As ninfas da construção

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Por Ana Miranda

Muitos dos escritores naturalistas do século 19 se debruçaram sobre a figura da prostituta, como Zola, Tolstói ou Dostoiévski. Matizaram e dramatizaram moças quase sempre arrastadas do campo para os becos sujos da cidade, empurradas pela miséria. Também nossa literatura se ocupou de personagens desse mundo assombroso, desde Lucíola, de José de Alencar, em que Lúcia é a mulher que “na perdição conserva a pureza d’alma”. Essas mulheres foram o antídoto ao culto da donzela, e a tolerância a sua atividade se baseou na crença de uma espécie de “proteção” às famílias. Em todos os eldorados, corridas de ouro, campos de trabalho ou locais de homens carecentes, elas estiveram ali aos bandos.

No tempo da construção de Brasília, foram atraídas para aquele canteiro de obras repleto de homens, muito deles jovens e solteiros, ou distantes de suas esposas. É possível se pensar que, se não fossem essas mulheres, a historia da construção da cidade teria sido bem mais violenta; elas eram um alívio para a virilidade dos construtores. Faziam parte dos segredos da cidade. Lembro que, quando se dizia as palavras sete quedas, as mocinhas ficavam coradas de pudor. Havia um bordel com esse nome.

Mais o mais famoso era o Veneza, que contava com um quadro de mulheres selecionadas entre as melhores em Minas, São Paulo, Rio, duas lindas cubanas e francesas. Havia uma decoração esmerada, com cortinados, luzes ardilosas, babados, flores, estátuas nos cantos do “salão de baile”. As moças usavam batom forte, vestido longo com decote arrojado, sapato alto, cabelo arrumado no salão de beleza. Não podiam repetir a roupa, deviam usar meias finas e estar sempre limpas. Umas andavam de charrete com cavalo branco, a saia rodada aberta sobre o assento.

As mais bonitas e jovens eram as mais caras. Ficava uma tabela de preços na porta do quarto; o dinheiro das mulheres era dado a elas, e o de casa, deixado na copa. Mas antes elas tinham de fazer sala, dançar, levar os homens a beber para dar mais lucro à casa. Ali iam políticos, engenheiros, os homens mais abastados, consta que até Juscelino frequentava o lugar, enquanto os seguranças ficavam esperando do lado de fora.

No inicio, os candangos iam para Luziânia ou Formosa buscar diversão sexual, mas dava “falha de serviço”, e a muito custo convenceram Israel Pinheiro a permitir um cabaré mais perto, na Cidade Livre, adiante do trilho do trem de ferro. Uma casa de tábuas, um quarto pequeno com cama e uma mesinha. Assim que recebiam o salário no fim de semana, peões, candangos, soldados tomavam banho, mas uns iam mesmo cheirando a suor. Um caminhão os despejava na frente do bordel, eles faziam fila na porta, encostados um no outro para não perder a vez, meio rindo, meio sem graça.
Uma prostituta contou que “passavam por cima” dela uns 80 homens num dia. Elas recebiam uma pomada para desinchar as partes, e eventualmente um descanso de uns minutos para se refazerem. Cada ato custava 30 cruzeiros: 15 para a chave, 15 para a mulher, que era descontada em cinco do álcool, sabonete e uso do banheiro.

Não tinham vida fácil essas moças. Se uma delas saía na rua, as de família chamavam a policia e elas eram presas. Se a GEB chegava, as menores de idade se escondiam debaixo da cama para não serem levadas. E quando acharam que não devia mais haver aquele bordel, um juiz deu ordem de fechar, um trator derrubou o barracão, e as mulheres foram mandadas de caminhão para Alexânia, Luziânia, ou largadas na estrada. Umas se saíram bem, casaram, compraram casas, mas a maioria continuou numa vida de pobreza e dificuldades.

As prostitutas do tempo da construção de Brasília ficaram esquecidas pela história, o que deu o titulo do filme de Denise Caputo, “A saga das candangas invisíveis”, em que ouvimos o depoimento de alguma delas, Yone, Auda ou Noeme Luís, com seus rostos maltratados, uma dose de amargura, traços de uma antiga beleza e um certo orgulho daquelas lembranças, sabendo-se tão pioneiras com outro qualquer.

Texto transcrito do Correio Brazilense, 22 de fevereiro de 2015.

