As ninfas da construção

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Por Ana Miranda

Muitos dos escritores naturalistas do século 19 se debruçaram sobre a figura da prostituta, como Zola, Tolstói ou Dostoiévski. Matizaram e dramatizaram moças quase sempre arrastadas do campo para os becos sujos da cidade, empurradas pela miséria. Também nossa literatura se ocupou de personagens desse mundo assombroso, desde Lucíola, de José de Alencar, em que Lúcia é a mulher que “na perdição conserva a pureza d’alma”. Essas mulheres foram o antídoto ao culto da donzela, e a tolerância a sua atividade se baseou na crença de uma espécie de “proteção” às famílias. Em todos os eldorados, corridas de ouro, campos de trabalho ou locais de homens carecentes, elas estiveram ali aos bandos.

No tempo da construção de Brasília, foram atraídas para aquele canteiro de obras repleto de homens, muito deles jovens e solteiros, ou distantes de suas esposas. É possível se pensar que, se não fossem essas mulheres, a historia da construção da cidade teria sido bem mais violenta; elas eram um alívio para a virilidade dos construtores. Faziam parte dos segredos da cidade. Lembro que, quando se dizia as palavras sete quedas, as mocinhas ficavam coradas de pudor. Havia um bordel com esse nome.

Mais o mais famoso era o Veneza, que contava com um quadro de mulheres selecionadas entre as melhores em Minas, São Paulo, Rio, duas lindas cubanas e francesas. Havia uma decoração esmerada, com cortinados, luzes ardilosas, babados, flores, estátuas nos cantos do “salão de baile”. As moças usavam batom forte, vestido longo com decote arrojado, sapato alto, cabelo arrumado no salão de beleza. Não podiam repetir a roupa, deviam usar meias finas e estar sempre limpas. Umas andavam de charrete com cavalo branco, a saia rodada aberta sobre o assento.

As mais bonitas e jovens eram as mais caras. Ficava uma tabela de preços na porta do quarto; o dinheiro das mulheres era dado a elas, e o de casa, deixado na copa. Mas antes elas tinham de fazer sala, dançar, levar os homens a beber para dar mais lucro à casa. Ali iam políticos, engenheiros, os homens mais abastados, consta que até Juscelino frequentava o lugar, enquanto os seguranças ficavam esperando do lado de fora.

No inicio, os candangos iam para Luziânia ou Formosa buscar diversão sexual, mas dava “falha de serviço”, e a muito custo convenceram Israel Pinheiro a permitir um cabaré mais perto, na Cidade Livre, adiante do trilho do trem de ferro. Uma casa de tábuas, um quarto pequeno com cama e uma mesinha. Assim que recebiam o salário no fim de semana, peões, candangos, soldados tomavam banho, mas uns iam mesmo cheirando a suor. Um caminhão os despejava na frente do bordel, eles faziam fila na porta, encostados um no outro para não perder a vez, meio rindo, meio sem graça.
Uma prostituta contou que “passavam por cima” dela uns 80 homens num dia. Elas recebiam uma pomada para desinchar as partes, e eventualmente um descanso de uns minutos para se refazerem. Cada ato custava 30 cruzeiros: 15 para a chave, 15 para a mulher, que era descontada em cinco do álcool, sabonete e uso do banheiro.

Não tinham vida fácil essas moças. Se uma delas saía na rua, as de família chamavam a policia e elas eram presas. Se a GEB chegava, as menores de idade se escondiam debaixo da cama para não serem levadas. E quando acharam que não devia mais haver aquele bordel, um juiz deu ordem de fechar, um trator derrubou o barracão, e as mulheres foram mandadas de caminhão para Alexânia, Luziânia, ou largadas na estrada. Umas se saíram bem, casaram, compraram casas, mas a maioria continuou numa vida de pobreza e dificuldades.

As prostitutas do tempo da construção de Brasília ficaram esquecidas pela história, o que deu o titulo do filme de Denise Caputo, “A saga das candangas invisíveis”, em que ouvimos o depoimento de alguma delas, Yone, Auda ou Noeme Luís, com seus rostos maltratados, uma dose de amargura, traços de uma antiga beleza e um certo orgulho daquelas lembranças, sabendo-se tão pioneiras com outro qualquer.

Texto transcrito do Correio Brazilense, 22 de fevereiro de 2015.

Um aeroporto vermelho

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Por Ana Miranda

Naqueles fins dos anos 1950, íamos viajar para a sonhada Brasília. Era preciso fazer uma roupa de viagem, ter uma maleta de mão, comprar malas, capas, todo um enxoval. Tempo em que havia lirismo nas pequenas e grandes coisas. As passagens tinham sido adquiridas com muita antecedência, cada uma era um bloco de papel, as páginas preenchidas a mão, não podíamos esquecer de levar as passagens! E sentíamos uma ansiedade imensa, contávamos os dias, arrumando de um e outro jeito as malas para caber mais coisas, vou precisar disto, daquilo, a viagem era discutida, esperada, sonhada… Ainda mais uma viagem de mudança. Houve despedidas, lágrimas, promessas de cartas… Adeus, Rio de Janeiro! A viagem demorou uma eternidade, o avião parecia uma lata aparafusada, milagre que voasse uma coisa tão pesada, e o mundo lá embaixo, infinito, mares, nuvens e florestas e montanhas… A paisagem ia mudando, a mata ficando baixa, rala… Enfim, era o Planalto Central.

Lá estava a pista do aeroporto, ao lado o barracão de madeira, e terra vermelha. Pessoas acenavam à beira da pista. O avião pousou, fez a volta, encostou no terminal. Abriu-se a porta e senti o ar seco de Brasília. Descemos pela escada segurando firme no corrimão, com nossas frasqueirinhas, uma azul e uma rosa, nossas roupas costuradas para a ocasião, uma azul e uma rosa, saia e paletó, as duas meninas que se vestiam como gêmeas, e a mãe de saia justa, salto alto, segurando os cabelos ao vento, capa de viagem. Pisamos em Brasília. A pergunta, a sombra de um sonho, se tornava uma verdade feita de cimento, terra, gente. Sim, havia gente, meu pai não morava ali sozinho com o presidente e o doutro Inácio e uns lobos.

Logo vi meu pai, encostado na Rural Willys branca e vermelha, fumando, de chapéu de palha, seu carro estava estacionado perto da pista, entre jipes, Vemaguetes, um ônibus. Ele veio até nós, nos abraçamos e fomos buscar as malas, entregues dentro do terminal lotado de gente alegre e ruidosa. Era um aeroporto acolhedor, na nossa dimensão, onde as pessoas circulavam livremente, e já dava uma provinha da cidade: a construção de madeira, as grades horizontais de tábuas na fachada, para proteger do sol. Um aeroporto que pertencia ao passageiro. Logo entramos na Rural, e fomos aos trancos pela estrada de terra que nos levava à cidade. Naquele tempo a distância entre o aeroporto e a W3 parecia bem maior, a intensidade de sentimentos estendia o tempo.

Havia um antigo aeroporto, de terra batida e casa de taipa coberta de palha, chamado de Vera Cruz, quando ainda se iluminava a pista com faróis de jipes; e o segundo, provisório, com terminal de madeira e pista asfaltada. O aeroporto era muito importante para uma cidade com estradas difíceis, às vezes se demorava umas trinta horas só de Anápolis a Brasília, por terra. E chegavam levas e levas de visitantes ou moradores ou gente do governo que ainda vivia no Rio e vinha só para trabalhar.

O aeroporto era também lugar de passeio, o povo da cidade gostava de olhar os aviões pousarem e levantarem voo. Às vezes, as visitas eram anunciadas, esperadas, formavam-se pequenas multidões para receber alguma celebridade. Fomos, um grupo de estudantes em uniforme de gala, recepcionar Charles de Gaulle, homem grandão, meio desengonçado para um presidente. O aeroporto era movimentado, ali desceram e subiram muitos convidados, chamados para apoiar o sentimento mudancista: Fidel Castro, André Malraux, Golda Meir, o príncipe da Holanda, a duquesa de Kent, o presidente da Itália… E cineastas, diplomatas, jornalistas, congressistas, pioneiros, famílias de pioneiros, gente comum, meninas com frasqueirinhas, desciam e subiam Caravelles, Viscounts, aviões da Panair… Era o porto do nosso mar que era o céu. O presidente às vezes esperava pessoalmente algum convidado. Ele mesmo foi um dos maiores fregueses do aeroporto, desde os primeiros pousos e decolagens. Brasília era também destino de turismo para arquitetos, e curiosos em geral. Pessoas viajavam para conhecer o canteiro de obras mais famoso do mundo.

Dali para cá, o aeroporto mudou tanto quanto o mundo; não é mais bucólico, nem livre, é um lugar impessoal, imenso e pequeno, cheio de comercio, com excesso de gente. Somos levados aos portões, revistados e vigiados, exigem documentos e precisamos nos comportar como um rebanho. Ainda bem que temos os painéis de Athos Bulcão para nos confortar nas horas de espera, e um livro ou um encontro casual.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 1º de dezembro de 2013. Caderno “Diversão&Arte”

A revelação do cisne na concha acústica

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Por Ana Miranda

Tento desvendar minha memória: papai estaciona a Rural Willys ao lado de um monte de carros, é preciso atravessar a pé um mato baixo de cerrado para chegarmos à concha acústica, que ainda está em obras. Estava em obras? Mas era uma imensa concha de cimento com uma sutil madrepérola do luar, diante do espelho de prata das águas do Paranoá, o luar é uma lembrança de minha irmã. Sons da orquestra afinando os instrumentos…memória ou imaginação?

Muita, muita gente, mas conseguimos sentar, bem no alto. Talvez fosse maio, junho de 1960…A paisagem noturna era misteriosa, o fundo da cena era o próprio céu, a lua do cenário era a verdadeira Lua, o escuro era a noite, as luzes talvez fossem…estrelas. E o nome do balé evocava fantasias para as crianças que se achavam patinhos feios. O lago dos cisnes. Sei que assistimos ao Lago dos cisnes em Brasília, e minha irmã tem certeza de que foi na concha acústica. Eu lembro das bailarinas levíssimas, flutuando num chão imaginário e perdido. Então…

Surgem os cisnes, lindas cisnes fêmeas com seus braços que são asas, flexíveis, ondas, iguaizinhas, os tutus de tule franzido são plumas, a concha é lago, nadam, flutuam no meu sonho infantil. O príncipe precisa escolher uma esposa, quando vê os cisnes, e enfeitiçado pela beleza das aves vai caçá-las, o lago pertence ao mago do mal, que enfeitiçou a princesa. E surge a princesa encantada em cisne, mulher belíssima na pontinha dos pés. Salta, flutua, ondula, cai nos braços do príncipe.

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Quando eu era menina em Brasília

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Por Ana Miranda

O meu amigo poeta disse que não gostava do hotel vermelho que fica perto do Palácio da Alvorada. Fiquei pensando nisso…Sempre fico pensando nas coisas que o poeta fala sobre Brasília, porque além de poeta ele é alguém que realmente conhece e ama a cidade. Mas ele não gosta do hotel porque é vermelho. E o que eu mais gosto naquele hotel é que ele é vermelho.

Claro, sei bem, de gustis ET coloribus non est disputand. Mas imagino aquele vermelho como o vermelho da terra de Brasília se levantando do chão, aquele vermelho das valas, das trilhas, dos rodamoinhos, vermelho da poeira, vermelho dos nossos lençóis e sobrancelhas, quando eu era menina em Brasília as minhas sobrancelhas e os travesseiros viviam vermelhos de poeira. Vermelho também das caliandras vermelhas que nascem absolutas no cerrado. Vermelho do sangue dos candangos derramado na construção da cidade e vermelho do coração do poeta que ama Brasília…vermelho da alvorada.

Mas ele também não gosta que o hotel fique tão perto do palácio, invadindo seus jardins e tirando a intimidade dos moradores. Bem, o palácio sempre foi aberto, já dizia o John dos Passos, “é um prédio singularmente belo feito de vidro e concreto branco. Flutua com tanta leveza quanto um bando de cisnes no lago de águas claras. As divisões internas também são de vidro. Perguntei-me onde, com aquelas paredes de vidro, o pobre presidente poderia encontrar um lugar para trocar de roupa ou escrever uma carta”. Presidente não tem intimidade possível, a transparência e uns bons postos de observação serão sempre o olho do povo tomando conta de quem toma conta do povo.

O autor do projeto do hotel vermelho é Ruy Ohtake, arquiteto que tinha intimidade com Oscar Niemeyer, uma amizade grande e antiga. Eles se viam todos os anos, em data marcada. Punham os assuntos em dia. Oscar gostava das obras do Ruy, e deve ter aprovado de coração e ideologia a cor vermelha do hotel. Ruy é o arquiteto das cores, seus edifícios são azuis, verdes, roxos, róseos, palhas douradas…Ele tem mesmo um dos mais bonitos projetos de arquitetura que conheço, falando de arquitetura social. Um dia ele disse numa entrevista que Heliópolis era um lugar feio. E foi desafiado por líderes comunitários dali a tornar o lugar bonito. Heliópolis era um bairro pobre nos arredores de São Paulo, com todos aqueles problemas de bairros pobres e casas muito precárias, com fachadas sem reboco.

O arquiteto conversou com os moradores, e soube que queriam reboco e pintura nas fachadas das suas casas. Ruy desenhou a rua, casa a casa, num papel e apresentou uma cartela de tonalidades. Cada morador escolheu uma cor, ou várias cores. Com o patrocínio de uma fábrica de tintas, que também deu curso de pintura de parede a moradores desempregados, a pintura foi executada. E o resultado, surpreendente, alegre, maravilhoso, transformou a comunidade, mesmo interiormente.

Além disso, foi feito um projeto de arte e educação, construíram uma biblioteca, um cineminha, uma galeria de exposições, um centro de aperfeiçoamento profissional…Mas o que importa, agora, é a cor. Um morador disse: “Para mim o azul era azul e pronto, mas agora conheço tantos azuis diferentes…” O que leva a pensar, depois dessa disputa entre prosa e poesia, que continuamos sem saber a diferença entre vermelhos e vermelhos…”

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 06/94/2014, sob o título “Vermelho em Brasília”

O império tapuia do cerrado

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Por Ana Miranda

O cerrado em quase todo o seu território foi povoado pelos índios jês, que eram tapuias, o que foi chamado por Paulo Bertran de “O império tapuia do cerrado”. Um império indígena. Bela a imagem com que Bertran homenageia os índios do cerrado, porque império, além do território governado por um imperador, significa estado muito importante ou vasto, de caráter mesclado. “Império sólido, rústico, incomunicável à língua-geral e aos modos comuns mais flexíveis…”

Tapuia foi o nome dado pelos índios que falavam tupi-guarani aos que se expressavam em outras línguas. Se falavam uma língua diferente, também os costumes eram diferentes, como o de morar em casas cavadas na terra e não naqueles casarões de palha. Os jês eram povos errantes, savaneiros, guerreiros bravios, caçadores, caceteiros, hábeis em quebrar crânios humanos. Avessos ao contato com o branco, com quem lutaram por longo tempo. Muitos são os nomes de famílias, grupos, tribos, etnias. Akwen, avá-canoeiro, tenetehara. Goiases, quirixás ou crixás do Planalto, régulos matadores, acroás. Carabás. Havia tapirapés nas margens do rio Tocantins e guajajaras e aricobés que eram ilhas tupis. Acoroaçus. Açus, xacriabás. Caiapós, xavantes, xerentes. Araés, abaixo do rio das Mortes. Os temidos canoeiros, e os apinagés que são timbiras ocidentais, e orientais os krahós. Os preguiçosos capepuxis no Araguaia e os arauaquis ou aroaquis e bilreiros. Javaés, xambioás…Bareris. Os carajás, carajaúnas, carajapitanguás, “moles e patifes”, dizia um capitão-mor. Xacriabás removidos. Cayapós de mossâmedes, gorotires, gradahus…Caiapós eram “o mais bárbaro e indômito de quantos produziu a América.”

Os goiases, ou goiazes, ou goyazes, que deram o nome a Goiás, eram comedores de caranguejos, goiá é caranguejo em tupi, diz Bertran. Da palavra Goiás derivam goianazes, goitacazes e talvez cataguazes. Dos goiazes derivam goianos e alguma gente de Brasília, com olhos puxados. Quem tem um espelho? Os goyazes eram bonitos, de pele clara, acolhedores, de trato ameno. Interessante, diz Bertran, no século 18 ocorriam casamentos de brancos com gente da terra, gentios, ou índios, quase não havia mulheres brancas e aconteciam esses casamentos, mesmo de senhores com índias, que davam ensejo à adesão da tribo aos interesses senhoriais, alguns senhores passavam a ter, pelo casamento com uma índia, poder parental sobre a gente indígena, e usavam esse poder para conseguir escolta durante viagens, conhecimentos de caminhos e geografias, de remédios, de alimentos, proteção a suas fazendas, descobertas de ouro e minérios, pois, se o índio não usava o ouro em suas artes, com certeza sabia onde encontrá-lo brilhando à madre das águas e entre cascalhos e rochas.

