Cassiano Ricardo

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Cassiano Ricardo, em “Toada pra se ir a Brasília”, adverte sobre os “malefícios” do sol marinho, e promete: “Vou-me embora pra Brasília,/sol nascido em chão agreste”. Razões de sobejo encontrava para tão firme decisão, não são poucas as que vai enumerando em cada estrofe, em cada verso. Começa por afiançar que “a esperança mora a oeste”, que aqui reencontraria a infância, o avô (Anhangüera), nesta terra nunca haveria saudade (por inexistirem aqui as ruas vetustas e sinuosas, os quintais povoados de folguedos), etc. É sabido que o poeta ficou nos nobres propósitos, Brasília por ele aguardou inutilmente, mas ele ao menos contribuiu em favor da boa imagem da cidade nascente, em um tempo em que muitas a tinham como impossível, inviável, absurda, e nada mais que fruto de insanos projetos faraônicos. “Toada pra se ir a Brasília” é, provavelmente, o mais divulgado de todos os poemas brasilienses. Familiares de C.R. aludem ao seu grande apreço por esse poema, que ele deixou como “legado” aos descendentes.

Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira

 

Continue lendo

Cassiano Nunes

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Cassiano Nunes informa, tomado por mal encoberta nostalgia: “Sou de Santos”. E discorre sobre a população (a local e a flutuante) do cais nervoso, a ecoar passos e mais passos, envolto em burburinhos: “…marinheiros,/estrangeiros,/aventureiros”. Ele é de Santos, sim, nasceu embalado pelas vagas litorâneas, “como Ribeiro Couto”, e correu mundo. Na maturidade, a vida o transporta, por fim, à multissecular quietude do Planalto Central. Mas não se perde, nem regressa. Os “terrenos baldios” da Asa Sul tomam o lugar da amplidão do oceano, e “os guindastes das construções” comparecem como sucedâneos daqueles que, com odor de sal e maresia, ficaram junto ao cais de sua terra. O decano (depois de José Godoy Garcia, de 1918) que se tornou, dentre os veteranos, o mais popular dos poetas brasilienses, não é, porém, apenas de Santos… Sua “Ode a Oscar Niemeyer” enfoca “A arquitetura extraordinária” do “gênio inconteste,/com os seus mestres renascentistas”. E daí salta para o franco e inocultável engajamento, inusitado em sua lira habitualmente em sintonia com o amor, por vezes incomodo, constrangido, constrangedor, maldito, mas sempre expresso em boa poesia, sempre amor, queiramos ou não queiramos. (O poeta está presente em Poemas do amor maldito, de Ayala e Damata.) Cassiano, então participante, ergue a voz com exaltação e eloqüência contra os “(…) mitos/(…) da propaganda e da droga, (…)” e se solidariza com “(…) os nossos patrícios/desamparados (…)”
 
Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

Continue lendo

Carlos Drummond de Andrade

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Carlos Drummond de Andrade. Como Cassiano Ricardo (“Toada pra se ir a Brasília”), que ficou nas nobres intenções, o itabirano “anuncia”: “Vou no rumo de Brasília,/não é aqui meu lugar./A liberdade, no exílio,/já começa a definhar”. É um mundo paradisíaco que C.D.A. espera encontrar, sem portarias ministeriais (?), censura, imposto do consumo; talvez a superação de Pasárgada, conquanto tivesse ele idéias e possivelmente ideologia frontalmente antagônicas às do rei… Estaria (maravilha de mundo!) em companhia de queridíssimas figuras, fraternais amigos como “Cyro (dos Anjos), (…), Gilberto Amado,/Aníbal (Machado), mago sutil, (…)” O segundo poema aqui inserido já constata que nem tudo é mar de rosas. Denuncia o agudo contraste entre a metrópole das autoridades e servidores públicos e a Cidade Satélite dos candangos, confrontando “A suntuosa Brasília” e “a esquálida Ceilândia”. O autor de Sentimento do mundo indaga-se, inconformado: “Por que Ceilândia fere/o majestoso orgulho da flórea Capital?/Por que Brasília resplandece/ante a pobreza exposta dos casebres/da Ceilândia (…)?” A utopia de Niemeyer com o sonho de uma sociedade igualitária convertia-se em cinzas, perdurando a dura realidade de um mundo de muitas injustiças.

Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da Antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

Continue lendo

Branca Bakaj

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Branca Bakaj remonta à “infância” longínqua, anterior à construção, quando a terra hoje metrópole pedia “para ser conquistada”. Depois dos bandeirantes, com seu espírito obcecado por ouro e pelas pedras preciosas (“…sonho de esmeralda”), chegam as máquinas. Conquistam a Terra Prometida, não a Canaã bíblica, mas a que dormia o sono profundo ao sul do Ocidente. E “…de seu ventre vermelho jorrou o leite”: a urbe moderna, a revolucionária arquitetura, os traços a fluir de mãos geniais, a consolidação da nova “marcha para o Oeste”, bem diversa daquela que navegou em sangue e estremeceu, aos brados e armas dos cowboys. Ao encontro das “…sedentas árvores, retorcidas, do cerrado comparece o pioneiro, impulsionado e retemperado na “…forte força de dar vida”. Mas o cordial e o romântico prevalecem. Tomam, por fim, o lugar do rude e áspero. E o fecho (e o ápice) do cenário (e do poema) é: “Brasília: sonho-realidade./Brasília: canto de amor”. Em seu mais recente poema – “Meninos, eu vi” -, especialmente escrito para esta antologia, Branca Bakaj traz para a poesia o enfoque do memorialista, dos cronistas (Joel Silveira e Jota Efegê, p. ex.) a recordar os seus dias de pioneira. “Vi alvoradas belíssimas (…)”, conta a mestra e servidora pública, que também foi testemunha de fatos espantosos, quando a convulsão social erguia a veemência de seus protestos. E mais: “Muita solidão eu vivi”, conta-nos a carioca que chegou para habitar praticamente entre canteiros-de-obras: “Meu marido trabalhando no edifício/do Congresso,/Dia e noite, noite e dia. (…)”. Aí a força, neste poema-crônica, do relato de uma privilegiada (e sofrida) testemunha ocular.

Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

Continue lendo

Bernardo Guimarães

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Bernardo Guimarães (com “O ermo”) foi provavelmente o primeiro poeta a cantar as plagas desérticas onde “murmuraria a voz de um povo”. Ele aqui viveu, por duas vezes, como Juiz Municipal e de Órfãos, em Catalão, GO, e pôde sentir a pujança da região central do País, onde um dia haveria de estar a sede administrativa da União, sonho que já havia nascido nos corações e mentes dos poetas Tomás Antonio Gonzaga, Ignácio José de Alvarenga Peixoto e Cláudio Manuel da Costa. A musa o conduziria (ou o acompanharia ou o convocaria…) “Ao ermo, (…) além daqueles montes,/Que, em vaporoso manto rebuçados,/Avultam lá na extrema do horizonte…”/ “(…) lá onde a natureza/Bela e virgem se mostra aos olhos do homem,/Qual moça indiana (…)”. O autor de Cantos da solidão é enfático: “Lá onde a solidão ante nós surge,/Majestosa e solene como um templo, (…)”.

