhadores do elevador do "vinte e oito". Freqüentemente, era acordado no meio da noite para fazer novos ataúdes. Para conseguir atender a todos os pedidos e evitar chateação dos superiores, já deixava vários deles prontos, empilhados. O número de vítimas fatais era tanto, que o pessoal chegava à carpintaria e apenas lhe dizia: "vê um caixão aí".
A morte, de tão corriqueira, talvez tenha adquirido um sentido banal para alguns. Mas, debaixo daquela birosca, o clima era de velório. Ninguém via mais motivo para festejos.
Paraíba logo caiu no sono, vencido pelo efeito da cachaça de Januária. Depois foi a vez de Feliciano. Rui teve uma ligeira sensação de abandono, ali acordado, vendo os dois dormindo a sua frente feito pedra. Sem ter com quem conversar, seu pensamento voou mais longe, até Sobral. Se tivesse ficado quieto em casa, àquela hora, estaria sossegado em seu quarto, em cima de uma acolhedora cama. – Cachorro que muito anda, cria rabugem… Pena não ter acreditado nesse ditado antes de partir. Já estava quase cochilando, quando sentiu o tempo mudar do lado de fora. Chuva. Era a única coisa que faltava para estragar ainda mais aquela noite. Uma rajada de vento entrou repentinamente pelas frestas das paredes e apagou a vela já quase toda derretida.
– Acorda! – gritou, sacudindo os amigos embriagados, sem ânimo para se colocarem de pé. Quando os dois resolveram se mexer, o aguaceiro já invadia a barraca por todos os lados. Molhados como ficaram, não havia mais razão para correria. Saíram trocando pernas, em busca de abrigo, amedrontados com os trovões que estouravam repetidamente sobre suas cabeças. Rui, que não havia bebido, tentava servir de escora para ambos.
Tudo em volta virou uma só poça de lama. Mas isso não diminuía o corre-corre nos canteiros de obra. A vida continuava, e com maiores riscos. Feliciano começou a repetir sistematicamente o trecho de uma canção como se fosse um velho disco estragado. Paraíba delirava, queixando-se de uma paraibana que nunca seduziu. Dizem que bêbado é igual a cachorro vadio. Sempre acerta o caminho de volta. A trancos e barrancos, chegaram à Praça dos Três Poderes e se jogaram sobre um monte de areia. Ficaram olhando para cima, impressionados com a altura do "vinte e oito", inabalável com todo aquele temporal.
Uma faísca caiu nos arredores, causando enorme susto nos três. Até a Vila Planalto ainda era uma boa caminhada. Rui sentiu que não dava para ir muito longe em meio à trovoada. Viu uma sobra de laje e foi para debaixo dela, levando os dois juntos.
 
Reproduzido do livro "Expresso Brasília: A História Contada pelos Candangos"

 

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Candango: pequena história de uma palavra

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Candango: pequena história de uma palavra
Por Ana Miranda
 
 
                                                                           "É linda a palavra, parece nome de uma
                                                                            planta que alucina, parece um som de
                                                                            tambor, uma reverberação, um ruído
                                                                            primordial."
 