Quando eu era menina em Brasília

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Por Ana Miranda

O meu amigo poeta disse que não gostava do hotel vermelho que fica perto do Palácio da Alvorada. Fiquei pensando nisso…Sempre fico pensando nas coisas que o poeta fala sobre Brasília, porque além de poeta ele é alguém que realmente conhece e ama a cidade. Mas ele não gosta do hotel porque é vermelho. E o que eu mais gosto naquele hotel é que ele é vermelho.

Claro, sei bem, de gustis ET coloribus non est disputand. Mas imagino aquele vermelho como o vermelho da terra de Brasília se levantando do chão, aquele vermelho das valas, das trilhas, dos rodamoinhos, vermelho da poeira, vermelho dos nossos lençóis e sobrancelhas, quando eu era menina em Brasília as minhas sobrancelhas e os travesseiros viviam vermelhos de poeira. Vermelho também das caliandras vermelhas que nascem absolutas no cerrado. Vermelho do sangue dos candangos derramado na construção da cidade e vermelho do coração do poeta que ama Brasília…vermelho da alvorada.

Mas ele também não gosta que o hotel fique tão perto do palácio, invadindo seus jardins e tirando a intimidade dos moradores. Bem, o palácio sempre foi aberto, já dizia o John dos Passos, “é um prédio singularmente belo feito de vidro e concreto branco. Flutua com tanta leveza quanto um bando de cisnes no lago de águas claras. As divisões internas também são de vidro. Perguntei-me onde, com aquelas paredes de vidro, o pobre presidente poderia encontrar um lugar para trocar de roupa ou escrever uma carta”. Presidente não tem intimidade possível, a transparência e uns bons postos de observação serão sempre o olho do povo tomando conta de quem toma conta do povo.

O autor do projeto do hotel vermelho é Ruy Ohtake, arquiteto que tinha intimidade com Oscar Niemeyer, uma amizade grande e antiga. Eles se viam todos os anos, em data marcada. Punham os assuntos em dia. Oscar gostava das obras do Ruy, e deve ter aprovado de coração e ideologia a cor vermelha do hotel. Ruy é o arquiteto das cores, seus edifícios são azuis, verdes, roxos, róseos, palhas douradas…Ele tem mesmo um dos mais bonitos projetos de arquitetura que conheço, falando de arquitetura social. Um dia ele disse numa entrevista que Heliópolis era um lugar feio. E foi desafiado por líderes comunitários dali a tornar o lugar bonito. Heliópolis era um bairro pobre nos arredores de São Paulo, com todos aqueles problemas de bairros pobres e casas muito precárias, com fachadas sem reboco.

O arquiteto conversou com os moradores, e soube que queriam reboco e pintura nas fachadas das suas casas. Ruy desenhou a rua, casa a casa, num papel e apresentou uma cartela de tonalidades. Cada morador escolheu uma cor, ou várias cores. Com o patrocínio de uma fábrica de tintas, que também deu curso de pintura de parede a moradores desempregados, a pintura foi executada. E o resultado, surpreendente, alegre, maravilhoso, transformou a comunidade, mesmo interiormente.

Além disso, foi feito um projeto de arte e educação, construíram uma biblioteca, um cineminha, uma galeria de exposições, um centro de aperfeiçoamento profissional…Mas o que importa, agora, é a cor. Um morador disse: “Para mim o azul era azul e pronto, mas agora conheço tantos azuis diferentes…” O que leva a pensar, depois dessa disputa entre prosa e poesia, que continuamos sem saber a diferença entre vermelhos e vermelhos…”

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 06/94/2014, sob o título “Vermelho em Brasília”

O império tapuia do cerrado

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Por Ana Miranda

O cerrado em quase todo o seu território foi povoado pelos índios jês, que eram tapuias, o que foi chamado por Paulo Bertran de “O império tapuia do cerrado”. Um império indígena. Bela a imagem com que Bertran homenageia os índios do cerrado, porque império, além do território governado por um imperador, significa estado muito importante ou vasto, de caráter mesclado. “Império sólido, rústico, incomunicável à língua-geral e aos modos comuns mais flexíveis…”