Ele tem copiosos encômios ao ermo – virgem, áspero, promissor. A musa ama o deserto e as caladas sombras do mistério. E para que no amor persevere, ante a aspereza e o peso do trágico, o poeta a estimula e conforta: “Mas não te queixes, musa; – são decretos/Da eterna providencia irrevogáveis!/Deixa passar destruição e morte/Nessas risonhas e fecunda plagas”. (Em nota a ‘Poesias completas’ de Bernardo Guimarães, p. 468, Alphonsus de Guimaraens Filho registra: “(…) Observe-se o novo rumo que, a partir desta IV parte, Bernardo Guimarães imprime ao poema e à visão, que tem o Poeta, das cidades nascendo e se multiplicando, da civilização despontando nas regiões desérticas do Brasil. Silvio Romero se refere a esse fato. O poeta, depois de prantear ‘o desaparecimento dos primitivos íncolas, a destruição das matas, a mudança operada pelos colonos’, em suma ‘à morte de tantas cenas naturais’, ‘de repente muda a linguagem’. E, depois de citar novos versos de ‘O ermo’: ‘Neste gosto prossegue o Poeta’, diz Silvio Romero, concluindo que ‘assim expressava em 1849 ou 50 nesta peça, uma das mais antigas de sua lavra’ (História da literatura brasileira, 3ª. ed., Livraria Olympio, 1943, 3º tomo, p. 301)”.

A mensagem é enfática e indubitavelmente profética: “Linda cidade surja, branquejando/Como um bando de garças na planície;/E em lugar desse brando rumorejo/Aí murmurará a voz de um povo”.

Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

Continue lendo

Augusto Estellita Lins

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Augusto Estellita Lins, em “Cântico para uma cidade-moça”, confronta Brasília e o mundo, o mundo que se fez vetusto e frontalmente destoa do espírito verde, arejado, saudável daquela que a ternura do poeta rotula de “…minha pequena…”. Traz-lhe à presença, logo no inicio da estrofe primeira, as metrópoles há milênios bafejadas por aziagos ventos. “Porque as grandes cidades, Senhor – disse Rilke -/são malditas”. Lembra-nos o autor as Elegias de Duíno, em que (na “Décima elegia”, 1º verso da 2ª. estrofe), de certo modo reitera certa dose de rejeição, quando vê as “Estranhas ruas da Cidade-Aflição”. A catedral do geboso que Victor Hugo celebrizou, Babel, Jericó e seu muros derribados pelas trombetas do general-profeta Josué, tudo é apresentado para enfatizar a face e a alma de Brasília, “cidade-moça”, imune ao sufocante peso da História e “ingênua/pura/casta/virgem”.

No poema que vem a seguir, temos a “Brasliatown”, “Brasilville”, “Brazilia City”, contemporânea da glória de idiomas de hoje. Os últimos versos de Augusto Estellita Lins tem o título de “Sonata no 5 Brasília descoberta”. Neles “figuram codificações pós-renascentistas, como a alternação de ritmos lentos-rápidos nos movimentos. As variações sobre o mesmo tema e as repetições de alguns versos em distintos contextos, como as dos que provêem da Divina Comédia, contribuem para acentuar a tonalidade barroca e épica. Os quatro movimentos conduzem a uma sucessão de temas da criação, construção, denegação e o renascimento da cidade que ocorreu depois do governo militar (na imagem do tropel das mulas-sem-cabeça) e da morte de Juscelino. O poema todo obedece à dualidade mito-realidade, paralela à dupla criação por um estupro virtual cometido por Juscelino contra Pindorama, que seria o propótipo brasileiro da deusa Géa, a Terra que era preciso violentar para nela plantar a metrópole Brasília”.

Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da Antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

Continue lendo

Astrid Cabral

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Astrid Cabral, em “Postal de Brasília”, apresenta-nos um instantâneo da cidade arborizada, favorecida pelas chuvas. “Áureos tempos” são os da incipiente cidade dos candangos com suas excitantes novidades para os que chegavam com o propósito de erguer edifícios ou atender à burocracia federal. Tudo era descoberta, até as garirobas do cerrado, “(…) vestidas de orvalho”. Havia capim e carrapichos, insetos e aves. As crianças cresceram e por isso “anãs ficaram as árvores aos pés/de edifícios colossais. Só perdurou a fome das frutas/no vão sem remissão das bocas”. Luziânia é revisitada, e os olhos de poeta surpreendem-se, porque agora não há mais a quase vila soterrada no tempo, no “chão batido”, nos lamaçais, nos “velhos becos de poças e estrume”, quase a ecoar ainda os passos dos bandeirantes. O tom é de forte saudade. “A igreja (…) fraturou a paisagem da memória”. Permanecem, com resquícios do outrora, “as caixetas de marmelada/de remanescente quilombo”. Quase tudo se foi. “A sorte é que ainda me lembro,/ainda me lembro de como era antes”.

