A SOLIDÃO DIVIDIDA EM BLOCOS

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A SOLIDÃO DIVIDIDA EM BLOCOS
Poucas cidades no país produziram uma juventude tão crítica e irônica em relação ao cotidiano – e isso é saudável
Por Sérgio de Sá
 
Há cinqüenta anos, a cidade artificial procura encontrar uma identidade que lhe seja natural. "Nós queremos ação! Acabar com o tédio de Brasília, essa jovem cidade morta! Agitar é a palavra do dia, da hora, do mês!", gritava Renato Russo, com todas as exclamações possíveis, no fim dos anos 70, quando era voz e baixo da banda punk Aborto Elétrico. Em meio à burocracia oficial, o rock ocupou o espaço urbano, os parques, as superquadras de Lúcio Costa, cresceu e apareceu. Foi a primeira manifestação cultural coletiva a dizer ao país que a cidade existia fora da Praça dos Três Poderes e que, além disso, estava viva.

Na década de 80, Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude, Detrito Federal e outros grupos, de nomes antes esquisitos e hoje nacionalmente sonoros, bagunçaram o coreto de um lugar exageradamente controlado, recém-desembarcado de uma ditadura militar próxima demais no tempo e no espaço. Depois de vinte anos de sufoco, no período pós-1964, e já com a chegada da anistia, Brasília respirou aliviada e seus filhos – poucos de sangue, muitos adotivos – puderam afirmar sem medo, mas com ironia e autocritica: "Somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da nação, Geração Coca-Cola", também nas palavras do onipresente Renato Russo.

O atormentado líder da Legião Urbana, nascido em 1960 como Brasília – mas na Velhacap, o Rio -, inventou outro mundo para animar a adolescência brasiliense. Transformou o cotidiano aborrecido em poesia. Algo diferente do que, no Rio de Janeiro, fizeram João Gilberto, Tom e Vinicius com a bossa nova, no fim dos anos 50, retrato musical do prazer de viver à beira-mar, trilha sonora do bem-estar.

O movimento candango, no grito e em acordes também dissonantes, resumiu a vontade que cerca a história da cultura na capital federal: apagar traços da ocupação militar, escapar da comodidade das repartições públicas, amenizar a pecha de lugar de corrupção e bandalheira, de endereços sem alma, formado por letras e números. Numa versão nunca gravada de Tédio (com um T Bem Grande pra Você), Renato Russo escreveu: "Tudo numerado é legal mas enche o saco".

"SQS ou SOS", eis a questão resumida pelo poeta Nicolas Behr, representante brasiliense da chamada turma do mimeógrafo, de bar em bar vendendo seus livrinhos. Se Leo e Bia, o casal criado por Oswaldo Montenegro em 1973, viviam no centro de um planalto vazio, "como se fosse em qualquer lugar", Eduardo e Mônica descobriram outro roteiro, menos etéreo, mais real. Como os personagens da música da Legião Urbana, a cidade se encontra no Parque da Cidade, anda de camelo, toma conhaque, faz magia e meditação. Esbarra, assim, num cotidiano aparentemente igual ao das outras cidades. Mas talvez apenas esbarre, porque a vida em Brasília é realmente diferente, inclassificável.

"Brasília não é um lugar qualquer", resume o ator Adriano Siri, da Cia. de Comédia Os Melhores do  Mundo, sucesso de bilheteria em todo o país. "Tem esse propósito inicial de abrigar poderes, autoridades, embaixadas, mas, ao mesmo tempo, traz algo nas características urbanas que nos diferencia. A cultura, naturalmente, deixou-se marcar por isso." Ele lembra que Brasília, como nenhuma outra cidade brasileira, concentrou gende vinda de todos os lugares e que uma tradição ainda está por se constituir – a cidade é jovem demais para contar uma história. "Em nossos espetáculos, conseguimos fazer humor com as realidades regionais sem forçar a barra", afirma Siri. Cinqüenta anos, em qualquer cronologia urbana é muito pouco tempo.

Caipirice. Não se pode dizer que Brasília, aos 50, seja apenas a cidade de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. "Não podemos esquecer da tradição e da vida anterior ao concreto, do sertão e sua cultura", afirma o violeiro mineiro-brasiliense Roberto Corrêa. Brasília, portanto, alia a saudável caipirice de origem (não confundir com a breguice sertaneja que a cidade abarcou, em especial nos doze anos de governo Joaquim Roriz) ao cosmopolitismo que nasce do casamento do modernismo arquitetônico com uma população de alto poder aquisitivo, viajada.

Em Renato Russo: o Filho da Revolução (Agir), o jornalista Carlos Marcelo mostra como o líder da Legião Urbana e as turmas que gravitavam na esfera do rock foram os primeiros adolescentes a poder assumir sem medo a identidade da cidade em construção, com todas as suas inquietações e imperfeições. "Nas composições iniciais, no fim dos anos 70, Renato Russo utilizou a estética e sonoridade punk, que tinham acabado de surgir na Inglaterra e nos Estados Unidos, para amplificar o impacto das letras que escrevia sobre a situação política do Brasil e do que observava no cotidiano da capital", afirma Marcelo. "Essa mistura em iguais proporções de ingredientes cosmopolitas e nacionais é bem característica da juventude brasiliense daquela época."

Para o jornalista, a angústia resumida nas letras do roqueiro é a tradução das dores de parto e do crescimento da cidade. "Elas captaram a atmosfera daquele tempo, entre o fim do regime militar e a democratização, como se fossem polaroides", diz. Para Carlos Marcelo, "Renato foi o primeiro a cantar, com todas as letras, a angústia de morar numa cidade sufocada, de estar cheio de se sentir vazio", completa, numa referência a trecho da letra da canção Baader-Meinhof Blues, uma das tantas que misturavam estado de espirito com o desenho urbano.

O mundo, naqueles dias dos anos 70 e 80, andava mesmo complicado. Para levantar a poeira da inércia bem acomodada na tranquilidade planejada das superquadras, a arte do rock encontrou Brasília, ao mesmo tempo em que, inevitavelmente, estabelecia uma mirada estrábica: um olho nos pilotis e nos cobogós, outro nas informações que circulavam mundo afora. Com baixo, guitarra, bateria e um plugue na tomada de Londres ou Nova York, partiu para a ação debaixo dos blocos, como são chamados os edificios residenciais no Plano Piloto de Lucio Costa.

Dos gramados abertos brasilienses às salas esfumaçadas do Rio ou de São Paulo, foi um pulo, ou melhor, um mosh, como os punks definem o salto do músico aos braços da platéia, num movimento de euforia, mas arriscado. As bandas desembarcavam com um poderoso cartão de visita: "somos de Brasília", como quem dizia "somos de Manchester", o que significava som de qualidade, pulsante, novo – e muito barulho. O reconhecimento colou inclusive na geração posterior, a de Raimundos, Maskavo e Natiruts, já nos anos 90.

Faroeste caboclo. Brasília, descobriu-se, tinha carne e osso – e se tinha ambos é porque também tinha alma, embora quese sempre fosse melancólica. "A superquadra nada mais é/do que a solidão dividida em blocos", lugar em que "burocratas de verdade só fazem amor/em almofadas de carimbo", escreveu o poeta Behr. Outras vezes, além de triste, foi raivosa. Havia uma saída, e ela não era o aeroporto, como manda um chavão ainda hoje insistentemente repetido. "Meu Deus, mas que cidade linda!", gritavam e gritam os brasilienses em coro e com orgulho no verso de Faroeste Caboclo, a enorme e irônica narrativa da Legião, prestes a se transformar em filme. "E num ônibus entrou no Planalto Central/Ele ficou bestificado com a cidade/Saindo da rodoviária viu as luzes de Natal/ – Meu Deus, mas que cidade linda."

"Ainda não há um modus operandi para lidar com Brasília, mas ela sempre mostrou disposição de olhar para fora", diz o cineasta José Eduardo Belmonte, diretor de Se Nada Mais Der Certo, vencedor do Festival do Rio em 2008. "Esse diálogo existencial com o mundo é uma característica bem brasiliense." Paulista de nascimento, Belmonte passou a adolescência na capital federal. "Meu último filme foi eleito em São Paulo, mas é tão brasiliense quanto os outros. Capta um espaço abstrato, irreal, em que a cidade aparece de modo difuso, quase apenas um conceito."

Normalidade inexistente. Talvez seja a mesma Brasília da canção homônima dos Paralamas do Sucesso, trio que confunde sua origem entre o Rio e o Distrito Federal, porque Herbert Vianna e Bi Ribeiro começaram a tocar por lá. Na letra de Herbert, tudo é igual e estranho, mas os monumentos, os palácios, as avenidas, os eixos não são nomeados. "Quartos de hotel são iguais/Dias são iguais/Os aviões são iguais." A cidade, na canção, não existe. Na capital política, dar nomes é sempre um risco. Pode comprometer.

Entre o concreto e o abstrato, Brasília continua a buscar uma normalidade inexistente. Mas "ainda é cedo", diz o refrão de Renato Russo. Para a cinqüentona Brasília, paradoxalmente adolescente, há muito a aprender. Ela não tem os 444 anos do Rio de Janeiro, tampouco os 455 de São Paulo. A música urbana foi – e continua sendo – uma forma de fugir da frieza da cidade recém-nascida.

Há exatos 25 anos, quando a Legião Urbana lançou seu primeiro disco (Legião Urbana), ela também tornou nacionalmente visível a impossibilidade que o artista brasiliense tem de fugir da maquete, mesmo quando há ímpetos de destruí-la. No encarte do velho vinil, a cidade aparece nos traços do baterista Marcelo Bonfá. Os quatros integrantes da banda são como gigantes que deixam rastros para sempre marcados no solo seco do cerrado, no rabisco de Lucio Costa ocupado pelas obras de Niemeyer. Eram desenhos aparentemente ingênuos, mas ajudavam a mostrar o que a juventude brasiliense pensava de si mesmo, e sua relação com o traçado urbano. Brasília ainda não sabia o que era e talvez ainda não saiba – mas é certo que já produziu uma cultura só dela, saudavelmente critica e nada indulgente.
 
Sérgio de Sá , jornalista e professor da Universidade Católica de Brasília, é neto de Bernardo Sayão, pioneiro de Brasília.
Texto transcrito da Revista Veja (2138), Edição Especial "Brasília 50 anos", novembro de 2009.

 

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A POESIA CONCRETA DE JOAQUIM CARDOZO

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A POESIA CONCRETA
DE JOAQUIM CARDOZO

Por Fábio Altman
 
A Brasília modernista não existiria sem Joaquim Maria Moreira Cardozo, o pernambucano que calculou os edifícios de Oscar Niemeyer. Cardozo era um intelectual da Renascença no Recife da primeira metade do século XX. Poeta (parceiro modernista de Manuel Bandeira e João Cabral de Melo Neto), chargista, professor universitário, editor e filósofo diletante, entrou para a história da capital como o engenheiro civil que transformou possibilidades em certezas. Para Niemeyer, com quem trabalhara na Pampulha, era o brasileiro mais culto que existia.
Cardozo buscava na matemática a esbelteza, os vãos audaciosos e as curvas rabiscadas por Niemeyer. Como conseguir, nas colunas do Alvorada, que elas tocassem o chão e o teto muito delicadamente, parecendo flutuar, “leves como pena”, na definição do arquiteto – e ainda assim sustentar o edifício? Cardozo desrespeitou as normas técnicas corriqueiras e chegou a uma solução. Para o arquiteto e urbanista Jeferson Tavares, da USP de São Carlos, ele alimentava “um protesto silencioso contra a obviedade”.

No fim dos anos 50, as regras da engenharia estabeleciam o uso no máximo de 6% de barras de ferro nas estruturas de concreto. Cardozo pôs 20% de ferro na trama das colunas, rompendo com os modelos de cálculo em voga. Hoje, com o avanço da tecnologia e da resistência dos materiais, é possível conseguir o mesmo efeito com apenas 3% de metal.

“Cardozo foi um transgressor”, diz José Carlos Sussekind, o mais recente calculista de Niemeyer, quarenta anos ao lado do arquiteto. O que era concreto armado, sorri Sussekind, virou uma trama de “aço à milanesa” na concepção de Cardozo. Não fosse ele, o ministro francês da Cultura André Malraux, em visita a Brasília, não poderia ter dito que “as colunas do Alvorada são o elemento arquitetônico mais importante desde as colunas gregas”.

Cardozo inovou também nas delgadas lajes. O italiano Pier Luigi Nervi (1891-1979), o grande mestre de estruturas, capaz de pôr tudo em pé, espantou-se ao ver o Palácio Itamaraty. Ao se deter diante do mezanino do Ministério das Relações Exteriores, confessou: “Projetei uma ponte com 3 quilômetros de extensão, mas conseguir esta espessura de laje me parece bem difícil”. Antes, o próprio Nervi criticara o trabalho de Cardozo, atávico rompedor de normas, por considerar que ele desrespeitava padrões estabelecidos,  e essa postura era arriscada. “Mas, ao contrário do que estabelece o senso comum, a engenharia só avança quando rompe as normas”, afirma o engenheiro Yopanan Rebello, diretor técnico da Ycon, de São Paulo, estudioso da obra de Cardozo.

Rebello lembra uma máxima do engenheiro José Carlos de Figueiredo Ferraz, prefeito de São Paulo entre 1971 e 1973, para quem os ditames cartesianos, rigorosos, davam conta “apenas dos abismos, esquecendo-se dos buracos corriqueiros”. Por isso, muitas vezes, é preciso desafiá-los.
Intuição –
Na cúpula invertida da Câmara dos Deputados, Cardozo criou uma rede de anéis de aço embutidos no concreto. Niemeyer se lembra da euforia do discreto parceiro, que lhe telefonou para dizer: “Encontrei a tangente que vai permitir que a cúpula pareça apenas pousada na laje”.

Até hoje não se sabe de que maneira Cardozo fazia os cálculos – a inexistência de arquivos é empecilho. “Ele intuía as estruturas e somente depois as calculava”, afirma Rebello. “Os atuais programas de computador, apesar de 100% precisos, parecem ter matado a intuição”. No caso de Cardozo, imaginação e engenharia andavam juntas. “As estruturas planejadas pelos arquitetos modernos são verdadeiras poesias”, dizia. “Trabalhar para que se realizem esses projetos é concretizar uma poesia”.

O homem que calculava morreu triste e praticamente só (era solteiro, sem filhos) em 1978, aos 81 anos. Em fevereiro de 1971, uma obra desenhada por Niemeyer e calculada por ele, o Pavilhão da Gameleira, em Belo Horizonte, desabou, provocando a morte de 68 operários. Cardozo foi inicialmente condenado, em 1974, a dois anos e dez meses de prisão. Um recurso de apelação do jurista Evandro Lins e Silva o absolveu, mas já era tarde. Chorava muito, diariamente. Nos últimos anos de vida, deprimido, sumia no corpo magro. Um ano antes de morrer foi convidado por Niemeyer, generoso, a passar um tempo com ele no Rio. Hospedado num hotel em Copacabana, ia diariamente ao escritório do arquiteto para conversar. Mas já tinha perdido parte da lucidez, num processo que se acelerara. Joaquim Cardozo é o pilar mais injustiçado da história da construção de Brasília.

Transcrito da Revista Veja – Edição Especial “Brasília 50 anos”, novembro de 2009.


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O DIA SEGUINTE

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O DIA SEGUINTE
Por Cecília Pinto Coelho
 
Brasília fez-se Brasília, ou ao menos a Brasília do poder, no dia seguinte ao cortar de fita. Começou com um feriadão – sexta-feira, 22; sábado, 23; e domingo, 24 -, porque ninguém é de ferro e os deputados e senadores tinham mais que fazer no Rio com promessa de sol. Nem bem começara a vida da nova capital e já brotara a “campanha do retorno”. Um grupo de dezenove senadores da oposição liderada pela UDN de Carlos Lacerda reabriu simbolicamente o Palácio Monroe, na Cidade Maravilhosa.

Em Brasília, só voltariam à labuta no fim de maio. Na segunda-feira, 25 de abril, primeira jornada útil, a Câmara dos Deputados não teve quórum para sessão e um dos ministros do Supremo Tribunal Federal foi à imprensa para explicar por que se recusara a permanecer no cerrado. A revista Time americana relatou a reprimenda de JK ao ministro da Saúde, Mário Pinotti, que retornou ao Rio. “Se o senhor não voltar, melhor renunciar.” Pinotti deu o pinote, e logo estava em Brasília.

Depois da festa – ao fim do Grande Prêmio Juscelino Kubitschek de automobilismo nas avenidas e do Campeonato Brasileiro de Barcos no Paranoá -, e como o cotidiano se anunciasse árido, houve debandada geral. Pelo menos 500 000 pessoas acompanharam as festas no 21 de abril de 1960. Muitas chegaram antes, gradativamente, hospedando-se nas cidades-satélite, em casas de família, ou mesmo em lugares distantes. O 22 de abril foi o caos, porque quem chegara de avião queria retornar do mesmo modo, e rápido, mas não havia espaço para todos. O Ministério da Aeronáutica teve de instalar uma força-tarefa. Convém lembrar que a ponte aérea Brasília-Rio só valeria a partir de 26 de abril.

Casa cor. Nem tudo eram andaimes. Deu-se prioridade à Praça dos Três Poderes e à Esplanada dos Ministérios, embora o anexo central do Congresso (o prédio em forma de “H”) e os edifícios dos ministérios não pudessem funcionar plenamente. Nos setores residenciais, apostou-se na Asa Sul – mas ali também, na inauguração, apenas 11,8% de um total de noventa superquadras planejadas estava terminado. Havia um jeitão de Casa Cor: desde 1959, quando fora inaugurado o primeiro edifício de seis andares, a Novacap mobiliou um dos apartamentos para mostrar o estilo de vida que Brasília reservava ao futuro, um futuro que a rigor só chegou em 1970, já durante o governo Médice.

Um passeio pelos jornais daqueles dias – os de oposição, claro – dá o tom do vazio criado depois da euforia. Correio da Manhã de 21 de abril: “Brasília é um pandemônio”. Diário Carioca do mesmo dia: “Brasília se inaugura sem depósito de lixo: o que havia virou favela”. Tribuna da Imprensa: “Senadores pedirão a volta do Congresso: Brasília é um caos”. As reportagens eram unânimes – e nesse caso mesmo entre os órgãos favoráveis a JK – em destacar a poeira que sobrara depois de a poeira baixar e o lixo que se acumulara. O Jornal do Brasil resumiu o ambiente: “Deputados sem ter onde morar começam hoje mesmo a voltar ao Rio”.

Quem ficou, para não perder o costume, ou para inaugurá-lo, tentou emplacar uma CPI. No ano da inauguração, nove comissões foram registradas no Diário do Congresso Nacional. Uma delas, publicada no periódico em 25 de agosto daquele ano, foi criada para investigar as condições da construção de Brasília, da organização e regulamentação de seus serviços públicos. A comissão, de autoria do deputado Seixas Dória, udenista de Sergipe, estava prevista para funcionar por noventa dias, mas não chegou a nenhuma conclusão. Fracassou também a tentativa de alcançar o governo de JK com a CPI do Vidro Plano, montada em 1959 para descobrir como o casamento dos imensos janelões do modernismo na arquitetura com os interesses dos empreiteiros encarecera a construção. Não avançou, e ficou por isso mesmo.

Com plenários vazios, e à falta de restaurantes para freqüentar, ia-se ao cinema. No Cine Brasília, desenhado por Oscar Niemeyer no Plano Piloto, com 1 200 lugares, os destaques da primeira semana foram Anáguas a Bordo, com Cary Grant e Tony Curtis; O Discípulo do Diabo, com Kirk Douglas e Burt Lancaster; a Canoa Furou, com Jerry Lewis. Na Cidade Livre – o atual Núcleo Bandeirante – roíam-se unhas com o faroeste A Lei do Mais Valente e a aventura Tempestade em Sangolândia. Difícil, quase impossível, era conseguir ingresso. “Brasília não era uma capital, nem mesmo uma cidade, à época de sua inauguração”, afirma Márcio de Oliveira, do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal do Paraná, estudioso daqueles dias de corajoso pioneirismo.

Texto transcrito da Edição Especial (VEJA 2138), “Brasília: 50 anos” – novembro de 2009.