Casar-se com uma índia, revelou Bertran, eram muitas vezes um motivo de dignidade. Aumentava o poder senhorial com um exercito de guerreiros não inimigos. E Bertran imaginou colonizadores solitários a namorar belíssimas índias, tornando-se cunhados de guerreiros e senhores da natureza, a buscar recursos e sobrevivência. Ele se lembra, mesmo, de um decreto real estimulando a povoação do território, ainda que fosse com filhos de colonos com índias. Crianças e adolescentes indígenas iam se criar em lares vilarengos. Rapazes iam para Portugal, e voltavam padres. Índias “lindas, ainda moças, muito claras e benfeitas” eram mandadas de presente. Alianças nupciais com bandeirantes. Noites inesquecíveis de amores. Os catequisados fingiam que trocavam de crença. Não mais reinavam.

Acabou-se o império dos tapuias. Foi uma grande perda que a historia não soube evitar. Uns grupos ficaram reduzidos a poucos sobreviventes, ou foram habitar em outras matas. Vencidos, aldeados. Morriam famintos, acossados, ou de doenças brancas. Os pacíficos eram escravizados. Os bravios eram mortos. Matanças por séculos. De uns 30 mil restaram uns 4 mil, em meio século, o 19. O cerrado perdeu o seu império vermelho. Ficou a terra vermelha. Ficaram rios vermelhos, serras douradas…A musica indígena é rica, variada, única e universal. A cerâmica, a arte das plumas, as cestas, os grafismos, os mitos, as lendas, o modo de conviver com a natureza, as ciências e magias… tudo rico, variado, único e universal. Tudo nosso. Um tesouro que faz muito mais falta do que o ouro levado.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 5 de maio de 2013.

Brasília, 300 anos

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Por Paloma Oliveto
 

Naqueles tempos, eixo se referia à peça que ligava as rodas do carro de boi. Tesourinhas havia às centenas, mas essas voavam pelo céu do cerrado. Plano era cenário pelo qual passaram tantos escravos, bandeirantes, garimpeiros e tropeiros, para quem Norte, Sul, Sudoeste e Noroeste significavam apenas pontos cardeais apontados pela bússola. Brasília, porém, já estava ali.

Que ninguém se deixe enganar pelas linhas arquitetônicas modernas e os prédios de concreto da cidade. O Brasil colonial está entranhado no DF e no seu entorno. Seja nos pilares do altar da Igreja de São Sebastião, em Planaltina, seja na cicatriz deixada pelo garimpo em um morro da região de Saia Velha, a 35 km da Esplanada dos Ministérios, por toda parte, existem marcas de um passado com quase 300 anos, há muito tempo sufocado pelo sonho da capital futurista.
Essa Brasília da qual poucos se lembram corria o risco de ficar engavetada no Rio de Janeiro. No Arquivo Central do Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (Iphan), há centenas de fotografias tiradas entre as décadas de 1940 e 1970 por arquitetos do órgão vinculado ao Ministério da Cultura. Não se sabe por que os técnicos visitaram a região e fizeram registros fotográficos das edificações, mas é certo que o trabalho realizado, mais de meio século atrás, constitui um rico acervo, agora disponível no Arquivo Público do Distrito Federal (ArPDF).

Em maio, os historiadores Wilson Vieira Júnior e Elias Manoel viajaram para o Rio de Janeiro com a missão de digitalizar o conjunto de fotos que contém imagens inéditas, como as da antiga Casa de Câmara e Cadeia de Luziânia, prédio do século 18 colocado ao chão na época da construção de Brasília. Até agora, só eram conhecidas fotografias da lateral do presídio colonial, erguido por volta de 1750, no então Arraial de Santa Luzia. Os pesquisadores resgataram, inclusive, a planta baixa do edifício de dois andares, que não tinha porta para evitar a fuga de presos: vereadores e detentos entravam por um alçapão, construído no teto, ao qual se tinha acesso por uma escada móvel.

Relíquias

A pista de que havia imagens raras do Planalto Central no Rio veio do diretor do Instituto de Pesquisas e Estudos Históricos do Brasil Central (IPEHBC) da PUC-Goiás, Antonio Cesar Caldas Pinheiro. Ele encontrou em um livro do Iphan a foto de uma parte do altar da igreja de Traíras, povoado que foi o centro da mineração goiana na primeira metade do século 18, mas, que, hoje, só restaram ruínas. “Fui ao Rio, e, no Iphan, disseram-me que tinha essa foto e outras imagens importantes de Goiás”, conta Pinheiro. Como costuma fazer parcerias de trabalho com a equipe de arquivistas e historiadores do DF, ele repassou a informação a Wilson, que entrou em contato com o Iphan. “Eles me mandaram uma listagem, e já vi que tinha muita coisa interessante”, relata Vieira Júnior, coordenador de Arquivo Histórico do ArPDF.

Em uma semana, os pesquisadores digitalizaram e trouxeram o farto material para Brasília. Há imagens referentes desde os três municípios que cederam território para a construção da capital – Luziânia, Formosa e Planaltina -, a localidades mais distantes, como Porangatú e Vila Bela da Santíssima Trindade, essa última localizada em Mato Grosso, mas com historia colonial interligada à da região onde hoje fica o DF. “Muitas cidades desconhecem essas fotos, que são relíquias de um tempo que não existe mais. Elas foram tiradas em uma época anterior a essa modernidade contagiante que marcou a época da construção de Brasília”, avalia Elias Manoel, gerente de Núcleo de Documentação Cartográfica e Iconográfica do Arquivo Público. Nas lentes dos arquitetos do Iphan, conservou-se uma cidade, que, nas décadas de 1950 e 1960, não interessava mais a população local, encantada pelo surto futurista da nova capital.

Importantes casarões e prédios públicos que existiam em vilas e fazendas desapropriadas para a construção de Brasília vieram abaixo no período da construção. Não por exigência da planta da nova cidade, mas porque prefeitos e moradores dos municípios vizinhos assim quiseram. Oficialmente, a Casa de Câmara e Cadeia de Luziânia virou pó para a abertura de uma estrada que conectaria a cidade goiana à BR-040, dando acesso ao DF. Contudo, Wilson tem outro palpite: “Acho que as cidades ao redor procuraram se adequar ao ideal de modernidade da capital e começaram a derrubar tudo”, diz. Elias Manoel concorda: “A população via aquilo como um processo natural: abandonar o arcaico para se associar ao moderno”.

Resgate histórico

As fotografias resgatadas pelo Arquivo Público do DF integram o projeto Documentos  Goyaz, iniciado há dois anos: “A proposta é dialogar a construção da capital com o passado de Goiás, tendo como foco documentos de Formosa, Luziânia e Planaltina”, explica Wilson Vieira Júnior, coordenador de Arquivo Histórico do ArPDF. “Nós buscamos toda documentação do século 18, 19 e até meados do século 20 de forma a fomentar a pesquisa e facilitar o acesso de pessoas interessadas”. Entre os mais de 100 mil tesouros resgatados pelos funcionários do ArPDF, há diários, registros paroquiais e de terra, inventários; mapas raros, como o da Capitania de Goyaz, de 1750, recortes de jornais e a Ata da Expedição Cruls.

O manuscrito, colocado dentro de uma cápsula de vidro e enterrado pelos desbravadores, foi encontrado no Rio de Janeiro. A equipe do ArPDF também localizou no Museu do Ipiranga, em São Paulo, documentação a respeito da pedra fundamental, inaugurada em Planaltina, em 7 de setembro de 1922.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 1 de setembro de 2013.

Brasília já foi terra espanhola

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Por Ana Miranda

Parece que a ideia de mudar a capital do Brasil para o interior é mais antiga do que se pensa. Consta que Capistrano de Abreu, nosso historiador e minucioso pesquisador de papéis velhos, num relato verbal mencionou que a primeira pessoa que teve a ideia foi certo senhor italiano, Francesco Tosi Colombina. Tosi veio para o Planalto Central em 1749, para desenhar mapas. Ele era um cartógrafo genovês e engenheiro militar, que trabalhava para a Coroa portuguesa. Os mapas, possivelmente realizados por ordem direta do marquês de Pombal, faziam parte de um plano do Tratado de Madri, a ser assinado um ano depois, 1750. A ordem era registrar o povoamento da área que pertencia à Espanha, pelo antiguíssimo Tratado de Tordesilhas, e que estava ocupada por colonos portugueses, e por índios – que nem eram considerados nesses tratados. Metade do Planalto Central pertencia à Espanha, ora vejam só, Brasília já foi terra espanhola! Ao menos nas abstratas leis, porque de fato pertencia aos índios e a alguns colonos com seus braços peludos e sua virilidade colonizadora lusitana.

Tosi já conhecia o Brasil, tinha andado pelo sul no comando de uma expedição, pelos Campos Gerais do Paraná, em 1734, apresentando depois um plano de ocupação das terras dos índios Guayanã, para mineração de ouro. Ele percorreu o Planalto Central, acompanhado de um ouvidor da capitania de Goiás; foram do interior de São Paulo até Vila Boa de Goiás: Vila Boa, ou Goiás Velho, onde muitos anos depois ia nascer a querida Cora Coralina, ah que saudades de sua poesia! No lombo de mula, numa viagem que sabemos como era árdua, Tosi foi até a outrora opulenta e cheia de ouro vila de Natividade, levantando uma Carta da Capitania de Goiás e Mato Grosso, mapa esse que foi entregue ao governador e capitão-general da capitania que era o conde dos Arcos.
Mas Tosi tinha sonhos arrojados. Conhecendo o território, tratou de conseguir licença para abrir uma estrada de carros, indo de São Paulo até as minas de Cuiabá, passando por Goiás. Ele teria o privilégio dos rendimentos da estrada por 10 anos, e ia receber uma sesmaria a cada três léguas ao longo da estrada. Seu plano foi aprovado em dezembro de 1750, mas ele não conseguiu organizar uma companhia para abrir a estrada, e a regalia caducou. Mas sempre fica alguma coisa boa, e no caso de Tosi, ficaram os valiosos mapas, assim como três desenhos de locais em Vila Boa: o largo do Rosário, com a casa do general e a igreja da Lapa; a praça do Jardim, com a rua Direita e a igreja do Rosário; e o centro da vila, com o rio Vermelho, a bela serra Dourada ao fundo.
Pombal não ouviu a opinião de Tosi, um pioneiro no conceito de interiorização do Brasil, e ouvindo a si mesmo resolveu mudar a capital da Bahia para o Rio de Janeiro, para onde depois se transferiu a Corte. Fico imaginando se a capital tivesse ido para o Planalto Central já nos meados do século 18. Brasília teria sido talvez construída com o ouro e o diamantes de Minas, em torno de uma igreja barroca, uma praça no centro, ruas estreitas, solares enfileirados, depois teria um palácio para o imperador, grandes edifícios para as artes e ciências, um jardim botânico com palmeiras imperiais, o sonho da Missão Francesa, condes, marqueses…Ia ser parecida com Diamantina, onde nasceu o JK.

Transcrito do Correio Braziliense, 30/06/2013, sob o título “Capistrano de Abreu em Brasília”.

Uma cidade como por encanto

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Por Joaquim Cardozo

A cidade de Brasília foi construída praticamente em três anos e meio. A história da sua construção não foi ainda examinada em todos os seus detalhes, não somente naqueles que se referem aos materiais de diversas naturezas que nela foram usados, mas também nos que dizem respeito às tentativas e incertezas que surgiram no seu inicio, dadas as circunstâncias que provieram da sua situação em lugar deserto, a muitos quilômetros de distância dos centros tecnicamente organizados.

As primeiras obras construídas, em estrutura metálica e em concreto armado, respectivamente, foram o Brasília Palace Hotel e o Palácio da Alvorada. Cidade, como dissemos, erguida em pleno deserto, a estrutura do hotel foi transportada com extrema dificuldade; do mesmo modo, nada se sabia, para a construção em concreto armado, dos locais de existência de material inerte (pedra e areia), indispensável a este tipo de construção. Aos poucos foram sendo encontradas algumas minas de areia e de seixos rolados (quartzitos), que são ainda hoje as fontes deste material em todos os trabalhos.

O desenvolvimento atual da cidade, que atinge presentemente bom nível no setor da construção civil, continua baseado na areia de mina e no seixo rolado de quartzito, tornando-se, porém, mais fácil a aquisição do aço e do cimento, em virtude das boas estradas asfaltadas posteriormente construídas; nos primeiros anos da formação da cidade, estes últimos materiais (aço e cimento) eram transportados, trabalhosamente, sobre caminhões por estradas em precaríssimo estado de conservação.

Foi na base desse concreto construído por um material inerte anteriormente desconhecido, mas cuidadosamente examinado e qualificado em institutos de pesquisas tecnológicas, que se construíram os grandes vãos com vigamento e pilares de uma esbeltez extrema, para isso usando-se, é verdade, cimento e ferro de superior qualidade, conseguindo-se desse modo as taxas de trabalhos necessários.

Brasília foi construída em três anos e meio, repito, a partir de novembro de 1956, inicio das fundações do hotel e do Palácio da Alvorada, até 21 de abril de 1960, data em que foi inaugurada, com todo o centro cívico construído: Palácio do Governo, Palácio da Justiça, Parlamento, edifícios dos Ministérios, além da Catedral, estação rodoviária, do edifício da Imprensa Oficial, Museu da Cidade, das escolas médias e escolas-parques etc., como também, evidentemente, inúmeras vias, além da Praça dos Três Poderes, tinham naquela data o seu asfaltamento concluído, cumprindo, porém, assinalar que os edifícios dos Ministérios são de estruturas metálicas, importadas dos Estados Unidos.

Os materiais usados nos revestimentos foram os mais variados, em grande parte de origem ou de construção brasileira: as cerâmicas, os mármores (que revestem os pilares do Alvorada, Palácio do Governo etc), os azulejos que revestem várias paredes dos edifícios são todos brasileiros, como brasileiros são em grande parte os vidros, os ferros das esquadrias, a madeira dos móveis etc. Não somente o arquiteto Oscar Niemeyer, como o presidente da República na época, Sr. Juscelino Kubitschek, se empenharam para que Brasília fosse uma obra que representasse a expressão e cultura brasileiras não somente na sua arquitetura – que revela uma forma moderna e original, de nenhuma influência estrangeira, pelo contrário, trazendo no conjunto dos estilos modernos uma designação especial como o “estilo de Brasília” -, não somente na arquitetura, dissemos, como também nos materiais usados, de criação brasileira, que possibilitaram esse estilo novo; brise-soleil de fibra-concreto, granitos de variados tipos, combogós (material para formar paredes ajourées, que é um sistema de vedação intermediário entre a parede completamente fechada e aberturas semifechadas com brise-soleil); as próprias madeiras que não são genuinamente brasileiras como “fórmicas” são pelo menos de fabricação em São Paulo.

Brasília oferece assim um exemplo de uma cidade nova, de uma cidade construída de súbito, como por encanto, uma cidade, portanto, que não começou em torno de um burgo ou castelo feudal ou de uma catedral, ou, ainda, de uma praça de mercado; em torno de um pouso de peregrinação ou de um rush para a conquista do ouro etc. Surgiu no deserto, pelos meios únicos e modernos adequados ao seu surgimento. Surgiu, se expandiu, se desenvolveu das margens das pistas de um aeroporto, porque foram estas as primeiras obras reais da sua origem, as razões do seu milagre.

Além disso, o arquiteto Lucio Costa, encarregado da sua urbanização, procurou nela utilizar tudo o que era então apenas teoricamente conhecido como possível para o bom funcionamento de uma cidade de acordo com as necessidades modernas, orientadas as suas ruas de modo a evitar cruzamentos perigosos, alcançando assim os trevos nos cruzamentos o pleno êxito que agora se constata. O arquiteto Oscar Niemeyer e sua equipe procuram formar um conjunto de edifícios fugindo à monotonia de fachadas sempre iguais e repetidas; basta olhar-se para as formas apresentadas no Palácio da Alvorada, no do Planalto, no Congresso, na Catedral, no Teatro, no Museu etc., para se ter a sensação de uma cidade-museu, em que cada peça vale por si e comunica uma sensação diferente ao visitante.

A construção da barragem sobre o Paranoá se fazia quase que como um trabalho à parte, mas obedecendo a cuidadosa investigação do terreno em que repousa, e, hoje, o lago artificial é um dos encantos da cidade; o lago, como toda a cidade, é um prolongamento das pistas do aeroporto, cabeça de Brasília, que representa a síntese das possibilidades brasileiras no campo da tecnologia e da cultura.