Tapuia foi o nome dado pelos índios que falavam tupi-guarani aos que se expressavam em outras línguas. Se falavam uma língua diferente, também os costumes eram diferentes, como o de morar em casas cavadas na terra e não naqueles casarões de palha. Os jês eram povos errantes, savaneiros, guerreiros bravios, caçadores, caceteiros, hábeis em quebrar crânios humanos. Avessos ao contato com o branco, com quem lutaram por longo tempo. Muitos são os nomes de famílias, grupos, tribos, etnias. Akwen, avá-canoeiro, tenetehara. Goiases, quirixás ou crixás do Planalto, régulos matadores, acroás. Carabás. Havia tapirapés nas margens do rio Tocantins e guajajaras e aricobés que eram ilhas tupis. Acoroaçus. Açus, xacriabás. Caiapós, xavantes, xerentes. Araés, abaixo do rio das Mortes. Os temidos canoeiros, e os apinagés que são timbiras ocidentais, e orientais os krahós. Os preguiçosos capepuxis no Araguaia e os arauaquis ou aroaquis e bilreiros. Javaés, xambioás…Bareris. Os carajás, carajaúnas, carajapitanguás, “moles e patifes”, dizia um capitão-mor. Xacriabás removidos. Cayapós de mossâmedes, gorotires, gradahus…Caiapós eram “o mais bárbaro e indômito de quantos produziu a América.”

Os goiases, ou goiazes, ou goyazes, que deram o nome a Goiás, eram comedores de caranguejos, goiá é caranguejo em tupi, diz Bertran. Da palavra Goiás derivam goianazes, goitacazes e talvez cataguazes. Dos goiazes derivam goianos e alguma gente de Brasília, com olhos puxados. Quem tem um espelho? Os goyazes eram bonitos, de pele clara, acolhedores, de trato ameno. Interessante, diz Bertran, no século 18 ocorriam casamentos de brancos com gente da terra, gentios, ou índios, quase não havia mulheres brancas e aconteciam esses casamentos, mesmo de senhores com índias, que davam ensejo à adesão da tribo aos interesses senhoriais, alguns senhores passavam a ter, pelo casamento com uma índia, poder parental sobre a gente indígena, e usavam esse poder para conseguir escolta durante viagens, conhecimentos de caminhos e geografias, de remédios, de alimentos, proteção a suas fazendas, descobertas de ouro e minérios, pois, se o índio não usava o ouro em suas artes, com certeza sabia onde encontrá-lo brilhando à madre das águas e entre cascalhos e rochas.

Casar-se com uma índia, revelou Bertran, eram muitas vezes um motivo de dignidade. Aumentava o poder senhorial com um exercito de guerreiros não inimigos. E Bertran imaginou colonizadores solitários a namorar belíssimas índias, tornando-se cunhados de guerreiros e senhores da natureza, a buscar recursos e sobrevivência. Ele se lembra, mesmo, de um decreto real estimulando a povoação do território, ainda que fosse com filhos de colonos com índias. Crianças e adolescentes indígenas iam se criar em lares vilarengos. Rapazes iam para Portugal, e voltavam padres. Índias “lindas, ainda moças, muito claras e benfeitas” eram mandadas de presente. Alianças nupciais com bandeirantes. Noites inesquecíveis de amores. Os catequisados fingiam que trocavam de crença. Não mais reinavam.

Acabou-se o império dos tapuias. Foi uma grande perda que a historia não soube evitar. Uns grupos ficaram reduzidos a poucos sobreviventes, ou foram habitar em outras matas. Vencidos, aldeados. Morriam famintos, acossados, ou de doenças brancas. Os pacíficos eram escravizados. Os bravios eram mortos. Matanças por séculos. De uns 30 mil restaram uns 4 mil, em meio século, o 19. O cerrado perdeu o seu império vermelho. Ficou a terra vermelha. Ficaram rios vermelhos, serras douradas…A musica indígena é rica, variada, única e universal. A cerâmica, a arte das plumas, as cestas, os grafismos, os mitos, as lendas, o modo de conviver com a natureza, as ciências e magias… tudo rico, variado, único e universal. Tudo nosso. Um tesouro que faz muito mais falta do que o ouro levado.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 5 de maio de 2013.

Brasília, 300 anos

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Por Paloma Oliveto
 

Naqueles tempos, eixo se referia à peça que ligava as rodas do carro de boi. Tesourinhas havia às centenas, mas essas voavam pelo céu do cerrado. Plano era cenário pelo qual passaram tantos escravos, bandeirantes, garimpeiros e tropeiros, para quem Norte, Sul, Sudoeste e Noroeste significavam apenas pontos cardeais apontados pela bússola. Brasília, porém, já estava ali.