 

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1959, o ano em que Brasília não parou

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1959, o ano em que Brasília não parou
Por Renato Alves

Em outubro de 1959, Brasília tinha 574 casas prontas, todas à margem da W3 Sul, 377 km de ruas pavimentadas, 160 km de rede de água e esgoto, 89 pontes e viadutos. Mas faltava muito para se tornar uma cidade em condições de receber autoridades e milhares de servidores públicos federais e familiares, que viriam do Rio de Janeiro, a antiga capital do país. Os cinco primeiros funcionários públicos da União tinham se mudado para Brasília, por meio de ato de JK, em 2 de fevereiro daquele ano. Moravam em residências geminadas, nas quadras 700 da Asa Sul. O primeiro prédio de apartamentos, o bloco pioneiro de uma das 120 superquadras, foi inaugurado quatro meses depois, na 108 Sul.
Os principais prédios da administração pública, como o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto, não passavam de esqueletos, seis meses antes da data de inauguração da nova capital. Assim também se encontrava a Catedral. Dos 11 edificios-sede de ministérios, apenas quatro estavam completamente concluídos. A Torre de TV, o futuro Estádio Mané Garrincha, o Ginásio Nilson Nélson, o Teatro Nacional e tantos outros prédios marcantes demorariam a sair do papel. "Ninguém achava que a cidade ia ficar pronta no dia em que Juscelino queria. O povo dizia que a capital não ia mudar do Rio pra cá nunca", conta o servente de pedreiro aposentado Antonio Macário da Silva, 78 anos.

Emprego garantido

Antonio desembarcou em Brasília pela primeira vez em 9 de dezembro de 1956. alagoano de São José da Laje, vinha de Itauçu (GO), onde tentara ganhar a vida como garimpeiro. "Mas o garimpo já não dava mais nada. Aí, um homem de lá falou: "Aventura por aventura, vai pro Planalto Central. Lá tem emprego garantido", recorda. "Assim que cheguei, fui fichado na Novacap (Companhia Urbanizadora da Capital), com a matrícula 180. Me perguntaram o que eu sabia fazer e eu disse que nada. Me colocaram como servente", completa. A partir de então, ele começou a trabalhar na pavimentação das estradas de acesso a Brasília. "Não tinha nada. Era só mato, poeira, caminhão, trator e peão".
Como todos os outros trabalhadores da construção civil da época. Antonio buscava abrigo em acampamentos das empreiteiras. "No começo, a gente dormia no chão, debaixo de lona mesmo. Depois é que vieram os galpões de madeira, onde a gente comia e dormia", lembra o servente de pedreiro. Quando recebiam seus salários, os trabalhadores gastavam boa parte em noitadas nos bares e na zona de prostituição – a Placa da Mercedes – da Cidade Livre, hoje Núcleo Bandeirante. "O Maracangalha era um dos bares mais famosos de lá. Nós bebíamos muito. Não tinha muito mais o que fazer", ressalta Antonio. Vez ou outra, os bares e bordéis tinham atrações musicais, principalmente forrozeiros goianos.

Força temida

Com a bebedeira e a falta de lazer, brigas e desentendimentos também eram comuns na Cidade Livre. Cabia à Guarda Especial de Brasília (GEB) apaziguá-las. A delegacia da unidade ficava na Velhacap (atual Candangolândia). A GEB, força policial montada pela Novacap, era temida pelos operários. Muitos relembram que a falta de formação adequada dos que ingressavam nessa força policial teria contribuído para as arbitrariedades cometidas. A grande concentração de trabalhadores, submetidos à intensa jornada e a precárias condições de moradia e trabalho, além do curto prazo para a conclusão das obras, eram a justificativa para a atuação da GEB.
Na Cidade Livre, os operários eram recrutados para ser fichados nas diversas empresas construtoras e na Novacap. Em outubro de 1959, a localidade tinha armazéns de secos e molhados, casas de tecidos, restaurantes, barbearias, tinturarias, marcenarias, açougues, farmácias, duas escolas, dois cinemas, bares, pensões e hotéis. Esses últimos, mesmo em madeira, ofereciam o conforto de colchões de molas. Já os cinemas eram o Cine Bandeirante, onde só passava filme de faroeste norte-americano, e o Cine Brasília, com obras de temas variados. Também havia construções para celebrações religiosas, como uma igreja batista, um local para cultos espíritas e uma igreja católica.

Hospital pioneiro

A Cidade Livre também abrigava o único hospital de Brasília, 50 anos atrás. Lá ficava o Hospital Juscelino Kubitschek de Oliveira (HJKO). Inaugurado em 6 de junho de 1957, em outubro de 1959 tinha 12 médicos, 32 enfermeiras, 56 leitos. Nesses dois anos, o HJKO havia anotado 3,2 mil internações, 1,1 mil partos e 91 mortes.
Desativado em 1968, virou posto de saúde; depois, área de invasão. Acabou tombado na década de 80 e sendo transformado em Museu Vivo da Memória Candanga. Espaço que o contador Luís Carlos Carvalho, 65 anos, visitou pela primeira vez, a convite do Correio Braziliense. "Isso aqui está mexendo muito comigo. Me fez voltar no tempo", comentou, tentando segurar as lágrimas.
Luís Carvalho chegou a Brasília em 20 de maio de 1958. Aos 14 anos, deixou Goiânia, a terra natal, para morar com os pais novamente, que já viviam na nova capital. O pai dele havia vindo antes para trabalhar na Novacap como motorista. Ele, a mulher e os sete filhos ocupavam um barracão na Candangolândia. Luís arrumou emprego de ajudante em uma loja de auto-peças da Cidade Livre assim que desembarcou no Planalto Central. No mesmo ano, comprou uma bicicleta e decidiu trabalhar como ambulante. "Vivia nos canteiros de obras do Plano Piloto. Perguntava aos peões o que queriam, anotava, ia correndo pela terra até a Cidade Livre, comprava a encomenda e a revendia ao cliente", conta.

Gerador a diesel

Já em 12 de outubro de 1959, Luís Carvalho virou colega de trabalho do pai. Aos 15 anos, era apontador fiscal da empresa. Nessa função, controlava o ponto dos colegas em alguns pontos. Na época, a estatal contava com 12 mil empregados, 20% da população. "Era muita gente. Mas Brasília tinha pouco de cidade. Com a poeira e o cerrado, parecia mais um cenário de faroeste", lembra Luís Carvalho. Na época, não havia iluminação pública em nenhuma parte de Brasília. A energia dos canteiros de obras e da Cidade Livre vinha de geradores a diesel comprados pela Novacap, pelas construtoras e por comerciantes.
Catetinho, aeroporto e acampamentos da Novacap e das construtoras eram abastecidos pela energia elétrica produzida por duas turbinas da usina instalada no Ribeirão Saia Velha em 16 de maio de 1958, perto de onde hoje está Santa Maria. O aeroporto ficava no mesmo local do atual. Tinha a pista da Base Aérea e outra maior, além de um terminal de passageiros, feito de madeira. Apesar da precariedade, recebia vôos regulares de capitais brasileiras. "Varig, Vasp, Loyd, Panair do Brasil, aviões de todas essas empresas operavam aqui", relata Adirson Vasconcelos, 73 anos, que em 1957 já trabalhava como jornalista em Brasília.

Viagens longas

O movimento de aeronaves no improvisado aeroporto de Brasília era tão intenso que, em 1959, a agência da Vasp na capital se tornou a primeira em vendas de passagens no Brasil. Já o transporte rodoviário para a capital era feito quase exclusivamente pela empresa Araguarina, que oferecia linhas diárias para Goiânia e Anápolis. O trajeto Brasília-Anápolis, por exemplo, durava 12 horas, em estrada de terra, pois ainda estava sendo aberta a BR-060, rodovia que ligaria as duas cidades. Além dos ônibus, era bastante comum, também, a vinda das pessoas em caminhões pau-de-arara e até mesmo a pé. Essas jornadas levavam de 30 a 40 dias, dependendo do local de origem.
Já na cidade em construção, os caminhões das construtoras e jipes eram praticamente os únicos meios de transporte, há 50 anos. "Eu mesmo comprei um Jeep Overland em 1958. Por causa dele e da minha mocidade, fazia muito sucesso entre as meninas", revela Adirson Vasconcelos, que em 1959 tinha 23 anos. Na época, Brasília contava com 17 mulheres para cada grupo de 100 homens, sendo que hoje, a proporção normal em todo o mundo é de um por um. "Era um perigo uma mulher sair nas ruas do Plano Piloto. Quando um caminhão carregado de operários cruzava com uma, era uma confusão. Dava até briga", lembra Luís Carvalho, hoje gerente financeiro da Novacap.

Texto transcrito do Correio Braziliense, (Cidades, pág. 27), de 19 de outubro de 2009


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Apaixonados por Brasília

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Apaixonados por Brasília
Por Leilane Menezes
 
 
As 36 horas de viagem do Rio de Janeiro a Brasília não foram suficientes para acabar com a empolgação dos 150 policiais militares que desembarcaram na então nova capital em 15 de fevereiro de 1966. Eles foram os primeiros PMs da cidade. Chegaram para formar a 1ª Companhia Independente de Brasília, a substituta da Guarda Especial de Brasília (GEB), responsável pela segurança pública no DF desde a inauguração da cidade. Na terça-feira passada, completaram-se 45 anos dessa história.
Os homens vieram em três ônibus velhos. Os veículos quebraram no meio do caminho diversas vezes. Sob o comando de Abenante de Mello e Souza (coronel da reserva remunerada já falecido), o grupo deixou, às 9h30, a rua Clarimundo de Melo, no bairro de Cascadura, Rio de Janeiro, rumo ao Planalto Central. Os termômetros marcavam 38º C. Na bagagem, os jovens policiais trouxeram somente o essencial: poucas mudas de roupa, escovas de dente, água e alguma comida. As famílias ficaram para trás.
Esses policiais foram transferidos para Brasília por meio do Decreto-Lei número 4.242, de 17 de julho de 1963, de autoria do senador Santiago Dantas. A medida ficou conhecida como Lei da Opção.
Houve concorrência para mudar-se para a capital. Mais de 3 mil homens ofereceram-se. Desses, a principio, somente 150 foram selecionados. Meses depois, outras centenas vieram. Eles ficaram conhecidos como “optantes”.
 
A chegada
 
Entre os primeiros escolhidos, estavam o capitão Jorge Mendes Maciel Eunack, hoje, aos 75 anos, aposentado. “A viagem foi difícil, acidentada, quebrou o para-brisa de um dos ônibus. Na maioria das paradas que fazíamos durante o trajeto éramos bem recebidos”, disse o capitão. Ao chegarem a Brasília, em uma terça-feira, desembarcaram em frente ao prédio feito especialmente para acolhe-los, o Forte Apache, onde hoje fica o Setor Militar Urbano. O local ganhou esse nome por se tratar de um barracão de madeira.
O primeiro a sentir o solo candango sob os pés  foi o comandante Abenante. “Ele, emocionado, comandou: “Atenção guarnição, desembarcar! Em forma! Por três!”, lembra Eunack. No sábado seguinte, os homens iniciaram o serviço. Brasília era uma cidade calma. “Tinha pouca ocorrência. Era mais policiamento de trânsito, essas coisas.
Saudades do tempo em que a cidade estava se fazendo ainda.”
As famílias dos oficiais não tinham onde ficar em Brasília. Somente alojamentos estavam disponíveis. Mesmo assim, a mulher e a filha de Eunack vieram, de surpresa, do Rio de Janeiro. “Quando eu ouvi a voz da minha filha chamando ‘papai’, me emocionei. As pessoas ao redor bateram palmas”, conta. Meses depois, a PMDF comprou um ônibus para levá-los e buscá-los no Rio de Janeiro, durante as férias.
A visão de Brasília, uma cidade recém-inaugurada à época, ficou gravada na memória de Eunack.
“Eu via mato em todo lugar e muita máquina trabalhando. Eu me apaixonei por essa cidade de um jeito difícil de explicar. Nunca mais fui embora”, disse. Capitão Gilson de Oliveira, 74 anos, outro policial pioneiro, viveu a mesma sensação. “Brasília tem um feitiço. Nunca olhei para trás pensando em ir embora”, resume.
 
Diversão
 
A polícia também trouxe sua arte. Manoel Nascimento Paixão, 74 anos, conhecido como Tenente Paixão, veio para fazer parte da já planejada Banda Marcial da Polícia Militar: “Eles escolheram dos músicos mais habilidosos. Daí fundamos a banda, em Taguatinga. Fazíamos espetáculos muito bonitos”, relata Paixão, que é maestro. Os colegas de longa data sentem orgulho de ter contribuído para a história da PM de Brasília.
Eunack é o criador do brasão da corporação, usado até hoje. É também um grande incentivador de programas sociais e educativos dentro da instituição policial, como a prática de escotismo. “Eu sempre preguei a ação preventiva. “Contra a violência, apenas a criatividade e a inteligência” – esse é meu bordão. Procuro motivar, ainda hoje, a ida da PM às escolas, levando educação, por exemplo, por meio do teatro de bonecos”, conta Eunack, que é escoteiro de alta graduação na ativa ainda hoje.
Os policiais fundaram até um bloco de carnaval, chamado Embalo do OPs (por conta da Lei da Opção), com uma marchinha cuja letra dizia: “Adeus, adeus, estado da Guanabara/Vou ficar em Brasília que é a capital jóia rara/Tudo aqui é resplendor, tudo aqui inspira amor/Por isso eu digo a vocês, em Brasília eu vou ficar”. Gilson e Eunack são cariocas. Paixão é pernambucano, mas foi criado no Rio. “Tenho uma cobertura na beira da praia. Estou aposentado. Mas não consigo ir embora daqui”, reforça Paixão, sobre o apego que a maioria deles desenvolveu por Brasília.
 
Encenação
 
Mas aquele distante 15 de fevereiro de 1966 não foi a data da primeira vinda a Brasília de Eunack e de outros colegas. O capitão relata uma história curiosa de 21 de abril de 1960. O então presidente Juscelino Kubitschek queria policiais treinados para reforçar a segurança da festa de inauguração. Mandou trazê-los do Rio de Janeiro. Para não causar alarde, pediu que viessem disfarçados.
Houve um espetáculo chamado Alegoria das três capitais, apresentado no evento, para celebrar o começo da nova cidade. Alguns atores estavam fantasiados de freis franciscanos. Em lugar das tradicionais sandálias usadas pelos religiosos dessa ordem, porém, eles usavam coturnos marrons.
A explicação para isso deixaria surpresa muita gente que participou da festa. Eles eram policiais escondidos, para não chamar a atenção, e atuaram como figurantes. Por baixo das roupas teatrais, todos estavam fardados, prontos para agir em caso de qualquer emergência. Capitão Eunack se encontrava entre eles. Orgulha-se de ter participado do momento histórico. Logo depois, os policiais retornaram ao Rio de Janeiro. Seis anos se passaram e muitos deles retornaram a Brasília para ficar.
Dessa vez, com outra fantasia: a de começar uma vida nova na capital, que começava a se formar.
 
Transcrito do Correio Braziliense, 19 de fevereiro de 2011, Cidades, pág. 42.

 

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Coroa de Luzes

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Coroa de Luzes
Por Clemente Luz
 
Certos conjuntos de Brasília têm de ser vistos de todos os ângulos possíveis. Como ser fosse um misterioso caleidoscópio, as formas e volumes de praças e edifícios se modificam, se transformam em outras formas e em outros volumes, dando aos olhos visões magníficas e à alma emoções diferentes. O conjunto da Esplanada dos Ministérios, incluindo a Praça dos Três Poderes e o Eixo Monumental, é, talvez, o mais rico em variações de formas, volumes e cor. Tudo depende do ponto de vista do espectador, dos reflexos da luz do sol pela madrugada, pela manhã ou à noite. Tudo depende da alma do espectador e dos reflexos da iluminação branca ou quente. As formas e conjuntos, as cores e os reflexos são jogados, muitas vezes, como festa de luzes no campo visual.
O edifício do Congresso, por exemplo, oferece espetáculos magníficos, tanto de dia como de noite.
Certa vez, numa tarde de céu carregado de nuvens, a luz do sol filtrou-se, caindo exatamente sobre a cúpula, como um jacto de poderoso holofote. Houve diferentes interpretações de pequeno fenômeno natural. Fizeram-se fotografias. Mas muita gente crédula, ligando o destino de Brasília ao misticismo religioso, chegou a interpretar o facho luminoso como um sinal celeste, assinalando o futuro da Capital em construção.
Visto de certa parte do lago, o conjunto da Esplanada dá impressão de navio ancorado, com seu grande mastro (o anexo do Congresso) iluminado, à espera do amanhecer, para levantar âncoras.
E assim, para os olhos de quem quer ver e para a alma de quem ama a cidade nova, os espetáculos da arquitetura de Niemeyer, aliada ao urbanismo de Lúcio Costa, são estranhos e vários.
Muitas vezes a gente tem a impressão de que saiu de uma rua ou de um campo e entrou num imenso salão de pinturas surrealistas ou num corredor de caleidoscópios coloridos…
Certa vez, meus olhos viram, num pequeno detalhe noturno, a beleza simples das formas criadas para se recriarem, a cada instante. Num desses períodos de comemorações da cidade, em que todas as luzes da Esplanada dos Três Poderes estavam acesas, parei diante de uma grande coroa iluminada, com suas pontas uniformes, porém retorcidas, flutuando sobre edifícios e árvores. Estava na Asa Norte, à altura dos primeiros blocos. A grande coroa flutuava, iluminada como que por milagre.
Era a parte da estrutura da Catedral, vista apenas do cinto de concreto para cima, quando as colunas se abrem como dedos, para o infinito. E, abaixo, a cidade vivendo, crescendo, nascendo e renascendo…
Tive vontade de ser pintor ou, pelo menos, fotógrafo, para captar o instante eterno de beleza, que a meus olhos foi revelado.
Instante em que as palavras são fracas e pequenas para traduzi-lo…
Vencido pela beleza e pela grandiosidade do espetáculo, baixei os olhos com humildade, e, de cabeça baixa, subi as escadas do apartamento.
 
Texto transcrito do livro “Invenção da cidade”, de Clemente Luz

 

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Bailes que marcaram época

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Bailes que marcaram época
Por Helena Mader
 
A poeira das ruas sem asfalto e as construções por todos os lados nunca tiraram o glamour das festas, desfiles e bailes realizados todos os fins de semana na recém-inaugurada Brasília. Nos primeiros anos da capital, os funcionários públicos transferidos para a cidade faziam questão de se divertir e de manter vivas as tradições de suas regiões. Serestas, rodas de viola ou de samba, encontros sociais, chás de mulheres, festas dançantes: a alegria era a regra em todos os eventos.
 
A juventude também tinha espaço nos salões. Assim, no ano seguinte à inauguração, o Brasília Palace Hotel organizou o primeiro baile de debutantes da capital. O anúncio causou frisson entre as mocinhas, que começaram a providenciar arranjos de cabelo, jóias e, principalmente, vestidos de tirar o fôlego. No fim de 1961, a festa lotou o salão principal do edifício e se tornou um dos maiores eventos sociais da nova capital brasileira.
 
Entre as adolescentes vestidas de branco, estavam as irmãs Sônia e Sheyla Lourenço, hoje com, respectivamente, 65 e 64 anos. Elas se reconheceram nas fotos publicadas pelo Correio Braziliense na edição do último domingo. A reportagem mostrou imagens de anônimos que ajudaram a construir a história da cidade, todas elas reunidas no livro “Arquivo Brasília”, de Lina Kim e Michael Wesely. Uma sobrinha viu Sônia e Sheyla no jornal e se apressou em avisá-las sobre a publicação.
 
Um exemplar da reportagem vai juntar-se agora às dezenas de registros que as irmãs guardam da época. As cariocas chegaram a Brasília em 10 de junho de 1960. Só não vieram a tempo de ver a festa de inauguração porque a mudança atrasou. Filhas de funcionários públicos, elas resistiram à mudança, assim como os pais, acostumados à vida animada de Copacabana. Mas logo se renderam ao estilo de vida brasiliense. “Apesar da poeira, a vida aqui era muito boa. Todo mundo se conhecia e havia bailes em praticamente todos os fins de semana. Quando não tinha nada programado, a festa era na nossa casa, que ficava na 707 Sul”, relembra Lourdes Lourenço, 87 anos, mãe de Sônia e Sheyla. “Chamavam a nossa casa de Pensão LL, por causa das iniciais do meu nome. Todo mundo ia para lá.”
 
Preparativos
 
Com esse espírito festeiro e boêmio, as primogênitas da família Lourenço não poderiam ficar de fora do baile de debutantes do Brasília Palace. Assim que foram convidadas para o evento, as jovens começaram os preparativos. “Muitas meninas foram para o Rio de Janeiro ou para São Paulo procurar as melhores roupas.
A organizadora do baile, que se chamava Clara Melro, inovou ao propor vestidos mais curtos. De fato, foi uma ousadia para a época”, relembra a artista plástica Sheyla. Os modelos usados pelas irmãs Lourenço foram confeccionados em Brasília, mas não deixaram nada a desejar aos outros vestidos comprados nas melhores butiques das grandes cidades.
 