Transcrito “Esses poetas, esses poemas”, antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

Continue lendo

Aricy Curvello

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Aricy Curvello teria contemplado a urbe embrionária? Não nos consta haja nela permanecido, nem mesmo que tenha assistido a lances da marcha para o Oeste. Contudo, muito viajado que é (“percorri a Amazônia” – escreve-nos – “e vivi no extremo-norte do Pará. Viajei e padeci em vários idiomas…”), não se pode descartar essa hipótese. Seu poema “Brasília” tem o sabor de arrebatada canção de amor: “não,/não poderias cidade ser igual/às outras…”. Rememora a ação dos detratores, dos passionais inimigos do plano de transferência da Capital, acariciando-a com palavras assim: “era preciso/que viesses”. E continua em sua exaltação à cidade: “2/3 do mapa eram/desalentadores vazios demográficos” e cumpria “que te erguesses no centro da/noitidão de uma república deserta”, e “desde o principio cumpria que rompesses/com o tempo passado e as coisas presentes”. O poema se desenvolve por inteiro neste mesmo tom de glorificação da “Brasília dos brasileiros”.
 
Transcrito de “Esses poetas, esses poemas”, da antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

Continue lendo

Anderson Braga Horta

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Anderson Braga Horta, que à nova Capital veio ter em 1960, com algumas láureas obtidas em importantes concursos e outros tantos originais de livros na gaveta, escreveu a grande epopéia em que os heróis são os anônimos e sofridos candangos. Sua permanente preocupação de sentido humanista – presente em obras que levou ao prelo, e isto só veio a ocorrer a partir de 1971! – fez com que desviasse o olhar da lua, dos espaços envolventes, do céu amplo e puro, elementos tentadores como tema e sobre os quais se debruçaram, em sua maioria, os “brasilienses”.

Ele registrou a pugna dramática entre os braços adventícios e a rudeza brutal do cerrado. Como em imenso tabuleiro de xadrez, as peças se antepõem, avançam ou retrocedem, triunfam ou capitulam. Enquanto um dos poetas anteriormente aqui apresentados vê o ontem remoto, das priscas eras, com olhar de místico ou filósofo, Anderson Braga Horta diz, seca e frontalmente: “Antes do começo,/era o sertão, só e ríspido”. E, em vez de ir às fontes de lirismo e encantamento, decide, em tom quase de anátema, estigmatizar os autores do frio atropelamento dos peões, da morte das legiões dos sem-nome, porque apenas alguns se enraizaram e permaneceram (ilesos, intangíveis, tranqüilos): os reis, os bispos, as torres da retaguarda sem vicissitudes e sem riscos. (Mas, enfim, suspira o poeta: “É a lei/do xadrez”.) Conclui, porém, com declarado e peremptório otimismo quanto ao amanhã: “De tuas impurezas,/de tuas asperezas,/rosa queremos-te exata./No altiplano de nossas esperanças,/rosa-dos-homens/construímos-te futura”. “Altiplano” obteve, em 1964, o Prêmio Nacional de Poesia instituído pela Universidade de Cultura Popular, de Gilson Amado, e, com aquele e outros poemas, no mesmo ano, recebeu o “Prêmio Olavo Bilac”, da Secretaria da Educação da Guanabara. ABH, “…depois de considerável vivência e, dada esta circunstância”, ofereceu-nos o maior poema de exaltação à cidade nova. É que pôde integrar-se em seu espírito, beber poeticamente não apenas o áspero encanto planaltino, mas todos os seus contrastes e estonteantes singularidades. Deixou-se embeber pela sua magia…”, o que por nós foi observado e consta do ensaio “Altiplano, epopéia brasiliense”, publicado no Correio Braziliense de 20.3.65, e, com breves alterações, rebatizado de “Epopéia no altiplano”, em “O Popular” (21.5.72), de Goiânia. O segundo poema de ABH, “Planalto”, recorda o palco onde algas, de outras eras geológicas, coabitam com pássaros de hoje, sob a navegação do Homem. Em “Passarim”, o poeta revela a emoção que lhe traz um passarinho na cidade nova, fazendo-o emergir da condição de “refratário ao pranto”, da suposta secura de sentimentos. A ave comove-o: “me trazes a carícia”. Em seu mais recente poema brasiliense (o título traz a idade da capital, no ano em que mais uma vez a exalta), inspira-se em trabalhos de vários autores, cujos nomes menciona, como também rememora personalidades intimamente ligadas à história de Brasília, como Juscelino Kubitschek de Oliveira, Bernardo Sayão, Lúcio Costa, Oscar Niemeyer e Israel Pinheiro.   