Que ninguém se deixe enganar pelas linhas arquitetônicas modernas e os prédios de concreto da cidade. O Brasil colonial está entranhado no DF e no seu entorno. Seja nos pilares do altar da Igreja de São Sebastião, em Planaltina, seja na cicatriz deixada pelo garimpo em um morro da região de Saia Velha, a 35 km da Esplanada dos Ministérios, por toda parte, existem marcas de um passado com quase 300 anos, há muito tempo sufocado pelo sonho da capital futurista.
Essa Brasília da qual poucos se lembram corria o risco de ficar engavetada no Rio de Janeiro. No Arquivo Central do Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (Iphan), há centenas de fotografias tiradas entre as décadas de 1940 e 1970 por arquitetos do órgão vinculado ao Ministério da Cultura. Não se sabe por que os técnicos visitaram a região e fizeram registros fotográficos das edificações, mas é certo que o trabalho realizado, mais de meio século atrás, constitui um rico acervo, agora disponível no Arquivo Público do Distrito Federal (ArPDF).

Em maio, os historiadores Wilson Vieira Júnior e Elias Manoel viajaram para o Rio de Janeiro com a missão de digitalizar o conjunto de fotos que contém imagens inéditas, como as da antiga Casa de Câmara e Cadeia de Luziânia, prédio do século 18 colocado ao chão na época da construção de Brasília. Até agora, só eram conhecidas fotografias da lateral do presídio colonial, erguido por volta de 1750, no então Arraial de Santa Luzia. Os pesquisadores resgataram, inclusive, a planta baixa do edifício de dois andares, que não tinha porta para evitar a fuga de presos: vereadores e detentos entravam por um alçapão, construído no teto, ao qual se tinha acesso por uma escada móvel.

Relíquias

A pista de que havia imagens raras do Planalto Central no Rio veio do diretor do Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central (IPEHBC) da PUC-Goiás, Antonio Cesar Caldas Pinheiro. Ele encontrou em um livro do Iphan a foto de uma parte do altar da igreja de Traíras, povoado que foi o centro da mineração goiana na primeira metade do século 18, mas, que, hoje, só restaram ruínas. “Fui ao Rio, e, no Iphan, disseram-me que tinha essa foto e outras imagens importantes de Goiás”, conta Pinheiro. Como costuma fazer parcerias de trabalho com a equipe de arquivistas e historiadores do DF, ele repassou a informação a Wilson, que entrou em contato com o Iphan. “Eles me mandaram uma listagem, e já vi que tinha muita coisa interessante”, relata Vieira Júnior, coordenador de Arquivo Histórico do ArPDF.

Em uma semana, os pesquisadores digitalizaram e trouxeram o farto material para Brasília. Há imagens referentes desde os três municípios que cederam território para a construção da capital – Luziânia, Formosa e Planaltina -, a localidades mais distantes, como Porangatú e Vila Bela da Santíssima Trindade, essa última localizada em Mato Grosso, mas com historia colonial interligada à da região onde hoje fica o DF. “Muitas cidades desconhecem essas fotos, que são relíquias de um tempo que não existe mais. Elas foram tiradas em uma época anterior a essa modernidade contagiante que marcou a época da construção de Brasília”, avalia Elias Manoel, gerente de Núcleo de Documentação Cartográfica e Iconográfica do Arquivo Público. Nas lentes dos arquitetos do Iphan, conservou-se uma cidade, que, nas décadas de 1950 e 1960, não interessava mais a população local, encantada pelo surto futurista da nova capital.

Importantes casarões e prédios públicos que existiam em vilas e fazendas desapropriadas para a construção de Brasília vieram abaixo no período da construção. Não por exigência da planta da nova cidade, mas porque prefeitos e moradores dos municípios vizinhos assim quiseram. Oficialmente, a Casa de Câmara e Cadeia de Luziânia virou pó para a abertura de uma estrada que conectaria a cidade goiana à BR-040, dando acesso ao DF. Contudo, Wilson tem outro palpite: “Acho que as cidades ao redor procuraram se adequar ao ideal de modernidade da capital e começaram a derrubar tudo”, diz. Elias Manoel concorda: “A população via aquilo como um processo natural: abandonar o arcaico para se associar ao moderno”.