 
Quando cheguei em Brasília, em janeiro de 1959, a palavra candango era usada para designar apenas os operários que trabalhavam na construção da cidade. Tinha uma acepção que representava o preconceito existente contra os nordestinos chegados um ano antes, retirados de uma grande seca. Depois perdeu seu caráter pejorativo e passou a incluir todos os pioneiros que trabalharam na construção de Brasília, acabando por abarcar os moradores da cidade, em geral. Hoje, como uma espécie de homenagem, justíssima, é um gentílico para todo aquele que nasce em Brasília.
É linda a palavra, parece nome de uma planta que alucina, parece um som de tambor, uma reverberação, um ruído primordial… Candango tem etimologia controversa, mas certamente é de origem banta. Em Cuba, país de fortíssima presença africana, candango significa bobalhão, mentecapto, doentio, enfraquecido… Li em algum lugar que ela teria vindo de uma palavra africana equivalente a "iludir com lisonjas". Ortiz vê essa palavra como originária do quicongo, kunda, que é encurvar-se, dobrar a espinha, render homenagem, ou adorar, o que parece sensato, como anterior à sugestão pejorativa, pois primeiramente os africanos teriam se curvado aos estrangeiros negociantes, depois os teriam visto como ilusores, em seguida como captores inimigos. Tudo isso faz sentido, usando-se um pouco a imaginação.
Aqui no Brasil, a palavra candango percorreu um caminho sinuoso. Meu dicionário Aurélio diz que ela nasceu de kungundu, diminutivo de kingundu, em quimbundo. Kungundu exprimia, para os nossos escravos africanos, a idéia de ruim, ordinário, vilão. Era a designação que eles davam aos portugueses dedicados ao infame e rendoso tráfico negreiro. Essa palavra carregava significados tão pesados e maus, que só era pronunciada na intimidade da conversação na senzala.
O dicionário etimológico localiza a palavra candango no finalzinho do século 19, mas eu acho que é bem mais antiga aqui por estas plagas, porém de uso oral, popular, sem registro. Secreta. Caiu em desuso a acepção de indivíduo ruim, sem valor, ou pessoa de mau gosto. Ressurgiu em Brasília nos anos 1950, não se sabe como, provavelmente levada pelos afro-baianos, ou afro-pernambucanos, pelos descendentes dos escravos das senzalas, que acorreram à cidade para trabalhar na construção. Os operários de Brasília, no tempo da construção, eram conhecidos como piões, uma palavra também usada para os operários fabris, mas que em Brasília fazia uma alusão à alta-rotatividade dos trabalhadores da construção civil. No livro de Nair H. Bicalho de Sousa, o pedreiro João, construtor da cidade, contou que era o presidente Juscelino Kubitschek quem usava a palavra candango para nomear os operários,talvez consciente de que eles não gostavam de ser chamados de piões, que consideravam palavra apriorística. "Eu acho que negócio de pião que eles fala assim, é quase que um desfazimento na classe operária…" (carpinteiro Agripino). Ou, como era encontrado um nova palavra que apagava a ideologia residente nas denominações pião ou operário…
Aquela, expressando uma forma de excluir os trabalhadores do processo oficial.
Diz o pedreiro João: "Esse nome, o que chamava pião, é porque Juscelino chamava o povo candango, né? Que até eu mesmo cansei de ver ele mesmo dizer que era nós candango. E ele dizia era assim, num era só candango, não. (…) Esse nome (candango) apareceu aqui mesmo em Brasília, porque pião é uma pessoa lá pro Norte, pra esses lugar por aí, é uma pessoa que amunta, que é amansador de animal, então, que tem esse nome (pião). Então é o nome, então, eles chama pião. Aqui é homem de obra, em vez de chamar operário, chama é pião." Candango, então, teria nascido com uma conotação política.
 
Ana Miranda
Reproduzido do Correio Braziliense, 12/10/2008.

 