A parte correspondente às estruturas de concreto armado, utilizadas para manter o equilíbrio desses edifícios de Brasília, oferece aspectos novos. A cúpula correspondente ao Senado, no Parlamento, é um paraboloide de revolução apoiado sobre as vigas da grande plataforma da cobertura; a que corresponde, no mesmo edifício, à Câmara dos Deputados é um conjunto constituído – enumerando-se de baixo para cima – de uma casca limitada pela superfície de uma zona de elipsoide de revolução, abaixo do equador; tangente a esta primeira está uma segunda, limitada pela superfície de um tronco de cone invertido; no ponto de tangência das duas, para sustentar o forro do plenário da Câmara, insere-se uma terceira casca limitada por uma calota esférica. Não só a que tem a forma de uma zona de elipsoide como a de calota esférica ofereceram várias dificuldades, sendo que esta última, extremamente rebaixada (relação flexa/corda de 1/14), foi calculada pela fórmula de Gravina para este tipo de casca.

A estrutura da Catedral é constituída de seis elementos de forma estranhíssima, são verdadeiros arcobotantes, não mais escorando uma abóbada, mas escorando-se entre si: têm, ao rés do chão, um anel de tração, e, na junção que fazem, ao alto, um anel de compressão que fica escondido dentro dos próprios elementos construtivos da estrutura. Estes arcobotantes sustentam ao alto uma laje de cobertura de forma circular com 16 metros de diâmetro, assim como sustentarão lateralmente grande esquadria de vidros; a forma da catedral está teoricamente envolvida por uma série de superfícies tangentes: tronco de cone, zona de pseudoesfera, duas zonas de toro (internas), e, na parte mais alta, uma zona de hiperboloide de uma folha, e de revolução.

Todos os outros edifícios – Palácio da Alvorada, Palácio do Planalto e mais recentemente o “Palácio dos Arcos” (Itamaraty de Brasília) – ofereceram dificuldades não pequenas na constituição estrutural.

A cidade de Brasília foi, assim, a obra de um grupo de homens de boa vontade, desde o presidente da República até o candango, servente de pedreiro.

Texto, sem data, publicado no livro “Poesia Completa e Prosa” (2007), pela Editora Nova Aguilar e Fundação Joaquim Nabuco.

Transcrito da Revista “O Pioneiro” (abril de 2013), sob o título “A Construção de Brasília: Uma cidade como por encanto”.

Menina na inauguração

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Por Ana Miranda
 
21 de abril de 1960 era o grande dia, esperado, sonhado. A cidade ia ficar pronta. Eu não duvidava,  meu pai não duvidava. Ninguém duvidava, e meu pai ria quando lia num jornal que alguém duvidava. Gente besta. Gente invejosa. Era simplesmente natural que ficasse pronta, como uma árvore cresce e fica pronta. Já estava quase pronta. Já está pronta! Foram anos vendo as matas derrubadas, a água enchendo o lago, esqueletos de prédios, de um dia para o outro, mudando o nosso caminho, valas se abrindo, fechando, ruas se abrindo, sendo asfaltadas, piche na sola do sapato, lojas novas, uma confeitaria, palácios, escolas novas, novas casas, a água jorrando nas torneiras, a luz acendia, cada dia uma nova família morando na quadra, crianças novas na escola. Você é de onde? Sou de Araguari. Sou de Patos. Sou de Uberlândia. Sou de Quixadá. Sou do Rio. Tudo aparecia naturalmente. Aquilo era o mundo, o mundo era assim. Vai ter uma festa.

Agora os ensaios na escola. Ao som de uma banda, ensaiávamos o desfile, marchando com nossos pezinhos frágeis, indecisos, mas estávamos orgulhosos. A festa era nossa. Em casa, mamãe preparava o uniforme de gala. Fomos à plissadeira, para marcar as pregas no tecido das saias novas, a máquina de plissar soltava fumaça, fazendo um barulho de sopros, e lá estava mamãe à máquina de costura, pregando cós, fazendo bainha, comprimento abaixo dos joelhos, alfinetando, vamos  fazer a bainha da saia, ponto atrás, um aqui, um ali, mamãe cortando e costurando as blusas. Provas dos uniformes. Compramos meias e sapatos novos. Doíam nos pés. Ouvíamos, e corríamos para ver os aviões ensaiando no céu. A cidade se enchia de carros, ônibus, caminhões. Era mais difícil atravessar a W3, sempre tão vazia. Agora precisava esperar. Esperar. Cuidado para atravessar a rua!

As lembranças de uma criança, eu tinha então oito anos, são difusas, misturadas, feita de relampejos. Na escola veio um fotografo a tirar chapas de cada aluno, para um diploma de testemunha da inauguração. As tranças cortadas…Lembro Juscelino na frente do palácio do Planalto, bem distante, pequenino, ladeado por outras pessoas, as duas mocinhas filhas dele, eu até sabia o nome delas, Márcia e Maristela, que lindas! O pai fazendo um discurso na frente de todo mundo. Lembro soldados desfilando, de roupas estampadas, com bandeiras, cachorros. Tratores no asfalto. Os jatos no céu finalmente se apresentando, soltando fumaça, voando baixo, mergulhando, parecia que iam cair, será? O nosso desfile, meu coração batendo forte, concentrada para não errar o passo, segurando uma bandeira, os tempos fortes dos tambores. E o sol da liberdade em raios fúlgidos…

Onde está mamãe? Um homem de cartola, que chapéu mais engraçado, parecia um mágico de livro. Uísque caindo dentro de um copo cheio de gelo, mamãe de sapatos altos, sim, as mulheres eram elegantes, iam assistir a uma festa de multidão em sapatos altos, o vestido justo nos quadris. Papai de terno, com a mão no peito, uma lágrima escorrendo pelo rosto. Tiros de canhão! Um homem via ser morto, meu Deus! Usa um vestido branco comprido e tem uma corda no pescoço, sei que é Tiradentes, um balé na frente das torres, entre as cuias iluminadas, um balé de gente pequenina, uma miniatura de balé, índios! Índios! a pluma na cabeça de um soldado, carros de corrida na rodoviária, um atropelamento, dizem que a moça ficou com os cabelos arrepiados, de arrepiar, Juscelino desce de um helicóptero, no meio do balé, o céu de noite iluminado por fogos, fumaça, que encanto! Fachos de luzes cruzando o céu, e um momento de magia, o momento mais nítido na memória, um longo instante, formando-se perto do horizonte as letras J e K, e o rosto de Juscelino! Numa chuva de estrelas. Como era possível fazerem aquilo? Deitada na cama, com sono, como era possível fazerem aquilo? Fazer a cidade.
 
Texto transcrito do Correio Braziliense, 07/10/2012.

Como nascem os palácios

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Por Conceição Freitas

Quando Lucio Costa escreveu que o projeto do Plano Piloto surgiu praticamente pronto, deu a entender que o santo baixou e ele, num lampejo, criou a capital. Do mesmo modo, há a sensação de que Oscar Niemeyer, incorporado por uma entidade arquitetônica, projetou os palácios de Brasília num átimo de tempo criativo. Muito longe disso. Tanto o arquiteto quanto o urbanista gastaram muita ponta de lápis para transformar o vazio do papel em genial invenção. O próprio Niemeyer, ao descrever o processo de criação das obras da nova capital, não revela o quanto ele ralou, foi e voltou, voltou e foi, para criar alguns dos mais belos palácios da história da arquitetura moderna.

Para descobrir, afinal, quanta pestana o arquiteto queimou até chegar aos projetos finais dos quatro primeiros palácios de Brasília – o do Alvorada, o do Planalto, o do Supremo Tribunal Federal e o do Congresso Nacional – o também arquiteto Elcio Gomes da Silva produziu e defendeu, em abril passado, na Universidade de Brasília (UnB), uma tese de doutorado de 1.200 páginas. “Os palácios originais de Brasília” percorre as pegadas de Niemeyer, do engenheiro Joaquim Cardozo, das construtoras, dos fornecedores de material de construção, dos mestres de obra dos quatro palácios para reconstituir o ato mesmo da criação. Investiga também as mudanças ocorridas nas edificações desde então.

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Moravia em Brasília

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Moravia em Brasília
Por Ana Miranda

“Até que ponto Brasília se deixaria massacrar pela presença monumental do poder”

Moravia esteve em Brasília. Uma espécie de Rubem Fonseca italiano, escreveu romances amargos, pessimistas, sobre dissolução moral, sexo e violência, sempre numa linguagem crua e direta. Moravia era também um escritor-viajante. Já tinha publicado seu primeiro romance, “Os indiferentes,” quando foi contratado por um colega escritor para escrever no jornal italiano “La Stampa”. Isso foi em 1930. Moravia era um rapaz de 23 anos e ainda se chamava Alberto Pincherle. Perseguido pelo regime fascista, Pincherle mudou seu nome para Moravia e foi se refugiar em Londres. Aí, escreveu seus primeiros relatos de viagens, que ia publicando à medida que os terminava, até 1932. Visitava os países ali por perto; foi à Grécia, à Espanha, França, à antiga Tchecosváquia (ou Morávia, de onde tirou seu pseudônimo), sempre escrevendo relatos de viagens, com um tom ao mesmo tempo jornalístico e literário. Indo cada vez mais distante, chegou à China. Penetrou o Oriente Médio, a Ásia, a África e a América Latina, dizendo-se apaixonado pelo Terceiro Mundo. Mas sua maior paixão era a África, da qual ele afirmava ser “a coisa mais bela que existe no mundo”. Durante seis décadas, ele viajou escrevendo suas impressões. Um desses preciosos textos é sobre Brasília. Em 1960 ele veio ao Brasil, atraído pela construção de Brasília, comentada em todo o mundo. Chegou para a inauguração, e o avião não pôde descer, o aeroporto estava repleto, e Moravia ficou planando sobre a cidade, tendo as primeiras ideias do fenômeno da capital, deitando seus olhos literários sobre as terras vermelhas despidas brutalmente de sua vegetação, a cidade que “caiu como um meteoro em chamas, sacrificando a terra árida com sangue”. “Eis, em pé aqui e ali, tal qual peças de dominó desordenadas, os ainda raros edifícios; eis a meia-lua azul do lago artificial entre o tom avermelhado da vegetação”. Parece que Brasília o emocionou, pois deixou de lado sua prosa seca, derramando-se em belas letras. E ainda ali, no avião, voando sobre a cidade, já percebeu seus pontos cruciais. A cidade abstrata, criada para arrancar das costas barrocas e preguiçosas do Brasil as classes dirigentes para retomarem a marcha dos antigos desbravadores no rum do interior, e ocupar e povoar e enriquecer vastíssimos territórios. Mas, ao mesmo tempo que cidade desbravadora, cidade burocrática, a criar procedimentos padronizados para estruturar a organização, a hierarquia, a divisão do poder e do trabalho.

Como poderia Moravia, do alto do avião, antes de pisar na terra, acreditar saber tanto sobre Brasília? Ele se baseou nos exemplos da Ankara, Washington e Canberra, cidades planejadas, e perguntou: saberá Brasília “ser mais vivaz que essas cidades construídas pela força da vontade?” Uma questão crucial para o destino da cidade. Até que ponto Brasília se deixaria massacrar pela presença monumental do poder? A cidade ainda se faz essa pergunta, diz o poeta. Como decifrar tua caligrafia de postes e ventos? Agora, Moravia está num carro e percorre o Eixo Monumental, depara-se com as torres e sopeiras contra um céu azul, sente-se pequenino como um liliputiano, esmagado e aniquilado pela arquitetura, acha que os edifícios são alguma alucinação, presente a atmosfera ditatorial, a solidão urbana, a desorientação que os pequenos habitantes sentem diante dos mistérios do poder que os governa. Sente o orgulho do país novo, que pela segunda vez na sua história sai à conquista de si mesmo. Acha o pôr do sol surpreendente e repentino, a noite sorrateira, a vegetação decrépita, sente falta das casas e ruas humildes que atestam a presença dos habitantes. Termina comparando Brasília a um altar das nossas igrejas construídas pelos primeiros colonizadores. Uma ostentação que nos obriga a ajoelharmos diante da beleza.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 17/06/2012.

 

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Equação de concreto, suor e sangue

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Equação de concreto, suor e sangue
Por Graça Ramos

Se poemas de Joaquim Cardozo apontaram chaves de leitura para a
estrutura do Palácio do Planalto ser vista como objeto de vidro com
efeito prismático, neste capítulo, que trata de sua construção,
seremos guiados por personagem pouco conhecida, mas de fundamental
importância, na historia do edifício. Com apenas cinco anos e meio de
formado pela Escola de Engenharia da Universidade Mackenzie, de São
Paulo, Fausto Amadeo Francisco Favale (1929-) se tornou o
engenheiro-chefe da obra do Planalto, em julho de 1958.

Funcionário da construtora Pacheco Fernandes Dantas, ele havia sido o
responsável pela obra do Brasilia Palace Hotel, antes chamado Hotel de
Turismo Brasília. Uma semana antes de esse edifício ser inaugurado, o
presidente Juscelino Kubitschek o chamou e confidenciou: “muito bem,
você conseguiu, Fausto. Agora, quero te ver no meu escritório”. “É
você quem vai construí-lo”. O engenheiro conta que ficou entre feliz e
estupefato. “Eu ia fazer o escritório da Presidência da
República…levei um choque”.

A escolha da Pacheco Fernandes Dantas para tocar a obra do mais
importante prédio da estrutura administrativa do país foi resultado da
engenharia política montada por Juscelino para conseguir construir
Brasília. Ele determinou que um dos diretores da Novacap deveria ser
indicado pela oposição ao governo, composto pelo PSD e aliados. O
deputado paulista Íris Meinberg, da UDN, foi o escolhido e o
responsável por indicar a construtora paulista para fazer o Brasília
Palace. “As únicas exigências do presidente eram que as construtoras
tivessem nomes tipicamente brasileiros, de fácil entendimento, e seus
engenheiros fossem jovens, para dar conta do ritmo das obras, mas já
estivessem demonstrado experiência em construção”, explicou Eduardo de
Moraes Dantas (1926-), sócio da construtora.

Juntamente com os proprietários da empresa, Paulo Roberto Pacheco
Fernandes e Moraes Dantas, Favale passou a estudar, detalhadamente, as
plantas realizadas em papel vegetal e identificadas como Palácio
Presidencial II ou PP-II. Receberam três projetos: de arquitetura,
assinado por Niemeyer, de estrutura, com selo de Joaquim Cardozo, e de
instalações. A numeração fez-se necessária porque o primeiro
anteprojeto feito pelo arquiteto para os palácios de Brasília fora
designado Palácio Presidencial.

Vários relatos bibliográficos dizem que a partir de março de 1958 o
local se instalaria o Planalto já estava em obras. Tratavam-se de
trabalhos relativos à preparação do terreno. Segundo Favale, somente
em principio de julho, após a inauguração do Brasília Palace Hotel e
do Palácio do Alvorada, ocorrida no dia 30 de junho de 1958, é que os
trabalhos de construção do prédio começaram:

         “No começo de julho, fui fazer a locação da obra. Tinha a
planta, o terreno estava lá, então fomos marcar os eixos dos
pilares, para depois marcar as estacas, etc. fizemos a marcação com
madeira e gabarito e começamos os trabalhos.

Não foi difícil arregimentar trabalhadores para o novo empreendimento.
Quase todos os homens que estavam lotados no Brasília Palace Hotel
foram realocados na obra do que seria o novo palácio. No período mais
intenso da construção, Favale chegou a ter 1.200 operários sob o meu
comando, incluindo aqueles contratados por subempreiteiras,
responsáveis pela armação e impermeabilização, além dos marmoristas.
Os turnos de trabalho eram sucessivos: das 7h às 11h, com uma hora de
almoço. Das 12h às 17h, com outra hora de intervalo, e das 18h às 22h.
Às vezes, era necessário virar a noite, para dar conta do exíguo
cronograma.

Se no Brasília Palace o acompanhamento dos operários ficava do lado da
obra, para a nova tarefa eles foram reunidos em barracões instalados
na área que hoje é chamada de Vila Planalto. Ali, ergueram quatro
residências, duas para funcionários da Novacap encarregados de
acompanhar a construção, uma para Roberto Pacheco Fernandes, e outra
para Favale. Depois, levantaram oito ou dez residências para
empregados que estavam acompanhados de suas famílias. E construíram de
seis a oito barracões de alojamento destinados aos operários, além do
boião, como era conhecido o restaurante. Tudo considerado instalação
provisória, sendo a madeira o material usado nos imóveis, pois seriam
desmanchados após a finalização da construção.