Resgate histórico

As fotografias resgatadas pelo Arquivo Público do DF integram o projeto Documentos  Goyaz, iniciado há dois anos: “A proposta é dialogar a construção da capital com o passado de Goiás, tendo como foco documentos de Formosa, Luziânia e Planaltina”, explica Wilson Vieira Júnior, coordenador de Arquivo Histórico do ArPDF. “Nós buscamos toda documentação do século 18, 19 e até meados do século 20 de forma a fomentar a pesquisa e facilitar o acesso de pessoas interessadas”. Entre os mais de 100 mil tesouros resgatados pelos funcionários do ArPDF, há diários, registros paroquiais e de terra, inventários; mapas raros, como o da Capitania de Goyaz, de 1750, recortes de jornais e a Ata da Expedição Cruls.

O manuscrito, colocado dentro de uma cápsula de vidro e enterrado pelos desbravadores, foi encontrado no Rio de Janeiro. A equipe do ArPDF também localizou no Museu do Ipiranga, em São Paulo, documentação a respeito da pedra fundamental, inaugurada em Planaltina, em 7 de setembro de 1922.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 1 de setembro de 2013.

Brasília já foi terra espanhola

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Por Ana Miranda

Parece que a ideia de mudar a capital do Brasil para o interior é mais antiga do que se pensa. Consta que Capistrano de Abreu, nosso historiador e minucioso pesquisador de papéis velhos, num relato verbal mencionou que a primeira pessoa que teve a ideia foi certo senhor italiano, Francesco Tosi Colombina. Tosi veio para o Planalto Central em 1749, para desenhar mapas. Ele era um cartógrafo genovês e engenheiro militar, que trabalhava para a Coroa portuguesa. Os mapas, possivelmente realizados por ordem direta do marquês de Pombal, faziam parte de um plano do Tratado de Madri, a ser assinado um ano depois, 1750. A ordem era registrar o povoamento da área que pertencia à Espanha, pelo antiguíssimo Tratado de Tordesilhas, e que estava ocupada por colonos portugueses, e por índios – que nem eram considerados nesses tratados. Metade do Planalto Central pertencia à Espanha, ora vejam só, Brasília já foi terra espanhola! Ao menos nas abstratas leis, porque de fato pertencia aos índios e a alguns colonos com seus braços peludos e sua virilidade colonizadora lusitana.

Tosi já conhecia o Brasil, tinha andado pelo sul no comando de uma expedição, pelos Campos Gerais do Paraná, em 1734, apresentando depois um plano de ocupação das terras dos índios Guayanã, para mineração de ouro. Ele percorreu o Planalto Central, acompanhado de um ouvidor da capitania de Goiás; foram do interior de São Paulo até Vila Boa de Goiás: Vila Boa, ou Goiás Velho, onde muitos anos depois ia nascer a querida Cora Coralina, ah que saudades de sua poesia! No lombo de mula, numa viagem que sabemos como era árdua, Tosi foi até a outrora opulenta e cheia de ouro vila de Natividade, levantando uma Carta da Capitania de Goiás e Mato Grosso, mapa esse que foi entregue ao governador e capitão-general da capitania que era o conde dos Arcos.
Mas Tosi tinha sonhos arrojados. Conhecendo o território, tratou de conseguir licença para abrir uma estrada de carros, indo de São Paulo até as minas de Cuiabá, passando por Goiás. Ele teria o privilégio dos rendimentos da estrada por 10 anos, e ia receber uma sesmaria a cada três léguas ao longo da estrada. Seu plano foi aprovado em dezembro de 1750, mas ele não conseguiu organizar uma companhia para abrir a estrada, e a regalia caducou. Mas sempre fica alguma coisa boa, e no caso de Tosi, ficaram os valiosos mapas, assim como três desenhos de locais em Vila Boa: o largo do Rosário, com a casa do general e a igreja da Lapa; a praça do Jardim, com a rua Direita e a igreja do Rosário; e o centro da vila, com o rio Vermelho, a bela serra Dourada ao fundo.
Pombal não ouviu a opinião de Tosi, um pioneiro no conceito de interiorização do Brasil, e ouvindo a si mesmo resolveu mudar a capital da Bahia para o Rio de Janeiro, para onde depois se transferiu a Corte. Fico imaginando se a capital tivesse ido para o Planalto Central já nos meados do século 18. Brasília teria sido talvez construída com o ouro e o diamantes de Minas, em torno de uma igreja barroca, uma praça no centro, ruas estreitas, solares enfileirados, depois teria um palácio para o imperador, grandes edifícios para as artes e ciências, um jardim botânico com palmeiras imperiais, o sonho da Missão Francesa, condes, marqueses…Ia ser parecida com Diamantina, onde nasceu o JK.