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O Caneco

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O Caneco
Por Clemente Luz

 
Outra pequenina coisa, além da mala pobre de madeira, é essencial na vida do trabalhador de Brasília, principalmente do trabalhador de origem nordestina. A escova de dentes, de uso tão pessoal, tão íntimo, não tem a importância do simples caneco de alumínio ou de ferro esmaltado que ele leva dependurado do cinto, por onde quer que vá. No trabalho, na hora de descanso, o caneco está presente. Na mesa de refeições, como o castiçal mais rico que os nobres punham à frente do prato, o caneco está de pé e, quase sempre, cheio de água.
O caneco faz parte do pequeno mundo do trabalhador. Veio com ele, de onde quer que tenha vindo, e com ele sofreu as agruras da viagem. Às vezes, amassado, quase sem forma, é bem o reflexo das vicissitudes por que passou o seu dono. É outro sinal vivo da miserabilidade de vida que impôs, ao homem rude do nordeste, a fuga para o sul, fuga trágica e quase hereditária que passa de geração para geração, numa constante dolorosa e terrível.
Quem me deu a idéia nítida da importância do caneco, na personalidade do nosso bravo candango, foi um engenheiro chefe de obras. contou-me ele que, no acampamento que dirigia, como em todos os outros, havia reclamações e brigas constantes por causa do recipiente pobre. Podem mexer na mala de madeira, podem até usar a escova de dentes, o sabão ou a toalha. Mas não toquem no caneco! Em suas bordas, os lábios grossos e ressequidos se dessedentam. E beber água, sorve o líquido que desce manso garganta abaixo, é mais do que uma necessidade física: é uma benção celeste, que, muitas vezes, não desce sobre as caatingas ou sobre o agreste nordestino. Daí, a importância absoluta do caneco, promessa permanente de água reanimadora e criadora.
E o engenheiro contou-me que são comuns cenas como esta, entre ele e o operário:
– Doto, mexeram no meu caneco!
– Quem foi?
– Apois, dotô, seu eu soubesse, num vinha le fala. Eu mesmo dava jeito no cabra.
– Que é que você quer que eu faça?
– Que descubra ele e mande ele me dar outro caneco, que esta boca num foi feita pra anda no rastro de boca de qualquer cabra, não. Nem boca de muié eu gosto no meu caneco.
E concluindo, o engenheiro explica:
– Às vezes, tenho de bancar o investigador, descobrir quem foi e impor a compra de um novo caneco. Quase sempre, mando comprar outro, por minha conta ou da firma. Para não ter que descobrir o culpado. A gente nunca sabe qual será a reação do prejudicado…
E eu, depois das palavras do engenheiro José Brasil, concluí que, quase sempre, coisas tão pequenas e simples, tão pobres e frágeis, significam tanta para a vida de um ser humano.
Um simples caneco de alumínio, para o nordestino, é mais do que o teto, é mais do que o pão. É o símbolo da existência, a promessa de melhores dias, a certeza da água!…

Clemente Luz
Extraído do livro "Invenção da cidade"

 

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BIROSCA

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

BIROSCA
Por Edson Beú

    Tudo em Brasília vinha de longe: a farinha, o arroz, a dúzia de ovos. Por isso, qualquer coisa – até a caixa de fósforos, era vendida com o preço pela hora da morte. Para facilitar o abastecimento, o comércio era livre, isto é, ninguém pagava imposto. Daí a origem do nome Cidade Livre para o primeiro núcleo pioneiro da futura capital. Valia a lei da pouca oferta e muita procura. Os candangos não faziam conta de nada. Nem alguns funcionários do governo. Uns por displicência, outros por má-fé.

   Um caminhão cheio de material entrava várias vezes no canteiro de obras e saía sem descarregar. Cada vez que fazia isso, o fornecedor recebia uma nova guia de pagamento pela mercadoria. – A roubalheira era demais – diziam os peões. Muita gente queria encher os bolsos de qualquer maneira. E tinham pressa em fazê-lo, pois sabiam que o dia da inauguração significaria também o fim de uma época de vacas-gordas. Quem dispunha de algum capital, podia multiplicá-lo da noite para o dia. Para isso, bastava deixar os escrúpulos de lado, problema que alguns resolviam com extrema facilidade.

   Não por acaso, os custos da construção de Brasília constituíam o calcanhar-de-aquiles do governo e uma das armas preferidas da oposição para bombardear o projeto. Os adversários alegavam que a execução de uma obra de tamanha envergadura iria causar um aumento descomunal da inflação e da dívida externa. O Executivo tentava se defender, apresentando suas contas. Em matéria publicada no Diário de Notícias em 13 de dezembro de 1958, Israel Pinheiro, presidente da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, a Novacap, criada com a finalidade exclusiva de administrar a execução das obras, dizia que a cidade era "autopagável". Segundo seus cálculos, Brasília custaria exatos Cr$ 8,4 bilhões, o que equivalia a menos da metade do valor de Cr$ 20 bilhões que a União arrecadaria com a venda dos lotes do futuro Distrito Federal, de acordo com a mesma projeção.