O primeiro baile de debutantes da capital reuniu cerca de 50 moças. Nem todas tinham 15 anos. Sheyla, por exemplo, havia completado 14. A irmã Sônia já tinha 16. Havia até algumas com mais de 20 anos. Isso tudo por conta da imensa procura: todas as garotas da época sonhavam com uma vaga na luxuosa festa do Brasília Palace.
 
As meninas desfilavam no salão principal do prédio, decorado por um belíssimo painel de Athos Bulcão, e depois desciam as escadas para se exibir aos convidados, como parentes e autoridades. “Me lembro que a barra do meu vestido se prendeu à roupa de uma outra menina, foi o maior susto. Um fotografo flagrou e colocou o detalhe em uma revista da época que noticiou a festa, não me lembro se foi a revista Cruzeiro ou a Manchete”, relembra, em gargalhadas, Sheyla Lourenço.
 
Paquera
 
A artista plástica já estava acostumada com a badalação. Era sempre escolhida para desfilar modelos de lojas recém-chegadas a Brasília. Foi representante da Gulistan, uma das primeiras butiques da cidade, e participou até de desfiles de marcas renomadas, como a joalheria H. Stern. Os eventos mais badalados eram realizados em clubes como o do Congresso e o da Unidade de Vizinhança. O frisson do baile de debutantes não era, portanto, uma grande novidade.
 
Mas a festa acabou tomando grandes dimensões. Uma gigantesca orquestra animou os convidados, que se sacudiram ao som de Ray Connif e Jonhy Metz. Sheyla Lourenço lembra-se de detalhes daquela noite. “O sofá onde as debutantes aparecem sentadas naquela foto que o Correio publicou era vermelho. Me lembro perfeitamente também que eu usava um vestido cheio de babadinhos”, comenta a artista plástica. Os tempos eram outros, mas a paquera já rolava solta. O rapaz mais bonito e disputado do baile de debutantes se chamava “Fernandão”. Todas as moças eram só olhares para o jovem alto, que aparece em uma das fotos do arquivo pessoal da família Lourenço. “Menos de um ano após o baile, eu já estava casada. Tinha apenas 17 anos”, relembra Sônia, a mais velha, hoje viúva.
 
Sheyla ainda sonha reunir parte do grupo das debutantes de 1961 em uma nova festa. O local não poderia ser outro: o Brasília Palace. “É uma vontade que eu tenho de relembrar aqueles bons tempos. Não tenho o contato da maioria das participantes, mas acho que seria possível fazer um novo baile, no mesmo lugar, 50 anos depois. Certamente, seria histórico”, conclui.
 
Transcrito do Correio Braziliense, Caderno Cidades, pág. 40, 23 de janeiro de 2011.

 

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A poesia passou por aqui

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A poesia passou por aqui
Por Graça Ramos  

No começo, quando vicejavam paixões, a Dinamarca ficava logo ali. Não se tratava de trapaça, mas de logro magnífico, só possível naquele mundo que se estruturava de desejos e se constituía em intensidades. Do estado de natureza ao de cultura, a transformação da paisagem aproximava seres e diminuía distâncias impostas pela geografia e arquitetura. Todos se sentiam protagonistas da construção. Crianças, inclusive.

Elas viviam imersas em dualidade violenta, que só a maturidade tornaria consciente. Havia a languidez de uma natureza devastada, tornada apenas chão, solo composto de poeira e lama. Persistia a saudade de jardins, mares, famílias e amigos deixados para trás pelos mais velhos. E sobressaía o ritmo frenético de betoneiras, com sua música diuturna impregnando-as do ideal de uma nova civilização. Na alternância entre recolhimento e excitação, impôs-se o vasto mundo artificial, exigindo ser explorado.

Famílias desarmaram-se. Acostumaram-se à idéia de que até mesmo do sexto andar daqueles prédios de dimensão horizontal poderiam gritar os nomes dos filhos e serem escutadas. Imaginavam controlá-los. Estava tudo planejado, projetado para dar certo. Um ordenamento por quadras modulares, completas em seus limites, com tudo à mão, como as escolas classes públicas, de excelência. Estavam tão próximas das residências que dava para acompanhar o ir-e-vir dos pequenos estudantes pelas janelas.

Mas as crianças foram, pouco a pouco, aumentando as áreas de domínio. Já não bastavam os canteiros de obras usados como parque de diversões. Brincadeiras com restos de ferro utilizados nas fundações dos edifícios foram ficando de lado. Encontrar e aproveitar pedaços de madeira retirados das construções para fabricar engenhos, como os carrinhos de rolimã – ideais para derrapar nas curvas das tesourinhas – não apresentava mais a mesma emoção.

Pular carniça restringia-se aos mais novos. As guerras de mamonas, feitas com baladeiras, tornaram-se insuficientes. Entrar em um “lacerdinha”, os pequenos rodamoinhos que se formavam com o vento e a poeira, e rodar, rodar até cair de exaustão, emocionava os neófitos no território. Só os muito pequenos continuavam a querer os jogos de bolinha de gude, finca e bete, este inspirado no cricket inglês e jogado com tacos feitos de madeira velha ou cabos de vassoura. Os que chegaram primeiro expandiram-se pelos terrenos vazios, reivindicando o risco da aventura.

As famílias constituíam-se apenas de pais e filhos. Inexistiam avós, tios e tias para interferir na nova dinâmica. Pela primeira vez, muitas mães começaram a trabalhar fora de casa, pois havia convites e espaço para se iniciar uma nova vida. O afrouxamento da vigilância dos adultos significava uma liberdade sem preço. Viver beirava o perigo.

Muitos começaram a experimentar as distâncias. Naquela realidade espacial sem montanhas, sem florestas, existia apenas o céu como proteção. E ele era, ao fim do dia, tão colorido, de um exibido que doía: rosa-choque, azul-turquesa, alaranjado, vermelho. Habitavam, as crianças, um deserto, com seus riscos e calmaria, que as instigava a ser andarilhas. A disciplina do corpo e do afeto prevalecia e se andava muito naqueles tempos.

Ele foi um dos que seguiram o instinto de percorrer a monumentalidade que instigava o passeio. Os olhos e a mente foram ficando impregnados dessa nova ordem estética: sublime, deslumbrante. Tudo tão diferente da kitsch estética da corrupção que hoje assola esta cidade apenas cinqüentenária e tão destrutivamente encapsulada na velha arquitetura das falcatruas.

Quando não havia espaço para o antigo, edifícios eram erguidos em uma geometria organizada, às vezes monótona, herança de um construtivismo em moda. O branco do mármore impunha-se com força. Contemplar apenas o desenho não bastava. Crianças tinham liberdade de escalar as estruturas de prédios destinados aos três poderes, reunidos em uma desabrigada e fria praça. A ocupação dava-se nos finais de semana, e o maior prazer era subir naquelas colunas que apenas tocavam o chão, suave exercício de desafio à gravidade.

Entre tantas aventuras, nenhuma se comparou àquela viagem. Cruzar as largas margens da autopista que divide o Leste e o Oeste, separando as quadras 100 das 200, esse corpo de asfalto sangrado de Norte a Sul, significava cavalgar sertões de raras árvores, mergulhar no íntimo em busca do intangível. A imaginação encobria a poeira rubra, levando o menino a buscar campos de neve em meio à aridez. Cabeça grande, corpo robusto, bochechas rosadas, o garoto mal completara sete anos quando deu inicio à série da grande aventura.

O principal percurso começava  na SQS 106, hoje aprazivelmente cercada de árvores. O programa durava horas, afinal de contas tratava-se de uma jornada intercontinental, a bordo de uma bicicleta Monark, vermelha. Na época, a quadra ostentava o orgulho de ter sido ali que ficara pronto o primeiro bloco completo de apartamentos da cidade. Quase um ano antes da inauguração de abril, o edifício recebeu o número 11, mais tarde transformado na letra D. Hieróglifos de uma cidade onde endereços são composições de números e letras.

Era, portanto, quadra pioneira, em cujo parquinho de diversões, morreria degolado um menino que, ansioso com a novidade, se precipitou em inaugurar o escorregador antes que estivesse soldado ao chão. O brinquedo caiu sobre ele. Foi uma das primeiras tragédias vividas por aquela classe média que se tornaria tão refratária ao uso de espaços coletivos, ao contrário da origem.

A viagem tinha por destino o local onde atualmente está a embaixada da dinastia que remonta a Gorm, o Velho, morto no longínquo ano de 958. Pedalava cerca de 3 km até a Avenida das Nações, sob seca ou chuva, a depender das duas estações que desde sempre definem modos de vida nesta terra de fronteiras. Na mente, levava imagens de livros infantis, de certo escritor nórdico, e o desejo de ver aquele jardim, paraíso bem-cuidado descrito pelo autor. Na volta, exibia corpo vermelho de poeira, pó que a água dissolvia no box do banheiro, formando desenhos e entupindo ralos.

Quase todos cuja infância se passou na cidade em construção gostam de conferir significado forte ao pó que as mães detestavam. Elas o congelaram na memória, quase como experiência traumática. Muitas recorriam a buchas gastas para deixar as crias apresentáveis. No outro dia, tudo recomeçava.

Gostavam os meninos e as meninas de ser envolvidos pelo polvilho fino e encarnado. Apreciavam o som e o cheiro da conjunção de ventos, que se desenrolava em meio às superquadras. Um encantamento com a fúria da natureza, revoltada com a destruição de tantas árvores. Na ausência de um projeto paisagístico, sobrava apenas o barro.

Aqueles que viveram os primórdios da cidade puderam desfrutar de um rico universo de alteridades, recheado de contatos com gente de diferentes origens, de muitos falares e variados idiomas. Aqui, todos eram estrangeiros – ser migrantes os irmanava – e usufruíam do congraçamento dos primórdios, que permitia encontros e descobertas em ritmo acelerado. Bando de alucinados, e de alguns espertos também, que deixaram para trás heranças ancestrais para criar um mundo belo e justo. Assim acreditavam.

Nascer e ser criado sob o signo de uma utopia coletiva deixou marcas na geração que tem a mesma faixa etária desta cidade fundada por aquele político afetivo e viril e batizada como “a capital da esperança”. Cicatrizes que, remexidas, podem adquirir o som de melancolia nostálgica em alguns. Incisões que, em outros, adquirem a força de um discurso rebelde, que questiona ética e esteticamente o modo como essa grande janela para o país, símbolo de uma época de arrojo de um povo, se transformou.

Escutemos o dizer de alguns desses pequenos pioneiros de então: “o espírito de criação do novo dirigia-se ao país e não somente à cidade. Era uma impressionante dinâmica. Fui gestada em uma cidade que se inaugurou e desejava inaugurar um outro país, isso deu a alguns de nós a dimensão de que passamos a infância, a adolescência, em uma cidade fantástica”, recorda Yara Pietricovsky, antropóloga e atriz. “Tudo tinha uma possibilidade, um desejo, um potencial”, completa Ralph Gehre, artista plástico e arquiteto.

A multiplicidade de vozes, rostos e vivências somada à introspecção aguçada pela solidão que advinha das longas pedaladas na imensidão rude ajudaram a sedimentar também o artista performático Gê Orthof, autor da fotoinstalação Autorretrato de um judeu enquanto árabe, enquanto dinamarquês, Statens Museum for Kunst, Copenhagen, 3 de outubro de 2007, 15h32m12s. O título é estranho, soa diferente, não lembra essa cidade que o país enxerga como inorgânica, extremamente previsível, enquadrada. Mas, conta Gê, ela está ali, pois sem a vivência daquela época da utopia, dificilmente seria possível a ele se desdobrar de forma tão radical.

Por força de ser tudo novo, havia permissão para ser único. “Ninguém era do mesmo local, da mesma natureza”, lembra Ralph Gehre. E todos estavam autorizados a ser o que eram. Pulsação própria impôs-se às identidades. Ao chegar uma criança nova no bloco, uma comitiva de pequenos batia à porta para conhecê-la. Havia apostas para saber de que local viera. Aulas de geografia despretensiosas encolhiam a extensão do país para aquelas crianças, que vivenciavam rara experiência de construção comunitária. Necessitavam-se uns aos outros para alicerçar o espaço de convivência. Preconceitos regionais dissipavam-se rapidamente.

Entre os conceitos artísticos que Gê Orthof usa está o de “translugares”. Significam lugares que se conhece antes mesmo de se estar neles. Locais tão colados na história do mundo que parecem ser tão velhos quanto ele. São sítios que compõem e transpõem todo o tempo do mundo, observadores da história. “Aqui é assim, a cidade se conecta com tantos tempos diferentes nesses 50 anos…”, reflete. Por isso, muito do que ele é e expressa configurou-se na infância passada nesse translugar, experimentado sem intermediações, ao qual chegou com um ano de idade.

Os que aqui aportaram no início da década de 1960 puderam descobrir a cidade livremente. Nada de passeios organizados pelos mais velhos – até porque os equipamentos urbanos para o lazer e a cultura eram minguados. Asas e eixos simbolizavam vasto quintal. Se havia visita de chefes de Estado, as crianças estavam lá para conferir, compondo espontaneamente o cenário e descobrindo mundos. Na época, o ritual das visitas fazia parte do charme fotografado da cidade, que recebia intelectuais, artistas, reis, rainhas, presidentes, primeiros-ministros. Da mesma maneira como apreciavam assistir a revoadas de cupins que anunciavam chuvas abortadas, as crianças gostavam de ver passar pelo grande eixo essas comitivas, homens e mulheres que, com os rostos próximos aos vidros dos carros, expressavam estupor e estranheza.

Para todos era impressionante observar aqueles corpos-trabalhadores em movimento intenso, no incessante construir, ritmo de gente excitada e  esforçada, formigas em volta de grandes crateras. Quantas vezes as crianças foram induzidas a repetir a frase, o leitmotiv modernista, “construir o novo”?

Muitas delas já desconfiavam que habitavam uma vitrine sempre exposta aos olhos dos visitantes. Não poderiam supor que, em futuro muito próximo, a cidade seria apenas reflexo, sombra de um sonho. Era usada como fachada para explicitar a potência de homens e mulheres que ergueram do nada uma capital pujante em termos arquitetônicos e urbanísticos. Ao longo dos anos, passou a ser vista – e continua – como exemplo de tudo de errado que o país faz, pensa e deixa de fazer. Espelho que reflete uma sociedade desigual, pouco afeita à civilidade, descuidada com sua história.

A vida comunitária fortalecia-se e conviver era um prazer. Construir permanecia sendo o verbo predileto, quando na tenra infância, na passagem de março para abril, sobreveio o terrível. Tanques posicionaram-se na larga Esplanada, ocupando o grande Eixo. Chegaram a uma das entrequadras. Aquela entre a 107 e a 108 Sul, que desde sempre ficou conhecida como Rua da Igrejinha, por causa do prédio de formas leves, chapéu de concreto que se espraia no ar. Crianças, sem saber do perigo, subiram nos tanques que estacionaram. Queriam conversar com os homens fardados, até então uma raridade para a democracia que os unia. Nas faces de mães e pais apareceu um ricto tenso que duraria anos.

As dimensões da cidade eram de pequeno porte. Ela ainda se sustentava no precário. Todos viviam próximos uns dos outros, compartilhavam os poucos clubes, os raros restaurantes, as mínimas igrejas e os dois únicos cinemas. Percorriam idênticos trajetos. Somavam-se escassos empresários, muitos oriundos da liberalidade fiscal da Cidade Livre, onde impostos não eram cobrados no período da construção, o que acostumou mal e para sempre alguns deles. Os pais, em sua maioria, eram funcionários do Estado. O poder político e a hierarquia dos cargos, até então, não tinham força suficiente para segregar parte da sociedade. No esquema de morar naquelas quadras distribuídas por entes públicos, a confraria cedeu espaço à desconfiança. Iniciou-se longo ciclo de temores.

A frase publicitária dos primórdios, que a todos orgulhava – “a cidade em que um ascensorista poderia morar no mesmo edifício de um ministro” -, foi substituída por sentença que perscrutava a paranóia: “o vizinho do lado poderia ser simpático à repressão”. As visitas às casas dos amigos começaram a ser rastreadas pelas famílias. Sem saber do grave, crianças resistiram.

Continuaram  a brincar e a se divertir entre si, entre os blocos, entre as quadras. Ainda hoje, esses vínculos antigos se manifestam em encontros inusitados, de adultos que percorreram caminhos díspares, por vezes conflitantes, mas conseguiram deixar rastros de afetividade como elo.

Muitos adolescentes começaram a discutir política. Boa parte estudava em escolas públicas bem organizadas, algumas experimentais, onde era mais fácil as classes sociais se encontrarem. Algo quase impossível nos dias de hoje, quando as famílias do Plano Piloto menosprezam o ensino público e se enroscam nas caras mensalidades do privado. Eles organizavam-se em grupos nas casas menos temerosas, marcavam encontros debaixo dos prédios, se reuniam nos incipientes gramados, que viriam a dominar a cidade. Havia uma urgência nas ruas. Passeatas desobedeciam ao traçado horizontal e cortavam a cidade também na transversal, uma diagonal de aventuras: das quadras iniciais das 700 para o coração da entrequadra 307/308 Sul, famílias nas janelas eram convocadas com um “desce, desce”.

Na prematura pré-puberdade – a dela, a cidade, e a dos meninos e meninas pioneiros – ocorreu a grande cisão. A natureza indicou a seu modo um tempo de dificuldades. O ano começara com um janeiro de chuvas diárias. Inclusive com rajadas de granizo, que machucavam a pintura dos carros novos de uma classe média emergente – que se transformaria em elite aos olhos do país -, feita à custa de salários públicos dobrados, moradia barata e poucas oportunidades de gasto. Uma classe de gente que precisava, nas férias, se deslocar para o interior e o litoral do país, levando os filhos para reencontrar os  avós. Dezembro, janeiro, fevereiro era tempo de viagens a cidades pequeninas, ou às capitais antigas. Ampliavam-se os já imensos espaços vazios. E muitos não suportavam a angústia da solidão.

Entre cochichos dos adultos e telefonemas lacônicos, percebíamos olhares de medo. Naquele agitado ano de rebeliões sociais capitaneadas por jovens parisienses, irmãs e irmãos mais velhos, na entrada para a juventude, foram acantonados com violência dentro da universidade, aquela academia erguida sob os mais elevados ideais. Correu sangue também na W3, a avenida hoje degradada e mal-amada, que muitos passaram a chamar de “Diabo3”.

A universidade-modelo era convite a todos. Ainda com instalações e equipamentos incompletos, mas já amputada de parte dos seus docentes, afastados por causa das divisões ideológicas, se mantinha de portas abertas à comunidade, em diálogo constante com a vida da cidade. Oposta a anos futuros, quando um muro invisível a separou do seu entorno, num autorecolhimento diante dos problemas enfrentados pela capital.

Tão presente estava aquele prédio em forma de minhocão que, após se demitir por discordar da nova orientação política imposta à instituição que ajudara a criar, um professor, antes de regressar à cidade de origem, fez questão de ir de superquadra em superquadra apertar a mão dos seus jovens alunos. Em outro departamento, para se despedir de uma professora, colegas decidiram oferecer-lhe uma feijoada. Sem saber o que se cozinhava, um fardado colocou bomba de gás lacrimogêneo no fogão improvisado. Da panela de pressão, voaram caroços de feijão. Crianças que acompanhavam os pais assustaram-se. A partir daí, ficaria mais difícil caçar sapos e outros pequenos animais na mata que sobrevivia no campus da universidade.

Acabaram-se o tempo da ingenuidade. As obras continuavam com outro ritmo, novas construtoras e perfil diferenciado. Iniciou-se grande campanha de erradicação das favelas, denominadas invasões. Era necessário manter o poder distante dos grandes centros, consolidando a cidade, agora como ilha de segurança. Muitos órgãos públicos receberam o ultimato para se transferir de vez para cá. Pioneiros deslocaram-se para as cidades-satélites, porque a vida no Plano Piloto se tornara cara. Sob o nome de Núcleo Bandeirante, a Cidade Livre descaracterizou-se para sempre, com a madeira dos sobradinhos coloridos substituída pelo tijolo pálido. Perdemos pedaço de nosso passado, pois ninguém pensou em preservar parte dessa desordem que também nos fundava.