Enquanto esse povo trabalhava nas fundações, tubulações e estacas,
Niemeyer pediu a Favale que fizesse o protótipo de uma das colunas
projetadas, em escala 1×1. Queria observar melhor se obteria o efeito
visual desejado. É por isso que fotos preservadas no Arquivo Histórico
do Distrito Federal exibem imagens de uma vela branca como a de um
barco em meio à terra vermelha-pungente e com a obra sendo levantada
atrás. “Era uma estrutura de madeira revestida com chapa de compensado
e pintada de branco”, segundo Favale. Uma vela-coluna mais robusta,
bem menos delgada do que as que atualmente identificam o prédio.
Quando o protótipo ficou pronto, o arquiteto pegou a planta que
continha o detalhamento da coluna, encostou-a em uma das paredes do
escritório da obra e rabiscou a lápis uma mudança na curvatura da
coluna. Acentuou-a, estreitando-a em certo trecho para deixá-la mais
delgada, mais leve na parte inferior. Recurvada a coluna, Favale
precisou fazer as adaptações estruturais na obra. A principio, ainda
conforme as lembranças do engenheiro-chefe, as colunas do Planalto não
receberiam revestimento de mármore, ficariam com o concreto aparente.
Mas Niemeyer preferiu cobri-las à semelhança do que fez no Alvorada.
Antes de o Palácio começar a ganhar corpo, Pacheco Fernandes, Eduardo
Dantas e Favale tiveram dúvidas sobre a questão estrutural da obra.
Depois de olharem os cálculos de Cardozo, descobriram que as formas
ousadas criadas por Niemeyer exigiram do calculista a criação de uma
planta estrutural muito complexa, com soluções audaciosas para um
tempo em que inexistia computadores. Os engenheiros-construtores
ficaram com receio de que isso provocasse problemas na infraestrutura
do edifício. Conforme o depoimento de Favale:

          “Nós, no inicio da obra, estranhamos os cálculos. Em
conversa com o Eduardo e com o Roberto Pacheco, estranhei a quantidade
de armadura que tinha nos pilares. As normas brasileiras especificam
uma percentagem de armadura máxima que você pode colocar nos pilares.
E excedia. Aí eu disse “vamos contestar?”. O Eduardo e o Roberto me
disseram “Não”. E ordenaram: “toca a obra”.

O receio era de que, ao realizar os cálculos estruturais do Planalto,
o calculista-poeta tivesse determinado um percentual de armadura nas
seções extremas dos pilares em valores muito maiores do que aqueles
recomendados pelas normas técnicas, que àquela época não eram de
caráter obrigatório. Receavam que esse corajoso atrevimento viesse a
provocar acidentes. “Não eram cálculos convencionais”, segundo as
observações de Moraes Dantas, também especialista em cálculos de
concreto armado pela Escola de Engenharia da Mackenzie. “As colunas”,
relembrou mais de 50 anos depois, “receberam uma carga muito grande de
ferro, mas Cardozo dava segurança de que tudo daria certo”.

A segurança de Cardozo era tão grande que, segundo uma conversa dele
com Niemeyer sobre o tipo de colunas adotadas para o Planalto e o
Supremo, o calculista chegou a dizer: “um dia vou fazê-las mais finas
ainda, de ferro maciço”. No trabalho de tocar a construção, Fausto
Favale passou a compreender melhor o método usado por Cardozo.

                “O excesso que ele propunha justificava-se. O Cardozo
era um poeta. Ele lia literatura em chinês, era muito inteligente. E
tudo que o Oscar pedia ele achava que tinha que atender. Não podia
tolher a criação do Oscar, como todos os calculistas achavam. Porque a
gente se restringia ao aspecto matemático. O Cardozo dominava muito a
matemática, mas também se atinha ao poético. Então, o ideal do Oscar
foi sempre chegar com um apoio num ponto, veja o Alvorada, veja o
Planalto, todos eles tentam chegar num ponto disfarçadamente. E os
cálculos de Cardozo permitiram isso. Sua capacidade de abstração
imensa possibilitava que achasse essas soluções”.

Anos mais tarde, o projeto de Cardozo continuou sendo objeto de
análises. Segundo o calculista Augusto Carlos de Vasconcelos, no caso
da base das colunas do Palácio do Planalto “a armadura chegava a
atingir quase 20% da secção – mais do que o triplo admitido nos dias
de hoje”. E, mais de meio século depois de concluído o prédio, os
cálculos do poeta mantiveram a capacidade de surpreender profissionais
como Eduardo Pierrotti Rossetti, doutor em arquitetura e urbanismo,
que, na qualidade de assessor técnico do Iphan, acompanhou parte da
reforma de 2010:

                  “A quantidade de barras de aço nas ferragens das
colunas do Palácio do Planalto é impressionante. Você vê aquela foto
do Marcel Gautherot e imediatamente pensa sobre a quantidade de aço
usado para fazer o concreto ficar mais esbelto. Além disso, a armação
das ferragens tem uma geometria linda: as barras dobradas, as barras
como feixes de linhas paralelas ou entrelaçadas. Essas ferragens
expressam a força do controle de uma forma precisa, que corresponde à
beleza da coluna construída, concretada, pronta e revestida. A armação
das ferragens é tão potente quanto à coluna que ela estrutura e isso é
consequência do apuro, de um domínio sensível da razão, da técnica e
do cálculo”.

Mesmo com tanta precisão e tanto cuidado, em 1963, o palácio
necessitou passar por um ajuste na construção. Como a dilatação da
laje de cobertura era maior do que a da alvenaria das paredes,
surgiram trincamentos nos encontros da laje com as paredes. O problema
foi solucionado com a parte superior das paredes de alvenaria sendo
preenchida por algodão in natura. “O algodão deixa a laje se
movimentar sem causar problemas”, explicou Favale. Com isso, a laje se
movimentar sem causar problemas”, explicou Favale. Com isso, a laje
ficou livre para se movimentar de acordo com as variações de
temperatura, que no Cerrado são intensas e frequentes. O revestimento
flexível, de baixa densidade, funcionou como junta de dilatação.
Não deixa de ser emblemático que tenham sido algodoadas partes da
estrutura desse palácio, local em que as pessoas parecem se comportar
como algodões entre cristais. De maneira geral, em seu interior,
gestos são contidos, palavras, pesadas antes de serem pronunciadas.
Sabemos que todo palácio é local de cautela e intrigas, mas, sendo de
cristal, o Planalto exige – ou deveria exigir – mais cuidado por parte
de quem o experimenta. Com paredes de vidro, movimentos podem ser mais
visíveis e, também, mais fáceis de serem documentados por equipamentos
eletrônicos posicionados fora do edifício.

Esse palácio, face visual do projeto modernizador brasileiro dos anos
1950 e retrato da audácia de um presidente popular, não foi construído
como fortificação, muito menos pensado para ser a brida e o freio
destinados àqueles que insurgem contra o mandatário de plantão, como
refletiu Nicolau Maquiavel. Nada em seu desenho lembra também um
refúgio inexpugnável, sendo ele mais próximo da ideia de que a melhor
fortaleza que pode existir para um governante é a de não ser odiado
pelo seu povo.

A violência, entretanto, ainda que de maneira indireta, também fez
parte da historia desse edifício de onde se comanda o país. Durante
sua obra registrou-se um dos mais controversos episódios da construção
de Brasília. Era domingo de Carnaval naquele 8 de fevereiro de 1959,
quando a violência explodiu no restaurante da Pacheco Fernandes
Dantas. Dois carpinteiros recusaram-se a comer a refeição oferecida
naquela noite, composta de arroz, macarrão, carne e feijão. Ao jogarem
as marmitas no chão, a confusão se espalhou. Mesas foram quebradas, a
gritaria dos homens fez-se brado e o cozinheiro terminou ameaçado.
Apavorada, a segurança do acampamento chamou a Guarda Especial de
Brasília, braço armado da Novacap. Três guardas tentaram conter o
motim, mas não obtiveram sucesso, pois a quantidade de operários era
muito superior. Mais policiais foram chamados e 27 homens armados com
pistola calibre 38 e cassetetes lotaram um caminhão em direção ao
acampamento. Entraram atirando, usando de muita truculência. O relato
do engenheiro-chefe das obras forneceu novas informações sobre o
episódio:
                    “Dois carpinteiros estavam bêbados e acharam ruim
a comida e queriam bater no cozinheiro. Aí que começou o buchicho.
Inadvertidamente, o nosso encarregado do acampamento mandou chamar a
GEB. Se lembra quem era a GEB? A Guarda Oficial de Brasília. E nós
tínhamos um motorista chamado Chicão, se não me engano, que tinha dado
umas pancadas no pessoal da GEB. Já havia um mal estar entre o pessoal
da GEB foi chamado, eles pensaram “ah, vamos lá na Pacheco dar uma
lição”.

O saldo oficial do confronto foi desigual: um operário morto e outros
45 feridos. Estes últimos deram entrada em pronto-socorro, três deles
com ferimentos causados à bala nas pernas – Antonio de Souza, Antonio
Ubaldo Morais e Francisco Clemente dos Santos. Só horas mais tarde
identificaram o corpo de Evaristo Soares Brandão. Conforme Favale,
“esse rapaz que morreu estava dentro do alojamento, sentado na cama”,
portanto distante do local onde se iniciou a confusão. “Uma bala
atravessou a parede, a madeira, e o atingiu na coxa, cortando a veia
femoral. Ele se jogou embaixo do barraco, ali ele ficou e se esvaiu em
sangue”.

O motim só foi debelado com a entrada em cena do Exército, chamado por
Favale. O episódio rendeu um Inquérito Policial e ainda hoje é objeto
de investigações extra-oficiais que tentam dar conta da história e de
suas versões, pois há depoimentos que falam que o número de feridos e
mortos foi muito superior. De estudos acadêmicos na Universidade de
Brasília (UnB) a filmes como “Conterrâneos velhos de guerra”, do
cineasta Wladimir Carvalho, realizado em 1990, obras apresentam novos
olhares sobre o tema, que não recebeu cobertura imediata por parte da
imprensa.

A invasão policial na Pacheco Fernandes interferiu no andamento da
obra do Planalto. O ânimo dos trabalhadores diminuiu, operários
desistiram de trabalhar naquela construção, pedindo as contas. Outros
foram embora sem nem mesmo recolher suas malas. No dia seguinte ao
enfrentamento entre policiais armados e operários, os sócios Eduardo e
Paulo Roberto, que estavam em São Paulo, vieram para Brasília,
acompanhados de um advogado. Todos aqueles que quiseram pedir
demissão, receberam o pagamento na hora.

Não foi difícil contratar novos operários. Brasília naquele momento
pagava salários iguais aos do Rio de Janeiro e de São Paulo, e havia
muitas horas extras. A cada dia chegavam novas levas de migrantes
buscando trabalho, “homens de todas as jornadas/chegaram e a chegar
prosseguem”, resumiu Cardozo no poema sobre a arquitetura nascente. O
problema era treiná-los, pois essa mão de obra não tinha formação
técnica para a construção civil. A rotatividade de trabalhadores era
constante, se acentuando naquele momento da invasão policial ao
acampamento.

A obra não ficou paralisada um só dia, mas o esforço de todos precisou
ser redobrado, pois JK não admitia atraso nas datas. Quase todo final
de semana, descia de uma Rural Willys, muitas vezes dirigida por ele
mesmo, e de noite vinha fiscalizar as obras. Marcava as datas de
entrega de determinados serviços de acordo com marcos simbólicos –
aniversário dele ou do Presidente da Novacap, Israel Pinheiro, alguma
data nacional. Se chegava e não encontrava o combinado, queria
explicações razoáveis do engenheiro-chefe.

                   Ele dizia: “você prometeu, então por que não está
feito?” Tinha que ter um bom argumento, menos dinheiro, porque
dinheiro só se tratava com Israel Pinheiro. E, quando ele saía da
obra, normalmente era de noite, ainda estávamos trabalhando…ele ia
descendo a rampa e o pessoal se juntava na porta para vê-lo. E ele
chegava, dizia baixinho, “agora você sai fora porque eu vou tratar do
meu eleitorado”.

Seis meses depois do domingo de carnaval violento, os profissionais
que labutavam no Planalto levaram novo susto. Um incêndio nos
escritórios da Novacap, onde ficava o escritório de Oscar Niemeyer e a
Divisão do Departamento de Edificações, localizados onde hoje é o
Ministério da Justiça, ameaçou queimar todas as plantas do Palácio,
que ali ficavam guardadas. Era de madrugada quando Favale foi chamado.
Disseram-lhe que o Planalto estava pegando fogo.

                   “Eu pensei “meu Deus, se for fogo na obra eu estou
perdido”. Porque agosto, pleno mês de seca em Brasília, a obra estava
toda cimbrada (com escoramento de madeira)…e, se pega fogo, acabou,
não tem mais inauguração. Mas, na hora que me vesti, peguei a
caminhonete e saí do acampamento, olhei e vi a torre do Congresso.
Pela torre, vi que o fogo estava à direita, e a obra era à esquerda.
Então, não era a obra, Graças a Deus. Com o pessoal que consegui
levar, salvamos os vegetais (as plantas) dos projetos de Brasília. No
escritório do Niemeyer, ele tinha um cofre, uma caixa forte feita de
tijolo (o resto era tudo madeira), para poder guardar esses originais
em caso de incêndio”.

A memória de Favale para os fatos que se referem à construção do
Palácio impressiona. Fornece, de cabeça, números e detalhes que,
depois, a conferencia nas plantas, demonstra serem exatos. E tem
orgulho em dizer que a obra foi entregue pronta na data combinada,
faltando apenas poucos acabamentos. Matusalém Nogueira de Vasconcelos
(1935-), que trabalhou como mestre de obras no Palácio, chegando ali
depois de usa inauguração, explica: “faltava colocar alguns
revestimentos e realizar serviços na garagem”.

Até 1963, o engenheiro permaneceu em Brasília, responsável por cuidar
o prédio presidencial. Antes de regressar de vez a São Paulo, sugeriu
uma solução para as testeiras de mármore das fachadas que começavam a
se romper devido aos efeitos de variação da temperatura. Sugeriu que
fossem presas a caixilhos, que deixariam uma folga para que a camada
impermeabilizadora da laje de cobertura pudesse dilatar sem colidir
com a ponta superior do mármore, solução que não foi efetuada pela
Pacheco Fernandes Dantas.

Em suas memórias, o dia da inauguração do Planalto foi de intenso
trabalho, acompanhado de extremo cansaço. O projeto do Palácio não
previu uma caixa d’água superior – uma bomba de pressão empurra água
das caixas, localizadas embaixo, para qualquer ponto dos andares
superiores. Como funcionários já estavam trabalhando dentro do prédio,
os banheiros eram utilizados. Ocorre que no dia 21 de abril faltou luz
durante boa parte do dia, não havia um gerador para o edifício, e,
consequentemente, não tinha água para limpar os banheiros. Estavam
todos sujos e precisavam ser limpos para a festa de inauguração.
Grande parte dos operários já estava de folga, liberados para os
festejos que duraram todo o dia. Foi preciso arregimentar de 20 a 30
deles para, com a água retirada de caminhão pipa, e transportada em
baldes, lavar os banheiros. Serviço concluído pouco antes de a festa
começar.

A operação “salva banheiro” foi coordenada por Favale. O resultado é
que o homem que comandou a construção do Palácio do Planalto não
participou da noite de gala, embora para ela estivesse convidado. Na
Vila Planalto, na sua casa, em cima da cama, permaneceu o fraque.
Cansado, ele, vestido como estava durante o dia, se sentou no quarto
andar do edifício que tanto trabalho lhe deu. Junto com a mulher,
ficou vendo a festa: o Palácio do Planalto iluminado e os convidados
subindo a rampa. Homens de fraque e cartola, mulheres com luxuosos
vestidos longos.

Texto transcrito do livro “Palácio do Planalto: entre o cristal e o concreto”
Coleção Memória – ITS Instituto Terceiro Setor www.brasiliagenda.org.br

 

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Sinfonia da alvorada

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Sinfonia da alvorada
Por Ana Miranda

 
Brasília fica no lugar mais antigo da terra, gostava de dizer Tom Jobim. Talvez por isso as alvoradas em Brasília sejam tão ricas de cores que foram se multiplicando e recriando ao longo dos bilhões de anos. Riam de mim os cientistas, não me importo, falo de anos poéticos e de alvoradas sonoras.

Brasília sempre foi sinônimo de alvorada, que me perdoem os gramáticos, e me perdoem os historiadores, mas tenho certeza de que JK fundou a filosofia de Brasília na ideia de alvorada. A prova é a “Sinfonia da alvorada”, que me perdoem os lógicos e os juízes. Uns dizem que em 1958 o pianista Bené Nunes levou a Tom Jobim um convite de JK para ele compor uma sinfonia celebrando Brasília. Vinicius faria o recitativo.