   À margem dessa controvérsia bilionária, um comércio improvisado, movido a centavos, surgia ao redor dos canteiros de obras. Eram as biroscas, pequenas meiáguas erguidas com os restos de material que se amontoavam pelos acampamentos. No estoque, pão, salame, biscoitos, cigarros e antiácidos. Cachaça, o que todos mais queriam, não estava à venda. No começo, era proibido. Foi aí, nesse universo informal, em que não se exigiam documentos e, às vezes, nome nem sobrenome, pois valia mais o apelido, que Rui encontrou trabalho. Estava longe de ser o emprego de seus sonhos, mas era bem melhor do que continuar naquele eterno ora-veja, dependendo dos amigos até para comprar um comprimido contra a indigestão quase diária causada pela bóia da cantina da empreiteira.

   Enquanto os fregueses não vinham, ficou olhando os arredores, onde se erguiam os primeiros ministérios. A cidade germinava a todo vigor. Levas de peões cruzavam os canteiros de obra num vaivém sem fim. Máquinas esburacavam o chão por todos os lados. Vistas dali, pareciam enormes criaturas, rugindo de olhos acesos no lusco-fusco da madrugada. As poucas árvores que ainda restavam eram logo arrancadas pelas lâminas dos tratores. A ocupação territorial do novo Distrito Federal (DF) não obedecia à "circunspecção" recomendada pelo botânico da missão Cruls, há mais de meio século.

   Ao contrário, o desenho urbanístico de Brasília, inspirado no sinal-da-cruz, ou numa borboleta – como corrigiu o arquiteto Lúcio Costa em entrevista publicada pelo Correio Braziliense, em 12 de outubro de 1997, contestando de modo veemente a comparação feita por aqueles que viam a cidade em forma de um avião – foi traçado à custa da devastação de uma bela mata do cerrado. Para se ter uma idéia do tamanho da derrubada, basta, por exemplo, examinar algumas fotos disponíveis no Arquivo Público do DF, tiradas por Mário Fontenelle, autor de inéditas imagens sobre os primeiros dias da construção.

   Naquela época, desmatamento era sinônimo de progresso. A questão ecológica ainda não fazia parte da agenda da maioria dos governantes. Além disso, havia um grande preconceito contra o cerrado. Achavam-no feio – como se alguém tivesse o poder de estabelecer o padrão estético ideal para a natureza – e economicamente imprestável, devido à acidez do solo. Resolveram derrubar quase tudo e importar espécies exóticas, a grande maioria delas inadequadas ao clima da região.

   O Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal arquivou cópia da matéria publicada em 14 de fevereiro de 1959 pelo jornal carioca Correio da Manhã, intitulada "Brasília vive alheia ao problema do conservacionismo", na qual o repórter Fuad Atala registrou o esforço e, ao mesmo tempo, a "falta de tino" das autoridades em relação ao bioma cerrado, por terem mandado plantar dois milhões de pés de eucaliptos na "faixa sanitária" da cidade.

   O impacto ambiental da edificação da capital não ficaria restrito a seu perímetro urbano. Talvez por isso é que Juscelino e os governos que se sucederam tenham criado cinco parques ecológicos na região Centro-Oeste: o de Brasília, popularmente conhecido por Água Mineral, o das Emas, o do Araguaia, o da Chapada dos Veadeiros e o do Xingu.

   A necessidade de romper o isolamento da futura capital obrigou o governo a abrir estradas em quase todas as direções do país. O maior desafio era promover a ligação de Brasília com o Norte, através da selva amazônica. Não por acaso, a empreitada foi confiada a um desbravador nato, o agrônomo Bernardo Sayão, que, desde o início da década de quarenta, havia trocado o conforto do Rio de Janeiro pelos longínquos sertões de Goiás, entusiasmado com a chamada Marcha para o Oeste, promovida pelo governo Vargas.

   Sayão chegou a ser vice-governador do estado, apesar de sua aversão pelas formalidades dos gabinetes. Sua vocação mesmo era andar pelos matos, construindo estradas, pontes, vilas, ou seja, abrir fronteiras. Por isso, o cognome de Bandeirante do século XX. Dono de forte carisma, tornou-se, depois de Juscelino, a figura mais popular entre os candangos. Morreu tragicamente, atingido pela queda de uma gigantesca árvore nas matas do Maranhão, durante a construção da rodovia Belém-Brasília.