Transcrito do Correio Braziliense, 30/06/2013, sob o título “Capistrano de Abreu em Brasília”.

Uma cidade como por encanto

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Por Joaquim Cardozo

A cidade de Brasília foi construída praticamente em três anos e meio. A história da sua construção não foi ainda examinada em todos os seus detalhes, não somente naqueles que se referem aos materiais de diversas naturezas que nela foram usados, mas também nos que dizem respeito às tentativas e incertezas que surgiram no seu inicio, dadas as circunstâncias que provieram da sua situação em lugar deserto, a muitos quilômetros de distância dos centros tecnicamente organizados.

As primeiras obras construídas, em estrutura metálica e em concreto armado, respectivamente, foram o Brasília Palace Hotel e o Palácio da Alvorada. Cidade, como dissemos, erguida em pleno deserto, a estrutura do hotel foi transportada com extrema dificuldade; do mesmo modo, nada se sabia, para a construção em concreto armado, dos locais de existência de material inerte (pedra e areia), indispensável a este tipo de construção. Aos poucos foram sendo encontradas algumas minas de areia e de seixos rolados (quartzitos), que são ainda hoje as fontes deste material em todos os trabalhos.

O desenvolvimento atual da cidade, que atinge presentemente bom nível no setor da construção civil, continua baseado na areia de mina e no seixo rolado de quartzito, tornando-se, porém, mais fácil a aquisição do aço e do cimento, em virtude das boas estradas asfaltadas posteriormente construídas; nos primeiros anos da formação da cidade, estes últimos materiais (aço e cimento) eram transportados, trabalhosamente, sobre caminhões por estradas em precaríssimo estado de conservação.

Foi na base desse concreto construído por um material inerte anteriormente desconhecido, mas cuidadosamente examinado e qualificado em institutos de pesquisas tecnológicas, que se construíram os grandes vãos com vigamento e pilares de uma esbeltez extrema, para isso usando-se, é verdade, cimento e ferro de superior qualidade, conseguindo-se desse modo as taxas de trabalhos necessários.

Brasília foi construída em três anos e meio, repito, a partir de novembro de 1956, inicio das fundações do hotel e do Palácio da Alvorada, até 21 de abril de 1960, data em que foi inaugurada, com todo o centro cívico construído: Palácio do Governo, Palácio da Justiça, Parlamento, edifícios dos Ministérios, além da Catedral, estação rodoviária, do edifício da Imprensa Oficial, Museu da Cidade, das escolas médias e escolas-parques etc., como também, evidentemente, inúmeras vias, além da Praça dos Três Poderes, tinham naquela data o seu asfaltamento concluído, cumprindo, porém, assinalar que os edifícios dos Ministérios são de estruturas metálicas, importadas dos Estados Unidos.

Os materiais usados nos revestimentos foram os mais variados, em grande parte de origem ou de construção brasileira: as cerâmicas, os mármores (que revestem os pilares do Alvorada, Palácio do Governo etc), os azulejos que revestem várias paredes dos edifícios são todos brasileiros, como brasileiros são em grande parte os vidros, os ferros das esquadrias, a madeira dos móveis etc. Não somente o arquiteto Oscar Niemeyer, como o presidente da República na época, Sr. Juscelino Kubitschek, se empenharam para que Brasília fosse uma obra que representasse a expressão e cultura brasileiras não somente na sua arquitetura – que revela uma forma moderna e original, de nenhuma influência estrangeira, pelo contrário, trazendo no conjunto dos estilos modernos uma designação especial como o “estilo de Brasília” -, não somente na arquitetura, dissemos, como também nos materiais usados, de criação brasileira, que possibilitaram esse estilo novo; brise-soleil de fibra-concreto, granitos de variados tipos, combogós (material para formar paredes ajourées, que é um sistema de vedação intermediário entre a parede completamente fechada e aberturas semifechadas com brise-soleil); as próprias madeiras que não são genuinamente brasileiras como “fórmicas” são pelo menos de fabricação em São Paulo.