Vinicius contou a história diferente, disse que em fevereiro de 1958 estava num hospital em Petrópolis, depois de um acidente, e recebeu a visita de Tom, quando conversaram pela primeira vez sobre escreverem uma sinfonia celebrando Brasília, e nesse mesmo ano Tom compôs alguns dos temas musicais constantes da futura Brasília, Sinfonia da alvorada. Quando Vinicius voltou de seu posto em Montevidéu, em junho de 1960, e Brasília já tinha sido inaugurada dois meses antes, ele recebeu uma telefonada de Brasília. Era Oscar, introduzindo Juscelino. O presidente convidou Vinicius para criar um espetáculo son et lumière para ser apresentado na Praça dos Três Poderes, como se fazia nos castelos franceses, na acrópole, nas pirâmides e em tantos monumentos.

Tom e Vinicius esboçaram o plano da obra, partiram para Brasília e foram se hospedar no Catetinho. Queriam ter contato humano com a cidade. Vinicius contou que trabalhavam na mesa onde JK tinha assinado seus primeiros atos na capital. Chegou um piano de Goiânia, e os músicos, ajudados pelo caseiro Luciano e três “capangas” o subiram no braço, mortos de medo que as escadas cedessem ao peso. Ali os músicos ficaram uns dez dias, se inspirando e compondo. Contemplavam a “silhueta quase sobrenatural da cidade na linha extrema do horizonte, recortada contra auroras e poentes de indizível beleza”, disse o poeta. De madrugada ouviam o piar das perdizes e dos jaós, entre rajadas de vento do altiplano. Caminhavam pelos capões de mato, e Vinicius ia só até o olho d’água, voltava e ficava pensando nas palavras da sinfonia. No principio era o ermo, agreste, verde triste…antigas solidões…a penúria dos caminhos…a dolência dos desertos…olhava um mapa do Brasil escolhendo nomes. Tamboril, Passo Fundo, Amargosa, Taperoá!

Enquanto isso, Tom Jobim se aprofundava na mata munido de uma espingarda para caçar passarinhos, mas Vinicius se aprazia em dizer que jamais ouviu um tiro, Tom não tinha “coragem para chumbar seus coleguinhas alados”. E quando o músico voltava da caça, sem nenhum passarinho, almoçavam mesmo o feijão com arroz da “patroa” de Luciano, o funcionário número um de Brasília. De vez em quando iam visitar amigos, bravos pioneiros, ou recebiam visitas, como as do herói da FAB, João Milton Prates, que lhes levava “licores e vitualhas”.

A sinfonia ficou pronta, e arrancou lagrimas dos olhos desses pioneiros, quando a ouviram pela primeira vez, Tom Jobim tocando e Vinicius recitando, ali mesmo no Catetinho, num piano goiano, numa noite estrelada. Ah…Ah…Ah…Diem! Ô…ô…ô…ô. O concerto de som e luz na Praça dos Três Poderes não aconteceu, por falta de verba. A peça só foi levada à Praça dos Três Poderes em 1986, regida pelo maestro Alceu Bocchino, com Radamés Gnatalli ao piano e Tom e Suzana, filha de Vinicius, que me perdoem os materialistas, acompanhava do céu, batucando numa caixinha de fósforos.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 25/03/2012.

 

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Viagem ao Sertão do campo aberto

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Viagem ao Sertão do campo aberto
Por Ana Miranda
 
Irás a pé, ou a cavalo, a redescobrir a Cidade Perdida dos Pirineus. Cruzarás a vasta distância de Porangatu, pousarás na serra do Estrondo e de manhã rezarás na igreja fechada e cheia de mofo. Irás ao Campo de Fora contemplar as bailarinas de Paraúna na serra da Galera, a um encontro com o capitão Urbano do Couto, já morto, seguirás o mapa mágico de Francisco de Bulhões no roteiro de enganações do Goiás verdadeiro. E te banharás na água tépida do rio Pilões do Calhamaro, então te levarão os sinos à velha vila de Jaraguá cheia de assombrações. Passarás pela pedra do Bisnau, pela serra da Mesa Digital onde as vacas comem margaridas no capim, rodearás as margens da lagoa encantada de Santa Brígida e chegarás à serra do Tucunzal. Voarás sobre São Félix de Cantalício coberto de pós de ouro espalhados pela velha fundição para enfeitar teus silêncios, depois, Pirenópolis, Corumbá, Vila Boa dos Goyá, romarias do sertão.

Na estação de águas bojudas serás encantado pelos tilintares de índias goianas, então te sentirás solto no mundo, na serra do Acaba-Vida, em Guacorumbá a mastigar segredos dos mortos, e chegarás a Goiânia, deitarás no colchão de palha no rio dos Macacos, e te tornarás indecente. Perderás a inocência debruçado à janela sobre o lago de Brasília, serás como um buriti solitário, entre os segredos das montanhas de pedra e os tesouros de Altamiro, verás o ouro no porão de Cora Coralina, e em Serra Dourada, branca e verde cidade cravejada de colinas, verás um casal de amantes aos beijos.

O rio é de sangue e a menina é da rua do Fogo. Janeiros, fevereiros, e irás procurar as cigarras da W-3, onde estão? Quem pedirá pelas chuvas? Irás ao Gama perguntar: que flor há no Gama, que arrepia, entontece e desama? Caminharás entre os velhos lobos do Planalto, na esfinge chamada Brasília, pois viver em Brasília é viver em lugar nenhum. Mas inundarás Brasília de amores, e libertarás Brasília ainda que tarde, e sairás pela antiga Asa Morta, rodearás fogueiras e brasas no fogão e beijarás mulheres excitadas com doce de goiaba e tocarás nos ásperos tecidos dos teares, voltarás a ser o menino com os olhos limpos de agudezas, a ver dinossauros nos cerrados, onde findam os lugares e todos andejam à volta do estorvo de Tatarana sem saber o lugar exato, se a grota, se o paredão, se cachoeira, se abrolhos…Farás o impossível desvio do ribeirão de Orontes, ficarás velho na foz do rio Brumado com o ribeirão do Inferno, mas amarás, no lugar dos Crixás, treze índias novas e gostosas, e morrerás de saudades daquela índia que te chupou nos densos sertões do Piriripau. Estarás pasmado no rio dos Pasmados, rolarás nas águas do Matamata, casarás, na capela do rio do Peixe, com Tutuca flor de jambo, cor de cuia e de maracujá, libertarás os negros do arraial do córrego do Jaraguá, Pontes Vedras, serra Juratenses. Dirás adeus ao cisne da cristaleira de uma avó, encontrarás Maria Camarga encarnada numa negra, corça de cabelos anelados pelas costelas nuas, e em Santa Luzia das Marmeladas entrarás numa velha casa fria sem luzes e janelas oclusas e almas de penumbras, comerás o rendilhado verde dos pequis, e em Arraias verás Sinh’Ana capetuda, viverás as dimensões eróticas, apaixonado pela musa do Paranã, pela deusa africada de canela fina e peitos pontudos, pela mulher que quebra um copo na cozinha, por Maria Rosa vadia na sua dança cigana, pela Senhora dos Pequenos Pés. Amarás como os índios se amavam na caatinga, o amor das senzalas, o amor dos quintais.

E no sertão das Terras Novas viverás livre na solidão de calunga. No final do teu caminho verás a lua desfeita em quartos, como ladra de estradas, e na fazenda do Assombrado ouvirás os latidos dos sapos-cães, que fugirão para o lago Paranoá. As vacas berram, o incêndio vira ouro na chapada, no Couto do Linhares tudo se cala, cala-se o pilão d’água, pois sentarás à varanda a tomar um café com Bernardão Élis, a conversar sobre a tal seleção eletiva, e que não existem nem mais ninfas nem Oréades no cerrado, nem Náiades a se aninhar nos musgos, e só restará a cada ano fazer roça, fazer roça, e coitadinho de São Bento das Cobras, todo mundo te esqueceu…

Chega outubro com outro vinho, outras flores, outras neblinas, o sertão vai morrer, e chove, ó chove, a estação dos bálsamos abre sua fechaduras e não morrerás nunca, porque nesse mundo de poesia os rios correm morro acima. Teu guia, pelo livro de poemas do Paulo Bertran, o encontrador de nomes, será a mão de uma Graça, pelas entranhas de uma Brasília incorpórea, Brasília-do-céu, Brasil-de-anil.

Texto transcrito do Correio Braziliense, de 15 de janeiro de 2012

 

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Da origem do nome

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Da origem do nome
Por Graça Ramos

Quando, em 1923, o poeta e diplomata paraense Osvaldo Orico (1900-1981) publicou, com a ajuda de Monteiro Lobato, o livro “Dansa dos Pyrilampos”, não imaginava que o poema “A cidade do Planalto” traduziria muitos aspectos de Brasília, cidade que se tornaria o centro nervoso do poder brasileiro a partir de 1960. Seus versos antecipariam, por deslocamento, o nome a ser dado ao principal palácio da cidade:

Oh! a cidade que irá surgir

bela, sobre o planalto, além dos horizontes,

A que não foi preciso descobrir,

a que o olhar divisou pela encosta dos montes,

Cidade sem o lenço azul das caravelas,

Cidade do porvir,

longe do mar, Cidade perto das estrelas…

Mas eu te amo assim mesmo, em teu futuro.

amo o trabalho humano que há de levantar

sobre os teus montes, edifícios de ouro

e a igreja branca onde talvez eu vá rezar.

No ano anterior à publicação do livro de poemas, o Brasil comemorou o centenário da Independência, momento político que reativou discussões a respeito da transferência da capital brasileira para o interior do país. Entusiasta dessa ideia, Orico escreveu “A cidade do Planalto” para comemorar outro centenário, do memorando que José Bonifácio de Andrade e Silva (1763-1838) encaminhou à Assembleia Constituinte, em 1823, propondo formalmente a discussão da transferência da capital do Império, sugerindo inclusive o nome de Brasília ou Petrópole. Desde o Brasil colônia, a ideia de interiorização da capital já era aventada, mas ainda sem a definição do local em que seria instalada. Foi o Patriarca da Independência, grande incentivador da mudança, o primeiro a propor oficialmente uma área, no caso, próxima à recém-criada Comarca de Paracatu do Príncipe.

A menção à região do Planalto no poema de Orico vincula-se ainda ao artigo terceiro da primeira Constituição republicana, datada de 1891, que requisitou para a União uma área de 14 mil 400 quilômetros quadrados, no “planalto central da República, que será posteriormente demarcada para nela estabelecer-se a futura Capital Federal”. Um ano depois, o governo instituiu a Comissão Exploradora do Planalto Central do Brasil, chefiada por Luis Cruls, que terminou por determinar a área onde poderia ser instalada a nova capital, no que ficou conhecido como Retângulo ou Quadrilátero Cruls.

A Constituição de 1934 mantém a ideia da transferência da capital federal, mas aquela que se constituiu a carta autoritária assinada por Getulio Vargas (1882-1954) em 1937 não mais menciona o tema. O ditador posiciona-se contra a ideia de esvaziamento do Rio de Janeiro, e entende que um país forte necessita de uma cidade-capital igualmente poderosa. Constituintes de 1946 recuperam a necessidade da transferência. Segundo o artigo “Uma ilha longe do mar”, de Marly Motta, do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil da Fundação Getulio Vargas, chegam a propor um novo local, indicando a região do Triângulo Mineiro como a ideal para receber a nova cidade. Representante de Minas Gerais, Juscelino Kubitschek (1902-1976) foi defensor dessa proposta, que terminou sendo derrotada pela escolha do Planalto Central como a melhor área, o cenário geográfico em que seria implantada a futura capital.

Mais à frente, foi ele, que ficou conhecido pelo uso de suas iniciais, JK, quem finalmente conseguiu realizar a transferência da capital, com a construção de Brasília, iniciada em 1956 e inaugurada em 21 de abril de 1960. No meio do ermo do Planalto Central, em velocidade impressionante, ele interiorizou a sede do poder com a cidade de caráter e ideário modernista.

O rápido resumo da história constitucional da ideia da transferência e do local sugerido para abrigar a nova sede do poder demonstra que, a partir da Proclamação da República (1889), a palavra planalto começa a ser associada à ideia que já estava no discurso político da transferência. Orico termina por ser o autor de uma proposta de nome próprio para a cidade a ser criada. Embora Brasília tenha sido a designação escolhida, em termos metonímicos – quando um significante desliza em outro, tomando seu significado – a capital é conhecida como “a cidade do Planalto”. Referência que se deve não só à região geográfica, mas também ao nome do seu mais importante palácio.

Na investigação da toponímia, que é o estudo dos nomes próprios, importa obsevar que JK era amigo de Osvaldo Orico, que havia sido deputado federal pelo Pará, eleito pelo Partido Social Democrático (PSD), o mesmo do presidente. JK admirava o poema –  gostava, especialmente de sua finalização (“Cidade que fugiu das ondas e das praias/para ficar vizinha das estrelas”) -, o que terminou reforçando nele a ideia de que a denominação Planalto era a mais apropriada para ser dada ao palácio que sediaria o Executivo brasileiro.

Quando começa a construção dos prédios de Brasília, Orico ocupa posto importante na diplomacia para a divulgação da cidade aos intelectuais e à imprensa internacional. Entre 1957 e 1958, o intelectual que chegou a ser considerado o “príncipe dos cronistas brasileiros” atua como ministro para assuntos econômicos na Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), em Paris, trabalhando ativamente no convite a personalidades para que venham conhecer o canteiro de obras daquela que será a capital erguida no solo agreste e descampado da região do altiplano brasileiro.

Até o batismo com o substantivo que se vincula à topografia da região central do país, significando grande extensão de terreno plano e elevado, o palácio de vidro recebera inúmeras designações. De Palácio dos Despachos, a mais conhecida, a Palácio Administrativo, sendo também chamado de Palácio do Governo e Palácio Presidencial II. Nenhuma delas agradava ao presidente que decidira concretizar a mudança da capital.

A escolha do nome para o palácio residencial fora mais fácil. Em “Por que construí Brasília”, JK explicou sua decisão. “O que era Brasília senão a alvorada de um novo dia para o Brasil. Ao palácio presidencial ajustava-se a expressão simbólica”. A designação contemplava, e ainda abarca, amplo espectro de significados: da claridade que precede o romper do sol, ao canto das aves ao amanhecer, assim como o toque militar nos quartéis ao despontar da manhã.

Em termos políticos, a escolha agradou de imediato desde assessores-poetas como Augusto Frederico Schmidt (1906-1965) até o grupo de militares mais próximos ao presidente. Apesar disso, até meados de 1957, o edifício era mais conhecido como Palácio Presidencial. O nome Palácio da Alvorada se tornará popular rapidamente, sendo que a primeira vez que aparece em um texto é na revista “Brasília”, em artigo assinado por Osvaldo Orico, em outubro de 1957. A revista, editada pela Companhia Urbanizadora da Nova Capital (Novacap), era, então, o principal veículo de divulgação das atividades relacionadas à construção da cidade.

Pouco depois da escolha do projeto de Lucio Costa para o Plano Piloto de Brasília, em março de 1957, começaram as conversas sobre o nome a ser dado ao palácio administrativo previsto para a Praça dos Três Poderes. Com a definição do modelo urbanístico a ser adotado na nova capital, foi determinado que os poderes republicanos ficariam todos instalados na mesma área.

Juscelino começou, então, a testar o nome Planalto de maneira sutil. Sempre que possível, substituía o nome Brasília por Planalto durante conversas informais ou mesmo quando solicitava algo referente às viagens de inspeção das obras, realizadas nos finais de semana. Dizia a assessores: “amanhã vou para o Planalto”. No livro de memórias, são recorrentes esses deslocamentos do nome da cidade pelo da região geográfica em que está situada. “No inicio de 1958, o Planalto era a mais movimentada frente de trabalho do mundo”, relembrou anos mais tarde em outro volume de suas memórias.

Convencido do poder do nome, o presidente resolveu adotá-lo oficialmente. “Ao outro palácio, que se chamava então dos Despachos, e que está situado na Praça dos Três Poderes, dei o nome de Planalto, designação que lembra a origem geográfica de sua localização”, recordou no já citado “Por que construí Brasília”. Ainda, segundo ele, “o Planalto era o interior, o Alvorada, o futuro”, conforme consta do livro “JK – o artista do impossível”, de Claudio Bojunga. Tão logo o presidente passou a chamar o palácio pelo nome de Planalto, os principais assessores também começaram a fazê-lo.