Aos poucos, uma tecnocracia nova começou a se mudar para a cidade e a fincar os pés aqui apenas durante a semana, gente descompromissada com a idéia original. E disposta a construir prédios de luxo quase blindados e a erguer monumentos autoritários, como aquele mastro gigante, instalado na Praça dos Três Poderes, com sua bandeira desproporcional, debaixo da qual jovens rebeldes iam de madrugada fazer piruetas, encenações de protesto. Até a hora em que sirenes incomodavam.

Crianças sentiram o aumento do número de “gramíneas”, fiscais que infundiam medo e impediam o uso daqueles gramados tão preciosos para as brincadeiras, sob o argumento de que era necessário deixá-los brotar sem serem pisados. Rebeldes, adolescentes construíam o que mais tarde a população chamaria de “caminhos do desejo”, deixando marcas no verde, encurtando distâncias que ainda percorriam a pé. Árvores exóticas foram plantadas em grande quantidade, sem preocupação com as sutilezas do cerrado. A natureza reagiria à invasão com uma catástrofe. No ano em que a cidade fez seu baile de debutantes, milhares de plantas já adultas morreram devido a ataques de pragas. Crianças e adolescentes choraram em meio às quadras.

Finda-se, lentamente, a época de delicadezas entre vizinhos. O Plano Piloto sofre um inchaço. Carros e mais carros passam a dominá-lo em altas velocidades. Uma era de graves acidentes no trânsito traumatiza famílias e são instalados os primeiros semáforos, esses objetos estranhos ao projeto urbanístico original. Entre os pequenos, brincadeiras se tornam mais controladas: jogos de queimadas e futebol em campos concretados em meio às quadras. Restavam ainda as muitas modalidades de pique: bandeira, ajuda, esconde e baleia, sendo este último um grande exercício de coesão e força física. Mais tarde viriam as partidas de basquete, importadas nos intercâmbios de estudantes para o Hemisfério Norte.

Adolescentes buscam novos perigos. Um deles é conhecer os subterrâneos da rede de fios, passeando pelos bueiros. Outro: subir nas caixas de elevadores e realizar uma viagem para lá de arriscada. Mais um: escalar até o sexto andar os prédios que têm janelas em forma de retângulos encaixados. Ou prender mangueiras de incêndio, retiradas dos prédios, nos cobogós, e nelas se balançar, como se fossem redes.

Havia ainda os que jogavam peteca no teto dos edifícios, com o céu por testemunha, pois estávamos distantes de ter imóveis que forçam a escala original de pavimentos com suas coberturas luxuosas. Mais inocentes eram os banhos clandestinos, nos finais de semana, na piscina da Escola Parque daquela que é a única superquadra completa, cuja beleza muito se deve ao paisagista-jardineiro e às pombas e estrelas nos azulejos do artista plástico-fundador que teimou em permanecer entre nós e se tornou muito amado.

Os jovens dividiram-se. Uma nova bandeira passou a ser desfraldada por muitos e se traduzia na desconstrução do horror instalado. Alguns se dedicaram à luta armada a favor da liberdade. Houve aqueles, e foram muitos, que continuaram a viver como se nada se passasse, sempre em festas e embalos. Até que uma garotinha de cabelos loiros foi barbaramente assassinada, e filhos de autoridades foram dados como suspeitos de ter cometido a atrocidade, fazendo com que durante meses os pilotis dos prédios sentissem a ausência de meninas despreocupadas.

Outros percorreram o caminho das expressões artísticas. O consumo de drogas intensificou-se. Se pais realizaram a utopia da construção, muitos filhos se alimentavam da utopia do onírico. A diferença das outras capitais é que aqui quase todos ainda se reconheciam. Sempre nos encontrávamos nos mesmos lugares – Dom Bosco, Gilberto, Beirute. E restava o desejo de se firmar no cenário nacional como lugar diferenciado. Naquela época, mais uma vez, a universidade foi invadida e jovens espancados. Expressando a inquietação, mais tarde paredes e prédios ganharam pichações, algumas de cunho político, outras com voz lírica: “A poesia passou por aqui”.

E veio uma década da qual plantamos árvores frutíferas nos gramados – e passamos a receber a visita de passarinhos, antes uma raridade -, a mesma em que, pela primeira vez, elegemos representantes políticos para o Congresso Nacional. Teríamos que esperar novas urnas para eleger pelo voto direto o primeiro governador e compor uma casa legislativa local. Há quem critique tal arranjo, em especial pelos muitos personagens de biografia pouco respeitável e comportamento desonesto que a ocupam. Mas, faz bem ter o direito de trocá-los.

A cidade viveu nova era de excitação. “Havia uma efervescência muito interessante em termos políticos e, especialmente, culturais”, lembra a jornalista e produtora cultural Adriana Moraes. Aqui nascida e criada, ela comandou, na infância, um programa de TV destinado a crianças, numa experiência muito anterior ao formato usado atualmente por apresentadoras de redes nacionais.

Naquele período a que ela se refere, grupos de teatro e rock surgiam em garagens e embaixo dos blocos. Quase todo adolescente queria ter uma banda. Era comum acontecerem concertos nos gramados, esses espaços inspirados nos lawns da meninice inglesa do urbanista-mor que aqui, sob a inclemência da seca tropical, se tornam melancolicamente marrons. Quantas guitarras disputaram um alarido de final de tarde com as cigarras, essas pequenas figuras que zunem em nossos ouvidos incessantemente para  anunciar a mudança de estação, prenúncio de verde. Poucas bandas se projetaram no país, mas fizeram tal sucesso que nos dariam um novo título – o de capital do rock.

Precoce como ela só, a cidade foi reconhecida como Patrimônio Cultural da Humanidade, condição necessária para protegê-la da fúria da especulação imobiliária e da ignorância de moradores e síndicos, que estavam a descaracterizar a beleza das formas primevas. Os pilotis dos prédios começavam a ser encarcerados e alguns defendiam a idéia de cercar as superquadras, tornando-as condomínios privados. Seria mais seguro para todos, em especial para as crianças, argumentavam.

O tombamento refreou o ímpeto privatista, mas trouxe poucos meninos e meninas de volta para junto dos pilotis, esses elementos que nos oferecem a possibilidade de olhar ao longe, por meio deles, até o infinito, e forneciam experiência visual generosa e inédita. O ritmo da infância mudara. Crianças passaram a ter agenda de compromissos, com tarefas a desempenhar e pouco espaço para o brincar. O roteiro de festas dela é intenso e famílias chegam a alugar limusines para garotas pequenas desfrutarem um passeio de luxo no dia do aniversário.

Os problemas e as idiossincrasias das demais cidades do país a alcançaram. O sistema de transportes públicos mostrou-se – e permanece – profundamente precário. A modernidade arquitetônica não previu um metrô que circulasse pela cidade. As administrações não foram capazes de provê-la de um circuito integrado de mobilidade. Boa parte do tempo e do orçamento doméstico destina-se aos automóveis, instrumento visual e poluente que domina hoje a paisagem. Só há pouco mais de uma década, devido ao excessivo número de acidentes, a comunidade se uniu e, orgulhosa, impôs as faixas de pedestres que continuam a salvar muitas vidas, em particular de idosos e crianças, que eram grandes vítimas da velocidade.

A violência urbana cresce como nas demais capitais brasileiras, mas apresenta  feição particular, que se traduz em grupos de meninos bem-nascidos, supostamente bem cuidados, que, por motivos fúteis, guerreiam entre si. As rusgas já se faziam notar havia muito tempo, desde a época dos  “pegas” realizados na frente ao colégio Caseb. O fenômeno, porém, ganhou força, e a notoriedade veio quando um bando de jovens bonitos, de classe média, alguns quase recém-saídos da puberdade, chegou ao absurdo de matar outro adolescente a porradas. Quando um grupo deles queimou o índio que dormia em uma parada de ônibus, foi uma dor suportar a vergonha.

A dinâmica das famílias ficou parecida com a das outras cidades, com avós, avôs e, muitas vezes, agregados. Pais e mães ainda hoje conseguem almoçar em casa, e há quem defenda que isso é sinônimo de qualidade de vida.

Os shopping centers aumentaram no Plano Piloto e ao seu redor. Protegidos e asseados, são o ponto de encontro da garotada. Acreditavam os pais que, nesses labirintos contemporâneos, garotas e garotos estariam a salvo dos perigos da vida. Até que um deles, recentemente, se tornou ponto referencial para suicidas, alguns de tenra idade.

A partir do aniversário de 30 anos, depois que foram reestruturadas antigas carreiras de Estado, reforçadas pela Constituição intitulada “cidadã”, começamos a identificar sintomas de algo que se tornaria crônico, a angustia brasiliensis. Se, antes, “os filhos da primeira barriga da terra”, como gosta de chamar o veterinário Emanoel Scartezini, encaravam o mundo profissional em atividades diferenciadas, e poucos objetivavam se tornar funcionários públicos, as novas gerações passaram a ser nutridas pela idéia da aprovação em um concurso. De preferência, daqueles em que se entra ganhando quase o mesmo do final de carreira. Tornou-se quase uma obsessão. Nasceu aqui a expressão midiática “concurseiro profissional”.

Difícil criar filhos explicando-lhes que o mundo é vasto e é possível sobreviver em termos laborais sem a segurança de um contracheque do Estado, quando este se mantém como a razão de existir da cidade. “Nascemos de um sonho. Vivemos uma época mágica e, aos poucos, a realidade foi se abatendo sobre nós”, diz Cícero Ribeiro, farmacêutico. Filho da terra, quando criança, ele sonhava, recorrentemente, que tudo na cidade voava – os carros, os ônibus e as pessoas. Hoje em dia, há adolescentes que, ao chegar pela primeira vez em cidades de desenho tradicional, demonstram estranheza, tão impregnados estão pela arquitetura modernista, hoje de efeito retrô-futurista.

Se o infinito inicial era o ideal de fundar uma país novo, criar novas formas de habitar e de vir-a-ser, agora o desejo é garantir uma vida supostamente estável, com viagens cotidianas para a Esplanada, visando a uma aposentadoria bem alimentada. Nesse projeto de felicidade, não se vislumbra a idéia de servir ao Estado, mas de ser servido por ele. Ainda que alertados sobre os perigos da acomodação e do risco de terem a autoria do trabalho dilapidada, a maioria dos jovens anseia pela zona de conforto do emprego público.

Mas complexo ainda se faz criá-los respeitando a diferença entre o público e o privado, quando a cidade sedia e pratica muito abuso e muita deslealdade, mantendo o ar impregnado pela sensação de impunidade. E onde muitos gostam de se anunciar como herdeiros do poder, com o famoso: “sabe de quem sou filho?”. Até pouco tempo atrás, nossos adolescentes e jovens acreditavam que boa parte dos escândalos era protagonizada apenas por quem vinha de fora, até cenas televisionadas exibirem a face monstruosa de políticos da terra que desviam para a roupa intima verbas que deveriam ser direcionadas para a esfera pública. Muitos continuam a conviver com filhos e netos dessas pessoas sem formular críticas, sem questionar padrões de comportamento. Há um pacto de convivência – e de conveniência.

Embora não façam alarde do pertencimento, muitos dos nossos filhos gostam de ser daqui. A cidade inscreve ranhuras em seus corpos: desde bebês, suas peles trazem as marcas da secura exagerada e seus ouvidos convivem com sotaques variados. Pesquisa de professora que há trinta anos se dedica a escutar nossos modos de falar indica que, a partir da primeira geração aqui nascida, as marcas lingüísticas trazidas pelas famílias esgarçam-se. Passado meio século, quase metade dos habitantes do famoso quadrilátero é daqui originária. Com isso, começa-se a vislumbrar uma curva melódica própria que, no futuro, poderá ser sinal de identidade.

Parte de nossas filhas e nossos filhos está deixando de lado o gentílico candango, preferindo ser identificado como brasiliense, que também é a denominação para brasileiros. E, como cresceram sem muita paciência para escutar os relatos feitos por avós e pais sobre a construção, desconhecem grande parte da saga que foi inventar uma cidade a partir de um “X” marcado em meio ao cerrado.

Eles andam em bandos, que permanecem quase os mesmos desde a infância até a faculdade, e freqüentam bastante as casas uns dos outros. É verdade que derrubaram um reitor que os decepcionou, e, recentemente, muitos reagiram nas ruas às cenas explicitas de devassidão com dinheiro público protagonizados por rede de corrupção espalhada por todos os poderes locais. Contra eles, a ira policial novamente colocou cavalos em marcha naquela que poderá entrar para a história como a “Batalha do Buriti”. No entanto, em períodos normais, se articulam muito pouco politicamente.

Parece estar ainda distante o tempo no qual a cidade conseguirá ter gente que entre para a arena pública disposta a manter o respeito às normas constitucionais e a preocupação com o bem comum. Nossa grande frustração como cidade pós-moderna talvez resida aí. Nessas cinco décadas não fomos capazes de formar uma geração de homens e mulheres que trate a política com o viés da lisura, preocupada com a autodeterminação citadina. Também não produzimos gestores públicos locais capazes de denunciar e fazer frente à apropriação destrutiva que muitos, inclusive filhos de pioneiros, fazem da capital.

Neste divórcio entre o ideal de uma postura digna e a realidade perversa da descompostura das atitudes, nos apegamos àquilo que tecnicamente se quantifica como elevado índice de qualidade de vida, com a cidade apresentando um dos mais altos do país. Crescer e morar no Plano Piloto ainda constitui experiência única se comparada com o caos urbano enfrentado por outras metrópoles brasileiras. A questão é que essa especificidade foi transtornada para o individual e o elitista, cristalizando barreiras sociais que enfraquecem redes de mobilização e esvaziam os espaços públicos de um uso mais efetivo e político.

Daquele projeto herdeiro das utopias modernistas sobressai dramático convite à interiorização. A monumentalidade espacial, os volumes da arquitetura escultórica, os milhares de árvores, as inúmeras espécies de pássaros, os silêncios entre as quadras aproximam, afastando, a urbe de design cartesiano da natureza, inclusive da humana. Nesta nossa cidade, quase tudo nos leva a ser sempre outros a imergir em nós mesmos. Cabe, então, perguntar: chegará um dia em que nós, habitantes de Brasília, voltaremos a pensar no coletivo? Ainda há tempo.

Graça Ramos, natural de Parnaíba, Piauí. Desde os sete anos, moradora de Brasília. É jornalista, formada na UnB.
Texto transcrito do livro “Brasília, aos 50 anos. Que cidade é essa?”, TeMA, editorial
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Brasília: cinco dias

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Brasília: cinco dias
Por Clarice Lispector

“Dois homens beatificados pela solidão me criaram aqui
de pé…”
Clarice Lispector

(…) Quando o mundo foi criado foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo. Nós somos todos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar, e depois o mundo deformado às nossas necessidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília. – Se eu dissesse que Brasília é bonita, veriam imediatamente que gostei da cidade. Mas se digo que Brasília é a imagem de minha insônia, vêem nisso uma acusação; mas minha insônia não é bonita nem feia, minha insônia sou eu, é vivida, é o meu espanto. Os dois arquitetos não pensaram em construir beleza, seria fácil; eles ergueram o espanto deles, e deixaram o espanto inexplicado. A criação não é uma compreensão, é um novo mistério. – Quando morri, um dia abri os olhos e era Brasília. Eu estava sozinha no mundo. Havia um táxi parado. Sem chofer. – Lúcio Costa e Oscar Niemeyer, dois homens solitários. – Olho Brasília como olho Roma: Brasília começou com uma simplificação final de ruínas. A hera ainda não cresceu. – Além do vento há uma outra coisa que sopra. Só se reconhece na crispação sobrenatural do lago. – Em qualquer lugar onde se está de pé, criança pode cair, e para fora do mundo. Brasília fica à beira. – Se eu morasse aqui, deixaria meus cabelos crescerem até o chão. – Brasília é um passado esplendoroso que já não existe mais. Há milênios desapareceu esse tipo de civilização. No séc. IV a.C. era habitada por homens e mulheres louros e altíssimos, que não eram americanos nem suecos, e que faiscavam ao sol. Eram todos cegos. É por isso que em Brasília não há onde esbarrar. Os brasiliários vestiam-se de ouro branco. A raça se extinguiu porque nasciam poucos filhos. Quando mais belos os brasiliários, mais cegos e mais puros e mais faiscantes, e menos filhos. Os brasiliários viviam cerca de trezentos anos. Não havia em nome de que morrer. Milênios depois foi descoberta por um bando de foragidos que em nenhum outro lugar seriam recebidos; eles nada tinham a perder. Ali acenderam fogo, armaram tendas, pouco a pouco escavando as areias que soterravam a cidade. Esses eram homens e mulheres menores e morenos, de olhos esquivos e inquietos, e que, por serem fugitivos e desesperados, tinham em nome de que viver e morrer. Eles habitaram as casa em ruínas, multiplicaram-se, constituindo uma raça humana muito contemplativa. – Esperei pela noite, como quem espera pelas sombras para poder se esgueirar. Quando a noite veio, percebi com horror que era inútil: onde eu estivesse, eu seria vista. O que me apavora é: vista por quem? – Foi construída sem lugar para ratos. Toda uma parte nossa, a pior, exatamente a que tem horror de ratos, essa parte não tem lugar em Brasília.

Eles quiseram negar que a gente não presta. Construções com espaço calculado para as nuvens. O inferno me entende melhor. Mas os ratos, todos muito grandes, estão invadindo. Essa é uma manchete invisível nos jornais. – Aqui eu tenho medo – A construção de Brasília: é de um Estado totalitário. – Este grande silêncio visual que eu amo. Também minha insônia teria criado esta paz do nunca. Também eu, como eles dois que são monges, meditaria nesse deserto. Onde não há lugar para as tentações. Mas vejo ao longe urubus sobrevoando. O que estará morrendo, Meu Deus? – Não chorei nenhuma vez em Brasília. Não tinha lugar. – É uma praia sem mar.

- Em Brasília não há por onde entrar, nem há por onde sair. – Mamãe, está bonito ver você em pé com esse capote branco voando. (É que morri, meu filho.) – Uma prisão ao ar livre. De qualquer modo não haveria onde fugir. Pois quem foge iria provavelmente para Brasília. Prenderam-me na liberdade. Mas liberdade é só o que se conquista. Quando me dão, estão me mandando ser livre.- Todo um lado de frieza humana que eu tenho, encontro em mim aqui em Brasília, e floresce gélido, potente, força gelada da Natureza. Aqui é o lugar onde os meus crimes (não os piores, mas os que não entenderei em mim), onde os meus crimes gélidos tem espaço. Vou embora. Aqui meus crimes não seriam de amor. Vou embora para os meus outros crimes, os que Deus e eu compreendemos.

Mas sei que voltarei. Sou atraída aqui pelo que me assusta em mim. – Nunca vi nada igual no mundo. Mas reconheço esta cidade no mais fundo de meu sonho. O mais fundo de meu sonho é uma lucidez. – Pois como eu ia dizendo, Flash Gordon…- Se tirassem meu retrato em pé em Brasília, quando revelassem a fotografia só sairia a paisagem. – Cadê as girafas de Brasília? – Certa crispação minha, certos silêncios, fazem meu filho dizer: puxa vida, os adultos são de morte. – É urgente. Se não for povoada, ou melhor, superpovoada, uma outra coisa vai habitá-la. E se acontecer, será tarde demais: não haverá lugar para pessoas. Elas se sentirão tacitamente expulsas. – A alma aqui não faz sombra no chão. – Nos primeiros dois dias fiquei sem fome. Tudo me parecia que ia ser comida de avião. – De noite estendi meu rosto para o silêncio. Sei que há uma hora incógnita em que o maná desce e umedece as terras de Brasília. – Por mais perto que se esteja, tudo aqui é visto de longe. Não encontrei um modo de tocar. Mas pelo menos essa vantagem a meu favor: antes de chegar aqui, eu já sabia como tocar de longe. Nunca me desesperei demais: de longe, eu tocava. Tive muito, e nem aquilo que eu toquei, sabe.