Brasília oferece assim um exemplo de uma cidade nova, de uma cidade construída de súbito, como por encanto, uma cidade, portanto, que não começou em torno de um burgo ou castelo feudal ou de uma catedral, ou, ainda, de uma praça de mercado; em torno de um pouso de peregrinação ou de um rush para a conquista do ouro etc. Surgiu no deserto, pelos meios únicos e modernos adequados ao seu surgimento. Surgiu, se expandiu, se desenvolveu das margens das pistas de um aeroporto, porque foram estas as primeiras obras reais da sua origem, as razões do seu milagre.

Além disso, o arquiteto Lucio Costa, encarregado da sua urbanização, procurou nela utilizar tudo o que era então apenas teoricamente conhecido como possível para o bom funcionamento de uma cidade de acordo com as necessidades modernas, orientadas as suas ruas de modo a evitar cruzamentos perigosos, alcançando assim os trevos nos cruzamentos o pleno êxito que agora se constata. O arquiteto Oscar Niemeyer e sua equipe procuram formar um conjunto de edifícios fugindo à monotonia de fachadas sempre iguais e repetidas; basta olhar-se para as formas apresentadas no Palácio da Alvorada, no do Planalto, no Congresso, na Catedral, no Teatro, no Museu etc., para se ter a sensação de uma cidade-museu, em que cada peça vale por si e comunica uma sensação diferente ao visitante.

A construção da barragem sobre o Paranoá se fazia quase que como um trabalho à parte, mas obedecendo a cuidadosa investigação do terreno em que repousa, e, hoje, o lago artificial é um dos encantos da cidade; o lago, como toda a cidade, é um prolongamento das pistas do aeroporto, cabeça de Brasília, que representa a síntese das possibilidades brasileiras no campo da tecnologia e da cultura.

A parte correspondente às estruturas de concreto armado, utilizadas para manter o equilíbrio desses edifícios de Brasília, oferece aspectos novos. A cúpula correspondente ao Senado, no Parlamento, é um paraboloide de revolução apoiado sobre as vigas da grande plataforma da cobertura; a que corresponde, no mesmo edifício, à Câmara dos Deputados é um conjunto constituído – enumerando-se de baixo para cima – de uma casca limitada pela superfície de uma zona de elipsoide de revolução, abaixo do equador; tangente a esta primeira está uma segunda, limitada pela superfície de um tronco de cone invertido; no ponto de tangência das duas, para sustentar o forro do plenário da Câmara, insere-se uma terceira casca limitada por uma calota esférica. Não só a que tem a forma de uma zona de elipsoide como a de calota esférica ofereceram várias dificuldades, sendo que esta última, extremamente rebaixada (relação flexa/corda de 1/14), foi calculada pela fórmula de Gravina para este tipo de casca.

A estrutura da Catedral é constituída de seis elementos de forma estranhíssima, são verdadeiros arcobotantes, não mais escorando uma abóbada, mas escorando-se entre si: têm, ao rés do chão, um anel de tração, e, na junção que fazem, ao alto, um anel de compressão que fica escondido dentro dos próprios elementos construtivos da estrutura. Estes arcobotantes sustentam ao alto uma laje de cobertura de forma circular com 16 metros de diâmetro, assim como sustentarão lateralmente grande esquadria de vidros; a forma da catedral está teoricamente envolvida por uma série de superfícies tangentes: tronco de cone, zona de pseudoesfera, duas zonas de toro (internas), e, na parte mais alta, uma zona de hiperboloide de uma folha, e de revolução.

Todos os outros edifícios – Palácio da Alvorada, Palácio do Planalto e mais recentemente o “Palácio dos Arcos” (Itamaraty de Brasília) – ofereceram dificuldades não pequenas na constituição estrutural.

A cidade de Brasília foi, assim, a obra de um grupo de homens de boa vontade, desde o presidente da República até o candango, servente de pedreiro.

Texto, sem data, publicado no livro “Poesia Completa e Prosa” (2007), pela Editora Nova Aguilar e Fundação Joaquim Nabuco.

Transcrito da Revista “O Pioneiro” (abril de 2013), sob o título “A Construção de Brasília: Uma cidade como por encanto”.