Da mesma forma como ocorreu com o Alvorada, Orico foi o primeiro a utilizar o nome Palácio do Planalto em um texto, também publicado na revista “Brasília”, desta vez em dezembro de 1957. Durante a construção da cidade, o poeta viera visitar as obras, encontrando-se muitas vezes com JK. Ele tinha especial interesse na estrada Belém-Brasília, que considerava de imensa importância para o desenvolvimento da Região Norte do país, de onde era originário. Também amigo de Raimundo Nonato, diretor da revista, Orico foi convidado a escrever os dois artigos mencionados.

Ao publicar “Brasil, capital Brasília”, lançado em 1958, o primeiro livro sobre a capital em construção, com versões em inglês e francês, o escritor forneceu mais detalhes a respeito das escolhas feitas por Juscelino para batizar os palácios brasilienses:

“O senso paisagístico das construções identifica Brasília com a região em que desponta. As palavras que batizam seus edifícios tem aroma. Se as letras, como quer Rimbaud, possuem cor, as palavras possuem asas, como queria Victor Hugo: ‘les ailes dês paroles’. Transportam-nos para a imagem que exprimem. Não é mais novo, atraente, original, em vez de dizer Palácio do Governo, dizer Palácio do Planalto? Não é mais sugestivo chamar Palácio da Alvorada à casa residencial do Presidente? E que é, por sinal, a primeira construção definitiva, quando Brasília nascia?”

Em outro livro, intitulado “JK – Confissões do Exílio”, Orico relata a visita realizada a Brasília por ele e a filha, a atriz e cantora Vanja Orico (1931-), famosa na época pela interpretação da música “Mulher rendeira”, de Zé do Norte, que fazia muito sucesso entre os operários vindos do Nordeste. Segundo o autor, JK mostrou-lhe as obras da cidade, do alto – dentro do avião que os trazia do Rio de Janeiro para Brasília -, e começou a apontar para todos os lados e a identificar os prédios: “Ali é o Palácio da Alvorada; a Praça dos Três Poderes; mais adiante o Palácio do Planalto; do outro lado, a Catedral e, naquela época, a Esplanada”. Não se falava ainda em palácios específicos para abrigar os ministérios das Relações Exteriores e da Justiça. “O que mais se via era a terra vermelha e tratores, mas para o presidente era como se os prédios já estivessem todos lá”, relembrou Vanja Orico.

O maior canteiro de obras era no local destinado à Praça dos Três Poderes, pois o terreno precisou ser ajustado em sua topologia, de maneira a atender às concepções de Lucio Costa, que queria os palácios alinhados à futura Praça. Hoje, se pensarmos na posição em que o Palácio do Planalto está situado, rente à Praça, mas dez metros acima da via N2, que passa nos fundos do edifício, é possível observar que, devido à colunata, que funciona como pilotis, a perspectiva a partir dele é sempre a do horizonte. Um olhar para o mais distante, o que reforça o poder do nome escolhido.

Ao relacionar o palácio presidencial à região de escudos cristalinos, área de forte claridade devido à altitude de 1.100 metros acima do mar, onde a cidade-capital se insere, podemos também inferir que JK esperava que essa associação sinalizasse para o país que a sede do governo federal estava atenta a todas as regiões do Brasil. Como previra o poema, um palácio que reluzia e do alto dos montes enxergava o país.

Um título, às vezes, não é algo que se consagra de imediato. Somente nos meses anteriores à inauguração da cidade é que o nome Palácio do Planalto começou a se consolidar entre as pessoas e em textos publicados. Até então a designação Palácio dos Despachos continuava dominando reportagens e artigos e estava presente, em especial, na voz dos operários que erguiam a cidade. A primeira identificação era tão conhecida que a logomarca instalada no canteiro de obras pela construtora que ergueu o prédio, a Pacheco Fernandes Dantas (PFD), era lida por operários e visitantes como Palácio Federal dos Despachos. A marca ficava instalada no alto da primeira coluna orientada, no leste, em direção ao Lago Paranoá, conforme fotos da época.

Cinco décadas depois da inauguração da capital, o que chama a atenção é que na cidade planejada, cujas ruas são conhecidas por estranha junção de letras e números, apenas os dois palácios presidenciais batizados por Juscelino tenham nomes próprios inéditos. O Catetinho, primeira residência presidencial em Brasília, remetia ao Palácio do Catete, sede do governo federal no Rio de Janeiro, quando a cidade era a capital do país. O Palácio do Itamaraty, eventualmente chamado de Palácio dos Arcos, manteve o nome histórico dado à sede do Ministério das Relações Exteriores na ex-capital.

Sabemos que nomear é eleição carregada de simbolismos. A observação sobre as escolhas dos nomes Palácio do Planalto e Palácio da Alvorada nos leva à convicção de que o criador da cidade, ao batizá-los, o fez de maneira a marcar o momento histórico de criação de uma capital planejada para ser construída no meio do Sertão, onde, no dizer de Cardozo, “cavaram profundas abóbadas/Romperam pátios, galerias…/possuídos de ciência infusa/Extraíram a noite-espuma,/Oclusa na rocha”. Ao nomear os palácios da cidade inventada, JK terminou por repetir o padrão de nomeação do país, relacionado a um elemento natural, a árvore pau-brasil. Como haviam feito os portugueses, deixou que a natureza impusesse o batismo. Desejou inserir nomes que tornassem ainda mais poéticas as imagens desses palácios feitos de vidro, cimento e mármore branco e erguidos sobre a terra cor de sangue do altiplano deserto.

Texto transcrito do livro “Palácio do Planalto: entre o cristal e o concreto”
ITS – Instituto Terceiro Setor

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A REDESCOBERTA DO BRASIL

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

A REDESCOBERTA DO BRASIL
Por Fábio Altman


Em oposição ao bandeirante predador, Juscelino Kubitschek cultivou a imagem do pioneiro, o desbravador que tiraria o país do litoral para levá-lo ao centro. Foi o nascimento de uma nação
 
Em 1960, um imenso painel da campanha do marechal Henrique Teixeira Lott à Presidência da República mostrava o candidato da situação de farda ao lado de Juscelino Kubitschek, que terminava seu mandato. JK aparecia como “o grande bandeirante do século”, com as vestes e a postura de um Borba Gato, o céu do cerrado como moldura. A uni-los – Lott e JK -, os traços de Brasília recém-inaugurada a partir dos desenhos e dos projetos de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. Lott perderia as eleições para Jânio Quadros, mas seu cabo eleitoral, o presidente bossa-nova, faria história ancorado na cidade que ergueu no meio do nada. Faria história por seu empenho, razoavelmente bem sucedido, de introduzir no Brasil uma nova família de desbravadores, afeitos a abandonar o litoral a caminho do Centro-Oeste. Homens e mulheres que deixaram para trás uma civilização de quatro séculos, banhada pelo Oceano Atlântico, com pessoas “arranhando ao longo do mar como caranguejos”, na metáfora do frei Vicente do Salvador (1564-c.1635). A densidade populacional à beira-mar chegava, em algumas cidades, a cinqüenta habitantes por quilometro quadrado. No Centro-Oeste, a menos de um – hoje, ali, são sete habitantes por quilômetro quadrado.

O presidente pé de valsa, o Nonô de Diamantina, o desenvolvimentista – mas também o capitão do inicio do descontrole inflacionário -, morreu em 1976, em um acidente de carro na Via Dutra, com o legado de campeão da democracia. JK foi o chefe de estado que pôs o Brasil na modernidade a bordo de um Fusca ao som de João Gilberto. Mas ele se vangloriava, mais do que tudo, no fim da vida, de ter induzido, por meio de Brasília, o renascimento do país. Até a aventura no Planalto Central, havia um muro entre a escassez do interior e a abundância do litoral, sem estradas a ligar os dois pontos. As diferenças entre as regiões ainda existem, são muitas e intransponíveis, mas JK deflagrou um processo que, nas palavras do atual governador do Distrito Federal, José Roberto Arruda, representou “o redescobrimento do Brasil”. Para redescobri-lo era preciso matar o passado, era preciso criar um movimento colado à imagem com a qual JK aparecia no cartaz da campanha, de botas e chapelão em mãos. Tratava-se, enfim, de criar uma nova modalidade de ocupação.

O próprio JK, no livro de memórias “Por que construí Brasília”, anotou o que pensava da conquista de um pedaço quase virgem de Brasil. Em um parágrafo de 150 palavras, escreveu: “Há quem confunda pioneiro com bandeirante, já que ambos fazem do desbravamento sua atividade habitual. Entretanto, uma diferença enorme os distancia. O bandeirante descobre e passa à frente. Sua sina é avançar. Finca um marco. Poda uma árvore. Faz um monte de pedras. É tudo que deixa, como sinal de sua passagem. Trata-se de uma imagem fugidia. Brilha, e desaparece. Já o pioneiro é influenciado pela atração da terra. Descobre e fica. É um símbolo do que se projeta através do ânimo de permanência. A jornada pode ser longa, mas a parada – quando ocorre – é quase sempre mais longa ainda. Planta e espera pela colheita. Não deixa sinal de sua passagem, porque ele próprio se detém. E do seu rastro, que por algum tempo foi efêmero, brotam valores duradouros: povoados, que se transformam em vilas; vilas que se convertem em cidades; e cidades que armam a estrutura de uma civilização”.

Brasília, cidade artificial, criada no papel antes de ter gente, apresenta todos os problemas do Brasil real – inclusive os da corrupção debaixo das duas cúpulas, a côncava e a convexa, da Praça dos Três Poderes. Mas é inegável que a cidade costurou algum tipo de civilização a que se refere JK. Segundo o historiador Luís Carlos Lopes, autor de “Brasília – O Enigma da Esfinge”, JK considerava “necessário curar o brasileiro de seu ancestral desamor pelo trabalho e do seu espírito lúdico contumaz”. E mais: “Era preciso discipliná-lo e organizá-lo a partir desta base, para aproximá-lo do pioneiro norte-americano; dar a Macunaíma a firmeza de caráter e a capacidade de empreender as mudanças de propostas e de interesses de seus amos; queria-se fazer com que o capitalismo vencesse e transfigurasse as origens escravistas do país. O bandeirante tinha que metamorfosear-se no pioneiro”.

Ao perceber, já na campanha eleitoral que o levaria ao Palácio do Catete e nos primeiros meses de governo no Rio, que qualquer espirro de crise provocava uma pneumonia e que uma solução política seria ficar distante da encantadora mas turbulenta Velhacap, JK pôs para andar a máquina mudancista. Tomou emprestada, como cimento ideológico a mover seus passos, a tese de Clodomir Vianna Moog (1906-1988), ensaísta gaúcho autor de um clássico da sociologia brasileira, “Bandeirantes e Pioneiros – Paralelo entre Duas Culturas” (1954). Nessa obra, o escritor, ao comparar as sociedades americana e brasileira, conclui que houve “um sentido inicialmente espiritual, orgânico e construtivo na formação dos Estados Unidos” e “um sentido predatório, extrativista e quase só secundariamente religioso na formação brasileira”. Nos Estados Unidos, deu-se tudo pelas mãos dos pioneiros. No Brasil, dos bandeirantes. JK, portanto, ao beber de Vianna Moog, pensador de relevância internacional, propunha o despertar de um novo bandeirante.

Só ele, parente do pioneiro americano, seria capaz de pôr em marcha a interiorização do Brasil como engrenagem de riqueza. A escolha do local onde seria plantada a nova capital foi feita com o objetivo de corrigir uma distorção natural, a inexistência de rotas geográficas que favorecessem, rumo ao oeste, o uso de todo o potencial do território brasileiro. Para Vianna Moog, o Brasil é cortado de norte a sul pelo rio que deveria ser o da integração nacional, o São Francisco – que ainda assim corre muito perto da costa. A Serra do Mar também se agiganta paralela ao litoral, funcionando como mais uma barreira à integração. Fosse sua orientação de leste a oeste, ela seria um corredor. A explicação geográfica foi encampada por JK e posta a funcionar com a sagacidade de nomes como Ernesto Silva, hoje aos 95 anos, “o pioneiro do antes”, o pediatra por formação e desbravador por natureza, que recebeu JK no cerrado, em outubro de 1956, com um mapa da região debaixo do braço e conduziu o primeiro comboio.

O mapa de Ernesto era o resultado do trabalho de dois grandes grupos de investigação cientifica e geográfica: a Comissão Exploradora do Planalto Central (1892-1893), liderada pelo astrônomo belga radicado no Rio de Janeiro Luiz Cruls, nascido Louis Ferdinand Cruls em Diest, amigo do imperador Pedro II, com quem conversava sobre estrelas e cometas; e a Comissão de Localização da Nova Capital (1954), comandada pelo marechal José Pessoa, indicado pelo presidente Café Filho. Ambas escrutaram o mesmo chão, a 1 100 quilômetros do Rio e 1 000 quilômetros de São Paulo, originalmente conhecido como Quadrilátero Cruls, naco de terra de 160 por 90 quilômetros. Desde o fim do século XIX até a eleição de JK, todos os governos tangenciaram a mudança da capital para aquele ponto do país, tal qual um Eldorado. Era uma idéia à procura de quem a realizasse. Nascera com José Bonifácio, o Patriarca da Independência, que sugerira o nome de Petrópolis ou Brasília, ainda na Constituinte de 1823, para a nova capital. Crescera um pouco mais tarde, por meio do diplomata e historiador Francisco Adolfo de Varnhagem, para quem a transferência civilizaria o sertão. Muito tempo antes de Lucio Costa vencer o concurso, Brasília já aparecera em esboços, diversas vezes com as avenidas monumentais, típicas do modernismo na arquitetura, que a tornariam conhecida.

JK tomou posse dessa linha histórica, fez-se herdeiro dela e criou uma cidade. Mais de uma vez, depois dos três anos de construção, o presidente disse que a existência de Brasília sempre fora “aspiração geral do país”. O professor de sociologia Márcio de Oliveira, da Universidade Federal do Paraná, autor de uma detalhada dissertação de mestrado sobre as origens de Brasília, faz a indagação incômoda mas necessária: “Se Brasília já era uma aspiração geral do país e JK estava convencido do fato, como explicar sua ausência no plano de metas original?”. Brasília só viria a se tornar a meta de número 31, a meta-síntese, depois do primeiro comício da vitoriosa campanha de 1955. Uma resposta possível à demora é que a idéia simplesmente ainda não existia: JK a alimentou por necessidade política: “Depois, ele recontou a historia do Brasil, por meio de livros escritos por colaboradores e revistas ligadas à empreitada brasiliense, para dar a impressão de que seu governo não fazia mais que realizar um destino, a interiorização do Brasil”, afirma Oliveira.

Houve, na formação do mito, falsificações. Nos relatos de Brasília, conta-se com paixão o sonho do padre italiano Giovanni Bosco, que em meados do século XIX fizera referência a um “leito muito largo, que partia de um ponto onde se formava um lago, situado entre os paralelos 15 e 20 graus de latitude sul”. Dormindo, Bosco deparou com a imagem de uma “terra prometida, donde correrá leite e mel”. Brasília, pois. Tudo muito adequado não fosse o sumiço, nas versões oficiais alimentadas por JK, de um trecho em que Bosco dissera ter avistado uma cordilheira e, entre colchetes, a Bolívia. Com um detalhe: Bosco nunca pôs os pés no Planalto Central.

Um meio para muitos fins. Tendo ou não cultivado retroativamente a história, tendo ou não trabalhado com mitos, JK fez de Brasília uma cidade de sucesso desigual como país que a cerca. Enquanto o PIB brasileiro cresceu em média 4,8% ao ano de 1961 a 2000, o do Distrito Federal teve expansão de 57,8%. Brasília, numa definição já consagrada, foi “um meio para muitos fins”. Serviu para inventar uma nova economia que fugisse da tradicional cabotagem na franja litorânea. Ao país descontínuo até o inicio dos anos 60, sem ligações terrestres, ofereceu estradas como a Belém-Brasília. Ao isolado sertão cantado por Euclides da Cunha, ofereceu a chance de integrar-se ao Brasil. E por fim, como corolário da aventura, representou o nascimento de uma idéia de nação num país continental. O 21 de abril de 1960 é um instante fundador como foram o 7 de setembro de 1822 e o 15 de novembro de 1889.

Texto transcrito da Edição Especial  da Revista Veja “Brasília: 50 anos”

 

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O CENÁRIO INFINITO BANIU A MULTIDÃO

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

O CENÁRIO INFINITO BANIU A MULTIDÃO
Por Augusto Nunes
 
A cidade que nasceu sem habitantes e estava pronta quando foi fundada nunca viu a multidão por ter espaços demais. Brasília viu muita gente duas vezes: em agosto de 1976, na partida de Juscelino Kubitschek, e em junho de 1980, na chegada do papa João Paulo II, quando dezenas de milhares de brasileiros se juntaram num mesmo ponto do Plano Piloto. Mas muita gente só vira multidão quando se acotovela em lugares com limites definidos, faz o chão desaparecer e ameaça derramar-se pelas bordas das fotografias. Isso Brasília não sabe o que é. Nem saberá, por falta de cenário com fundo. Cenários infinitos engolem até multidões chinesas.