   A morte de Sayão representou um grande golpe para os candangos. Pela primeira vez, a cidade parou. O luto substituiu o corre-corre contra o calendário. De tão comovido, o motorista do engenheiro, José Segundo, morreu de infarto. Foi enterrado ao lado de seu chefe. As primeiras notícias sobre a tragédia chegaram aos canteiros de obra acompanhadas de muita desinformação. Alguns diziam que Sayão fora vítima de uma ataque de índios. Outros, devorado por animais ferozes, pois a Belém-Brasília também era conhecida como a "estrada das onças". E ainda havia aqueles que viam a fatalidade como castigo dos habitantes invisíveis da natureza, inconformados com a profanação de seu território. Vingança do Curupira? A propósito, Francisco Manoel Brandão, estudioso do folclore, produziu o seguinte relato, transcrito no livro de memórias, Meu pai, Bernardo Sayão, de autoria de Lea Sayão. Conta ele:

 

   "Sobre o Curupira, diz-se na minha terra que ele sopra fumaça no seu cachimbo de barro, de longo taquari e encanta menino no oco dos paus. Ora é bom, ora é mau. E é mau quando se atenta contra a natureza que ele protege. É um dos deuses autóctones da Amazônia. Tem os pés para trás e não possui "fió". Protetor das florestas, vive batendo com sua borduna no tronco das árvores para ver se estas se encontram firmes no solo.

     Certa vez estávamos a recolher, nos campos do planalto, um flagrante topográfico de uma árvore imensa, galhos secos levantados para o céu como quem a pedir socorro por entre o fogo devastador das queimadas. Sayão chegou a nós e disse:

     – Eu o conheci há três anos, dando sombra ao gado e enfeitando com suas flores roxas a paisagem. Você, meu caro, é um poeta e só a alma sensível pode comover-se em presença de uma árvore que morreu. E aqui para nós, que ninguém nos ouça: quando sou obrigado a derrubar as árvores para ver as estradas por entre elas passarem, o trem aqui dentro (referia-se ao coração) bem que desanda e tenho que reagir para não o ver derrapar.

     Respondemos-lhe: – Não temos dúvida a seu respeito. Você é dos tais que a gente logo vê cara e coração.

     Despediu-se dizendo: – Em breve irei enfrentar a floresta da sua terra. E o advertimos, também gracejando: – Cuidado com o Curupira!… Nunca nos passou pela idéia que o diálogo descrito um dia tivéssemos que contá-lo a respeito da causa da sua morte.

 

Rui sabia que curupira algum resistiria ao barulho infernal daquelas máquinas nem acharia mais nenhuma grande árvore em pé por perto para canalizar a sua ira. Tinha, entretanto, outros motivos para se preocupar. Afinal, era o seu primeiro dia de trabalho. Nesses casos, há sempre aquele medo de por tudo a perder devido ao mais simples descuido. E quanto maior a necessidade do candidato, maior a insegurança. O patrão era italiano, um tipo falador, minucioso e tão direto, ao tratar de negócio, que chegava a ser grosseiro.

      – A diferença sai do seu bolso – avisou com a voz embolada, referindo-se às prestações de conta, que deveriam ser feitas diariamente.

      Rui aprendeu a gostar daquela freguesia apressada, que chegava e logo saía amassando o troco nas mãos duras de cimento. Também, para eles, tempo significava dinheiro, hora extra. Ceará começou a entender um pouco o mundo dos canteiros de obra. Ouvia desde piadas a casos de morte, pois a peixeira zunia solta nas mãos dos candangos e a segurança no trabalho não fazia parte da rotina. A seus olhos, porém, tudo parecia valer a pena. Já se sentia um dos escolhidos pela bem-aventurança, só de estar ali, debaixo daquela birosca. Contava os dias ansiosamente, à espera do primeiro salário. Toda vez que voltava ao alojamento, riscava um dia na folhinha. Certa noite, comentou com Feliciano, feliz da vida:

       – Amanhã, vou receber meu dinheiro. Dois contos de réis, já descontando os vales.