Menina na inauguração

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Por Ana Miranda
 
21 de abril de 1960 era o grande dia, esperado, sonhado. A cidade ia ficar pronta. Eu não duvidava,  meu pai não duvidava. Ninguém duvidava, e meu pai ria quando lia num jornal que alguém duvidava. Gente besta. Gente invejosa. Era simplesmente natural que ficasse pronta, como uma árvore cresce e fica pronta. Já estava quase pronta. Já está pronta! Foram anos vendo as matas derrubadas, a água enchendo o lago, esqueletos de prédios, de um dia para o outro, mudando o nosso caminho, valas se abrindo, fechando, ruas se abrindo, sendo asfaltadas, piche na sola do sapato, lojas novas, uma confeitaria, palácios, escolas novas, novas casas, a água jorrando nas torneiras, a luz acendia, cada dia uma nova família morando na quadra, crianças novas na escola. Você é de onde? Sou de Araguari. Sou de Patos. Sou de Uberlândia. Sou de Quixadá. Sou do Rio. Tudo aparecia naturalmente. Aquilo era o mundo, o mundo era assim. Vai ter uma festa.

Agora os ensaios na escola. Ao som de uma banda, ensaiávamos o desfile, marchando com nossos pezinhos frágeis, indecisos, mas estávamos orgulhosos. A festa era nossa. Em casa, mamãe preparava o uniforme de gala. Fomos à plissadeira, para marcar as pregas no tecido das saias novas, a máquina de plissar soltava fumaça, fazendo um barulho de sopros, e lá estava mamãe à máquina de costura, pregando cós, fazendo bainha, comprimento abaixo dos joelhos, alfinetando, vamos  fazer a bainha da saia, ponto atrás, um aqui, um ali, mamãe cortando e costurando as blusas. Provas dos uniformes. Compramos meias e sapatos novos. Doíam nos pés. Ouvíamos, e corríamos para ver os aviões ensaiando no céu. A cidade se enchia de carros, ônibus, caminhões. Era mais difícil atravessar a W3, sempre tão vazia. Agora precisava esperar. Esperar. Cuidado para atravessar a rua!

As lembranças de uma criança, eu tinha então oito anos, são difusas, misturadas, feita de relampejos. Na escola veio um fotografo a tirar chapas de cada aluno, para um diploma de testemunha da inauguração. As tranças cortadas…Lembro Juscelino na frente do palácio do Planalto, bem distante, pequenino, ladeado por outras pessoas, as duas mocinhas filhas dele, eu até sabia o nome delas, Márcia e Maristela, que lindas! O pai fazendo um discurso na frente de todo mundo. Lembro soldados desfilando, de roupas estampadas, com bandeiras, cachorros. Tratores no asfalto. Os jatos no céu finalmente se apresentando, soltando fumaça, voando baixo, mergulhando, parecia que iam cair, será? O nosso desfile, meu coração batendo forte, concentrada para não errar o passo, segurando uma bandeira, os tempos fortes dos tambores. E o sol da liberdade em raios fúlgidos…

Onde está mamãe? Um homem de cartola, que chapéu mais engraçado, parecia um mágico de livro. Uísque caindo dentro de um copo cheio de gelo, mamãe de sapatos altos, sim, as mulheres eram elegantes, iam assistir a uma festa de multidão em sapatos altos, o vestido justo nos quadris. Papai de terno, com a mão no peito, uma lágrima escorrendo pelo rosto. Tiros de canhão! Um homem via ser morto, meu Deus! Usa um vestido branco comprido e tem uma corda no pescoço, sei que é Tiradentes, um balé na frente das torres, entre as cuias iluminadas, um balé de gente pequenina, uma miniatura de balé, índios! Índios! a pluma na cabeça de um soldado, carros de corrida na rodoviária, um atropelamento, dizem que a moça ficou com os cabelos arrepiados, de arrepiar, Juscelino desce de um helicóptero, no meio do balé, o céu de noite iluminado por fogos, fumaça, que encanto! Fachos de luzes cruzando o céu, e um momento de magia, o momento mais nítido na memória, um longo instante, formando-se perto do horizonte as letras J e K, e o rosto de Juscelino! Numa chuva de estrelas. Como era possível fazerem aquilo? Deitada na cama, com sono, como era possível fazerem aquilo? Fazer a cidade.
 
Texto transcrito do Correio Braziliense, 07/10/2012.


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