Transcrito do capítulo “Esses poetas, esses poemas”, da Antologia “Poemas para Brasília”, de Joanyr de Oliveira.

 

Continue lendo

Alphonsus de Guimaraens Filho

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Com José Alcides Pinto e Stella Leonardos (um e outra escreveram todo um livro sob o tema – Nascimento de Brasília: a saga do Planalto, 1987, e Saga do Planalto, 2002), A.G.F. está entre os autores que mais compuseram poemas inspirados pela Nova Capital (seus idealizadores e pioneiros, sua geografia e sua arquitetura, seus dramas, sua epopéia). Dos meus poemas brasilienses selecionados para esta antologia, começamos aqui com “Meu Tio Bernardo”. Bernardo, em meados do século XIX, já respira os ares planaltinos, e os canta, emocionado, em “O ermo”. É provavelmente o primeiro a compor versos voltados para a região que aguardava a capital federal. Como magistrado, viveu em Catalão, GO, por duas vezes. No poema “Para o Oeste seguimos” consigna Alphonsus de Guimaraens Filho que isto foi “(…) desde sempre, no vau/dos rios sonolentos,/dos córregos que guardam/o silêncio dos pássaros”. Em “Ao Oeste chegamos (segunda parte, seguida de “Transeuntes”, de Novos poemas (Brasília, Dom Bosco, 1968), ele reuniu 32 trabalhos sobre o Oeste anterior à epopéia, essa de que veio a ser partícipe, inspirados também pelos “Ipês/nas várzeas”, buritis, “paragens de cem anos” cruzadas pelo Tio Bernardo, leis em que se antevia a materialização do sonho, o Aeroporto, o Catetinho de Juscelino, a cidade “clara e exata” nascida das mãos de Lúcio Costa, o antigo profeta, o estuário de homens de todos os quadrantes, tratores sob estrelas, o sóbrio e tranqüilo Niemeyer, as mãos em apelo da Catedral, Bernardo Sayão, o Campo da Esperança, candangos… Como um enamorado, nenhum pormenor lhe escapou, todos os adornos, todos os meneios, todos os aromas, gestos, murmúrios foram por ele colhidos, com enlevo e… grande esmero. Há, ainda, sua lua – plena e flutuante no imperturbável roteiro de muitas e muitas noites… Chegou a incorporá-la ao patrimônio da cidade, com os pentassílabos de “Lua de Brasília”… Essa abrangência constitui o traço diferencial mais marcante da poesia brasiliense de Alphonsus de Guimaraens Filho.

Reproduzido da antologia “Poemas para Brasília – Esses poetas, esses poemas”, de Joanyr de Oliveira.