       – Já inteirou um mês? – quis confirmar o mineiro, surpreso com a velocidade do tempo.

       – Um mês sem faltar nem pôr.

       – O que é que vai fazer com os cobres? – continuou Feliciano, meio de caçoada.

       – Comprar um calça de perna comprida, pra ir ao puteiro com você – respondeu Rui, no mesmo tom de brincadeira.

        Naquela hora, Rui bem que pensou em comprar uma passagem de volta para o Ceará. Mas desistiu da idéia, porque não queria chegar em casa de mãos vazias, como saiu. Principalmente, agora, quando já tinha uma tábua para se agarrar. Para ele, o emprego, apesar de tão miserável, sinalizava que o vento, finalmente, começava a soprar a seu favor e que logo poderia gritar para si mesmo: terra à vista! Bastava ter um pouco mais de paciência. De tão ansioso, nem dormiu direito naquela noite.  Por volta das quatro da manhã, já estava de pé. Saiu pelos becos da vila, pegou uma das trilhas que levava ao "vinte e oito" e seguiu a passos largos entre os canteiros de obra. Era madrugada, mas parecia pleno dia, porque, qualquer que fosse a hora, o ritmo de trabalho era o mesmo. Operários andavam por todos os lados, dividindo espaços com máquinas, caminhões e pilhas de materiais.

        Às vezes, era difícil enxergar alguma coisa no meio daquele poeirão. Mesmo assim, Rui percebeu que a birosca estava aberta. Havia algo de errado, porque o patrão não costumava chegar tão cedo. Apressou a caminhada, já pensando no pior.

        Havia alguém lá dentro, mas não era o dono. Tampouco ladrão, pela tranqüilidade com que mexia nas prateleiras.

        – O que é que o senhor está fazendo aí?

        – Sou o dono disso aqui agora, rapaz!

        O filho d’uma égua do italiano havia vendido a birosca às escondidas. Não deixou recado nem endereço. Ainda assim, Rui perguntou pelo seu pagamento. O sujeito fez que não ouviu. Ceará na sabia como agir em uma situação como aquela. Mas, com certeza, daria o troco. De um jeito ou de outro, alguém haveria de pagar. Talvez o próprio comprador da birosca, que continuava de costas, todo sonso, fingindo arrumar as coisas para dissimular sua cumplicidade.

        Rui correu o olho em volta e viu um lampião a querosene encostado ao pé-de-parede.

Dava para salvar parte do prejuízo. Porém, a simples idéia de roubar o assustava. Para ele, não poderia haver nada mais abjeto. Era dez vezes pior do que matar. Não se lembrava de ninguém em sua terra que tivesse caído na língua do povo por haver tirado a vida de alguém. Muitas vezes, nem preso ia, pois, com dinheiro e um bom advogado, tudo se arranjava sob a velha argumentação da legítima defesa. Mas roubar, não. Para ele, roubar era um crime inafiançável.

        O lampião estava apagado. Com cuidado, era possível apanhá-lo sem o proprietário notar. Se estivesse aceso, não; certamente seria denunciado pela diferença de luz na saída.

Era um Aladim dos bons, quase novo. Ficaria muito melhor na mesa de uma sala do que jogado no meio daquele barro. Um peão chegou, pediu uma marta-rocha e saiu correndo de volta ao canteiro de obras. Dali a pouco, chegariam outros. Se houvesse alguma coisa a fazer, teria de ser já. Não poderia continuar ali parado, perdendo tempo naquele conflito de consciência.

         O dono da birosca virou-lhe as costas novamente. Estava na cara que tinha culpa no cartório. Um mês trabalhando de fio a pavio, sem domingo nem feriado, engolindo poeira de madrugada ao anoitecer, para, no final, não receber um tostão. Não tinha mais dúvidas. Os verdadeiros ladrões estavam do outro lado. Roubar, naquelas circunstâncias, só podia ser também um ato de legítima defesa. Passou a mão na alça do lampião e sumiu no mundo.