Se o corpo de JK fosse velado na Cinelândia, no Rio, por exemplo, uma multidão teria protagonizado o que hoje se chamaria de O Adeus dos Trezentos Mil. Recortado contras as imensidões do cerrado, o cortejo em Brasília não pareceu mais impressionante que qualquer comício estrelado pelo presidente morto numa cidade de tamanho médio. Se os que recepcionaram o papa na Praça dos Três Poderes fossem dar-lhe boas-vindas no Rio, a multidão transbordaria da Sapucaí e não caberia no Maracanã. Mas não existe nada em Brasília parecido com o templo dos deuses da bola ou com a passarela do samba.

A capital do  País do Futebol não tem campo nem time de futebol. (Os estádios onde jogam o Brasiliense e o Gama ficam fora do Plano Piloto.) E a capital do País do Carnaval não tem carnaval de rua. (As aparições anuais de alguns blocos apenas realçam a inexistência de escolas de samba.) O esporte preferido e a festa mais popular dão sinais de vida nas cidades-satélites, que não tem parentesco com Brasília. Nasceram juntas, mas não são gêmeas em nada. São extremos que, por se completarem, até agora tem convivido sem conflitos.

Esses aglomerados urbanos que Lucio Costa não planejou e Oscar Niemeyer não decorou com monumentos tão belos quanto inabitáveis contrastam pedagogicamente com o espanto futurista da metrópole que rodeiam. A contemplação do conjunto informa que Brasília não tem povo – como se referem os políticos à massa informe e anônima de viventes com pouquíssimas chances de algum dia perguntarem a alguém se sabe com quem está falando. Esses são vistos no Plano Piloto durante o dia. No começo da noite, terminada a jornada de trabalho, voltam para a babel periférica e dormem em casa. Vivem em ruas comuns, com nomes comuns e carências comuns. Nada a ver com a vizinha também cinquentona mas proibida de envelhecer. Brasília terá sempre a cara que tinha ao nascer. Chegou ao berço com tudo o que não há nos arredores. Só faltava gente morando lá.

Em 1970, a escritora Clarice Lispector impressionou-se com a supremacia da cidade sobre seus habitantes. “Brasília é tão artificial quanto devia ter sido o mundo quando foi criado”, escreveu numa crônica. Como acontece a onze em cada dez visitantes na primeira viagem, Clarice estranhou a troca de ruas e praças por superquadras, tesourinhas, eixinhos e eixos. Ficou insone com o silencio ensurdecedor, descobriu que a infinitude da paisagem torna a solidão mais aflitiva e, sobretudo, desconcertou-se por não encontrar alguém que reproduzisse a cara do lugar.

“Quando o mundo foi criado, foi preciso criar um homem especialmente para aquele mundo”, lembrou. “Nós todos somos deformados pela adaptação à liberdade de Deus. Não sabemos como seríamos se tivéssemos sido criados em primeiro lugar; e depois o mundo deformado às nossas cidades. Brasília ainda não tem o homem de Brasília”. Inaugurada dez anos antes, a cidade descrita por Clarice era a reprodução miniaturizada do mosaico brasileiro, formado por migrantes que tinham acabado de chegar.

Dez anos depois da fundação, os cearenses continuavam cearenses, os gaúchos continuavam gaúchos, todas as peças escancaravam na estampa e no sotaque o local de fabricação. A identidade não sofrera mudanças por falta de tempo e, sobretudo, de referencia:  como o brasiliense nasceu depois da cidade, os que chegaram não dispunham de um modelo a copiar. Quando a crônica foi publicada, a primeira geração de nativos nem atingira os 10 anos de idade. O homem de Brasília não existia. Pode ainda estar em gestação.

Talvez seja um quarentão de classe média, diplomou-se pela UnB, é funcionário público, combina ternos cinza ou azul-escuro com gravatas de desenho sóbrio, mora em apartamento, conhece meio mundo ma convive estreitamente com poucos.  Ao contrário dos deputados, dos senadores, dos ministros e do presidente da República, não viaja para longe da capital nos fins de semana. Freqüenta com assiduidade o clube de que é sócio, circula todo o tempo de carro e caminha bastante, mas nunca anda à toa. Sair por aí exige as ruas e as esquinas que não há. Porque não existem cruzamentos, os brasilienses se cruzam nos restaurantes e nos bares. Que nunca ficam na esquina. Que nunca fez falta ao Homo brasiliensis, juram todos os nativos do lugar.

Tampouco lhes fazem falta ruas e praças semelhantes às do resto do país. Basta  Praça dos Três Poderes e sua extraordinária polivalência, que lhe permite hospedar manifestantes que cobram por hora ou circos cuja única atração é a chance de zombar do Congresso. Não há casas com quintal antigo e numeração convencional nem outro sinal de parentesco arquitetônico com as demais cidades brasileiras. Os nascidos e criados em Brasília não vêem nada de errado nas singularidades e inovações com as quais convivem desde o berço. Da mesma forma que um inglês recém-chegado ao continente considera pura esquisitice trafegar pela mão direita, aos olhos dos brasilienses o que parece espantoso é a existência de ruas batizadas como se fossem pessoas, que mudam de identidade sem mudar de rumo. Não compreendem por que tantos brasileiros passam parte da vida imobilizados em congestionamentos de trânsito, embora isso também já ocorra na capital federal.

Forasteiros se perdem regularmente na selva de prédios indistintos, consoantes misteriosas e palavras que, em brasiliês, têm outro sentido. “Vou até a pequena zona de comércio de uma superquadra para comprar cigarro e na volta me perco numa floresta de edifícios absolutamente iguais uns aos outros”, escreveu o cronista Fernando Sabino, mineiro e ipanemense honorário. “Não hei de conseguir achar nunca mais o apartamento de meu amigo onde estou hospedado. SQS – 307 – Bloco F – apto 502, leio na minha caderneta.”

“Vó! Olha lá o Jornal Nacional!” No livro ainda inédito “Brasília e Eu – Uma Reportagem”, Maria Elisa Costa, filha de Lucio Costa, comprova a reciprocidade da estranheza com exemplos ligeiros e divertidos. Num deles, a neta de 3 anos que levou para conhecer Brasília descobriu que já tinha visto em algum lugar a paisagem formada pela Esplanada dos Ministérios, com o prédio do Congresso ao fundo: “Vó! Olha lá o Jornal Nacional!”, exclamou a carioquinha. Que não reconheceu no restante da incursão nada parecido com o que já viu. Em outro episódio, uma sobrinha de 8 anos hospedada no apartamento de cobertura em frente à Praia de Ipanema olhou do terraço para a Avenida Delfim Moreira e quis saber da tia: “Como é o nome desse eixo?”.

Outra menina ficou intrigada ao descobrir que as ruas do Rio têm nome e sobrenome. “Como é que a gente pode saber onde é que fica?”, perguntou a Maria Elisa. “Em Brasília a gente sabe.” A filha de Lucio Costa conta que as marcas de nascença que assustaram Fernando Sabino foram concebidas “para impedir que a nova capital, mesmo em seus primórdios, tivesse qualquer conotação de cidade do interior”. A imaginação do pai urbanista acabou tornando a criatura muito diferente também de qualquer capital. “As superquadras, com seus blocos de seis andares, os pilotis abertos, a entrada única para os carros, cercadas por uma faixa arborizada em todo o perímetro, introduziram um novo modo de convívio urbano”, diz Maria Elisa na abertura do capitulo “206-Sul”. Fernando Sabino chamaria um tradutor ao ler esse título. Qualquer brasiliense adivinha o que lerá.

Testemunha privilegiada da gestação apaixonante, a carioca Maria Elisa pertence a uma espécie rara: o anfíbio que se sente à vontade e feliz em ambas as cidades. A tribo parece à beira da extinção se confrontada com a composta de nativos que defendem Brasília apaixonadamente ou com a formada por forasteiros que perdem o humor e o eixo quando topam com o Eixo Monumental. Num Planalto Central ainda deserto e desprovido de âncoras naturais como o Corcovado ou o Pão de Açúcar, conta Maria Elisa, a arquiteta teve de inventar referências. Há a Praça dos Três Poderes, a Esplanada dos Ministérios, são dezenas os cartões-postais sinalizadores. Mas há sobretudo o Eixo Monumental, que está para Brasília como Viaduto do Chá está para São Paulo.

Seria temerário evocar o paralelo perto de inimigos juramentados da capital – o presidente Jânio Quadros, por exemplo. “Renunciei para ficar longe daquele lugar maldito”, exagerou na resposta ao neto Jânio John, também interessado em descobrir as razões reais da deserção. O instável presidente repetia que “Brasília não tem gente”. Sempre teve. Foi por causa de gente inimiga, aliás, que Jânio decidiu sair para voltar com poderes superlativos. O que não tem é multidão – e sem multidão à vista não havia Jânio. “Se eu ficar cinco minutos batendo lata no Viaduto do Chá, junto mais de 5 000 pessoas”, gabava-se o grande palanqueiro. Nunca  se arriscou a estrelar um comício em Brasília.

Jânio passou sete meses queixando-se da ausência de platéias que os políticos federais preferem ver pelas costas. A capital dos escândalos nunca viu um vigoroso protesto dos escandalizados. De terça a sexta-feira, tanto os delinqüentes da semana como os veteranos pecadores circulam sem perigo pelos mesmos restaurantes. Os parlamentares sabem mais do que dizem, os jornalistas sabem mais do que publicam, os brasilienses sabem mais do que comentam. Nelson Rodrigues achava que, se todos conhecessem a vida sexual de todos, ninguém cumprimentaria ninguém. Os que freqüentam a Praça dos Três  Poderes conhecem o que se passa nas alcovas alheias e o que se passa além delas. Todos  se cumprimentam. Os nativos rechaçam com veemência o codinome Ilha da Fantasia. O complemento talvez seja incorreto: os pais da pátria que andam fazendo coisas que parecem ficção sabem o que fazem, e sabem também que os homens de bem sabem disso. Mas a soma de coisas que só existem em Brasília confirma que o Plano Piloto é uma ilha, sim. Cercada de outro Brasil por todos os lados.

Texto transcrito da revista Veja, edição Especial “Brasília 50 anos”.

 

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A tenda de Cruls

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A tenda de Cruls
Por Ana Miranda

Estive lendo dia desses a parte do Relatório Cruls que fala da demarcação da futura capital, sem entender muito bem aqueles códigos e cálculos, mas tão parecidos com a cidade, com os versos do poeta, repletos de SWs, NWs, A.B.C.Ds, vértices, latitudes e longitudes, perímetros invisíveis, escalas, graus…Cruls tinha duas possíveis escolhas: traçar pelos acidentes geográficos, ou pelos astros. Pela terra ou pelo céu. Pela geografia, achou que uma linha tortuosa correndo por morros e rios seria muito demorada, tendo as turmas de cientistas de percorrer todo o perímetro da zona, metro por metro, relatando cada situação encontrada.

Marcar pelos astros, pelos arcos de meridiano e pelos arcos de paralelos, numa operação abstrata feito um sonho, foi a sua escolha. Era um homem inspirado, e trabalhava no Observatório, com um pé na terra e os olhos no infinito.

A demarcação celeste do distrito tomava por base um quadrado esferoidal, estremado apenas pelos quatro vértices, cujas linhas, que vejo tênues e prateadas, descem das estrelas e da lua, formando uma tenda de reflexos, linhas tiradas das diferenças de altitude entre a lua e uma estrela, das passagens da lua e de uma estrela, das ocultações de estrelas pela lua, das distâncias e culminações lunares. E lá se foram as turmas da Comissão, com seus sextantes e teodolitos, barômetros, aneróides, muito elegantes, de terno e botas e chapéu, a cavalo, procurando o ponto em que apeava o vértice, talvez olhando o céu, talvez tropeçando nas pedras ou caindo nos lagos. O que sentiam? Sabiam da grandeza de seu percurso e tarefa. Aproveitavam o quanto possível as estradas e caminhos, mas vencendo matos puros, desenhando todos os dias num papel milimétrico o caminhamento percorrido. Cachoeira de Itiquira a despenhar-se num único salto, Arraial de Mestre-d’Armas, rios Periripau, Tocantinzinho, Paranã, Lagoa Formosa, Aldeia Vendinha, Pirenópolis…

Chegando à posição determinada, desceram as cargas, soltaram os cavalos, armaram seus brancos acampamentos, montaram uma estação de observação e iniciaram os cálculos. Estabelecido o vértice, escavaram uma vala de um metro por um metro e pouco de profundidade, encheram-na de pedras até um metro de altura. No interior do ajuntamento de pedras inseriram um documento assinado pelos chefes e pelos membros das turmas, onde estavam escritas as coordenadas do vértice, metido dentro de um recipiente lacrado contra chuva, umidade, insetos curiosos, bichos roedores, contra e a favor do tempo em suas acepções, da geologia, de efemérides, das gerações. E sobre elas fizeram um revestimento de leivas, que são torrões de terra com capim, de modo que a vegetação em poucos dias cobrisse o morrinho. Daquele morrinho macio eles olhavam as serras, as colinas, os edifícios, rios, cabeceiras, e por uma triangulação com os acidentes naturais sabiam o ponto exato do vértice, seria sempre possível encontrá-lo. Lá estão esses morrinhos até hoje, depois de influir nas vidas de tanta gente que foi ser brasiliense, que mora numa delicada tenda desenhada por linhas imaginárias de um coliseu transparente.

Texto transcrito do Correio Braziliense, 31 de julho de 2011.

 

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Premonição cravada na terra

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Naqueles dias... Sem Comentários

Premonição cravada na terra
Por Conceição Freitas

Corre vagarosa, miúda e longamente entre os antigos moradores de Planaltina, Brazlândia e Sobradinho a crença de que encostado no Distrito Federal há ouro à espera de garimpo. Ouro de verdade, o minério dourado que enlouquece os homens. A lenda nasceu de um texto escrito por um bandeirante do século 18 em que ele descreve um mapa de uma mina aurífera nas proximidades de Planaltina de Goiás, a 80 km da Rodoviária.

Quem estuda a pré-história de Brasília e quem vive neste quadrante desde tempos remotos conhece o Roteiro do Urbano. Dos antigos aos novos historiadores, todos passaram os olhos por esse documento e se deixaram envolver pela possibilidade de que, em algum lugar entre chapadões, córregos e lagoas, exista a pedra resplandescente.

A lenda do ouro do Urbano é apenas a ponta curiosa de um longo fio que conduz a história de Brasília. A vinda de Juscelino Kubitschek e os demais para o sertão goiano, em 1956, é o trecho mais vistoso desse novelo e por isso mesmo obscurece narrativas de um tempo duzentas vezes maior que os 51 anos de Brasília. Registros de arte rupestre em Formosa e de artefatos feitos pelo homem em Taguatinga e no Parque Nacional de Brasília indicam que a capital do Brasil moderno é habitada há mais de dez mil anos. O brasiliense pré-histórico deixou cravadas na pedra e enterradas no chão as marcas de sua existência.

O território onde há meio século se ergue a capital do país vem sendo percorrido, visitado, estudado e tem sido habitado por grupos humanos diversos – índios, escravos, bandeirantes, sertanejos, desbravadores estrangeiros e brasileiros, tropeiros, roceiros, fazendeiros, mistura que resultou numa gente que o historiador Paulo Bertran chamou de “cerratense”.

Tanta diversidade histórica acabou soterrada pelo furacão modernista que aqui se instalou a partir de 1956, desde que Juscelino estufou o peito e decretou que “deste Planalto Central, desta solidão que em breve se transformará em cérebro das mais altas decisões nacionais…”. Estava decidida a versão predominante da história, a de que neste naco de Goiás havia tão-somente “solidão”.

Para dissolver o tufão e desvelar a história goiana aqui sedimentada ao longo dos séculos, pesquisadores de diversas áreas do conhecimento têm se dedicado a resgatar e reconstituir a ocupação do Planalto Central. Na Universidade de Brasília (UnB), historiadores, arquitetos e cartógrafos  vão  em busca de estradas do período colonial que cortavam o hoje DF ao norte; há mais de 30 anos, arqueólogos de Brasília e Goiânia furam o chão em busca de rastros da presença do brasiliense pré-histórico. O superintendente do Arquivo Público do Distrito Federal, Gustavo Chauvet, decidiu mudar o roteiro até agora estabelecido para a proteção da memória de Brasília. “Todos falam das idéias mudancistas, a idéia, a idéia…, mas há uma outra vertente, que é a história da ocupação do território. O que vamos fazer é integrar as duas histórias”, diz Chauvet. A história da idéia vem de fora; a da ocupação vem de dentro.