Mulher rica é assim. É Brasília pura. – A cidade de Brasília fica fora da cidade. – “Boys, boys, come here, will you, look who is coming on the street all dressed up in modernistic style. It ain’t nobody but…” (Aunt Hagar’s Blues”, “Ted Lewis and his Band”, com Jimmy Dorsey na clarineta.) – Essa beleza assustadora, esta cidade traçada no ar. – Por enquanto não pode nascer samba em Brasília. – Brasília não me deixa ficar cansada. Persegue um pouco. Bem disposta, bem disposta, bem disposta, sinto-me bem. E afinal sempre cultivei meu cansaço, com minha mais rica passividade. – Tudo isso é hoje apenas. Só Deus sabe o que acontecerá com Brasília. É que o acaso aqui é abrupto. – Brasília é mal-assombrada. É o perfil imóvel de uma coisa. – De minha insônia olho pela janela do hotel às três horas da madrugada. Brasília é a paisagem da insônia. Nunca adormece. – Aqui o ser orgânico não se deteriora. Petrifica-se – Eu queria ver espalhadas por Brasília quinhentas mil águias do mais negro ônix. – Brasília é assexuada. – O primeiro instante de ver é como certo instante da embriaguez: os pés que não tocam na terra. – Como a gente respira fundo em Brasília. Quem respira, começa a querer. E querer, é que não pode. Não tem. Será que vai ter? É que não estou vendo aonde. – Não me espantaria cruzar com árabes nas ruas. Árabes antigos e mortos. – Aqui morre minha paixão. E ganho uma lucidez que me deixa grandiosa à toa. Sou fabulosa e inútil, sou de puro ouro. E quase mediúnica. – Se há algum crime que a humanidade ainda não cometeu, esse crime novo será aqui inaugurado. E tão pouco secreto, tão bem adequado ao planalto, que ninguém jamais saberá. – Aqui é o lugar onde o espaço mais se parece com o tempo. – Tenho certeza de que aqui é o lugar certo. Mas é que a terra me viciou demais. Tenho maus hábitos na vida. – A erosão vai desnudar Brasília até o osso. – O ar religioso que senti desde o primeiro instante, e que neguei. Esta cidade foi conseguida pela prece. Dois homens beatificados pela solidão me criaram aqui de pé, inquieta, sozinha, a esse vento – Fazem tanta falta cavalos brancos soltos em Brasília. De noite eles seriam verdes ao luar. – Eu sei o que os dois quiseram: a lentidão e o silêncio, que também é a idéia que faço da eternidade. Os dois criaram o retrato de uma cidade eterna. – Há alguma coisa aqui que me dá medo. Quando eu descobrir o que me assusta, saberei também o que amo aqui. O medo sempre me guiou para o que eu quero; e, porque eu quero, temo. Muitas vezes foi o medo quem me tomou pela mão e me levou. O medo me leva ao perigo. E tudo o que amo é arriscado. – Em Brasília estão as crateras da Lua. – A beleza de Brasília são as suas estátuas invisíveis.

(Transcrito de “A legião estrangeira”, Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1964. p. 162-167)

 

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Brasília ou Maracangalha?

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Brasília ou Maracangalha?
Por Mario Pedrosa

Worringer, no seu estudo sobre o antigo Egito, desenvolve a tese dos povos surgidos artificialmente, filhos de uma civilização oásis, e para cujo conhecimento não se necessita de saber de sua “história natural”, praticamente inexistente. E os diferencia daqueles que, ao contrário, têm no curso dessa história como que o paradigma de sua própria história política e cultural. O Egito dos faraós, ele o definiu como o “máximo caso de oásis da história universal”, ou “uma colônia sobre base artificial”.

Apoiou-se, para tanto, em Frobenius (Das unbekannte Afrika), para quem uma cultura se explica, em sua essência, ou é condicionada por sua relação com a terra: “A cultura é a terra que o homem torna orgânica”. Não havendo essa relação entre a cultura e a terra sobre que aquela se erguia, o Egito, na verdade, não tinha cultura, mas, apenas, uma civilização. E o grande historiador de arte comparava o papel do Egito, na Antiguidade, ao da América na idade contemporânea. O ponto de comparação era dado “pela força de transformação que possui toda cultura não autóctone” por lhe faltarem as resistências, os obstáculos “naturais”. Não encontrando obstáculos, ela pode “engendrar rapidamente um tipo uniforme artificial”, que dentro de poucas gerações se revela “até no corpo”.

Num oásis se impõe uma alta disciplina civilizadora.

“A vida”, diz Worringer, “concentrada num oásis estreito, toma, ao chegar ao ponto, a forma disciplinada de um cultivo de viveiro”. A característica maior dessa civilização de oásis é a extremamente natural facilidade com que recebe as formas culturais mais externas e mais altas e a naturalidade extrema com que nega a própria natureza. Nela o “natural” é negar a natureza. Nessa negação naturalíssima está o seu formidável poder de absorção de quaisquer contribuições culturais, por mais complexas e altas que sejam, venham de onde vierem.

Eis por que, americanos, brasileiros, estamos, como já tivemos ocasião de dizer, “condenados ao moderno”. O moderno vai sendo cada vez mais o nosso habitat natural.

A América não será oásis entre desertos, era simplesmente nova: lugar onde tudo podia começar do começo. Os colonos ingleses que desembarcaram ao norte do Continente o que encontraram em matéria de cultura e civilização não lhes pareceu digno de conservação. Fizeram, então, tabula rasa, e, assim, puderam transplantar, por assim dizer, intatas suas formas culturais mais adiantadas, como se se tratasse de uma transplantação para oásis. Sendo nova, sendo vasta, não havendo no seu solo senão a virgindade do mato e do solo (caso específico nosso, os do lado de cá da banda Atlântida meridional), a América se fez com essas transplantações maciças de culturas vindas de fora: que estilo, que forma de arte foi imediatamente transplantada para o Brasil mal descoberto? A última, a mais “moderna” vigorante na Europa – o barroco. E na parte inglesa do norte? O que se viu, ali, foi um renascimento desembocando, sem tardar, no neoclássico. Foram eles, assim, lá em cima, de revival em revival, isto é, de modernismo em modernismo.

E aí está por que há algo no americano, no canadense, no argentino, no paulista, que é intrinsecamente antinatural. No Egito, cuja existência estava contida “num sistema de vantagens artificialmente produzidas”, vivia-se em “atmosfera rarefeita” onde “não prosperava o desenvolvimento natural”. “O egípcio não se entrega à natureza, domina-a pela técnica”. No Brasil, nem nos entregamos à natureza, nem a dominamos. Estabeleceu-se um modus vivendi medíocre. Nunca tivemos passado, nem rastros dele por trás de nós. Aqui não houve, por exemplo, as formidáveis vias de penetração dos velhos impérios, como o romano na Europa, e, às nossas costas, o inca. E se não tivemos, num passado remoto, essas indestrutíveis vias calçadas de lajes para por elas passarem respeitáveis legiões pedestres, também não temos, ainda hoje, estradas de penetração por locomotivas. Temos, entretanto, algo novíssimo: linhas aéreas de comunicação, mas que não penetram (saltam, apenas), não  varam como as estradas de pedra das legiões romanas ou incaicas, nem como as de ferro da velha Rússia dos Czares ou da jovem República burguesa norte-americana.

Formamos na colônia uma série de núcleos de povoamento inevitavelmente isolados uns dos outros, em virtude do deserto “técnico” das distâncias e das florestas. Penosamente vimos vencendo esses intervalos-desertos no curso dos anos. Em vários pontos do território nacional, a fase desses oásis “históricos” foi vencida, e acabaram eles por transformar-se em centros de irradiação, isto é, em antítese do oásis. Graças a essa transformação, áreas relativamente vastas já constituem uma trama de inter-relações não mais puramente geográficas, embora ainda de pouca densidade social e cultural. Assim, a evolução histórica já começa por aí a ser condicionada pela terra. Quer dizer, a civilização se vai naturalizando, enquanto a adaptação à terra se torna orgânica, criando raízes bastante para permitir brotos culturais autóctones.

Eis, então, que surge a idéia de se criar uma nova Capital precisamente para esse Brasil que já superou a fase colonial dos oásis. Mas como? Pelo velho processo das “tomadas de posse” da terra quase simbólicas, pelas implantações maciças de civilizações e a dominação mecânica de um solo despovoado, solitário, por uma técnica importada. Quer-se, então, fundar uma Capital ou plantar novo oásis? Brasília participa ainda da concepção civilização-oásis. O novo oásis não é mais, evidentemente, uma estreita porção de terra entre desertos. (No entanto, as condições ecológicas do quadrilátero central, abstração positiva dos pródromos da República, deixam bastante a desejar; as terras em volta da futura Capital são áridas.)

Não é à toa que algo de contraditório se esconde no invólucro moderníssimo de sua concepção. Para a parte do País que conta econômica, social e culturalmente a fase de simples ocupação de parcelas de territórios, enquistadas à maneira de oásis, pelas virgens hostilidades da natureza envolvente, pertence ao passado. Então,  cabe perguntar: vencida a fase da colônia ocupante com suas características de produto artificial sintético, as quais de algum modo se assemelham às ruínas de praça sitiada, será possível construir-se a nova Capital fora das áreas de civilização naturalizada, onde desabrocharam os primeiros rebentos de uma cultura enfim orgânica e autóctone? Não significará tal empreendimento recomeçar a fase de oásis? Não é paradoxal destinar-se tal “colônia” de fabricação ultramoderna, a ser a cabeça dirigente do País, a sede de seu governo? Instalar-se-ia assim o centro político-administrativo do Brasil de novo num oásis, isto é, numa colônia de ocupação afastada das áreas onde se desenvolve o processo vital de crescente identificação entre sua história “natural” e sua história cultural e política.

Finalmente isolado do povo brasileiro, o seu governo desconhecerá, não participará senão de fora do drama de seu crescimento, do amadurecimento de sua cultura, da formação de sua personalidade. Brasília seria uma espécie de casamata impermeável aos ruídos externos, aos choques de opinião, como um estado-maior que se abrigasse em cavernas subterrâneas blindadas para, no comando das operações,  escapar aos bombardeios e aos ataques dos teleguiados inimigos numa guerra atômica futura.

Eis por que o programa de Brasília, no seu imediatismo tem algo de imaturo e, ao mesmo tempo, de anacrônico. Esse caráter obscuro e híbrido de Brasília se refletiu na vaguidão por assim dizer filosófica dos partidos e também na indistinção programática dos planos-pilotos apresentados.

Num, como no  de Rino Levi, o partido foi magistralmente desenvolvido, embora de modo inteiramente abstrato e gratuito em fase da indiferença do plano ao meio natural; noutros, o embaraço veio do programa. O de M.M. Roberto, no seu detalhismo excessivo, revelava, no fundo, certa consciência dessa decalagem de imediatismo e anacronismo inerente ao próprio programa estabelecido. E por isso, procurou solucionar a incongruência com certa lógica, embora, infelizmente, a nosso ver, de modo eclético, isto é, dando ênfase aos elementos que negam o isolamento e o oásis. Daí, o minucioso tratamento que deu à etapa regional, em detrimento do âmago urbanístico, das funções espirituais da metrópole política, cercados por um rígido contorno poligônico fechado, que acentua, num simbolismo significativo, a sua irremediável insularidade.

A sabedoria de Lúcio Costa consistiu em aceitar a incongruência inerente ao programa, e, evitando toda solução meio-termo, ou eclética, decidir resolutamente pelo lado inexorável, dadas as condições objetivas imediatas: o reconhecimento pleno de que a solução possível ainda era na base da experiência colonial, quer dizer, uma tomada de posse à moda cabralina, chanfrando na terra o signo da cruz ou numa evocação mais “moderna” e otimista, fazendo pousar docemente sobre a sua superfície, a forma de um avião. Confiado, entretanto, em quê? Numa esperança. Na esperança de que a vitalidade mesma do País lá longe, na periferia, queime as etapas, e venha de encontro à capital-oásis, plantada em meio ao Planalto Central, e a fecunde por dentro.

Os perigos da solução são óbvios, pois não asseguram o futuro da experiência, e podem ossificar os vícios inerentes à sua concepção. Esse vícios são o centralismo burocrático – e por isso Lúcio fugiu, genialmente, a toda forma fechada – e a onipotência administrativa de quem decide sem as resistências de uma opinião presente e de força contrastantes não dispersas. Nesse clima artificial e de isolamento, a irresponsabilidade moral medrará com viço, à medida que o centralismo de uma nova burocracia tecnocrática, todo-poderosa se for desenvolvendo, sob os efeitos do afastamento da vida nacional propriamente dita, conjugado às tremendas disponibilidades em recursos de um super-progresso técnico indispensável, não só para plantar como para fazer vingar a cidade nas condições tão antinaturais, tão artificiais, tão imaturas, de sua fundação.

A Brasília de Lúcio Costa é uma bela utopia, mas terá ela algo que ver com a Brasília que Juscelino Kubitschek quer edificar?

Texto transcrito do livro “Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília”, Mario Pedrosa.
Editora Perspectiva, São Paulo, 1981. Org. Aracy A. Amaral

 

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Os Loucos do Planalto

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Os Loucos do Planalto
Por John dos Passos

– É um doido, – resmungou Israel Pinheiro carinhosamente, quando lhe fiz a primeira pergunta a respeito de seu amigo, o construtor de estradas. Estávamos no Aeroporto Santos Dumont, no Rio de Janeiro, na manhã de um domingo de agosto em 1958, à espera do avião que nos levaria a Brasília. – Sem dúvida alguma, não regula bem.

O Dr. Israel, como todo o mundo lhe chama, é um esquisito homem esguio e grisalho, com um rosto comprido e rude, e um queixo forte sob o bigode grisalho aparado. A sua maneira azeda costuma ser atenuada pela expressão do rosto e pelo jeito súbito de mostrar os dentes compridos num sorriso meio amarelo para acentuar uma pilhéria.

– Eu também sou maluco. E Kubitschek não é menos, – disse ele, procurando rir. – É por isso que nos entendemos tão bem. Só loucos poderiam levar a cabo um projeto desses.

Embarcamos e o Beechcraft levantou vôo, sobrevoando os compactos blocos de edifícios de apartamentos, os espessos parques, os jardins cheios de gente com renques de palmeiras imperiais e a bacia cinzenta repleta de navios fechada na moldura fantástica do Rio, feita de montanhas cônicas e praias alvas debruadas de espuma.

Acima das abruptas serras ameadas que parecem estar sempre empurrando a febricitante cidade para o mar, o piloto toma o rumo do noroeste. Depois das multidões, do tráfego confuso, da voz estridente dos alto-falantes e da densa umidade da cidade marítima, é uma delicia respirar o ar frio e acerado a 1.800 metros de altura. O tabuleiro de xadrez que se vê abaixo é a cidade de veraneio de Petrópolis, onde a gente de dinheiro do Rio vai passar os fins de semana, por entre as brisas da serra. Surge adiante a profunda garganta do Paraíba, um rio entrecortado de corredeiras. Vêem-se fábricas de tecidos, núcleos de cidades industriais nas planícies além das montanhas. Volta Redonda, onde fica a grande usina siderúrgica, perde-se à esquerda sob um montão de nuvens. À direita, vejo num relance Juiz de Fora, centro da indústria de tecidos, onde passei uma noite há anos, e mais fábricas, mais pátios ferroviários… O avião entra numa espessa formação de nuvens.

Ao fim de uma hora, o Beechcraft emerge de novo ao sol, sobrevoando uma imensa região vazia. Riozinhos barrentos serpenteiam por entre morros comidos pela erosão. O Dr. Israel explica-me que os trechos verdes não são pastos, mas uma relva selvagem de pouco valor alimentício para o gado, pois é também criador aquele construtor de cidades.

– Mas para oeste, o capim é melhor.

Os retângulos bem verdes que se vêem depois são plantações de cana.

– Veja, não há uma só casa. Temos lugar de sobra para desenvolvimento, – grita ele, com um riso crepitante.

– O Presidente Kubitschek disse que há meio habitante por quilometro quadrado. Não estou vendo nem metade de uma pessoa.

– Espere só até acabarmos Brasília, – exclama ele ao meu ouvido. – Cada metade se multiplicará por dez.

E jogou-me no colo uma pilha de vistosos folhetos de propaganda da nova capital do Brasil em quatro línguas.

Desde o inicio da sua existência independente, o Brasil viveu à procura de uma capital. Os precursores da Independência em fins do século XVIII sonhavam já com uma cidade federal no interior.

Na convenção que confirmou a criação de uma monarquia constitucional em 1823, houve quem sugerisse o nome de Brasília para a futura capital. Em 1891, a assembléia que aprovou a constituição de uma república federal de acordo com o modelo dos Estados Unidos ao norte, reservou uma área de 440 léguas quadradas no planalto central, bem longe das quentes planícies do litoral para ser a eventual sede do governo da União brasileira. A constituição de 1946 estabeleceu a maneira pela qual deveria ser executada a mudança de capital. Quando Juscelino Kubitschek foi eleito presidente dez anos depois, resolveu tornar realidade a capital há tanto  projetada.

Kubitschek  era filho de um imigrante da Europa Central e de mãe brasileira. Como o Dr. Israel, era de Minas Gerais.  Nascera  na remota cidadezinha de Diamantina, que, algumas gerações antes, tinha sido o centro de uma grande indústria de mineração de diamantes. Durante a infância de Kubitschek, o lugar  era isolado e abandonado, encolhido num montão de velhos prédios coloniais arruinados, por entre morros calcinados. O jovem Juscelino não tinha dinheiro, mas conseguiu, como um moço trabalhador e dinâmico, entrar para a Faculdade de Medicina de Belo Horizonte, a nova capital do seu Estado.

Belo Horizonte – os brasileiros gostam de nomes retóricos – foi a primeira cidade brasileira importante construída de acordo com as plantas dos engenheiros. No começo do século, os mineiros chegaram à conclusão de que precisavam de uma nova capital para o seu Estado. A sua capital, Ouro Preto,  era, como Diamantina, um velho burgo colonial onde as antigas famílias vegetavam entre os esplendores caducos de conventos, palácios e igrejas construídos nos tempos em que a exploração das grandes jazidas de ouro e pedras preciosas levava a riqueza àquelas tórridas montanhas. Tudo isso estava passado. Havia, porém, perspectivas de nova prosperidade na criação do gado zebu, nas plantações de milho, cana e arroz, nas fábricas e na montanha de ferro de Itabira. Em vez de ouro e diamantes, os mineiros estavam começando a sonhar com as terras virgens do oeste.

O ‘belo horizonte’ para que olhava a cidade era o Oeste brasileiro: os férteis vales dos rios que corriam rumo ao norte para o Amazonas e, rumo ao sul, para o Paraná e o Paraguai, e mais o planalto de Goiás e as brenhas de Mato Grosso.

A fundação de Belo Horizonte foi recebida com clamores zombeteiros no resto do país. Os críticos achavam que não era possível; ninguém podia tirar uma cidade de uma prancheta de desenho e dar-lhe vida. Os críticos estavam errados; o empreendimento foi bem sucedido. Foi no tempo em que Kubitschek era estudante que a cidade começou realmente a tomar ímpeto. As indústrias se desenvolveram e a população cresceu. Já em 1958, Belo Horizonte tinha mais de um milhão de habitantes, estava cheia de arranha-céus e de luzentes edifícios de apartamentos, sendo considerada a cidade brasileira onde era mais agradável viver.

Nestas condições, a idéia de que uma cidade podia ser criada numa prancheta de desenho não era novidade para o Dr. Kubitschek, que crescera com Belo Horizonte. Depois de alguns estudos em Paris e de uma vitoriosa carreira como um dos principais urologistas de Belo Horizonte, foi nomeado prefeito no tempo de Getulio Vargas. De prefeito da capital do Estado a governador o passo não foi muito grande.

Os mineiros manejam uma das máquinas políticas mais bem lubrificadas do Brasil. São um povo obstinado e partidário, sempre atento às oportunidades: é preciso lutar duramente pela vida naquelas ásperas montanhas. No período de confusão e recriminações que se seguiu ao suicídio melodramático de Getulio Vargas, o Parido Social Democrático de Minas levantou a candidatura do Dr. Kubitschek à presidência do Brasil. Era um homem novo, um técnico progressista voltado para o Oeste, um doutor em Medicina livre de compromissos políticos. Foi eleito por genuína maioria. Brasília foi um dos pontos da sua plataforma.

 

“Já vimos o êxito da nova capital e de nosso Estado” – diziam Kubitschek e os seus amigos. “Esta é a nossa oportunidade de construir uma nova capital que uma toda a nação”. Sem dúvida, a noção de que o seu Estado ficava no centro das linhas de comunicação entre Brasília e o mar aumentou o entusiasmo dos mineiros pelo projeto. Kubitschek se tornou para eles um homem com uma missão. Passaria à História como o presidente que realizara afinal a velha ambição de uma nova capital para o Brasil.

Dois anos antes da posse de Kubitschek como Presidente, o Congresso brasileiro designara uma comissão para escolher o melhor local no retângulo do novo Distrito Federal. Essa comissão contratou a firma Donald J. Belcher, de Ithaca, Estado de Nova York, para fazer um levantamento topográfico. Um grupo de engenheiros e geólogos americanos, na sua maioria da Universidade de Cornell, propôs cinco locais possíveis que apresentavam as condições de clima, abastecimento de  água, drenagem e subsolo necessárias para a fundação de uma grande cidade. Os brasileiros escolheram a localização atual de Brasília como a melhor.