         – Que cara é essa? – perguntou Feliciano, ao vê-lo chegar todo azoretado.

         Rui contou-lhe o ocorrido. O mecânico ficou bravo, xingou Deus e o diabo, mas percebeu a tempo que não adiantava fazer drama. Baixou o tom da voz e concluiu com uma frase bem mineira:

         – Não adianta chorar pelo leite derramado – disse, batendo-lhe nos ombros, para reafirmar seu apoio.

         – No Ceará, a gente fala diferente: do perdido se tira o sentido…

         Rui não era mesmo de se abater facilmente pelos revezes da vida. Em vez de ficar chorando pelo leite derramado, tirou logo o sentido do perdido e tomou uma decisão ousada: abriria uma birosca em parceria com um sujeito que acabara de conhecer. Já tinha pensado em tudo. Para garantir sua cota na sociedade, venderia o lampião roubado. E ninguém melhor do que Feliciano para ajudá-lo a executar o plano de ação. O fiel escudeiro quis apenas saber o nome do sócio. – Pau-duro, respondeu Rui, explicando-se melhor:

         – É porque ele fica quase o dia inteiro teso, por falta de mulher.

         O mineiro soltou uma gargalhada, mostrando toda a arcada dentária, branca como leite.

         – Já vi que ele vai ficar assim por muito tempo. Porque peão pra pegar mulher aqui tem que ser três "bês": bom de briga, de bolso e de bico.

         Feliciano conhecia muita gente nos acampamentos da Vila Planalto. Não teve dificuldades em achar um comprador para um objeto útil como aquele. No dia seguinte, voltaria do trabalho com um conto e duzentos réis na mão. Rui pegou o dinheiro e saiu à procura de Paraíba, como passaria a chamar o futuro sócio, para evitar o grotesco apelido. Os dois saíram a campo, em busca do melhor ponto. Havia birosca por todos os lados. Mas não era por isso que iriam desistir do projeto. Montaram a meiágua entre o último canteiro de obras da Esplanada dos Ministérios e o grande aterro da futura Estação Rodoviária. Nenhum dos dois levava jeito para carpinteiro. Mesmo assim, decidiram fazê-la um pouco maior do que o de costume, porque um deles ia ficar dormindo dentro dela, como vigia.

             Uma semana depois, Rui seria despejado. Alguém no alojamento resolveu denunciá-lo. O primeiro nome que lhe veio à cabeça foi o de Alagoas, o zelador. Sabia que o incidente criado por causa daquele resto de comida nunca fora totalmente superado. O espaço da birosca, agora, tinha que dar para dois. Dormiam quase sentados, um de frente para o outro, um aperreio danado. Quando chovia, principalmente. Eram obrigados a passar o resto da noite sob a marquise da construção mais próxima, porque tudo se enchia de água por baixo.

             Um trator passou ao lado, estremecendo o chão todo. Veio uma caçamba e despejou um carregamento de brita quase em cima da barraca. Berros dos mestres-de-obras, a betoneira que não parava de girar. Rui apoiou as costas na parede e acendeu um cigarro. Enquanto esperava o sono chegar, ficou olhando o companheiro dormindo, indiferente a toda a barulhada. Nunca lhe perguntara, mas calculava terem a mesma idade. Ainda de menor e sem documentos para ser fichado, via o sócio tão desafortunado quanto ele, ali, espichado à sua frente.

             O cigarro estava no fim. Deu mais uma tragada, esfregou a guimba no chão e adormeceu com a cabeça caída sobre o ombro. Mas nem pôde descansar o corpo, pois daí a pouco começaria a chover. Aquela investida no ramo dos negócios seria tão efêmera quanto malsucedida. Nenhum deles tinha vocação para comerciante. Paraíba era muito mão-aberta com os fiados e o outro não sabia engolir desaforos. Chegaram à conclusão de que o melhor mesmo era acabar com aquela agonia e cada um seguir seu caminho.

Extraído do livro "Expresso Brasília: a História Contada pelos Candangos", de Edson Béu.

 

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