 


Continue lendo

Afonso Felix de Sousa

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Afonso Felix de Sousa, em “Toada de um morador de Brasília”, retrata-a em todos os seus ângulos – a começar pela “cruz no chão”, que é o Plano Piloto. O poeta das plácidas terras goianas, mas recém-vindo do Rio, expõe sua total surpresa e a grande perplexidade com que recolhe os ângulos da cidade virgem e simétrica, as retas que “nascem das réguas”, a “cruz avião”, as “pilastras” e as rosas a desabrochar em cimento e concreto sobre o amplo deserto. E, aquém desses elementos tocados por mãos calosas, por fundas magias, por mistérios, o poeta nascido nos “goiazes”, ante a cidade embrionária retoma o fio da lenda, e recorda “a história do lago que ficou seco”, história esmaecida pelo sopro de ventos multisseculares, porquanto “É do tempo em que os índios/viviam por esses ermos”. É longo o poema: 158 versos. E se destaca como um dos mais belos e densos que Brasília já inspirou. Mais recentemente, A.F.S. havia composto “Volta ao lar em Brasília”, dedicando-o a um casal pioneiro (engenheiro José Francisco del Peloso e sua mulher, a professora e escritora Lina). Nele, o filho (adotivo, embora) amoroso e nostálgico rememora: “Ébrio de céus e nuvens, vi num amanhecer esses horizontes/multimilionários. Armei a tenda e entrei. Aqui/cumprir-se-ia por certo, meu sonho atávico de/prometido Eldorado”. Certa feita, reconhece o poeta, “(…) com ânimo de um foragido, parti. E eu era/como uma dessas aves de arribação (…)”. Mas finalmente anuncia: “Agora, feito em guerreiro sem apetite de conquista e glória,/estou de volta”. É o pássaro que retorna ao ninho, nas alturas do Planalto.

Continue lendo

Affonso Romano de Sant’Anna

Escrito por Brasília Poética em . Postado em Decifrando Brasília Sem Comentários

Affonso Romano de Sant’Anna, em uma série de peças, traça o “itinerário” da cidade, depois de, sob inocultável inspiração bíblica, retratar (em “A Gênese) o verde dos primórdios, que “No princípio era…” pleno, total, absoluto, a imperar sobre “uma amplidão de esperas”. “A Cruz lá em cima” (o Cruzeiro) incrustou-se no altiplano desértico, e aconteceu o milagre! Mas os eventos não brotaram gratuitos e pacíficos, houve “dúvidas no esquadro”, os “giros do espaço eram agonia”, “a lâmina afiada sobre o mapa” desceu patética, estonteante, sobre talhos e atalhos. E assim foi. E assim os acontecimentos se desenrolaram até que os braços domaram o agreste, as plantas-lâmpadas nos extintos caminhos das serpentes, sob o eco em surdina dos maracás dos índios diluídos pelas noites. Vem depois, na série referida, a “Planta da Cidade”, com a “Praça dos Três Poderes” e o peso da História sobre sua cúpula e seu obelisco, e aquela que livre se denominou – sob a febre dos pioneiros – a servir-se, assim, de um adjetivo pretensioso e impróprio, porque “…nenhum homem,/nenhuma língua,/ nenhuma cidade/é livre”.

Continue lendo


Leia também:

A passagem de Tom Jobim e Vinícius de Moraes pelo Catetinho

O texto de Antônio Carlos Jobim Setembro, sertão no estio. Frio seco. Altitude aproximada: 1.200 metros. Ar transparente, céu azul profundo, primavera e pássaros se namorando. Campos gerais, chapadões dos gerais. Cerrado e estirões de mata à beira dos rios.…

Alvorada de Espelhos

Alvorada de Espelhos Por Clemente Luz O imenso louva-a-deus traçado no papel, antes promessa da presença da cidade, já tem forma e base sólida no chão do planalto. No local mesmo onde a visão do profeta viu “que se formava…

Bernardo Sayão

Da morte emerges, Bernardo Sayão, e com que pureza! Assim te revemos, os que nunca te vimos, e não há em nós nenhuma surpresa. Assim te revemos, sertanejo tranqüilo, no retrato que te faz surgir num descampado, o olhar firme, …