Quando surgiu o problema do urbanismo e da arquitetura, o Presidente Kubitschek não podia deixar de pensar em Niemeyer. O seu nome vinha sendo há anos ligado ao de Kubitschek. Foram as plantas de Oscar Niemeyer para o subúrbio de veraneio da Pampulha, de iniciativa de Kubitschek quando era prefeito de Belo Horizonte, que o tornaram o mais conhecido dos jovens arquitetos brasileiros.

O estilo moderno dos edifícios causou enorme agitação. Kubitschek ficou ao lado do seu arquiteto e obstinadamente convidou-o para fazer o projeto de um teatro municipal. Nem o fato de Niemeyer dizer-se comunista ao passo que as opiniões de Kubitschek estão em direção inteiramente contrária perturbou a sua colaboração. Quando Kubitschek ofereceu a Niemeyer o lugar de supervisor da construção de Brasília com um salário equivalente a apenas algumas centenas de dólares por mês Niemeyer, segundo se afirma, abandonou alguns contratos regiamente pagos com particulares para aceitar o cargo. “Niemeyer”, dizem os brasileiros, “é a alma de Kubitschek”.

Os políticos brasileiros são de acesso reconhecidamente fácil. Naquele tempo, não era muito difícil a um americano conseguir uma entrevista com o Presidente Kubitschek, principalmente se o americano era jornalista e o assunto da entrevista era Brasília.

 

Levaram-me para vê-lo às oito horas da manhã no Palácio das Laranjeiras, no Rio. Lá fora, uma chuva forte caía de um céu cinzento e baixo e fazia frio: o Rio estava tendo um dos seus raros toques de inverno. O palácio, que Kubitschek escolheu para sua residência oficial, foi construído no principio do século por uma família que possuiu docas em Santos durante a grande época do café.

Arquitetos e decoradores parisienses revestiram-no de toda a pompa que podiam imaginar como cenário para o patriarcal capitalismo brasileiro daquele tempo. Havia colunas de mármore e cortinas cor de salmão. Cupidos dourados repousavam em torno de espelhos. Havia  falsas lareiras, sofás de pelúcia e tapetes orientais. Um piano de cauda dourado estava plantado no chão de parquete sob o lustre. A luz cinzenta raiada pela chuva se derramava pelas altas janelas, rebrilhava nos lustres e fazia o grande salão parecer incrivelmente vazio.

Quando o Presidente Kubitscheck chegou com o seu andar curto e ágil em compasso com o do seu chefe do protocolo, parecia quase tão descolado entre aqueles esplendores afrancesados quanto os que o visitavam. Havia na maneira pela qual ele se vestia um certo ar de cidade pequena que não deixava de ser simpático para um americano. A sua atitude era firme. Mostrava-se mais alto do que eu julgara. Era um homem de rosto pálido e aspecto jovem, com  grandes olhos proeminentes. Antes mesmo de sentarmo-nos no sofá, entrou diretamente no assunto.

– Vai a Brasília?

Pronunciava o nome com uma espécie de fervor especial. Tratou sem demora de explicar-me que Brasília não era um luxo, mas uma necessidade. Se o Brasil continuasse a progredir no mesmo ritmo dos dez anos anteriores, o centro da nação teria de mover-se para oeste e para o norte. A nação precisava de uma encruzilhada.

O Presidente falava com clareza e ardor. De vez em quando, parava para deixar que o amigo que me havia acompanhado traduzisse para o inglês uma frase difícil. Enquanto falava, traçou um mapa do Brasil com tanta clareza que eu quase podia vê-lo na parede por trás do piano dourado. Sessenta e cinco milhões de habitantes. Vinte Estados e quatro Territórios. Quase  a metade da superfície da América do Sul e na sua maior parte vazio. Disse como os sistemas hidrográficos da bacia amazônica limitavam o Brasil ao norte e carregavam mais água através das florestas equatoriais do que todos os outros rios do mundo juntos, sendo navegáveis por navios de alto mar numa extensão de milhares de quilômetros. Entretanto, as únicas comunicações práticas entre Belém, a velha cidade portuguesa que era o porto de entrada da região amazônica, e o resto do país eram por avião.

– A construção de Brasília já nos está forçando a construir estradas, – disse ele. A ligação com São Paulo e o sul já estava feita. A estrada do Rio estava prestes a ser concluída. A estrada Belém-Brasília em construção atravessava regiões que nem constavam dos mapas. Já se estavam atingindo florestas onde as arvores tinham quarenta metros de altura. Os seus gestos sugeriram a lenta queda de uma dessas árvores enormes. Disse-lhe que havia conhecido Sayão dez anos antes. Foi grande o seu entusiasmo ao ouvir isso.

Continuou dizendo que aquela estrada seria ligada por estradas subsidiárias à costa do Atlântico. Traçou com o indicador uma linha em torno da fieira de cidades litorâneas isoladas que se estendiam para sudeste, de Natal e Fortaleza para a Bahia, o Rio e São Paulo até chegar às regiões temperadas do Rio Grande do Sul que se limitam com o Uruguai e a Argentina.

Explicou que no litoral a densidade média de população do país era de vinte e cinco habitantes por quilometro quadrado. Social e economicamente, o Brasil continuava a ser apenas uma longa faixa estreita ao longo da costa, como o Chile.

– No interior,  temos apenas meio habitante por quilometro – disse ele com um sorriso contrafeito.

Voltou-se para olhar-me bem de frente e continuou:

– No tempo dos pioneiros, vocês, norte-americanos, sempre tiveram o Oceano Pacifico a atraí-los com uma meta através das montanhas. Foi por isso que conseguiram povoar tão depressa a sua parte do continente. O nosso caminho para o oeste é barrado por florestas impenetráveis e pelos Andes. Brasília será uma meta, um ponto de atração no planalto. A construção de Brasília significa estradas. Já se iniciou um movimento em direção às terras férteis do interior. Logo que tomei posse, dei ordem para que se iniciasse a construção. Brasília é a grande meta do meu governo.

O Presidente estava resvalando para um discurso político. Não me era difícil imaginar o salão repleto, os cabos eleitorais comandando os aplausos da multidão, os flashes das máquinas fotográficas, os repórteres tomando notas apressadamente.

Caiu em si de repente e pleiteou a minha compreensão com um gesto de encerramento. Houve uma pausa. O diretor de protocolo tossiu de leve. Estava na hora de sair. Levantamo-nos para as formalidades de despedida.

 

O Dr. Israel completou a história. A construção começou em meados de 1956, quando o Presidente o nomeou diretor da Novacap, a autarquia mais ou menos nos moldes da TVA (Administração do Vale do Tennessee) criada pelo Congresso para executar a obra.

Segundo me disse o seu secretário, o Dr. Israel foi escolhido porque administrara excelentemente a Estrada de Ferro do Rio Doce depois que o governo brasileiro a comprara dos ingleses durante a guerra. O Dr. Israel era de uma família ilustre e conceituada do noroeste de Minas. O pai dele fora governador do Estado. Tendo-se formado pela Escola de Minas de Ouro Preto, o Dr. Israel estivera ligado aos projetos de Kubitschek em Belo Horizonte.

Era famoso como orador pelas suas divertidas histórias. Naquele verão de 1958, vivia uma semana no seu escritório do Rio e a semana seguinte na sua sede de construção no planalto.

Assim, naquela enevoada manhã de agosto, era o Beecheraft da Novacap que estava levando minha esposa e a mim, o Dr. Israel e sua esposa, D. Cora, numa excursão aos trabalhos de construção da nova capital.

 

Um Churrasco com os Candangos

 

Já havíamos passado por Belo Horizonte. Algum tempo antes, o co-piloto nos havia apontado o leve traço de fumaça que tisnava o horizonte para o lado do norte acima dos amontoados edifícios da cidade. O Dr. Israel virou-se para mim e bateu na vidraça com o dedo espetado.

 

– A estrada, a estrada, – gritou-me ele, para ser ouvido, apesar do ronco dos dois motores.

 

De fato, um talho vermelho rasgava a paisagem de horizonte a horizonte. Tive a impressão de ver pequenas lagartas brancas que não eram senão as pontes de cimento armado já concluídas.

– A estrada de Belo Horizonte a Brasília, – gritou ele, exultante. – A artéria vital de Brasília.

O avião ronca sobrevoando montanhas mais altas e mais secas onde os caminhos são raros e esmaecidos. Os rios se mostram verde-claros e o céu é de um límpido azul acima de novelos de nuvens algodoadas. A terra é muito vermelha, vagamente tingida de um verde azinhavrado nos lugares onde há água corrente.

O avião começa a descer. Na paisagem que volteia vêem-se algumas vagas praças, ruas, casas de telha, campos cercados. É a cidade de João Pinheiro, assim chamada em honra do pai do Dr. Israel. O piloto circula sobre um terreno que parece um campo lavrado. Quando pousa, a pista se revela tão acidentada quanto parecia do ar.

Grupos de habitantes morenos aparecem para cumprimentar o Dr. Israel. São políticos do interior, candangos, jovens engenheiros de camisa branca e calças de cáqui. Todos  tem a pele curtida pelo seco sol da montanha. Mas os sorrisos são fáceis e as vozes calmas e cordiais. Apertam-se as mãos com um pouco de timidez. Passamos todos em fila por uma borboleta plantada numa cerca viva de plantas espinhosas e de flores vermelhas, a qual impede o gado de pastar na pista.

Dr. Israel assume o comando. Distribui-nos a todos por jipes e camionetas que seguem em procissão pela nova estrada. Ainda não está pavimentada. É difícil vê-la dentro da compacta poeira vermelha na  qual viajamos quilômetros e mais quilômetros. Não há pontes naquele trecho, mas um motorista disposto pode, segundo me dizem, ir perfeitamente de Belo Horizonte a Brasília.

– Uma estrada quer dizer vida, – exclama o Dr. Israel.

Somos levados para um prédio simples e elegante à beira de uma ravina seca, que os engenheiros da estrada transformaram numa espécie de centro social. Aparecem cálices de cachaça nas bandejas. Está na hora das felicitações. Felicidades. Brindes. O Dr. Israel faz um breve discurso.

Na ravina, abaixo do centro, estenderam-se mesas feitas de tábuas sob um telheiro de zinco através do qual o vento circulava livremente. Ali vai haver um churrasco. Há um cheiro de carne assada no ar. Em torno de uma trincheira rasa cheia de tições ardentes, grandes pedaços de carne são assados em compridos espetos de ferro. Numa extremidade, um leitão no espeto gira lentamente acima das brasas.

Nas beiras do telheiro, formando um corredor sorridente pelo qual passam os convidados, estão os rostos amontoados dos candangos, bronzeados, cor de mostarda, cor de folha de fumo, queimados ou vermelhos, que estão gravemente esperando a sua vez. Estão com os seus melhores chapéus de palha e as suas mais limpas camisas domingueiras. Os olhos castanhos se apertam sob a luz ofuscante do sol para observar o que está acontecendo na sombra, sob o telheiro.

O Dr. Israel anda por toda a parte com ares de entendido, fazendo cortes de prova com sua faca de bolso na carne que está assando. Queixa-se de que alguns pedaços estão muito duros.

Dá de ombros e abrange num gesto quase de desculpas toda a população que se amontoa em torno às mesas.

– Política, – diz-me ele ao ouvido. – Como é que se diz nos Estados Unidos? Political fences? – pergunta com o seu riso chiado.

Empertiga-se e fica de repente muito sério. O que há de grande em tudo aquilo é a estrada, diz ele aos candangos. Os  políticos vem e vão, mas a estrada permanecerá.

Curva-se para cortar algumas fatias do leitão assado e as oferece com um sorriso cordial aos seus convidados.

– Diga nos Estados Unidos o que uma estrada representa para o Brasil.

Um homem atencioso traz-nos pratos servidos cheios. O ar da montanha abre o apetite. Logo que a multidão começa a afastar-se das mesas devastadas, o Dr. Israel nos leva de volta ao campo de aviação. Explica-nos que quer mostrar-nos Paracatu, a cidade da família de sua esposa, D. Cora.

O campo de Paracatu é pequeno demais até para o Beecheraft. Um pequeno avião monomotor já está à nossa espera para levar-nos até lá. Minha mulher e eu começamos a conversar baixinho logo que nos acomodamos nos bancos do aviãozinho. Achávamos ambos  muito graça nas semelhanças políticas daquele churrasco com o que teria acontecido num almoço político no canto da Virgínia de onde éramos naturais. A língua, os trajes, a cor da pele são diferentes, mas o aspecto geral, as manobras para conseguir posições, o prestígio da família, a complacência com os preconceitos locais, tudo era tão igual que provocava o riso. É essa a espécie de política do interior que temos na nossa terra. Abaixo de todas as diferenças há muitas semelhanças entre a forma de democracia do Brasil e a dos Estados Unidos. Procurei dizer ao Dr. Israel que devíamos entender-nos porque temos muitos defeitos em comum, mas nem o inglês dele nem o meu português foram suficientes para comunicar o sentido da minha afirmação. De qualquer maneira, o piloto ligou o motor e aí é que não foi mais possível entender coisa alguma. Sorrimos, fazemos caretas um para o outro e estamos voando de novo.

O aparelho segue a faixa vermelha da estrada, que se esconde sob a poeira nos trechos onde as escavadeiras estão em ação. De novo o vazio das montanhas pardacentas tomadas pela erosão. Em breve, o avião circula sobre um campo verde. Vê-se um rio. O Dr. Israel  mostra quebradas no barro vermelho onde, anos atrás, se bateava ouro no leito dos rios. Bambuais, bananeiras, algumas mangueiras e mamoeiros entre telhados estreitos enegrecidos pelo tempo. Não há o menor sinal de lavoura. Dá-nos vontade de perguntar: “De que é que se vive em Paracatu ?”

Um velho Chevrolet desconjuntado está à nossa espera. O Dr. Israel nos faz embarcar nele. As ruas calçadas de pedras irregulares da cidadezinha não foram feitas para automóveis. São ladeirentas e estreitas. Cavalos batidos de sol estão amarrados à porta de todas as casas comerciais. Homens morenos passam montados com enormes chapéus à cabeça. Uma junta de quatro bois brancos avança numa lentidão majestosa dentro de uma nuvem de poeira.

O lugar tem um aspecto de cintos apertados, pobreza e privações. Há moscas em quantidade. O Dr. Israel explica que assim é que toda a região era antes da estrada.

Há muitos anos, tinham ouro. Depois, tiveram fome. Agora, tem a estrada.

Com um estremecimento e um suspiro, o Chevrolet pára chocalhantemente na praça central, defronte da igreja.  Os  franciscanos tem uma escola ali. Conversamos ràpidamente com o diretor, um jovem holandês sério que fala um pouco de inglês. Enquanto isso, D.Cora partiu em busca de antiguidades. Também admiramos como ela a elegância simples e a feitura sólida dos móveis coloniais que ainda podem ser conseguidos naquelas bandas, “quase de graça”.

Acompanhamos o Dr. Israel enquanto ele fazia uma visita a um homem louro de aspecto sonhador que era evidentemente o chefe local dos social-democratas. Sentamo-nos na sua sala tomando cafezinhos e escutando polidamente enquanto ele e o Dr. Israel falavam pressurosamente sobre política em palavras sibilantes e meio sussurradas.

Garotinhos desgrenhados olhavam-nos com os seus graves olhos cinzentos por trás da grande janela gradeada que deixava entrar a luz da praça. Eram um verdadeiro rebanho. Tinham  todos cabelos claros como o pai. Mas o homem que nos hospedava parecia moço demais para já ter tantos. Meu Deus, quantos filhos se tinham nessa terra. “Como conseguem sustentá-los?” dava-nos vontade de perguntar.

Os dois brasileiros lembraram-se dos hóspedes e nos incluíram na conversa. Disseram que a estrada passará perto de Paracatu. Isso significará prosperidade, valorização das terras e de todas as casas da cidade. Haverá ônibus, caminhões para o transporte dos produtos da lavoura, lojas para comprar coisas, talvez um banco.

Os olhos do chefe político se enevoam de emoção quando aponta para os filhos cujos rostos se amontoam na janela.

– Estes terão uma vida melhor do que a minha.

Transcrito do livro “O Brasil Desperta”, de John dos Passos, jornalista norte-americano.

 

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Brasília bêbada

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Brasília bêbada
Por Conceição Freitas
 
Depois que a utopia se acomodou na realidade, passado o dia 21 de abril, o que terá acontecido? Quando os desfiles acabaram, o cheiro de pólvora dos fogos se diluiu no ar, os aviões fizeram fila para decolar levando uma gente engravatada e empoada de vermelho, como será que começou a rotina da nova capital?

Foi um deus-nos-acuda, pelo que dá para apreender das matérias, notinhas, desabafos e comentários publicados no Correio dos dias seguintes à inauguração. Senadores e jornalistas reclamaram das acomodações no Congresso e, por conseqüência, da arquitetura de Niemeyer. A área destinada à imprensa era precária. O plenário do Senado ecoava longamente o discurso dos parlamentares. Um jornalista ironizou: “Está resolvido o problema do quorum no Senado. O senador vota uma vez sim ou não e o secretário conta sete”. Naquele tempo, o voto não era eletrônico, não custa lembrar.

Deputados disputavam unha a unha apartamento e mobília. Houve um, bastante robusto, que ficou preso do lado de dentro de sua nova moradia e teve de se espremer entre os brise-soleirs da fachada do bloco para alcançar o apartamento vizinho e conseguir se liberar da inesperada prisão modernista.

Nos dias imediatamente após a inauguração, a cidade nova em folha era um tapete de lixo da festança. Descobriu-se então que havia apenas 20 garis para cuidar da limpeza de Brasília. Na falta de estabelecimentos comerciais, os camelôs invadiram a maquete de concreto armado.Muitos deles eram vendedores de quentinhas (as marmitas daquele tempo), aquecidas em trempes sustentadas em tijolos sobre o chão de poeira.

Nos poucos restaurantes da W3 Sul uma refeição completa custava 130 cruzeiros (o que já revela o período inflacionário que o país começava a percorrer). Por esse valor, o freguês tinha direito a macarronada, pão, uma cerveja, uma porção de goiabada e um cafezinho.

Era incipiente o abastecimento de água e luz nos primeiros dias da nova capital. Telefones, pouquíssimos. Serviço postal pífio. Quem quisesse mandar um telegrama tinha de declará-lo diante de todos para o telegrafista. Privacidade zero.

Toda Brasília estava “embriagada” pelas pistas extensas e largas e muito bem pavimentadas, como relatava matéria publicada no Correio de 22 de abril de 1960. “A falta de flechas indicadoras e a desconcertante topografia fazem com que os veículos percorram longos caminhos para objetivos bem próximos.” Quem se arrisca “à aventura dos trevos poderá encaminhar-se para Belo Horizonte ou São Paulo sem dar pelo engano”. O belo texto de um cronista anônimo termina assim: “Esta cidade, tumultuária e excessivamente lógica no seu traçado urbanístico, parece tonta na véspera de ser o centro político do país”.

Texto transcrito da “Crônica da Cidade”, edição do Correio Braziliense de 6/7/2010.

 

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Fogo na ermida

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Fogo na ermida
Por Ana Miranda

Acho que esperávamos o espetáculo mais inspirador da cidade, o mais sublime e esperado remate do dia, pincéis manuseados pelos ventos e estios, nuvens, aquela estrela que dá nuanças às cores, anjos invisíveis do Senhor numa tela infinita e infinitamente profunda e profundamente interminável, interminavelmente tingida na lavanderia dos sonhos, esperávamos apoiados no corrimão da ermida, se é que já havia ali um corrimão, acho que não, e estaríamos então sentados no cimento, mas a ermida, havia, que é antiga como a cidade, e a pequena imagem de dom Bosco, havia pedras em volta e uma estradinha vermelha serpenteando até o lago, entre serpentes vermelhas, cortando a terra vermelha e vermelhando os olhares, quando morávamos em Brasília éramos uma espécie de índias vermelhas pintadas de poeira rubra, pés vermelhos, mãos vermelhas, cabelos, dentes vermelhos, lábios, as unhas, até nossas lágrimas eram vermelhas, e nossos lençóis amanheciam vermelhos, nossos cadernos eram vermelhos.