Autor de extenso estudo sobre a ocupação remota da região, Chauvet pôs na capa do livro o mapa que mostra a formação territorial do DF que, para surgir, tirou terras de Formosa, Planaltina e Luziânia. Outra imagem que registra fortemente a existência de um povo sertanejo habitando essas paragens é um mapa feito pela Comissão de Cooperação para a Mudança da Capital Federal, composta por goianos em febril campanha pela interiorização do poder. Assinado pelo engenheiro Joffre Mozart Parada, pelo jornalista Zoroastro Artiaga e pelo médico e pecuarista Altamiro de Moura Pacheco, o mapa mostra que havia 96 fazendas no DF – número que marca a origem de todo o caos fundiário do quadradinho.

“Vastíssimo vale”

Desde sua morte, em 2005, o historiador Paulo Bertran tem se transformado numa espécie de referência mítica de um modo de contar a história de Brasília – a partir da história goiana, da dos índios e dos cerratenses, da ocupação da terra desde muito antes de o avião de asfalto e concreto aterrissar num majestoso vale rodeado por um anel de chapadas. Majestoso, aliás, é o adjetivo que Auguste Glaziou, botânico e paisagista francês, integrante da Missão Cruls, usou para descrever o que viu quando aqui aportou: “…cheguei a um vastíssimo vale banhado pelos rios Torto, Gama, Vicente Pires, Riacho Fundo, Bananal e outros; impressionou-me profundamente a calma severa e majestosa desse vale”.

O botânico referia-se ao domo que acolhe todo o Plano Piloto, de uma asa a outra, da Praça dos Três Poderes aos fundos da antiga Rodoferroviária. Domo, no vocabulário geológico, é uma elevação do solo com a forma acentuada de uma meia esfera. No dizer do professor Antonio Carlos Carpinteiro, da arquitetura da UnB, o Plano Piloto está deitado “no estufado de uma bacia”. A imagem figurativa é a de uma vasilha de formato circular, oval, de bordas altas, tal qual o utensílio doméstico. Com uma diferença, porém. A bacia onde se estende o projeto de Lucio Costa tem o fundo proeminente, “como se alguém a tivesse chutado por baixo”, descreve Carpinteiro.

Quando acompanhou Cruls, em 1892, Auguste Glaziou estava com 60 anos e já havia projetado e reformado diversos jardins imponentes no Rio de Janeiro. Não se deixou desanimar diante da vastidão do Cerrado. Depois que a expedição montou barracas nas proximidades do hoje chamado Córrego Acampamento (dentro do Parque Nacional de Brasília), o francês saiu a campo: “…quase que diariamente percorri, herborizando cá e lá, ora uma parte, ora outra, desse calmo território e dessas excursões voltava sempre encantado; cem vezes as repeti, quase sempre a pé para facilidade das observações, em todos os sentidos e sem a menor fadiga, tão benéfica é aí a amenidade atmosférica”. Desses passeios, Glaziou concluiu que ali era o lugar perfeito para erguer uma cidade. “Nesse sítio, ainda, a extrema suavidade dos acidentes naturais do terreno não requer trabalho algum preparatório, nenhum para o arruamento ou delineação dos bulevares, nem para a edificação, numa ou noutra direção.”

A vasta planície mantinha-se esquecida. Todo o movimento entre Luziânia, Formosa e Planaltina, cidades preexistentes, fazia-se ao redor da área hoje ocupada pelo Plano Piloto. Sozinha, esperava por Brasília. Mais de 50 anos depois da passagem de Glaziou, técnicos norte-americanos da Donald J. Belcher & Associates aterrissaram, em 1954, no quadrilátero demarcado pela Missão Cruls para esmiuçar a geologia e a topografia da região onde, quem sabe um dia, seria construída a nova capital. Definiram cinco áreas para que fosse escolhida aquela que abrigaria Brasília.

A descrição do Sítio Castanho, o escolhido, supera de longe a descrição dos demais. “A fisiologia deste sitio, a 25 quilômetros a sudoeste de Planaltina, é inteiramente diferente da dos outros quatro…” – assim começa a descrição quase lírica dos técnicos americanos. “A extensa planície, de suave declividade para os rios limítrofes, presta-se ao desenvolvimento de uma grande cidade de qualquer tipo possível, sem a obrigação de interromper acidentes topográficos”.

E mais adiante, quase numa revelação premonitória: “Os vales em si poderiam ser desenvolvidos para edifícios públicos e a sede do governo”. A equipe de Belcher parecia torcer vivamente para que Brasília fosse construída no Sítio Castanho. Na descrição do Sítio Verde, há uma demonstração dessa suspeita: “Este sítio tem uma característica de grandeza somente compartilhada pelo Sítio Castanho”. Grandioso, majestoso – foram os adjetivos usados pela Missão Cruls e pelo Relatório Belcher, os dois documentos científicos mais importantes da pré-história de Brasília.

Não é majestático apenas por sua topografia estufada e em suave declive. Parece ter sido desenhado a dedo por um anjo da guarda de Lucio Costa. O sítio era demarcado por dois córregos, o Bananal e o Riacho Fundo, com a afluência do Vicente Pires, do Torto, do Vicente Pires, do Guará e dos demais fios de água que descem em direção a uma garganta borbulhante, a Cachoeira do Rio Paranoá. Se o chão onde existe o Plano Piloto parecia ter sido desenhado a dedo pela geologia para receber uma cidade, a leste do terreno havia uma depressão que, do mesmo modo, havia sido esculpida para receber um lago artificial, sem necessidade de nenhuma obra de engenharia, exceto uma barragem.

Assim percebeu o botânico francês, em suas andanças encantadas, em 1892, vale repetir: “Fechando essa brecha com uma obra de arte (…) forçosamente a água tornará ao seu lugar primitivo e formará um lago navegável em todos os sentidos, num comprimento de 20 a 25 quilômetros sobre uma largura de 16 a 18. Além da utilidade de navegação, a abundância de peixes, que não é de somenos importância, o cunho de aformoseamento que essas belas águas correntes havia de dar à nova capital despertariam certamente a admiração de todas as nações.”

O Plano Piloto era uma premonição cravada na Terra.
Texto transcrito do Correio Braziliense, 21 de maio de 2011.

 

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A SOLIDÃO DIVIDIDA EM BLOCOS

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A SOLIDÃO DIVIDIDA EM BLOCOS
Poucas cidades no país produziram uma juventude tão crítica e irônica em relação ao cotidiano – e isso é saudável
Por Sérgio de Sá
 
Há cinqüenta anos, a cidade artificial procura encontrar uma identidade que lhe seja natural. "Nós queremos ação! Acabar com o tédio de Brasília, essa jovem cidade morta! Agitar é a palavra do dia, da hora, do mês!", gritava Renato Russo, com todas as exclamações possíveis, no fim dos anos 70, quando era voz e baixo da banda punk Aborto Elétrico. Em meio à burocracia oficial, o rock ocupou o espaço urbano, os parques, as superquadras de Lúcio Costa, cresceu e apareceu. Foi a primeira manifestação cultural coletiva a dizer ao país que a cidade existia fora da Praça dos Três Poderes e que, além disso, estava viva.

Na década de 80, Legião Urbana, Capital Inicial, Plebe Rude, Detrito Federal e outros grupos, de nomes antes esquisitos e hoje nacionalmente sonoros, bagunçaram o coreto de um lugar exageradamente controlado, recém-desembarcado de uma ditadura militar próxima demais no tempo e no espaço. Depois de vinte anos de sufoco, no período pós-1964, e já com a chegada da anistia, Brasília respirou aliviada e seus filhos – poucos de sangue, muitos adotivos – puderam afirmar sem medo, mas com ironia e autocritica: "Somos os filhos da revolução, somos burgueses sem religião, somos o futuro da nação, Geração Coca-Cola", também nas palavras do onipresente Renato Russo.

O atormentado líder da Legião Urbana, nascido em 1960 como Brasília – mas na Velhacap, o Rio -, inventou outro mundo para animar a adolescência brasiliense. Transformou o cotidiano aborrecido em poesia. Algo diferente do que, no Rio de Janeiro, fizeram João Gilberto, Tom e Vinicius com a bossa nova, no fim dos anos 50, retrato musical do prazer de viver à beira-mar, trilha sonora do bem-estar.

O movimento candango, no grito e em acordes também dissonantes, resumiu a vontade que cerca a história da cultura na capital federal: apagar traços da ocupação militar, escapar da comodidade das repartições públicas, amenizar a pecha de lugar de corrupção e bandalheira, de endereços sem alma, formado por letras e números. Numa versão nunca gravada de Tédio (com um T Bem Grande pra Você), Renato Russo escreveu: "Tudo numerado é legal mas enche o saco".

"SQS ou SOS", eis a questão resumida pelo poeta Nicolas Behr, representante brasiliense da chamada turma do mimeógrafo, de bar em bar vendendo seus livrinhos. Se Leo e Bia, o casal criado por Oswaldo Montenegro em 1973, viviam no centro de um planalto vazio, "como se fosse em qualquer lugar", Eduardo e Mônica descobriram outro roteiro, menos etéreo, mais real. Como os personagens da música da Legião Urbana, a cidade se encontra no Parque da Cidade, anda de camelo, toma conhaque, faz magia e meditação. Esbarra, assim, num cotidiano aparentemente igual ao das outras cidades. Mas talvez apenas esbarre, porque a vida em Brasília é realmente diferente, inclassificável.

"Brasília não é um lugar qualquer", resume o ator Adriano Siri, da Cia. de Comédia Os Melhores do  Mundo, sucesso de bilheteria em todo o país. "Tem esse propósito inicial de abrigar poderes, autoridades, embaixadas, mas, ao mesmo tempo, traz algo nas características urbanas que nos diferencia. A cultura, naturalmente, deixou-se marcar por isso." Ele lembra que Brasília, como nenhuma outra cidade brasileira, concentrou gende vinda de todos os lugares e que uma tradição ainda está por se constituir – a cidade é jovem demais para contar uma história. "Em nossos espetáculos, conseguimos fazer humor com as realidades regionais sem forçar a barra", afirma Siri. Cinqüenta anos, em qualquer cronologia urbana é muito pouco tempo.

Caipirice. Não se pode dizer que Brasília, aos 50, seja apenas a cidade de Lucio Costa e Oscar Niemeyer. "Não podemos esquecer da tradição e da vida anterior ao concreto, do sertão e sua cultura", afirma o violeiro mineiro-brasiliense Roberto Corrêa. Brasília, portanto, alia a saudável caipirice de origem (não confundir com a breguice sertaneja que a cidade abarcou, em especial nos doze anos de governo Joaquim Roriz) ao cosmopolitismo que nasce do casamento do modernismo arquitetônico com uma população de alto poder aquisitivo, viajada.

Em Renato Russo: o Filho da Revolução (Agir), o jornalista Carlos Marcelo mostra como o líder da Legião Urbana e as turmas que gravitavam na esfera do rock foram os primeiros adolescentes a poder assumir sem medo a identidade da cidade em construção, com todas as suas inquietações e imperfeições. "Nas composições iniciais, no fim dos anos 70, Renato Russo utilizou a estética e sonoridade punk, que tinham acabado de surgir na Inglaterra e nos Estados Unidos, para amplificar o impacto das letras que escrevia sobre a situação política do Brasil e do que observava no cotidiano da capital", afirma Marcelo. "Essa mistura em iguais proporções de ingredientes cosmopolitas e nacionais é bem característica da juventude brasiliense daquela época."

Para o jornalista, a angústia resumida nas letras do roqueiro é a tradução das dores de parto e do crescimento da cidade. "Elas captaram a atmosfera daquele tempo, entre o fim do regime militar e a democratização, como se fossem polaroides", diz. Para Carlos Marcelo, "Renato foi o primeiro a cantar, com todas as letras, a angústia de morar numa cidade sufocada, de estar cheio de se sentir vazio", completa, numa referência a trecho da letra da canção Baader-Meinhof Blues, uma das tantas que misturavam estado de espirito com o desenho urbano.

O mundo, naqueles dias dos anos 70 e 80, andava mesmo complicado. Para levantar a poeira da inércia bem acomodada na tranquilidade planejada das superquadras, a arte do rock encontrou Brasília, ao mesmo tempo em que, inevitavelmente, estabelecia uma mirada estrábica: um olho nos pilotis e nos cobogós, outro nas informações que circulavam mundo afora. Com baixo, guitarra, bateria e um plugue na tomada de Londres ou Nova York, partiu para a ação debaixo dos blocos, como são chamados os edificios residenciais no Plano Piloto de Lucio Costa.

Dos gramados abertos brasilienses às salas esfumaçadas do Rio ou de São Paulo, foi um pulo, ou melhor, um mosh, como os punks definem o salto do músico aos braços da platéia, num movimento de euforia, mas arriscado. As bandas desembarcavam com um poderoso cartão de visita: "somos de Brasília", como quem dizia "somos de Manchester", o que significava som de qualidade, pulsante, novo – e muito barulho. O reconhecimento colou inclusive na geração posterior, a de Raimundos, Maskavo e Natiruts, já nos anos 90.

Faroeste caboclo. Brasília, descobriu-se, tinha carne e osso – e se tinha ambos é porque também tinha alma, embora quese sempre fosse melancólica. "A superquadra nada mais é/do que a solidão dividida em blocos", lugar em que "burocratas de verdade só fazem amor/em almofadas de carimbo", escreveu o poeta Behr. Outras vezes, além de triste, foi raivosa. Havia uma saída, e ela não era o aeroporto, como manda um chavão ainda hoje insistentemente repetido. "Meu Deus, mas que cidade linda!", gritavam e gritam os brasilienses em coro e com orgulho no verso de Faroeste Caboclo, a enorme e irônica narrativa da Legião, prestes a se transformar em filme. "E num ônibus entrou no Planalto Central/Ele ficou bestificado com a cidade/Saindo da rodoviária viu as luzes de Natal/ – Meu Deus, mas que cidade linda."

"Ainda não há um modus operandi para lidar com Brasília, mas ela sempre mostrou disposição de olhar para fora", diz o cineasta José Eduardo Belmonte, diretor de Se Nada Mais Der Certo, vencedor do Festival do Rio em 2008. "Esse diálogo existencial com o mundo é uma característica bem brasiliense." Paulista de nascimento, Belmonte passou a adolescência na capital federal. "Meu último filme foi eleito em São Paulo, mas é tão brasiliense quanto os outros. Capta um espaço abstrato, irreal, em que a cidade aparece de modo difuso, quase apenas um conceito."

Normalidade inexistente. Talvez seja a mesma Brasília da canção homônima dos Paralamas do Sucesso, trio que confunde sua origem entre o Rio e o Distrito Federal, porque Herbert Vianna e Bi Ribeiro começaram a tocar por lá. Na letra de Herbert, tudo é igual e estranho, mas os monumentos, os palácios, as avenidas, os eixos não são nomeados. "Quartos de hotel são iguais/Dias são iguais/Os aviões são iguais." A cidade, na canção, não existe. Na capital política, dar nomes é sempre um risco. Pode comprometer.

Entre o concreto e o abstrato, Brasília continua a buscar uma normalidade inexistente. Mas "ainda é cedo", diz o refrão de Renato Russo. Para a cinqüentona Brasília, paradoxalmente adolescente, há muito a aprender. Ela não tem os 444 anos do Rio de Janeiro, tampouco os 455 de São Paulo. A música urbana foi – e continua sendo – uma forma de fugir da frieza da cidade recém-nascida.

Há exatos 25 anos, quando a Legião Urbana lançou seu primeiro disco (Legião Urbana), ela também tornou nacionalmente visível a impossibilidade que o artista brasiliense tem de fugir da maquete, mesmo quando há ímpetos de destruí-la. No encarte do velho vinil, a cidade aparece nos traços do baterista Marcelo Bonfá. Os quatros integrantes da banda são como gigantes que deixam rastros para sempre marcados no solo seco do cerrado, no rabisco de Lucio Costa ocupado pelas obras de Niemeyer. Eram desenhos aparentemente ingênuos, mas ajudavam a mostrar o que a juventude brasiliense pensava de si mesmo, e sua relação com o traçado urbano. Brasília ainda não sabia o que era e talvez ainda não saiba – mas é certo que já produziu uma cultura só dela, saudavelmente critica e nada indulgente.
 
Sérgio de Sá , jornalista e professor da Universidade Católica de Brasília, é neto de Bernardo Sayão, pioneiro de Brasília.
Texto transcrito da Revista Veja (2138), Edição Especial "Brasília 50 anos", novembro de 2009.

 

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