Conversávamos calmamente, o que fazer da vida, o que não fazer, o futuro nos pertence, luz da vida…quando chegamos o fogo era distante e delicadamente crepitava, crepitava, uma ponta de cigarro, uma pedrinha cristalina, um caco de vidro…ou queimadas espontâneas já mencionadas por Cruls, todos os anos acontecem mas “graças ao maior afastamento das plantas entre si são de menor violência do que os abrasamentos das prairies, posto que obscureçam a atmosfera”, mas a avidez do fogo é possante, e em sua amizade com o vento, num diálogo de estalos e uivos, tudo foi sendo tomado pelo incêndio. Eu nem pensava na dor daquelas árvores, ou se sentiriam prazer nas labaredas, pensava nos animaizinhos que fugiam, oh fogo, és quase fuga, num instante estávamos cercados, por todos os lados só havia fogo, as chamas cada vez mais altas, e nesse instante o sol se pôs, incendiando também o céu que se refletia nas águas do lago, a paisagem era absolutamente ígnea e fascinante, estávamos transportados ao imo do sol, a desvendar segredos do céu, não podíamos mais sair dali, cercados pelos muros de chamas e fumaça, talvez até morrêssemos, mas nem pensávamos nessa morte possível, os jovens pouco pensam na morte, pouco sabem das suas emboscadas astuciosas, e se já estivéssemos mortos?

Nada disso, o fogo nos ensinava a olhar, trazia uma extrema valorização do olhar, como se fôssemos obrigados a ver um novo mundo, ou se fosse um sonho apenas, sob a espiritualidade da luz, a mão de um deus acalmava nossos espíritos e nos dava paz. Não vai acontecer nada, Ana, o fogo está caminhando, ele vai passar e vai embora. E se o carro explodir?

Então voltamos a pé. E se corrêssemos pelo fogo até a beira do lago? Morreríamos. E se eu tivesse pernas mais rápidas que o fogo? Não mais velozes que a fumaça. E se as cobras vierem para cá? Elas vão estar tão enrascadas como nós. E se os lobos vierem? E se vierem todos os bichos, cobras, lobos, lagartas, tatus, macacos, vagalumes… Então este é o lugar certo. E se eu me jogar no fogo? Vou rezar. Ficamos em silêncio, nada mais havia a dizer, a fazer, apenas esperar, assim muitas vezes é a nossa vida, quando podemos apenas esperar, sabemos o que virá depois, as cinzas, os galhos negros retorcidos, a fumaça, o esquecimento…oh fogo quase és fuga…depois do pôr do sol vem o crepúsculo com suas cores gradientes, quando não é noite nem é dia, a hora dos lobos, um momento de passagem, que era o momento da vida de qualquer menina aos 15 anos.

Transcrito do Correio Braziliense, 20 de junho de 2010.

 

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Antes de ser cidade, foi sonho

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Antes de ser cidade, foi sonho
 Por  Paulo José Cunha
 
         Antes de ser cidade, ela foi sonho. O sonho de Dom Bosco, sonho sonhado mais de um século antes que a cruz inaugural,  na famosa foto de Fontenelle, que o fotógrafo Milton Gurán considera o símbolo do Brasil moderno, fosse traçada na terra vermelha do cerrado goiano e começasse a epopéia. O sonho iria se tornar a marca da nova cidade, sonhada desde os tempos do império, pelos inconfidentes da antiga Vila Rica das Minas Gerais, e depois por José Bonifácio, o Patriarca da Independência.
 
        E foi assim, de sonho em sonho, que a cidade foi sendo embalada. Até ser sonhada por um certo Nonô, mineirinho simpático, filho de uma professora primária, que ainda na campanha eleitoral à presidência, preocupado com a necessidade da interiorização do desenvolvimento, prometeu realizar o sonho dos inconfidentes, e mudar a capital para o centro do Brasil. Mas não sonhou sozinho: dividiu o sonho com dois outros sonhadores, Lúcio Costa, que inventou aquela cruz plantada no centro do Planalto Central, convertida depois numa espécie de avião, com uma asa apontada para o norte, outra para o sul. E Oscar Niemeyer, que sonhou as formas revolucionárias dos prédios, dos monumentos, dos palácios, das igrejas.
 
        O sonho foi brotando das pranchetas. Mais e mais gente foi sonhando, levas e levas de outros sonhadores começaram a chegar de várias partes do país: do centro-oeste, do sudeste, do norte, sonhadores do sul, sonhadores nordestinos. E pouco a pouco, no ritmo acelerado que depois seria conhecido como o ritmo de Brasília, o sonho foi virando rua, gramado, coluna, parede. E o que era só régua e compasso foi virando ferro, concreto e aço. Tudo cheio de gente. De gente e de delírio.
 
        No dia 21 de abril, data que registra o sonho dos que um dia sonharam com a independência do Brasil, o Brasil lembra o sonho de outro mineiro, que um dia sonhou com o fim da opressão e o início de uma nova era baseada na liberdade e na democracia. Um certo Tancredo, lá de São João Del Rei, no coração de Minas, onde nasceu e hoje repousa.
 
        E assim, desde aquele sonho distante de Dom Bosco, Brasília é uma cidade que vem sendo sonhada.
 
        Aos 50 anos, seus habitantes se orgulham de morar numa cidade diferente, patrimônio mundial. Uma cidade tão diferente, que às vezes, reparando bem, parece mesmo… um sonho.

 

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Baixou o santo

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Baixou o santo

Para quem não conhece, apresento mais uma vez, honrada, o abade Pierre. O francês Henri-Antoine Grouès (1912/2007) foi um ativista político oito vezes indicado ao Nobel da Paz, valente defensor dos deserdados, membro da Resistência Francesa durante a Segunda Guerra Mundial.

Abade Pierre visitou o chão que nos sustenta quando ele ainda era um canteiro de obras. É dele a frase que mais gosto sobre a nova capital: “(Brasília) é uma loucura. Mas uma loucura sublime e necessária”.

Darcy Ribeiro dizia que Brasília nasceu da conjunção dos astros, do encontro inacreditável de Juscelino, Lucio, Oscar e Israel. Homens na plenitude de seus talentos: o presidente da República, os dois mais respeitados arquitetos do período e um engenheiro que sabia mandar. Nos primeiros tempos, esteve com eles um engenheiro indomável, com pinta de galã e carisma de político populista, Bernardo Sayão.

Era muito, mas era um nada para a maluquice que se propunha: construir uma cidade moderna no sertão goiano, em local sem estradas de acesso, de população rarefeita, sem luz elétrica, sem nenhum grande rio nas proximidades, onde chovia seis meses no ano e nos outros seis meses fazia um sol excruciante. Onde as árvores se contorciam de calor e as campinas se estendiam até onde o mundo fazia a curva; onde o Brasil ainda era movido a lenha, o transporte tinha quatro patas, não havia sal e o produto mais industrializado que se conhecia era o carro de boi.

O Brasil havia acabado de ganhar um presidente risonho, sedutor, dançarino, decidido, otimista, feliz da vida – o mais feliz dos presidentes.

Foi ele quem inoculou a primeira gota de loucura no coração dos brasileiros. Brasília não era para depois, como vinha sendo dito há séculos; era pra já, ele decidiu. A loucura sublime e necessária de que falou Abade Pierre contaminou quase todos os que aqui pisaram entre 1957 e 1960. Foi um surto coletivo desses que fazem explodir uma revolução. Havia projeto, mas o que aconteceu aqui entre meados de setembro de 1956 e 21 de abril de 1960, e um pouco mais, foi algo que não se planeja em prancheta, nem mesmo com a maestria de Lucio Costa.

Oscar Niemeyer já tinha exata noção de quem era e do que era capaz – Pampulha lhe havia confirmado o talento. Lucio já havia treinado as superquadras no Parque Guinle, havia se impressionado com as vias expressas dos Estados Unidos, se encantado com os terraplenos monumentais das cidade milenares chinesas, já havia descoberto Le Corbusier. Estava prontinho para inventar uma cidade.

Israel havia defendido a transferência da capital no seu tempo de deputado constituinte em 1946. É certo que preferia que ela fosse pros lados de Minas, mas soube perder. Já havia criado a Companhia Vale do Rio Doce. E tinha nascido com a vocação de feitor. Sabia mandar como poucos. O Brasil nordestino, goiano, mineiro e nortista precisava de trabalho e desceu em comboios de paus de arara para a promessa do Eldorado.

Tudo isso até pode nos fazer entender as circunstâncias em que Brasília foi construída. Mas tudo isso é pouco. O que explica mesmo é a frase do Abade Pierre: baixou o santo no quadradinho.

Conceição Freitas
Transcrito da “Crônica da Cidade”, Correio Braziliense 15/04/2010

 

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Meu amigo Joaquim Cardozo

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Meu amigo Joaquim Cardozo
Por Oscar Niemeyer
 
É velho retrato já amarelado pelo tempo. Estamos sentados num banco do Jardim Público de Belo Horizonte e Cardozo olha a máquina com um ar distante e constrangido. Está magro. Os ossos à flor da pele.
Quantos anos andamos juntos neste velho planeta? Quantas viagens juntos fizemos, pelo Brasil afora? Quantas coisas conversarmos, quanta amargura levantamos diante deste mundo absurdo. As vezes, do terraço do nosso escritório, Cardozo, olhando o céu, insistia: “Precisamos ir ao observatório!” E ficávamos a falar das estrelas, dos espaços infinitos, das nebulosas distantes, deste universo esplêndido que tentamos decifrar. E nos sentíamos pequenos demais, diante de tanta grandeza. Outras vezes, surgia a literatura e Cardozo se entusiasmava, citando Goethe, lembrando as traduções que fizera, ou cantarolando o seu Coronel de Macambira.
 
Mas a conversa mais freqüente se relacionava com o nosso trabalho, as ligações da arquitetura com a engenharia e o equívoco lamentável dos que pretendiam exprimir o concreto armado dentro do racionalismo estreito em que caminhava a arquitetura contemporânea. Rindo, Cardozo prometia fazer a base das colunas de ferro maciço e finas, finíssimas, como eu as preferia.
E ficávamos a lembrar os primeiros tempos. A obra de Pampulha se iniciando e Juscelino acompanhando-a com entusiasmo: “Oscar, vai ficar uma beleza!” E nós a segui-lo confiantes na sua determinação, apesar dos problemas de tempo e dinheiro que o envolviam. Depois, tudo concluído. O Cassino a funcionar, a burguesia da época a se exibir pelas rampas, e aquele ambiente de luxo, de mármores e ônix que Belo Horizonte desconhecia. A sorrir, recordávamos a igreja recusada durante vários anos, apesar de tão singela, apesar de tão enriquecida pelas pinturas, azulejos e baixos relevos de Portinari, Ceschiatti e Paulo Werneck; a Casa do Baile cheia de gente, com as mesas sob a marquise à beira da lagoa…O clube debruçado sobre a água, ainda com seus locais de estar e conversa responsáveis pela própria silhueta.
E as obras que realizamos em Belo Horizonte eram também lembradas: JK governador…O teatro, a biblioteca, o Colégio Estadual, a Escola Julia Kubitschek…As viagens repetidas que fazíamos juntos, pelas estradas enlameadas ou a balançar sonolentos, nos velhos trens da Central!
E Brasília voltava à nossa memória com sua poeira impalpável, com sua chuva de granizo a bater no telhado de zinco do Catetinho e os prédios a subirem naquela terra vazia, dentro dos espaços criados pelo seu urbanista. Cardozo lembrava então como lhe custara calcular o Congresso Nacional e como estava eufórico ao me telefonar, um dia: “Oscar, consegui a tangente que vai fazer a cúpula da Câmara solta como você queria.” Velhos tempos…Tudo parecia um sonho. O sonho predileto de JK.
Não falávamos no acidente das Mangabeiras, tão sórdido que dispensava comentários, mas, calados, olhando um para o outro, ficávamos a lembrá-lo com íntima revolta. Quanta miséria, meu Deus!
Há mais de um ano meu amigo se foi. Magoado com a vida e com os homens. Magro, quase de vidro.
Lembro-me quando, doente e ofendido, ele me telefonou do Recife: “Oscar, manda alguém me buscar!” Atendi-o, hospedando-o no Hotel Miramar, perto do escritório, onde todas as manhãs o apanhava. E Cardozo passava o dia inteiro entre nós, com a memória mais fraca, mas ainda sorrindo; contando histórias do Recife, do Bar Gambrino, do velho meretrício, onde gostava de passear, explicando: “Só para ver o colorido…”
À noite, eu o levava de volta e muitas vezes jantava com ele, no quarto do hotel, pesaroso de deixá-lo sozinho.
Era um homem sensível e solitário que a mim se apegou como quem encontra e não quer perder o seu derradeiro amigo. Sentado na sala de desenho, Cardozo acompanhava o movimento do escritório, e se alguém insistia a conversar comigo, ele não se continha, e, como fez com Júlio Niskier, levava-o pelo braço dizendo: “Já conversou muito. Agora, deixa o Oscar trabalhar.”
Mas a doença seguia seu curso inexorável e, como sua permanência no hotel se tornasse impossível, levei-o para a Casa de Saúde Eiras, no setor de cirurgia, do meu irmão Paulo.
Era um quarto grande, com três janelas abrindo sobre o jardim. A princípio, Cardozo parecia se adaptar naquele ambiente tranqüilo e confortante. Comentava a beleza do parque, as mangueiras carregadas, os passarinhos que cantavam à volta da janela, o Dr. Metre que com ele conversava diariamente. Mas as condições de saúde se agravavam, os doentes do quarto vizinho e até os que eventualmente o procuravam, começaram a irritá-lo. E a volta para a Casa de Saúde se tornou cada vez mais difícil. Lembro-me da noite em que se deitou no chão, recusando-se a entrar. Vieram os médicos e Cardozo dizia: “Vou me afogar”. Delicado, um dos médicos ponderou: “Dr. Cardozo, aqui não tem água”. E Cardozo, que não perdia ocasião de esclarecer um problema técnico, esqueceu a briga, comentando: “Cava que encontra”. Dois meses depois, a direção da Casa de Saúde, como ocorrera no Hotel Miramar, insistia para que eu o internasse na seção de psiquiatria.
Triste mundo…Onde estavam os amigos, devedores de tanto apoio e atenção? Junto dele, acompanhando-o nos seus desesperos, éramos cinco ou seis no máximo.
Fretei um avião e Cardozo, acompanhado de seu médico, seguiu para o Recife. Onde, pouco depois, faleceu num hospital da cidade.
Consolava-me a certeza de o ter sempre atendido de coração aberto, e o diálogo que tive certa vez em Brasília com o Prefeito Paulo de Tarso assumiu para mim outra dimensão.
“Dr. Niemeyer, vou nomear uma comissão de alto nível para examinar o cálculo do Joaquim Cardozo para o Tribunal de Contas.” E a minha resposta: “Cardozo é um velho amigo. Se o Sr. fizer isso, saio da Prefeitura agora.”

Transcrito do Jornal do Brasil, 12-07-1981

 

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Testemunhos de fé

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Testemunhos de fé
Por Conceição Freitas

 
Cento e trinta homens, um pouco mais, um pouco menos, ocuparam o silêncio, feriram o cerrado e abriram a clareira onde Brasília começaria a surgir. Muitos deles eram goianos das redondezas, homens que viviam em estado de isolamento amazônico. Alguns não tinham registro de nascimento. Tudo o que sabiam de si mesmos era o apelido e o prenome da mãe. Foram alojados em lonas do Exército, num clarão aberto na Candangolândia, entre outubro e dezembro de 1956.
O homem que faria o pagamento do salário desses primeiros bravos candangos saiu do Rio de Janeiro em 1º. de dezembro de 1956 à frente de um comboio de dez caminhões da Fábrica Nacional de Motores (FNM), a lendária Fenemê. A caravana conduzia a estrutura metálica do primeiro galpão que abrigaria a sede da Companhia Urbanizadora da Nova Capital, a Novacap. Viagem de 10 dias, por estradas pedregosas que agravaram a colite e maltrataram tanto a coluna cervical do baiano Lauro França Duarte D’Oliveira que ele teve ímpetos de abandonar a tarefa no meio do caminho e voltar para o Rio de Janeiro.
Tinha 24 anos o novo auxiliar administrativo da Novacap, o primeiro encarregado da folha de pagamento dos bravos candangos. Dez dias depois de deixar a beira do mar, Lauro chegou a Goiânia, onde um Bernardo Sayão impaciente o esperava. “Podem ir pra Brasília, podem ir!”, ordenou à exausta caravana de homens e máquinas. Na mesma toada, seguiram até Luziânia, onde a pensão do Juca da Ponte os esperava, e de lá desceram para o que já havia de Brasília: mais ou menos 130 barracas de lona, um pequeno galpão da Novacap e um outro para o restaurante do Saps (Serviço de Alimentação da Previdência Social), ao qual estava anexado um cômodo que servia de consultório e moradia do médico Edson Porto, o primeiro a chegar.
 
Avenida lunar
 
O engenheiro Bernardo Sayão e quatro funcionários da Novacap administravam o inicio das obras da nova capital. Pudesse ser visto do céu, parecia o acampamento de uma expedição a um deserto verde. Era tão vasto o horizonte e tão largo o silêncio que Lauro França jamais se esqueceu do que viu nas primeiras noites na futura capital. Do galpão onde dormia, ele podia admirar ao longe as luzes semoventes de uma avenida lunar. Eram os caminhões trabalhando na terraplenagem da pista do aeroporto. Os faróis acesos, trafegando em linha reta de um lado e de outro, davam a impressão de uma espetacular pista aberta pouco abaixo do céu, muito acima do chão.
Quando começou a fazer as folhas de pagamento dos operários, Lauro França passou por dois apuros. Um deles, o de muitos goianos não terem documentos pessoais, e o outro, o de ter de lidar com a falta de vocação burocrática de Bernardo Sayão. Logo após a liberação de um dos primeiros salários, ele reclamou: “Mas, Lauro, estou com 60 homens trabalhando em Saia Velha (a usina) e eles ainda não receberam o pagamento!”. Ao que o funcionário respondeu: “Mas, doutor Sayão, eu não sabia desses operários”. Foi quando caiu a ficha: “Ih, me esqueci de te avisar. Passe lá em casa amanhã às seis da manhã pra tomar café comigo e de lá a gente vai na usina resolver isso”.
Aquele foi só o primeiro café com Bernardo Sayão. Pouco tempo depois, Lauro França conseguiu uma carona com o engenheiro na sua viagem de inspeção às obras da rodovia Belém-Brasília. França tem parentes em Belém do Pará e pretendia visitá-los. O DC-3 que os levava fazia o percurso em baixa altitude, para que Sayão pudesse acompanhar o avanço de uma das duas frentes de trabalho, a que saiu de Anápolis. “A gente passava tão rente às arvores e a mata era tão embrenhada que eu pensava: se o avião pifar, não vai sobra nem alma”. No caminho, França foi entendendo como os homens estavam enfrentando a selva amazônica. As frentes de trabalho abriam as picadas, e, a cada trecho, uma clareira, onde acampavam e para onde o helicóptero jogava mantimentos e remédios.
 
Boa-fé
 
Admirador torrencial de Bernardo Sayão, Lauro França diz que ele tinha fé no ser humano. Conta, por exemplo, que se ele precisasse mandar um bilhete para alguém, numa época em que o telefone celular era equipamento de ficção cientifica, pedia licença a quem estivesse a seu lado e usava as costas do cidadão para escrever um bilhete em folha de papel de cigarro, se recurso melhor não houvesse. E pedia para um mensageiro levar a correspondência ao destinatário.
Sayão acreditava na boa-fé dos homens, mas não era exatamente bonzinho. França se lembra de ter visto o engenheiro receber cartas de recomendação de políticos em geral e de vê-las ir para a lata do lixo tão logo o interessado se afastava. Tinha muito pouca paciência com o tráfico de influência. Quando começaram a chegar os muitos pedidos de emprego na Rodobrás, a empresa que construiu a Belém-Brasília, Bernardo Sayão sugeriu que se espalhasse o boato de que os índios estavam atacando e comendo os funcionários da empresa nos escritórios próximos às obras. Sugeria isso e ria.
(…)
 
Transcrito do Correio Braziliense, 23 de janeiro de 2010.

 

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Os Pecados do Velho Bispo

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Os Pecados do Velho Bispo
Por Clemente Luz

No ar da manhã, a voz de Inezita e os versos de Catulo acordam a paisagem. “Não há, ó gente, ó não!…” A melodia vem do rádio, flutua, ondulante, sobre as casas, entra pelas janelas dos edifícios em fase final de construção e se perde nas águas do lago, que alcançam, devagar, a cota mil…

Velho Catulo, grande Inezita, vocês dois, reunidos no mesmo sentimento largo da canção, com o mesmo manto da melodia e do poema, a cidade que nasce e os homens que marcham, através dos quadrantes, para o grande encontro.

E, para o encontro prometido e projetado, no coração do mapa e da terra, os veículos nacionais transportam homens do povo, governadores de Estado, senadores e deputados, chefes de empresas, padres e bispos…

Velho Catulo, grande Inezita, irmanados na mesma cera do disco, nós, com humildade, ouvimos, no ar da manhã ou no ar rarefeito da tarde, na cidade ou na floresta recém-aberta em estrada, a beleza da mensagem:

“Não há, ó gente,
ó, não!
luar como este
do sertão…”

Melodia e luar, que quebram protocolo, vencem obstáculos e fazem o coração do velho bispo pulsar com o ímpeto da juventude…

Comovente mesmo, na marcha das Colunas de Integração, foi a coragem do Bispo de Guamá, velhinho de cabelos totalmente brancos, que não teve medo de enfrentar a viagem, a mais longa e mais difícil: a da Brasília-Belém, estrada recém-aberta, ainda não concluída e sujeita a todos os perigos e tropeços.

O velho bispo, tomado de entusiasmo jovem, jogou para um lado, como inútil, o peso dos anos, e abandonou, por alguns dias, por desnecessária e impraticável, toda uma série de hábitos e ordens, para praticar, sem peias e sem constrangimento, todos os atos permissíveis a um bispo e a um velho, em tais circunstâncias…

Assim é que, enfrentando o frio da mata, vestido com o moderno “short” que lhe foi emprestado por um jornalista, participou, todas as tardes, do banho coletivo nas águas dos rios por onde passou a caravana norte.

A sabedoria e a idade lhe deram aos lábios um permanente sorriso, cheio de benevolência e de paciência.

Quando, no banho coletivo, os companheiros amenizavam o frio das águas e do meio ambiente com boas talagadas de aguardente ou uísque, o velhinho se esquivava dos copos, enquanto o corpo agüentava. Por fim, pedindo perdão pelo pecado enorme, aceitava meio cálice da preciosa bebida escocesa ou da nossa popular “pinga”… Sorridente e rejuvenescido, imergia, em seguida, o corpo velho e cansado nas águas renovadas e recém-conquistadas da floresta milenar.

Quando jornalistas, homens de empresa ou políticos, reunidos pelo espírito de irreverência, aproveitavam os últimos raios de sol para contar piadas, alguns picantes, o velhinho espetava o dedo no ar e dizia, entre um sorriso e a aparência de zanga, como que concordando, sem concordar de todo:

– Meus filhos, isso é pecado…

A verdade é que, após os primeiros dias da viagem, a oração, antes solitária, do Bispo de Guamá, era acompanhada, com devoção, por uns, com compreensão, por outros, e com respeito absoluto, por todos.

O velho Príncipe da Igreja, de coração jovem, era um companheiro impressionante, sábio e imprevisto.

Foi, talvez, a grande figura da extensa e desconfortável marcha.

Transcrito do livro “Invenção da cidade”, de Clemente Luz.

 

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João Coragem

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João Coragem
Por Conceição Freitas

Fundação é uma palavra forte e João Batista Pereira dos Santos faz jus a ela. Na construção civil, fundação é a base firme sobre a qual o edifício se sustenta.

É ela que liga o prédio à terra, é a travessia da natureza à civilização.

Um dos homens que fizeram a fundação de algumas das mais importantes obras de Brasília mora, há mais de 50 anos, numa casa da Quadra 12 de Sobradinho, ao lado das serras da Chapada de Contagem.

Piauiense, 85 anos, 1,60m, 14 filhos, dos quais 13 estão vivos, o bravo candango escavou o chão vermelho de Brasília em busca da terra firme para suportar o peso de uma cidade.

A baixa estatura ajudou-o a cavar, com picareta e enxada, o solo da nova capital, mas só ela era insuficiente. Foi preciso muita coragem e um certo distanciamento do medo da morte. “A gente morre de qualquer jeito”. Sozinho, seu João roeu a terra de onde aflora a Torre de Tevê, uma das duas únicas obras arquitetônicas de Lúcio Costa em Brasília. De short, botina e uma lâmpada acoplada à testa, seu João sulcava a terra, enchia o balde, dava um puxão na corda, o operário lá de cima retirava o barro e o lá de baixo seguia afundando o solo até encontrar condições e profundidade seguras para sustentar as 370 toneladas de ferro da Torre.

“Cavei 35 metros, fiz o bolo de barro, mandei lá pra cima, o engenheiro mandou a terra para o Rio de Janeiro e voltou dizendo que era preciso afundar mais.

Cheguei a 41,60 metros. A Torre tem tudo isso de fundura”, diz seu João. Foi a empreitada mais trabalhosa, embora as outras não tenham sido nada fáceis. Seu João fez a fundação do 28 (como era conhecido o Congresso Nacional), da galeria que ele diz que existe entre o Congresso e o Palácio do Planalto, da Rodoviária, do Tribunal de Contas da União, das passagens subterrâneas do Eixão Sul.

“Cavei quase tudo o que existe do Hotel Nacional até bater no Hospital de Base”.

Seu João era funcionário da Estaca Franca, empresa responsável por muitas das obras de fundação de Brasília.

Trabalho árduo

Antes de se transformar num bravo candango, seu João havia sido um bravo garimpeiro. Trouxe do garimpo a experiência de cavar túneis de dezenas de metros de extensão para a extração de minério. “Tem vez que você entra e, quando pensa que não, uma jaracuçu está perto de você. Com uma mão, você oferece o candeeiro pra ela e com a outra você vai no escuro até pegar ela por trás. Aí você grita pelo sócio e ele vem com a marreta e mata, bota na caixona de pau e leva lá pra cima”. Seu João faz os gestos de quem, vagarosamente, encanta a cobra com a luz e ao mesmo tempo tenta dominá-la com a outra mão. Mais arguto e rápido que ela, ele venceu muitas dessas (e outras) pelejas de vida ou morte.

Depois da construção de Brasília, trabalhou mais 42 anos de carteira assinada (“me enganaram”). Foi funcionário da Novacap por 38 anos. À noite, nos fins de semana, feriados e férias. Seu João trabalhou por conta própria: fez mais de 300 fundações e lajes em Sobradinho, segundo suas contas. A mulher, dona Zilda, 75 anos, ajudou-o a construir a casa onde moram, o que só foi possível depois de 30 anos de trabalho. “Peneirei areia, carreguei massa, carreguei tábua na cabeça pra fazer o escoramento da laje”, lembra-se dona Zilda, senhorinha agitada e sorridente que até hoje cuida da casa de cinco quartos e dez camas onde, nos finais de semana, se reúnem muitos dos 13 filhos, 36 netos e 24 bisnetos.

Família que começou há 59 anos, quando João Bonitinho se engraçou por uma garota que a mãe achava meio doidinha, Zilda. Vendo a menina maltratada, ele a pediu em casamento. Ela tinha 14 anos e ele, 24. Casaram-se no religioso e tiveram três filhos até que João decidiu vir para Brasília atrás da prometida prosperidade. O operário que cavava a terra para os palácios chegou aqui em 1957 e logo se arranjou na Vila Amaury, mais tarde engolida pelo Lago Paranoá. Todo mês, mandava um pouco do salário para a mulher, menos da metade do que ganhava. Até que um dia, Zilda tomou uma decisão.

Carta estratégica

Fazia mais de mês que João Bonitinho não mandava notícias para a mulher grávida e os dois filhos que haviam ficado em Monte Alegre. Em 11 de abril de 1960, nasceu Almir. Zilda ficou mais preocupada ainda, temia que algo tivesse acontecido ao marido. Os boatos que chegaram ao sertão do Nordeste eram de que ia haver muita briga em Brasília entre os que queriam a mudança da capital e os que queriam continuar no Rio de Janeiro. “Diziam que a capital só mudaria se corresse sangue de mocotó”.

O silêncio prolongado do marido aumentou a apreensão de Zilda. Ela então mandou uma carta dizendo que estava muito doente, morre-não-morre. Mesmo assim, nenhum sinal de Bonitinho. “Ele não vem me buscar mais não”. Então decidiu: “Vou vender tudo e vou pra lá”. Foi o que fez.

Todos os dias as mulheres iam para o cruzeiro à entrada da cidade esperar a chegada dos paus-de-arara da cidade esperar a chegada dos paus-de-arara trazendo encomendas dos maridos. Num desses dias, uma delas reconheceu João Bonitinho de longe e correu para avisar Zilda que o marido estava chegando. Quando viu que a mulher já estava pronta para vir para Brasília com as três crianças, seu João reagiu: “Minha velha, você é doida. Você enlouqueceu de vez. Lá em Brasília não é lugar de mulher”. Ela não recuou: “Não quero nem saber. Você já está velho, eu sou jovem e bonita. Você não quer me levar por causa dos homens”. João estava enredado: “Então,vamos. Mas você vai se arrepender”. Zilda não teve medo: “Se eu me arrepender, não vou me queixar com ninguém, só de mim mesma”.

Casaram-se no civil e vieram. Dona Zilda não demorou a pagar a língua:

“Quando cheguei, me arrependi na hora. Era frio demais. Caía gelo. Quando a chuva vinha lá na serra, eu já estava dentro de casa. Juntava os três meninos e tremia em cima de uma cama”. O bebê estava com três meses, quando veio mais uma novidade: “Peguei bucho do primeiro pioneiro de Brasília”. Depois do Jair, viriam outros nove, todos brasilienses. Ao todo, tiveram 14 filhos: Adauto, Zenilda, Almir, José, Nilta, Paulo, Neide, Luzineide, Antonio, Jair, Mariluce, Roberto, Luciano e Luzinete, que morreu ano passado.

Quando chegou a Brasília, em 1960, Zilda foi trabalhar de empregada doméstica. Nunca havia visto um fogão a gás nem uma panela de pressão. “Um dia, a mulher mandou eu olhar a panela de pressão. Quando ela apitar, você desliga o fogo”. Quando começaram os apitos, Zilda não sabia o que fazer. Pegou o cabo de rolo e de longe com muito cuidado empurrou a panela para longe do fogo. Passou o restante da manhã, com os seus três filhos e os dois da patroa, olhando a panela de longe, temendo que algo ainda pudesse acontecer. Ela conta e ri. Zilda adora rir.

João e Zilda são dois bravos candangos que criaram 13 filhos na terra prometida. “Nunca nenhuma polícia bateu na minha porta. Todos os filhos homens tem o segundo grau. Hoje, me acho maravilhosa”, diz Zilda ao lado do velho João, hoje cansado, mas ainda vaidoso.

De chapéu, camisa de linho de manga comprida, calça de vinco e coragem que nunca acaba. “Dei um duro danado, mas pra mim foi bom”, ele diz, com uma sombra de dúvida. O bravo candango trabalhou demais para salário (e aposentadoria) de menos.

Transcrito do jornal “Correio Braziliense” 19 de dezembro de 2009.

 

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Em defesa dos buritis

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Em defesa dos buritis
Por Antonio Miranda
 
“Se algum dia a civilização ganhar essa paragem longínqua, talvez uma grande cidade se levante na campina extensa que te serve de sóco, velho Buriti Perdido”
Afonso Arinos

Um curioso livro foi lançado em 1958 sobre Brasília, a futura capital do Brasil. O livro, ao contrário de tantos outros que estavam sendo lançados nos anos que precederam à construção e à inauguração da Novacap, não versava sobre as suas origens históricas, tampouco sobre os homens que a idealizaram, nem sobre os seus atributos geofísicos e muito menos sobre sua arquitetura e urbanismo.

O livro em questão celebrava o buritizeiro!

Em edição aprimorada, em papel “cuchê” e com ilustrações primorosas, tinha o título um tanto paradoxal de “Brasília e o Buritiseiro”, com “s” mesmo. Paradoxal porque Brasília ainda era um vir-a-ser e o buritizeiro não constituía – e ainda não se constitui – em recurso econômico significativo para transformar-se em objeto de estudo e para merecer uma publicação até luxuosa como a que mereceu.

O autor – Francisco Manoel Brandão, revelou-se um apaixonado dessa singular palmeira nacional. Ele pesquisou a presença da palmeira (e do buritizeiro em particular) nas mais variadas disciplinas e atividades humanas, extraindo os seus aspectos etimológicos, botânicos, históricos, bíblicos, literários e o seu aproveitamento econômico, além de seu valor social e cultural.

De acordo com as pesquisas de Brandão, a origem da denominação dessa palmeira tão freqüente na paisagem primitiva dos cerrados brasilienses e, sobretudo, na região Norte do Brasil, é, inegavelmente, nheengatu ou tupi e o seu significado seria “palmeira de muita água” (cujo significado tanto vale por si mesmo quanto pelo meio que habita).

“Vários aspectos da vida dessa palmeira se relacionam efetivamente com a água, já porque do seu espique, bem como dos seus espádices, antes de desabrochar as flores, promane uma espécie de seiva ou líquido adocicado, já por habitar, de preferência, as aguadas, os lugares baixos, úmidos ou pantanosos, razão por que chamam-na também “palmeira do brejo”.

O buritizeiro é, destarte, enaltecido por suas virtudes alimentares, por sua utilidade na construção (principalmente na cobertura das moradias humildes), pelo uso no artesanato indígena e caboclo, por sua aparição na etnografia e no folclore.

“O buriti, como verificamos, tem uma grande vida a contar. Vida que começa na estória, na infra história dos povos, e termina na história, nos laboratórios, na terminologia técnica e cientifica da Botânica e da Ciência da Nutrição, transferindo-se ainda para os ambientes solenes e austeros dos Tribunais, da Justiça e do Direito”.

Caberia ressaltar o buritizeiro (Mauritia Vinifera de Martius) em território brasiliense. Brandão investiga a existência da palmeira do buriti em nossa geografia e em nossa história.

“Quando pisamos o território de Brasília, logo nos seus primeiros dias, tivemos as nossas vistas voltadas para os buritisais que aqui e ali vicejam como herança abençoada de que durante séculos vigiou as regiões do Planalto”.

Recorda, com prazer, a homenagem que se lhe fazia no Núcleo Bandeirante, ao denominar-se “Hotel Buriti” um dos primeiros alojamentos populares da então “cidade livre” em seu alvorecer.

“Decorridos 15 meses de nossa estada ali, tivemos conhecimento de séria contrariedade do Presidente Juscelino Kubitschek a propósito de uma ornamentação comemorativa que se fizera, em sua honra e louvor, com palmas de buriti.

É que no dia 26 de outubro de 1957 oferecera-se um lanche, no Palácio da Alvorada, em regozijo por mais um lance das obras, o qual se atingia naquela ocasião com a retirada das formas da estrutura de cimento armado do referido edifício.

Foi nessa oportunidade que o Presidente lavrou seu protesto contra aquela ornamentação que custara a mutilação de tão preciosa palmeira. E proibiu terminantemente a repetição do fato”.

O que vale realmente registrar é a revelação que Francisco Brandão faz da pendência em torno da Missão Cruls, por ele descoberta em conversa com o Dr. Carlos Alberto Quadros, Secretário-chefe do gabinete do Presidente da Novacap e cônsul geral honorário da República de El Salvador em Brasília.

Segundo o informante, tratava-se de uma demanda movida contra a Fazenda Nacional, ou melhor, de uma ação judicial contra danos causados à fazenda onde acamparam os integrantes da expedição comandada por Luís Cruls. Os proprietários entraram na justiça devido à ação presumivelmente predatória de elementos da citada Comissão.

“Nessa demanda pede-se e obtém-se indenização decorrente não só da turbação de posse e negócio, da cessão de lucros, como das perdas e danos ocasionados com a queima dos campos em época imprópria e a derribada de capões e dos Buritis”.

Tratar-se-ia, segundo o testemunho, de forma inconteste e até simbólica de que se reveste, do primeiro ato público de defesa da natureza no solo brasiliense, já em tempos tão remotos. O protesto fora inicialmente feito pela imprensa goiana (O Estado de Goyaz, 1897), logo através de cartório, na cidade de Formosa, subscrito por vários negociantes da cidade, proprietários da fazenda Bananal, localizada nos municípios de Mestre D’Armas e Santa Luzia, por onde andara os integrantes da Missão Cruls.

“Em dias do mez de Novembro do anno passado, entrando naquella fazenda a Comissão de Estudos da Nova Capital da União, alli foi por ella escolhido o local para o acampamento da mesma, o qual ficou estabelecido com a construcção de diversos ranchos, alguns com caráter de casa, indicando assim uma estada não provisória”, alegam os acusadores em documento reproduzido no livro de Brandão.

Os proprietários protestam contra a posse ilegal de suas terras, privando-lhes do uso das mesmas para a trata de gado e para aluguel a fazendeiros, assim como contra a depredação havida.

“Outrossim, essa fazenda, que é situada em uma chapada onde não existem mattas e sim pequenos capões, cabeceiras e vertentes servidas de burithys o estrago tornou-se conhecido, já quanto aos pequenos mattos e já quanto a essas palmeiras, devastadas em quazi sua totalidade, cuja utilidade não é ignorada por quem comprou e estima aquelles terrenos”.

Estimaram o prejuízo em dois contos de réis por cada mês que a Comissão permaneceu ilegalmente na propriedade. A União, decorrido um ano de ocupação das terras, não reconhecia qualquer direito de reclamação aos proprietários.

Uma certidão de 14 de janeiro de 1928, transcrevendo registros anteriores, foi elaborada pelo Cartório de Registros e Títulos e Documentos, da capital do Estado de São Paulo, e dá noticia do desenlace da questão, isto é, a condenação da União, obrigada a pagar uma quantia determinada por lei a Lobo & Irmão, demandantes, a título de “indenização por danos causados na fazenda Bananal, situada no município de Planaltina, pela Comissão Cruls”.

A carta de sentença, vinda do Supremo Tribunal Federal para execução, fora proferida pelo juiz federal de Goiás, em cuja documentação fica patente que os membros da Comissão Cruls se apropriaram das benfeitorias da fazenda, desmataram as poucas madeiras existentes, incluindo os “buritizaes, cujas folhas empregavam na cobertura de ranchos e que foram (…) na sua quase totalidade destruídas pelo pessoal encarregado de cortá-los e que para poupar trabalho abatiam os troncos de buriti, com grande danno para as vertentes d’água que elles protegiam e alimentavam”.

Estabelece ainda que, nos vinte e seis meses de acampamento, a Comissão efetuou queimadas em estações impróprias.

A Comissão julgou-se, inicialmente, inocente da invasão e da apropriação, seja invocando o dispositivo constitucional de reserva de 14.400km2 de terra para a nova Capital, seja alegando que os proprietários não apresentaram títulos de posse. A Comissão estaria executando um serviço de interesse geral, teria feito benfeitorias em vez de depredação, etc.

Impôs-se uma vistoria no local. Constatou-se o ocorrido. A União foi então, obrigada a pagar aos proprietários, pelo aluguel das propriedades e das benfeitorias, pela destruição dos pastos e buritizeiros, pelos juros devidos ao tempo decorrido, a quantia de 13 contos e setecentos mil réis, sendo dois contos relativos aos “dannos causados aos buritizais da fazenda Bananal pela Comissão de Estudo da Nova Capital da União”. A sentença foi proclamada em 5 de novembro de 1898, a intimação feita a 17 de agosto de 1899.

Mas a história se repete, na opinião de Francisco Manoel Brandão:

“Os fatos ocorridos ao tempo da Missão Luís Cruls tiveram como teatro a mesma zona onde agora, em nome não sabemos de que finalidade ou atividade agrícola ou industrial, vem sendo posto abaixo vários buritizais.

É o que está acontecendo e o que se pode ver nas proximidades da Fazenda do Torto e na lagoa do “Jaburu”, caminho do “Palácio da Alvorada”.

Próximo à sede daquela Fazenda vive ainda um Buriti, que, por se achar isolado dos demais, é chamado “Buriti Sozinho”.

Reconhece o autor da obra que a Novacap possui policia florestal mas apelava para que o mesmo espírito de defesa do meio-ambiente natural da região fosse encarnado então, como em tempos de Luís Cruls o fora, cujas autoridades foram obrigadas a responsabilizar-se pela obra devastadora de seus comandados…

“Uma coisa apenas desejamos que aconteça: quando a policia tiver, por esse fato, que responsabilizar alguém, que responsabilize o mandante desse atentado e não o desgraçado trabalhador que foi obrigado a cumprir uma ordem absurda dessa natureza”.
 

Transcrito do livro “Brasília: capital da utopia”, de Antonio Miranda – Editora Thesaurus.

 

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